Mészáros: Os 30 anos do MST

14.02.19_Mészáros_30 anos MST[Mészáros recebendo a homenagem do MST a sua esposa, Donatella Mészáros, na ENFF (Escola Nacional Florestan Fernandes) em 2009, durante sua visita ao Brasil para o II Seminário Margem Esquerda da Boitempo]

Por István Mészáros.

Esta é a mensagem de István Mészáros ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra por ocasião de seus 30 anos de luta. Leia aqui a versão em inglês da carta do filósofo húngaro.

Caríssimos amigos e camaradas,

vocês celebram o trigésimo aniversário da fundação de seu movimento. É uma grande conquista, não apenas para os trabalhadores rurais de seu próprio país, mas para todos em nosso mundo conturbado.

Da lembrança de minha primeira experiência no Brasil, no nordeste em 1983, recordo algumas amargas revoltas por comida travadas lá logo cedo na manhã de minha chegada. As dolorosas condições de exploração na raiz de tais revoltas foram causa de enorme sofrimento para incontáveis pessoas. Algo tinha de ser feito para combater a intolerável miséria. Seu movimento, o MST,  foi fundado em 1984 e se consolidou com grande dedicação e sacrifício contra as forças da exploração e da injustiça. Nesses trinta anos, continuaram a se fortalecer, demonstrando ao mundo que podiam sustentar suas condições de trabalho e vida com desempenho e autonomia exemplares, a serem seguidos em outro lugar.

Sabem melhor do que eu quanto mais ainda está para ser feito pra realizar suas grandes aspirações. Uma reforma agrária radical há muito tempo urge, não apenas em seu país mas também em muitas outras partes do mundo em que a população rural pode e deve assumir controle de seu destino. Desejo-lhes grande sucesso também a esse respeito para o futuro próximo.

Minha esposa, Donatella, e eu sempre apoiamos vocês de toda forma que pudemos. Tivemos o privilégio de celebrar junto com vocês o vigésimo aniversário de seu movimento vitalmente importante. Tragicamente, ela não está mais conosco. Mas enquanto eu viver, podem estar certos de meu apoio, também em nome dela.

Meus caríssimos amigos e camaradas,

Que este trigésimo aniversário de seu movimento sirva de marco para um grande avanço em nossa plenamente compartilhada causa por uma mudança fundamental na sociedade em todo lugar!

Sinceramente, sempre,
István Mészáros

Rochester, 23 de janeiro de 2014

MST

[Manifestação do MST  nesta quinta-feira, dia 12.02.2014, em Brasília]

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István Mészáros é autor de extensa obra, ganhador de prêmios como o Attila József, em 1951, o Deutscher Memorial Prize, em 1970, e o Premio Libertador al Pensamiento Crítico, em 2008, István Mészáros se afirma como um dos mais importantes pensadores da atualidade. Nasceu no ano de 1930, em Budapeste, Hungria, onde se graduou em filosofia e tornou-se discípulo de György Lukács no Instituto de Estética. Deixou o Leste Europeu após o levante de outubro de 1956 e exilou-se na Itália. Ministrou aulas em diversas universidades, na Europa e na América Latina e recebeu o título de Professor Emérito de Filosofia pela Universidade de Sussex em 1991. Entre seus livros, destacam-se Para além do capital rumo a uma teoria da transição (2002), O desafio e o fardo do tempo histórico (2007) e A crise estrutural do capital (2009), A obra de Sartre, e O conceito de dialética em Lukács todos publicados pela Boitempo. 

Mészáros: The 30th anniversary of Landless Workers’ Movement in Brazil

14.02.19_Mészáros_30 anos MST[Mészáros at the ENFF (Florestan Fernandes National School) recieving MST's hommage to his wife, Donatella Mészáros, in 2009, during his visit to Brasil for Boitempo's II Margem Esquerda Seminar]

By István Mészáros.

This is István Mészáros’ message to the Landless Workers’ Movement (MST) of Brasil. Read the portuguese version of the hungarian pilosopher’s letter here.

My very dear Friends and Comrades,

You are celebrating the Thirtieth Anniversary of the Foundation of your Movement. This is a great achievement not only for the agricultural workers of your own country but for everyone in our troubled world.

The memory of my first experience in Brazil, in the North East in 1983, recalls some bitterly fought food riots there in the early morning of the day of my arrival. The painful exploitative conditions at the roots of such riots caused terrible suffering to countless people. Something had to be done to counter the intolerable misery. Your Movement was founded in 1984 and asserted itself with great dedication and sacrifices against the forces of exploitation and injustice. In these thirty years you continued to grow in strength, demonstrating to the world that you could manage your conditions of work and living with exemplary autonomy and success, to be emulated elsewhere.

You know better than I do how much more needs to be done to accomplish your great aspirations. A radical land reform is long overdue not only in your country but also in many other parts of the world where the agricultural population can and should take control of its own destiny. I wish you great success also in that respect in the very near future. 

My wife, Donatella, and myself always supported you in every way we could. We were privileged to celebrate the Twentieth Anniversary of your vitally important Movement together with you. Tragically, she is no longer with us. But you can be sure of my support, also on her behalf, for as long as I live.

My very dear Friend and Comrades,

May this Thirtieth Anniversary of your Movement be the signpost for a great advancement in our fully shared cause of a fundamental social change everywhere!

Yours ever,
István Mészáros

MST

[MST demonstration on this thursday, 12.02.2014, in Brasilia]

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István Mészáros é autor de extensa obra, ganhador de prêmios como o Attila József, em 1951, o Deutscher Memorial Prize, em 1970, e o Premio Libertador al Pensamiento Crítico, em 2008, István Mészáros se afirma como um dos mais importantes pensadores da atualidade. Nasceu no ano de 1930, em Budapeste, Hungria, onde se graduou em filosofia e tornou-se discípulo de György Lukács no Instituto de Estética. Deixou o Leste Europeu após o levante de outubro de 1956 e exilou-se na Itália. Ministrou aulas em diversas universidades, na Europa e na América Latina e recebeu o título de Professor Emérito de Filosofia pela Universidade de Sussex em 1991. Entre seus livros, destacam-se Para além do capital rumo a uma teoria da transição (2002), O desafio e o fardo do tempo histórico (2007) e A crise estrutural do capital (2009), A obra de Sartre, e O conceito de dialética em Lukács todos publicados pela Boitempo. 

Os vivos e os mortos

14.02.18_Vladimir Safatle_Os vivos e os mortosPor Vladimir Safatle.*

Cleonice Viera de Moraes, Douglas Henrique de Oliveira, Valdinete Rodrigues Pereira. Luiz Felipe Aniceto de Almeida. Esses são apenas alguns nomes de pessoas que morreram devido à atuação da polícia após o início das manifestações, em junho.

São pessoas que morreram devido a bombas de gás lacrimogêneo, que foram atropeladas ao fugir da violência policial, que caíram de viadutos quando pressionados pela Polícia Militar, entre outros casos.

Poucas pessoas ouviram esses nomes, poucos se lembram deles e não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha “lei de antiterrorismo” no Brasil.

Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram “acidentais”, por isso, merecem ser esquecidas.

Não há nada a se pensar a partir delas. No fundo, elas não significam nada. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido, que merece certamente ser punido de forma clara por sua irresponsabilidade.

Não, ela é a prova maior de que o Brasil caminha para o caos e que a melhor coisa a fazer é parar com o angelismo diante de “vândalos”.

Bem, é sintomático que a única resposta efetiva às demandas vindas das manifestações de junho seja uma lei que visa transformar o uso de máscaras em crime contra a segurança nacional.

Como nada foi feito a respeito das exigências de melhores serviços sociais, contra os gastos absurdos para a realização da Copa do Mundo, por democracia efetiva, melhor pedir para senadores do porte moral de Renan Calheiros (PMDB-AL) que aprovem uma lei antiterrorista.

Da minha parte, os únicos terroristas que consigo enxergar estão exatamente no Congresso Nacional.

Se querem uma nova lei, uma simples proibição – de uma vez por todas – da venda de rojões resolveria muita coisa. A melhor maneira de lutar contra a violência é com a escuta. A surdez dos governos em relação às exigências de ação, visando criar as condições para uma qualidade de vida minimamente suportável nas grandes cidades, é a verdadeira causa da violência nas manifestações.

Escutar significa, por exemplo, não prometer uma Assembleia Constituinte, depois uma reforma política e acabar por apresentar apenas o vazio.

Significa não baixar o valor das passagens de ônibus para, meses depois, quando tudo parece mais calmo, voltar com o mesmo aumento.

Significa parar de usar a morte infeliz de alguém para tentar criminalizar a revolta da sociedade brasileira.

* Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo em 18 de fevereiro de 2014.

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Neste sábado, dia 22/2, ocorre o debate “Governar após Junho“, coordenado por Vladimir Safatle e com a presença do filósofo Paulo Arantes, dos sociólogos Chico de Oliveira e Laymert Garcia dos Santos e de Paulo Bufalo, presidente Estadual do PSOL.

Confira a página do evento no Facebook aqui.

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Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, coletânea de artigos com textos de David Harvey, Edson Teles, Emir Sader, Giovanni Alves, Henrique Carneiro, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Žižek, Tariq Ali e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido | Livraria da Travessa | Livraria Saraiva)

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Atualmente, mantem coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo e coluna mensal na Revista CULT. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior.

Miss Pernambuco

14.02.17_UrarianoMota_Miss Pernambuco_Por Urariano Mota.

Há quatro anos anotei e recupero a seguir.

Vera Lúcia Torres Bezerra é senhora com uma idade que a educação e a gentileza não devem perguntar. Em uma discreta graça, que a maldade chamaria coquete, de passagem ela conta que foi Miss quando possuía apenas 16 anos. Pela implacável aritmética, 2010 -1963 = 47. Quarenta e sete mais dezesseis, sessenta e três.  Mas isso é segredo, ela fala com uma graça maior, porque mocinhas menores de idade não poderiam participar do concurso. Então, pelas normas legais, se ela foi Miss aos dezoito, atravessa hoje os sessenta e cinco anos. Mas a Lei e a cruel Aritmética de nada sabem. Entendam, não é bem que as pessoas, as mulheres em particular, e Vera Lúcia em especial, não sintam nem sofram quarenta e sete mais dezesseis anos. Sentem, percebem, sofrem, se desesperam ou se acomodam a esse inexorável. Não quero ser, nem poderia em razão de natural deficiência, um Catão, um copiador de procedimentos de Plutarco, a invocar ética dura e pesada moral. Mas pessoas como Vera Lúcia penetram em nossa consciência como uma antecipação do que seremos. O que nos salva ou nos salvará quando tudo for perdido?

Ela me fala com o rosto oculto em óculos escuros, embora seja noite no Recife. Enquanto  fala, enquanto expõe, ela vai desarmando, ela vai desmontando os mais severos e sólidos preconceitos. O primeiro deles é o de que as misses devem ser ignorantes, quando não se resumem à mais simples burrice. Ela desmonta isso não bem por um currículo exterior, de provas e títulos. Por esses documentos, sabemos que ela é graduada em economia, com pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas. Por eles Vera Lúcia conhece a língua francesa, e somente nisso ela já ultrapassaria a marca das Misses que dizem ter lido O pequeno príncipe, mas são incapazes de saber quem foi Exupéry. Mas não é por isso que a vemos inteligente. A sua inteligência se revela em documentos não escritos, porque se pronuncia por um dom raro de observação, quase diria, se isso não me fizesse mergulhar em outro preconceito, ela percebe coisas dignas do olhar de um artista.

Vera Lúcia Torres foi Miss Pernambuco no mesmo ano em que a Miss Brasil foi Ieda Maria Vargas, em 1963. Ieda Vargas, mais adiante, conquistou o título de Miss Universo. Mas isso ainda é currículo, o bom vem depois. Quando perguntada sobre a mudança do padrão de beleza da mulher, do seu tempo até hoje, Vera Lúcia responde, melhor dizendo, observa: “Elas agora são mais altas, de fisionomia mais graúda”, e explica o que é esse graúda:

“boca grande, olhos grandes. No meu tempo eu notava que a beleza era angelical, mais delicada. E agora é mais a mulher graúda, magra demais. Eu não sou a favor de gordura, mas eu acho que tem de ter as curvas, porque se não fica igual ao corpo de um homem. Além das pernas bonitas, tem que ter, no meu conceito, uma cinturinha e uma curva. Isso não quer dizer um quadril grande, exagerado”.

E ouçam agora as medidas, no que parece um número de ouro da beleza do Brasil em 1963:

“O busto tinha que ter a medida dos quadris. A cintura igual às coxas… Gisele Bündchen jamais seria miss. Na minha época se exigia muito postura. E a de Gisele deixa muito a desejar, a maneira dela se sentar, de se dirigir, de falar. Hoje se exige apenas que seja alta, magra. Com as pernas finas, altas, as modelos mais parecem equilibristas….”.

– O que é a maneira de Gisele se sentar?

– Masculinizada. Perna aberta, uma lá, outra cá….

E vem então uma observação que se perdeu com o tempo, mas não a seus olhos que me fitam por trás das lentes escuras:

– Na minha época, as manequins, modelos que desfilavam, não podiam rebolar, bambolear o quadril. Havia uma exigência, uma ordem de caminhar roçando os pulsos no quadril, que era para não menear as cadeiras. 

A esta altura, como se fizesse um só comentário, como uma continuação que tem a ver com o modo de caminhar, a senhora Vera Lúcia observa e traz uma notícia rara, até hoje não escrita em qualquer imprensa:

– A Miss Universo de meu concurso, a Ieda Maria Vargas, não conseguia juntar… ela só tirava retrato de lado, porque de frente não juntava as pernas.

– Por quê? As pernas dela eram muito volumosas?

– Não, porque ela tinha um joelho grosso em cima, e aqui embaixo era um buraco. Ela só tirava foto de lado, pode ver.

– Como assim?, eu não estou entendendo. A Miss Universo da época não tirava retrato de frente, por quê? As coxas dela eram muito grossas, e por isso não ficavam juntas?

– Era uma abertura, com as pernas em arco. Era um desvio nas pernas, cangalha, entende? Então ela, sabida, posava de lado. E maquiava, porque tinha varizes. Ela passava uma base, um creme. A base escura disfarçava as varizes.

Está certo, são observações de mulher concorrente ao mesmo título, poderia ser dito. Mas o que diríamos de um pintor que observa com olhos argutos uma pintura de outro? Ou de um escritor que percebe as fraturas da obra de um romancista? Diríamos que são observações fruto da inveja? Ou mais precisamente que são notações de alma treinada naquele ofício? O mais sensato é ouvi-la, principalmente quando ela fala algo como:

– A Miss Universo possuía um rosto muito bonito, a boca, os olhos cor de mel… mas não tinha cultura nenhuma. Ele chegou aqui em Pernambuco e saudou, “povo peruano”….

 – Trocou o Recife por Lima. Muito interessante. Isso foi no rádio ou na televisão?

– Foi quando ela voltou, como Miss Universo. Ali mesmo no aeroporto, com todos os repórteres, fotógrafos, microfones.  

Então eu lhe falo com a voz mais traiçoeira que um entrevistador pode ter, com um tom suave, pleno de intimidade e blandícia:

– Na sua época, ser Miss era o mesmo que ser burra, não era?

Vera Lúcia Torres não se engana com o tom nem se ofende com o conteúdo. E como prova de que tal qualidade não se aplica a ela, responde:

– Diziam que a única leitura de Miss era O pequeno príncipe. É claro que, como eu era muito jovem na época, não poderia ter a cultura que adquiri depois. Mas eu já gostava de ler. Os meus amigos eram todos universitários, de medicina, de direito, teatro. Eu ia muito a teatro, exposições, porque eu gostava.

E o entrevistador, traiçoeiro:

– Exatamente. Tem toda a razão.

– Mas a mulher do meu tempo era preparada para esperar o príncipe encantado, e se fosse Miss, o sonho era casar com um grande empresário, um homem rico, porque era Miss…

– A senhora casou com um empresário? – o traiçoeiro avança.  

– Não.

– Nem com um homem rico?

– Não. Em primeiro lugar tinha que existir amor.

A esta altura, a sua filha, um jovem bonita de 24 anos, entra na entrevista para completar a frase que a mãe não quis dizer:

– Ela casou com um homem pobre e feio.

– Verdade?

E a filha:

– Era pobre, feio, horrível. E assim, cheio de homem rico e lindo atrás de mãezinha. 

Ao que explica a mãe:

– Uma das coisas que eu mais admire no ser humano é a inteligência. E a bondade.

– Verdade?

A esta altura o entrevistador se foi, partiu, porque deixou de ter o domínio, porque foi destruído em seu maquiavelismo. Deixou de conduzir para ser conduzido. Há um capítulo não escrito na vida dos entrevistadores, que reza a sua conquista em razão de um comportamento inesperado. Nesse capítulo, em uma das suas divisões, em algum lugar se inscreve que entrevistadores feios são conquistados por misses que não se casam com grandes empresários. Mesmo que essas misses não mais sejam formosas, mesmo que tenham passado pela curva dos sessenta anos. Ou até mesmo por isso, diria até, com mais razão por se encontrarem nessa idade. Não sei se isso é bem perversão ou uma busca do espírito, só tu, puro espírito. De qualquer forma, uma perversão, que nem precisa dizer que é romântica, porque é do caráter do romântico um semelhante desvio. O fato é que ex-misses como a senhora Vera Lúcia Torres Bezerra possuem um travo, um amargo de ex-combatente, de quem passou pela experiência de guerra. E, no entanto, esse travo é bom. Imagino que isso se dá em razão de ser uma vitória dos valores em que acreditamos, o do valor que é o valor, o da vitória do belo nas condições mais infames. Senhoritas, misses, que em um mundo de corpo-mercadoria em um açougue de carnes, que reagem e vivem como pessoa e gente. E que se casam ao fim com indivíduos cujo maior patrimônio é a qualidade interior. Mas isso não é um conto de fadas, porque vem outra surpresa. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra está diante de mim para tentar vender uma carta do poeta Olavo Bilac, que guarda e guardou há muito tempo. 

O entrevistador se foi. Miss Vera Lúcia Torres Bezerra nem precisava dizer, como disse, que estudou Economia porque era admiradora de Celso Furtado. Nem mesmo, em um golpe mortal para mim, que esteve ao lado daqueles doidos e perseguidos pela ditadura no Brasil. Derrotado, miro-lhe então os olhos despidos das lentes escuras, e percebo-lhe as rugas, o pescoço, o tecido mole. Mas, coisa estranha, percebo ainda assim que os anos por ela passaram e não alcançaram a  sua decadência. Por que esse paradoxo? Talvez porque o espírito, quando sobrevive, suporta melhor o copo que envelhece. Não importa quantos anos se tenham passado, tenho vontade imensa de lhe dizer. E me calo. Por isso escrevo agora, porque os escritores somos muito valentes no silêncio e à distância: Vera Lúcia Torres Bezerra, você ainda é a nossa musa. O tempo passou para todos, Miss Pernambuco 1963. 

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A Lei é o crime

14.02.14_Zizek_O que é um autêntico evento político_Por Lincoln Secco.

“O criminoso não produz apenas crimes, mas ainda o Direito Penal (…). O criminoso produz ainda a organização da polícia e da Justiça penal, os agentes, juízes, carrascos, jurados (…). Somente a tortura possibilitou as mais engenhosas invenções mecânicas e ocupa uma multidão de honestos trabalhadores na produção desses instrumentos”.
(Karl Marx, Teorias da Mais Valia).

No dia 10 de fevereiro ocorreu a lamentável morte do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade atingido numa manifestação no Rio de Janeiro. Imediatamente vozes da imprensa se ergueram contra os manifestantes que agridem (sic) a polícia e agora até jornalistas! Na tribuna do senado homens “probos” como Renan Calheiros pediram a prisão de manifestantes e os telejornais ressuscitaram o projeto de lei contra o “terrorismo”.

Este é um momento delicado porque a Direita acredita que tem um mártir.

Mentiras

Não é verdade que manifestantes saem às ruas para atacar pessoas. Os ataques são sempre ao patrimônio simbólico de grandes instituições financeiras. Simbólicos sim porque uma vidraça quebrada tem praticamente custo zero para tais empresas. Obviamente que ao serem acuados, agredidos, atropelados (como uma jovem de 18 anos em São Paulo), baleados (como outro jovem na mesma cidade), perseguidos aleatoriamente por pura vingança, os manifestantes reagem: quebram catracas, ônibus e atiram pedras nos policiais em legítima defesa.

Indignação Seletiva

Quando Douglas Martins Rodrigues, 17 anos, foi morto pela PM no Jaçanã, zona norte de São Paulo, grande parte da imprensa tratou da revolta espontânea da população local como “vandalismo”. E quem se choca com milhares de mortes de pobres nas periferias todos os anos?

Lei Celerada

Nada disso justifica matar um cinegrafista. Mas esta morte também não justifica uma lei criminosa. Em junho de 1927 o Presidente Washington Luiz apoiou a chamada “lei celerada” que criminalizava protestos públicos e greves. Houve intervenções nos sindicatos e os anarquistas e comunistas foram presos. Aos “tenentes” no exílio ou na clandestinidade lhes foi negada a anistia. E assim tudo correu bem até que a chamada “Revolução de 1930” varreu aquele presidente do poder. Em São Paulo a população invadiu e depredou a chamada “Bastilha do Cambuci” onde os presos políticos eram torturados.

É evidente que depois ingressamos em nova forma de dominação.

Terrorismo?

A lei contra o terrorismo é tão estapafúrdia, causa tanto horror nos meios jurídicos progressistas que precisa buscar exemplos tão frágeis quanto o de inventar uma “organização criminosa bloco negro”. Que ela não existe a polícia já sabe, é óbvio. Qualquer um pode empregar esta tática. Mas como o Estado, a grande imprensa e alguns estudiosos do Direito Penal, a Polícia também vive do crime.

No nosso caso, em que o próprio regime político é criminoso e a democracia é racionada, é necessário periodicamente reinventar os crimes políticos. A fachada democrática atual ainda não permite que sejam tratados enquanto tal. É que na verdade tais crimes sequer existem. Por isso, é preciso inventá-los. Afinal, como se justificariam os batalhões de choque sem os temíveis blocos negros?

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Leia também O direito à violência, na coluna de Lincoln Secco no Blog da Boitempo!

Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Lincoln Secco e Luiz Bernardo Pericás!

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Disponível em ebook por R$5,00 nas livrarias
Amazon, Travessa, Saraiva e Google Play, entre outras!

Livro impresso por R$10,00 nas livrarias
Saraiva, Travessa e Cultura, entre outras!

Lincoln Secco é um dos autores do livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “As Jornadas de Junho”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nesses megaprotestos, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.

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Cidades Rebeldes_JornadasLeia também A guerra civil na frança e Anatomia do Movimento Passe Livre de Lincoln Secco. Confira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Dênis de Moraes e Edson Teles, entre outros! 

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

Žižek: O que é um autêntico evento político?

17.02.14_SZizek_O que é um autêntico evento políticoPor Slavoj Žižek.*

Em dezembro de 2013 visitei Julian Assange na embaixada equatoriana localizada logo atrás da loja Harrods em Londres. Foi uma experiência um tanto deprimente, apesar da gentileza do pessoal da embaixada. A embaixada é um apartamento de seis cômodos sem jardim anexo, de forma que Assange não pode nem dar uma andada diária ao ar livre. Ele também não pode pisar para fora do apartamento, ao corredor principal da casa – policiais esperam por ele lá. Algo como uma dúzia deles estão o tempo todo em torno da casa e em alguns dos prédios circundantes, um deles inclusive debaixo de uma pequena janela de banheiro que dá para o jardim dos fundos, caso Assange tente escapar por aquele buraco na parede. O apartamento é grampeado de cima a baixo, sua ligação de internet é suspeitosamente lenta… então como assim o Estado britânico decidiu empregar em torno de 50 pessoas em tempo integral para vigiar Assange e controlá-lo sob o pretexto legal de que ele se recusa a ir à Suécia para ser questionado sobre uma má conduta sexual leve (não há acusações legais contra ele!)? É tentador se tornar um thatcherita e perguntar: onde está a política de austeridade aqui? Se um ninguém como eu fosse procurado pela polícia sueca para uma interrogação semelhante o Reino Unido também empregaria 50 pessoas para me vigiar? A pergunta séria está aqui: de onde brota tal desejo ridiculamente excessivo de vingança? O que Assange, seus colegas e fontes denunciantes fizeram para merecer isso?

14.02.14_Zizek_O que é um autêntico evento político_embaixada_assange

Jacques Lacan propôs como axioma da ética da psicanálise: “Não cedas de teu desejo”. Não seria esse axioma uma designação precisa dos atos dos denunciantes? A despeito de todos os riscos envolvidos na sua atividade, eles não estão dispostos a ceder – de que? Isso nos traz à noção de evento: Assange e seus colaboradores realizaram um verdadeiro e autêntico evento político – com isso, pode-se facilmente compreender a reação violenta das autoridades. Assange e seus colegas são frequentemente acusados de traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das autoridades) – para citar Alenka Zupančič:

“Mesmo se Snowden vendesse suas informações discretamente a outro serviço de inteligência, esse ato ainda contaria como parte dos ‘jogos patrióticos, e se necessário ele seria liquidado como um ‘traidor’. No entanto, no caso de Snowden, estamos lidando com algo inteiramente diferente. Estamos lidando com um gesto que questiona a própria lógica, o próprio status quo, que por um bom tempo vem servindo de único fundamento para toda a (não)política ‘ocidental’. Com um gesto que, digamos, põe tudo a perder, sem nenhuma consideração por lucro e sem seus próprios interesses em jogo: assume-se o risco porque baseia-se na conclusão de que o que está acontecendo é simplesmente errado. Snowden não propôs nenhuma alternativa. Snowden, ou melhor, a lógica de seu gesto, assim como, digamos, o gesto de Bradley Manning – é a alternativa.”

Essa descoberta fundamental do WikiLeaks está lindamente sintetizada na auto-designação irônica de Assange como um “espião para o povo”: “espiar para o povo” não é uma negação direta da espionagem (o que seria antes agir como um agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo) mas sua auto-negação, isto é, ele mina o próprio princípio universal da espionagem, o principio do sigilo, já que seu objetivo é tornar segredos públicos. Funciona portanto de forma semelhante à forma pela qual a “ditadura do proletariado” marxiana deveria ter funcionado (mas raramente o fez, é claro): como uma auto-negação iminente do próprio princípio de ditadura. Àqueles que continuam pintando o espantalho do comunismo devemos responder: o que o WikiLeaks está fazendo é a prática do comunismo. O WikiLeaks simplesmente realiza o bem comum na informação.

Na luta das ideias, a ascensão da modernidade burguesa foi exemplificada pela Enciclopédia francesa, um empreendimento gigantesco apresentando de forma sistemática todo o conhecimento disponível a um amplo público – o destinatário desse conhecimento não era o Estado mas o público como tal. Pode parecer que a Wikipédia já é a enciclopédia de hoje, mas algo falta a ela: o conhecimento que é reprimido e ignorado pelo espaço público, reprimido porque concerne precisamente a forma pela qual mecanismos estatais e agências controlam e regulam a todos nós. O objetivo do WikiLeaks deveria ser tornar esse conhecimento disponível para todos nós a um simples clique. Assange é efetivamente o d’Alambert de hoje, o organizador dessa nova enciclopédia, a verdadeira enciclopédia do povo para o século XXI. É crucial que essa nova enciclopédia adquira uma base independente internacional, para que seja minimizado o jogo humilhante de se colocar um grande estado contra outro (como Snowden tendo que buscar asilo na Rússia). Nosso axioma deve ser o de que Snowden e Pussy Riot são parte da mesma luta – que luta?

Nossos bens comuns informacionais emergiram como um dos domínios chave da luta de classes em dois de seus aspectos: econômico em sentido estrito e sócio-político. Por um lado, novas mídias digitais nos confrontam com o impasse da “propriedade intelectual”. A World Wide Web parece ser comunista em sua natureza, tendendo ao livre fluxo de dados – CDs e DVDs estão gradualmente desaparecendo, milhões estão simplesmente baixando músicas e vídeos, geralmente de graça. É por isso que o establishment de negócios está envolvido numa luta desesperada para impor a forma da propriedade privada nesse fluxo. Por outro lado, as mídias digitais (especialmente com o acesso quase universal à rede e a celulares) abriram novas formas para as milhões de pessoas comuns estabelecerem uma rede e coordenar suas atividades coletivas, oferecendo também a agencias estatais e a companhias privadas possibilidades inauditas de rastrear nossos atos públicos e privados. É nessa luta que o WikiLeaks interviu de forma tão explosiva.

Em suas Notas para uma definição de cultura, T.S. Eliot comenta que há momentos em que a única escolha é aquela entre a heresia e a descrença, em que a única forma de manter uma religião viva é efetuando um racha sectário em relação a seu corpo principal. Isto é o que o WikiLeaks fez: sua atividade é baseada no insight de que a única forma de manter nossa democracia viva é rompendo com seu principal cadáver institucional de aparatos e mecanismos estatais. Ao fazer isso, o WikiLeaks fez algo inédito, redefinindo as coordenadas do que conta como possível ou admissível na esfera pública. Escrevi um livro sobre a noção de “evento” precisamente para criar o espaço para a compreensão adequada de fenômenos como o WikiLeaks, quando um ato político não apenas viola as regras predominantes mas cria suas próprias novas regras e impõe novos padrões éticos. O que até então tomávamos como auto-evidente – o direito do Estado a nos monitorar e controlar – é agora visto como profundamente problemático; o que até então percebíamos como algo criminoso, um ato de traição – divulgação de segredos de Estado –, agora aparece como um ato heroico e ético.

Dessa breve descrição, já podemos ver como um evento se situa no interior de um campo narrativo. Nossa experiência histórica é formada como uma narrativa, isto é, sempre situamos ocorrências reais no interior de uma narrativa que as torna parte de um enredo que faça sentido. Surgem problemas quando uma reviravolta inesperada e abaladora nos acontecimentos – o estouro de uma guerra, uma profunda crise econômica – não pode mais ser incluída numa narrativa consistente. Nessa situação, tudo depende da forma pela qual essa reviravolta catastrófica será simbolizada, de que interpretação ideológica ou estória irá se impor e determinar a percepção geral da crise. Quando o decorrer normal das coisas é traumaticamente interrompido, o campo se abre para disputa ideológica – por exemplo, na Alemanha do final da década de 20, Hitler venceu a disputa pela narrativa que iria explicar aos alemães as razões pela crise da república de Weimar e a forma de sair dela (sua trama era a trama dos judeus); na França de 1940 foi a narrativa de Marshal Pétain que venceu na explicação das razões pela derrota francesa. 

A lição importante desse exemplo do fascismo é que existem também o que se pode chamar de eventos negativos. Imagine uma sociedade que integrou completamente à sua substancia ética os grandes axiomas modernos de liberdade, igualdade, direitos democráticos, o dever de uma sociedade prover educação e saúde básica para todos seus membros, e que visse o racismo ou o machismo como simplesmente inaceitáveis e ridículos – não é nem preciso argumentar contra, digamos, o racismo, já que qualquer um que abertamente o advogue é imediatamente visto como um esquisito excêntrico que não pode ser levado a sério, etc. Mas aí, passo a passo, essas conquistas vão sendo desfeitas. Já se pode abertamente propagar o racismo, advogar a tortura, etc. Hitler não fez algo assim? Sua mensagem ao povo alemão não era: “Sim, nós podemos…” – matar os judeus, esmagar a democracia, agir de forma racista, atacar outras nações? E não estamos testemunhando sinais de um processo semelhante hoje?

Em meados de 2013, dois protestos públicos foram anunciados na Croácia, um país em profunda crise econômica, com um alto índice de desemprego e uma profunda sensação de desespero na população: sindicatos tentaram organizar uma passeata em apoio aos direitos trabalhistas, enquanto nacionalistas de direita iniciaram um movimento de protesto contra o uso de caracteres cirílicos em edifícios públicos nas cidades com minoria sérvia. A primeira iniciativa trouxe a uma grande praça em Zagreb algumas centenas de pessoas, a segunda conseguiu mobilizar centenas de milhares, o mesmo que com um outro movimento fundamentalista contra o casamento gay. A Croácia está longe de ser exceção nesse quesito: dos Balcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África central à Índia, uma nova Idade das Trevas está por vir, com paixões étnicas e religiosas explodindo e valores do Iluminismo retrocedendo. Essas paixões estiveram à espreita no escuro o tempo todo, mas o que é novo agora é a forma totalmente descarada na qual aparecem.

Esse atual processo de minar os próprios fundamentos de nossas conquistas emancipatórias se dá em níveis diferentes. O debate sobre o afogamento simulado ser ou não tortura deve ser descartado como uma óbvia besteira: por que, se não provocando dor e medo da morte, o afogamento simulado faz com que suspeitos terroristas resilientes falarem? E quanto à substituição da palavra “tortura” por “técnica aprimorada de interrogação”, deve-se notar que estamos lidando aqui com uma extensão da lógica do Politicamente Correto: na exata mesma forma que  “alejado” vira “deficiente físico”, “tortura” vira “técnica de interrogação aprimorada” (e, por que não, “estupro” poderia se tornar “técnica aprimorada de sedução”).

Vale insistir nesse paralelo entre tortura e estupro: e se um filme mostrasse um estupro brutal dessa mesma forma neutra, alegando que deve-se evitar o moralismo barato e começar a pensar no estupro em toda sua complexidade? Nossas entranhas nos dizem que existe algo de terrivelmente errado aqui: eu gostaria de viver em uma sociedade em que o estupro é simplesmente considerado inaceitável, de forma que qualquer um que argumenta em seu favor é visto como um idiota excêntrico, não em uma sociedade em que é preciso argumentar contra ele – e o mesmo vale para a tortura: um sinal de progresso ético é o fato de a tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação. Mas e o argumento “realista”: a tortura sempre ocorreu, se bobear até mais no passado (recente), então não é melhor ao menos falarmos publicamente sobre ela? Esse, exatamente, é o problema: se a tortura sempre ocorreu, por que aqueles que agora estão no poder passaram a falar abertamente sobre ela? Só há uma resposta: para normalizá-la, isto é, para rebaixar nossos padrões éticos.

E é crucial ver essa regressão ética como o obverso do desenvolvimento explosivo do capitalismo global – são dois lados da mesma moeda. Então como ficamos hoje? Perto do museu das crianças em Seoul há uma estátua esquisita que, aos não-iniciados, não pode senão parecer a representação de uma cena de extrema obscenidade: parece um grupo de meninos, enfileirados um atrás do outro, enfiando suas cabeças dentro do reto do colega em frente, enquanto o menino da frente porta-se de pé e virado de frente para os outros, também com a cabeça do primeiro colega enfiada em sua virilha.

14.02.14_Zizek

Quando inquerimos, somos informados que a estátua é simplesmente a representação do malttukbakgi, um divertido jogo que tanto meninas quanto meninos coreanos jogam até o colegial. São dois times; o time A deixa uma pessoa de pé encostada na parede enquanto o resto do time fica com a cabeça enfiada na bunda/virilha de alguém de modo a formarem o que parece ser um grande cavalo. O time B então monta no cavalo humano um a um, pulando com o máximo de força possível; se alguém de algum time cair no chão, seu time perde.

Essa estátua não é a metáfora perfeita para nós, pessoas comuns, para nosso predicamento no capitalismo global de hoje? Nossa perspectiva é constrangida ao que podemos ver com nossa cabeça presa à bunda de um cara logo à frente de nós, e nossa ideia de quem é nosso Mestre é o cara de pé na frente cujo pênis e/ou bolas o primeiro cara da fileira parece estar lambendo – mas o verdadeiro Mestre, invisível para nós, é aquele livremente pulando nas nossas costas, o movimento autônomo do capital.

Como, então, devemos proceder em tal enrascada? Existe um maravilhoso verbo comum usado na Escócia, tartle, que designa o momento desconfortável em que um falante temporariamente esquece o nome de alguém (geralmente o nome de seu interlocutor em uma conversa). O verbo é então usado para contornar aquele constrangimento ocasional, como em: “Desculpe, eu tartlei ali por um momento!” Não estávamos todos tartlando nas últimas décadas, esquecendo o nome “comunismo” para designar o horizonte fundamental de nossas lutas emancipatórias? É tempo de plenamente relembrar essa palavra – sua plena reabilitação pública terá sido por si só um autêntico evento político.

* Publicado em inglês na revista New Statesman, em 12 de fevereito de 2014.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

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Slavoj Žižek descreveu Cypherpunks, de Julian Assange, como “leitura obrigatória para qualquer pessoa realmente interessada nas nossas liberdades.” Confira a página oficial do livro aqui. Confira a mensagem de Julian Assange aos leitores da Boitempo:


Assista abaixo ao debate entre Žižek e David Horowitz n’O Mundo Amanhã, de Julian Assange (com legendas em português):

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Nova classe perigosa?

14.02.14_Ruy Braga_Precariado nova classe perigosaPor Ruy Braga.

O livro de Guy Standing, O precariado: a nova classe perigosa (São Paulo, Autêntica, 2013), acabou de ser publicado no Brasil. Trata-se de uma dessas aguardadas análises que chegou na hora certa. Um dos mais impactantes livros sobre o mundo do trabalho lançado nas últimas décadas, ele já surgiu com ares de “clássico” por ser capaz de traduzir em dados o espírito de toda uma época: vivemos sob a sombra do “precariado”, isto é, um novo grupo de pessoas despojadas de garantias trabalhistas, submetidas a rendimentos incertos e carentes de uma identidade apoiada sobre o trabalho. Em larga medida, da qualidade da ação coletiva deste grupo depende o futuro dos movimentos sociais globais.

A descrição que Standing faz das razões pelas quais a globalização econômica por meio da flexibilidade do trabalho ampliou incessantemente o tamanho do precariado é verdadeiramente arrasadora. A mercantilização do trabalho associada tanto ao aprofundamento da concorrência intercapitalista quanto à financeirização do meio ambiente empresarial reviveu o pesadelo de Karl Polanyi. Como é sabido, para o grande sociólogo húngaro, ao açambarcar as três mercadorias fictícias – isto é, o dinheiro, o trabalho e a terra –, o capitalismo colocaria em risco o conjunto da reprodução social.

Em seu belo volume, Standing enfrentou os desafios levantados por Polanyi há exatos setenta anos. Além de criticar a liberdade de movimentos e a concentração dos capitais financeiros, ele denunciou os efeitos deletérios da submissão de parte substantiva do movimento sindical europeu e de setores predominantes do mainstream político social-democrata a um modelo de desenvolvimento socialmente irresponsável e ecologicamente insustentável. No entanto, seu foco principal é o advento e o destino histórico do precariado como uma nova classe em transformação.

Poderia passar muito mais tempo simplesmente realçando os superlativos méritos do livro. No entanto, estou entre aqueles que consideram que um estudo desta qualidade sempre estimulará o desejo de discutir e de argumentar. Adianto que, ao contrário da maior parte dos exemplos e dados presentes no livro cujo foco recai sobre as relações trabalhistas em países de capitalismo avançado comentarei o livro da perspectiva de alguém que estuda as metamorfoses do capitalismo e da classe trabalhadora no chamado “Sul global”.

Talvez isto seja de alguma valia ao debate. Afinal, em minha opinião, Standing concentra-se excessivamente na ampliação do precariado em países de capitalismo avançado, sobrando pouco espaço para a maior parte da força de trabalho mundial que se encontra submetida a condições severamente piores de precariedade laboral do que aquelas encontradas na Europa ocidental. De fato, uma parte significativa das ameaçadoras relações sociais tão bem analisadas no livro parecem incrivelmente familiares à sensibilidade daqueles que se especializaram em pesquisar, por exemplo, a resiliência histórica do trabalho informal nas economias do Sul global.

Por essa razão, dentre as inúmeras possibilidades de interlocução com o livro, tentarei me concentrar em apenas duas variáveis do precariado global, isto é sua natureza de classe e seus padrões de mobilização coletiva. Standing compreende que o precariado não faz parte da classe trabalhadora. Ao contrário, ele constituiria uma classe social de novo tipo produto das transformações decorrentes da globalização capitalista e das estratégias de flexibilização do trabalho em suas múltiplas dimensões. De uma certa maneira, o precariado seria o filho indesejado do casamento do neoliberalismo com a globalização do capital.

Esta união teria engendrado uma nova classe formada basicamente por pessoas destituídas das garantias sociais relativas ao vínculo empregatício, à segurança no emprego, à segurança no trabalho, às formas de reprodução das qualificações, à segurança da renda e à falta de representação política. Tudo aquilo que configurou a robustez, na Europa e nos Estados Unidos, sobretudo, da cidadania salarial fordista após a Segunda Guerra Mundial e que estaria sendo negado à geração dos filhos dos babyboomers.

Em termos históricos, Standing entende que o precariado afasta-se da classe trabalhadora, pelo fato desta sugerir uma sociedade formada majoritariamente por:

“(…) Trabalhadores de longo prazo, em empregos estáveis de horas fixas, com rotas de promoção estabelecidas, sujeitos a acordos de sindicalização e coletivos, com cargos que seus pais e mães teriam entendido, defrontando-se com empregadores locais cujos nomes e características eles estavam familiarizados” (Standing, 2013: 22-23).

Em nossa opinião, esta definição aproxima-se mais do conceito de “salariado” – criado pelos economistas da Escola Francesa da Regulação e enriquecido por sociólogos críticos, como o saudoso Robert Castel, por exemplo, para apreender o tipo de norma social de consumo própria ao modelo de desenvolvimento fordista – do que do clássico conceito de “proletariado” ou mesmo de “classe trabalhadora”. Nunca é demais lembrar que, para Marx, em decorrência da mercantilização do trabalho, do caráter capitalista da divisão do trabalho e da anarquia da reprodução do capital, a precariedade é parte constitutiva da relação salarial.

Em termos marxistas, o aprofundamento da precarização laboral em escala global apoia-se no aumento da taxa de exploração da força de trabalho tendo em vista, sobretudo, a espoliação dos direitos sociais associada à acumulação por desapossamento. Em todo caso, não nos parece razoável falar em uma relação de produção de novo tipo capaz de produzir uma “nova classe”. Antes, trata-se de um retrocesso em termos civilizatórios potencializado pelo ciclo de acumulação desacelerada que se arrasta desde, ao menos, meados dos anos 1970 e cujos desdobramentos, potencializados pela crise atual, em termos da deterioração do padrão de vida dos trabalhadores e assalariados médios tornaram-se mais salientes a partir de 2008.

Se, ao menos, na Europa ocidental e nos Estados Unidos, décadas de institucionalização de direitos sociais mitigaram a condição estruturalmente precária do trabalho assalariado, integrando a fração masculina, branca, adulta, nacional e sindicalizada da classe trabalhadora ao ciclo “virtuoso” da transferência de parte dos ganhos de produtividade aos salários, a transformação de um longo período de crescimento lento em uma crise econômica sistêmica trouxe novamente à baila a precariedade laboral como um traço ineliminável da mercantilização do trabalho.

Com isso, gostaria apenas de dizer que a ausência de um sentido de carreira, de identidade profissional segura e de direitos trabalhistas, são traços que, grosso modo, sempre estiveram presentes na própria definição da força de trabalho fordista no Brasil. E estas características continuam presentes nos dias de hoje. Apenas para efeitos comparativos, entre 2003 e 2010, um período marcado por flagrante crescimento econômico com formalização do emprego, a atual taxa de informalidade do trabalho no Brasil ainda é de 44%. Vale lembrar que, no sul da Europa, mesmo após cinco anos de forte crise econômica, esta taxa gravita em torno de 20%.

Uma mirada na formação do precariado europeu de uma perspectiva brasileira talvez também seja útil para problematizar aquela que constitui a grande contribuição de Standing ao debate público contemporâneo: o alerta sobre a natureza “perigosa”, isto é, filo-fascista, desta nova classe. De fato, o autor constrói ao longo do livro uma imagem do precariado como sendo uma classe alienada, ansiosa, insegura, infantilizada, oportunista, cínica, passiva – tanto mental, como politicamente –, além de detentora de um estado psíquico nebuloso. Não é de se estranhar, portanto, que, do ponto de vista político, o precariado seja considerado potencialmente hostil ao regime democrático, além de uma presa fácil dos apelos direitistas.

Gostaria de me deter sobre este ponto, qual seja, a “política do precariado”, por um momento. Se, por um lado, Standing nitidamente acerta ao destacar os jovens recém-chegados ao mercado de trabalho, especialmente, os estagiários e os operadores de telemarketing, como o grupo mais representativo entre os que irão desenvolver uma trajetória ocupacional frustrante e apartada daquela bem mais estável verificada por seus pais, por outro, sua caracterização a respeito da relação destes jovens com os sindicatos merece um olhar mais detido. Em suma, o autor identificou uma postura ressentida e anti-sindical por parte significativa do precariado.

Devido, sobretudo, ao fato de que os trabalhadores jovens e politicamente inexperientes, cada dia mais submetidos a empregos temporários, considerarem impossível formar associações coletivas no processo de produção seria a razão da saliente hostilidade em relação ao movimento sindical. Afinal, o precariado associaria os sindicatos aos “privilégios” reservados aos assalariados mais velhos e que ainda desfrutam da proteção de um tipo de compromisso social em flagrante desintegração.

Para Standing, fazer frente ao enorme desafio social representado pelo crescimento ininterrupto desta classe alienada em vias de se deixar seduzir por apelos populistas e iniciativas autoritárias implica substituir a agenda sindical por uma nova agenda de segurança econômica e de mobilidade social apoiada sobre uma reforma das políticas públicas. Como os sindicatos tenderiam a se enfraquecer a cada dia e, consequentemente, tombar sobre seu próprio egoísmo burocrático, eles, supostamente, não poderiam construir soluções políticas capazes de fortalecer a universalização dos direitos sociais necessária para fazer frente ao crescimento do precariado.

O fato curioso é que, em 2004, quando iniciei minha pesquisa de campo a respeito dos operadores de telemarketing em São Paulo, eu próprio sustentava expectativas bastante semelhantes no tocante à consciência sindical destes jovens trabalhadores. E como poderia ser diferente se, neste setor, prevaleciam os baixos salários, os contratos temporários, a alta rotatividade, a hostilidade aos sindicatos, a inexperiência política e os desejos individualistas de consumo? Conforme a pesquisa evoluiu, no entanto, fui me dando conta de que uma realidade acentuadamente diferente, senão, totalmente contrária, prevalecia neste setor.

O que aconteceria se, aos olhos dos jovens trabalhadores precarizados, ao invés de representar os privilégios inalcançáveis da geração anterior, os sindicatos anunciassem a possibilidade de ascender aos direitos sociais que foram negados a seus pais? Foi exatamente essa a realidade que encontrei ao estudar a relação dos operadores de telemarketing da indústria paulistana do call center com o movimento sindical que atua no setor. E, nos últimos 15 anos, os sindicatos têm se empenhado em atualizar suas táticas a fim de se aproximarem da massa de trabalhadores jovens que todos os anos acorre às empresas do setor.

Além disso, os próprios teleoperadores, apesar de sua inexperiência política, aproximam-se fatalmente dos sindicatos em busca de apoio a suas reivindicações trabalhistas. E como poderia ser diferente se, no setor, tende a imperar a dura realidade dos baixos salários, da alta rotatividade, do adoecimento, do assédio moral, etc.? O aprofundamento da experiência com o regime de trabalho despótico da indústria do call center tende a promover não apenas comportamentos críticos em relação às empresas, como também o desenvolvimento de formas embrionárias de consciência de classe que são potencializadas pelos sindicatos. O resultado desta aproximação entre os teleoperadores e o sindicalismo pode ser medido, por exemplo, pelo aumento da participação destes trabalhadores nas greves nacionais bancárias dos últimos anos.

Um contra-argumento legítimo seria invocar a excepcionalidade do caso brasileiro a fim de mitigar a força deste exemplo. Afinal, há dez anos o país é governado pelo Partido dos Trabalhadores e a crise internacional não teria atingido o país como o fez na Europa. E, mesmo com uma taxa de crescimento abaixo da média dos anos 2000, a estrutura social do Brasil continua a criar milhões de empregos formais todos os anos. Exatamente por isso, gostaríamos de invocar outro estudo de caso para pensarmos a suposta incompatibilidade política identificada por Standing entre o precariado e o movimento sindical, isto é, o caso de Portugal.

Trata-se de um exemplo emblemático do crescimento do precariado motivado pela crise econômica mundial. Desde 2008, a taxa de desemprego aumenta no país e as relações trabalhistas estão sendo submetidas a condições cada vez mais precárias. O desemprego e o subemprego atingem mais da metade da população economicamente ativa entre os 15 e os 35 anos. Para os jovens, praticamente não há perspectivas de contratação que não seja por meio de vínculos intermitentes. A massa salarial diminuiu e o Estado avança nos cortes de gastos e nas demissões motivadas pela adoção das medidas de austeridade acertadas com a Troika (isto é, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional).

Pois bem, qual tem sido a reação dos jovens trabalhadores precarizados portugueses frente ao assalto a seus direitos sociais? Desde 2011, eles investem em massivas manifestações de protesto contra as medidas do governo de Pedro Passos Coelho. As maiores foram, sem dúvidas, organizadas pelo movimento “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!” e ocorreram nos dias 15 de setembro de 2012 e 2 de março de 2013, acantonando mais de 1 milhão de pessoas cada nas principais cidades do país. Animado por cerca de uma dezena de associações de trabalhadores precarizados, como os “Precários Inflexíveis”, por exemplo, desde o início o movimento “Que se lixe a troika!” convidou os sindicatos e, mais precisamente, a Central Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a integrarem os protestos.

A resposta do movimento sindical foi bastante positiva: além de participarem das marchas, os sindicatos convocaram greves gerais, reforçando as demandas contra a precarização do trabalho em suas campanhas. Ao contrário de uma hostilidade dos jovens em relação aos sindicatos, percebe-se uma relação tensa, porém, marcadamente solidária, em termos políticos. Na realidade, os jovens mobilizam-se para defender os direitos sociais conquistados por seus pais e vêem os sindicatos como aliados e não como adversários de sua luta.

Existem inúmeras diferenças entre os casos brasileiro e português. Os jovens trabalhadores no Brasil, por exemplo, lutam por efetivar direitos enquanto os portugueses mobilizam-se para conservar direitos sociais. Além disso, há muitas diferenças em termos de composição social e qualificação do trabalho separando estes jovens. Uns olham para o futuro com um certo otimismo, enquanto outros vivem o pesadelo de não enxergar futuro algum. No entanto, em ambos os casos, não há evidentemente hostilidade ao regime democrático. Muito ao contrário, a práxis política desses grupos é marcadamente progressista.

Finalmente, diríamos que o livro de Guy Standing é uma obra fascinante não apenas pelas questões que ilumina, mas, sobretudo, pelas polêmicas que é capaz de nutrir. A discussão sobre se o precariado é ou não uma “nova classe” apartada do proletariado e com interesses contrários ao movimento sindical é uma destas questões polêmicas que merece ser debatida. Afinal, estamos convencidos de que é da qualidade da ação coletiva deste jovem precariado global que depende o futuro dos movimentos sociais.

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Debate de lançamento de A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, de Ruy Braga, com André Singer, Chico de Oliveira, Ricardo Musse e o autor. Recomendamos também o artigo “Sob a sombra do precariado”, escrito por Ruy Braga para o livro coletivo Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, ambos publicados pela Boitempo em 2013.

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Ao longo da próxima semana Ruy Braga estará em Portugal para apresentar um ciclo de conferências “Cidades rebeldes: as manifestações de junho no Brasil e o espectro do precariado”. Saiba mais aqui.

ruy braga

17/2 | Abrantes | Palha de Abrantes | Sr.Chiado | 21h
18/2 | Lisboa | ISCTE-IUL | Sala C104 | Ed. II | 18h
20/2 | Coimbra | FEUC | Sala Keynes | 11h
21/2 | Lisboa | FCSH-UNL | Av. de Berna | Sala 008 | Bloco 1 | 16h

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Os outros são os outros e só?

14.02.13_Souto MaiorPor Jorge Luiz Souto Maior.

O que o suposto assaltante amarrado no poste, a âncora de jornal, os operários mortos em obras da copa, o jogador de futebol enxotado para a China, os donos do esporte, o manifestante atingido por policial militar, o policial militar, o cinegrafista morto por rojão atirado por um manifestante, o manifestante que acendeu o rojão, o prefeito de São Paulo, o “rolezeiro”, o comerciante, o advogado e a professora de letras, que estão em maior evidência nos noticiários nos últimos dias, devido a atos, fatos ou declarações, na qualidade de algozes ou vítimas, têm em comum? São todos seres humanos. E o que todos nós, que passamos os últimos dias discutindo os fatos que envolveram essas pessoas, temos em comum com elas? Também somos seres humanos.

Então, eles não são os outros e só! Eles são, em pequena escala, o que são os seres humanos no conjunto. Em outras palavras, são o “produto” do que conseguimos acumular de racionalidade e de conhecimento ao longo da nossa existência, vista a humanidade como uma entidade histórica, na busca da construção do significado da condição humana. São, igualmente, o resultado do nível de coesão social que conseguimos atingir ao longo desses mesmos anos.

O trágico é verificar que todos esses fatos, vistos de forma interligada, conferem a evidência de que vivenciamos um grande déficit na formulação de compreensões e na proposição de um efetivo projeto de sociedade. E, em um barco à deriva, a irracionalidade provoca a barbárie, filha da intolerância.

É urgente compreender que passamos por um momento bastante delicado, no qual a falta de vontade de buscar o conhecimento por intermédio de interlocuções descomprometidas está nos conduzindo aos mesmos dilemas históricos que antecederam o desmantelamento das bases democráticas e “legitimaram” a instauração de governos autoritários, ditatoriais, cujo papel foi “restabelecer a ordem” mediante a imposição do silêncio e do medo. Outro dia, um colega falou-me orgulhoso que havia mandado riscar dos autos uma manifestação do advogado que criticava a postura insensível dos juízes. Restabeleceu-se a ordem. Fez-se o silêncio. Mas, os juízes são insensíveis, ou não? A pergunta ficou sem resposta…

Em uma passagem do belíssimo filme As neves do Quilimanjaro a protagonista diz que não lhe importa saber qual e a intensidade da pena que será dada ao rapaz que lhe atacou. O que ela quer é compreender o fato ocorrido.

O filme tem o grande poder de nos fazer mais humanos e atinge esse propósito quando nos impulsiona a buscar o conhecimento, despindo-nos de verdades pré-concebidas e conceitos pré-estabelecidos, além de nos integrar ao contexto da trama, não nos privando, portanto, de uma inserção no próprio problema. Fato é que o problema não se resolve, como no exemplo dito, riscando dos autos as críticas feitas ou simplesmente desconsiderando as falas que eventualmente agridem a nossa consciência.

Mas, ao ouvir pessoas que tenho como paradigmas de seres humanos sugerirem que o problema da sociedade brasileira são os Direitos Humanos, fico com a impressão de que atingimos um ponto de urgência, afinal se somos seres humanos não há lógica que sejamos contra os nossos direitos, que possuem razões históricas largamente conhecidas, bastando lembrar, por exemplo, das atrocidades das guerras mundiais. Parece-me, assim, extremamente importante que paremos um pouco; que descansemos a mente e o corpo; que nos disponhamos a um diálogo honesto e aberto, que tenha por objetivo a busca de um conhecimento cujo fim seja a elevação da condição humana e a efetivação de uma sociedade mais justa e igualitária.

Há de se acreditar que a racionalidade humana possa compreender a gravidade do momento e o quanto nos é caro preservar o regime democrático, a alteridade, a solidariedade e a tolerância, respeitando a quem se dispõe a lutar pela efetivação de direitos que estão consagrados interna e internacionalmente.

Antes de tudo, é a nossa capacidade de sermos humanos que está em jogo. E que ninguém se iluda: não há capitalismo ou socialismo, por mais bem estruturados que estejam em lindas teorias, que sobreviva sem seres humanos racionais e que se completem no outro, que é um ser tão imperfeito como cada um de nós.

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Jorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, para o qual colaborou com o texto “A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos conhecidos como as “Jornadas de Junho”, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Ruy Braga, Carlos Vainer, entre outros.

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e de um dos artigos da coletânea Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Crônicas de Berlim: Cinema, homossexualidade e solidão

14.02.13_Flávio Aguiar_Crônicas de Berlim_Cinema homossexualidade e solidãoPor Flávio Aguiar.

Anualmente, em fevereiro, Berlim vira a capital internacional do cinema durante dez dias.

A cidade vive e transpira cinema.

A Berlinale – como é chamado o Festival Internacional de Cinema de Berlim, hoje em sua 64ª. Edição – tem um dos modelos deste tipo de evento mais atraente dentre os que conheço.

Há a questão do porte:  juntando filmes, seminários, workshops, entrevistas coletivas, etc., o número de atividades vai à casa do quase milhar, se não ultrapassá-la. Neste ano 69 países estão representados, com mais de 250 filmes.

É claro que há o tapete vermelho e o desfile de estrelas entre flashes e spots de iluminação, transmissão das entrevistas em telões na praça Marlene Dietrich, que é o centro nervoso do festival, perto da Potsdammer Platz.

Mas isto é apenas a ponta do iceberg – o teaser, para usar uma linguagem adequada – da Berlinale.

Porque o segredo do Festival é que ele toma a cidade inteira. O Festival ocupa quase todos os cinemas de Berlim, vai para os bairros, chama as escolas, além de gente que vem da Europa inteira e também de outros continentes apenas para conhecer/viver a Berlinale.

Há sessões e mostras especiais para adolescentes e crianças, com júris e prêmios próprios. Além dos filmes que concorrem ao cobiçado Urso de Ouro (melhor filme) e aos Ursos de Prata (melhor ator, fotografia, música, curta, documentário, etc.), há as mostras chamadas de Fórum e de Panorama. A primeira põe em evidência diferentes tendências do cinema contemporâneo, como se fizessem um debate entre si. A segunda faz uma mostra do ‘estado da sétima arte’, digamos. Além disto há retrospectivas, mostras especiais, homenagens, seminários com grandes diretores, cinegrafistas, roteiristas, etc., dirigido a jovens cineastas. Para se inscrever o jovem deve apresentar algum projeto que queira desenvolver para ser aprovado. O Festival financia a vinda dos jovens. Em geral mais de 200, dos cinco continentes, acompanham estes seminários e workshops práticos. Uma curiosidade: pode-se dizer que o inglês é a ‘língua oficial’ da Berlinale. Todos os filmes apresentados – inclusive os alemães – têm legendas em inglês.

O Brasil costuma sair bem no filme. Desta vez tem um filme na competição: Praia do Futuro, dirigido por Karim Aïnouz, com Wagner Moura – que é ‘velho conhecido’ de Berlim desde que foi o protagonista do ‘Urso de Ouro’ Tropa de Elite I, de José Padilha. Tropa de Elite II, também com ele e do mesmo diretor, não concorreu mas foi homenageado em sessão especial. Desta vez Wagner Moura interpreta mais um militar: um salva-vidas do Corpo de Bombeiros de Fortaleza, onde fica a mencionada praia. Ele e um turista alemão (ex-soldado no Afeganistão) cujo amigo morre afogado se apaixonam um pelo outro. Donato (Wagner) vem para Berlim por causa desta paixão, rompendo com a família: duas irmãs, um irmão menor e a mãe. Anos depois, o irmão – já um rapaz crescido – vem para Berlim em busca dele. Os encontros, desencontros e conflitos são inevitáveis.

Não acredito que o filme venha a receber o Urso de Ouro. A fotografia é belíssima, o desempenho dos atores é excelente, mas o roteiro é falho (solto demais). O filme não despertou entusiasmo, embora tenha chamado a atenção pelas ousadas cenas de sexo entre os dois apaixonados. Talvez receba alguma menção por aqueles atributos positivos. A impressão que fica é que Karim (que já fez o excelente Madame Satã, lançado em 2002) quis fazer um filme mais poético do que narrativo, mas afrouxou demasiadamente a corda.

Mais entusiasmo despertou – pelo menos para mim – o filme/documentário de Davi Pretto, da Casa de Cinema de Porto Alegre, chamado Castanha, que não está na competição, mas no Forum. É um documentário com partes de ficção rememorativa sobre a vida do personagem-título, um conhecido travesti das casas noturnas gays da capital gaúcha. Castanha interpreta o próprio papel, e sua mãe, Da. Celina, o seu. O desempenho de ambos é sensacional, sendo que para mim o desta rouba a cena, sendo a primeira vez que faz um trabalho de representação.

A Berlinale é um reconhecido reduto cinematográfico da homossexualidade. Tem até um prêmio especial para filmes que tratem deste tema, o ‘Teddy’. Uma explicação: ‘Teddy’ é o nome que se dá, em inglês e alemão, aos ursinhos de pelúcia das crianças. Mas neste ano o tema ganhou muita relevância e espaço no Festival. São inúmeros os filmes que o abordam, de uma ou de outra maneira. Mas ele veio associado a um outro tema que também está onipresente nos filmes: a solidão, seja no meio urbano ou no rural, uma contra-facção crítica em relação ao individualismo que o estilo de vida promovido em sociedades dominadas pelas crenças supersticiosas nas virtudes universais do culto aos mercados – financeiros ou outros que não aquele Mercado Público que em geral é um centro prazeroso.

Além da abordagem de temas da contemporaneidade a Berlinale é uma ótima oportunidade para se ver filmes que estarão certamente fora deste ‘mercado’. Filmes da Índia (para além dos de Bollywood), Equador (primeira vez em que assisti um filme deste país, Feriado, que também toca no tema da homossexualidade), Uzbequistão, Palestina e etc., e ponha etc. nisto.

Uma oportunidade de ouro para se conhecer cinema – e Berlim. Se não conhece ainda a Berlinale e a capital do cinema em fevereiro, não perca a próxima oportunidade, em fevereiro de 2015.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Não vai ter Copa!

14.02.12_Mauro Iasi_Nao vai ter copaPor Mauro Iasi.

O futebol é um esporte. Para quem pratica e para quem assiste costuma ser muito apaixonante e cumpre funções bem interessantes. Por exemplo, podemos sofrer, nos alegrar, chegar à exaltação, por motivos absolutamente irrelevantes: uma bola que passou perto, a polêmica marcação de uma penalidade, uma jogada de efeito ou mesmo uma absolutamente ridícula, uma cena magistral da mais pura arte que resulta em gol ou um caos de corpos e acidentes que culminam na bola rolando indolente ao cruzar a linha sob o olhar de milhares de pessoas.

O futebol, como tudo, foi capturado pela sociedade da mercadoria. Na sua forma mercadoria, seu valor de uso é subssumido pelo valor de troca. É só meio para realização de mais valor, para a valorização do capital. Desta maneira é espetáculo, não em seu conteúdo substantivo (nos elementos que o constituem como esporte ou na paixão que provoca), mas em sua própria forma.

O megaevento, a Copa da FIFA, é só a potencialização desta forma mercadoria levada ao máximo, com seus negócios, interesses, investimentos, mercados milionários, a indústria do turismo e outras que passam a ocupar a centralidade que antes o jogo ocupava. Soma-se a este fato a conjuntura em que ocorrem os jogos e sua utilização política como são famosos os exemplos das olimpíadas na Alemanha nazista e a Copa do Mundo na Argentina em 1978 na época da ditadura militar.

Por tudo isso a polêmica entre as “torcidas” que defendem que “vai ter Copa” ou que “não vai ter Copa” não pode ser compreendida apenas pela dimensão do evento esportivo em si mesmo, tampouco pelo simplismo da contraposição abstrata e insidiosa que procura contrapor “quem torce pelo Brasil” e aqueles que “torcem contra o Brasil”.

Em uma coluna de opinião publicada na Carta Maior um senhor chamado Antonio Lassance que se identifica como “doutor em ciência política e torcedor da seleção brasileira”, pretende dar argumentos para aqueles que querem defender a realização da Copa contra os que denomina de “profetas do pânico”.

Para o autor existe “uma campanha orquestrada contra a Copa do Mundo” que apesar de composta por poucos, tem conseguido “queimar o filme do evento”, arrastando muita gente que, mesmo sem ser virulenta e violenta, “acaba entrando no clima de replicar desinformações, disseminar raiva e ódio e incutir, em si mesmas, a descrença sobre a capacidade do Brasil dar conta do recado”.

Em resumo, seus principais argumentos são que aqueles que atacam o evento servem-se da desinformação. Sendo assim, o autor procura oferecer as informações “corretas” aos seus leitores. Diz ele: “Não conheço uma única pessoa que fale dos gastos da Copa e saiba dizer quanto isso custará para o Brasil. Ou, pelo menos, quanto custarão só os estádios. Ou que tenha visto uma planilha dos gastos da Copa”. Nós poderíamos apresentá-lo à algumas pessoas muito bem informadas, como a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP) ou indicar o site www.portalpopulardacopa.org.br , mas desconfio que ele não quer este tipo de informação. Prefere apenas dizer que é a maior parte dos recursos não são gastos em estádios (apenas 30% das verbas são destinadas a este fim), oferece alguns números como o custo total estimado em 26 bilhões, os investimentos públicos e privados em aeroportos, com segurança pública e outros). A esses argumentos agrega que os gastos com educação e saúde cresceram, independente da Copa e que o montante necessário não é prejudicado pelos investimentos no evento, da mesma forma que, segundo ele, os eventos deixam na maior parte do que foi feito um “legado”, tecendo um raciocínio estranho segundo o qual, por isso não importa se as obras estão ou não atrasadas. Por fim, reafirma sua crença que o Brasil pode dar conta de sediar os eventos e que a critica não passa de um sentimento de “vira lata” que está preso a uma autoimagem que coloca o país como um eterno incapaz, concluindo:

“Podem ocorrer problemas? Podem. Certamente ocorrerão. Eles ocorrem todos os dias. Por que na Copa seria diferente? A grande questão não é se haverá problemas. É de que forma nós, brasileiros, iremos lidar com tais problemas”.

Notem que se trata de munir os seus leitores de informações para contrapor um movimento que segundo seu próprio juízo está tendo sucesso em azedar o clima. Ele está, não sei se consciente ou não, respondendo a um chamado dos governistas que conclamaram recentemente tanto “intelectuais” de um lado e “movimentos sociais” de outro para intervir mais no jogo das redes de opinião diante da ofensiva do movimento “Não vai ter Copa”. Bom, digamos que ele não se mostrou um soldado muito bom, mas é representativo da indigência da defensiva governista diante de algo que não entenderam com a profundidade e seriedade necessárias. O próprio Lula expressou posições ainda mais primárias em vídeo que circulou na internet.

É no mínimo estranho que um governo que não teve por prática dialogar com movimentos sociais e que destrata os intelectuais, os convoque agora para encobrir seus problemas a golpe de discursos argumentativos nas redes sociais.

Se ele culpa a desinformação como principal arma dos profetas do pânico, teria que ter um pouco mais de cuidado com as informações em que se apóia, senão vejamos. O autor nos afirma que os gastos com o evento estavam estimados em 26 bilhões, mas oculta oportunamente que inicialmente foram orçados em 11 bilhões, já chegaram perto dos 28 bilhões e podem chegar a 33 bilhões, repetindo um enredo que já era conhecido se lembrarmos os dados sobre os gastos com os Jogos Panamericanos, que estavam previstos em 409 milhões e acabaram com algo perto de 4 bilhões ao final.

Em alguns estádios, se pegarmos casos particulares, como o Maracanã, as obras estavam previstas em 650 milhões e acabaram chegando perto de 2 bilhões com uma privatização no mínimo duvidosa no meio do processo. O mesmo se repete em outras obras, como o Mané Garrincha em Brasília (de 696 milhões para 1,7 bilhões). Um cientista político deveria saber que estas explosões orçamentárias não se devem a questões de engenharia e custo de materiais, mas a poderosos interesses de empreiteiras e outros que se locupletaram com a farra do boi das licitações de emergência (este sim um legado que vai ficar, como ficaram as obras do Pan).

Mas, como cabe ao discurso pequeno burguês, não se trata dos interesses reais de classe, mas do interesse maior: o da Nação. A pequena burguesia, disse Marx, inventou o conceito de Nação, porque ela própria fica pressionada entre os interesses reais das classes em luta e criou um espaço acima destes interesses mesquinhos, que a identifique com o povo e faça dela, a pequena burguesia, o legítimo interprete de seus verdadeiros anseios.

É por isso que os maldosos profetas do apocalipse ao atacar a copa e querendo atacar o governo, atacam o nosso Brasil. Diz o torcedor com diploma de doutor: “O pior dessa campanha fúnebre não é a tentativa de se desmoralizar governos, mas a tentativa de desmoralizar o Brasil”. Evidente que ia descambar para uma pregação nacionalista. Logo em seguida ela assume sua forma descarada:

“É claro que as informações deste texto só fazem sentido para quem as palavras ‘Brasil’ e ‘brasileiros’ significam alguma coisa [??]. Há quem por aqui nasceu, mas não nutre qualquer sentimento nacional, qualquer brasilidade; sequer acreditam que isso existe. Paciência. São os que pensam diferente que têm que mostrar que isso existe sim.”

A mágica da ideologia é apresentar o interesse particular como se fosse geral. Se o futebol espetacularizado e mercantilizado é meio de outros interesses – os dos grandes negócios não só dos jogos em si mesmos, mas dos gastos com as empreiteiras, a logística e uma infinidade de áreas de interesse do grande capital monopolista – ele se tornou também o meio pelo qual podem expressar-se as contradições e o descontentamento contra a fachada da imagem de sucesso que se projeta do caminho de pacto social escolhido. Não há um raciocínio simplista que acredita que um centavo gasto na Copa poderia ir para um hospital, é a critica absolutamente pertinente de que o caminho escolhido deixa soterrado contradições que mesmo invisibilizadas seguem existindo e pulsando. Queremos educação e saúde de qualidade, segurança, moradia, transporte e a opção escolhida de pacto com o grande capital condena estas áreas às sobras do prato principal servido ao capital financeiro e os generosos subsídios ao capital monopolista.

O que o articulista opina é que devemos separar as coisas. De um lado tem problemas no Brasil, mas a copa não tem nada a ver com isso. Sua cegueira é tamanha que lhe escapa o mais epidérmico do real. Existem cerca de 170 mil pessoas removidas por conta das obras da Copa, atingidas em seus mais elementares direitos humanos, sacrificados ao altar dos interesses das empreiteiras. Cinco trabalhadores da construção civil morreram nas obras, por causa da urgência, mas fundamentalmente das condições de trabalho, as mesmas precariedades já denunciadas nas obras do PAC. Eles tem nome: Marcleudo de Melo Ferreira de 22 anos, Raimundo Nonato Lima da Costa, 49 anos, José Afonso de Oliveira Rodrigues, de 21 anos, Fábio Luiz Pereira, 42 anos e Ronaldo Oliveira dos Santos, 44 anos.

As contradições são como a água que corre, sempre encontram um caminho para expressar-se. Nosso amigo está tentando parar o vazamento da represa com o dedo como aquele famoso caso do menino holandês. Seu dedo ideológico não é suficiente para deter a fúria das águas que ameaçam azedar a festa dos investidores e daqueles que queriam tirar dividendos políticos dos eventos.

Quando a represa estourar os sacerdotes do pacto pequeno burguês vão tentar encontrar alguém para botar a culpa (já começou no caso da lamentável morte do cinegrafista), mas a culpa certamente nunca é deles. Como dizia Marx:

“Como quer que seja, o democrata sai da derrota mais vergonhosa tão imaculado quanto era inocente ao nela entrar.” (O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, p.68).

É possível que o evento ocorra, até pela truculência da reação anunciada como a Portaria do Ministério da Defesa, mas vai ter que conviver como muita luta e manifestação. As patéticas iniciativas do governo de Dilma não chegaram nem perto dos graves problemas que estão na base desse fenômeno que explodiu em junho do ano passado. E não será agora que recuaremos.

Bom, vem aí o carnaval, esta outra festa popular que o povo cultua. Vai aí nossa contribuição no Bloco Comuna que Pariu que abrilhanta o carnaval carioca desde 2008. Para irmos esquentando os tamborins, aí vai nosso samba: A revolução foi a copa que pariu! E só para não esquecer: “NÃO VAI TER COPA!!!

No Carnaval
Ó nós de novo aqui na rua
Fora Cabral
E não tem gás que me destrua
Não leve a mal
Maraca tu vendeu pra tua

Patota que deixa o povo bolado
A coisa tá ruim pro teu lado
E pro bonde que segue sua Nau
Na hora que a massa chegar pra disputa
Não tem quem segure a maluca
O bicho vai pegar geral

Ei, Dudu [Eduardo Paes]
Vê se conta pra polícia
Como tomar no c… pode ser uma delícia

Não fode, FIFA
A CBF, a Globo e o capital (Não vai ter Copa!)

Sou comunista
Em vez de estádio quero ter mais hospital
Vandalizado
Pela miséria e a exploração
O povo tem que caminhar lado a lado
Pra derrubar todo esse Estado
E melar qualquer tapetão
Comuna que entra em campo, na luta
Empunha tua arma, batuca
No embalo da subversão

Taco pedra, faço greve
Levo bala de borracha
Chuto bomba o ano inteiro
Mas não tiro o pé da praça
Remoção pra tirania
Cada baqueta é um fuzil:
A Revolução Foi a Copa Que Pariu!

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Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.