Agamben: O pensamento é a coragem do desespero

14.27_26_Giorgio Agamben_Coragem pensamento desesperoJuliette Cerf entrevista Giorgio Agamben.

Nascido em Roma em 1942, Giorgio Agamben tem uma trajetória peculiar. Nos anos de formação, o jovem estudante de Direito andava com artistas e intelectuais agrupados em torno da autora Elsa Morante. Uma Dolce Vita? Um momento de amizades intensas, em todo caso. Giorgio Agamben apareceu como o apóstolo Filipe em O Evangelho segundo são Mateus (1964) de Pier Paolo Pasolini. Pouco a pouco, o jurista virou-se para a filosofia, após um seminário de Heidegger em Thor-en-Provence. Então ele lançou-se sobre a edição das obras de Walter Benjamin, um pensador que nunca esteve longe de seu pensamento, bem como Guy Debord e Michel Foucault. Giorgio Agamben tornou-se, assim, familiarizado com um sentido messiânico da História, uma crítica à sociedade do espetáculo, e uma resistência ao biopoder, o controle que as autoridades exercem sobre a vida – mais propriamente dos corpos dos cidadãos. Poético, tal como político, seu pensamento escava as camadas em busca de evidências arqueológicas, fazendo o seu caminho de volta através do turbilhão do tempo, até as origens das palavras. Autor de uma série de obras reunidas sob o título latino Homo sacer, Agamben percorre a terra da lei, da religião e da literatura, mas agora se recusa a ir… para os Estados Unidos, para evitar ser submetido a seus controles biométricos. Em oposição a essa redução de um homem aos seus dados biológicos, Agamben propõe uma exploração do campo de possibilidades. Nesta entrevista a Juliette Cerf em Trastevere, o filósofo italiano contesta quem o vê como pessimista, cita Marx e sustenta: “condições desesperadoras da sociedade em que vivo me enchem de esperança”. Confira:

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Berlusconi caiu, como vários outros líderes europeus. Tendo escrito sobre a soberania, quais os pensamentos que esta situação sem precedentes provocar em você? 

O poder público está perdendo legitimidade. A suspeita mútua se desenvolveu entre as autoridades e os cidadãos. Essa desconfiança crescente tem derrubado alguns regimes. As democracias são muito preocupadas: de que outra forma se poderia explicar que elas têm uma política de segurança duas vezes pior do que o fascismo italiano teve? Aos olhos do poder, cada cidadão é um terrorista em potencial. Nunca se esqueça de que o dispositivo biométrico, que em breve será inserido na carteira de identidade de cada cidadão, em primeiro lugar, foi criado para controlar os criminosos reincidentes.

Essa crise está ligada ao fato de que a economia tem roubado um caminho na política? 

Para usar o vocabulário da medicina antiga, a crise marca o momento decisivo da enfermidade. Mas hoje, a crise não é mais temporária: é a própria condução do capitalismo, seu motor interno. A crise está continuamente em curso, uma vez que, assim como outros mecanismos de exceção, permite que as autoridades imponham medidas que nunca seriam capazes de fazer funcionar em um período normal. A crise corresponde perfeitamente – por mais engraçado que possa parecer – ao que as pessoas na União Soviética costumavam chamar de “a revolução permanente”.

A teologia desempenha um papel muito importante em sua reflexão de hoje. Por que isso? 

Os projetos de pesquisa que eu tenho recentemente realizado mostraram-me que as nossas sociedades modernas, que afirmam ser seculares, são, pelo contrário, regidas por conceitos teológicos secularizados, que agem de forma muito mais poderosa, uma vez que não estamos conscientes de sua existência. Nós nunca vamos entender o que está acontecendo hoje, se não entendermos que o capitalismo é, na realidade, uma religião. E, como disse Walter Benjamin, é a mais feroz de todas as religiões, porque não permite a expiação… Tome a palavra “fé”, geralmente reservado à esfera religiosa. O termo grego correspondente a este nos Evangelhos é pistis. Um historiador da religião, tentando entender o significado desta palavra, foi dar um passeio em Atenas um dia quando de repente ele viu uma placa com as palavras “Trapeza tes pisteos”. Ele foi até a placa, e percebeu que esta era de um banco: Trapeza tes pisteos significa: “banco de crédito”. Isto foi esclarecedor o suficiente.

O que essa história nos diz? 

Pistis, fé, é o crédito que temos com Deus e que a palavra de Deus tem conosco. E há uma grande esfera em nossa sociedade que gira inteiramente em torno do crédito. Esta esfera é o dinheiro, e o banco é o seu templo. Como você sabe, o dinheiro nada mais é que um crédito: em notas em dólares e libras (mas não sobre o euro, e que deveriam ter levantado as sobrancelhas…), você ainda pode ler que o banco central vai pagar ao portador o equivalente a este crédito. A crise foi desencadeada por uma série de operações com créditos que foram dezenas de vezes re-vendidos antes que pudessem ser realizados. Na gestão de crédito, o Banco – que tomou o lugar da Igreja e dos seus sacerdotes – manipula-se a fé e a confiança do homem. Se a política está hoje em retirada, é porque o poder financeiro, substituindo a religião, raptou toda a fé e toda a esperança. É por isso que eu estou realizando uma pesquisa sobre a religião e a lei: a arqueologia parece-me ser a melhor maneira de acessar o presente. Os europeus não podem acessar o seu presente sem julgarem o seu passado.

O que é este método arqueológico? 

É uma pesquisa sobre a archè, que em grego significa “início” e “mandamento”. Em nossa tradição, o início é tanto o que dá origem a algo como também é o que comanda sua história. Mas essa origem não pode ser datada ou cronologicamente situada: é uma força que continua a agir no presente, assim como a infância que, de acordo com a psicanálise, determina a atividade mental do adulto, ou como a forma com que o big bang, de acordo com os astrofísicos, deu origem ao Universo e continua em expansão até hoje. O exemplo que tipifica esse método seria a transformação do animal para o humano (antropogênese), ou seja, um evento que se imagina, necessariamente, deve ter ocorrido, mas não terminou de uma vez por todas: o homem é sempre tornar-se humano, e, portanto, também continua a ser inumano, animal. A filosofia não é uma disciplina acadêmica, mas uma forma de medir-se em direção a este evento, que nunca deixa de ter lugar e que determina a humanidade e a desumanidade da humanidade: perguntas muito importantes, na minha opinião.

Essa visão de tornar-se humano, em suas obras, não é bastante pessimista? 

Estou muito feliz que você me fez essa pergunta, já que muitas vezes eu encontro com pessoas que me chamam de pessimista. Em primeiro lugar, em um nível pessoal, isto não é verdade em todos os casos. Em segundo lugar, os conceitos de pessimismo e de otimismo não têm nada a ver com o pensamento. Debord citou muitas vezes uma carta de Marx, dizendo que “as condições desesperadoras da sociedade em que vivo me enchem de esperança”. Qualquer pensamento radical sempre adota a posição mais extrema de desespero. Simone Weil disse: “Eu não gosto daquelas pessoas que aquecem seus corações com esperanças vazias”. Pensamento, para mim, é exatamente isso: a coragem do desespero. E isso não está na altura do otimismo?

De acordo com você, ser contemporâneo significa perceber a escuridão de sua época e não a sua luz. Como devemos entender essa ideia? 

Ser contemporâneo é responder ao apelo que a escuridão da época faz para nós. No Universo em expansão, o espaço que nos separa das galáxias mais distantes está crescendo a tal velocidade que a luz de suas estrelas nunca poderia chegar até nós. Perceber, em meio à escuridão, esta luz que tenta nos atingir, mas não pode – isso é o que significa ser contemporâneo. O presente é a coisa mais difícil para vivermos. Porque uma origem, eu repito, não se limita ao passado: é um turbilhão, de acordo com a imagem muito fina de Benjamin, um abismo no presente. E somos atraídos para este abismo. É por isso que o presente é, por excelência, a única coisa que resta não vivida.

Quem é o supremo contemporâneo – o poeta? Ou o filósofo? 

Minha tendência é não opor a poesia à filosofia, no sentido de que essas duas experiências tem lugar dentro da linguagem. A casa de verdade é a linguagem, e eu desconfiaria de qualquer filósofo que iria deixá-la para outros – filólogos ou poetas – cuidarem desta casa. Devemos cuidar da linguagem, e eu acredito que um dos problemas essenciais com os meios de comunicação é que eles não mostram tanta preocupação. O jornalista também é responsável pela linguagem, e será por ela julgado.

Como é o seu mais recente trabalho sobre a liturgia nos dá uma chave para o presente? 

Analisar liturgia é colocar o dedo sobre uma imensa mudança em nossa maneira de representar existência. No mundo antigo, a existência estava ali – algo presente.  Na liturgia cristã, o homem é o que ele deve ser e deve ser o que ele é. Hoje, não temos outra representação da realidade do que a operacional, o efetivo. Nós já não concebemos uma existência sem sentido. O que não é eficaz – viável, governável – não é real. A próxima tarefa da filosofia é pensar em uma política e uma ética que são liberados dos conceitos do dever e da eficácia.

Pensando na inoperosidade, por exemplo?

A insistência no trabalho e na produção é uma maldição. A esquerda foi para o caminho errado quando adotou estas categorias, que estão no centro do capitalismo. Mas devemos especificar que inoperosidade, da forma como a concebo, não é nem inércia, nem uma marcha lenta. Precisamos nos libertar do trabalho, em um sentido ativo – eu gosto muito da palavra em francês désoeuvrer. Esta é uma atividade que faz todas as tarefas sociais da economia, do direito e da religião inoperosas, libertando-os, assim, para outros usos possíveis. Precisamente por isso é apropriado para a humanidade: escrever um poema que escapa a função comunicativa da linguagem; ou falar ou dar um beijo, alterando, assim, a função da boca, que serve em primeiro lugar para comer. Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles perguntou a si mesmo se a humanidade tem uma tarefa. O trabalho do flautista é tocar a flauta, e o trabalho do sapateiro é fazer sapatos, mas há um trabalho do homem como tal? Ele então desenvolveu a sua hipótese segundo a qual o homem, talvez, nasce sem qualquer tarefa, mas ele logo abandona este estado. No entanto, esta hipótese nos leva ao cerne do que é ser humano. O ser humano é o animal que não tem trabalho: ele não tem tarefa biológica, não tem uma função claramente prescrita. Só um ser poderoso tem a capacidade de não ser poderoso. O homem pode fazer tudo, mas não tem que fazer nada.

Você estudou Direito, mas toda a sua filosofia procura, de certa forma, se libertar da lei. 

Saindo da escola secundária, eu tinha apenas um desejo – escrever. Mas o que isso significa? Para escrever – o que? Este foi, creio eu, um desejo de possibilidade na minha vida. O que eu queria não era a “escrever”, mas “ser capaz de” escrever. É um gesto inconscientemente filosófico: a busca de possibilidades em sua vida, o que é uma boa definição de filosofia. A lei é, aparentemente, o contrário: é uma questão de necessidade, não de possibilidade. Mas quando eu estudei direito, era porque eu não poderia, é claro, ter sido capaz de acessar o possível sem passar no teste do necessário. Em qualquer caso, os meus estudos de direito tornaram-se muito úteis para mim. Poder desencadeou conceitos políticos em favor dos conceitos jurídicos. A esfera jurídica não pára de expandir-se: eles fazem leis sobre tudo, em domínios onde isto teria sido inconcebível. Esta proliferação de lei é perigosa: nas nossas sociedades democráticas, não há nada que não é regulamentado. Juristas árabes me ensinaram algo que eu gostei muito. Eles representam a lei como uma espécie de árvore, em que em um extremo está o que é proibido e, no outro, o que é obrigatório. Para eles, o papel do jurista situa-se entre estes dois extremos: ou seja, abordando tudo o que se pode fazer sem sanção jurídica. Esta zona de liberdade nunca para de estreitar-se, enquanto que deveria ser expandida.

Em 1997, no primeiro volume de sua série Homo Sacer, você disse que o campo de concentração é a norma do nosso espaço político. De Atenas a Auschwitz… 

Tenho sido muito criticado por essa idéia, que o campo tem substituído a cidade como o nomos (norma, lei) da modernidade. Eu não estava olhando para o campo como um fato histórico, mas como a matriz oculta da nossa sociedade. O que é um campo? É uma parte do território que existe fora da ordem jurídico-política, a materialização do estado de exceção. Hoje, o estado de exceção e a despolitização penetraram tudo. É o espaço sob vigilância CCTV [circuito interno de monitoramento] nas cidades de hoje, públicas ou privadas, interiores ou exteriores? Novos espaços estão sendo criados: o modelo israelense de território ocupado, composto por todas essas barreiras, excluindo os palestinos, foi transposto para Dubai para criar ilhas hiper-seguras de turismo…

Em que fase está o Homo sacer? 

Quando comecei esta série, o que me interessou foi a relação entre a lei e a vida. Em nossa cultura, a noção de vida nunca é definida, mas é incessantemente dividida: há a vida como ela é caracterizada politicamente (bios), a vida natural comum a todos os animais (zoé), a vida vegetativa, a vida social, etc. Talvez pudéssemos chegar a uma forma de vida que resiste a tais divisões? Atualmente, estou escrevendo o último volume de Homo sacer. Giacometti disse uma coisa que eu realmente gostei: você nunca termina uma pintura, você a abandona. Suas pinturas não estão acabadas, seu potencial nunca se esgota. Gostaria que o mesmo fosse verdade sobre Homo sacer, para ser abandonado, mas nunca terminado. Além disso, eu acho que a filosofia não deve consistir-se demais em afirmações teóricas – a teoria deve, por vezes, mostrar a sua insuficiência.

É esta a razão pela qual em seus ensaios teóricos você tem sempre escrito textos mais curtos, mais poéticos?

Sim, exatamente isso. Estes dois registros de escrita não ficam em contradição, e espero que muitas vezes até mesmo se cruzem. Foi a partir de um grande livro, O Reino e a Glória, uma genealogia do governo e da economia, que eu fui fortemente atingido por essa noção de inoperosidade, o que eu tentei desenvolver de forma mais concreta em outros textos. Esses caminhos cruzados são todos o prazer de escrever e de pensar.

* Publicado originalmente em francês no Télérama, e em inglês no Blog da Verso, em 17 de junho de 2014; tradução de Pedro Lucas Dulci, para o Outras Palavras.

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Todos os títulos de Giorgio Agamben publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebookscom preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Estado de exceção [Homo Sacer, II, 1] * PDF (Travessa | Google)

O reino e a glória [Homo Sacer, II, 2] * ePub (Amazon | Travessa)

Opus Dei [Homo Sacer, II, 5] * epub (Amazon | Travessa |  Google)

O que resta de Auschwitz [Homo Sacer, III] * PDF (Travessa Google)

Altíssima pobreza [Homo Sacer IV, 1] * (Lançamento! Breve em ebook)

Profanações * PDF (Travessa | Google)

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Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. Considerado um dos principais intelectuais de sua geração, deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin, é autor, entre outros, de Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008), O reino e a glória (2011), Opus dei (2013) e Altíssima pobreza (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Cultura inútil: Nossa Senhora das Formigas

14.08.27_Mouzar Benedito_N ossa senhora das formigasPor Mouzar Benedito.

Há mais de cinco séculos perto de Bolonha, na Itália, venera-se Nossa Senhora das Formigas, que tem um santuário em cima de um monte chamado “Monte das Formigas”. Havia um quadro em que a Virgem aparecia com formigas pintadas nos pés, que foi destruído durante bombardeios, durante a II Guerra Mundial. Em 1956 o santuário foi reconstruído, e todos os anos, no dia 8 de setembro, o local se enche de peregrinos que vão lá ver as formigas que, segundo se afirma, sobem ao santuário.

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O Hino Nacional Brasileiro, com música de Francisco Manuel da Silva e letra de Osório Duque Estrada, foi oficializado em 18 de janeiro de 1890.

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O jogo de dominó tornou-se conhecido na Europa no século XVIII. Acredita-se que ele tenha sido criado na China séculos antes. A lenda é que o herói Hung Ming criou o jogo para distrair seus soldados. Outra versão é que foi um cortesão que criou o jogo, por volta do ano 1120, para presentear o imperador Hui-Tsung. O nome dominó é europeu. Em chinês o chamavam de kuat-pai (prancheta de ouro), embora lá ele pudesse ser feito também de marfim ou madeira. Os chineses o usavam também para fazer previsões (como o tarô em outras culturas). Já o jogo de damas teria sido criado por um sultão do Ceilão, atual Sri-Lanka, embora os gregos reivindiquem a invenção. O inventor, segundo os gregos, seria Palamedes.

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Não foi na Globo, e sim na TV Tupi, que houve uma “revolução” nas telenovelas: “Beto Rockfeller”, de Cassiano Gabus Mendes começou a ser exibida em novembro de 1968.

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Florianópolis chamava-se Desterro, forma resumida de seu nome original, Nossa Senhora do Desterro. Era uma cidade conservadora, e teve lá em 1893 e 94 um movimento monarquista, contra a República. Era uma coisa reacionária, claro. Floriano Peixoto, presidente da República, reprimiu pra valer. Os repressores lotaram as prisões da cidade, estupraram, queimaram, depredaram, e fuzilaram ou enforcaram um monte de gente. Os números sobre os executados variam, chegando, conforme a fonte, a 185. Em seguida, o então governador Hercílio Luz mudou o nome da cidade para Florianópolis. Desterro era realmente um nome pouco atrativo, mas homenagear um sujeito que promoveu um massacre, dando seu nome à cidade dos massacrados é uma piada de muito mau gosto, mesmo que os assassinados sejam bem reacionários. Então, viva o apelido Floripa, que parece mais homenagem a qualquer flor do que ao marechal!

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Considerado por muitos o maior dançarino de todos os tempos, o “russo” Nijinsky (Vaslav Formich Nijinsky), que viveu de 1890 a 1950, era na verdade ucraniano, nasceu em Kiev, filho de dançarinos de balé poloneses. Ele teve uma carreira de apenas dez anos, encerrada em 1917, depois de uma excursão pela América do Sul, quando passou a ter paranoia aguda e, temendo supostos inimigos, contratou guarda-costas. Foi morar na Suíça, com a esposa Romola. Em 1918, por sua doença irreversível, foi internado num asilo, onde viveu 32 anos.

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Rainer Maria Rilke (1875-1926), considerado o maior poeta lírico da Alemanha nos tempos modernos, era tratado como menina, pela mãe, até os 6 anos de idade. Ele usava vestidos e era chamado de Sofia. Uma irmã que nasceu antes dele teve morte prematura e sua mãe o imaginava como um substituto dela. Para que não ficasse afeminado, seu pai o colocou numa academia militar quando ele tinha onze anos.

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Você acredita no ditado “cão que ladra não morde”? Se acredita, quando um cachorro vier latindo pro seu lado, você nem liga, não é? Esse ditado se parece com um outro, de Minas Gerais: “Peido que estrala não fede”. Mas não, hein?

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A primeira estação telefônica do Brasil foi instalada no Rio de Janeiro em 29 de novembro de 1877.

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Luiz de Camões estava na Índia e em 1557 ou 58 foi para Macau, onde prestou serviço ao reino português e se apaixonou por um chinesa que se tornou sua companheira. Foi obrigado a retornar a Goa e o navio em que viajava naufragou em frente ao golfo de Tonquim. Ele alcançou a nado o rio Mekong, conseguindo salvar os manuscritos de “Os Lusíadas”. Há relatos não confirmados de que Camões viu a mulher amada sendo arrastada pelas águas para um lado e a arca com o manuscrito do livro para outro. Tinha que optar por salvar só a mulher ou só o livro. Optou pelo livro, para azar dela e sorte da literatura portuguesa.

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Você acha o amigo meio biruta, quer dizer, meio maluco? A palavra biruta é relativamente recente, e tem relação com a aviação. Nos chamados campos de aviação, ou seja, locais onde pousam e decolam pequenos aviões, por determinação da Aeronáutica, desde 1941, tem que ter uma espécie de sacola feita de tela, colocada no alto de uma casa ou de um poste. Se não há vento, ela fica murcha, parada. Mas com o vento ela se enche e sobe, e vira para os lados conforme a direção que ele vem. Como quase sempre tem pelo menos um ventinho, essa sacola, chamada biruta, fica se mexendo praticamente o tempo todo, não para, virando pra todos os lados. Igual ao pessoal que a gente chama de biruta. Uma curiosidade: em russo, alemão e francês, a biruta é chamada por nomes que, traduzindo para o português, significam “saco de vento”.

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Dom Pedro II era astrônomo amador e, em sua homenagem, a data em que nasceu, 2 de dezembro, foi oficializada como Dia da Astronomia, pela Sociedade Brasileira de Astronomia, fundada em 1947.

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Alguns sobrenomes de origem francesa têm significados curiosos: Laborde significa “a granja”; Lacaz é “a casa”; Lacombe é “o vale”; Lafayette é “a falazinha”; Lafitte é “a pedra fincada” e Lemoine é “o monge”. Já o sobrenome Lacerda, originalmente escrito separado, La Cerda, é português, de origem espanhola. Dom Fernando, primogênito de Afonso, o Sábio, tinha uma mecha de cabelo no peito e por isso recebeu o apelido de “la cerda”.

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Os brasileiros são pródigos em inventar nomes e a copiar nomes estrangeiros, não é? Se vivêssemos na França, até 1970, não poderíamos fazer isso. Lá, o Ministério do Interior tinha uma lista de nomes dos dois sexos e só se podia dar aos filhos nomes que estivessem nessa lista. Só depois que De Gaulle morreu é que a lista de nomes deixou de vigorar.

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Por que quando a gente quer dizer que cada um deve ficar com seu igual ou semelhante dizemos “lé com lé, cré com cré”? Isso vem de Portugal, onde se separava os leigos dos clérigos. Diziam “leigo com leigo, clérigo com clérigo”, que foi resumido para “lé com lé, cré com cré”.

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O Canal do Panamá foi aberto para navegação em 1o de janeiro de 1914.

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Segundo o livro Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas, do Cônego Francisco Bernardino de Souza, publicado no Pará em 1873, “em virtude de um decreto datado de 12 de junho de 1748, começou em maio de 1749 a correr na cidade de Belém dinheiro de prata, ouro e cobre, com as mesmas inscrições, peso e valor que se haviam estabelecido para a moedagem no Brasil. Até então o dinheiro que havia em circulação era novelos de algodão e outros gêneros, que tinham valores determinados e com ele se pagava aos funcionários de todas as classes e também aos particulares”.

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Em São Paulo, existia na “República Velha” uma cadeia em que se prendia e mantinha com muita crueldade os desafetos do governo. Era chamada de “Bastilha do Cambuci”. Depois da Revolução de 1930, no dia 25 de novembro daquele ano, uma multidão invadiu e detonou essa cadeia. Foi a “Queda da Bastilha do Cambuci.

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Sabe quem é Chalchihitlicue? É a deusa asteca das águas correntes. É também deusa da vegetação, que garante a produtividade das plantações de milho.

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Muita gente conhece o ditado “A cavalo dado não se olha os dentes”, mas não sabe o seu significado. Um caipira legítimo, quando vai comprar um cavalo olha os dentes dele e sabe que idade tem. Até os dez meses, o potro tem todos os dentes de leite, e aí eles começam a cair e vão sendo substituídos por dentes permanentes. Aos 5 anos de idade, a segunda dentição está completa e ele já é um animal adulto. Aos 8 anos, os dentes ainda têm esmalte e forma ovalada, e aos 9 anos começam a aparecer manchas. Quando atinge os 12 anos, todos os dentes dele já têm manchas. Aos 13 anos, todos os dentes já perderam o esmalte e começa a velhice dele, e a partir daí os dentes vão se deteriorando. Detalhe: as éguas têm 20 dentes e os cavalos 24.

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A fauna pantaneira é talvez a mais rica do planeta, com 658 espécies de aves, 124 de mamíferos, 325 de peixes, mais de mil espécies de borboletas, 77 de répteis e 41 de anfíbios.

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Thomas Morus, autor do livro Utopia, era chanceler do reino na Inglaterra e desaprovou o divórcio do rei Henrique VIII, que pretendia se casar com Ana Bolena, e por isso foi afastado do cargo e preso. Condenado à morte, o rei – vejam que bonzinho – lhe deu o privilégio de escolher a forma como queria ser morto: enforcado, afogado, eviscerado (eviscerar é retirar as vísceras) ou esquartejado. Ele preferiu ser decapitado. Canonizado em 1935, com o nome Thomas More, é santo da igreja católica.

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O purê, comida típica francesa… epa! Purê é uma palavra de origem tupi. Tem a mesma origem que pirão, vem de pirõ, que significa “papa grossa”. O purê foi inspirado no pirão e é uma influência indígena na culinária francesa.

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A descoberta da tumba do faraó Tutancâmon foi anunciada em 26 de novembro de 1922.

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Alguém já imaginou a cidade do Rio de Janeiro sem a Floresta da Tijuca? Já foi assim: a vegetação da Mata Atlântica naquela área foi derrubada para dar lugar a plantações de café. Em 1861, Dom Pedro II determinou seu reflorestamento e o replantio foi iniciado pelo major Manoel Gomes Archer que, em treze anos, plantou 80 mil mudas de ipês, jequitibás, quaresmeiras e centenas de outras espécies vegetais. São 3200 hectares de mata.

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Mark Twain disse certa vez que a invenção da imprensa foi o maior acontecimento da história do mundo.

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A data do ataque da polícia ao bando de Lampião que matou o próprio Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, em Sergipe, foi 8 de julho de 1938. Apesar de terem cortado a cabeça de todos eles, muita gente acreditava que eram sósias de Lampião e Maria Bonita. Os “legítimos” Lampião e Maria Bontia teriam fugido para o norte de Minas e vivido até morrer de velhice na região de Montes Claros.

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Duas “comparações” na linguagem dos cearenses: “Mais importante do que balconista de cartório” e “Mais alegre do que coroa tirada pra dançar”.

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Alguns ditados
Careca não gasta pente
Cada um com sua certeza
Só se sente a falta d’água quando o pote está vazio
Cavalo alugado não cansa

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Assim falou Érico Veríssimo: “O mundo está muito melancólico. Cheio de gente desagradável”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

A insustentável leviandade do Zago

…e de alguns outros.

14.08.25_Osvaldo Coggiola_Zago[Marco Antonio Zago, atual reitor da Universidade de São Paulo, USP]

Por Osvaldo Coggiola.

A greve da USP (e da Unesp e Unicamp, excetuados os docentes da segunda), iniciada a 27 de maio, entrou no seu quarto mês, acrescida agora da decisão grevista dos estudantes de Medicina (FMUSP), que assim o decidiram em assembleia de 600 presentes, de todos os anos do curso. A greve, método por de luta excelência da classe trabalhadora, se sobrepôs à intensa propaganda contrária veiculada institucionalmente (pela Reitoria), ao corte de ponto dos funcionários técnico-administrativos, às ameaças de diretorias e chefias, à repressão da Polícia Militar e à hostilidade declarada da grande imprensa (que usou para o movimento em curso os qualificativos de “grevismo”, “baderna”, “grevistas folclóricos” e outros semelhantes), hostilidade que se estendeu ao próprio caráter público da instituição (a USP estaria “contra o muro” – o paredão? – segundo ponderado editorial da Folha de S. Paulo), a mesma imprensa que cobra das universidades públicas padrões de Primeiro Mundo, enquanto se satisfaz com padrões de Quarto Mundo para si.

No caso da USP, a greve agiu também como catalisador de uma crise bem menos financeira do que institucional. O zero (0%) “oferecido” como reajuste salarial na data base (1º de maio) foi justificado como produto de um comprometimento excessivo (105%) dos repasses mensais do Estado pela folha de pagamentos, situação obviamente conjuntural e para nada nova (esse comprometimento já superou os 100% por diversas vezes no passado, e atingiu 167,4%, por exemplo, em dezembro de 1993; Unesp e Unicamp coexistiram por anos a fio com situação semelhante sem que fosse declarada situação de emergência). Desta vez, porém, essa situação foi declarada anunciadora de uma falência iminente da USP, e também reveladora de uma “crise estrutural”, caracterizada por excessivo número de funcionários (e até de docentes), com salários elevados, e custeio de estruturas que não deveriam fazer parte da USP, como, por exemplo… os hospitais-escola; tudo no quadro de uma previsível queda da arrecadação do ICMS (devida ao “desaquecimento” econômico), um percentual do qual (9,57%) é destinado ao financiamento das universidades públicas paulistas.

Nesse quadro apocalíptico, e para combater essa “crise estrutural”, o Reitor Marco Antônio Zago (transformado em paladino do bom senso pela grande mídia) propôs uma política igualmente “estrutural” e apocalíptica: demissão “voluntária” (PDV) de aproximadamente (ou melhor, “chutadamente”) 3.000 funcionários, não realização de novas contratações (de funcionários e docentes), nem nos casos de aposentadoria ou morte, revisão do regime de trabalho dos funcionários remanescentes, revisão também do regime de trabalho (portanto, do salário) dos docentes (tendo sido formado um GT com esse objetivo), desligamento da USP do HU-Butantã e do “Centrinho” de Reabilitações Crâneo-faciais de Bauru (centro de referência internacional nessa área), venda do patrimônio imobiliário da USP; todas elas medidas aplaudidas de pé pela grande imprensa, que começou a propor outras por conta própria, destacando-se nelas a cobrança de mensalidades dos alunos (chamados carinhosamente de “elite estudantil bancada pelo ICMS”, na Folha de S. Paulo de 4/6), excetuando-se aqueles que conseguissem provar sua falta de meios para tanto, ou seja, os que conseguissem provar sua “inocência” financeira, depois de declarados culpados do delito de ter passado pelo vestibular mais difícil do país (e da América Latina, e também entre os mais difíceis do mundo, havida conta o enorme número de países em que inexiste tal instituição, em primeiro lugar a vizinha e sempre vilipendiada Argentina).

Levando-se em conta que o pano de fundo da coisa toda é a queda “previsível” do ICMS e da quota-parte deste devida às universidades, queda não só discutível como devida, caso aconteça, sobretudo, à sonegação impositiva crescente e deslavada, e ao desconto indevido e ilegal de parcelas dessa base de cálculo por parte do governo estadual, que sonegou das universidades públicas R$ 2 bilhões entre 2008 e 2013, sendo R$ 540 milhões apenas no último ano (tal como denunciado minuciosamente pela Adusp, sem que a reitoria, a atual ou as precedentes, se pronunciasse a respeito, como seria seu dever), enfim, levando-se isso tudo em conta, a “corajosa” política do Magnífico Reitor se reduz, na melhor das hipóteses, a uma adaptação para nada corajosa, pelo contrário, muito covarde e subserviente, a uma situação de fato. Isto bastaria para desqualificá-la politicamente. Acontece que no pacote reitoral, e nos seus considerandos prévios, há otras cositas más, que revelam a verdadeira crise, política, institucional, moral e até intelectual, da USP. Vejamos.

*   *   *

Para justificar a existência uma “crise estrutural” a partir do mágico 105% mensal supracitado, a Reitoria e seus porta-vozes midiáticos lançaram mão de uma série de manipulações estatísticas torpes e amadoras, comparando literalmente alhos com bugalhos, a respeito do inchaço do quadro funcional (e docente) da USP, quando comparado com os de universidades bem situadas nos rankings internacionais, todas do “Primeiro Mundo”, especialmente dos EUA e da Grã-Bretanha. Obviando o óbvio: comparar uma universidade pública com universidades que são (as principais) privadas, comparar universidades com orçamentos abismalmente diferentes (em favor das universidades euro-norte-americanas), comparar uma universidade gratuita (a USP) com universidades (por exemplo, as inglesas) que cobram anuidades proibitivas para a maioria da população do país, comparar efetivos de alunos abismalmente diferentes (em favor da USP), comparar a USP com universidades de países cujas rendas per capita sextuplicam (ou mais) a brasileira, para não falar na desigual distribuição (“concentração”) da renda total existente entre uns e outros, e isto sem que os EUA ou o Reino Unido sejam os paraísos da igualdade social (muito pelo contrário, em especial nas últimas décadas neoliberais), mas que, mesmo se esforçando muito, não conseguem igualar nesse quesito à sétima (ex sexta) economia do mundo, a nossa, que ocupa o 79º lugar no IDH (entre 187 países), mesmo depois de tirar 23 milhões de pessoas da pobreza absoluta nos últimos anos; e com a segunda pior concentração de renda do mundo dentre os países medidos pela OCDE (0,30 de índice Gini em 2010, enquanto o índice do México, o país mais socialmente desigual dentre os medidos, era de 0,34).

A Folha de S.Paulo, que se transformou numa espécie de torcida-vanguarda organizada do Reitor, apontou uma proporção de apenas cinco alunos por funcionário na USP (ela é de 5,5, para sermos mais precisos) supostamente escandalosa quando comparada a razão de 15:1 “que se pratica nas conceituadas universidades britânicas”, uma relação tirada vá deus (ou Deus) saber de onde. Essa proporção, na verdade, varia muito entre as universidades melhor “ranqueadas” do mundo, atendendo às suas especificidades e diferenças, às vezes enormes, que tornam bastante inútil tirar uma média mundial. Quanto ao fato dessa proporção in se provocar ou não uma “crise estrutural”, não precisava ir além-mar para buscar uma comparação chutada: na Unicamp, em 2012, o número de alunos era de 32,5 mil, e o dos funcionários técnico-administrativos de quase oito mil, do que resulta uma proporção de 4:1 (“pior” do que a da USP, se usados os simplórios critérios folhísticos) sem que, devido a isso, ninguém declarasse a Unicamp em situação de “crise financeira estrutural” ou de falência em potencial (ao contrário, nesta data-base seu Reitor decidiu conceder o índice de reajuste Fipe – 5,2 – sob a forma de abono não-salarial, aos seus docentes e funcionários, devido a dispor [tanto quanto a USP] de meios financeiros para tanto). 

O Prof. Sean Purdy, da USP (canadense e anglófono, o que talvez o torne mais palatável, como veremos, para o staff reitoral) viu-se obrigado a precisar, na Carta Maior, o que segue:

“Em todas as universidades britânicas, em 2013, houve 2.340.275 estudantes de graduação e pós-graduação, 196.845 funcionários técnico-administrativos e 185.535 professores. Isto é, 11,89 alunos por funcionário técnico-administrativo e 12,61 alunos por professor. De onde vem o número de Zago e da Folha de 15 alunos para 1 funcionário nas universidades britânicas, ninguém sabe, pois não citaram sua fonte. O mais confiável órgão de estáticas do Reino Unido diz que esse número é errado.

Se olharmos nas quatro melhores universidades britânicas, segundo os rankings do Times Higher Education World Rankings para 2013, os números de Zago e da Folha pioram ainda mais.

Na ordem do ranking são: University of Oxford, University of Cambridge, Imperial College e University College de Londres. Vamos supor que essas quatro universidades sejam as principais e conceituadas universidades no país citado por Zago e pela Folha.

Em 2012/2013, na Oxford, houve 4,92 alunos por funcionário e 4,3 alunos por professor. Na Cambridge, 4,4 alunos por funcionário e 3,9 alunos por professor. No Imperial College, 3,4 alunos por funcionário e 3,8 alunos por professor. Finalmente, no University College de Londres havia 3,8 alunos por funcionário e 5,5 alunos por professor. Portanto, todas essas universidades tinham mais funcionários por aluno do que a USP, e bem menos alunos por professor.

Não por acaso as melhores universidades do mundo têm mais funcionários e professores por aluno. No caso da USP, com sua importância central no estado e no Brasil, temos que também levar em conta os hospitais universitários, museus e outros institutos que contribuem com a missão geral da universidade pública”.

A proporção alunos/docente na USP é atualmente de 15,5:1, variando enormemente (assim como a relação alunos/funcionário) de faculdade para faculdade, de departamento para departamento, de curso para curso, até de disciplina para disciplina, como não poderia ser de outro modo numa universidade do porte, abrangência e variedade da USP. Se a proporção alunos/professor de Cambridge tivesse que ser seguida na USP, o número de docentes desta última deveria ser de 23.300 (é apenas um quarto disso); e, em qualquer um dos casos citados, o número de funcionários técnico-administrativos da USP também deveria crescer. Comparar orçamentos é simplesmente inútil: o de Harvard (universidade também citada com frequência pela “elite” oligárquica uspiana) é de US$ 30 bilhões (R$ 75 bilhões) para 21 mil alunos; o da USP de R$ 4,3 bilhões (US$ 1,7 bilhão) para 93 mil alunos. O custo total anual de um estudante de graduação em Harvard no ano letivo de 2008-2009 foi calculado em 800 mil euros (R$ 2,8 milhões), sendo 400 mil euros (R$ 1,4 milhão) somente de matrícula, 200 mil euros (R$ 700 mil) de estadia e alimentação, e 200 mil euros (R$ idem anterior) de “outras taxas”. Quanto às reservas financeiras e patrimoniais de uma e de outra, bem, melhor nem começar…

Como comentou Vladimir Safatle, “a relação aluno/professor em Harvard é de 7 por 1. A Universidade Católica do Chile teria ultrapassado a USP em certos rankings internacionais exatamente por ela ter uma relação alunos/professor menor. Com o congelamento da contratação de novos professores [na USP], a situação será ainda pior. O que se tira disto é que os professores e funcionários da universidade precisam responder por mais atividades com um salário que, comparado ao recebido em 1989 por um docente, teve o seu poder de compra reduzido em 9,5%. Estes números demonstram que a USP tornou-se uma universidade de massa em plena expansão sem ter recebido do Estado as condições para tanto. Ela é apenas um capítulo a mais da demissão do Estado em relação à educação pública”.

Os docentes do Instituto de Biociências da USP ensinaram aos bisonhos matemáticos na inepta Reitoria uspiana que “o número total de estudantes matriculados na Universidade de São Paulo (USP) cresceu 95,8% em 25 anos, de 44.811 em 1989 (quando por lei a universidade passou a ter autonomia financeira) para 87.751 em agosto de 2014… No mesmo período, o número de professores na universidade foi de 5.626 para 6.008, um aumento de 6,8%. Já a quantidade de funcionários, a única que chegou a cair 13,5% entre 1989 e 2009, voltou a subir nos últimos cinco anos e igualou o patamar de 25 anos atrás”. Contabilizados todos os alunos, o número destes na USP é atualmente de quase 93 mil (cinco mil a mais do que indicado pelos docentes do IB-USP), o que torna os cálculos dos docentes de biociências bastante modestos. Quanto aos funcionários, eles são em número de 17.451, menos que os 17.735 de 1989, quando a USP era, em número de alunos (que mais do que dobrou no período considerado), de departamentos, laboratórios, unidades, faculdades, campi, cursos, disciplinas, responsabilidades em geral, bem menor.

Ai está a explicação (refutação) da cifra citada pela Folha no editorial (19/8) em que o matutino paulistano pôs “a USP contra o muro”, devido a que “o quadro de funcionários não docentes cresceu 13% de 2010 a 2013, e o número de alunos aumentou 5%. Há algo de errado nessas contas”. Certamente, há algo de errado nas contas da Folha e, sobretudo, na própria Folha. O levantamento dos docentes do IB-USP (e outros semelhantes) demonstrou que o número de funcionários técnico-administrativos (e não de “não docentes”, como a Folha os chama, o que equivaleria a chamar à Folha de “não revista semanal”) cresceu, na USP, bem menos (em termos absolutos e proporcionais) do que o número de alunos, para não falar da expansão geográfico-institucional da USP (Lorena, EACH da Zona Leste), ou seja, novas faculdades e departamentos; do crescimento das atividades de pesquisa (que melhoraram espantosamente os índices internacionais da USP) e, last but not least, da espantosa expansão da extensão universitária, incluída a “Universidade para a Terceira Idade” e outros (muitos) serviços prestados à comunidade. Na USP houve um crescimento de 88% nos cursos oferecidos, pulando estes de 132 em 1995 para 249 em 2012, graças, principalmente, a construção de novos campi. O número de professores não cresceu no mesmo ritmo: somente 4% no mesmo período (uma defasagem de… 92%), aumentando a relação aluno/professor de 8: 1 para 15,5:1.

Saiamos da “guerra dos números” e vejamos a justificativa política. Segundo o Magnífico Zago, a crise financeira foi devida ao inchaço da folha funcional, isto devido à implementação da nova carreira dos funcionários, e também aos gastos faraônicos (incluídas a abertura de escritórios da USP em Londres, Boston e até Cingapura) de seu megalomaníaco antecessor, João Pequenino Rodas, vários de cujos itens ainda não completados e pagos foram suspensos pela atual administração. Tal situação teria sido desconhecida dele próprio (Zago) e de seu staff atual até sua recente posse, em que pese sua participação (de todos, ou quase) no mais alto nível do staff de Rodas, que teria conseguido ocultar seus gastos e a situação financeira da USP até de seus colaboradores mais íntimos: “O Conselho Universitário não tinha consciência dessa situação financeira” (entrevista de Zago à Veja); “A questão do orçamento foi uma surpresa não agradável para toda a Universidade”, declarou Zago ao Jornal do Campus.

Surpresa? A crise financeira da USP, a invasão inconsulta e deletéria por parte de Rodas das suas reservas financeiras, já tinha sido denunciada detalhadamente (e amplamente divulgada) no Informativo Adusp de junho de 2013 (há bem mais de um ano, portanto). Que um destacado Pró-Reitor da gestão Rodas declare agora tê-la ignorado naquele momento, e ainda depois, é bastante mais do que inacreditável e, se tomada ao pé da letra, teria desqualificado o ignorante (ex dirigente principal do CNPq, nada menos) para exercer qualquer função de responsabilidade administrativa.

Segundo declarou a Profa. Ana Lúcia Pastore, superintendente de segurança da USP da gestão Zago, em reunião da Congregação da FFLCH, este teria qualificado em reuniões recentes da Reitoria a gestão de Rodas como “inescrupulosa” (o que equivale a criminosa). Pois bem, até agora nenhuma comissão de sindicância foi montada ou mesmo proposta a respeito (apenas a promessa de uma auditoria), isto numa universidade onde esse tipo de comissões, suspensões e expulsões de alunos, demissões de funcionários, tem sido moeda corrente, em que pese estes terem sido (supostamente) responsáveis por danos ao patrimônio público de magnitude infinitesimal quando comparados com prejuízos provocados pelos desmandos de Rodas, premiado este com uma nova função de conselheiro na Fapesp.

Não só isso. Pouco antes do início da greve, em 21 de maio, o próprio Rodas publicou um longo artigo na página 3 da Folha de S. Paulo (“O orçamento da USP”) em que atribuiu a expansão de gastos de sua gestão à “expansão do ensino superior” (da USP), quando “decidiu-se – com a aprovação dos órgãos colegiados em que tinham assento os atuais dirigentes da USP – que parcela dessa reserva fosse aplicada em investimentos diversos, concentrados em instalações e equipamentos, moradia, segurança, transporte… Com a aprovação unânime do Conselho Universitário, os recursos viabilizaram a implantação de um plano de carreira para funcionários, superando antiga distorção, pois é notório que uma universidade dessa importância não pode prescindir de funcionários qualificados e motivados” (grifos nossos). Isto depois de desculpar pelo fato “a remuneração atual dos professores das universidades estaduais paulistas (que) é inferior à das suas congêneres federais” (correto). Este artigo não foi objeto de resposta por parte de nenhum membro da atual administração, nem sequer do Reitor Zago, apesar de serem explicitamente mencionados (para falar a verdade, acusados) como corresponsáveis (e, segundo a versão atual, cúmplices) dos “desmandos” que deram base à crise e a atual política de desmonte da USP.

Médicos, enfermeiras e funcionários do Hospital Universitário se encontram em greve, em defesa de uma unidade que presta quase 300 mil atendimentos de emergência anuais (quase mil por dia), principalmente para a população carente, e realiza quase um milhão de exames laboratoriais por ano, só por nomear algumas estatísticas (estas bem reais) destacadas. Os diretores do setor médico e os chefes técnicos do hospital já se manifestaram contrários à passagem do HU para o governo do Estado, que significaria em breve a privatização de sua gestão (e, obviamente, de seus lucros potenciais) sob a forma de “organização social” (OS, o chamado “público não estatal”) ou fundação, seguindo o modelo federal do Ebserh (ou algo ainda pior). Os motivos expostos são a destruição do ensino prático e da pesquisa in situ que tal transferência provocaria. A justificativa da medida de desligamento do HU apresentada pela Reitoria, em reunião com os diretores de unidade da universidade, é que uma enfermeira do HU começa sua carreira com vencimentos de R$ 13 mil (algo inacreditável, pois esse é o salário bruto de um professor titular da USP, cargo conquistado depois de 25-30 anos de carreira) enquanto uma enfermeira do setor público de saúde percebe inicialmente só R$ 3.500.

Além disso, a USP se comprometeria a manter o pagamento dos atuais funcionários (que não se “demitirem voluntariamente”) até sua aposentadoria (e morte) – sem importar-se muito em criar um monstrengo em que pessoas que executariam o mesmo trabalho receberiam R$ 13 mil (segundo a Reitoria) ou R$ 3.500, dependendo da fonte pagadora – tudo para gerar uma economia de… R$ 40 milhões anuais (custeio atual do HU), menos de 1% do orçamento (oficial) da USP, sendo que o HU não consome, na sua estrutura atual e incluídos os salários, mais de 6% desse orçamento. Rifa-se, portanto, hospital-escola (em que se realiza atualmente 40% do estágio hospitalar dos estudantes), pesquisa, atendimento ao público carente, patrimônio público, a troco de um troco. Viva a greve do HU!

Já nos ocupamos das estatísticas e da política da atual (transitória) administração uspiana, vamos agora à sua ideologia (pois de algum modo é preciso chamá-la). Em famigerada entrevista à Veja (24/6) o Magnífico Zago desestimou a recente perda de posições da USP em alguns rankings internacionais, propondo no mesmo veículo, porém, uma política contrária à “estabilidade precoce” de docentes e funcionários, uma política que incluísse “a prerrogativa de contratar ou demitir de acordo com o desempenho”. Para atingir esse objetivo, claro, seria preciso “abandonar a dinâmica de sindicalismo na vida universitária”. Depois de encabeçar, durante quatro anos!, uma administração que se autoglorificou permanentemente da excelência da pesquisa uspiana e de sua progressão nos índices internacionais, detectou (outra “surpresa”, esta inadmissível para quem foi Pró-Reitor de Pesquisa) que os outrora (apenas ontem) louvados e performantes professores-pesquisadores da USP se encontram “em uma zona de conforto que os leva a projetos de sucesso garantido de antemão”, isto porque, depois de um tempo, “eles se casam, têm filhos, ficam mais prudentes, e o sistema aceita”. Poderia se deduzir que Zago possui uma concepção filosófica que considera que a ciência é incompatível, não só com sindicatos, mas inclusive com o preceito bíblico – “crescei e multiplicai-vos”. Mas duvidamos que tenha sequer pensado no assunto.

Depois de citar os recorrentes “exemplos” de Harvard e do MIT (ignorando a força dos sindicatos universitários nos EUA, e as greves recentes nessas instituições), nosso Zago se desdobrou, para a Veja, em antropólogo, e detectou uma desvantagem ou falha (também “estrutural”) dos estudantes brasileiros (uspianos incluídos): eles não falam inglês desde a infância, mas português. Como não é possível mudar o país outrora colonizador da Terra da Santa Cruz, nem o Tratado de Tordesilhas (não sabemos se foram financiadas pesquisas a respeito) a solução é óbvia: “A prioridade número 1 da USP hoje é garantir o conhecimento da língua inglesa para seus alunos” (grifo nosso), mais importante, parece, que garantir seu ingresso mais democrático, ou sua permanência e bom desempenho nos estudos. Digamos que propaganda ou incentivos nesse sentido (anglófilo) não é o que falta, basta ligar o rádio ou a TV a qualquer hora do dia. Para quem cacareja “globalização” cada vez que abre a boca, porém, trata-se de uma conclusão bem primária e provinciana.

Pois exatamente nos “centros globais” invejados por Zago and Co. existe hoje uma batalha cerrada (que Zago ignore isto seria detalhe menor, significaria apenas que ele não lê os jornais) contra o monoglotismo, especialmente anglófono, comprovadamente considerado como um fator empobrecedor da comunicação cultural e científica. Zago pretende, ao que parece, tornar inúteis e eliminar os tradutores dos congressos internacionais e das conferências de professores visitantes, eles seriam outra profissão (e área de pesquisa) inútil, instalada em outra “zona de conforto”. Há, porém, um problema. Pois uma língua não é só um meio de comunicação, mas a base de um sistema de pensamento. Para um dos primeiros grandes filósofos da língua, Wilhelm von Humboldt: “Sem unidade de forma não seria concebível nenhuma língua; falando, os homens recolhem necessariamente seu falar em uma unidade”. A forma da língua é o elemento diferenciador das comunidades nacionais, culturais e sociais. A forma perpassa toda a língua, e “a língua não é o instrumento para designar objetos já pensados, mas o órgão formativo do pensamento”. Sobre uma língua ergue-se uma personalidade nacional ou cultural, diversa da religiosa, que uma nação pode eventualmente compartilhar com outra. Certamente, pedir que Zago pare para pensar isto, seria pedir demais.

Pois, afinal, quem foi esse pobre Humboldt, um velhote ultrapassado do século XIX, que se limitou, institucionalmente, a criar a universidade humboldtiana (1810), e nem devia falar inglês; nosso Zago “global”, um homem do século XXI, sucateia e desmonta universidades públicas e hospitais-escola, algo muito mais “moderno”. Metodologicamente, porém, ele se situa atrás do filósofo (embora arquiteto de formação) cearense, Falcão, que deu conta praticamente do problema humboldtiano na sua maravilhosa interpretação (em inglês) de Eu não sou cachorro não, de Waldick Soriano, demonstrando-o, como um bom matemático, pela via do absurdo. Faltou à nossa classe artística paulista, menos “inovadora” (no bom sentido zaguiano) do que a nordestina, destacar um bom intérprete para uma versão de Trem das Onze na língua de Shakespeare, mas, quem sabe, numa ECA “renovada” e anglicizada…

Como toda grande ideologia, a do Zago tem suas fontes filosóficas; não, claro, as dos filósofos tradicionais costumeiramente usados pelos pesquisadores instalados na “zona de conforto”. Simon Schwartzman, que é despejado de modo inconsulto nos e-mails dos docentes da USP. E, sobretudo, o grande Hélio Schwartsman (parentes? em certo sentido, político, cabe pensar que sim) que veicula suas descobertas filosóficas na Folha de S. Paulo. A 4 de junho, sob o (originalíssimo) título de “Não há almoço grátis”, este sábio nos informa que “a constatação básica é a de que a palavra de ordem (?) de ‘universidade pública, gratuita e de qualidade’ é uma ilusão cognitiva (?). Uma universidade pode perfeitamente ser pública e de qualidade… mas alguém precisa pagar por isso”. Que descoberta notável, ninguém parou nunca para pensar nisso. Não vamos dizer quem é que deve pagar, segundo o filósofo folhiano, para não fundir os miolos do leitor.

Num outro artigo (20/6), curiosamente intitulado “Ideias para a USP” (o curioso é a menção às ideias, não à USP), depois de discorrer sobre “as universidades públicas paulistas (que) conservam uma estrutura de comando muito arcaica, excessivamente voltada para dentro de si mesma”, sua descoberta revolucionária vem sob a prudente forma de pergunta: “Por que o reitor sempre vem dos quadros acadêmicos da própria universidade? Se sua principal tarefa é administrar a instituição, não faria mais sentido buscar um bom executivo no mercado, como faz grande parte das universidades americanas?”. Realmente, nossos filósofos e estrategistas universitários andam à court d’examples (sempre os EUA). Ignoram, claro, que as universidades que “buscam um bom executivo no mercado”, mediante licitação pública, nos EUA, são as privadas, não as públicas.

Os candidatos que se apresentam, por outro lado (até ai chegou a luta nos EUA, por enquanto) são sabatinados por representantes dos diversos segmentos universitários (em entrevistas onde aqueles costumam suar gelado), não apenas (nem principalmente) sobre suas competências administrativas, mas sobre todos os temas relevantes para uma instituição que cumpre uma função social, mesmo quando sendo instituição privada (ou, em geral, público/privada). Quem subscreve presenciou, quando professor visitante na Universidade de Stanford, várias sabatinas de “reitoráveis”, em que os candidatos eram interrogados, inclusive, sobre sua opinião acerca da anexação da mexicana Califórnia (onde Stanford se situa) pelos EUA, em meados do século XIX. Não “gratuitamente”, mas para conhecer a base sobre a qual se assentaria uma política relativa aos estudantes (ou candidatos a estudantes) chicanos ou mexicanos em Stanford, e sobre as minorias oprimidas e segregadas em geral. O paraíso neoliberal-competitivo dos Zago-Schwartsman só existe na sua pobre imaginação ignorante e desprovida de ideias.

A lógica schwartsmaniana, se válida para uma parte da cosa (res) pública, poderia valer para todas, ou seja, para a república toda; ergo, porque não usar o mesmo procedimento para escolher o “reitor” do Brasil, que também conserva “uma estrutura de comando muito arcaica, excessivamente voltada para dentro de si mesmo”, com dispendiosas eleições onde os candidatos, todos anacrônica e antiglobalmente membros da “comunidade interna”, discorrem e debatem (em português, ainda por cima!) sobre temas internos, provincianos e irrelevantes, como saúde, educação, transporte, salário, emprego, pobreza, gastos sociais e outros temas secundários, em vez de fazê-lo sobre infraestrutura para exportações, aeroportos, taxas de juro internacionais, enfim, o que realmente conta, e em inglês, para serem entendidos pelos que realmente contam, e mediante licitação internacional com apresentação prévia de currículum (em inglês, obviamente). A eleição seria realizada apenas com a participação dos que entendam, linguística e tecnicamente, as opiniões democraticamente expostas pelos candidatos.

O que há de realmente arcaico, na USP, é sua estrutura de poder e de gestão. Ela se rege por um estatuto disciplinar ditado e baixado em 1971, em plena ditadura militar, redigido, além disso, pelo redator principal do AI-5. A composição dos órgãos colegiados não respeita nem sequer a LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O reitor é eleito pelo governador, sobre a base de uma lista tríplice para cuja nomeação vota um colegiado equivalente a pouco mais de 0,1% dos membros de sua comunidade, de aproximadamente 115-116 mil pessoas, todas adultas e habilitadas para o exercício de seus direitos políticos. O que urge, na USP, é democracia e autonomia.

Contra isso se erguem alguns argumentos.

A) A USP (a universidade, em geral) não é um demos, não estabelece nem cobra impostos, não é material nem financeiramente autossuficiente, suas autoridades devem ser designadas (ou validadas), por isso, pelos representantes do poder público. Se essa lógica fosse válida e legítima, ela deveria valer para todas as áreas da atuação pública, nas quais não deveria existir nem o menor resquício de autonomia e democracia. E também para a estrutura de gestão (e até de ensino e pesquisa) interna, isso é, para regular a nomeação e relações entre reitor e diretores de unidade, chefes de departamento e responsáveis por comissões, professores das disciplinas e chefes de laboratório, e, finalmente alunos, todos financiados pelo poder público e ligados por uma estrutura vertical piramidal, na qual só seriam admitidos os dissensos previamente autorizados e delimitados pelos elos superiores da corrente, ou melhor, pelos tijolos superiores da pirâmide. E teríamos uma bela (e perfeitamente inútil) universidade de papagaios.

E: B) Democracia é incompatível com meritocracia, ela diluiria as prerrogativas oriundas do mérito comprovado (em concursos e exames públicos), alma da vida universitária. Esta idiotice é derivada da lamentável confusão entre poder (institucional) e autoridade (moral e intelectual). O primeiro vale, principalmente, para a gestão (exercício do poder); a segunda, sobretudo, para a progressão acadêmica e funcional (exercício do julgamento intelectual). O equacionamento entre as diversas componentes da vida universitária (que é parte da vida pública) não está dado por uma fórmula pré-fixada ou válida de uma vez para sempre. Ele atende a circunstâncias históricas, conjunturais e regionais ou nacionais. O peso institucional específico de cada segmento universitário (professores, alunos, funcionários, estudantes, pesquisadores pós-graduandos, com suas subdivisões internas), em cada área de gestão, e na gestão em geral, deve ser uma construção coletiva e democrática realizada por uma comunidade que é, supostamente, a mais qualificada do país para realizar tal tarefa.

Na USP urge numa estatuinte. Não se trata (só) de “diretas para reitor”, mas de toda a estrutura de poder e gestão. Gritos alarmados surgem contra a “politização da universidade” em tal caso, até contra o “perigo de populismo”, como se as decisões autoritárias de Rodas-Zago não fossem políticas. Afirmar que o corpo universitário, considerado na sua totalidade, carece das qualificações necessárias para tanto, significa repetir anacronicamente a filosofia em outras eras exposta pelo filósofo Pelé (“o povo brasileiro não sabe votar”) que, como disse o deputado Romário, “é um poeta quando cala a boca”. Deixar as coisas como estão significa condenar à universidade a políticas autoritárias, não autônomas, anacrônicas, reacionárias e, como comprovado por gestão recente, beirando a insanidade mental. O custo da USP, em seus oitenta anos de história, foi grande demais para deixá-la nas mãos dos representantes de sua desqualificação e destruição.

Sem democracia e autonomia não há universidade, e isto não é uma premissa metafísica, mas a comprovação emergente de mil anos de história. As “universidades britânicas” tão badaladas pelo tandem Zago-Folha, assim o comprovam. Elas foram protagonistas de uma revolução intelectual e científica na segunda metade do século XVIII, da qual emergiram a modernidade, as ciências humanas e as atuais ciências físico-naturais, e sua atual excelência universitária. Em Glasgow, essa revolução foi precedida de uma luta relativa à “eleição do reitor, o chefe titular de uma universidade tanto na Escócia quanto em diversos países europeus. O reitor Stirling [o Zago da época] excluiu os estudantes do corpo eleitor, o que se tornou um foco de descontentamento, embora em Glasgow os alunos fossem, na maioria, meninos no início da adolescência… Eles empregaram contra este [Stirling] um discurso que o pintava como um tirano e retratava sua própria causa como a defesa dos direitos”. Entre eles se encontrava um primeiranista muito lutador chamado Adam Smith: “A história estudantil em Glasgow deve ter ajudado a formar seu ponto de vista bem como sua instrução e suas leituras… Esse exercício do direito de eleger o reitor (foi) uma parte valiosa de sua experiência única de ser estudante em Glasgow. Adam Smith viu que sua universidade não era uma corporação fechada de mestres” (Ian Simpson Ross, Adam Smith: uma Biografia, Ed. Record, PP. 79-83). Por isso, acrescentamos, ele criou a moderna economia política (e seria muito bom que os docentes da FEA, que não estão em greve, tomassem nota, afinal sem Smith eles estariam desempregados) e não passou para a história como um interessante comentarista escocês da Bíblia, em uma obscura nota de rodapé. E David Hume, seu mestre, também conseguiu votar para reitor…

Em nossas bandas, na nossa América Latina hispano-luso-guaraní-quechua-aymara (e tantas outras) falante, as universidades são (para o melhor e para o pior, mas são) graças ao movimento da Reforma, iniciado em Córdoba em 1918, contra o obscurantismo clerical-antidemocrático e em defesa da democracia (governo tripartite: “un solo grito, gobierno tripartito” foi sua palavra de ordem) e da autonomia universitárias, por uma universidade pública voltada para o povo e os trabalhadores, movimento que se estendeu para todo o continente (bem menos no Brasil) fazendo de nós o que hoje somos e, sobretudo, não sendo obrigados a estudar biologia em manuais em que Darwin seria apresentado como um perigoso louco que achava que seu avô era um macaco.

É isso o que está em jogo. É uma luta política e social geral, não um conflito corporativo. A dotação orçamentária das universidades públicas paulistas deve ser constitucionalmente incrementada, como reivindica e luta o Fórum das Seis (mas não o Reitor Zago e seus colegas do CRUESP, que deveriam fazê-lo) em percentuais acordes com a expansão que o próprio poder público lhe exigiu e impôs. Por isso, a greve dos trabalhadores (docentes e técnico-administrativos) e dos estudantes da USP é uma luta de todos os trabalhadores em defesa do patrimônio público, de uma universidade pública, gratuita e de qualidade voltada para os interesses e necessidades das maiorias pobres e trabalhadoras, baseada no ensino, pesquisa e extensão indissociáveis e, sim, excelentes, porque voltados para a formação integral, científica e humana, dos cidadãos-estudantes e da comunidade em geral, e não para o adestramento canino de imbecis fluentes em língua inglesa.

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Leia também “A crise na USP“, de Francisco de Oliveira, “A USP nas areias do Templo de Salomão“, de Christian Dunker e “A ilegalidade do corte de salários dos trabalhadores em greve e a situação da USP“, “Democratização vs. Privatização: a cartada final” e “Ilegalidades e intransigêngia tensionam o conflito na USP” e “Um espectro ronda a USP: a democracia” de Jorge Luiz Souto Maior, no Blog da Boitempo.

Confira a aula de Osvaldo Coggiola, no IV Curso Livre Marx-Engels online, “Análises concretas da luta de classes”, em cima dos livros Lutas de classes na Alemanha, de Karl Marx e Friedrich Engels (1848), Lutas de classes na França, de Karl Marx (1850), e A guerra civil na França, de Karl Marx (1871). Aulas novas todas as terças e quartas aqui.

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Osvaldo Coggiola é professor titular de história contemporânea da Universidade de São Paulo. Nascido na Argentina, é autor, entre outros livros, de Introdução à teoria econômica marxista. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

A ilegalidade do corte de salários dos trabalhadores em greve e a situação na USP

14.08.25_Jorge LUiz Souto Maior_greve uspPor Jorge Luiz Souto Maior.

A Reitoria da USP publicou, em Informe Oficial do dia 14/08/14, parecer de alguns professores da Faculdade de Direito da USP, com o objetivo de justiçar a postura da Administração em cortar salários dos trabalhadores em greve.

Registre-se, inicialmente, que o parecer mencionado acaba por possibilitar a interpretação de que o Sr. Reitor tenha praticado ato de improbidade administrativa quando afirma:

“Note-se que o Supremo Tribunal Federal estabelece, de forma mandatória, a obrigação, para o administrador público, de não pagar o salário dos dias de paralisação, pelo que constituiria ato de improbidade administrativa pagar os dias não trabalhados, como se trabalhados fossem.”

Ora, não se atentou para o fato de que a greve já ocorria há mais de 80 (oitenta) dias quando alguns cortes de salários começaram a ser efetivados e se era uma obrigação legal, sem possibilidade de qualquer transação, a realização do corte de salários, o reitor da universidade e os diretores de unidade, que não cumpriram sua obrigação, já teriam cometido ato de improbidade administrativa, nos termos da Lei n. 8.429/92.

A situação seria muito grave não fosse o equívoco jurídico da tese aventada da obrigatoriedade administrativa do corte de ponto. No presente texto, portanto, ao menos neste aspecto, pretende-se sair em defesa dos administradores da USP, para afirmar que estes não incorreram em qualquer irregularidade ao deixarem de efetuar o corte de ponto, cabendo, de todo modo, a advertência de que podem ser submetidos às penas da Lei n. 8.429/92 por terem efetuado o corte de salário, ainda mais pela forma como o fizeram.

Senão vejamos.

Inicialmente, apoiando-se em argumento tipicamente midiático, o parecer tenta sugerir que a greve é um ataque à universidade como se fosse realizada por inimigos externos à entidade. O parecer busca, também, o argumento apelativo de que são os grevistas, pelo exercício da greve, os únicos responsáveis pela paralisação das atividades de ensino, pesquisa e extensão, e que estariam, portanto, causando “prejuízos à sociedade paulista que os custeia”. Olvidam, no entanto, que a presente greve foi induzida pela própria administração da universidade quando, sem qualquer aviso, simplesmente deixou de cumprir sua obrigação constitucional de conferir aos servidores a revisão anual de salário e de dialogar com os trabalhadores, não se predispondo, inclusive, a abrir qualquer negociação a respeito.

A afirmação do parecer, portanto, desconsidera a realidade do caso específico, atingindo, de forma totalmente injusta, a dignidade dos trabalhadores em greve, apenas para estimular uma contrariedade da opinião pública ao movimento. Neste aspecto, por conseguinte, o parecer não traz nenhuma contribuição acadêmica, ao mesmo tempo em que revela um sentimento ideológico antigreve e de repulsa à causa dos trabalhadores.

Na sequência, o parecer refere-se a piquetes como “violência”, esquecendo-se, propositalmente, da violência anterior cometida pela direção da universidade no que tange ao “confisco salarial” (como vem apontando a ADUSP), que foi agravada com a persistência da administração da universidade em se negar a abrir negociação sobre o reajuste, assim como pela atitude de se dirigir à comunidade uspiana por meio de reportagens em jornais de grande circulação, trazendo, inclusive, propostas de mudanças na universidade que jamais foram discutidas em qualquer órgão de deliberação interna.

O piquete, ademais, é legalmente assegurado aos trabalhadores (art. 6º. da Lei n. 7.783/89) e mesmo diante das restrições do texto legal (§ 3º.) no conflito de interesses no Direito do Trabalho a lógica coletiva tende a superar a individual, sendo que Justiça do Trabalho já possui posicionamento firme até mesmo contra a utilização indiscriminada de ações possessórias para destruir piquetes. Destaque-se, a propósito, recente decisão da 7ª. Turma do TST: “A intenção por trás da propositura dos interditos era única e exclusivamente a de fragilizar o movimento grevista e dificultar a legítima persuasão por meio de piquetes” (Processo n. RR 253840-90.2006.5.03.0140).

Depois, o parecer tenta fazer crer que o art. 9º. da Constituição não se aplica aos servidores públicos. O dispositivo em questão, no entanto, cuida do conceito de greve, o que, certamente, não se restringe aos trabalhadores celetistas. Ainda que os servidores públicos, por previsão constitucional, venham a ter uma lei específica sobre greve – que ainda não possuem – o conceito constitucional do direito de greve, trazido no art. 9º., não poderá lhes ser negado, pois não há dois conceitos de greve, ainda que os requisitos formais para sua deflagração possam ser diversos.

O STF, inclusive, tratando a questão de forma conceitual, já reconheceu a greve como um direito fundamental, abrangido, inclusive, pelos métodos de luta, como, por exemplo, a ocupação. Reconheceu, aliás, o conteúdo político da ação grevista que se destinou aos trabalhadores em geral, sem distinções, direito que aos trabalhadores “compete decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dela defender”. Em tal decisão se fixou, também, o pressuposto de que mesmo a lei não pode restringir a greve, cabendo à lei, isto sim, protegê-la, tendo consignado, de forma cristalina, que estão “constitucionalmente admissíveis todos os tipos de greve: greves reivindicatórias, greves de solidariedade, greves políticas, greves de protesto” (Mandado de Injunção 712, Min. Relator Eros Roberto Grau).

Várias são, ademais, as decisões judiciais que vêm acatando de forma mais efetiva e ampla o conceito do direito de greve1, todas sob o amparo de outra recente decisão do Supremo Tribunal Federal, esta da lavra do Min. Dias Toffoli (Reclamação n. 16.337), que assegurou a competência da Justiça do Trabalho para tratar de questões que envolvem o direito de greve, nos termos da Súmula Vinculante n. 23, do STF, integrando o piquete a tal conceito.

Em seguida, o parecer seleciona uma jurisprudência que favorece a sua argumentação de que é devido o corte de salários durante a greve porque a lei estabelece que os contratos de trabalho ficam suspensos durante a greve. Mas se há decisões judiciais que seguem essa linha, muitas outras vão em sentido contrário, notadamente quando se trata de servidores públicos2.

A greve, vista pela ótica do Direito Social, é um instrumento a ser protegido e não atacado. Ao direito não compete impedir a ocorrência da greve e sim garantir a sua existência. Para cumprir esse objetivo o Direito não pode impor aos trabalhadores o sacrifício do próprio salário, do qual dependem para sobreviver.

Negar aos trabalhadores o direito ao salário quando estiverem exercendo o direito de greve equivale, na prática, a negar-lhes o direito de exercer o direito de greve, e isto não é um mal apenas para os trabalhadores, mas para a democracia e para a configuração do Estado Social de Direito, conforme Ementa, da lavra de Rafael da Silva Marques, aprovada no Congresso Nacional de Magistrados Trabalhistas, realizado em abril/maio de 2010: “não são permitidos os descontos dos dias parados no caso de greve, salvo quando ela é declarada ilegal. A expressão suspender, existente no artigo 7 da lei 7.783/89, em razão do que preceitua o artigo 9º. da CF/88, deve ser entendida como interromper, sob pena de inconstitucionalidade, pela limitação de um direito fundamental não-autorizada pela Constituição federal”.

Esse aspecto da nomenclatura utilizada pela lei, no que se refere à “suspensão” do contrato de trabalho não tem sido, ademais, bem compreendido, “data venia”.

Do ponto de vista conceitual, a perda do salário só se justifica em caso de falta não justificada ao trabalho e é mais que evidente que a ausência da execução de trabalho, decorrente do exercício do direito de greve, está justificada pelo próprio exercício do direito constitucional da greve.

Lembre-se que não há distinção legal entre suspensão e interrupção e que também não há unanimidade entre os doutrinadores a respeito do melhor critério para identificar as figuras. Arnaldo Süssekind, por exemplo, comentando a origem da distinção, que teria espelhado em experiências estrangeiras, prefere utilizar as expressões “suspensão total” e “suspensão parcial” do contrato de trabalho, fazendo menção, ainda, à posição Sebastião Machado Filho, que refuta tanto a nomenclatura quanto a distinção adotadas pela CLT, sustentando que se verifica em qualquer situação apenas “a suspensão da prestação de execução de serviço”3.

No tema pertinente à suspensão da relação de emprego, o que importa é, portanto, verificar quais os efeitos obrigacionais são fixados por lei. Não cabe à doutrina dizê-lo. Se o legislador não fixou diferença entre suspensão e interrupção e, ademais, considerando o pressuposto da experiência jurídica estrangeira, trouxe essa forma de nominação fora de um parâmetro técnico, não se pode dizer que quando, em lei especial, referiu-se apenas à suspensão tenha acatado a classificação feita pela doutrina, que, ademais, como dito, não é unânime quanto aos critérios de separação entre hipóteses de suspensão e interrupção.

A lei de greve, além disso, é uma lei especial e que se insere na órbita do Direito Coletivo do Trabalho. Não é tecnicamente correto, portanto, do ponto de vista da lógica hermenêutica, buscar o seu sentido de um artigo dessa lei a partir de fórmulas doutrinárias imprecisas voltadas a situações genéricas, construídas no âmbito do Direito Individual.

De todo modo, essa polêmica não tem nenhuma relevância na solução do presente problema, pois os efeitos jurídicos atribuídos a cada situação fática em que não há prestação de serviço por parte do empregado e o contrato permanece vigente devem ser definidos em lei e quanto a isso não há qualquer divergência.

Ora, a Lei n. 7.783/89 não trata dos efeitos salariais da greve, deixando a questão, expressamente, para o âmbito da negociação coletiva ou para eventual decisão da Justiça do Trabalho.

A referência legal à suspensão está atrelada à preocupação primordial de proteger o direito de greve, para que o grevista não sofra represálias pelo exercício da greve, notadamente, com a perda do emprego. É fácil verificar isso com a simples leitura do artigo da lei, que trata do assunto:

Art. 7º Observadas as condições previstas nesta Lei, a participação em greve suspende o contrato de trabalho, devendo as relações obrigacionais, durante o período, ser regidas pelo acordo, convenção, laudo arbitral ou decisão da Justiça do Trabalho.

Parágrafo único. É vedada a rescisão de contrato de trabalho durante a greve, bem como a contratação de trabalhadores substitutos, exceto na ocorrência das hipóteses previstas nos arts. 9º e 14.

Como visto, o que se pretende a preservar o emprego e quanto aos efeitos obrigacionais durante a greve devem estes ser regidos “pelo acordo, convenção, laudo arbitral ou decisão da Justiça do Trabalho”.

Não há, portanto, na lei qualquer autorização para o empregador por ato unilateral, cortar salários dos trabalhadores em greve.

Cumpre observar que a Lei 7.783/89 é fruto de uma Medida Provisória, a MP 59 de 26/05/1989, cujo artigo 5º previa:

Art. 5º A participação em greve legal não rescinde o contrato de trabalho, nem extingue os direitos e obrigações dele resultantes.

Parágrafo único. A greve suspende o contrato de trabalho, assegurando aos grevistas o pagamento dos salários durante o período da sua duração e o cômputo do tempo de paralisação como de trabalho efetivo, se deferidas, pelo empregador ou pela Justiça do Trabalho, as reivindicações formuladas pelos empregados.

Essa, aliás, tem sido a conduta adotada pela Justiça do Trabalho, de forma majoritária, de negar o direito ao salário aos trabalhadores em greve apenas na hipótese de greves consideradas ilegais ou abusivas.

Na linha do resgate histórico, é mais contundente ainda recordar que o artigo 5º da MP 59, acima citado, é uma transcrição do art. 20 da Lei 4.330/64, que assim dispunha:

Art. 20. A greve licita não rescinde o contrato de trabalho, nem extingue os direitos e obrigações dêle resultantes.

Parágrafo único. A greve suspende o contrato de trabalho, assegurando aos grevistas o pagamento dos salários durante o período da sua duração e o cômputo do tempo de paralisação como de trabalho efetivo, se deferidas, pelo empregador ou pela justiça do Trabalho, as reivindicações formuladas pelos empregados, total ou parcialmente.

Ou seja, a investigação histórica demonstra está totalmente desautorizada conferir à Lei 7.783/89 um sentido mais restritivo do direito de greve do que aquele que já se tinha naquela que ficou conhecida como “lei antigreve” (n. 4.330), do período da ditadura militar.

Veja-se, ademais, que o art. 9º da Lei n. 7.783/89 constitui uma pá de cal na argumentação contrária à que se expressa neste texto. Ora, se todos os trabalhadores, manifestando sua vontade individual, deliberam entrar em greve, o sindicato, como ente organizador do movimento, deve, segundo os termos da lei, organizar a forma de execução das atividades inadiáveis do empregador. Para tanto, deverá indicar os trabalhadores que realizarão os serviços, os quais, mesmo tendo aderido à greve, terão que trabalhar. Prevalecendo a interpretação de que a greve representa a ausência da obrigação de pagar salário, de duas uma, ou estes trabalhadores, que apesar de estarem em greve e que trabalham por determinação legal, não recebem também seus salários mesmo exercendo trabalho, ou em os recebendo cria-se uma discriminação odiosa entre os diversos trabalhadores em greve.

Dito de forma mais clara, se, por exemplo, todos os trabalhadores do setor de manutenção resolverem aderir a uma greve estarão, por determinação legal, obrigados a realizar os serviços inadiáveis. Assim, deverão definir, coletivamente, entre si quais os trabalhadores farão os serviços e, para tanto, poderão deliberar pela realização de um revezamento. Nesse contexto, não se poderá criar entre os que trabalharão e os que se manterão sem trabalhar uma diferenciação jurídica acerca do direito ao recebimento, ou não, de salários.

Veja-se o que se passa, igualmente, nas denominadas atividades essenciais. O artigo 11 da lei de greve dispõe que “Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade”, acrescentando o parágrafo único do mesmo artigo que “São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população”.

Ora, se cumpre aos trabalhadores em greve manter os serviços essenciais, é natural que pelo princípio da isonomia não se crie uma diferenciação entre os empregados que estão trabalhando para atender a determinação legal, e os que não estão trabalhando, ainda mais porque a deliberação acerca de quem deve trabalhar no período da greve não é uma decisão individual e sim coletiva, como estabelece a própria lei, sendo que, por isso mesmo, a melhor forma talvez seja a do revezamento.

Neste sentido, a decisão de trabalhar, ou não, no período de greve não pertence a cada trabalhador, individualmente considerado, estando legalmente coibida a continuidade da produção por vontade individual, ou pela contratação, por parte do empregador, de empregados para a execução dos serviços, não se admitindo até mesmo que empregados de outras categorias, como terceirizados, por exemplo, supram as eventuais necessidades de mera produção dos empregadores no período.

Não será demais lembrar que os efeitos benéficos da negociação advinda da greve atingirão a todos os trabalhadores indistintamente.

O parecer sob comento desconsidera essa complexidade jurídica e tenta fazer crer que a autorização para o corte de salários de trabalhadores em greve está definida no Supremo Tribunal Federal. Mas não é bem assim. Aliás, no que se refere aos servidores públicos o posicionamento atual do Supremo é no sentido contrário, conforme decisões abaixo:

RECLAMAÇÃO. CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. DETERMINAÇÃO DE PAGAMENTO DOS DIAS PARALISADOS EM MOVIMENTO GREVISTA. ART. 7º DA LEI N. 7.783/1989. ALEGADO DESCUMPRIMENTO DA SÚMULA VINCULANTE N. 10 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: INOCORRÊNCIA. RECLAMAÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE. [...] MEDIDA CAUTELAR INOMINADA. RESTITUIÇÃO DOS DESCONTOS DE DIAS TRABALHADOS EM RAZÃO DE GREVE.

É pacífico o entendimento de que se cuida de verba alimentar o vencimento do servidor, tanto quanto que o direito de greve não pode deixar de ser titularizado também pelos servidores públicos, não havendo como pretender a legitimidade do corte dos vencimentos sem que se fale em retaliação, punição, represália ou modo direto de reduzir a um nada o legítimo direito de greve consagrado na Constituição da República. Reconhecida, na ação principal, a não abusividade do movimento paredista, defeso é o desconto dos dias paralisados. [...] II – Havendo mostras de que o movimento paredista derivou da inércia contumaz da alcaide do Município de Valparaíso de Goiás, que negava à composição dos interesses e direitos, de naturezas econômico-jurídicos, dos professores da rede pública municipal, como modo de alienação à força de trabalho, sendo dela a atitude reprovável, não se pode declarar abusiva greve que se arrima justamente na busca desses direitos negados e interesses desatendidos; movimento esse que se mostrou único meio de impulsionar a devida garantia constitucional. III – Apesar do art. 7º da Lei n. 7.783/89 dispor que a participação em greve suspende o contrato de trabalho, assentando a ausência de segurança quanto ao desconto ou não dos dias parados, certo é que, no caso em comento, o dissídio levantado em sede coletiva, cuja abusividade não se reconheceu, descabe o desconto dos dias não trabalhados [...]. (STF – Rcl: 11536 GO, Relator: Min. CÁRMEN LÚCIA, Data de Julgamento: 13/03/2014, Data de Publicação: DJe-054 DIVULG 18/03/2014 PUBLIC 19/03/2014).

Decisão: 1. Trata-se de reclamação constitucional, com pedido de medida liminar, ajuizada pelo Estado da Bahia, contra liminares proferidas pelo Tribunal de Justiça baiano nos autos dos Mandados de Segurança nº 0005885-97.2011.805.0000-0 e nº 0006403-87.2011.805.0000-0, que determinaram o pagamento regular da remuneração de professores grevistas, mesmo durante o período de paralisação. [...] Sustenta ter ajuizado ação civil pública, para ver declarada a ilegalidade do movimento paredista deflagrado pelos professores de Universidades Estaduais da Bahia. O pedido de liminar foi concedido pelo juízo de primeiro grau, determinando o corte nos salários, levado a efeito pelo Estado. Após, foram impetrados dois mandados de segurança por distintas associações de professores, nos quais foram proferidas liminares no sentido de determinar o pagamento dos dias parados. [...]

Nesse plano, de acordo com o artigo 6º, §§ 1º e 2º, da Lei 7.783/89, observa-se que a negativa de pagamento dos salários aos professores não pode ser medida utilizada como meio de constranger o movimento grevista a findar-se. Tal medida, entretanto, poderia ser adotada pelo Poder Público quando verificada a abusividade do movimento, o que não se revela latente no presente caso, de modo que, sob análise precária, materializa-se legítima a pretensão liminar da impetrante conforme requerido na exordial” (grifo nosso). (STF – Rcl: 11847 BA, Relator: Min. JOAQUIM BARBOSA, Data de Julgamento: 13/07/2011, Data de Publicação: DJe-148 DIVULG 02/08/2011 PUBLIC 03/08/2011)

PROCESSO ELETRÔNICO

DJe-177 DIVULG 09/09/2013 PUBLIC 10/09/2013

Decisão

Decisão: Trata-se de pedido de suspensão de tutela antecipada formulado pelo Estado do Rio de Janeiro contra decisão proferida por desembargadora do Tribunal de Justiça daquela unidade da Federação nos autos do mandado de segurança 0045412-95.2013.8.19.0000.

A decisão impugnada deferiu a liminar requerida pelo impetrante, Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (SEPE/RJ), e determinou a suspensão de medidas administrativas tomadas pelo ora requerente em face da deflagração de movimento grevista. Entre as medidas suspensas por força da decisão liminar encontram-se a aplicação de falta aos servidores grevistas, o desconto remuneratório dos dias parados e a possibilidade de demissão por ausência de comparecimento ao trabalho.

O Estado do Rio de Janeiro sustenta que a decisão liminar impugnada representa grave ameaça à ordem e dano às finanças públicas.

Entre os argumentos apresentados pelo requerente está a alegação de que o pagamento dos dias parados representa afronta ao princípio da moralidade, bem como a apresentação de evidências que demonstrariam se tratar, no caso concreto, de greve abusiva, fenômeno apto a ensejar o corte de ponto dos dias não trabalhados.

Nessa linha de argumentação, o Estado do Rio de Janeiro alega que a paralisação é a décima quinta ocorrência de movimento paredista no período de apenas um ano e meio, e que as greves naquele estado da Federação coincidem com o calendário eleitoral do país.

O requerente aduz, também, que a paralisação não foi devida e previamente notificada ao poder público, tendo sido iniciada sem que tivessem sido esgotadas as negociações prévias sobre as demandas dos servidores.

Ao final, o Estado do Rio de Janeiro sustenta que não estão presentes os requisitos fáticos e jurídicos para a concessão da liminar no mandado de segurança e requer a suspensão da decisão impugnada, com fundamento no § 7º do art. 4º da Lei 8.437/1992.

É o relatório.

Decido.

A leitura da decisão impugnada revela que a fundamentação utilizada apoiou-se na existência de indícios concretos de retaliação pelo exercício do direito de greve. Leio:

No caso em tela, o impetrante comprovou, às fls. 52/53, 57/58 e 89/96, o preenchimento dos requisitos constantes da lei 7.783/89, não se verificando, a princípio, qualquer abuso do direito de greve a justificar o corte no ponto dos servidores e, o consequente desconto dos dias paralisados.

Ademais, configura-se claro o perigo de dano irreparável ou de difícil reparação na hipótese em comento, uma vez que, se trata de verba de caráter alimentar, havendo, inclusive, risco de perda do cargo por parte dos servidores, que aderirem ao movimento, destacando-se que, o documento de fls. 62 comprova a orientação, proveniente da Secretaria de Estado de Educação, para que seja atribuída falta aos profissionais grevistas.

Com efeito, a parte dispositiva da decisão liminar limitou-se a suspender a possibilidade de adoção de medidas administrativas contrárias ao exercício do direito de greve, tendo sido utilizada a devida cautela em vincular o exercício desse direito ao cumprimento dos passos previstos na legislação aplicável. Colho da decisão impugnada (grifei):

Ante o exposto, defiro a liminar para determinar que, as autoridades coatoras se abstenham de aplicar falta aos servidores grevistas, inclusive, nos dias de paralisação realizados com a notificação prévia da administração, assim como dos dias provenientes da greve deflagrada a partir do dia 08 de agosto de 2013, para todos os fins de direito, até decisão final, evitando-se assim retaliações a direitos estatutários e descontos remuneratórios nos contracheques dos servidores grevistas e sanções administrativas a titulo de demissão, preventivamente, sob pena de multa diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais).

Nesse contexto, entendo que não foi suficientemente demonstrada a presença dos requisitos jurídicos para o deferimento da medida de contracautela.

Como visto, a decisão liminar impugnada limitou-se a resguardar a possibilidade de exercício do direito de greve, desde que cumpridas formalidades legalmente exigíveis.

As questões relativas ao suposto caráter abusivo, e aquelas que dizem respeito à ilegalidade do movimento, pertencem ao julgamento de mérito do writ. Frise-se, neste ponto, que a argumentação do requerente na inicial não foi acompanhada de elementos concretos que permitiriam fundamentar a conclusão imediata pela existência de greve ilegal. Neste momento, não se afigura possível debruçar-se sobre esses temas, os quais exigem, como é sabido, a devida instrução processual do feito, na origem.

Ante o exposto, indefiro o pedido.
Publique-se.
Brasília, 30 de agosto de 2013
Ministro Joaquim Barbosa
Presidente

O STF, reconhecendo a importância do tema, chegou mesmo a atribuir a um julgamento pendente sobre a questão o efeito de repercussão geral, embora ainda não tenha sido proferida a decisão final (AI 853275/RJ).

A tendência, de todo modo, parece ser a do acolhimento da tese de que o corte de ponto é indevido, notadamente nas situações em que a greve tenha por fundamento ilegalidade cometida pelo administrador e não seja, por isso mesmo, considerada ilegal ou abusiva. Além dos julgamentos já mencionados ainda pode ser citada a recente decisão da lavra do Min. Luiz Fux, na Reclamação n. 16.535, que reformando decisão do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) no que tange ao corte de ponto dos professores da rede estadual em greve, definiu: “A decisão reclamada, autorizativa do governo fluminense a cortar o ponto e efetuar os descontos dos profissionais da educação estadual, desestimula e desencoraja, ainda que de forma oblíqua, a livre manifestação do direito de greve pelos servidores, verdadeira garantia fundamental”.

O parecer sob comentário, portanto, “data venia”, está apoiado em posição já superada no Supremo Tribunal Federal, devendo-se destacar que mesmo a decisão do STF que citou, de maio de 2010, da lavra do Ministro Joaquim Barbosa (Recurso Extraordinário RE 456530/SC), não admite o corte de salários de forma absoluta. Como expresso na decisão, “os salários dos dias de paralisação não deverão ser pagos, salvo no caso em que a greve tenha sido provocada justamente por atraso no pagamento aos servidores públicos civis, ou por outras situações excepcionais que justifiquem o afastamento da premissa da suspensão do contrato de trabalho (art. 7o da Lei No 7.783/1989, in fine)” – grifos nossos.

Além disso, no caso concreto da atual greve da USP o preceito jurídico fundamental – traduzido na decisão do Min. Barbosa – de que uma pessoa não está obrigada a cumprir a sua parte no contrato se a outra não cumpriu a sua que era antecedente ainda mais quando se refira à proteção de direitos fundamentais, aplica-se perfeitamente. Afinal, seria mesmo absurdo sustentar que os trabalhadores, que, por exemplo, entram em greve porque não recebem salários há dois meses, perdem, a partir da deflagração da greve, o direito ao recebimento do salário, conferindo-se ao empregador a situação confortável de se beneficiar economicamente da greve que ele próprio provocou. Lembre-se que por outro princípio jurídico fundamental, ninguém pode se beneficiar da própria torpeza.

Em certo sentido, o que se passa no caso da USP é exatamente a mesma coisa, justificando, no mínimo, o “afastamento da premissa da suspensão do contrato de trabalho”. Ora, a USP frustrou de forma abrupta, sem qualquer motivação ou explicação prévia, a expectativa legítima que os trabalhadores tinham quanto ao reajuste salarial, garantido constitucionalmente. Esse direito, ademais, não está limitado pela oportunidade e pela conveniência administrativa, como definido em decisão do Ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal:

Atentem para a distinção entre aumento e reajuste. O Direito, tanto o substancial quanto o instrumental, é orgânico e dinâmico, descabendo confundir institutos que têm sentido próprio. Na espécie, não se trata de fixação ou aumento de remuneração – estes, sim, a depender de lei, na dicção do inciso X do artigo 37 da Carta da República.

Versa-se o reajuste voltado a afastar os nefastos efeitos da inflação. Objetiva-se a necessária manutenção do poder aquisitivo da remuneração, expungindo-se o desequilíbrio do ajuste no que deságua em vantagem indevida para o Poder Público, a aproximar-se, presente a força que lhe é própria, do fascismo. Não se pode adotar entendimento que implique supremacia absoluta do Estado, em conflito com o regime democrático e republicano. (RE 565.089/SP)

Na situação concreta da USP, portanto, se o assunto for legalidade, para efeito de justificar o corte de salário, antes há de se falar da ilegalidade cometida pela USP no que tange à negação do reajuste salarial, sendo certo que a instituição não tem a seu favor, para se ver livre da obrigação e consequentemente da ilegalidade cometida, o argumento da própria torpeza, ou seja, de que fez gastos indevidos e que por isso a verba orçamentária deixou de ser suficiente para honrar o reajuste.

Neste sentido, é paradigmática recente decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª. Região, que, em sua sessão de dissídios coletivos, reconheceu a legalidade da greve pelo fato do empregador, um município, não ter concedido o reajuste constitucional, assim como negou a possibilidade do corte de salário durante a greve e ainda supriu a inércia do administrador deferindo a majoração salarial com base no índice inflacionário do período.

Dada a perfeita identidade com o caso da USP, a decisão em questão merece ser reproduzida, ainda que em partes:

PROCESSO nº 0006086-57.2014.5.15.0000 (DCG)

Relator: Gerson Lacerda Pistori

Cabe ao Poder Judiciário garantir a efetividade da norma insculpida na segunda parte do inc. “x” do art. 37 da Constituição Federal – revisão geral de vencimentos dos servidores públicos -, o que não representa vantagem, mas contrapartida a manter a equivalência da relação jurídica Estado-servidor.

A prática de ato antissindical sujeita o infrator à multa.

As obrigações impostas ao Município suscitante são de responsabilidade solidária do Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal, cujo descumprimento ensejará a responsabilização pela prática de improbidade administrativa, a teor do art. 11 da Lei 8.429/92.

Trata-se de Dissídio Coletivo de Greve, com pedido de liminar, suscitado pelo MUNICÍPIO DE ITATIBA (Id nº 2d00edc) e visando a normalização de serviços nas áreas de saúde, educação, obras e construção e manutenção consideradas urgentes, serviços funerários e de segurança, dentre outros de caráter essencial para que não haja prejuízos à coletividade, bem como a declaração de abusividade/ilegalidade da greve deflagrada pelos servidores públicos municipais.

(….)

Inicialmente, é preciso que a apreciação da norma contida no inciso “x” do art. 37 da Constituição Federal, seja feita de forma a garantir a efetividade ao texto constitucional e, dessa maneira, a leitura trazida pelo Exmo. Desembargador LORIVAL FERREIRA DOS SANTOS de que a norma em referência traz dois comandos diversos, traduz essa garantia.

Na primeira parte, contém comando relacionado a aumento salarial, que se refere a “acréscimo remuneratório real”, enquanto na segunda parte dispõe sobre a “revisão anual” ou “recomposição do poder aquisitivo da moeda em decorrência das perdas inflacionárias”.

Resta, pois, cristalina a discricionariedade do Administrador Público, que decidirá sobre a conveniência e oportunidade, no primeiro caso, devendo propô-la pela via legislativa, enquanto, com relação à segunda parte do inciso em referência, resta-lhe o cumprimento da garantia constitucional: “assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices.”

Nesse sentido tem reiteradamente votado o Ministro do Supremo Tribunal Federal, MARCO AURÉLIO DE MELLO: “Atentem para a distinção entre aumento e reajuste. O Direito, tanto o substancial quanto o instrumental, é orgânico e dinâmico, descabendo confundir institutos que têm sentido próprio. Na espécie, não se trata de fixação ou aumento de remuneração – estes, sim, a depender de lei, na dicção do inciso X do artigo 37 da Carta da República.

Versa-se o reajuste voltado a afastar os nefastos efeitos da inflação. Objetiva-se a necessária manutenção do poder aquisitivo da remuneração, expungindo-se o desequilíbrio do ajuste no que deságua em vantagem indevida para o Poder Público, a aproximar-se, presente a força que lhe é própria, do fascismo. Não se pode adotar entendimento que implique supremacia absoluta do Estado, em conflito com o regime democrático e republicano”. (RE 565.089/SP)

Pondera o Eminente Ministro que, assim como a correção monetária não se constitui em plusou penalidade, mas reposição do valor real da moeda corroída pela inflação (AReg na Ação Cível Originária nº 404 – Min. Maurício Corrêa) – havendo jurisprudência, inclusive, no sentido da desnecessidade de que seu pedido esteja expresso (REsp nº 1.112.524/DF- Min. Luiz Fux) -, surge a percepção da necessidade de se manter o objeto da relação jurídica, que não representa vantagem para quem busca obtê-la, tanto quanto o direito ao reajuste da prestação devida pela Administração Pública como componente essencial do sistema de contratação.

Nessa esteira, considerando que na relação jurídica Estado-servidor existem direitos e obrigações recíprocos e que do ponto de vista deste último a remuneração representa a equivalência estabelecida aos serviços prestados, assegurada pela obrigação estatal de revisão e irredutibilidade (art. 37, X e XV, CF), a quebra desse equilíbrio não só representa violação constitucional mas violação da almejada paz social, o que se evidencia, especialmente neste momento, na disseminação de movimentos paredistas de servidores públicos pelo país afora em busca dessa garantia básica, como no presente caso.

(….)

b) determinar ao Município suscitante a complementação do reajuste concedido em maio/2014 (de 4,40%), de forma a observar a inflação apurada no período (INPC-IBGE, Id 123d018), de 5,82% (cinco vírgula oitenta e dois por cento) sobre os vencimentos de maio de 2013, garantindo-se, assim, a revisão geral anual de vencimentos dos servidores públicos municipais insculpida no art. 37, “x”, da CF;

d) declarar legal e não abusivo o movimento paredista, determinando-se o regular pagamento pelo Município suscitante dos salários dos servidores municipais em greve, que deverão compensar metade dos dias de paralisação após o retorno ao trabalho;

A greve no serviço público, oportuno dizer, não é apenas um ato político de interesse dos trabalhadores como se possa acreditar. Trata-se de uma ação de interesse de toda a sociedade, mesmo quando seu objetivo imediato seja a reivindicação salarial. Afinal, a prestação adequada e de qualidade de serviços à população, que é um dever do Estado, notadamente quando se trata de direitos sociais, depende da competência e da dedicação dos trabalhadores. Sem um efetivo envolvimento dos trabalhadores o Estado não tem como cumprir as suas obrigações constitucionalmente fixadas.

Não é raro que greves de servidores estejam atreladas à busca de melhores condições de trabalho, dada a precariedade do aparelhamento do Estado, sobretudo nas áreas da educação, da saúde e do transporte. São notórios os casos de escolas públicas sem carteiras, sem material escolar e com precárias condições estruturais. Não são incomuns as irregularidades nas contratações de professores, que se vêem integrados a contratos temporários que perduram por anos. Muitas são as realidades de professores que atuam sem quadro de carreira, recebendo baixíssimos salários etc. No âmbito da saúde também é frequente encontrar hospitais sem condições de atendimento, sem material adequado, com profissionais que tomam para si a responsabilidade de dedicarem a própria vida para satisfazerem a obrigação do Estado. Nas cidades, os transportes são caros, inadequados e insuficientes.

Verificam-se, portanto, situações que refletem um descumprimento múltiplo por parte do Estado de suas obrigações na prestação de um serviço público de qualidade à população e se os profissionais diretamente envolvidos nessa tarefa, professores, médicos, enfermeiros, rodoviários, metroviários, escriturários resolvem iniciar um movimento grevista para chamar a atenção da população para os problemas, que podem, até, pôr em risco a integridade física dos cidadãos, não é minimamente razoável limitar a análise dos efeitos da greve para os trabalhadores a partir de uma interpretação restritiva do direito de greve, que mais serve para punir os grevistas do que para lhes garantir o efetivo exercício de seu direito, dizendo que esses profissionais, a partir daquele instante, terão o seu ponto cortado, como se estivessem, eles, cometendo alguma ilegalidade.

Está mais que na hora de perceber que se a greve no serviço público causa transtornos à população, maiores transtornos causam as situações de precariedade em que esse serviço está sendo entregue, cotidianamente, aos cidadãos. Esta precariedade, ademais, afeta mais diretamente a saúde e a condição de vida dos profissionais envolvidos na execução dos serviços, sendo, por isso, plenamente legítima a sua ação grevista, que é, aliás, a única capaz de alterar esse quadro em estágio de dramaticidade.

As greves no setor público, ademais, constituem a essência para a estruturação democrática das instituições. A democracia, vale lembrar, é um preceito fundamental e o administrador não pode tratar a entidade como se fosse sua propriedade. O relacionamento democrático com os servidores é a postura mínima a se exigir do administrador e este objetivo não se concretiza sem garantir aos servidores a ação política da greve. Constitui, pois, um atentado à democracia conferir ao administrador o poder de “dialogar” com os servidores com a ameaça do corte de salários nas mãos.

No caso do serviço público, o argumento principal contra a possibilidade do desconto salarial dos grevistas tem fundamentalmente a ver com a ausência de correlação de forças que normalmente se apresenta no âmbito privado. Em uma indústria, a greve implica, em regra, prejuízo imediato à produção e ao lucro, ou seja, ela deflagra uma pressão econômica direta que, bem ou mal, com mais ou menos intensidade, irá estimular o empregador a desde logo tentar negociar. Já no âmbito do serviço público uma greve não necessariamente terá tal efeito. Na verdade, pode ocorrer até o contrário: uma greve no INSS, por exemplo, pode significar economia para o Governo Federal, que deixará de pagar benefícios aos segurados. Assim, excluindo algumas áreas notoriamente sensíveis (Receita, Polícia, Transportes), para o governo será indiferente a continuidade do movimento. Mesmo a existência de uma suposta pressão política é questionável, já que, não raro, a população identifica os prejuízos que sofre na pessoa dos grevistas, os quais, assim, além de tudo, podem ainda sujeitar-se a ser hostilizados nesta dimensão. Adicione-se ao panorama mencionado o corte de salários e o resultado será a completa nulificação material do direito constitucional de greve para o servidor público.

É sempre bom lembrar que no Brasil, infelizmente, os casos de má administração da coisa pública proliferam e não raro o administrador se envolve com projetos obscuros que incluem, até, a precarização deliberada do ente público para abertura de espaços à iniciativa privada no mesmo setor. A greve, que significa, certamente, a defesa dos interesses dos servidores no que se refere à melhoria das condições de vida e de trabalho, não deixa de ser também a fórmula eficiente da defesa da coisa pública, da eficiência do serviço e das instituições democráticas.

No caso da USP, por exemplo, está cada vez mais clara a estratégia de sucateamento da universidade, que iniciou na gestão passada com gastos em autênticos desvios de finalidade, com o propósito específico de permitir ao presente reitor, que era pró-reitor à época, utilizar o argumento do déficit orçamentário para propor um enxugamento do número de servidores, sobretudo por possuírem estes garantias salariais e jurídicas conquistadas ao longo de anos de luta. Essa proposta, no entanto, não está ligada à necessidade de ajustar o orçamento. Uma das intenções é afastar a resistência política que esses profissionais têm exercido contra o projeto de privatização da universidade.

A diminuição da mão-de-obra amparada por proteção jurídica histórica; a destruição do sindicato dos servidores; a cobrança de mensalidades; o incentivo a cursos pagos e ao financiamento privado; abrir espaço à ampliação da terceirização são iniciativas que, claramente, inserem-se no projeto privatizante.

É interessante perceber que em meio ao alegado déficit orçamentário, a direção da universidade, sem passar por qualquer instância deliberativa – o que demonstra, mais uma vez, a falência democrática da instituição – anunciou o oferecimento de indenizações vultosas aos servidores que aderirem a um plano de demissão voluntária, de discutível validade jurídica, sobretudo em um ambiente de greve.

Esse é o contexto em que o assédio promovido pelas chefias aos servidores em greve e os cortes de salários aparecem. Não se trata, portanto, de uma atitude atrelada a uma obrigação legal, cujo descumprimento pudesse implicar em improbidade administrativa. O corte de salário havido na USP, depois de mais de 80 (oitenta) dias de greve, feito de forma parcial e seletiva, constituiu, claramente, um ato anti-sindical, uma represália à greve, uma forma de punição e agressão direta e subjetiva aos grevistas.

Essa atitude da administração da USP não tem nenhum respaldo jurídico, ainda que o corte de salários fosse autorizado por lei, pois um direito não pode ser exercido com o objetivo único de causar dano a outrem, o que constitui autêntico abuso de direito.

Além disso, se por acaso estivesse correto o argumento de que o corte de salários de trabalhadores em greve é uma obrigação do administrador, o reitor (e alguns diretores de unidade) já teria praticado uma improbidade administrativa, que teria perdurou, gravemente, por mais de 80 (oitenta) dias.

Aliás, se for para levar a questão por esse lado, o da estrita legalidade para o efeito de atrair o tema da improbidade administrativa, haver-se-á de reconhecer que pior do que não cortar os salários, se assim estivessem obrigados a fazê-lo, é implementar a medida sem respeito ao postulado da isonomia, revelando atitude discriminatória. Os salários dos professores em greve não foram cortados e ainda foram cortados apenas os de alguns servidores. O ato, portanto, não teve motivação específica. Foi executado com desvio de finalidade. E feriu todos os padrões da moralidade…

Ou seja, se for para falar de improbidade administrativa, a própria forma como se deu o corte de salários, ainda que devido fosse, já geraria, por si, essa repercussão.

Aliás, a lembrança conveniente de que a ordem jurídica obriga o administrador ao corte de salários depois de oitenta dias do início da greve, quando o conflito entrou no impasse provocado pela própria atitude do administrador de se recusar ao diálogo, é uma ofensa à inteligência humana, responsável por conferir dinâmica ao direito.

O administrador da USP cometeu várias ilegalidades, desde a não concessão do reajuste até a negação reiterada ao diálogo, e, repentinamente, lembrou que existe um dispositivo legal que, na sua visão parcial, lhe confere o direito a causar um dano àqueles a quem passou a encarar como adversários. Ora, a conveniência administrativa não é lembrar da lei quando convêm ao administrador e muito menos aplicar a lei em conformidade com interesses punitivos, ainda mais quando o administrador se mantém no cometimento de diversas ilegalidades, como na USP. O atual Reitor, lembre-se, já disse publicamente que pode ter havido malversação do dinheiro público por parte do ex-Reitor e as irregularidades pelos gastos indevidos do dinheiro público atingem também a todos aqueles que tinham a obrigação de fiscalizar esses gastos.

Pode-se vislumbrar, também, a ocorrência de várias irregularidades administrativas no caso escandaloso da Each. Foram descarregados vários caminhões com terra contaminada na USP/Leste, um local público destinado à produção do conhecimento, e até hoje os administradores da USP não responderam as perguntas básicas: De onde veio a terra? Quem autorizou o aterro?

E por falar em infração administrativa, que dizer da atitude de alguns chefes de setor, que, pressionados por diretores de unidades, adulteraram a marcação de ponto, fazendo constar “falta” onde estava feita a anotação dos próprios trabalhadores em greve de comparecimento ao local de trabalho para exercício legítimo do direito de greve, sendo que, no caso do HU, por exemplo, estavam trabalhando em regime de revezamento?

Essas ilegalidades todas se escoram em um estatuto que não assegura gestão ou participação democrática, como determina a Constituição (art. 206, VI) e que se respaldo em um regimento disciplinar de 1972, que preserva a lógica autoritária do regime da ditadura militar, prevendo, por exemplo, punição disciplinar de aluno por “praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes” e por “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário”…

Na gestão anterior, além disso, instaurou-se o clima do terror, que motivou a formalização de um convênio com a PM para manter estudantes e servidores sob vigilância, a criação de uma “sala de crise”, da qual advieram táticas de espionagem sobre estudantes, servidores e professores e a formalização de inúmeros processos administrativos contra diretores do Sintusp e contra estudantes, notadamente aqueles que se insurgiram contra esse estado de coisas, incluindo a luta pela retomada de prédio do CRUSP que foi indevidamente ocupado pela administração.

Todos esses problemas legais da USP têm sido alvo de sucessivas denúncias de estudantes, servidores e professores e estão, mais uma vez, na pauta da presente greve. A greve, portanto, está motivada na defesa da legalidade, da administração responsável da coisa pública e em defesa do ensino público.

Não é possível dentro desse contexto visualizar os servidores e professores em greve como pessoas que estejam cometendo ilegalidades, mesmo quando utilizam meios para tornar a greve mais visível, dada a inércia do administrador.

Voltando ao parecer, este ainda diz que: “Cumpre informar que não tem sido outro o entendimento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao declarar, pelo seu Comitê de Liberdade Sindical, não haver nenhuma objeção à dedução dos salários dos dias de greve (BIT, Genève, La liberté syndicale, Ementa n. 654, p. 137).”

Ocorre que apesar da ementa 654 apontar para a noção de que a OIT não se opõe ao desconto de salários dos dias de greve, isso está muito longe de representar uma autorização ao desconto. A OIT é demasiadamente favorável à autonomia negocial entre as partes, algo bem normal no direito coletivo do trabalho internacional, mais por uma dificuldade de estabelecer regras possíveis de serem aplicadas a todos os países – um patamar mínimo exigível – do que por uma ânsia flexibilizadora. Assim, as ementas seguintes (655 a 657) seguem no sentido de que a questão do salário deve ser preferencialmente objeto de negociação entre as partes. Logo, não há nada autorizando o pagamento de salários nem autorizando o desconto.

De todo modo, a normativa da OIT deixa claro que o desconto de salários não pode representar uma sanção aos trabalhadores, como se pode interpretar do teor da ementa 655, quando diz que se deve buscar o desenvolvimento harmonioso das relações profissionais. Assim, apesar dos descontos não serem proibidos, nesse caso concreto da USP, os fatos de inexistir descontos em greves anteriores, de ter sido implementado mais de oitenta dias após o início da greve quando o conflito já estava acirrado e de ter sido feito de forma parcial e não isonômica fazem presumir que o desconto ocorreu sim como forma de punir os grevistas, o que é condenado pela OIT.

A ementa 656 dispõe, ademais, que esse desconto deve ser objeto de acordo entre as partes. Logo, inexiste qualquer autorização para descontos unilaterais por parte do empregador, como ocorreu na USP.

Por fim, o parecer sugere que a solução proposta é unânime em todos os países, o que está longe de constituir uma realidade, notadamente nas questões atinentes à greve no serviço público, conforme se verifica da decisão abaixo:

DERECHO DE HUELGA – DESCUENTO A DOCENTES POR DÍAS DE PARO – VIOLACIÓN A DERECHOS CONSTITUCIONALES (ART. 39 INC. 4° C.P.) – MEDIDA CAUTELAR.

19902 – “UNION DE DOCENTES DE LA PCIA. DE BS. AS.C/ DIRECCION GENERAL DE CULTURA Y EDUCACION S/MEDIDA CAUTELAR AUTONOMA O ANTICIPADA – EMPL.PUBLICO”

La Plata, 29 de Enero de 2010.

(….)

3.1. Verosimilitud en el derecho: Que el derecho a huelga, constitucionalmente reconocido, constituye una de las herramientas centrales de protección de los intereses profesionales del trabajador (arts. 14 bis de la CN, y 39 inc. 2 de la CPBA). En autos, su ejercicio aparece -en principio- legítimo, en tanto, como afirma la parte actora, ha sido decidida por las entidades gremiales con personería reconocida por la autoridad de aplicación, obedece a reclamos de naturaleza laboral, su duración ha sido limitada en el tiempo, no fue dispuesto su cese, ni se ha cursado intimación alguna para la reanudación de las tareas en el marco de una negociación colectiva de trabajo (SCBA, L 44923 S 30-4-1991 y L 52588 S 26-7-1994; CNLB VI, del 28-04-1994, JA, 1996 I, 230, entre otros).

En ese sentido, la ausencia de reglamentación y puesta en funcionamiento del derecho de solución colectiva de los conflictos laborales, de conformidad a lo establecido tanto, en el art. 39 inc. 4 de la Constitución de la Provincia de Buenos Aires, como en normas internacionales (Convenio de la O.I.T. Nº 151), o bien mediante el mecanismo previsto por la Ley 23.929, de Negociación Colectiva para los Trabajadores Docentes, conlleva de por sí, un incumplimiento de las las obligaciones asumidas por el Estado para con los trabajadores del sector público (Conf. Capón Filas, Rodolfo, “Protección Constitucional del Trabajo” en LL Sup.Const. Esp. 2003 -abril-, 72 – LA LEY 2003-C, 1150).

En función de ello, la legalidad de los descuentos compulsivos en los haberes del personal docente, en el contexto citado, aparece legítimamente controvertida por la actora, pues su admisión implicaría, en cierto modo, la supresión del derecho de huelga, sin que aprecien justificadas sus razones, ni norma legal expresa que los sustente.

Cabe recordar que en un Estado de Derecho el principio de legalidad preside todo el accionar de la administración, y ésta (en cualquiera de los tres poderes) se encuentra sometida a la ley, debiendo limitar sus posibilidades de actuación a la ejecución del orden jurídico. Este principio de legalidad de la Administración “opera, pues, en la forma de una cobertura legal de toda la actuación administrativa: solo cuando la Administración cuenta con esa cobertura legal previa su actuación es legítima” (García de Enterría, Eduardo – Fernández Tomás Ramón: “Curso de Derecho Administrativo”, Ed. Civitas, Madrid, 10ª edición, 2001, Tomo I, pág. 440).

En el supuesto de autos, el quebrantamiento al orden constitucional alegado por la actora, surge verosímil, toda vez que los descuentos en los haberes de los docentes se producen en un contexto en el cual se aprecia la absorción -por parte de la empleadora- de competencias atribuidas constitucionalmente a otro órgano (art. 39 inc. 4 de la CPBA), a la vez que es el propio empleador quien regula unilateralmente las condiciones laborales, agravando la desigualdad existente entre ambas partes de la relación contractual de empleo público; asimetría que las normas constitucionales e internacionales de contenido protectorio intentan suprimir o morigerar (vgr. art. 14 bis, y 75 inc. 22 de la CN, Pacto Internacional de Derechos Económicos Sociales y Culturales, Convenios 151 y 155 de la OIT; y art. 39 de la CPBA).

En esa inteligencia, la pretensión cautelar solicitada tendiente a impedir la continuidad de los descuentos en los haberes de los docentes, hasta tanto se dicte sentencia en autos, resulta una medida adecuada para la protección del derecho invocado, toda vez que ésta solo tiende a evitar que se agrave la situación de hecho existente al tiempo de su dictado, asegurando de ese modo la eficacia práctica de la sentencia definitiva que debe recaer en el proceso.

Por las razones expuestas, juzgo que la verosimilitud en el derecho invocado, se encuentra “prima facie” acreditada (art. 230 inc. 1 del CPCC), por hallarse en principio, conculcado el derecho a huelga reconocido por el art. 39 inc. 2 de la Constitución Provincial, disponiendo una detracción patrimonial en los salarios docentes sin sustento formal y jurídico (art. 109 de la LPA), y sin haber agotado las instancias de negociación colectiva conforme lo prevé el art. 39 inc. 4 de la misma Constitución.

Por ello, citas legales y jurisprudencia, RESUELVO:

(….)

3. Hacer lugar parcialmente a la medida cautelar solicitada, ordenando a la Dirección General de Cultura y Educación de la Provincia de Buenos Aires a que se abstenga de efectivizar cualquier acto o hecho que -como consecuencia de las medidas de fuerza realizadas por la entidade actora en los meses de Septiembre, Octubre y Noviembre de 2009- afecte la percepción íntegra de los salarios del sector docente, ello de manera inmediata a la notificación de la presente, y hasta tanto se dicte sentencia en autos, bajo apercibimiento de lo dispuesto por el art. 163 de la CPBA y 23 de la Ley 7166. A esos fines, y previa caución juratoria en la forma establecida en el considerando 3.4. de la presente, líbrese oficio por Secretaria, con copias para mejor ilustración de la demandada.- REGISTRESE. NOTIFIQUESE A LA FISCALIA DE ESTADO CON HABILITACIÓN DE DIAS Y HORAS (arts. 135 inc. 5 del C.P.C.C. y 27 inc. 13 del D. Ley 7543/69).

LUIS FEDERICO ARIAS
Juez
Juz.Cont.Adm.Nº1
Dto.Jud.La Plata 

Em suma, é inconcebível que em meio a todas as ilegalidades cometidas pelos administradores da USP, o que não gerou até hoje a responsabilização de nenhum deles, afastando-se do contexto fático, que se diga que o reitor está certo em cortar salários dos servidores (mesmo que somente o tenha feito com relação a alguns e após 80 dias do início da greve) porque a lei e certa jurisprudência dizem que os contratos de trabalho ficam suspensos durante a greve e que esta seria uma obrigação do reitor sob pena de incorrer em improbidade administrativa.

O que se exige no presente momento é o reconhecimento institucional da ilegalidade do corte de salários e início imediato das negociações.

Não é possível que tudo se mantenha na ilegalidade e que a única “legalidade” que a administração da universidade vislumbre seja a do corte de salários dos servidores que lutam para defender os seus direitos, pois se assim for não se terá como efeito uma derrota dos trabalhadores e sim uma derrota coletiva, que conduzirá a USP não a uma crise, mas a uma autêntica falência institucional.

São Paulo, 20 de agosto de 2014.

1 Processos ns. 114.01.2011.011948-2 (1ª. Vara da Fazenda Pública de Campinas); 00515348420125020000 (Seção de Dissídios Coletivos do TRT2); 1005270-72.2013.8.26.0053 (12ª. Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo); 10086-2013-663-09-00-4 (4ª. Vara do Trabalho de Londrina); 0921-2006-009-17-00-0 (Tribunal Regional do Trabalho da 17ª. Região; 0000306-71-20130-5-05-0511 (Vara do Trabalho de Eunápolis/BA).

2. TJ/MG – processo n. 1.0694.12.000751-3/001 – 0007513 – Relator: Des. Antônio Sérvulo. Data do Julgamento: 22/04/2014. Data da Publicação: 07/05/2014); TRF/1ª Reg. – SUSPENSÃO DE LIMINAR OU ANTECIPAÇÃO DE TUTELA N. 0046964-66.2012.4.01.0000/DF; TRF/1ª. Reg. – processo n. 0036684-21.2012.4.01.3400 – n. de registro e-CVD 00114.2012.00173400.2.00450/00136 – classe: 2100 – MANDADO DE SEGURANÇA; TRF/1ª. Reg. – AMS 2005.38.00.026877-0/MG. Relator: Juiz Federa Miguel Ângelo de Alvarenga Lopes, DJe 24.05.2011; TRF/2ª Reg. – processo n. 200302010093299, RJ. Data da decisão: 07/08/2003. Documento: TRF200104142 – DJU, 11/09/2003, p. 120 – Relator: Juiz Valmir Peçanha.

3. SÜSSEKIND, Arnaldo e outros. Instituições de Direito do Trabalho. 21ª ed. Vol. 1. São Paulo: Ltr. 2003. p. 490.

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

O sorriso de Tiana

14.08.22_Roniwalter Jatobá_SorrisoPor Roniwalter Jatobá.

Sebastiana Lira da Silva já passava da casa dos setenta quando seu filho mais velho, Teodoro, voltou de São Paulo. Vinha a passeio, em férias, depois de muito tempo de ausência. Naquela hora da tarde, ela estava solitária na cozinha preparando a janta. Do fundo inatingível do instinto materno, veio a percepção da entrada dele pela casa. Os pesados passos no assoalho de chão lembraram o caminhar do pai falecido. Como os mortos não andam, só podia ser ele. Mesmo assim, Tiana, como os conhecidos chamavam aquela prestativa parteira, só acreditou em sua presença quando ele encostou a mala num canto e pediu a benção.

Nem sabia que ele estava a caminho. As notícias eram poucas naquele fim de mundo, uma carta ou outra. O último bilhete, escrito às pressas, trazia o comunicado de que ia se casar, já era tempo. Na imaginação, Tiana acompanhou a festa e rezou para que fosse feliz com a nora desconhecida.

– Vim buscar a senhora para morar comigo – ele disse após o primeiro abraço.

Tiana riu, a boca desdentada.

– Na primeira semana chegando lá, uma dentadura vai lhe alvejar a boca – ele prometeu.

– Tiana não dormiu à noite. Com o filho no quarto ao lado, viu a madrugada chegar lenta, olhos nas frestas do telhado. A todo instante, vinha a dúvida: o que fazer, lá? Na penumbra, acariciou as próprias mãos que nunca tremeram mesmo em partos difíceis.

– Conto sem humildade – relatou certa vez. – Tinha coisa que doutora de anel no dedo, diploma estampado na parede, balançava a cabeça e se negaria a fazer. Eu não. Ia sem carecer de compensação, varava noite adentro. Agarrava a criança lambuzada de sangue e, com essas mãos calejadas de outras labutas, trazia ela para a vida.

Tudo isso passava pela sua mente, na noite mal-dormida. Mas, também, havia sonhos. Chegavam outros pensamentos e ela parecia ver uma dentadura nova em sua boca. Era uma ideia antiga, desde moça ainda com Teodoro no colo. Imaginava dentes novos espelhando em seu rosto, alvura de nuvem sem chuva, tampando a vergonha de sua pobreza. Tudo isso ia e vinha em sua cabeça. Vou, não vou, o medo de ir, o receio de ficar.  Enfim, Teodoro tinha o mesmo sangue de suas veias, ela decidiu-se de vez.

Filho e nora moravam numa casinha de fundos, na Rua 3, hoje chamada de Rua Raquela Sinopoli, em São Miguel Paulista.

– É aqui, mãe, pode entrar. Vai entrando! – avisou Teodoro na chegada.

Abriu o portão, o corredor comprido e estreito.

– Mãe, na terceira porta – ele disse, apontando.

Enfiou a chave na fechadura. Girou o trinco. Os dois entraram, a mulher de Teodoro já amparando o malote pesado. Tiana estava com frio, que castigava seu corpo desacostumado. Tiana estava cansada da longa estirada de ônibus.

Nos dias seguintes, mesmo acordando cedo, Tiana não via o casal. Os dois saiam de madrugada. À noite, lamentava-se do filho, da mulher dele, ambos longe em Pinheiros e no Brás.

– A condução, mãe, e o trabalho de cão – ele se desculpava.

Um dia, Tiana quis cantar. Cantarolar uma música que falava de saudade. A voz veio devagar, a princípio medrosa. Depois, ganhou força. Mas, de repente, batem na porta. Alguém conhecido? Abre a porta, será conhecida de Teodoro? Uma mulher olha raivosa seu rosto, agora ornado com uma dupla carreira de dentes novos e brilhantes. A vizinha nem viu:

– Dava pra senhora não cantar. Meu marido trabalha durante a noite e é só nessas horas do dia que ele pode dormir – ela disse e foi embora.

Manhãs e tardes apagadas dentro de casa: o sofá marrom tomando a metade da sala; a televisão encostada no outro lado da parede; a cortina verde separando a sala do quarto do casal; a cozinha, miúda, acanhando os passos dentro dela. Seus olhos que já presenciaram horizontes tão longes que a vista se perdia no azulado da distância, agora estavam regrados. Num ritmo lento, perambulava pela casa o dia inteiro. Arrumava a cama de casal. Na sala, abanava a poeira que juntava de manhã à tarde. Já noitinha, preparava a comida.

Muitas vezes, chegava até o portão, sempre trancado. Pelas grades, via a rua vazia, silenciosa, quando muito algumas crianças brincando no terreiro ocupado de tijolos e telhas. Agora, nesta manhã, retorna e solta um sorriso para a porta de frente da moradia de seu filho, mas ele bate nas paredes descascadas e volta cansado para o mesmo lugar, até chegar de volta em sua dona, morrendo. Ao entrar em casa, sente o peso amargo da boca, da dentadura nova, novinha, mas com pouca serventia.

– De que adianta um riso novo sem nenhuma assistência? – ela pensa.      

Sebastiana Lira da Silva não estava gostando nem um pouco da sua vida. Contava era que já fazia planos para pedir a Teodoro, seu filho, uma passagem de ida, sem volta, para bem longe de São Paulo.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Afinal, quem desistiu do Brasil?

14.08.21_Izaías Almada_Quem foi que desistiu do Brasil_2Por Izaías Almada.

Pelos eriçados, nervos à flor da pele. Aproximam-se as eleições de outubro e os brasileiros, bem ou mal, vão tomando conhecimento daquilo que pretendem os candidatos.

Alguns não pretendem nada como sempre, mas vendem seus segundos na televisão a preço de ouro. Nosso “quadro eleitoral”, como se costuma dizer, a sua composição pelo menos em vésperas de eleição se assemelha por vezes a uma mesa de cassino.

Enquanto a sonhada reforma política não vem, o festival de siglas partidárias atrai para o seu palco um fantástico balé de alianças envolvendo bailarinos dos mais variados interesses, alianças esdrúxulas, apoios imorais, onde muitos se candidatam desavergonhadamente na esperança de participar na distribuição dos butins municipais, estaduais e federais dos próximos quatro anos. É só observar atentamente na maioria dos cartazes e panfletos espalhados e distribuídos pelo Brasil.

Tudo em nome de uma democracia que antes de chegar à adolescência já é dependente química dos conchavos eleitoreiros, das barganhas entre políticos bandidos e bandidos políticos. E sob tutela de uma imprensa calhorda, partidária do atraso, irresponsável, que aposta suas fichas na construção de um país de fancaria e dependente.

Jagunços de Goiás se unem a malandros cariocas. Velhos coronéis nordestinos a mafiosos paulistas. Gaúchos machões a mineirinhos espertos, escancarando ao país mais uma vez o jogo que, sob certos aspectos, gostaríamos de ver definitivamente encerrado.

Como a ideologia da maioria dos partidos e candidatos é o que menos interessa nessa sopa de letrinhas, muitos de nós desejaríamos também que os próximos quarenta e cinco dias se passassem em 24 horas, o que nos pouparia de assistir a uma guerra que consegue ser mais chata que novelas de televisão. Mais medíocre que esses programas policiais de fim de tarde, mais idiota do que determinadas entrevistas de “celebridades”. Mais vazia que a cabeça de Bush Jr.

Portanto, ideologias e programas partidários à parte, desculpem a redundância, vamos ao que interessa:

Brasil velho ou Brasil novo?
Futuro ou passado?
Azeite de oliva extra virgem ou manteiga rançosa?
Emprestar ao FMI ou pedir emprestado ao FMI?
BRICS ou BREQUES?
Justiça com J maiúsculo ou justiceiros de aluguel?
Informação com seriedade ou manipulação criminosa?
Soberania ou dependência?
O petróleo é nosso ou é dos outros?
Vamos voltar a tirar os sapatos em determinados aeroportos do mundo?
A tolerar governos que agem “no limite da irresponsabilidade”?
Aceitaremos o neofascismo brasileiro ou o combateremos?

Estava eu nessa altura do artigo quando fui surpreendido com a trágica notícia da morte do governador Eduardo Campos, um dos candidatos à presidência.

A matilha conservadora, nem bem o país se refazia do choque com a notícia do desastre aéreo, já saia a campo até com pesquisa sobre como e por quem substituir o candidato desaparecido, numa demonstração inequívoca de sua truculência e de sua falta de ética e educação cívica, para usarmos uma linguagem minimamente civilizada. Pesquisa eleitoral genialmente definida pelo cartunista Bessinha como a primeira pesquisa de boca de túmulo.

Comentários e “análises” vieram à tona nos últimos dez dias e serviram – em inúmeros casos – para confirmar a tese desse modesto artigo: o Brasil vai com sacrifício e a duras penas saindo de seu secular subdesenvolvimento, em seus hiatos de governos desenvolvimentistas, correndo o risco de cair nas mãos de uma oposição fratricida e impatriótica. Um salto no escuro.

Aécio Neves e Marina Silva significam um salto no escuro, um desastre anunciado. Somados em ideologia, visão de país e programas partidários, se assim posso me expressar, representam a visão ultrapassada de vários conceitos e mecanismos econômicos, o fundamentalismo religioso a serviço do atraso, o ambientalismo de algibeira, o progresso visto com o binóculo ao contrário.

Nessa altura, e por conta da mórbida exposição midiática do alento conservador com a morte de Eduardo Campos, peço licença aos leitores para reproduzir carta enviada “post-mortem” por um cidadão brasileiro a Eduardo Campos. Assino embaixo:

CARTA A EDUARDO CAMPOS

Por Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)

Eduardo, você não imagina o quanto eu e todo povo pernambucano estamos lamentando a tua trágica e inesperada partida. Temos muitos motivos para isso. Primeiro, pela falta que irás fazer a tua família e aos teus amigos. Depois, pelo exemplo de homem público que representavas para o nosso Estado e para o Brasil.

No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo? Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.

Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.

Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.

Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como William Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.

A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.

Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.

Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.

Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma Copa do Mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.

E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa Mais Médicos.

Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.

Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Autonomia dos movimentos sociais ou luta por hegemonia alternativa?

14.08.19_Emir Sader_AutonomiaPor Emir Sader.

A resistência ao neoliberalismo ao longo das ultimas décadas do século passado teve nos movimentos sociais – ao lado de alguns partidos políticos – o protagonismo essencial. Era como se a política no seu conjunto – partidos de direita, nacionalistas, social democratas – se rendessem à onde neoliberal, que promoveu a ditadura do social, tendo a esfera social sua principal vítima.

O próprio Fórum Social Mundial, opondo se ao social ao Fórum Econômico de Davos, expressava essa polarização. O que levou o FSM ao absurdo de excluir a política, os partidos, os governos, como estes estivessem intrinsecamente contaminados pela logica neoliberal. Movimentos sociais e ONGs se reservavam o monopólio, no FSM, da luta contra o neoliberalismo.

Autonomia em relação a que?

Antes dessa acepção, se usava, na esquerda a luta pela autonomia como luta contra as políticas – encarnadas pelo PCB no Brasil – de aliança subordinada com a burguesia, de renuncia à luta pela hegemonia da classe trabalhadora e da esquerda. Na nova fase ela passou a ter uma acepção distinta: autonomia em relação à política, o que significa uma acepção corporativa, de renúncia à disputa de hegemonia.

Um caso emblemático foi o do movimento dos piqueteros na Argentina. Nascidos no auge da crise da implosão da política de paridade cambiaria da moeda argentina com o dólar, no momento da convocação de nova eleição presidencial – depois da sucesso de vários presidentes numa única semana –, os piqueteros se negaram a lançar ou a apoiar candidato algum, promovendo o lema: “Que se vayan todos!”. Um lema de inquestionável apelo, contra o conjunto da elite política.

Mas como eles não “se vão” enquanto não forem botados pra fora, Carlos Menem ganhou o primeiro turno e prometia dolarizar a Argentina – com o que se inviabilizaria a integração latino-americana, para citar um dos efeitos negativos da decisão. No fim das contas, Nestor Kirchner acabou triunfando e conduziu a Argentina por caminho similar ao que a Venezuela e o Brasil já haviam começado a trilhar.

Não demorou muito tempo para que os piqueteros desaparecessem, literalmente, na sua insistência da autonomia e da não participação das disputas na esfera política. Apesar de serem desempregados, desqualificavam os que participavam das políticas sociais do governo – até que deixaram de existir como movimento.

O movimento zapatista, do México, também incorporou a ideia da autonomia dos movimentos sociais. Depois de algumas manifestações nacionais, ficou recluído no sul, no estado de Chiapas, o mais pobre do país. Como se fosse possível resolver os problemas do Estado, sem alterar a situação política geral no México.

Os zapatistas não participam das campanhas eleitorais e só o fizeram, uma vez, para pregar a abstenção. Repudiam a luta político-institucional, mas não apontam para uma via alternativa. Tentam construir formas de poder local mas, 20 anos depois da irrupção do movimento na cena política, não há resultados concretos. A autonomia implica em isolamento e em incapacidade de construir força política decisiva, nem sequer em Chiapas.

Da resistência à luta por uma hegemonia alternativa

Enquanto isso, outros movimentos, na Bolívia e no Equador, depois de sucessivamente derrubarem governos neoliberais, decidiram fundar movimentos políticos próprios e disputar hegemonia a nível nacional. Como resultado, elegeram e reelegeram presidentes e transformaram o país de forma profunda, gerando uma estabilidade política como jamais havia acontecido na história desses países.

Ao mesmo tempo, o Fórum Social Mundial, mantendo a visão redutiva em relação à política, se esvaziou. Ao invés de incorporar os governos pós-neoliberais e levar as discussões entre os movimentos sociais e esses governos para o seu seio, seguiu desconhecendo as forças que começaram a construir o novo mundo possível. No FSM realizado em Belém, por exemplo, foi necessário organizar um evento paralelo – o de maior participação popular – para reunir presidentes como Lula, Hugo Chávez, Fernando Lugo, Evo Morales e Rafael Correa, como se não fizessem parte do movimento histórico de superação do neoliberalismo.

Esse aspecto da visão de ONGs e de alguns movimentos sociais coincide com posições liberais, de questionamento dos Estados, da política, dos partidos. Quando o neoliberalismo questiona centralmente o Estado, essas organizações coincidem com ele, sem se dar conta que a luta em torno das funções do Estado se torna central para superar o neoliberalismo.

Reivindicações que caracterizaram o FSM desde sua fundação – como a regulação da circulação do capital financeiro, o reconhecimento de direitos sociais expropriados pelo neoliberalismo, entre outras – dependem do Estado e de governos para sua realização. Os governos pós-neoliberais, que assumiram varias demandas do FSM, reforçaram o papel do Estado, como contraposição da centralidade do mercado, tese central do neoliberalismo.

Da capacidade de acumular forças na resistência ao neoliberalismo e se apoiar nelas para construir alternativas e lutar por uma nova hegemonia na sociedade, depende a possibilidade de superação do neoliberalismo. A manutenção da luta na esfera social, com a tese da autonomia dos movimentos sociais, tem sido, ao contrario, caminho de derrota do movimento popular.

O campo teórico do neoliberalismo

A transformação do campo teórico promovida pela reemergência do liberalismo está diretamente vinculada às transformações no campo politico internacional. A derrota do campo soviético na Guerra Fria trouxe também o triunfo das teses do campo imperialista, todas de caráter liberal, no plano econômico e político.

Com a desaparição do que aparecia como alternativa, o capitalismo ficou naturalizado como “a economia”. E os sistemas políticos liberais como “a democracia”. A crítica da visão reducionista da centralidade do trabalho, que subestimava as outras contradições – étnicas, de gênero, ecológicas, entre outras – foi substituída pela reaparição da “sociedade civil”, no lugar de qualquer tipo de análise de classe.

O conceito de sociedade civil não pode deixar de ter todas as conotações centrais que o liberalismo lhe atribui. Por mais que movimentos sociais e, principalmente, ONGs, tentem atribuir-lhe um conceito distinto, a oposição frontal ao Estado é indissociável do conceito de sociedade civil.

Sob esse manto dissolvem-se as classes, as contradições de classe e, com elas, desaparece o capitalismo. O Estado se torna inimigo, favorecendo-se assim, de forma consciente ou não, o mercado. Daí as ambiguidades das ONGs, que se opõem frontalmente ao Estado, mas não às empresas privadas e, consequentemente, ao mercado.

A visão liberal de sociedade civil é assim aparentada com a ideia da autonomia dos movimentos sociais. Ambas se opõem ao Estado. Um apoiando-se em forças sociais e em organizações não-governamentais, outro diretamente no mercado. Mas um campo comum de interesses contra o Estado os une.

O FSM nunca pôde assim compreender a natureza pós-neoliberal dos governos progressistas latino-americanos e, ao invés de aliar-se a eles na construção do outro mundo possível, se isolou e perdeu sentido. Os novos movimentos de jovens – os indignados, os “ocupas”, entre outros – sequer conhecem o FSM, que só existe nos seus eventos, sem maior representatividade. As ONGs, que o controlam e o asfixiaram, definem o espaço como um lugar de intercâmbio de experiências, sem maior significado e vínculo com as lutas concretas contra o neoliberalismo.

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Para aprofundar a reflexão, recomenda-se também o artigo “A construção da hegemonia pós-neoliberal”, escrito por Emir Sader para o volume 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma

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As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda (os clássicos: Marx, Engels, Lenin, Trotski, Rosa Luxemburgo e Gramsci), organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

A bomba de Hiroshima em Gaza

Há um tempo em que a poesia parece um luxo, uma alienação, um traste inútil, uma ocupação desonrosa, de fazer vergonha ao poeta, que se vê acovardado no meio do mundo. É um tempo em que a pornografia migrou da pedofilia, dos abusos e animalidade. Porque em Gaza hoje, na guerra e no desprezo à pessoa humana, se faz melhor, mais eloquente pornografia.

Aquela informação acadêmica que nos chegava do filósofo Adorno, de 1951, quando ele escreveu: “Escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro. E isso corrói até mesmo o conhecimento de por que se tornou impossível escrever poesia hoje”, essa frase do filósofo alemão, que expressava o desacordo de razão e sentimento diante do horror, foi nestes dias atualizada. Nesta última quarta-feira 6 de agosto, enquanto se dava um cessar-fogo precário, um intervalo dos palestinos pelo Estado de Israel, o mundo também lembrava os 69 anos da explosão da bomba atômica em Hiroshima. Mas que coincidência, poderíamos dizer, se na história houvesse coincidências.

Em 2003, escrevi “A Rosa da Palestina”, e naquela ocasião eu esperava que a poesia fosse uma defesa contra a barbárie. Aqui vai o texto, que relacionava a bomba atômica e o massacre em Gaza.

A ROSA DA PALESTINA

Um poema de Vinícius ordena, suplica que “Pensem nas crianças mudas telepáticas. Pensem nas meninas cegas inexatas. Pensem nas mulheres rotas alteradas. Pensem nas feridas como rosas cálidas…”. É esse poema, “A Rosa de Hiroxima”, é essa talha em versos que ordena, que resiste e insiste em nossa memória, quando vemos a foto de Somaeah Hassan, de 6 anos, abatida na faixa de Gaza. Essa flor fuzilada, entre gazes, olhinhos semicerrados, é a própria Rosa da Palestina. Contenhamos a velocidade da mão, refreemos a velocidade da escrita, represemos o fluxo da leitura. Pedimos uma pausa no caleidoscópio, nas luzes fugazes, frívolas, vulgares do incessante ir e vir do noticiário de todos os dias. Somaeah Hassan está morta. Calma, buldogues, fechem suas bocas, canos quentes de balas, suspendam a digitação, noticiaristas, segurem por um instante a divulgação do mais quente e recente escândalo. Porque o escândalo já está feito: Somaeah Hassan está morta. Na foto, seus olhinhos se negam a compreender o horror das balas que a levantaram do chão de refugiados de Rafah. Negaram-se é maneira de dizer. São incapazes, nos seus 6 anos. Mais tempo houvesse, mais vida, outra vida tivesse, Somaeah compreenderia e se negaria a compreender o horror maior do seu povo cercado como cães raivosos. E a raiva, em cães, se abate. Mas a raiva, em gente feita cão, não se abate – apenas cresce, quando a crianças como Hassan abatem.

Refreemos a mão. É difícil. Mas tentemos.

Era bom, assim pede a paz que nosso peito deseja, era bom um lugar-comum que nos ajudasse, que nos socorresse. Dizer, por exemplo, que assim é a guerra, cruel como todas as outras, que nela não existem santos e demônios, que a guerra nos transforma a todos em anjos das trevas. Dito isto, seria melhor dizer que o terror feito pelo Estado de Israel apenas é uma resposta ao terror sofrido antes por sua gente. Dito isto, podemos afinal dizer que o mal e o mau têm que ser destruídos, para que só então a paz volte. Mas, ao chegarmos a este passo, perguntamos: mas de que mal e maus vocês falam, caras-pálidas? Pois será que ninguém ainda notou que a nossa cara tem a cara e o sangue da gente palestina? Que eles, os palestinos, são a nossa própria cara? Será que ninguém ainda percebeu que o desespero dos povos palestinos é o nosso próprio desespero em outras terras e em outras circunstâncias? Aquele mesmo desespero que acomete a gente em situações-limite? Ainda que os Estados Unidos exibam ao mundo um negro para consumo externo, ele apenas nos aparece como um novo Al Jolson, com a cara pintada. Os interesses de que ela fala não são os nossos. Servem à mesma rosa atômica que se fez cair em Hiroshima e Nagasaki.

Então voltemos, mais serenos. Mas, desgraça, descobrimos: serenos, não temos mais mãos. Temos somente uma grande letargia. Então quebremos o torpor, voltemos ao princípio.

“A rosa hereditária, a rosa radioativa, estúpida e inválida. A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica” sofreu uma tradução no campo de refugiados da faixa de Gaza. Ela se fez uma rosa fuzilada, a Rosa da Palestina, no corpinho frágil de Somaeah Hassan. Essa menina nos fere como uma filhinha morta. Ela, em árabe, em dialeto, em outra língua, nos fala e a compreendemos como compreendemos e amamos uma própria filha que o nosso sêmen esculpiu. Mais: como um serzinho esculpido por nós por um nosso irmão. Mais: irmão com um sentido de irmão mais fundo que o genético. Mais: com um sentido de irmão mais fundo que o racial. Mais: com um sentido de irmão mais fundo que o nacional. Mais, finalmente: com um sentido de irmão que é o próprio sentido de humanidade. Hassan é a nossa própria humanidade abatida. Ela se abre em outras rosas que se despedaçam em Jerusalém. Rosas que em vez de pétalas jogam carnes, fígado, coração e intestinos.

Já secamos as lágrimas. Não nos perguntem portanto por que vomitamos. Nós não queríamos ter essas Rosas da Palestina.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Lutar não é jogar

14.08.18_Ruy Braga_Esporte de combate[Pierre Bourdieu em fotograma do documentário La sociologie est un sport de combat (2002)]

Por Ruy Braga.

De 1998 a 2001, o cineasta Pierre Charles acompanhou o sociólogo Pierre Bourdieu em suas intervenções públicas contra a globalização neoliberal. O resultado é o documentário La sociologie est un sport de combat. Dizem que Bourdieu não gostou do filme. De fato, trata-se de um documentário sem muito brilho, conduzido burocraticamente. No entanto, ao palestrar sobre desigualdades educacionais para moradores de Val Fourré, um grande conjunto habitacional localizado na periferia de Paris, a cadência narrativa muda e, nos trinta minutos finais, assistimos Bourdieu ser desafiado pela plebe que faz questão de mundanizá-lo.

“Ele é apenas Bourdieu. Não ‘Dieu’ [Deus]”, diz Saïd, assistente social do bairro. Mounir, um ativo líder do conjunto habitacional, chama-o jocosamente de “José Bourdieu”. E o que deveria ser apenas mais uma palestra transforma-se em um vívido debate entre os próprios moradores a respeito do desaparecimento das ocupações qualificadas, do desinteresse dos professores em permanecer no bairro, do assédio sistemático da polícia, da insegurança em relação ao futuro ocupacional, da segregação espacial, etc.

Lá pelas tantas, os moradores de Val Fourré assumem o ofício do sociólogo, isto é, desvelar os mecanismos responsáveis pela reprodução da dominação simbólica. Bourdieu reage afirmando que se sua presença serviu para estimular aquelas opiniões, a viagem valeu a pena. Logo depois, ele invoca o trabalho de seu antigo assistente argelino, Abdelmalek Sayad, para dizer que aquele público formado por filhos e netos de imigrantes teria muito a aprender com a leitura de La double absence.1

E o sociólogo encerra a noitada com uma última lição: “Precisamos de um movimento social que queime carros. Mas com um propósito”.2 Como o documentário deixa claro, para Bourdieu o conhecimento científico deveria iluminar este propósito ao prover o “ferramental teórico capaz de auxiliar os movimentos sociais na transformação da dominação”. Como um “esporte de combate” a sociologia deveria se limitar à autodefesa do social contra os ataques do neoliberalismo.

Entretanto, cabe a pergunta, existe algum esporte de combate que se limite à autodefesa? Aliás, a metáfora esportiva é adequada? Ela não nos remete a um campo regulado por regras impessoais que valem para todos de maneira indistinta? Mas aquilo que os moradores da banlieue (grandes conjuntos habitacionais localizados nas periferias das grandes cidades francesas) estão dizendo não é justamente o contrário, ou seja, que a universalidade do Estado os oprime?

Ao admitir que o movimento social queime carros com um propósito, Bourdieu resvalou na tensão entre a miséria do mundo dos subalternos e o papel que, em sua opinião, o conhecimento científico deveria cumprir nas lutas sociais.3 Este papel supõe a skholè como condição necessária para a produção da verdade. Sumariamente, o sociólogo francês entendia que a busca desinteressada pelo conhecimento seria atributo exclusivo de um campo autônomo e protegido que, modernamente, encontramos apenas no ambiente universitário.4 Assim, a classe trabalhadora jamais alcançaria a intuição científica, pois seu senso comum, isto é, seu “senso prático”, seria inescapavelmente conservador.

Mas, se a sociologia vai se engajar com as classes oprimidas e combatentes, seria a autodefesa do que ele, no final dos anos 1980, chamou de “corporativismo do universal” a melhor maneira?5 Afinal, construir alternativas sociais enraizadas nas experiências dos subalternos supõe reconhecer que lutar não é jogar. Por isso, a grande novidade trazida pelo desenlace do documentário foi assistir Bourdieu reconhecendo a “verdade” contida nas opiniões daqueles plebeus. Ademais, ele sugeriu que sua experiência de classe fosse elaborada pela leitura de Abdelmalek Sayad…6

Lembrei-me do documentário sobre Bourdieu ao saber da libertação de Fábio Hideki Harano. O chocante relato de seu périplo pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), pelo Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros e, finalmente, pelo presídio de Tremembé, evidencia uma inversão embaraçosa, porém, reveladora. A polícia age como o bandido e a bandidagem inspira solidariedade.7

Esta prisão não apenas relembra os desavisados que vivemos sob um autêntico Estado de exceção, como demonstra uma vez mais ao lado de quem o judiciário está. Ao invés do corporativismo do universal, temos um lamento universal unindo filhos de imigrantes magrebinos morando em uma banlieue parisiense e jovens brasileiros protestando legitimamente contra os gastos públicos com a Copa. Não há regras impessoais, apenas a lei do mais forte.

Além de ser ex-estudante de sociologia, Fábio é membro do comando de greve da USP. Um movimento que ultrapassou os 80 dias devido o reitor Marco Antonio Zago agir como um acólito do governador do Estado de São Paulo contra a universidade pública. Apenas isso pode explicar a intransigência da atual gestão totalmente rendida a uma agenda neoliberal que, entre outras medidas deletérias, defende o arrocho salarial, a flexibilização da dedicação exclusiva docente como regime preferencial da USP, a implementação de um programa de demissão voluntária para os funcionários e a transferência do Hospital Universitário para o governo estadual.

O detalhe é que nenhuma destas medidas foi sequer mencionada pelo atual reitor durante a campanha eleitoral do ano passado. Se a estrutura de poder que atormenta a universidade fosse minimamente democrática, este fato seria suficiente para inaugurar o processo de impedimento de Zago. Todavia, como a USP vive à margem da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, apenas uma ampla mobilização de forças democráticas será capaz de revidar o ataque privatista. Neste contexto, falar em skholè parece pouco realista.

Lendo pelo avesso aquela conhecida elaboração a respeito das “vantagens do atraso” segundo a qual países periféricos podem se apropriar de forma mais radical dos avanços tecnológicos dos países centrais8, diríamos que, em termos reflexivos, a localização semiperiférica do Brasil permite à sociologia reconhecer e interpelar as contradições capitalistas de uma forma mais radical que na França. Fábio Hideki entendeu perfeitamente a última lição de Bourdieu. Quando o neoliberalismo ataca, não há espaço para fair play. Apenas para o combate.

NOTAS

1 Abdelmalek Sayad. La double absence: des illusions de l’émigré aux souffrances de l’immigré. Paris: Seuil, 1999.

2 Não nos esqueçamos que o grande levante das banlieues francesas que eclodiu em 2005 já se insinuava no final dos 1990. Para mais detalhes, ver Clémentine Autain, Stéphane Beaud et alli. Banlieue, lendemanis de révolte. Paris: La Dispute, 2006.

3 Em outra ocasião, tentei explorar esta contradição por meio da análise da relação de Bourdieu com o marxismo. Ver Ruy Braga. “O pêndulo de Marx: sociologias públicas e engajamento social”. Utopía y Praxis Latinoamericana, v. 16, Maracaibo, 2011. Ver, também, Michael Burawoy. O marxismo encontra Bourdieu. Campinas: Ed. da Unicamp, 2010.

4 Ver Pierre Bourdieu. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

5 Ver Pierre Bourdieu. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1992; especialmente, o “Post-scriptum”.

6 Não deixa de ser curioso que alguém tão crítico ao intelectual orgânico tenha se rendido àquilo que Gramsci dizia ser sua principal tarefa, ou seja, elaborar e tornar coerente os problemas colocados pelas massas. No fim do filme, Bourdieu quase passou da sociologia como esporte de combate para a sociologia como combate…

7 Ver Mônica Bergamo. “‘Eu tava marcado’, diz estudante Fábio Hideki ao relatar prisão após protesto”. Folha de S. Paulo, 13 de agosto de 2014.

8 Ver Leon Trotsky. História da Revolução Russa. São Paulo: Sundermann, 2007.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

David Harvey: Os limites do capital

14.08.14_Ricardo Musse_Os limites do capitalPor Ricardo Musse.

O objetivo inicial de David Harvey, preservado e expandido ao longo de sua trajetória e de sua vasta obra, consistia basicamente em tentar entender a urbanização no capitalismo. Nessa direção, dedicou-se, nos anos 1960 e nos primórdios dos anos 1970, a estudar os desenvolvimentos históricos das principais cidades da Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos, percurso sintetizado parcialmente no livro A justiça social e a cidade (1973).

Harvey atribuiu as carências dessa primeira versão a uma compreensão insuficiente da teoria marxiana. Para sanar esse déficit procurou se posicionar no debate, então aceso por conta de argumentações marcadamente contraditórias sobre o sentido da interpretação e a necessária atualização da obra de Marx. Concentrou seus esforços – numa época em que ainda ressoavam as polêmicas em torno do significado dos textos de juventude de Marx – nos livros e manuscritos posteriores a 1850, um conjunto que Roman Rosdolsky denominou de “crítica da economia política”.

Em Os limites do capital, publicado em 1982, Harvey buscou não se afastar muito de seu interesse original. Avaliava que esse aparente desvio consistia apenas numa propedêutica indispensável à abordagem marxista do processo urbano. Tanto assim que, na Introdução descreve o livro como “um tratado sobre a teoria marxiana em geral, prestando atenção na circulação do capital nas áreas construídas e na produção das configurações espaciais” (p.36).

De modo geral, o livro procura integrar os aspectos financeiro (temporal) e geográfico (global e espacial) sob uma teoria do sentido do movimento de acumulação do capital. Não prescinde, no entanto, de um exame acurado do papel ali desempenhado pela intervenção do Estado, concebendo esta, de certo modo, como um “momento vital na dialética e na dinâmica contraditória da acumulação do capital” (p.21).

As questões suscitadas em suas pesquisas acerca da dinâmica urbana, desdobradas na investigação dos procedimentos do mercado imobiliário e dos desenvolvimentos geográficos desiguais demandaram o esclarecimento do papel desempenhado, no interior da teoria marxiana, por fatores como capital fixo, finanças, crédito, gastos públicos etc. Desse modo, a motivação prévia de buscar fundamentos para uma explicação mais adequada da circulação do capital no mundo urbano, do modo como a renda se relaciona com os processos básicos de produção e distribuição, em suma, dos mecanismos que determinam a configuração espacial característica do capitalismo, desembocou numa reconstituição da “crítica da economia política”.

Nesse afã, Os limites do capital se constituiu como uma exposição eminentemente teórica. Harvey não deixa de ressaltar, no entanto, que o livro prescinde das dimensões históricas, geográficas e políticas da obra de Marx tão somente por conta do recorte do objeto.

No decorrer do tempo, aquilo que a princípio parecia menos, revelou-se mais. O demorado mergulho nos “deserto de gelo da abstração”* estabeleceu um reservatório que possibilitou a Harvey, desde então, intervir com pertinácia em diversos debates políticos e teóricos. Municiado como poucos, propôs reflexões instigantes nas sucessivas pautas desencadeadas pelas profundas modificações históricas do capitalismo nos últimos quarenta anos. Emergiram assim uma série de indagações que ele procurou, na sequência, resolver, moldando inflexões inesperadas por meio das quais, sem abandonar o solo original, sua obra ultrapassou a condição de mera geografia do capital.

Os passos de Harvey reiteram um procedimento recorrente na linhagem do marxismo. Os autores dessa vertente, desde Friedrich Engels, conduziram a tarefa de atualização do materialismo histórico, exigência inerente a um movimento que se concebe como eminentemente histórico, combinando o diagnóstico do presente histórico com uma revisitação da obra de Marx – revisão que resultou, nos casos bem-sucedidos, tanto numa interpretação original da teoria marxiana como na ampliação do escopo da doutrina.**

A ordem dos fatores é indiferente. Embora Harvey tenha começado com uma apresentação da teoria marxiana, ele próprio reconhece que sua preocupação primordial consistia em buscar respostas para os desafios impostos ao marxismo pela crise econômica que eclodiu, com uma intensidade inaudita desde 1929, nos primeiros anos da década de 1970.

Em seu esforço para compreender a crise da década de 1970, ele testou as principais explicações prevalecentes no interior da linhagem marxista, identificando problemas em cada uma delas.

Harvey considera que a tese do “esmagamento do lucro” – aquela que “encara que a organização da força de trabalho e a escassez de mão de obra reduzem a taxa de acumulação até o ponto de crise da classe capitalista e, por extensão do sistema capitalista como um todo” (p.28) – explica parcialmente a situação, mas não consegue fornecer respostas convincentes para alguns dos pontos decisivos da crise.

Ele rejeita também a tese de que a crise seria provocada por “subconsumo” ou, numa terminologia não-marxista, por deficiências na demanda efetiva. Essa teoria, apresentada inicialmente por Rosa Luxemburgo, defendida e desenvolvida por adeptos do marxismo keynesiano, também lhe pareceu incapaz de explicar os fenômenos específicos da crise dos anos 1970.

Por fim, Harvey discorda da teoria da “queda tendencial da taxa de lucro”, que consistiria num resultado não previsto pelos capitalistas em seu denodo para introduzir na indústria inovações tecnológicas e reduzir a força de trabalho. Afirma que, “o próprio Marx anexou tantas advertências, condicionalidades e circunstâncias mitigadoras a essa teoria que é difícil sustentá-la como uma teoria geral da crise” (p.28).

A teoria delineada por Harvey procura, no entanto, incorporar dimensões dessas três correntes. Em sua busca de uma explicação mais abrangente considera que as crises econômicas do capitalismo derivam, em última instância, de sua tendência congênita à superacumulação de capitais. Nas palavras de Harvey: “as crises surgem quando as quantidades sempre crescentes de mais-valia que os capitalistas produzem não podem ser absorvidas lucrativamente” (p.28).

Para explicar o pós-modernismo, Harvey recorre ainda ao arsenal teórico da “escola da regulação”, em particular, à sua famosa distinção entre “regime de acumulação” e o “modo de regulação” social e política que lhe é associado.  Nesse diapasão, Harvey identifica no pós-modernismo uma ruptura com o modelo de desenvolvimento capitalista prevalecente desde 1945. A partir da recessão de 1973, a forma de acumulação predominante, o fordismo, foi minada pela crescente competição internacional e pela combinação de baixas taxas de lucros corporativos e de um processo inflacionário em aceleração. A soma desses fatores desencadeou uma crise de superacumulação.

A resposta da classe capitalista e dos governos dos países centrais a essa situação desdobrou um novo regime de acumulação. Nesse regime, denominado “flexível” por Harvey, o capital retomou sua margem de manobra e seu controle sobre o mercado de trabalho. Sua principal estratégia foi a “precarização” das relações trabalhistas, com o estabelecimento de contratos temporários e a incorporação de força de trabalho imigrante.

Contribuíram para tanto outros fatores como a transposição – em busca de custos reduzidos – de unidades fabris para outros países ou regiões. A produção de mercadorias também foi revolucionada por processos just in time, pela prioridade dada aos lotes de encomendas etc. A principal transformação, no entanto, ocorreu nos mercados financeiros com a desregulamentação das transações em moedas (câmbio), crédito e investimentos. Esse novo regime de acumulação forneceu o solo para a cultura pós-moderna, para uma nova sensibilidade moldada pela desmaterialização do dinheiro, pelo teor efêmero da referência monetária, pela instabilidade econômica.

Leia também “David Harvey“, de Ricardo Musse, no Blog da Boitempo.

NOTAS

* A expressão “deserto de gelo da abstração” é de Walter Benjamin, como lembra Adorno no Prefácio da Dialética negativa (Rio de Janeiro: Zahar, 2009).

** Sobre o papel de Engels na determinação dos procedimentos típicos da tradição marxista, ver  “O primeiro marxista”. Em: Boito, Armando & Toledo, Caio Navarro et al. (orgs.). A obra teórica de Marx. São Paulo: Xamã/Editora da Unicamp, 2000 p.81-89.

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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.