Normalização da tortura? Não, obrigado!

13.02.07_Slavoj Zizek_Normalização da tortura2Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido pela Carta Maior, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

For the english version, click here.

Aqui está como, em uma carta ao jornal LA Times, a cineasta Kathryn Bigelow justificou a representação, no filme A hora mais escura, de métodos de tortura usados pelos agentes do governo norte-americano para capturar e matar Osama Bin Laden:

“Aqueles de nós que trabalham com arte sabem que representação não é aprovação, elogio. Se o fosse, nenhum artista estaria apto a pintar atos desumanos, nenhum autor poderia escrever sobre eles, e nenhum diretor de cinema poderia se aprofundar em assuntos espinhosos de nosso tempo”, escreveu ela ao jornal.

Sério? Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra o ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo. Imagine um documentário que nos apresente o Holocausto de um jeito desinteressado e tranquilo, como uma enorme operação logística-industrial, focando nos problemas técnicos envolvidos (transporte, descarte de corpos, prevenção do pânico entre os prisioneiros que seriam postos nas salas de gás). Tal filme traria também consigo uma fascinação profundamente imoral com o assunto, ou estaria baseado numa neutralidade obscena em seu modo para gerar consternação e horror nos espectadores. Onde Bigelow se encaixa aqui?

Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe – “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns. Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas). Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é a normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito. A consciência de que esta sensação ruim sofrida pelo torturador é o principal custo humano da tortura deixa claro de que não se trata de uma propaganda conservadora barata: a complexidade psicológica é representada para que liberais possam se divertir com o filme sem se sentirem culpados. É por isso que A hora mais escura é bem pior que 24 Horas, em que Jack Bauer, pelo menos, sofre um colapso mental no final da série.

O próprio debate sobre o afogamento simulado ser ou não tortura deve ser descartado como um explícito irracionalismo: por que, se não causa dor ou medo de morrer, este afogamento faz suspeitos terroristas resistentes falarem? A recolocação da palavra “tortura” no campo da “técnica aprimorada de interrogação” é a extensão da lógica politicamente correta: exatamente da mesma forma que “alejado” torna-se “deficiente físico”, “tortura” se torna “técnica aprimorada de interrogação” (e, por que não, “estupro” pode tornar-se “técnica aprimorada de sedução”). O ponto crucial é que a tortura – violência brutal praticada pelo Estado – torna-se publicamente aceitável no momento em que a linguagem pública passa pelo prisma do “politicamente correto” para proteger as vítimas da violência simbólica. Esses fenômenos são dois lados da mesma moeda.

A defesa mais obscena feita do filme é a alegação de que Bigelow rejeita o moralismo barato, e de maneira sóbria apresenta a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questões difíceis e que, assim, nos fazem pensar (alguns críticos afirmam, ainda, que a diretora “desconstrói” clichês femininos pois Maya não mostra sentimentalismo, ela é dura e dedicada em sua tarefa… como um homem). Mas, com a tortura, alguém pode não “pensar”. Um paralelo com o estupro se faz aqui necessário por si mesmo: e se um filme mostrasse um estupro brutal neste mesmo jeito “neutro”, alegando que devemos evitar o moralismo barato e começarmos a pensar sobre o estupro em toda sua complexidade? Em nossas entranhas, fica a mensagem de que existe algo terrivelmente errado nisto. Eu gostaria de viver numa sociedade onde o estupro seja simplesmente inaceitável e que aquele que o relativize seja visto como um babaca excêntrico, não em uma sociedade onde alguém precise argumentar contra isto. O mesmo serve para tortura: um sinal de progresso ético está no fato da tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação.

Então o que dizer a respeito do argumento “realista”: tortura sempre existiu, então não é melhor falar sobre isto publicamente? Este é, exatamente, o problema. Se a tortura sempre esteve aí, por que aqueles que estão no poder agora nos contam abertamente? Só há uma resposta: para normalizar, diminuir nossos padrões éticos.

Tortura salva vidas? Talvez, mas com certeza perdem-se almas – e a justificativa mais absurda é dizer que um verdadeiro herói está pronto para renunciar sua alma para salvar as vidas desta ou deste compatriota. A normalização da tortura vista em A hora mais escura é um sinal do vácuo moral de que estamos gradualmente nos aproximando. Se há alguma dúvida sobre isto, tente imaginar um grande filme de Hollywood representando a tortura de um jeito similar vinte anos atrás. É impensável.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capaPROVISORIA_alta

A Boitempo está para lançar o novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico. Esta é uma versão provisória da capa do livro, que chega às livrarias ainda este mês!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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3 comentários em Normalização da tortura? Não, obrigado!

  1. Ótimo artigo, como sempre Slavoj Žižek fazendo uma análise profunda e coerente, cirurgicamente preciso em suas colocações sobre o assunto.

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  2. O assunto tratado por Zizek é de tal urgência e importância que muito bem faria quem pudesse criar um espaço presencial de discussão sobre este tema. A trilogia de Denys Archand, principalmente o último filme – L’âge des ténèbres, tão mal traduzido em português como a A Idade da Inocência, e que tão pouca atenção recebeu da crítica e do público, seria muito bem vinda, para ser analisada à luz do que aponta Zizek, neste artigo. Vivemos num tempo de inquisição hightech e não tenho visto uma crítica, uma reação à altura para enfrentar, penso eu, a maior ameaça viral da atualidade: a banalização do sofrimento.

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  3. Luiz Pereira // 22/02/2013 às 11:13 am // Responder

    Eu teria uma pergunta simples para o autor do blog; se ele viu o filme? Provavelmente, não.

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