Mandela: um legado contraditório

13.12.09_Ruy Braga_MandelaPor Ruy Braga.

O grande símbolo da resistência ao apartheid racial morreu no dia 5 de dezembro passado. Quando penso em Nelson Mandela logo me vem à mente a icônica imagem do dia de sua libertação. Após 27 anos de encarceramento, emergiu um sorridente herói do povo, cumprimentando com seu punho direito erguido a massa que o acolheu como o incontestável guardião dos sonhos de sua emancipação. É difícil descrever a sensação que tive quando assisti pela TV esta cena. Foi um momento glorioso daquilo que Walter Benjamin chamou de “tradição dos oprimidos”: subitamente, o caudaloso fluxo da dominação detem-se por um instante, deixando antever a ainda nebulosa fisionomia da liberdade vindoura.

Fora da prisão, Mandela liderou a negociação estabelecida com o Estado fascista que sepultou o apartheid racial. O empenho pacificador demonstrado durante a transição democrática garantiu-lhe o prêmio Nobel da Paz de 1993. Por isso, pode parecer fácil escrever sobre ele. Bastaria, por exemplo, elogiar sua sublime disposição de perdoar os opressores brancos. Aliás, é exatamente isso que tem feito toda a imprensa mundial. No entanto, gostaria de destacar um outro ângulo, ou seja, o projeto político que, ao sair da prisão, ele afiançou. No final dos anos 1980, tão logo o Partido Nacional, com o domínio dos africânderes no governo, percebeu que iria ser derrotado pela resistência mais ou menos inorgânica de toda a sociedade civil sul-africana, iniciou-se um processo de negociação entre os fascistas e o maior partido anti-apartheid, isto é, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ao longo de alguns poucos anos, o pacto social que deu origem à nova África do Sul foi urdido.

Conforme os termos do acordo, as tradicionais classes dominantes brancas manteriam o domínio e a propriedade de todos os setores econômicos estratégicos, transferindo progressivamente para o ANC o controle do aparelho de Estado. Enquanto os ativos financeiros das principais empresas do país migravam para Londres em um avassalador movimento de fuga de capitais que acentuou a dominação econômica branca, o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) e o ANC formavam a coalizão conhecida como “Aliança Tripartite” que se transformou em uma poderosa máquina eleitoral, criando as condições para o estabelecimento de uma durável hegemonia alicerçada na “fusão” das principais forças anti-apartheid com o aparelho estatal.

Assim, sedimentou-se, em 1996, um modelo de (sub-)desenvolvimento capaz de combinar uma agenda neoliberal conhecida como “Growth, Employment and Redistribution” (GEAR) com algumas reformas pontuais cujo produto mais saliente foi a exacerbação das desigualdades de raça, de gênero e de classe social.[1] A partir de então, privatizações, cortes de gastos estatais e moderação salarial, combinaram-se com, por exemplo, a incorporação dos negros ao sistema público de saúde… O apartheid racial foi substituído por um apartheid social alimentado pela exploração da maioria dos trabalhadores negros. Mandela foi o grande fiador desta “revolução passiva”. Apenas um negro educado vivendo em um país dominado por brancos, um príncipe xhosa vivendo em um país de maioria zulu, um líder mundialmente admirado vivendo em um país carente de aceitação internacional, poderia dirigir este processo.

Após a transição para a democracia parlamentar, o ANC lançou, no início dos anos 2000, o Black Economic Empowerment, programa conhecido como “BEE”. Tratava-se de um programa para diminuir as disparidades sócio-econômicas existentes entre os diferentes grupos raciais por meio da incorporação de negros e de não brancos ao staff administrativo das empresas sul-africanas. Com essa política, o país testemunhou o surgimento de uma afluente elite econômica negra, conhecida como “Black Diamonds”, que acumulou imenso poder e riqueza devido à intimidade com o governo. Assim, ex-militantes sindicais comunistas tornaram-se sócios de empresas de mineração e ex-lideranças do ANC transformaram-se em mega-investidores financeiros. Dispensável dizer que escândalos de corrupção envolvendo altos executivos e políticos tornaram-se usuais.

Uma expressão curiosa surgiu para descrever a atual estrutura classista da África do Sul: “sociedade cappuccino”. Trata-se de uma menção à existência de uma larga base negra sobre a qual repousa uma “espuma” branca encimada por uma finíssima camada de chocolate em pó. O resultado? Da 90º posição no ranking da desigualdade, em 1994, ano da eleição presidencial de Mandela, a África do Sul ocupa atualmente a 121º posição. Não admira que neste tipo de sociedade tensões étnicas e sociais descambem rapidamente para a violência xenofóbica: a taxa de criminalidade do país está entre as 15 piores do mundo e a expectativa de vida da população é de apenas 53 anos.[2]

Ano passado, ao trocar alguns dólares no aeroporto de Johannesburgo percebi que a efígie de Mandela estampava as novas cédulas de rands. O “Pai da Pátria” aparecia sorrindo discretamente em todas as notas, não importando o valor. “A revolução passiva sul-africana está concluída”, pensei… No caminho para o hotel, fui informado que 36 mineiros haviam sido barbaramente assassinados há pouco pela polícia no acampamento de Marikana, nas cercanias de Rustemburgo, durante uma greve. Também soube que, em uníssono, a Aliança Tripartite estava improvisando argumentos a fim de justificar o massacre. Separadas por apenas 180 km, a distância entre Marikana e Sharpeville não poderia ser maior…

Tudo isso faz parte da herança deixada pelo maior símbolo da resistência ao apartheid racial. Como decifrá-la? Em 1963, ao ser condenado à morte no Julgamento de Rivonia, Mandela era um homem disposto a arriscar a própria vida pela libertação de seu povo. Por ser o comandante em chefe da ala armada de seu partido ele ficou quase três décadas encarcerado e merece nosso mais profundo respeito. No entanto, é necessário reconhecer que, na atual luta contra o apartheid social, os trabalhadores negros sul-africanos enfrentam sozinhos uma hegemonia deletéria que Mandela não economizou esforços para fortalecer. Para muito além da santificação do grande líder, algum dia, uma África do Sul emancipada saberá reconhecer e superar os limites deste legado contraditório.


Notas

[1] Ver Patrick Bond, The Elite Transition: From Apartheid to Neoliberalism in South Africa, Pluto Press, 2000.

[2] Ver Karl von Holdt et alii, The smoke that calls: Insurgent citizenship and the struggle for a place in the new South Africa, Society, Work and Development Institute, 2011. 

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Para aprofundar a reflexão sobre as contradições próprias das formas de dominação desenvolvidas em projetos políticos de pacto social, em especial sobre o caso brasileiro, recomendamos a leitura de Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira, organizado por Francisco de Oliveira, Ruy Braga e Cibele Rizek. [veja uma prévia do livro]

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

16 comentários em Mandela: um legado contraditório

  1. Luiz Carlos // 09/12/2013 às 21:48 // Responder

    Excelente texto. Muito esclarecedor. Gostei muito das indicações para leitura. abraços

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  2. marcelogomes // 10/12/2013 às 16:04 // Responder

    Texto muito importante para salientar as dificuldades encontradas no decorrer de uma luta contra a escravidão, na realidade os trabalhadores sempre poderão contar com eles mesmos pois as ferramentas intelectuais são poucas o direito defendido pelos juristas cabe ao mundo civilizado os pobres sempre terão deveres e os ricos os senhores da guerra tem permissão para matar. Bonitas cédulas servem para financiar a guerra e matar os que já estão morrendo de fome e mesmo com fome tem se a razão a seu favor na luta contra a opressão.

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  3. “Tudo isso faz parte da herança deixada pelo maior símbolo da resistência ao apartheid racial.” Falácia pura. O que há na desigualdade Africana não é apenas “herança” de Mandela, há contexto e antecedentes que estão sendo ignorados. Se as negociações pacíficas contribuíram para essa desigualdade, qual era a alternativa? Revolução? Veja outros países da África, que pela pura falta de um líder com o perfil de Mandela continuam mergulhados em guerras civis sanguinolentas que emergem de tempos em tempos. Alguns inclusive passaram por “revoluções” comunistas, como Moçambique. Há, de fato, desigualdade e corrupção que precisam ser resolvidos, mas isso não é privilégio da África do Sul – e olha que o Brasil nunca teve um Mandela.

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    • Sandro Filho // 12/12/2013 às 20:48 // Responder

      é o vinicius está certo, não existe líder mundial salvador da humanidade. os que tinham esse pensamento morreram assasinados e não de velhice, a revolução total acontece somente pelo povo, Mandela, Lula, Guevara todos com legados contraditórios, melhor um legado contraditório do que legado nenhum.

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  4. Interessante o seu ponto de vista, mas acredito que seja preciso se perguntar: qual era a situação da África do Sul antes do “fim” do apartheid? Você citou um número frio: 90 posição no ranking de desigualdade. Mas ela já estava se deteriorando, ou estava melhorando? Estariam os negros melhores caso o apartheid continuasse? O estilo de vida seria melhor do que o que eles possuem hoje? O que você descreve como apartheid social é vivido hoje em muitas sociedades capitalistas que não possuem problemas raciais. O Brasil serve de exemplo. Na verdade, a África do Sul ainda possui o apartheid racial. Ele apenas não é mais sustentado politicamente.

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    • Bruna Flores // 10/12/2013 às 23:06 // Responder

      Concordo totalmente. Altamente limitada essa analise de causa e efeito, fala sério!

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    • Concordo com o Alex.O texto de Ruy Braga é fraco, pouco embasado e voltado para a luta entre capitalismo x socialismo, no viés econômico. Claro que está luta é fundamental, mas não se deve colocar o economicismo como fator preponderante, mas integrante, outros fatores são importantes na análise social.Você como profundo conhecedor de Marx sabe muito bem. Neste caso, a luta social de uma classe negra, escravocrata, explorada por séculos, vai além da luta econômica. Mandela pode ter cometido erros, mas sem ele o país estaria vivendo dias piores, assim concordo com Alex na sua fala acima. Para tanto, o debate sobre a questão de classe negra, não foi levantado no texto, uma pena. Momento oportuno para reflexões embasadas, o texto acima me parece uma notícia de jornal de agenda. Uma pena para um grande intelectual que me presto a ler regularmente.
      Para finalizar, sinto uma visão elitista branca em suas palavras. O contexto de Mandela não foi comentado e tampouco quais eram suas opções dentro do contexto de luta pela liberdade do povo negro de seu país.

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  5. Tata Madiba (como Mandela é chamado carinhosamente na África do Sul) é criticado por ter pressionado o seu sucessor, o ex-presidente Thabo Mbeki, a abandonar a política dissidente sobre a AIDS do Dr. Peter Duesberg (“ARVs são AIDS sob prescrição médica”). Bill Clinton, cônscio de que isso poderia desmoralizar os EUA, forçou Mandela a reverter a nova política bem sucedida. Hoje, Thabo Mbeki e Peter Duesberg, são denegridos pela mídia comercial e milhares de sul-africanos assintomáticos são condenados a uma morte lenta por causa do tratamento equivocado patrocinado pela OMS (leia-se, governo dos EUA e a poderosíssima indústria farmacêutica). Para os críticos, Mandela foi um inocente útil que serviu ao lado obscuro da medicina, que põe o lucro acima da vida.

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  6. Decidi abordar Mandela pelo ângulo do projeto de formação do novo Estado sul-africano. Existem outros ângulos? É claro que sim. De qualquer maneira, limitei-me conscientemente a apresentar uma crítica que me parece perfeitamente plausível. Após quase vinte anos da eleição de Mandela, a Aliança Tripartite governa um país mais ou menos desigual? Desde 1994, a desigualdade social medida pelo coeficiente de Gini saltou de 0,66 (1994) para 0,70 (2012) na África do Sul. Isso não é novidade. Evidentemente, existia desigualdade antes. Minha comparação leva em consideração apenas o pós-apartheid… Para aqueles que acreditam que as únicas opções eram ou revolução socialista ou neoliberalismo e entendem que Mandela foi um grande estadista por ter adotado as políticas neoliberais fariam melhor se parassem de acusar os outros de economicistas – vocês sim são economicistas, pois não percebem a importância da política, aceitando e acomodando-se muito facilmente regime de acumulação vigente – e enfrentassem suas próprias opções políticas conservadoras. Acusar-me de “elitismo branco” por defender os trabalhadores que foram massacrados em Marikana, além de uma completa estupidez, é mais uma demonstração desse profundo conservadorismo. Por favor, não se escondam atrás de Mandela. Assumam a sua própria rendição ao neoliberalismo – imagino que lá da mesma maneira que cá…

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  7. O Globo: “O Conciliador”; Estado de SP: editorial destacando o papel de Mandela na transição; “Veja”: Mandela na capa , apontado como um dos grandes líderes da história da humanidade. Caso o governo de Mandela tivesse optado pelo enfrentamento com a elite branca e mexido verdadeiramente na situação social do país, seria ele esta unanimidade após a sua morte? Não esquecer que o líder que arriscou a vida e perdeu quase 3 décadas na cadeia pela liberdade de seu povo já foi qualificado de ‘terrorista’ pelos EUA e pela Inglaterra. Há dois Mandelas na história… o primeiro, integrava a lista de procurados do governo Reagan; o segundo, ganhou o Nobel e se tornou uma unanimidade que não metia medo nas elites brancas.

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  8. Daniel Oliveira // 12/12/2013 às 20:22 // Responder

    Texto fraco e sem contexto. Me parece coisa de quem gosta de ser “do contra”. Se vc queria provar que Mandela nao foi perfeito, nao precisava de tantas palavras. Criticar o obvio é o exercício do inútil.

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  9. Sandro Filho // 12/12/2013 às 20:51 // Responder

    A única Forma de não haver legados contraditórios é o fim do sistema de vida, que gira em torno do deus Dinheiro, pq esse Deus onipotente , onipresente, sempre achará uma forma de explorar o mais fraco.

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  10. Como afirmei claramente no início do artigo, busquei analisar criticamente o projeto político que Mandela avalizou – e não o próprio Mandela – ao sair da prisão. Mobilizei informações que qualquer um pode checar por conta própria e citei estudos sérios de colegas sul-africanos, com os quais mantenho atividade de colaboração científica há vários anos, em apoio ao meu argumento. Nada a ver com a banalidade de Mandela “não ser perfeito”. Mas, afinal, por quê se preocupar com dados e argumentos críticos produzidos por gente – como Patrick Bond e Karl von Holdt – que conhece profundamente a realidade sul-africana quando se pode encontrar todas as respostas prontas produzidas pela mídia monopolista? Desse tipo de “contexto” eu quero distância…

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  11. Rosalina Izento // 16/12/2013 às 2:21 // Responder

    Respeito a observação feita pelo intelectual Ruy Braga, acerca da realidade política do Mandiba, e não vou me aprofundar no debate porque não venho acompanhando há algum tempo a situação sócio econômica da África. Entretanto, o texto me causou surpresa quando afirma que o CHE também deixou um legado contraditório. Eu gostaria de saber em que momento ocorreu. Porque estive em Havana em 1998 e li muito sobre causa da revolução cubana e a história de vida política tanto dele quanto a de Fidel. Portanto, fica a minha indagação.

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  12. Rosalina Izento // 16/12/2013 às 2:44 // Responder

    Peço desculpa ao Ruy Braga, pelo engano que cometi, ao afirmar que o seu texto trazia a informação de que o CHE GUEVARA deixou legado contraditório, No entanto, foi no comentário do Sandro Filho.

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  13. Parabéns pelo post, gostei muito!

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