Manual de autodefesa intelectual (I)

Por Izaías Almada.

Silogismo: Dedução filosófica no campo da lógica que leva à conclusão de que duas premissas dadas (falsas ou verdadeiras) criam uma nova premissa (também falsa ou verdadeira). Difícil, contudo, será estabelecer quando uma premissa é falsa ou verdadeira, não caro leitor?

Vamos a dois exemplos:

1 – Assaltantes de bancos são criminosos.
2 – Banqueiros assaltam seus clientes, logo

3 – Banqueiros são criminosos.

Ou:

1 – Abdul Aziz Al-Saud é o rei da Arábia Saudita.
2 – O leão é o rei dos animais, logo

3 – Abdul Aziz é um leão.

Qual, desses dois silogismos, é verdadeiro e qual é falso?

Silogismos e “brincadeiras” à parte, mas a propósito do que aqui vai escrito, há duas semanas tive a alegria de assistir a um excelente espetáculo de teatro, desses que nos comovem por um lado e chacoalham por outro e nos mantém todo o tempo em expectativa esperando que não acabe logo.

Um técnico de som e imagem, dois músicos (um baterista e uma tecladista) fazem o suporte sonoro e visual para a interpretação de três atrizes e um ator que, durante uma hora e quarenta minutos não fazem outra coisa, e com grande sentido de interpretação e presença cênica, senão vibrar os nossos neurônios e aquecer as veias da nossa sensibilidade.

O nome do espetáculo é aquele ali do título: “Manual de Autodefesa Intelectual” que, depois de uma temporada exitosa no SESC Belenzinho, continuará suas apresentações no Galpão do Folias de 03 de julho a 02 de agosto. (Informações abaixo)

Nos tempos bicudos que correm no país, nada melhor do que botar a cabeça para funcionar e não se deixar levar pelas notícias de jornal, comentaristas de emissoras de rádio, pelas verdades que não são ditas na televisão e pelas capas obscenas de algumas revistas semanais.

Tenho a certeza de que a grande maioria dos leitores sabe sobre silogismos e já os empregou pelo menos uma vez na vida. Fossem falsos ou verdadeiros. Pertinentes ou não. Essa curiosa questão, entretanto, é apenas uma das vertentes por onde corre a imaginação e a criatividade dos que produziram e realizam um espetáculo teatral de altíssimo nível.

Não estou falando aqui de um espetáculo que possa minimamente ser comparado a essas comediazinhas idiotas com ranço de dramaturgia da TV Globo, mas sim de uma criação artística que nos encanta e nos faz refletir sobre a nossa condição de seres humanos, cidadãos moradores na cidade de São Paulo, Brasil, no ano de 2014. Condição essa que nos coloca, circunstancialmente, no olho de um dos furacões do atual estágio civilizatório: o Brasil. Teatro de intervenção social, como se costuma dizer. Teatro documentário, como afirma o grupo Kiwi.

Isso mesmo: esse Brasil que finalmente, na prática, começou a enfrentar a luta de classes fora das teorias livrescas e dos saraus acadêmicos. Susto que causa alguma surpresa para muitos, mas que despertou o lado fascista da nação, pois parte da nossa burguesia e suas boas parcelas de classe média fazem lembrar um antigo personagem do humorista Chico Anísio, aquele que tinha horror de pobre.

Afinal, quem disse que a senzala pode pensar, sequer, em ter algumas regalias junto à Casa Grande? Na, na, na, não… Lugar de pobre é varrendo a rua, cozinhando e lavando pratos, recolhendo lixo, entregando correspondência, lavando carros, ser motorista e cobrador de transporte coletivo, escravos em fazendas, escravos na fabricação de roupas e empregados vilipendiados por fastfoods internacionais… Quando muito podem pensar em ser caixas de supermercados ou auxiliar de escritórios, desde que tomem banho duas vezes por semana. E usem gravatas…

O mundo é assim, pensam muitos. Foi criado por Deus assim e perante ele, Deus, somos todos iguais. Temos o livre arbítrio, somos livres para votar, por exemplo. O voto de um gari da prefeitura vale tanto quanto o voto de um dono de banco. Verdade… Não estou inventando. Vou até repetir: o voto de um gari da prefeitura vale tanto quanto o voto de um banqueiro… Argumento profundamente democrático, certo?

E de premissa em premissa, de falácia em falácia, transformamos os lugares comuns em filosofia de botequim, o ato de pensar seriamente em coisa descartável, a notícia de jornal em achaque político, em alimento de preconceitos e ódio, sempre na esperança de que sejamos aceitos pelos que detém o poder econômico e político, pois é exatamente disso que se trata.

Passamos a maior parte de nossas vidas na esperança de sermos aceitos por uma sociedade de hipócritas e, porque não dizer, de bandidos. Sejam eles assaltantes de bancos ou de clientes para seus bancos. O escritor e dramaturgo Bertolt Brecht definiu muito bem a questão.

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Os atores Fernanda Azevedo, Vicente Latorre, Maria Carolina Dressler e Maíra Chasseraux, na peça “Manual de autodefesa intelectual”.

O diretor do espetáculo é o dramaturgo e também realizador Fernando Kinas, que escreve o seguinte no programa da peça:

“È inequívoca a importância do fenômeno relacionado às crenças, superstições, obscurantismos e pseudociência nos dias atuais, seja do ponto de vista econômico, seja das suas implicações sociais, culturais e políticas… Se algumas são folclóricas, outras envolvem charlatanismo e ações criminosas”.

“Também não é difícil encontrar pessoas dispostas a acreditar em aparições de santas e fantasmas, em estátuas que choram ou vertem sangue e muitas que juram que Elvis está vivo. Outras pessoas batem três vezes na madeira, não passam embaixo de escadas ou diante de gatos pretos e não repetem determinadas palavras”.

Os exemplos cênicos dessas considerações são contundentes, cheios de humor e fina ironia. Afinal, apesar de algumas e alguns socialites, cabeças não foram feitas exatamente para usarem chapéus.

E continua o Kinas:

“Não faltam exemplos cotidianos do que se pode chamar de adestramento para a credulidade. Passamos das antigas “correntes” que funcionavam através de cartas enviadas pelo correio às formas contemporâneas turbinadas pela internet e pelas redes sociais”.

E acrescento: por uma inesgotável capacidade de produzir lixo da nossa televisão em talk shows, entrevistas, telejornais, novelas, programas culinários com ou sem papagaios, programas policiais, tardes domingueiras de dar sono em anfetaminas, humorismo apelativo e de baixíssimo nível, onde – querendo ou não querendo – zeramos o nosso QI.

Com tanta informação e crendice, com tanto conhecimento pseudocientífico, com tanto medo de não ser considerada uma pessoa “legal”, se possível com algum tipo de “sucesso”, boa parte dos cidadãos brasileiros se transforma em presa fácil dos manipuladores de consciências, sejam eles políticos ou religiosos.

“Em resumo”, acrescenta Kinas, “o analfabetismo científico, que faz com que muitos acreditem em explicações místicas e em ficções; a confusão frequente entre opinião e conhecimento; os erros oriundos do pensamento circular e das relações inexistentes de causa e efeito; a presença ostensiva da fé no cotidiano; a tendência a aceitar premissas falsas como verdadeiras; a ausência quase completa da verificação das fontes; a aceitação passiva de argumentos de autoridade, entre outros procedimentos baseados na intuição; no senso comum e nas experiências imediatas e pessoais, criam um ambiente propício ao engano e ao erro”.

Em meio à intolerância, ao preconceito, ao deboche, ao ódio que se constrói nos dias em que vivemos, a reflexão da Kiwi Companhia de Teatro mostra que ainda há vida inteligente, particularmente em São Paulo, para além das redes sociais…

(Continua…)


Manual de autodefesa intelectual | Kiwi Companhia de Teatro
Temporada de 03 de julho a 02 de agosto de 2015, sextas e sábados 21h e domingos 20h
Local: Galpão do Folias – R. Ana Cintra, 213 – Campos Elíseos, São Paulo SP (ao lado do metrô Santa Cecília)
Recomendado para maiores de 14 anos
Ingressos: 20,00 (inteira) e 10,00 (meia entrada)

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em Manual de autodefesa intelectual (I)

  1. A menos de 24 horas assisti o filme DEUS NÃO ESTÁ MORTO. Agora leio seu artigo. Fico muito feliz em poder ter o privilegio desta informações, que são na verdade a representação do estado íntimo de cada pessoa. Mas infelizmente, só lhes chegam informações e esclarecimentos que não lhes convém e ao mesmo tempo os alieniam.

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1 Trackback / Pingback

  1. • 03 JUL a 02 AGO, BR São Paulo : Passa Palavra

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