Boitempo indica leituras para o fim de ano!

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Reconhece os 20 autores que entraram nesse cartaz comemorativo, feito pelo cartunista Vitor Teixeira?

Dois mil e crise… que ano! Ano em que a Boitempo completou 20 anos de história. Preparamos aqui uma série de indicações de livros para ler ou presentear os queridos, neste final de ano. Confira abaixo sugestões de nossos autores, colaboradores e equipe:

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Christian Dunker badiouRecomendo como leitura inspiradora de férias o clássico contemporâneo, agudo e ademais agilíssimo São Paulo: a fundação do universalismo de Alain Badiou. Em tempos de particularismo e de condomínios por toda parte o que nos falta é um novo universalismo. Um universalismo fraturado, dividido e não-todo, onde não existam nem homens nem mulheres, nem gregos nem romanos, nem cristãos nem judeus. O texto de Badiou é um pequeno antítodo de bolso, que nos ensina que no começo está o ato, no meio está o amor e no final estão desejo. Nas palavras do autor:

“A dissolução, no universal, da identidade do sujeito universalizante, máxima de Paulo, faz que o Mesmo seja o que se conquista, inclusive, quando necessário, alterando nossa própria alteridade. Essa lógica subjetiva leva, para o sujeito, a uma indiferença pelas nominações seculares, àquilo que atribui predicados e valores hierárquicos aos subconjuntos particulares. A esperança é a maior dessas nominações. A epístola aos filipenses (Fl. 2. 9) fala do Cristo como “nome que está acima de qualquer nome”. São sempre a esses nomes, mais do que aos nomes fechados das línguas particulares e das entidades fechadas, que o sujeito de uma verdade aspira. Todos os nomes verídicos estão “acima de qualquer nome”.”
(BADIOU, Alain. São Paulo: a fundação do universalismo, p.128)

– Christian Ingo Lenz Dunker,
autor de
Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015).

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dica leitura Mauro iasiMinha indicação para este final de ano é A Estrada, de Jack London, com tradução de meu querido colega Luiz Bernardo Pericás e publicado pela Boitempo. Jack London é um escritor visceral, que narra sua própria aventura como a aventura de nossa classe, dos andares de baixo da sociedade, da luta pela vida. Neste livro narra sua aventura ao largar tudo e se lançar na vida, fugindo do trabalho, encontrando seus camaradas deserdados, a opressão, a violência, a cadeia, mas também a solidariedade que nos une.

– Mauro Iasi,
autor de O dilema de Hamlet e colunista do Blog da Boitempo

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pericásMinha sugestão de leitura de fim de ano é O velho Graça, de Dênis de Moraes. Esta bela biografia de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores brasileiros do século XX, é escrita com leveza, fluidez e sofisticação. A reedição da Boitempo (revista e ampliada), lançada em 2012, mantém a estrutura original mas inclui alguns acréscimos no texto, ilustrações, fotos inéditas e ainda uma entrevista concedida pelo autor de Vidas secas ao jornalista Newton Rodrigues. A orelha é assinada por Alfredo Bosi e o prefácio, por Carlos Nelson Coutinho. A trajetória pessoal, política e literária de Graciliano Ramos é apresentada com rigor, profundidade e emoção. A narrativa de Dênis de Moraes prende o leitor da primeira à última linha. E certamente nos estimula a ler de novo as obras do nosso grande romancista. Por isso, recomendo com ênfase este livro.

– Luiz Bernardo Pericás,
autor de Caio Prado Jr.: uma biografia política (Boitempo, 2016) e colunista do Blog da Boitempo.

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emir saderMinha indicação para este final de ano é A luta de classes: uma história política e filosófica, do historiador italiano Domenico Losurdo, lançado este ano pela Boitempo. É uma daquelas leituras que realmente nos fazem pensar. Um texto de como deve ser o marxismo, mas raramente o é: análise concreta das categorias com todas suas determinações históricas contemporâneas. Vale a pena.

– Emir Sader,
autor de Estado e política em Marx (Boitempo, 2014) e colunista do Blog da Boitempo.

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LEITURAS PERIGOSAS

Daniela Lima Indicações

– Que livros eram?
– Não reparei muito… Filosofia, política e romances. Queimamos até virarem cinzas.

[* Diálogo extraído do filme Fahrenheit 451 (1966), dirigido por François Truffaut.]

As sociedades distópicas descritas na ficção científica da década de 1950 guardam muitos pontos de contato com aquilo que vivemos hoje. Ninguém precisa esconder livros no fundo falso de uma televisão para não ser preso. Não somos ameaçados pelas pesadas botas de bombeiros que invadem casas para queimar livros. No entanto, algumas leituras ainda são consideradas subversivas. E são justamente esses livros perigosos (talvez, pela sua potência transformadora) que recomendo como leitura de fim de ano.

Em outubro desse ano, um poema de Brecht escrito em 1935 escandalizou a extrema direita. Trata-se de “Perguntas a um homem bom” traduzido por Slavoj Žižek para seu livro Violência: seis reflexões laterais (Boitempo, 2014). No livro, Žižek aponta a contradição de um sistema cuja paz depende da extrema violência contra grupos oprimidos. É o que ele chama de “coincidência dos contrários”: a violência social mais brutal é lida como o seu contrário, ou seja, a não violência. Quase 59 depois de sua morte, os poemas de Brecht continuam com o mesmo potencial revolucionário – seja para inspirar Žižek ou para escandalizar a direita.

Ainda em outubro, a biblioteca da USP retirou de sua base o prólogo do livro Mulher, Estado e revolução, de Wendy Goldman (Boitempo, 2014). A justificativa dada é que a “autora do prólogo era uma trabalhadora de nível básico da própria universidade”. A atitude extremamente violenta levantou um debate sobre a importância do reconhecimento da produção intelectual de mulheres trabalhadoras. Em consequência dessa mobilização, “Amor e revolução”, de Diana Assunção, voltou ao cadastro de produção intelectual da biblioteca da universidade.

Durante o ano inteiro, surgiram manifestações de extrema direita que pretendiam defender a democracia com a volta da ditadura. O paradoxo perverso também se repetiu em algumas medidas do Congresso, que determinaram certo fechamento da democracia com o objetivo de protegê-la – resta saber de quem: da sua própria expansão? Contra este cenário sombrio, sugiro O ódio à democracia (Boitempo, 2014), de Rancière. Um pequeno livrinho de autodefesa intelectual contra o fascismo cotidiano.

Por fim, num cenário de ascensão do feminismo no Brasil e de tentativas de cooptação (e de esvaziamento do potencial político) do movimento pelo capitalismo, me parece urgente a leitura de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2015), de Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel. Destaco uma frase do prefácio do livro: “cada vez mais, em vez da incorporação das mulheres à ordem existente, torna-se clara a necessidade de uma transformação profunda nessa ordem”.

Que 2016 seja um ano em que ainda consigamos sonhar perigosamente!

– Daniela Lima,
colunista do Blog da Boitempo.

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mouzarComprei há mais de um mês, mas só pude ler na semana passada, o livro Hereges, de Leonardo Padura.

Já havia lido outro livro dele, O homem que amava os cachorros, que me revelou muita coisa que não conhecia da história de Ramón Mercader, assassino de Leon Trotski.

Hereges é um romance com base histórica e também tem muitas revelações. Acredito que exigiu um trabalho de pesquisa enorme. Começa em Havana, há menos de dez anos, mas com lembranças dos tempos que antecederam a Segunda Guerra, de um navio cheio de judeus que fugiam do nazismo. Não puderam desembarcar em Cuba, não puderam desembarcar nos Estados Unidos e não puderam desembarcar no Canadá! Interesses mesquinhos e insensibilidade dos governos desses países foram responsáveis por isso. Voltaram para a Europa e muitos acabaram vitimados pelos seguidores de Hitler.

Não vou contar mais sobre o enredo, só que lendo Hereges aprendi muito sobre a trajetória dos judeus na Europa depois da expulsão da Península Ibérica e da Inglaterra, suas divisões, fundamentalismo bobo às vezes, algumas histórias comoventes. Aprendi também sobre a juventude de Rembrandt em Amsterdã.

Sobre os dias atuais (quer dizer, de 2007 e 2008, quando o livro foi escrito), há um tom crítico sobre a vida em Cuba, mostrando conflito de gerações diversas, desde os revolucionários até os que nasceram com o país em crise, depois do fim do bloco soviético e têm uma visão muito diferente do mundo e do país. Lá existem tribos de jovens “desencantados” com o país e com o mundo, como vemos em outros países, inclusive aqui? Não vou contar. Vale a pena ler.

– Mouzar Benedito,
colunista do Blog da Boitempo.

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Leonardo Fabri, de nosso departamento de divulgação, optou por transmitir sua indicação de leitura em vídeo! Ele escolheu os dois primeiros títulos da coleção “Livros para o amanhã”, que inauguram o selo infantil da Boitempo, o Boitatá! Confira:

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Kim Doria, de nosso departamento de divulgação, também gravou sua indicação de leitura em vídeo! Ele escolheu o romance O tacão de ferro, de Jack London, da coleção Clássicos, da Boitempo. Confira:

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A Boitempo, cujo catálogo tem inquestionável importância para a reflexão sobre a condição humana contemporânea, publicou muita coisa boa este ano. Livros que vieram para ficar, que formam um legado para a cultura brasileira, para o leitor brasileiro de todos os tempos. Dos lançados em 2015, destaco três que, ao colocar o dedo em feridas importantes, trazem abordagens originais, que reúnem saberes de diversas áreas e revelam aspectos fundamentais do mundo atual.

Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, do psicanalista Christian Dunker, oferece uma complexa e riquíssima interpretação do Brasil. Num arco de reflexão que vai da história da psicanálise no país à antropologia de Eduardo Viveiros de Castro, passando pelo Cinema da Retomada, o autor revela uma sociedade cuja sociabilidade é regida pela lógica do condomínio. É um livro para ser lido e relido ao longo do tempo. Estou certa de que, a cada leitura, o leitor será surpreendido por mais uma descoberta desse autor genial.

Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças, da urbanista Raquel Rolnik, é uma obra que, ainda que esteja recheada de precisas análises socioeconômicas e aspectos técnicos sobre a situação da moradia no mundo, começa a conquistar o leitor por seu lado emocional. A autora dá voz a pessoas que ao redor do planeta vêm perdendo sua casa, o lugar onde construíram sua vida e seus sonhos, para o mercado financeiro. Embora o retrato dessa guerra seja um horror, Raquel conclui esse estudo espetacular – fruto de sua trajetória como professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e como relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, e também de sua atuação em cargos públicos e na militância política – de forma otimista e esperançosa. Tendo testemunhado a força da resistência dos cidadãos, a autora enxerga ali não apenas a vitória de algumas batalhas, mas a própria semente da transformação.

Pssica, de Edyr Augusto, é um romance breve e denso. Suas 92 páginas parecem conter outras tantas que a escrita ágil, direta, enxuta do autor paraense delega aos desejos do leitor. A história de Janalice, a linda adolescente de classe média que se torna escrava sexual, revela um Brasil difícil de encarar, violento, machista, corrupto, cruel. Porém, se, por um lado, não há redenção possível para os protagonistas, por outro, a literatura de Edyr tem a capacidade de arrancar o leitor de sua zona de conforto. Impossível sair incólume dessa experiência.

Boas festas! Excelentes leituras!

Isabella Marcatti,
editora-adjunta da Boitempo.

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thaisa indica mazzeoEm tempos de convulsão social (e tanta confusão mental!), livros como esse Estado e burguesia no Brasil, do sociólogo Antonio Carlos Mazzeo, são verdadeiros oásis de esclarecimento. Através de um extenso resgate histórico desde a implantação do “modo de produção escravista colonial” e sua determinação para o desenvolvimento do nosso capitalismo terceiro-mundista, Mazzeo analisa as particularidades da formação econômico-social brasileira, dando especial atenção ao papel desempenhado pela nossa burguesia, economicamente débil, mas bastante poderosa e articuladora, mancomunada com um Estado autocrático e de herança colonial. Crítica marxista de primeira linha, e leitura fundamental para compreendermos certos mecanismos golpistas e de manutenção de poder que vemos hoje tão descaradamente refletidos na mídia e na própria sociedade civil.

– Thaisa Burani,
assistente editorial e editora do selo infantil Boitatá, da Boitempo.

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Livia indica Pssica e RituaisRecomendo a leitura do Rituais de sofrimento. A Silvia Viana faz uma análise abrangente dos realities shows e mostra os rituais cruéis que estão por trás desses programas. Ela também aponta como eles entretêm os espectadores por meio da humilhação dos participantes. Achei ótimo esse livro!

Gostei muito também do Pssica, que é um livro curtinho, mas superintenso e até um pouco difícil de ler porque a história é muito dura, desperta muitas emoções.

– Livia Campos,
produção gráfica.

Bibiana Leme, editora-adjunta da Boitempo não resistiu e indicou toda a coleção Marx e Engels! No vídeo ela indica dois livros para quem quer se iniciar nos estudos marxianos:

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Uma leitura bacana deste ano foi o denso perfil biográfico de Luiz Carlos Prestes registrado por Anita Leocadia Prestes: Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro. Além de tudo aquilo que a gente espera da trajetória política do guerrilheiro  tiro, porrada e bomba , há também muito material primário de excelente qualidade, fruto de registros em fita cuidadosamente colhidos pela historiadora e filha. A leitura desperta muitas sensações distintas, e essa é a maior riqueza do livro: questionar-se sobre os rumos do comunismo, perceber os muitos desafios enfrentados pela esquerda em busca de solidez. O registro traz muito do afeto e do carinho da biógrafa pelo biografado, mas somam-se a isso as falas transcritas no texto e os acontecimentos políticos da época, formando um mosaico que expõe a complexidade não só de Prestes, mas a própria complexidade de sustentação de um projeto comunista diante das novas configurações do jogo político.

Outra coisa que indico é um abraço de panda cheio de ternura em toda a equipe da Boitempo pela criação dessa coisa maravilhosa que é o selo Boitatá. Diante da insurgência consciente dos estudantes secundaristas contra uma nova volta do parafuso do governo estadual contra o já debilitado sistema de ensino, veio à tona todo o interesse e o anseio por posicionamento político desta geração estudantil, e o selo Boitatá certamente trará imensa contribuição para a formação desses pensadores desde a tenra infância. E o projeto gráfico dos livros é lindo – porque há de se aprender política desde pequeno, mas sem perder a ternura! ❤

– Luciana Lima,
revisora e preparadora.

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artur renzo indica tempo trabalhoGosto de pensar no período de férias como um respiro, uma janela que embora delimitada pela agenda do mundo do trabalho pode ser aproveitada para queimar os neurônios um pouco para além das urgências acadêmicas e conjunturais. Por isso, minha indicação para este final de ano é Tempo, trabalho e dominação social, de Moishe Postone. É um livro que parte de uma leitura rigorosamente imanente das próprias categorias marxianas pra chegar numa reinterpretação da teoria crítica de Marx que se revela completamente avessa a algumas das proposições mais canônicas do marxismo tradicional.

De certa forma, a força do livro está na simplicidade da questão que coloca: o que é capitalismo? O que une suas diversas mutações e etapas históricas? Mais do que um sistema econômico pautado pela centralidade do mercado e pelo imperativo do lucro, mais do que um projeto de classe numa sociedade caracterizada pela propriedade privada dos meios de produção, ele defenderá que o capitalismo é fundamentalmente uma forma de vida marcada pela dominação das pessoas pelo tempo.

É um texto cuidadosamente didático (até professoral em alguns momentos), mas muito fértil em questionamentos e aberturas, e que pode muito bem inspirar uma releitura do Capital, ou ainda, quem sabe, a enfrentar os GrundrisseUma boa pedida pra quem quiser arejar os alicerces da reflexão crítica!

P.S.: Pra quem quiser ter uma ideia de como funciona o pensamento de Postone, a Margem Esquerda, a revista da Boitempo, publicou um artigo dele comentando História e consciência de classe, de Lukács, que avança a hipótese original de que se há um “sujeito histórico” n’O capital de Marx, ele não se identifica com o proletariado, mas sim com a própria categoria de capital no seu movimento de autovalorização. 

– Artur Renzo,
divulgação e editor do Blog da Boitempo.

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