Žižek: 2 anos de prisão de Assange: Como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade

14.06.20_sLAVOJ zIZEK_ASSANGEPor Slavoj Žižek.*

Nós nos lembramos dos aniversários de eventos importantes de nossa época: 11 de setembro (não apenas o ataque às Torres Gêmeas em 2001, mas o golpe contra Salvador Allende, no Chile, em 1973), o Dia D etc. Talvez outra data deva ser adicionada a esta lista: 19 de junho.

A maioria de nós gostaria de dar um passeio durante o dia para tomar uma lufada de ar fresco. Deve haver uma boa razão para aqueles que não podem fazê-lo – talvez eles tenham um trabalho que os impede (mineiros, mergulhadores), ou uma estranha doença que faz com que a exposição à luz solar seja um perigo mortal. Mesmo prisioneiros têm a sua hora diária de caminhada ao ar fresco.

Faz dois anos desde que Julian Assange foi privado deste direito: ele está confinado permanentemente ao apartamento que abriga a embaixada equatoriana em Londres. Se sair, seria preso imediatamente. O que Assange fez para merecer isso? De certa forma, pode-se entender as autoridades: Assange e seus colegas denunciantes [whistleblowers] são frequentemente acusados de serem traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das autoridades).

Assange se autodesignou um “espião do povo”. “Espionagem para o povo” não é uma traição simples (o que significa que ele ele atuaria como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo); é algo muito mais radical. Ela mina o próprio princípio da espionagem, o princípio de sigilo, uma vez que seu objetivo é fazer com que os segredos se tornem públicos. Pessoas que ajudam o WikiLeaks não são mais denunciantes anônimos que denunciam as práticas ilegais de empresas privadas (bancos e empresas de tabaco e petróleo) para as autoridades públicas; eles denunciam ao público em geral essas próprias autoridades públicas.

Nós realmente não soubemos de nada através do WikiLeaks que não suspeitássemos — mas uma coisa é suspeitar de modo geral e outra ter dados concretos. É um pouco como saber que um parceiro sexual está nos traindo. Pode-se aceitar o conhecimento abstrato disso, mas a dor surge quando se conhecem os detalhes picantes, quando se tem fotos do que eles estavam fazendo.

Quando confrontado com tais fatos, cada cidadão decente dos EUA não deveria se sentir profundamente envergonhado? Até agora, a atitude do cidadão médio foi um desmentido hipócrita: preferimos ignorar o trabalho sujo feito por agências secretas. A partir de agora, não podemos fingir que não sabemos.

Não é o suficiente ver o WikiLeaks como um fenômeno anti-americano. Estados como China e Rússia são muito mais opressivos do que os EUA. Basta imaginar o que teria acontecido com alguém como Chelsea Manning em um tribunal chinês. Com toda a probabilidade, não haveria julgamento público; ela iria simplesmente desaparecer.

Os EUA não tratam os prisioneiros da mesma maneira brutal – por causa de sua prioridade tecnológica, eles simplesmente não precisam da abordagem abertamente brutal (e estão mais do que prontos a aplicá-la quando necessário). Mas é por isso que os EUA são uma ameaça ainda mais perigosa para a nossa liberdade do que a China: as medidas de controle não são percebidas como tal, enquanto a brutalidade chinesa é exibida abertamente.

Em um país como a China, as limitações da liberdade são claras para todos, sem ilusões. Nos Estados Unidos, no entanto, as liberdades formais são garantidas, de modo que a maioria das pessoas vive sem nem sequer estar conscientes do quanto são controladas por mecanismos estatais.

Em maio de 2002, foi noticiado que cientistas da Universidade de Nova York tinham anexado um chip de computador capaz de transmitir sinais elementares diretamente no cérebro de um rato – o que permite aos cientistas controlar os movimentos do rato por meio de um mecanismo parecido com um controle remoto de um carro de brinquedo. Pela primeira vez, o livre-arbítrio de um animal vivo foi tomado por uma máquina externa.

Talvez aí resida a diferença entre os cidadãos chineses e nós, cidadãos livres em países liberais ocidentais: os ratos humanos chineses são pelo menos conscientes de que são controlados, enquanto nós somos os ratos estúpidos passeando em torno do conhecimento de como nossos movimentos são monitorados.

O WikiLeaks está perseguindo um sonho impossível? Definitivamente não, e a prova é que o mundo já mudou desde suas revelações.

Não ficamos apenas cientes de muita coisa das atividades ilegais dos EUA e de outras grandes potências. O WikiLeaks tem conseguido muito mais: milhões de pessoas comuns se tornaram conscientes da sociedade em que vivem. Algo que até agora nós tolerávamos silenciosamente tornou-se problemático.

É por isso que Assange foi acusado de causar tanto mal. No entanto, não há violência no que o WikiLeaks está fazendo. Nós todos já vimos a cena clássica dos desenhos animados: o personagem chega a um precipício, mas continua correndo, ignorando o fato de que não há chão sob seus pés; ele começa a cair apenas quando olha para baixo e percebe o abismo. O WikiLeaks está lembrando aqueles que estão no poder de que devem olhar para baixo.

A reação de muitas pessoas que sofreram lavagem cerebral da mídia sobre as revelações do WikiLeaks pode ser resumido nos versos memoráveis da música final do filme de Altman “Nashville”: “Você pode dizer que eu não sou livre, mas isso não me preocupa”. O WikiLeaks faz com que nos preocupemos. E, infelizmente, muitas pessoas não gostam disso.

* Publicado em inglês no The Guardian. A tradução é do DCM.

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17.02.14_SZizek_O que é um autêntico evento políticoLeia também “O que é um autêntico evento político“, de Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo. No artigo, o esloveno comenta sua visita a Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, discutindo o alcance político do fenômeno do WikiLeaks no interior dos atuais impasses do capitalismo global.

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violencia_capa_site_altaA Boitempo acaba de lançar Violência: seis reflexões laterais, o novo livro de Slavoj Žižek sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa de nosso sistema político e econômico. A edição conta ainda com um prefácio inédito, de Žižek, e um posfácio, de Mauro Iasi, situando a discussão no contexto das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013!

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Cultura inútil: Mil-homens: gol contra

14.06.18_Mouzar Benedito_Cultura inútil_Gol contraPor Mouzar Benedito.

A planta chamada jarrinha, também conhecida como cipó-mil-homens, é tida como afrodisíaca, talvez por causa desse nome fantasioso. Em alguns lugares é comum deixar a planta em infusão na cachaça e tomá-la como excitante sexual, mas os resultados, segundo alguns pesquisadores, pode ser o contrário: eles dizem que ela é broxante.

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Por pouco o rei Luiz XVI e Maria Antonieta não escaparam da guilhotina! Eles fugiam da França, em 1791, a carruagem em que viajavam parou em Sainte-Menehoul para trocar de cavalos, eles saíram para esperar (uma esticadinha nas pernas que custou caro!) e foram reconhecidos, detidos e levados para Paris.

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Leônidas da Silva, jogador de futebol que inventou a bicicleta (claro, a bicicleta do futebol, não o veículo – embora os chilenos digam que foi um chileno quem fez isso) era conhecido também pela elegância. Jogou um tempo no Peñarol, no Uruguai e voltou para o Brasil em janeiro de 1934, vestindo um terno de palha-seda, gravata e sapatos brancos… Seu apelido, “Diamante Negro”, virou nome de um chocolate que existe até hoje.

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Um ditado: “Sogro e sogra, milho e feijão só dão resultado debaixo do chão”.

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Só dois países da África não foram colonizados por Europeus. Um deles é a Libéria, fundada por ex-escravos dos Estados Unidos. Em 1816 foi criada a Sociedade Americana de Colonização, que tinha como meta mandar escravos libertados para a África. Em 1822 chegou a primeira leva deles. Em 1847 foi proclamada a independência do país. O outro país é a Etiópia. Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, teria sido o primeiro rei do país, a partir do ano 1000 a.C. O país resistiu a várias tentativas de colonização, como a dos árabes (século VII) e a dos portugueses (século XV). Em 1935 a Etiópia foi ocupada por tropas fascistas de Mussolini, que foram expulsas em 1941, com a ajuda do Reino Unido.

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O CVV – Centro de Valorização da Vida – foi criado em São Paulo, em 1962, por causa do aumento do número de suicídios. A instituição dá apoio emocional e tenta evitar suicídios de pessoas com problemas. Atende 24 horas por dia, com voluntários.

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O primeiro cabo telegráfico ligando a América do Sul à Europa foi instalado em 1874.

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Dom Pedro II autorizou a instalação de telefones no Rio de Janeiro em 1879. Em São Paulo, o telefone chegou no ano de 1884.

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Wolfgang Amadeus Mozart morreu aos 35 anos, à meia-noite de 5 de dezembro de 1791. Ele estava terminando de compor uma ópera encomendada por um desconhecido, o Réquiem, e tinha a convicção de que ela seria seu próprio réquiem. O enterro foi em 8 de dezembro, um dia frio e chuvoso. Sua mulher, Constança, adoentada, não participou. Todos os amigos voltaram para casa, por causa do mau tempo e da neve, e o corpo foi levado só pelo coveiro a uma vala comum, numa época em que havia um surto de cólera, em Viena. Então, nem uma cruz nem nada marcava o lugar em que foi enterrado. Só 19 anos depois é que a ex-mulher, Constança, foi ao cemitério acompanhada de seu novo marido. Mas o próprio coveiro já havia morrido e não era possível localizar o lugar onde ele foi enterrado. Mas há uma história de que um admirador de Mozart, chamado Rothmeyer, amarrou o caixão do compositor com um fio de metal para que pudesse ser localizado depois entre os outros, e secretamente foi ao cemitério e roubou seu crânio. Esse crânio foi sendo passado a herdeiros, sumiu, reapareceu… Em 1842 foi dado ao Museu Mozart, em Salzburgo, um crânio que seria o dele, mas não há como comprovar.

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Em 1614 foi publicada a primeira tábua de logaritmo, pelo escocês John Napier.

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A tinta sépia foi inventada por (aportuguesando o nome) Tiago Clemente Seydelmann, pintor alemão, em 1778. Essa tinta é uma mistura de siba (molusco da família do polvo) e bistre (uma mistura de fuligem e goma).

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A primeira eleição direta para presidente do Brasil foi em 1o de março de 1894. O eleito foi Prudente de Morais.

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A primeira vítima de Jack, o Estripador, em Londres, foi a prostituta Mary Ann Nichols, assassinada em 31 de agosto de 1888. Foram atribuídos a ele 14 assassinatos de mulheres, mas acredita-se que matou “apenas” cinco delas, entre 31 de agosto e início de novembro de 1888. Cada assassinato teve mais violência que o anterior. Todas as vítimas eram prostitutas, mas não houve indícios de violência sexual contra nenhuma delas. Nunca se descobriu a identidade do criminoso, e Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, disse certa vez acreditar que “Jack”, na verdade, era uma parteira doida.

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Se uma estrela do mar for cortada em vários pedaços, cada um deles vai crescer e formar uma nova estrela completa.

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Livros chineses publicados em 1044 revelam que naquela época já se fabricava a pólvora no Oriente.

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Uma das formas de combater a febre amarela no Brasil, imaginaram, era soltar aqui pássaros que comessem os mosquitos que a transmitem. Então trouxeram pardais para o Rio de Janeiro, mas o pardal come mesmo são sementes e grãos. Proliferou pelo país todo, virou uma praga.

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Santos Dummont se suicidou com depressão, contrariado com o uso do avião para bombardeios a São Paulo, durante a Revolução de 1932. Mas não foi a primeira vez que o avião foi usado com fins militares, no Brasil: na Revolta do Contestado já deturparam o uso do avião.  E o primeiro piloto militar brasileiro a morrer em ação foi João Ricardo Kirk, cujo avião caiu e ele morreu durante essa revolta, em 1o de março de 1915.

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Os gregos tiveram colônias na atual Turquia, inclusive a cidade de Soles, onde a população tinha um dialeto muito peculiar, falava muito mal o grego. Disso originou a palavra solecismo, que é o mau uso da gramática.

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A folha da vitória-régia, planta aquática famosa da Amazônia, chega a ter 2,5m de diâmetro, e fica sobre a superfície da água. Pode-se colocar até 40kg em cima dessa folha, de maneira bem distribuída, que ela não afunda. Em guarani, seu nome é urupé, e em tupi é aguapé-açu. O nome com que ficou famosa no mundo foi dado em homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, quando um explorador alemão levou a planta para o jardim botânico de Londres.

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O Eixo Monumental, avenida de Brasília que começa em frente ao Congresso Nacional e passa pela Esplanada dos Ministérios, pelo setor hoteleiro etc., é o divisor entre o Norte e o Sul de Brasília. Tem 250 metros de largura e é considerado a avenida mais larga do mundo.

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A prostituição era o principal negócio da cidade grega de Corinto, durante a antinguidade. Havia mais de mil mulheres no templo de Afrodite Porne. Como era de se esperar, Corinto era escala preferida pelos marinheiros.

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Não é à toa que a palavra messalina virou sinônimo de mulher devassa, libertina. Valéria Messalina, que viveu de 22 a 48 da era cristã, mulher do imperador Cláudio, de Roma, era ninfomaníaca total, tinha relações sexuais com muitos cortesãos, depois passou a se interessar por artistas. Uma época teve predileção especial por um ator chamado Mnester, com quem tinha relações sexuais frenéticas. Deixou no corpo dele muitas marcas de unhadas. Às vezes saía pelos becos de Roma caçando homens. Uma vez, decorou seus aposentos como um prostíbulo e recebia homens ali, cobrando o valor pago a prostitutas comuns. Havia filas de homens.

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Quem acha que a palavra inconstitucionalissimamente é grande, deveria ler a antiga fórmula da Cibalena, remédio para dor de cabeça. Ela vinha escrita no envelope e eu acabei – veja só que inutilidade – decorando o nome de um componente. Pior, eu me lembro dessa palavra até hoje: dimetilaminofenildimetilpirazolona (acreditem: não copiei de lugar nenhum, é decorado mesmo).

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Acredita-se que Alexander Graham Bell, físico e eletricista nascido na Escócia e naturalizado estadunidense, inventou o telefone quando pesquisava uma maneira de curar sua mulher, que era surda-muda. Graham Bell manteve, entre 1876 e 1888, uma luta jurídica com o estadunidense Elisha Gray, que dizia ter sido ele o inventor do telefone. A justiça decidiu a favor de Graham Bell.

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Em 22 de março de 1850, o poeta e deputado Pedro Pereira apresentou o primeiro projeto de abolição da escravatura no Brasil.

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Existe em Fortaleza uma estátua de Iracema, mas não na praia de Iracema e sim na do Meireles, no local onde, segundo o romance de José de Alencar, ela ficou esperando o amado. Aliás, a praia de Iracema não é bem uma praia, é um antigo porto, e tem tradição de vida noturna.

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Um certo Daniel, filho de um francês huguenote refugiado na Inglaterra, escreveu um livro chamado “O Consórcio – ou Transações no Mundo da Lua”, de ficção, imaginando uma máquina que viajava pelo espaço, mas não fez nenhum sucesso. Depois ele mudou seu sobrenome Foe para Defoe e publicou “As aventuras de Robinson Crusoé”.

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Em 18 de julho de 1913, foi fixada por lei a “hora legal” brasileira, que dividiu o país em quatro fusos horários.

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Os “dias santos” eram os verdadeiros feriados dos caipiras. Trabalhar em 7 de setembro ou 15 de novembro, por exemplo, era comum, mas não se trabalhava de jeito nenhum no dia de São Bento, protetor contra picadas de cobra. Por falar em santo protetor… aí vão alguns deles: São Benedito protege contra a fome, não deixa faltar alimento; São Francisco de Assis, todos sabem, é protetor dos animais em geral, mas os cachorros têm um protetor a mais, São Lázaro. Santa Luzia é protetora dos olhos e da visão e São Brás é protetor contra doenças na garganta.

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O Brasil deu asilo político a alguns líderes da Comuna de Paris, esmagada em maio de 1871.

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Potiguara, o gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, significa comedor de camarão. Mas há historiadores que dizem que no início da colonização portuguesa os lusitanos pronunciavam petinguara, que significa mascador de fumo. Petim ou betim é tabaco na língua tupi.

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Ditados sobre QUEM…
Quem anda pela cabeça dos outros é piolho.
Quem apanha de mulher não dá parte ao delegado.
Quem canta não assobia.
Quem casa com mulher feia não tem medo de assombração.
Quem com porcos se deita, farelos come.
Quem faz uma vez, faz duas ou três.
Quem mente precisa ter boa memória.
Quem muito se abaixa, o cu aparece.
Quem não furta nem herda, não tem senão merda.
Quem não sabe fingir, não sabe governar.
Quem nasceu pra ser tatu, morre cavando.
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Quem quer enricar em um ano, em seis meses o enforcam.
Quem rouba tostão é ladrão, quem rouba milhão é barão.
Quem se deita com menino, amanhece mijado.
Quem tem medo de cagar, não come.
Quem tem perna curta, levanta mais cedo e sai primeiro.

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Assim falou Dario (jogador de futebol): “Não me venha com problemática, que eu tenho a solucionática”.

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Assim falou Vicente Matheus (então presidente do Corinthians, sobre a versatilidade dos jogadores): “Jogador de futebol hoje tem que ser como o pato, que é um animal aquático e gramático”.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Nem todo “escravo” tem a “mentalidade da Casa Grande”

valteremirmauroPor Valter Pomar.

Nunca foi fácil a vida da militância de esquerda que defende o Partido dos Trabalhadores.

Entretanto, ainda mais difícil anda a vida daquela militância de esquerda que é contra o PT.

Afinal, no atual ambiente político, esta “oposição de esquerda” corre o risco de ser vista, ou de converter-se objetivamente, ou pelo menos é acusada de ser linha auxiliar da oposição de direita.

A situação vem gerando polêmicas duras, como fica claro na leitura de Emir Sader (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições”); no editorial do Brasil de Fato (dia 03 de junho, falando das “Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo”); e na resposta de Mauro Iasi, intitulada “O escravo da casa grande e o desprezo pela esquerda” .

Não pretendo comentar aqui o texto do Emir Sader. A quem interessar, sugiro a leitura deste artigo.

Tampouco pretendo criticar aqui o editorial do Brasil de Fato, embora considere um equívoco o uso que dão ao termo “neodesenvolvimentismo”.

Vou me limitar ao texto do Mauro Iasi, que busca “identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”, concluindo em 2014 o mesmo que já havia concluído em 2005, a saber: que o PT “assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores”, sendo “um setor da classe trabalhadora” que foi “capturado pela hegemonia burguesa”.

Noutras palavras: “o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês”, sendo que “na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios (…) dos bancos (…), do agronegógio” etc.

O problema da análise de Mauro Iasi é não conseguir explicar por quais motivos o grande capital, setores médios, a direita, o oligopólio da mídia e os governos imperialistas estão tão irritados com o governo Dilma.

Mauro Iasi sabe que precisa explicar esta “irritação”. Tanto é que afirma o seguinte: “mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação.”

Segundo este raciocínio, as candidaturas da oposição são “instrumento para ameaçar, chantagear e negociar melhores condições”.  Ficando implícito que a opção preferencial do “capital monopolista” é governar com o PT e através do PT.

Lamento, mas isto não é “análise concreta da situação concreta”, recordando muito a postura predominante no Partido Comunista frente ao segundo governo Vargas. Naquela ocasião, os comunistas foram incapazes de entender e toma posição adequada frente ao imenso ódio e oposição do imperialismo e da “burguesia realmente existente” contra um governo… burguês.

Iasi parece consciente de que sua análise não consegue dar conta de explicar este aspecto da realidade: por qual motivo um governo que aplica políticas “que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores” gera tamanho ódio por parte do grande empresariado e de parcela dos setores médios etc.

Mauro sugere que o problema estaria no foco de análise: trata-se de observar o “período histórico” e não apenas a “conjuntura da eleição”.

Ou seja: teríamos que evitar a “artimanha governista”, a “mágica” que faz desaparecer “o governo real” e no lugar dele coloca “um mito” que “resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso ‘neoliberalismo’, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?”

Portanto, segundo Iasi a imensa bulha do grande empresariado contra o governo encabeçado pelo PT seria um fenômeno real, mas circunscrito ao período eleitoral, pois mesmo derrotado, entre uma eleição e outra o grande empresariado acabaria conseguindo aquilo que deseja.

Novamente, apelo por uma “análise concreta da situação concreta”: a postura amplamente majoritária no grande empresariado, de oposição ao governo Dilma, não é um fenômeno eleitoral. Começou antes, com destaque para o momento em que o governo tentou enfrentar os bancos. A esse respeito, aliás, recomendo a ótima entrevista do professor Adalberto Moreira Cardoso aqui.

Mauro Iasi comete o mesmo erro pelo qual critica o Brasil de Fato: circunscrever a “análise da situação concreta” a um aspecto da realidade. O PT rebaixou seu programa a um patamar “pequeno burguês”? Verdade. O governo é de aliança com setores do grande capital? Verdade. O governo aplica políticas de interesse do grande capital? Também é verdade. Mas o governo também aplica outras políticas e expressa outros setores sociais, o quê, nas condições concretas do Brasil e do mundo entre 2011-2014 entra em conflito com os interesses presentes e futuros do grande capital. O erro de Iasi consiste, no fundamental, em desconhecer ou minimizar este aspecto da realidade, este conflito de classe.

Não se trata de artimanha, de mágica, nem de um fenômeno eleitoral, mas de variáveis bastante “simples”, tais como o nível de emprego, a política de salários, a presença do Estado na economia, o nível de democracia e participação, a relação com os Brics e com a região latino-americana etc.

Algumas destas variáveis são tão visíveis, que Mauro Iasi tem que admitir a existência de “duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado”.

De fato, esta disputa existe, e não é de hoje. Aliás, ao longo do século XX, o papel do Estado na economia foi uma variável muito importante da disputa entre duas vias de desenvolvimento capitalista, a conservadora (que predominou) e a democrática (que geralmente foi derrotada).

Claro que, tomada “em si”, a defesa de um forte papel do Estado não implica em ser de esquerda, nem mesmo em ser democrata. Mas, pergunto: nas condições concretas do período 1980-1989, 1990-2002 e 2003-2014, quais classes e frações de classe defenderam/defendem que o Estado tenha um papel mais ativo na economia e quais classes e frações de classe defenderam/defendem que o Estado tenha um papel menos ativo na economia? E como isto se relaciona com o conjunto dos interesses de cada classe e fração de classe existente no Brasil?

Se não respondermos a estas questões, apontando qual fração defende o que neste determinado momento, a conclusão será acaciana e tautológica: enquanto houver capitalismo, o Estado capitalista cumprirá um papel funcional ao desenvolvimento capitalista.

Ao invés de responder a esta e outras questões concretas, Mauro opta por algo que me parece uma conclusão “pré-fabricada”, que já estava pronta antes da análise começar e que independe desta análise, a saber: o “pacto social e de implementação de um social-liberalismo” estariam impedindo o “avanço da consciência de classe”.

Para facilitar o debate, admitamos que isto fosse verdade e respondamos o seguinte: a vitória do PSDB (ou do PSB) nas eleições de 2014 romperá este “pacto social” e interromperá a “implementação do social-liberalismo”? Em caso positivo, o que será colocado no lugar?

Se a resposta é que tudo vai continuar como antes, que o pacto social e o social-liberalismo continuarão, então a “mudança” consistiria “apenas” na derrota eleitoral do PT. Neste caso, pergunto: é então da derrota do PT que dependeria o “avanço da consciência de classe”? Se a resposta for sim, então é correto dizer que a “oposição de esquerda” é “aliada objetiva” da direita?

Vamos supor que a resposta seja outra: que uma vitória do PSDB (ou do PSB) provocará mudanças mais ou menos importantes. Neste caso, pergunto: as mudanças vão melhorar ou vão piorar a vida da classe trabalhadora? Supondo que piorem, então não caberia reavaliar a análise negativa feita acerca do governo Dilma? Além disto, não caberia explicar como a piora nas condições de vida da classe trabalhadora contribuiria para o “avanço da consciência de classe”?

Quem se der ao trabalho de fazer os “exercícios lógicos” acima deveria concluir o seguinte: quem deseja romper a aliança com o grande capital, quem deseja implementar um programa mais avançado, quem deseja fazer avançar a consciência de classe, deve trabalhar pela vitória do PT nas eleições de 2014. Pois toda alternativa que implique na derrota do PT resultará em piores condições para a classe trabalhadora e para a esquerda brasileira.

Evidentemente, precisamos de uma vitória do PT em condições de fazer um segundo mandato superior. Pois segundo a análise que fazemos, esgotaram-se as condições objetivas que por breve período tornaram possível combinar presidência petista, aliança com o grande capital e políticas públicas moderadas, com avanços em termos de soberania, integração, democracia e condições de vida. A partir de agora, aconteça o que acontecer nas eleições, haverá uma disjuntiva cada vez mais acentuada. Não espero que o conjunto da oposição de esquerda perceba isto. Mas é nosso dever convencer alguns de seus integrantes e grandes parcelas de sua base social.

Um detalhe que me escapou [atualização, 18/06/2014]

Ao comentar o texto de Mauro Iasi, me escapou falar de um aspecto importante: sua descrição acerca do que ocorreu com a esquerda petista. Reproduzo integralmente:

“Para manter a ‘imagem’ do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?”

O que falta nesta descrição? Na minha opinião, três aspectos: o impacto da crise geral do socialismo e da ofensiva neoliberal; a pressão direta da burguesia; e as opções da chamada esquerda.

Aquilo que Mauro caracteriza como “destruição” da esquerda do PT não teria ocorrido sem os dois primeiros fatores, mais exatamente sem o impacto que causaram na classe trabalhadora brasileira.  E a “reconstrução” da esquerda, por sua vez, está vinculada a mudanças no ambiente geral da luta de classes, em âmbito internacional e nacional.

Já a extensão da “destruição” (e/ou o êxito da “reconstrução”) dependem em grande medida das opções ideológicas, programáticas, estratégicas, táticas e organizativas da própria esquerda.

Neste sentido, acho que os “métodos que foram usados nesta guerra” (métodos que Mauro chama de “sujos”) explicam muito menos do que em geral gostamos de admitir. Até porque falar dos “métodos sujos” dos outros é o tipo de discurso de quem perdeu ou de quem desistiu (tipo a “piada” dos republicanos derrotados afirmando que “nossas canções eram melhores” do que as dos franquistas).

Na minha opinião, quem continua na luta não deve “lamentar” a falta de modos (ou de gosto) do inimigo ou adversário. Devemos, é claro, denunciar toda “sujeira”. Mas o que vai decidir a luta não é um lamento, mas sim a adequada combinação entre circunstâncias objetivas, inspiração, transpiração.. e um pouco de sorte.

Deste ponto de vista, observando a trajetória da chamada esquerda petista desde 1993 até hoje, minha impressão é que podíamos ter feito muito mais e melhor para defender nossas posições.

Isto vale tanto para os que saíram do Partido, quanto para os que ficaram no Partido mas saíram da esquerda, quanto para aqueles que continuam defendendo as posições da esquerda petista (caso em que me incluo).

Existe um enorme espaço e uma enorme simpatia, dentro do PT e dentro de amplos setores da classe trabalhadora que confiam no PT, para a defesa das posições de esquerda.

Claro que neste momento há muito mais “espaço” (em governos, eleitoral, nas direções etc.) para quem sai da esquerda e se acomoda ao status quo interno.

Claro, também, que a primeira vista parece ser mais “simples”, mais “coerente”, defender certas posições fora do PT do que dentro dele.

Mas a “comodidade relativa” dos que saem da esquerda petista, seja para fora da esquerda, seja para fora do PT, não implica na solução dos problemas estratégicos postos para a classe trabalhadora.

Na minha opinião, ou conseguimos “girar à esquerda” o próprio Partido e o governo encabeçado pelo PT, ou a classe trabalhadora e o conjunto da esquerda brasileira – inclusive os setores que criticam e condenam o PT – sofreremos uma derrota de longa duração.

É por isto que, respeitando os que desistem do PT, eu não posso deixar de questionar a lógica política envolvida, em especial as ilusões dos que acreditam ser possível, ao mesmo tempo, derrotar o PT e a direita.

Ao menos no atual período histórico, não acredito em solução positiva para a classe trabalhadora brasileira que não envolva positivamente o PT. Contra o PT ou sem o PT, o desenlace será certamente negativo.

Claro que nada garante que com o PT tenhamos um desenlace positivo. Mas até onde consigo perceber, segue sendo melhor correr o risco do que não tentar.

***

Valter Pomar é historiador formado pela Universidade de São Paulo, doutor em História Econômica e gráfico formado pelo Senai. Foi secretário de Cultura, Esportes, Lazer e Turismo da Prefeitura de Campinas de 2001 a 2004. Foi secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores e, desde 1997, integra a direção nacional do Partido. Pela Boitempo, publicou Socialismo ou barbárie: documentos da Articulação de Esquerda, uma coletânea de textos sobre o debate político da esquerda brasileira no fim do século XX, mas que ainda continuam pertinentes neste início de século XXI.

VIP: Vão pros Inferno que os Pariu

14.06.17_Flávio Aguiar_VIPPor Flávio Aguiar.*

VIP é VIP, tão VIP que às vêzes vipa da conta. VIP é VIP até pra vaiar. Não aguenta ficar só na vaia. Tem que vipar, botar uns floreios, mandar tomar e otras cositas más. É que VIP tem que dar o exemplo: pra sociedade, pro mundo inteiro. Não basta gritar Buuu. Isso qualquer pobretão faz. Pior: hoje pobretão aplaude. E tem carteira assinada, compra linha branca, automóvel e viaja de avião. Onde já se viu? Então VIP tem que mandar pra juta que os pariu.

Ainda mais se for no estádio do povão. Bom, há muitos estádios do povão pelo Brasil que, aliás, hoje é mais do povão do que já foi. Mas como VIP não vipa todo o tempo no estádio do povão, e este cada vez mais frequenta os espaços que antes era só dos VIP, o VIP tem que botar para quebrar. E mandar a presidenta tomar onde o machismo VIP acha que pode todo o resto do mundo mandar tomar.

Só que o VIP esqueceu de uma coisa: o resto do mundo, os não VIP, estavam vendo tudo aquilo. E viram que foram os VIP que puxaram e mais vaiaram a vaia do mandar tomar. Então eles tomaram. Porque a coisa virou um bumerangue, e caiu-lhes na cabeça. Foi gol contra. Os seus arautos na velha mídia estão p. da vida com os VIP do Itaquerão. Diz que levantaram a bola pros populistas cortarem na rede.

Ironia das ironias: mandaram tomar e tomaram. Gente que não vota na presidenta que eles mandaram tomar disse até que iria votar, porque aquilo era um crime hediondo. Um crime contra a educação, a civilidade, a civilização, o bom gosto, o respeito, a igualdade de direitos, tudo enfim, que VIP alardeia que tem mas às vezes perde a noção. Sem falar no machismo da coisa.

Houve gente que disse até que os candidatos dos VIP – daqueles VIP, porque tem VIP que não faz estas barbaridades, seja porque não concorda com elas, seja porque sabe a hora de ficar quieto – perderam a eleição de outubro ali, na vaia VIP do Itaquerão. Convenhamos, é exagero. O povo brasileiro vota com a própria consciência e não vai eleger ou deseleger uma presidenta por causa de uma vaia VIP, assim como não vai votar por causa de uma bola entrando neste ou naquele gol. Esta é uma ilusão daqueles VIP.

Mas VIP que é VIP deste tipo de VIP não percebe estas coisas. Porque no fundo, VIP deste tipo de VIP padece do complexo de madrasta da Branca de Neve. Só sabe olhar nos olhos de outros VIP e perguntar, maravilhado: diga-me, VIP, existe alguém mais VIP do que eu? E se o outro VIP responder que sim é capaz de levar uma bolacha nas fuça pior que patada de zagueiro aloprado. VIP que é VIP, modelo Itaquerão, responde que não, e depois espera, educadamente, a sua vez de perguntar: e eu?… E o VIP que é VIP responde então, meu bem, você é tão VIP quanto eu… E daí os dois juntos mandam a presidenta tomar.

Mas VIP que é VIP não perde a linha VIP. Sai dali pronto pra outra. Pega o carrão, o helicóptero, a lancha, o escambau, amaldiçoa o povo e manda ele tomar onde queira. Enquanto isto o povo solta rojão e faz a festa.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O escravo da Casa Grande e o desprezo pela esquerda

14.06.16_Mauro Iasi_Desprezo pela esquerdaPor Mauro Iasi. 

Malcom X comparou, certa vez, os negros que defendiam a integração na sociedade norte americana com escravos da casa. Para defender suas pequenas posições de acomodação na ordem escravista, buscavam imitar seus senhores, copiar seus maneirismos, usar suas roupas, sua linguagem, adotando o nome da família de seus senhores. Daí o “X” no lugar do sobrenome do revolucionário norte americano.

Não é de se estranhar que os escravos da Casa Grande se incomodassem com as revoltas vindas da Senzala, pois poderiam atrapalhar sua instável acomodação, sua sobrevivência subserviente.

Dois textos recentes me chamam a atenção, não sei se produzidos pela mesma pena, mas certamente movidos pelo mesmo ódio e desprezo contra a esquerda em nosso país. Um deles é de autoria do sociólogo Emir Sader neste blog (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições), que recentemente comparou os manifestantes a cachorros vira-lata, outro é o editorial do Brasil de Fato de 03/06/2014 (“Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo“) que, não contente em se aliar ao campo de apoio a Dilma, abriu as baterias contra a esquerda – aquela mesma que em muitas situações apoiou esse jornal, não apenas nas campanhas para sua sustentação, mas participando de seu conselho editorial e apoiando nos momentos mais difíceis.

Tanto o sociólogo como o jornal têm o direito de apoiar quem quiserem, de emitirem suas opiniões, mas o que nos chama a atenção é a necessidade de atacar a esquerda e a forma deste ataque. Como em todo o debate que busca fugir do mérito da questão (talvez pela dificuldade em realizar o debate neste campo) lança-se mão de estigmas. É preciso caracterizar os oponentes como “esquerdistas”, “minorias”, “intelectuais vacilantes da academia”, ou mais diretamente de “imbecis”.

Por vezes devemos aceitar o debate não pela qualidade dos argumentos ou a seriedade dos adversários, mas em respeito àqueles que poderiam se beneficiar do bom debate. Para isso temos que supor que o debate é sério e que há uma questão de fundo, ainda que para isso tenhamos que separar uma grossa camada de retórica que visa desqualificar o debate para não enfrentá-lo.

O argumento central da posição expressa nos textos citados, mas explícita e de forma mais clara no editorial do Brasil de Fato, poderia ser assim resumida: os governistas teriam uma “visão ampla da luta de classes”, que articularia três dimensões – a luta social, a ideológica e a institucional – atuando com “firmeza ideológica e flexibilidade tática”; enquanto os supostos esquerdistas “ignoram a correlação de forças” no Brasil e na America Latina e concentram muito mais nas criticas do que nas realizações dos governos “populares”. Isso porque subordinam suas posições, como “vacilantes intelectuais da academia” ou partidos “sem o mínimo peso eleitoral”, não a uma análise concreta de uma situação concreta, mas a uma “fidelidade” ao marxismo ortodoxo.

O resultado desta premissa, segundo a posição expressa, é o seguinte:

“Por isso, para serem condizentes com uma análise concreta de uma situação concreta, os partidos de esquerda sem o mínimo de peso eleitoral, que não conseguem enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares durante as eleições deveriam estar fortalecendo a candidatura de Dilma, mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular.

Mesmo na posição de um “vacilante intelectual do mundo acadêmico, fiel ao marxismo e de um partido sem peso eleitoral”, gostaria de iniciar o debate afirmando que nossos colegas deveriam seguir, antes de mais nada seus conselhos. Se não vejamos. O erro do “esquerdismo”, que o impediria de realizar uma análise concreta de uma situação concreta, é que “não conseguem identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”.

Então vamos lá. Quais são as classes e frações de classe que se somam aos governos do PT? O PT produziu-se como experiência histórica da classe trabalhadora que acabou por projetar-se numa organização política que, sem perder a referencia passiva desta classe, assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores. Não se trata de uma questão de origem de classe, mas do caráter de classe da proposta política apresentada em nome dos trabalhadores.

É preciso explicar aos leitores que nós (intelectuais vacilantes fieis ao marxismo) não concebemos a classe social como mera posição nas relações sociais de produção e formas de propriedade, mas como uma síntese de determinações que partindo da posição econômica, devem se somar a ação política, a consciência de classe e outros aspectos. Dessa forma, um setor da classe trabalhadora, ainda que partindo originalmente deste pertencimento, pode em sua ação política e na sua intencionalidade, afirmar outro projeto societário que não aquele que nossa experiência histórica constitui como meta – o socialismo –, sendo capturado pela hegemonia burguesa, naquilo que Gramsci chamou de “transformismo”.

No caso do PT acaba por se consolidar um projeto que tem por principal característica quebrar as reivindicações sociais do proletariado e dar a elas uma feição democrática; despir as formas puramente políticas das reivindicações da pequena burguesia e apresentá-las como socialistas, e tudo isso para exigir instituições democráticas republicanas “não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia.” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte, p. 63).

Assim o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês. Mas o PT não governa sozinho, têm razão nossos colegas. É necessário seguir nossa análise para responder quais classes e setores de classe compõem o governo Dilma. Como o centro do projeto político foi deslocado para chegar ao governo federal e lá se manter, são necessárias alianças e até mesmo o programa de reformas democrático-populares é por demais amplo (seria o que André Singer chama de “reformismo forte”), então, rebaixa-se o programa (um “reformismo fraco”) e amplia-se as alianças. Para qual direção?

Não podemos confundir a sopa de letrinhas do leque de alternativas partidárias com segmentos de classe, mas eles são um indicador das personificações desses interesses. As alianças inicialmente pensadas como um leque entorno da classe trabalhadora, setores médios e pequenos empresários, se amplia bastante agora no quadro de um Pacto Social. Vejamos:

“Um novo contrato social, em defesa das mudanças estruturais para o país, exige o apoio de amplas forças sociais que dêem suporte ao Estado-nação. As mudanças estruturais estão todas dirigidas a promover uma ampla inclusão social – portanto distribuir renda, riqueza, poder e cultura. Os grandes rentistas e especuladores serão atingidos diretamente pelas políticas distributivistas e, nestas condições, não se beneficiarão do novo contrato social. Já os empresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a ampliação do mercado de consumo de massas e com a desarticulação da lógica financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico. Crescer a partir do mercado interno significa dar previsibilidade para o capital produtivo.”

Resoluções do 12.º Encontro Nacional (2001). Diretório Nacional do PT (São Paulo, 2001, p. 38).

Este pacto social com “empresários produtivos de qualquer porte” não deixaria de fora nem mesmo os “rentistas”, como se comprovou. A chamada governabilidade exigiria que as personificações partidárias destes interesses estivessem na sustentação do governo, de forma que o governo de “centro” (pequeno-burguês) buscou e conseguiu se aliar com siglas da direita (PMDB, PTB, PP, PSC e outras). Na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios no Ministérios da Indústria, dos bancos no Banco Central, do agronegógio no Ministério da Agricultura, assim como o controle das agências reguladores e outros espaços formais e informais de definição da política governamental.

Evidente que haverá participação dos “trabalhadores”, mas há aqui uma diferença essencial. Enquanto os setores do grande capital monopolista levam suas demandas à política de governo e as efetivam, as demandas dos trabalhadores são, por assim dizer, filtradas. Enquanto a CUT defendia suas resoluções em defesa da previdência pública, um ex-presidente da entidade assume o ministério para implementar a reforma da previdência, assim como a luta pela reforma agrária é tolerada, mas filtrada e peneirada em espaços intermediários para que os militantes comprometidos não cheguem aos espaços de decisão sobre a questão fundiária e agrária, estes reservados aos representantes do agronegócio.

Podemos ver militantes e personificações de segmentos importantes da classe trabalhadora em áreas como a saúde, a assistência social e outras, no entanto, o espaço efetivo de implementação de políticas ficaria constrangida pelas áreas de planejamento e a lógica da reforma do Estado para produzir a subserviência à lei de responsabilidade fiscal e a política de superávits primárias que tanto agrada aos banqueiros.

Recentemente a presidente Dilma, através da deputada Kátia Abreu (aquela mesmo!!!) da bancada ruralista, garimpava apoio entre os diferentes setores do agronegócio (gado, soja, milho, etc.), enquanto Paulo Maluf posava sorridente ao lado do candidato do PT ao governo de São Paulo em troca de alguns minutos no tempo de TV.

O governo de pacto social com os setores da grande burguesia monopolista e a pequena burguesia que sequestrou a representação da classe trabalhadora, implica nos limites da ação de governo, isto é, impedem o “reformismo forte” e impõe um “reformismo fraco”. Para atender as exigências da acumulação de capital dos diversos segmentos da burguesia monopolista, as demandas dos trabalhadores têm que ser contingenciadas, focalizadas, gotejadas, compensatórias.

Queria-se acabar com a fome e a miséria, mas devemos nos contentar em combater as manifestações mais agudas da miséria absoluta. Queríamos uma reforma agrária (e mais que isso, não é, uma nova política agrícola e de abastecimento, etc.), mas devemos nos contentar com crédito para assentamentos competirem com o agronegócio e assistência para os que não conseguem. Não se revertem as privatizações realizadas e cresce a lógica privatista com as fundações público privadas, as OSs e outras formas diretas ou indiretas de privatização.

O problema é que, mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação. O leque de alianças da governabilidade petista não implica fidelidade dos setores do capital monopolista, adeptos do amor livre, entendem o apoio ao governo do PT como uma relação aberta. Por isso aparecem na época das eleições na forma de suas personificações como partidos de “oposição”.

Tal dinâmica produz um movimento interessante. Amor e união com a burguesia monopolista durante o governo e pau na classe trabalhadora (combinada com apassivamento via políticas focalizadas e inserção como consumidores); e briga com a burguesia e promessas de amor com os trabalhadores na época de eleição!

A abertura da Copa e a hostilização vinda da área VIP contra a presidente funciona aqui como uma metáfora perfeita: eles fazem a festa para os ricos, enchem o estádio com a elite branca e rica, esperando gratidão, mas a elite xinga a presidente.

A artimanha governista é circunscrever a propalada análise concreta de uma situação concreta à conjuntura da eleição e não do período histórico em que esta conjuntura se insere. Graças a esta mágica, desaparece o governo real entre no lugar um mito que resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso “neoliberalismo”, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?

Não são iguais, é verdade. São duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado.

Precisamos circunscrever a análise da correlação de forças ao momento eleitoral para evitar a derrota do governo Dilma, vejam, “mesmo sabendo que o neodesenvolvimentismo em curso não é uma alternativa popular”!

Então, comecemos por aí: o atual governo NÃO É UM ALTERNATIVA POPULAR! Já é um bom começo. Mas tenho uma péssima notícia… também não é neodesenvolvimentista, seja lá o que isso queira dizer. É um governo de pacto social que, partindo de um programa e uma concepção pequeno-burguesa, crê ser possível manter as condições para a acumulação de capitais o que leva a uma brutal concentração de renda e riqueza nas mãos de um pequeno grupo, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco e muito lentamente, apresenta a limitada intenção de diminuir a pobreza absoluta e incluir os trabalhadores na sociedade via capacidade de consumo (bolsas, salários e crédito, etc.).

Ora, o que deve fazer a esquerda “sem o mínimo de peso eleitoral, que não consegue enraizar sua mensagem programática e nem contribuir para o avanço da consciência de classe das massas populares”? Dizem os governistas: votar na Dilma. No entanto, desculpe a insistência de quem faz análise concreta de situação concreta não só quando chegam as eleições e água bate na bunda; mas, e se for exatamente este processo de pacto social e de implementação de um social-liberalismo que está impedindo o “avanço da consciência de classe”? Depois de 12 anos de governos desta natureza a consciência de classe está mais avançada que estava nos anos 80 e 90? Nos parece que não.

Se somos tão insignificantes, irrelevantes e idiotas… por que é necessário bater desta forma na esquerda? Pelo simples fato que nossa existência, a existência de uma ESQUERDA (não a pecha de esquerdismo que tenta se impor contra nós como estigma), é a denuncia explícita dos limites e contradições que o governismo e seus lacaios querem jogar para debaixo do tapete.

Para manter a “imagem” do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?

As manifestações seriam, segundo os governistas, uma ofensiva da direita para sujar a imagem bela e idealizada do governo e o esquerdismo joga água neste moinho. Interessante que a necessidade de uma análise concreta de uma situação concreta, da correlação de forças e das classes não é necessária quando se trata das manifestações. MTST, garis, metroviários, professores, são todos imbecis marionetes da direita, manipulados por ela e quando pensam lutar por seus direitos e demandas estão fazendo o jogo da direita. Somos nós que fazemos o jogo da direita… tem certeza?

De nossa parte, não nos incomodamos, porque não esperamos nada mais que isso como consequência do progressivo, e triste, processo de descaracterização e rebaixamento político. Não será a primeira vez que a política pequeno-burguesa, que se diz representante de todo o povo, se alia ao trabalho sujo da direita para combater a esquerda.

Respondemos àqueles que acreditam que estamos isolados com as palavras de Lenin, com quem aprendemos a fazer análise concreta de uma situação concreta:

Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!
(Lenin, Que fazer?, São Paulo: Expressão Popular, 62).

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Mauro Iasi, Emir Sader, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior e Mike Davis, entre outros!

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

O resgate do soldado Ivã

14.06.16_Mike Davis_O resgate do soldado Ivã[Стоять на смерть, foto de Emmanuel Yevzerikhin, tirada na Bielorrússia em 1944, durante a Operação Bagration]

Por Mike Davis.*

A batalha decisiva pela libertação da Europa começou há 70 anos, em junho, quando um exército soviético de guerrilhas emergiu das florestas e charcos da Bielorrússia, para lançar ataque surpresa contra a retaguarda da poderosa Wehrmacht.

As brigadas do Exército Vermelho e combatentes da Resistência, entre os quais muitos judeus e foragidos de campos de concentração, plantaram 40 mil cargas de demolição. Devastaram as estradas de ferro, vitais para a conexão entre o Centro do Exército Alemão e suas bases na Polônia e no leste da Prússia.

Três dias depois, dia 22 de junho de 1944, no terceiro aniversário da invasão de Hitler contra a União Soviética, o marechal Zhukov deu a ordem para o assalto principal contra as linhas alemãs. 26 mil armas pesadas pulverizaram as posições avançadas dos alemães. Os gritos dos foguetes Katyusha foram seguidos pelo rugido de 4 mil tanques e pelos gritos de combate (em mais de 40 línguas) dos 1,6 milhão de soldados soviéticos. Assim começou a Operação Bagration, assalto contra um front alemão de mais de 600 quilômetros.

Esse “grande terremoto militar”, como o designou o historiador John Erickson, só parou nos arredores de Varsóvia, com Hitler deslocando as reservas de elite da Europa ocidental para tentar conter a maré vermelha no leste. Resultado disso, tropas norte-americanas e britânicas que combatiam na Normandia não tiveram de enfrentar as divisões Panzer mais bem equipadas.

O QUE NÃO SE DIZ

Mas o que os norte-americanos algum dia souberam sobre a Operação Bagration? Junho de 1944 significa a Praia de Omaha, não o Rio Dvina a ser ultrapassado. A ofensiva soviética do verão foi várias vezes maior que a Invasão da Normandia (Operação Overlord),tanto na escala das forças envolvidas quando no preço direto que custou aos alemães.

No final do verão, o Exército Vermelho chegara já às portas de Varsóvia e às trilhas entre os Cárpatos que levam à Europa Central. Tanques soviéticos já haviam tomado em movimento de pinça o Centro do Exército Alemão e o destruíram. Só na Bielorrússia, os alemães perderiam mais de 300 mil homens. Outro gigantesco exército alemão fora cercado e seria aniquilado ao longo da costa do Báltico. E estava aberta a estrada para Berlim. Graças ao soldado Ivã.

Não se trata de não ver os valentes que morreram no deserto do norte da África ou nas florestas geladas em torno de Bastogne. Trata-se, isso sim, de lembrar que 70% da Wehrmacht estão sepultados, não em campos franceses, mas nas estepes da Rússia. Na luta contra o nazismo, morreram cerca de 40 ‘Ivãs’ para cada ‘soldado Ryan’.

27 MILHÕES DE MORTOS

Hoje os especialistas estimam que 27 milhões de soldados e cidadãos soviéticos morreram na 2ª Guerra Mundial. Estranhamente porém, o soldado soviético comum – o mecânico de tratores de Samara, o ator de Orel, o mineiro de Donetsk, a menina do ginásio de Leningrado – é invisível na atual celebração e remitologização da ‘grande geração’.

É como se o “novo século norte-americano” não consiga jamais nascer sem, antes, exorcizar o papel central que os soviéticos tiveram na vitória epocal contra o fascismo, que marcou o século 20.

Verdade é que muitos norte-americanos são chocantemente ignorantes de grande parte da verdade sobre combates e mortos na 2a. Guerra Mundial. E até os raros que compreendem alguma coisa do gigantesco sacrifício dos soviéticos para derrotar o nazismo na Europa tendem a vê-lo em termos de estereótipos ‘jornalísticos’: o Exército Vermelho não passaria de horda bárbara movida pela besta fera do vingancismo e do nacionalismo russo. Combatentes civilizados, que defendiam ideais civilizados de liberdade e democracia, para os norte-americanos, só GI Joe e Tommy…

Por isso precisamente é ainda mais importante lembrar que – apesar de Stalin, do NKVD e do massacre de uma geração de líderes bolcheviques – o Exército Vermelho sempre preservou elementos poderosos da fraternidade revolucionária. Aos olhos dos russos, e dos muitos que o Exército Vermelho livrou das garras dos nazistas, aquele ainda é o maior exército de libertação da história do mundo. Importante saber que o Exército Vermelho de 1944 ainda era exército soviético.

O EXÉRCITO VERMELHO

Entre os generais soviéticos que lideraram a tomada do rio Dvina havia um judeu (Chernyakovskii), um armênio (Bagramyan) e um polonês. Diferente das forças britânicas e dos EUA – divididas por classes e racialmente segregadas –, o comando do Exército Vermelho era escada aberta, embora difícil de escalar, de oportunidades.

Quem ainda tenha dúvidas da paixão revolucionária e da humanidade que unia todos no Exército Vermelho, deve consultar as extraordinárias memórias de Primo Levi (É isto um homem?) e KS Karol (Entre Dois Mundos). Ambos odiaram o stalinismo e amaram o/a soldado/a soviético/a comum, e viam nele/nela as sementes da renovação do socialismo.

Assim sendo, depois da recente [em 2004]  degradação, por  George Bush, da memória do Dia D, reduzido a cena explícita de apoio aos crimes dos EUA no Iraque e no Afeganistão, tomei a decisão de fazer, eu mesmo, minha comemoração privada.

Relembro então, em primeiro lugar, meu Tio Bill, caixeiro viajante de Columbus – e é difícil ver aquela alma gentil como guerreiro adolescente GI na Normandia. E em seguida – como tenho certeza de que meu Tio Bill teria aprovado – relembro também seu camarada soldado Ivã.

O camarada Ivã dirigiu seu tanque até o portão de Auschwitz; foi quem abriu caminho até o bunker de Hitler. A coragem e a tenacidade do camarada Ivã derrotaram a Wehrmacht, e nada tiveram a ver com os erros do tempo de guerra e os crimes de Stálin. O mundo tem dois heróis: meu Tio Bill e seu camarada Ivã, soviético. É obsceno homenagear o primeiro sem também homenagear o segundo.

* Publicado em inglês no The Guardian em 11 de junho de 2014. A tradução é de Sergio Caldieri, para a Tribuna da Internet .

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Dos livros de Mike Davis publicados pela Boitempo, Planeta favela (R$ 22,00 aqui), Cidade de quartzo (R$ 32,00 aqui), Occupy (R$ 5,00 aqui) e Cidades rebeldes (R$ 5,00 aqui) já estão à venda em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do impresso.

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Planeta favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de quartzo. O autor também colabora com o livro de intervenção Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 

“O Maraca é nosso”? | As torcidas de futebol do Rio de Janeiro e suas percepções sobre o novo Maracanã

14.06.13_O Maraca é nossoPor Bernardo Buarque de Hollanda e Jimmy Medeiros.

Introdução

Uma das polêmicas que envolveu os preparativos da Copa do Mundo da FIFA no Brasil foi a conversão de suas antigas praças de desportos em as arenas multiuso, modernizadas para o torneio que se realiza no momento. Dentre os efeitos perversos deste processo, pode-se apontar o encarecimento do preço dos ingressos para o público frequentador de estádios no país.

O dispêndio de dinheiro público e as parcerias do Estado com a iniciativa privada geraram nos últimos sete anos uma série de ceticismos e críticas por parte da opinião pública. Especulou-se o ônus para o governo brasileiro no provimento de tal “legado” esportivo. Os protestos populares dos meses de junho e julho de 2013, que coincidiram com a Copa das Confederações realizada no Brasil, foram um sintoma contundente das discórdias em torno do acontecimento promovido pela FIFA.

Junto à elitização das praças de esportes, o modelo das arenas implica, como sabemos, numa mudança substancial do tipo de comportamento do torcedor. Em especial, saliente-se a recomendação expressa dos gestores esportivos e dos arquitetos responsáveis para que os torcedores assistam às partidas sentados, em assentos individuais e personalizados, esteados no paradigma do conforto e das tecnologias de segurança. Isto se confronta com o hábito tradicional de parte significativa das plateias futebolísticas, ligadas a seus respectivos clubes, de assistir aos jogos em pé.

Assim, a acepção geral de “legado”, tal como requerida pela entidade suíça que comanda o futebol mundial, encontra no Brasil uma série de obstáculos quando aplicada a esse quesito. No país, os estádios têm uma tradição pública e não privada, isto é, foram construídas em sua maioria pelo governo federal entre os anos 1950 e 1970. Apenas de maneira pontual houve a presença da iniciativa particular dos clubes. Ao mesmo tempo, os espectadores que tradicionalmente assistem às partidas são aqueles interessados no futebol de clubes, e em campeonatos em escala nacional e regional nos quais seus times participam.

Desde a década de 1990, são pouco frequentes as partidas da Seleção Brasileira no país, uma vez que a CBF – Confederação Brasileira de Futebol – e suas empresas patrocinadoras cada vez mais preconizam um calendário de jogos no exterior, o que lhes proporciona mais benefícios financeiros.

Sendo assim, para além da necessária renovação e reforma dos estádios brasileiros, a adequação às exigências da FIFA coloca em questão a modificação radical da fisionomia social do público pagante e, por conseguinte, da configuração futebolística. Trata-se de sua modernização e da subsequente adequação aos padrões internacionais das arenas multiuso.

Em poucas palavras, isso acarreta a correlata mudança da “cultura torcedora” no Brasil. São essas disputas entre “tradição” e “modernidade” no interior dos estádios que têm dividido opiniões na sociedade e ocupado o centro das atenções nos meses que antecedem a realização do megaevento esportivo.

Para apresentar esse tema aos leitores do blog da Boitempo Editorial, estruturamos nosso texto em torno de um caso: o da destruição e o da reconstrução do Maracanã. Partimos de um impasse, qual seja, o legado das praças esportivas proposto pela FIFA não coincide com o modo tradicional de torcer nos estádios brasileiros. Grosso modo, a disparidade entre um e outro opõe a adesão contínua durante todo o ano ao clube do coração e o apoio sazonal – a cada quatro anos –, embora com apelo coletivo midiático, à seleção nacional.

Se a valoração positiva aparece implícita na altruística categoria “legado”, cunhada nas últimas décadas pela FIFA, com vistas a criar um compromisso social do país-sede para com a sua população, os gastos públicos com a reforma e com a construção de novas arenas, com particular atenção ao estádio do Rio de Janeiro – o mais tradicional e vetusto dos doze eleitos e soerguidos para a Copa –, ocasionaram efeitos inesperados e indesejados. Estes apontam em sentido contrário, como os já mencionados distúrbios durante a Copa das Confederações, ocorridos no ano passado, e que podem se repetir durante a Copa do Mundo.

Ademais, as experiências negativas em estádios recém-inaugurados para a Copa, através de confrontos entre torcedores de clubes oponentes no Campeonato Brasileiro de 2013 – as arenas de Brasília, Porto Alegre e Fortaleza enfrentaram esse tipo de problema –, fazem com que a positividade supostamente intrínseca ao Mundial possa ser relativizada, ou vista com mais cautela, quando se pensa na forma de torcer dentro dos novos espaços futebolísticos.

Com base em um survey realizado no estádio durante o ano de 2013, aplicado por estudantes de Ciências Sociais a pouco mais de quatrocentos frequentadores, ligados por sua vez às torcidas organizadas dos grandes clubes da cidade, vamos apresentar a seguir as percepções amostrais desses torcedores com relação a três variáveis:

A. O grau de satisfação com o novo estádio;

B. A avaliação que os mesmos fazem da infraestrutura do Maracanã para a Copa de 2014;

C. A possibilidade de a arena ainda ser palco para as formas coletivas de animar e de apoiar o time.

Percepções dos torcedores acerca do Novo Maracanã

Após 32 meses de interdição e de gastos da ordem de mais de meio bilhão de dólares para modificar a estrutura do estádio do Maracanã, os antigos frequentadores do espaço puderam no ano passado retornar e assistir aos jogos de futebol. Desde o dia 27 de abril de 2013, quando ocorreu o jogo entre as seleções do Brasil e da Inglaterra, o novo estádio foi reaberto e passou a ser utilizado em jogos da liga nacional pelos quatro grandes clubes do Rio: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama.

Durante o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil de 2013, os dois principais torneios profissionais em âmbito nacional, ambos organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), realizamos um survey com membros das torcidas organizadas desses quatro clubes cariocas. Para efeito de seleção dos entrevistados, foi considerado “torcedor organizado” o sujeito que vestia camisa, boné, calça ou bermuda da facção investigada, bem como aqueles que portam bandeira ou instrumentos musicais. Uma vez identificado com uma destas características, a pessoa estava apta a ser abordada pela equipe a participar da pesquisa.

Para o survey, foi elaborado um questionário estruturado, composto por 66 perguntas. Como não existe um cadastro dos torcedores organizados dos clubes cariocas, o que possibilitaria a adoção de uma amostra probabilística, foi escolhida uma amostra do tipo não-probabilística para a realização da pesquisa de opinião.

O trabalho de campo ocorreu durante 20 jogos transcorridos pelas duas competições. Seu início deu-se em 1º de agosto e seu fim em 16 de outubro de 2013. Neste período, foram coletados 426 questionários nas arquibancadas do estádio Maracanã e do estádio de São Januário, onde atua o Clube de Regatas Vasco da Gama.

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A pesquisa permitiu mensurar informações como o perfil sociodemográfico do torcedor organizado e produzir indicadores quantitativos para entender o seu vínculo com o futebol. O questionário proporcionou também entender a forma pela qual o torcedor manifesta adesão ao seu clube, além de conhecer um pouco mais sobre os hábitos do torcedor organizado e de avaliar a percepção desse grupo sobre o “novo Maracanã”.

É fato notório que as torcidas organizadas têm sido acusadas pelos meios de comunicação de serem os responsáveis pela violência nos estádios, com a expectativa de que as novas arenas vão contribuir para impedir os seus comportamentos belicosos e antidesportivos, tal como sucedeu na Europa.

O propósito foi tentar compreender como este tradicional subgrupo de fãs futebolísticos, que acompanham sistematicamente as partidas de seu clube, avalia e percebe as mudanças ocorridas na “cultura torcedora” em face da nova estrutura física do estádio. O grau de satisfação com o novo Maracanã, no entanto, a primeira variável utilizada neste estudo, pode ser considerado uma surpresa. Ele apresentou-se elevado, uma vez que 68% dos respondentes declararam estar satisfeitos com a configuração atual do estádio.  

Essa avaliação em muito se deve à aparente “modernização” do estádio para sua adaptação ao modelo das arenas europeias. As maiores mudanças, por exemplo, são as novas rampas de acesso ao interior do estádio, a limpeza dos corredores, a reconfiguração dos banheiros, a iluminação das marquises, os novos assentos com encosto nas arquibancadas, o maior grau de sinalização interna e o suporte do staff para orientação dentro e fora do equipamento esportivo.

Em nosso levantamento, o grau de satisfação com o novo Maracanã aumenta, à medida que cresce a faixa etária (por década) do torcedor organizado. Em menor proporção, 65% dos entrevistados com até 19 anos de idade se autodeclararam satisfeitos com o novo Maracanã. Em um patamar pouco maior, 68% dos respondentes com idade entre 20 e 29 e os com 30 e 39 anos se dizem igualmente satisfeitos. Por fim, 77% dos participantes, com idade entre 40 e 49 anos e, ainda mais alto, 78% daqueles com idade entre 50 e 59 anos manifestaram sua satisfação com o novo estádio.

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A segunda variável mensurada possui distribuição bastante similar à anterior, uma vez que a avaliação que os mesmos fazem da infraestrutura do Maracanã para a Copa de 2014 também é alta. Afinal, 71% dos participantes da pesquisa possuem uma avaliação positiva desta dimensão, ou seja, segundo a percepção do torcedor organizado dos clubes cariocas, o estádio está pronto para a realização do mundial de seleções da FIFA.

Com base nos dados levantados, somente 8% dos participantes da pesquisa avaliam a infraestrutura do estádio para a Copa de maneira negativa, como “ruim” ou “péssima”. Já 21% indicam neutralidade na avaliação do item.

Além disso, há uma tendência à associação entre as duas variáveis descritas anteriormente, uma vez que, quanto maior o grau de satisfação com o novo Maracanã, maior a tendência em avaliar de forma positiva a infraestrutura do estádio para a Copa 2014. Apenas para ilustrar, nenhum entrevistado que se diz “muito satisfeito” com o estádio julgou negativamente a sua infraestrutura.

Todavia, essas avaliações positivas do atual público que frequenta o Maracanã não se refletem na terceira variável abordada neste estudo, sobre a possibilidade de o estádio ser palco para as formas coletivas de animar e apoiar o time. Para 66% dos entrevistados, o novo Maracanã prejudicou as formas de apoio e de animação das torcidas de futebol aos seus clubes na cidade do Rio de Janeiro. A configuração arquitetônica da arquibancada do estádio e o uso de cadeiras fixas individualizadas são reclamações recorrentes entre os torcedores.

Os 34% restantes dos avaliadores estão divididos entre percepções neutras e positivas. Enquanto 15% dos respondentes acreditam que as mudanças no estádio não afetam a “festa” – categoria nativa – das torcidas organizadas, um grupo relevante de 19% confia em melhorias para a festa coletiva nos próximos anos. Neste grupo de torcedores que percebe melhorias, são os entrevistados com menor grau de escolaridade a avaliar em maior proporção avanços para a festa das torcidas no novo Maracanã.

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Ademais, aparentemente, a avaliação do novo Maracanã para a festa nas arquibancadas está associada ao grau de satisfação com o estádio atual e também com a avaliação que os mesmos fazem da sua infraestrutura para a Copa de 2014. Quanto pior é a percepção da possibilidade de o estádio ser palco para as formas coletivas de animar e apoiar o time, mais negativa tende a ser o grau de satisfação com o novo Maracanã. Ao mesmo tempo, mais negativa tende a ser a apreciação da infraestrutura do estádio para o Mundial da FIFA.

Dessa forma, no atual momento, é possível identificar o novo Maracanã como um estádio bem avaliado e percebido pelos torcedores organizados como um equipamento esportivo preparado para atender a Copa do Mundo da FIFA de 2014. No entanto, sua nova configuração criou obstáculos para as formas gregárias e coreografadas de incentivo ao time das arquibancadas.

Conclusão

Nos limites espaciais desse blog, procuramos trazer a um público mais amplo um pouco da ambiência e da conjuntura que cerca a Copa de 2014 no Brasil. Embora o “nacionalismo quadrienal” projete a imagem de uma nação unanimemente voltada para o futebol, as controvérsias que acompanhamos nesses últimos sete anos permitem relativizar essa suposta unanimidade futebolística, com um debate em torno do legado do Mundial para o Brasil, em especial a renovação dos seus estádios para os meses de junho e julho de 2014.

Se, de fato, o apelo popular dessa modalidade esportiva pode ser observado no dia a dia do país, com as conversas regulares entre os cidadãos brasileiros a respeito dos jogos, indicando um modo de sociabilidade constitutivo do etos nacional, o futebol não é apenas motivo de consenso. Veículo identitário, este esporte reflete a estrutura dos conflitos presentes na sociedade brasileira e a Copa é um momento privilegiado em que tal dimensão conflitiva vem a aflorar, sobretudo em se tratando de um Mundial sediado no Brasil.

Vivemos uma fase do futebol globalizado em que a espetacularização modificou a função e a natureza dos estádios. Se, no passado, uma praça de esportes necessitava de amplas capacidades para absorver o maior número de pessoas, nos dias de hoje seu tamanho não é decisivo como dantes. Podemos dizer que a figura do telespectador é mais importante na atualidade que a do espectador de estádio.

Com a redução de sua capacidade, as atuais arenas tendem igualmente a redefinir o público desejado nas suas dependências. As massas trabalhadoras que marcaram a formação do “breve” século XX já não fazem mais sentido nos estádios ultramodernos do início do século XXI. É este fenômeno social que incide atualmente também no Brasil, palco de um megaevento esportivo cada vez mais próximo, cujo impacto atinge o futuro dos espaços físicos que circundam o campo de jogo.

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O Maracanã, referência icônica em nível internacional, foi eleito o nosso estudo de caso, em virtude das reações populares despertadas pela mudança radical da fisionomia do estádio. Para fundamentar estas controvérsias, trouxemos dados levantados durante a conjuntura do ano de 2013, junto a torcedores organizados dos quatro grandes clubes de futebol profissional do Rio de Janeiro.

Foi possível apurar que, segundo esse assíduo segmento de frequentadores do Maracanã, os resultados da profunda reforma do estádio foram, de maneira geral, avaliados positivamente. Se o grau de satisfação com as condições da infraestrutura é alto, a avaliação se torna menos positiva quando os subgrupos de torcedores opinam acerca das coreografias e dos modos tradicionais de torcer, sensivelmente prejudicados com as arenas modernizadas.

Sendo assim, mais do que pensar sobre os efêmeros trinta dias de duração da Copa em 2014, o legado dos novos estádios nos interroga tanto com a elevação do preço dos ingressos e com a exclusão das camadas populares quanto com a principal incógnita que ele deixa: em face da nova configuração social, será possível continuar a representar o Brasil como “país do futebol” no decorrer do século XXI?

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Bernardo Buarque de Hollanda foi um dos convidados a entrevistar no Roda Viva o jornalista Juca Kfouri, autor da quarta-capa de Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Confira o programa completo abaixo:

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Mauro Iasi, Emir Sader, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Bernardo Buarque de Hollanda, filho de brasileiros exilados, nasceu na Costa Rica em 1974, mas cresceu no Rio de Janeiro, onde realizou sua graduação, mestrado e doutorado. Fez pós-doutorado na Maison des sciences de l’homme, em Paris, em 2009. Desde 2010, é professor da GV e pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da mesma instituição. Suas áreas de interesse são intelectuais brasileiros, história literária e sociologia do esporte, com ênfase no fenômeno das torcidas organizadas de futebol. É autor dos livros O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (2010), O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego (2004), ABC de José Lins do Rego (2012) e o mais recente Hooliganismo e Copa de 2014 (2014). Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o especial “Brasil em jogo: o legado dos megaeventos”.

Boicotar a Copa

14.06.13_Boicotar a Copa_Ricardo GozziPor Ricardo Gozzi.

A tomada de posição contra ou a favor da realização de um evento esportivo – ainda que questionável – está longe de ser uma novidade e no passado levou países a boicotarem, por exemplo, os Jogos Olímpicos por variadas razões. Tais boicotes tiveram raízes principalmente em disputas externas, como o apartheid sul-africano e a Guerra Fria. No caso do Brasil, observa-se um estranho boicote interno, mais precisamente um autoboicote em grande parte ancorado no velho complexo de vira-latas nutrido por setores consideráveis da população, especialmente aqueles que não se sentem parte do Brasil e acham que deveriam ter nascido em qualquer outro lugar, preferencialmente mais branquinho e cheiroso do que nossa terra natal.

Talvez as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos, somadas à consolidação da democracia, ainda sejam recentes demais para sepultar no passado a manifestação dessa característica cultural tão astuciosamente resumida por Nelson Rodrigues mais de meio século atrás.

O fato é que esse autoboicote característico de setores da sociedade brasileira configura agora um componente importante da virulenta e repentina mobilização contrária à realização de grandes eventos no Brasil, como se os graves problemas locais automaticamente desqualificassem o país de qualquer pretensão de se expôr ao mundo exterior.

Salvo um cataclisma, porém, a Copa deste ano e as Olimpíadas de 2016 acontecerão de qualquer maneira, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar, e tanto faz ser contra ou a favor.

Mesmo que a realização desses grandes eventos passe ao largo de nossas mazelas, fica aberto um canal legítimo para que movimentos sociais cujas reivindicações são sistematicamente ignoradas pelo poder público deem mais visibilidade às suas bandeiras, à luta por uma sociedade menos desigual e mais justa, assim como à pressão pelo aprofundamento das conquistas dos últimos anos (leia-se mais redistribuição de renda e inclusão social e política). Uma questão de oportunidade.

Já o vira-latismo observado desponta claramente como uma reação histérica e oportunista contra a melhora, ainda modesta, das condições de vida da parcela mais pobre da população, o que é levado quase como ofensa pessoal pelos mais conservadores e pelos adoradores do mercado.

Desse ponto de vista, é até contraditória a rejeição desses setores à Copa do Mundo, ainda mais diante de uma seleção que pouco tem de brasileira e de um cenário de mercantilização desenfreada no qual o melhor futebol do mundo serve de mero exportador de matéria-prima não apenas para grandes centros, mas também para qualquer país periférico de onde jorrem alguns euros ou dólares.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Maurp Iasi, Emir Sader, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Ricardo Gozzi, 38 anos, é jornalista. Escreveu, com Sócrates Brasilieiro Democracia Corintiana: a utopia em jogo (2002), pela coleção Paulicéia da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o especial “Brasil em jogo: o legado dos megaeventos”.

E agora, Geraldo?

14.06.11_Jorge Luiz Souto Maior_E agora Geraldo_3Por Jorge Luiz Souto Maior.

Não satisfeito com as várias ilegalidades já cometidas contra o direito de greve, ilegalidades estas que, de fato, atingem toda a classe trabalhadora, o governador de São Paulo, que insiste em dizer que “ninguém está acima da lei”, afrontou uma vez mais a ordem jurídica ao determinar a dispensa arbitrária e por justa causa de 42 metroviários.

A arbitrariedade está tanto no procedimento adotado, o envio de um telegrama, com a notícia da dispensa, para as casas dos empregados, como se estes fossem estranhos, quanto no próprio fundamento utilizado:

Informamos o seu desligamento da Companhia por justa causa a partir do dia 09/06/14, com fundamento no artigo 482, alínea “b”, da Consolidação das Leis do Trabalho e no artigo 262 do Código Penal. Fica assegurado o seu direito de interposição do Recurso Administrativo previsto no Acordo Coletivo, no prazo de 3 (três) dias úteis a contar do recebimento deste telegrama. (Enviado no dia 09/06/14, às 10h07)

Vale lembrar que o julgamento da greve se deu no dia 08/06/14 e, portanto, o envio do telegrama às 10h07 do dia 09/06/14 não esteve, obviamente, relacionado a fato praticado após a decisão judicial sobre a greve.

Aliás, não está relacionado a fato algum. O telegrama diz apenas que o empregado está dispensado com base na alínea “b”, do art. 482, da CLT, que trata das figuras mais abertas e de conceituação mais complexa da legislação trabalhista: “incontinência de conduta ou mau procedimento”.

A “incontinência de conduta”, segundo Délio Maranhão1, caracteriza-se pela vida irregular incompatível com a condição ou com o cargo ocupado pelo empregado. Antônio Lamarca conta que a maioria dos autores relaciona esse tipo à vida sexual desregrada do empregado, com o que, em hipótese alguma, concorda Lamarca, o qual restringe a hipótese a atitudes sexuais desregradas no âmbito da empresa.2 Amauri Mascaro Nascimento3 diz que se trata de um comportamento irregular incompatível com a moral sexual, desde que relacionada com o emprego.

Mau procedimento, para Délio Maranhão, “está em todo o ato que revela quebra do princípio de que os contratos devem ser executados de boa-fé.”4 Antônio Lamarca o restringe a ato doloso praticado com o fim de prejudicar o empregador.5

Ambas são fórmulas que não dizem, concretamente, nada, trazendo consigo o grave risco de servirem para dizer tudo, isto é, servirem a qualquer propósito, pois se algo não tem um sentido preciso pode ter qualquer sentido.

Pois bem, fica evidenciado que se utilizou de fórmula aberta, para que depois fosse preenchida, deixando-se, inclusive, o parâmetro jurisprudencial normalmente utilizado para situações análogas, que é o de configurar a conduta do empregado que não retorna ao trabalho após a declaração da ilegalidade da greve como ato de insubordinação (art. 482, “h”, da CLT) ou abandono de emprego (art. 482, “i”, da CLT), sendo que na primeira hipótese ter-se-ia uma gradação que passaria pela advertência e pela suspensão, antes de se chegar à justa causa, e na segunda, somente se completaria após 30 (trinta) dias de faltas.

Para se chegar a uma justa causa por mau procedimento o trabalhador teria que cometer um ato com tal gravidade, totalmente contrário à boa fé, que inviabilizasse por completo a continuidade da relação de emprego, sendo que se teria que levar em consideração também a condição pretérita do trabalhador, pois a justa causa é sempre individualizada. Além disso, dentro de um contexto de greve a justa causa se examina com muito mais rigor, para que não represente ato de represália contra aqueles trabalhadores que foram os mais ativos no movimento.

Ocorre que não é de fato concreto algum que se trata. O telegrama condena a partir de uma simples citação ao artigo, abrindo prazo para recurso apenas para cumprimento formal de preceito de Acordo Coletivo, que confere uma garantia ainda maior aos trabalhadores contra arbitrariedades na dispensa. Mas recorrer do quê? Qual é a acusação?

No aspecto do outro artigo citado no telegrama, o do Código Penal, a questão é ainda mais grave, pois o trabalhador foi acusado de ter incorrido em um crime, e, concretamente, já foi condenado com a pena da perda do emprego, sem qualquer menção ao ato cometido, fazendo Kafka estremecer no túmulo.

Não é demais lembrar que nos termos da decisão do STF, proferida no RE 589.998, a dispensa, mesmo sem justa causa, de empregado de empresa pública deve ser motivada e a simples adesão à greve não constitui falta grave (Súmula 316, do STF), o que não se altera mesmo com a declaração judicial da abusividade ou ilegalidade da greve (RR-124500-08.5.24.0086, 8ª. Turma do TST, Relatora, Ministra Maria Cristina Peduzzi). Se os fundamentos fáticos para as dispensas fossem o não retorno ao trabalho e a participação ativa em greve considerada ilegal, que por si não ensejaria à justa causa, como visto, não seriam atingidos, como se deu, apenas alguns trabalhadores, seletivamente escolhidos.

As dispensas de 42 (quarenta e dois) metroviários, portanto, estão revertidas de grave ilegalidade, deixando transparecer que foram promovidas, então, em represália, com o objetivo de punir os trabalhadores como um todo pela greve e fazendo-o de modo a gerar medo nas demais categorias de trabalhadores.

No propósito de penalizar os trabalhadores, aliás, o governador não mediu esforços. Seguindo a linha de tratar movimentos sociais, estudantis e trabalhistas como casos de polícia, o que já havia feito quando enviou um enorme contingente policial (400 homens, dois helicópteros, cavalaria e diversas viaturas) para retirada de estudantes que ocupavam, em ato político, a reitoria da USP, em 2011; quando promoveu operação de guerra para desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, em 2012; quando determinou ataque policial aos manifestantes do MPL, em 2013; quando, no dia 22 de fevereiro de 2014, autorizou que 260 pessoas, dentre as 10.000, que protestavam contra os gastos da Copa, fossem cercadas pela polícia e ficassem, então, em cárcere privado, na rua, com sua liberdade subtraída, sem que tivessem cometido qualquer tipo de ilícito; quando, no último dia 15 de maio, determinou que a polícia, literalmente, fosse para cima dos manifestantes e desmontasse mais um protesto que se realizava contra os gastos da Copa; o governador, por último, na semana passada, utilizou a tropa de choque para coibir piquetes pacíficos dos metroviários e, pelo uso da mesma força, sem qualquer autorização judicial, impediu que uma manifestação de solidariedade à greve dos metroviários ocorresse, levando à prisão 13 (treze) trabalhadores e chegando ao ponto extremo da prisão de um estudante da Faculdade de Direito da PUC/SP, Murilo Magalhães, que acusa ter sido torturado, o que exige apuração urgente, com bastante rigor, vez que ameaça abrir a porta ao regime ditatorial. E convenhamos: “Ditadura nunca mais!”.

A situação é extremante grave e nos faz indagar: que Estado é esse que agride e prende pobres, estudantes e trabalhadores que estão lutando por construir uma sociedade melhor, sabendo, como todos sabem, que nossa sociedade ainda tem mesmo muito a melhorar?

Ocorre que mesmo diante de tantos ataques, os metroviários, com apoio de diversos segmentos da sociedade, assumindo a greve como direito fundamental e atuação política, resolveram manter-se em luta, sendo que desta feita pela readmissão dos trabalhadores ilegalmente dispensados. Prometem paralisação no dia 12/06/14, dia do jogo de abertura da Copa em São Paulo, caso não haja reversão dessa situação.

Nesse quadro, o que vai fazer o governo do Estado? Vai render-se às evidências e reconhecer o direito de greve dos metroviários e sentar-se, com responsabilidade, para uma negociação? Ou vai manter-se na ilegalidade, promovendo, por consequência, a ocorrência de uma situação de total desarranjo na cidade de São Paulo justamente no dia em que o mundo terá seus olhos voltados para cá? Vai mandar baixar o cacete nos trabalhadores, conduzindo-os coercitivamente ao trabalho? Vai mandar prender todos que forem às ruas em solidariedade aos metroviários? Vai determinar a prisão, sem processo, de 70% da população que apóia a greve? Vai calar as falas contrárias à política de criminalização dos movimentos sociais e estudantis e, agora, das reivindicações trabalhistas? Vai usar a força policial para impedir que se apurem as acusações de corrupção envolvendo o Metrô?

E depois? Nas eleições? Vai ameaçar de prisão a quem declarar voto em outro candidato?

É, meu caro, a escalada repressiva e autoritária em um país que, enfim, respira a democracia e está disposto a vivenciá-la, tem seu preço…

Enfim: e agora, Geraldo?

São Paulo, 11 de junho de 2014.

[1]. SÜSSEKIND, Arnaldo e outros. Instituições de Direito do Trabalho. 21ª ed. Vol. I. São Paulo: Ltr, 2003, p. 576.

[2]. LAMARCA, Antônio. Manual das justas causas. São Paulo: LTr. 1977, p. 367.

[3]. Curso de Direito do Trabalho. 14ª ed. São Paulo: Saraiva, 1997, p. 557.

[4]. SÜSSEKIND, Arnaldo e outros. Instituições de Direito do Trabalho. 21ª ed. Vol. I. São Paulo: Ltr, 2003, p. 576.

[5]. LAMARCA, Antônio. Manual das justas causas. São Paulo: LTr, 1977, p. 362.

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira e Juca Kfouri!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Futebol arteiro

14.06.10_Mouzar Benedito_Futebol Arteiro_1Por Mouzar Benedito.

Nestes tempos de discussão sobre a Copa do Mundo de Futebol no Brasil, já falei o que tinha que falar sobre o assunto.

Mas tem um lado mais divertido do futebol ou relacionado a ele.

Resolvi colocar aqui uns textos que andei publicando em livros ou na internet.

Os meus livros não costumam ter muitos leitores, então são causos praticamente inéditos, com exceção de um que se refere a um jogo da Esportiva Nova Resende, nos tempos em que se usava ainda, na região, bola de capotão do tipo que a câmara era solta dentro do capotão, e tinha que se amarrar o lugar por onde ela era colocada.

Ele trata de uma situação de conflito que o juiz teve que enfrentar e me lembrou a sabedoria do Rei Salomão quando duas mulheres diziam ser a mãe legítima de uma criança. Publiquei esse causo em vários lugares e mais tarde, em 1987, no livro Santa Rita Velha Safada (esgotado), e depois vi um monte de gente recontando esse causo como se tivesse acontecido em outras cidades. Começo por ele:

O SALOMÃO DO FUTEBOL

O time de futebol de Santa Rita Velha estava jogando na vizinha cidade de Presépio, contra seu tradicional adversário, o Presépio Sport Club. A bola, velha e meio torta, meio oval, não atrapalhava em nada a qualidade do jogo. Combinava bem com a forma de jogar dos dois times.

Aos quarenta minutos de jogo, a bola sobrou pingando para o centro-avante Cavadeira, de Santa Rita, que encheu o pé, chutou com toda força mas o goleiro estava bem colocado e pulou, agarrando a “redonda” no peito.

Acontece que a bola não resistiu. Ao bater no peito do goleiro, estourou, e ele ficou segurando só o capotão, enquanto a câmara de ar saltou para dentro do gol. Aí começou a discussão.

Os jogadores de Santa Rita começaram a comemorar, gritando que valia, era a câmara de ar, enquanto os de Presépio afirmavam que o capotão era que valia e este o goleiro pegou. Os 22 jogadores e mais os reservas falavam sem ninguém ouvir:

— O que vale é a câmara…

— Não foi gol não, o capotão não entrou…

Quando já estavam partindo pra briga foi que o juiz resolveu fazer valer sua autoridade:

— Prrriiii, prrriiii, prrriiii… — apitava alucinado para chamar a atenção dos jogadores, até que resolveram ouvi-lo.

— Quem entende de regra aqui sou eu. Eu é que sei o que vale e o que não vale.

— Então como é que é? É gol ou não é?

— Tá na regra: quando a câmara de ar entra e o capotão não entra, vale meio gol!

Foi o único jogo até hoje que terminou meio a zero.

Causos publicados no livro Serra, Mar e Bar (também esgotado):

A DESPEDIDA

Quando Elias completou 31 anos como lateral esquerdo da Esportiva Nova Resende, resolveram fazer para ele uma festa de despedida do futebol. Um detalhe: os 31 anos não eram de idade (que devia estar por volta dos 50), mas só de titular do time. Se deixassem, ele continuaria ainda. A festa foi um jeito sutil de tirá-lo pelo menos da equipe principal.

A despedida seria contra o time da Ventania, que topou o acerto: a primeira bola que fosse na sua área, um zagueiro deveria pôr a mão intencionalmente. O Elias seria encarregado de bater o pênalti e o goleiro tinha a obrigação de não defendê-lo. Aí seria feita uma grande badalação, com discursos e tudo o mais. Depois recomeçaria o jogo, já com outro titular na lateral esquerda da Esportiva. E alguém daria também um pênalti intencional a favor do time da Ventania. Só daí pra frente o jogo seria pra valer.

Desde meia hora antes do início do jogo, todos os seresteiros da cidade se revezaram num microfone improvisado em cima de um caminhão, cantando “Ave Maria do Morro”, a música preferida do Elias.

Com todo mundo em campo, fez-se um minuto de silêncio em homenagem a um ex-craque da Esportiva, que tinha morrido dias antes. Em seguida o juiz deu o início à partida e tudo correu conforme o combinado.

Aos cinco minutos de jogo, veio o pênalti. Elias bateu e marcou o gol, foi carregado pelos jogadores até o caminhão que servia de palanque. O presidente do time discursou rememorando os grandes momentos do jogador que se despedia, o prefeito falou em seguida sobre o grande cidadão, que honrava a cidade e, pra completar, foi designado para falar, representando os jogadores, o meia-direita Luizinho do Lica. O que ele fez não foi bem um discurso, falou apenas uma frase:

— Só de minuto de silêncio, o Elias tem um ano e meio!

CHUTE FORTE

Zeca, o pescador e caçador que garante nunca ter contado uma mentira em toda a vida, um dia assistia a uma discussão no Bar Esportiva Nova Resende, sobre quem tinha o chute mais forte em toda a história do futebol da cidade. Uns diziam que era o Celinho, que jogava na Esportiva e mudou-se para Juruaia. Era beque de esperta, e os tiros de meta que batia atravessavam o campo e caíam atrás do gol adversário. Outros diziam que era o Toniquinho, e havia quem defendesse o Zé Leopoldo…

No meio da discussão, Zeca, que estava calado até essa altura, resolveu entrar na conversa e todo mundo se calou, sabendo que quando ele tinha sempre alguma coisa “inédita” pra contar (e quem é que tinha coragem de chamar suas histórias de mentira?).

— Não é nenhum desses aí. O chute mais forte que já teve aqui era o do Tião Folheiro.

— Como é que o senhor sabe? — provocou o Alcindo.

— Rá! Eu era menino quando reinauguraram o campo da Esportiva, que foi aplainado, acabando com a inclinação. Foi aí que sobrou aquele barranco atrás do gol de cima. Fiquei sentado no barranco, bem atrás do gol, e vi o primeiro pênalti batido nesse campo novo, pelo Tião Folheiro. Sabe o que aconteceu?

— Nunca ouvi falar!

— A bola enterrou um metro e meio no barranco!

JUIZ IMPARCIAL

A inauguração de um campo novo no Córrego Cavalo foi muito festiva. Chamaram até um time da cidade pra jogar lá. Quem ia “bater o piu”, quer dizer, apitar o jogo, era o Ernesto, que fez um longo discurso antes, dizendo ser imparcial, o que não convenceu ninguém.

Estava difícil fazer o time da casa ganhar, o adversário jogava muito melhor. A certa altura, o baixinho Parafuso pegou a bola na ponta direita, driblou dois zagueiros do Córrego Cavalo e centrou. O ponta esquerda Luizinho do Lica entrou de cabeça pelo meio e marcou um gol para o time da cidade, quer dizer, o adversário do Córrego Cavalo. Gol anulado, claro.

— Nóis é da roça mas sabe as regras. Ponta esquerda tem que jogar na ponta esquerda, na extrema. O que é que ocê tava fazendo no lugar do centroavante? — bronqueou o juiz, que ainda deu falta contra o time da cidade.

Pouco depois, sobrou uma bola pingando para o centroavante Zé do Gato, que deu um chutaço a gol. O goleiro do Córrego Cavalo nem viu a cor da bola. Só que o gol não tinha rede e a bola, a meia altura, bateu de cheio na cara do Zé Soldado, da gloriosa Polícia Militar, que assistia ao jogo atrás do gol, derrubando-o de costas. Ernesto, Logicamente, anulou, apitando falta do atacante:

— Desacato a autoridade — gritou bravo, ameaçando Zé do Gato de expulsão, se ele fizesse isso de novo.

Faltando uns dez minutos para terminar o jogo, mantido zero a zero até então com muita dificuldade, finalmente o ataque do Córrego Cavalo chegou à área adversária, mas o meio Zaqueu tropeçou e caiu na hora de chutar. Pronto! Pênalti, apitou o Ernesto. Quem foi bater? O próprio Zaqueu? Não!

— Eu apitei pra mim batê, uai — disse o Ernesto.

Já vestindo a camisa cedida por um atacante substituído por ele, Ernesto entregou o apito ao seu compadre Orlando:

— Cumpadre, bate o piu nesse restinho de jogo que agora eu sô jogador.

Bateu o pênalti e marcou. Um a zero para o time do Córrego Cavalo, invencível jogando em casa.

Do livro Memória vagabunda (também esgotado – detalhe: esses livros são esgotados não porque venderam muito, é que as tiragens foram pequenas):

MELHOR QUE BEIJA-FLOR

Quando o centroavante Dario, também conhecido como Dadá Maravilha, marcou um gol de cabeça em que deu a impressão de ficar alguns segundos parado no ar, esperando a bola, logo depois do jogo fez uma declaração folclórica:

— Só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.

Mas Zeca, o pescador e caçador mineiro que garante nunca ter contado uma mentira, achou pouco:

— Já fiz muito melhor que isso.

Para os descrentes, contou uma história que, segundo afirma, teve várias testemunhas. Infelizmente, a única viva morando no Paraná, em lugar que ele mesmo não se lembra.

— Eu era novo — disse. — Fomos pescar no Sapucaí e saímos pela margem esquerda do rio, procurando um pesqueiro bom. A certa altura, havia um afluente com uns dois metros de largura, mas muito fundo. A gente tinha que pular esse corguinho pra chegar no pesqueiro…

— Bom, e daí? — provocou alguém.

— Daí que eu afastei, corri pra pegar embalo e pulei. Quando eu tava bem no alto, no meio do corgo, vi uma urutu do outro lado, bem onde eu ia cair. A bicha tava de boca aberta, me esperando. Dei uma reviravolta no ar, voltei e caí no mesmo lugar de onde tinha pulado…

GRANDES CONCLUSÕES

Arlindo foi jogar futebol num time de várzea de Itajubá e ouvia conselhos muito interessantes do técnico, que falava, sério, coisas como

— Se você for bater pênalti e chutar com bastante força bem no ângulo, o goleiro não pega.

Certo dia, antes de um jogo contra um time mais forte, reuniu a equipe no vestiário e falou com a seriedade de sempre:

— Olha, gente, se a gente marcar um gol logo no começo, depois segurar o jogo e não deixar eles marcarem nenhum gol… nós ganhamos o jogo!

Agora, um publicado no livro Trem Doido (da Editora Limiar – eba! Não esgotado):

E CHUTA PARA O HEMISFÉRIO NORTE…

Belém, capital do Pará, é a cidade das mangueiras. Assim como a cerâmica marajoara e a chuva quase diária, à tarde, as mangueiras são uma característica da cidade, uma marca registrada. Mas não é só em Belém que as mangueiras fazem parte da paisagem urbana. Macapá, capital do Amapá, também é arborizada quase toda com mangueiras. Suas ruas largas, sem placas que as identifiquem nem placas de trânsito, indicando mão e contra-mão, são repletas de belas mangueiras.

Foi Macapá que comi o peixe mais saboroso que conheci: tambaqui com molho de taperebá. Uma delícia.

Mas o que achei divertido na capital amapaense foi ouvi uma brincadeira de pessoas que dizem que são da América do Norte. É que a capital do Amapá fica no Hemisfério Norte — pouquinho “acima” da linha do Equador, mas fica. — Na verdade, o centro fica a 00º 02’ de latitude Norte. Há bairros que ficam no Hemisfério Sul e também exatamente na linha do Equador, onde existe um monumento ao marco zero de latitude. Ele fica exatamente na linha do Equador. Nele, a gente pode ficar com um pé no hemisfério Sul e outro no Norte. E perto dele tem um campo de futebol apelidado Zerão, nome que vale também para todo o bairro, cuja linha do meio de campo fica exatamente na linha do Equador.

Assim, um time ataca para o hemisfério Norte e outro para o Sul. No segundo tempo eles trocam de hemisfério. A arquibancada também fica bem no meio, é possível ficar até com meia bunda no hemisfério Sul e meia bunda no norte.

No livro 1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura (Editora Publisher Brasil, também não esgotado), publiquei umas historinhas de futebol também. Uma delas é sobre o André, um preso político do Rio de Janeiro. Ele era preso “comum”, leu muito dentro do presídio, se “politizou”, participou de uma fuga organizada por um grupo guerrilheiro que ajudou a criar, o MAR (Movimento de Ação Revolucionária), mas foi preso de novo e voltou para o presídio como preso político. Seguem três historinhas desse livro.

UM FUTEBOL DIFERENTE

Antes da fuga e da recaptura que o caracterizou como preso político, André foi convidado para fugir com presos comuns. Ele seria uma pessoa chave nessa história, pois sua função na época era cuidar do vestiário do campo de futebol que havia lá dentro. Não quis fugir, mas assegurou aos presos que não os denunciaria. Eles, então, cavaram um túnel de dentro do vestiário até a rede de esgotos. A fuga foi marcada para um domingo à tarde, no intervalo de um jogo entre dois times de presidiários. Era um dia de comemoração de qualquer coisa, e na platéia, assistindo ao jogo, estavam o diretor do presídio e um monte de autoridades.

No intervalo do jogo, os times entraram no vestiário, passaram-se os quinze minutos regulamentares e não saiu ninguém. Mais um pouquinho de espera e finalmente os agentes penitenciários foram ver o que tinha acontecido. Viram só aquele buraco no chão. Mas a surpresa maior foi numa avenida ali perto. Muitas pessoas viram espantadas uma tampa de bueiro abrir-se e saírem dois times de futebol inteiros correndo avenida afora.

O ESPORTISTA VEREADOR

O massagista Mário Américo, nascido em Minas Gerais, ganhou fama na Copa Mundial de futebol de 1958. Cada vez que algum atleta brasileiro se machucava, entrava em campo aquele crioulão simpático, para socorrer nossos heróis Garrincha, Didi, Nilton Santos, Pelé…

Perto do final do regime militar, quando só existiam dois partidos legalizados, a Arena (a favor do governo) e o MDB (oposição consentida, que às vezes se levava a sério), Mário Américo se candidatou a vereador pelo MDB em São Paulo. Sua campanha foi mais baseada nas mãos que massagearam os ídolos do futebol do que nas idéias que o massagista tinha na cabeça, mas deu certo. Ele ganhou. E até não decepcionava muito como vereador, apresentando projetos criados pela assessoria do MDB.

Mas aí veio a reformulação partidária, quando Arena virou PDS. MDB virou PMDB e surgiram PT, PDT e PTB. Mário Américo, como alguns outros políticos, foi cooptado por Paulo Maluf, que liderava os simpatizantes do regime militar em São Paulo. Então, em vez de ir para o PMDB, Mário Américo foi para o PDS malufista.

Aí, chegou à fase de votação em plenário de um projeto apresentado à Câmara de Vereadores pelo próprio Mário Américo, quando era oposicionista. Mas ele recebeu ordens dos seus novos aliados: tinha que votar contra, pois o projeto desagradava o prefeito nomeado, Reynaldo de Barros, e seu padrinho, Paulo Maluf. E aconteceu a aberração: Mário Américo votou contra um projeto dele mesmo. Foi desancado por um vereador do PMDB, que fez um discurso violento contra o massagista, supostamente “comprado” por Paulo Maluf. Depois de ouvir um monte de adjetivos pouco edificantes, Mário Américo pediu um aparte e falou bravo, com dedo em riste:

— Vossa Excelência está ofendendo a minha excelência!

FUTEBOL E DITADURA

Copa do Mundo de 1970, no México. Primeiro veio a alegria de ver uma seleção jogando bem demais. Treinada por João Saldanha, ela tinha um meio de campo que incluía um dos melhores jogadores do mundo, Dirceu Lopes, do Cruzeiro. Derrotava os adversários de lavada nas classificatórias.

Mas no auge da ditadura, o general-presidente Garrastazu Médici se sentia no direito até de querer influir na escalação. Queria que João Saldanha escalasse o atacante Dario, apelidado “Peito de Aço”. Saldanha, comunista brigão, não gostou: “Escale o seu ministério que eu escalo a minha seleção”, respondeu. Pouco depois estava demitido da seleção. Seu lugar foi ocupado por Zagalo, que de início tirou um pouco o encanto da seleção, ao afastar jogadores como Dirceu Lopes.

Além do descontentamento “futebolístico”, havia outro motivo que fazia muita gente torcer o nariz para a seleção: sua vitória seria usada para propagandear a ditadura brasileira. Muitos ficaram com a opinião de que devíamos torcer por sua derrota. Mas isso durou pouco, só até o início da Copa. Aí, foi uma festa danada em cada jogo. Inclusive porque pela primeira vez uma Copa do Mundo era transmitida ao vivo pela TV. Assistimos a quase todos os jogos no pátio do prédio da Geografia e História da USP, superlotado, vibrante, com aquele bando de gente de esquerda (e muita gente de direita também) se esquecendo de qualquer coisa de política para aplaudir as vitórias da equipe que tinha Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino, Clodoaldo e outros supercraques. Mesmo sem os dispensados por Zagalo, a seleção era um arraso. E realmente a vitória brasileira foi usada para propaganda da ditadura.

Em 1974, na Copa da Alemanha, muita gente esperava um repeteco de 1970. Mas havia uma novidade: a seleção da Holanda, chamada de “Laranja Mecânica”, pela cor de seu uniforme e por causa de um filme da época. Era avassaladora. Dava um baile em todo mundo, ganhava todas. Nas semifinais, olha lá quem era o adversário do Brasil: ela mesma, a Holanda.

Eu trabalhava no Sesc Pompéia, e destinamos um salão para todo mundo assistir aos jogos. No fundo dele, havia um quadro-negro. Nesse dia do embate contra a Holanda, o salão estava lotado, todo mundo tenso antes de começar o jogo. Estava difícil esperar uma vitória brasileira. Um funcionário do Sesc foi até o quadro-negro e escreveu: “Deus é brasileiro”. Foi muito aplaudido. Fui lá, coloquei uma vírgula e continuei: “Mas tá exilado na Holanda”.  Claro que levei uma baita vaia. Mas o Brasil perdeu mesmo. Só que a Holanda não foi campeã, perdeu para a Alemanha na final.

Agora um texto que não publiquei em livros:

FUTEBOL DO SACI

Estive em São Luiz do Paraitinga, na Festa do Saci, e lembrei-me de um campeonato de futebol que existia lá, pena que não exista mais.

É um tipo de campeonato que não tem nada a ver com negociantes do futebol, com a coisa de encarar o esporte como um negócio, em que o que interessa é o lucro, e também de competição desvairada, de motivo para brigas e até mortes.

O campeonato era realizado num pequeno campo no Camping Saci, onde ainda acontecem alguns jogos. Curiosamente, entretanto, uma bela paineira está localizada bem no centro do campo, o que leva os jogadores habilidosos a terem que driblar, além dos adversários, também a árvore. Vejam alguns itens do regulamento do campeonato:

  • O tempo de jogo será de 25 minutos por 25, sem intervalo;
  • O número máximo de atletas por time será de 10 (dez), sendo um o goleiro, cinco jogadores em campo e quatro reservas;
  • Não existe limite para substituições;
  • No que se refere ao uniforme, apenas as camisetas deverão, necessariamente, ser iguais;
  • Os atletas poderão jogar descalços, usar tênis e até chuteiras;
  • Cada atleta deverá contribuir com uma taxa de R$ 5,00 para o custeio da confraternização final (churrasco etc…);
  • O atleta que fizer dois gols no mesmo jogo deverá ir para o banco e só poderá retornar a campo após 10 minutos;
  • Se um time marcar três gols a mais que o outro, caso volte a marcar um gol, este será computado para o time adversário;
  • Os times campeões receberão troféus (o Saci) e o artilheiro e o goleiro menos vazado receberão medalhas;
  • Caso ocorram situações não previstas por este regulamento, os representantes dos times decidirão, por maioria, o que deve ser feito;
  • É solicitado ao representante de cada time que traga uma bola em condições de uso.Obs.:Este torneio é realizado sem fins lucrativos, visando à valorização do esporte e à confraternização entre amigos. Solicita-se respeito e colaboração a todos os atletas, a quem se deseja boa sorte.

Uma coisa que não estava no regulamento mas acontecia: quando um time marcava gol, todos os jogadores dos dois times comemoravam pulando com uma perna só. Como seria bom se o futebol fosse sempre assim.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.