Terrorismo midiático ou o Conti do Vigário

14.07.10_Izaías Almada_O Conti do Vigário[Wladimir Palomo, sósia de Luiz Felipe Scolari, em entrevista no canal SporTV]

Por Izaías Almada.

Já não é segredo para ninguém que o atual estágio do jornalismo brasileiro é sórdido, para dizer o mínimo, com objetivos políticos e interesses econômicos na maioria das vezes em causa própria e antinacionais. Sem falar no viés ideológico que flerta com o passado e não com o futuro do país. Editoriais e colunistas se juntam numa lenga lenga que já começa a dar sono em anfetamina, mas nem por isso menos criminosa.

O ridículo e vergonhoso caso da falsa entrevista feita pelo jornalista Mário Sérgio Conti há duas semanas com um sósia do técnico Felipão é paradigmático. Teve o mérito, entre outros, de escancarar para a sociedade brasileira o nível de irresponsabilidade que os nossos principais meios de comunicação vêm há algum tempo empregando no torpe exercício de manipulação da opinião pública.

Manipulação essa que criou um surto de pessimismo no país não só em relação à Copa do Mundo de futebol, evento passageiro, mas – sobretudo – com a tentativa de se forjar a qualquer custo um clima de insatisfação, de revolta contra o exercício da atividade política, em tudo e por tudo identificada com a corrupção, como a “possibilidade” de existirem sérios problemas com a Petrobrás, por exemplo, maior empresa do país, e outras obras infra-estruturais do governo.

Ou a ardilosa e impatriótica estratégia de esconder e desprestigiar alguns fatos relevantes como a queda da mortalidade infantil no Brasil, o invento do cientista Nicolelis, construção de usinas, pontes e rodovias por todo o país, a baixa taxa de desemprego, a vinda de médicos estrangeiros excepcionalmente bem recebidos pela população mais carente das regiões mais pobres e longínquas, a defesa da nossa soberania.

Sem falar do clima de ódio construído, na montagem de uma farsa jurídica já comprovada, contra os principais réus da AP 470, José Dirceu de Oliveira e José Genoíno Neto. Ódio que se estende ao partido a que pertencem e ódio ao governo de quase 12 anos liderado por dois dos expoentes desse mesmo partido.

A lista da irresponsabilidade criminosa de nossos jornalões, revistões e telejornais nos últimos quatro anos, correspondentes ao primeiro mandato da presidente Dilma Roussef, e nos oito anos anteriores do presidente Lula da Silva é tal que chega a ser cansativo enumerá-la ou mesmo lembrá-la.

Jornalistas e colunistas que babam na gravata e apequenam a profissão, cujo estoque de boçalidades é inesgotável, ombreiam-se com o Sr. Conti, a tal ponto que já se pode dizer que em relação a esse tipo de imprensa o país caiu e cai quase que diariamente no verdadeiro Conti do Vigário.

Para essa súcia de irresponsáveis, o Brasil não tem passado, ou melhor, os governos que atuaram até o ano de 2002 supostamente teriam deixado um legado de grandes feitos e realizações, em particular no campo social, e a corrupção passou a ser um apanágio do atual governo, sendo o “mensalão” o maior espetáculo de corrupção do país, segundo a avaliação do nobre juiz Joaquim Barbosa, homem equilibrado em suas ações e correto em sua relatoria da AP 470. Um homem honrado, como diria Shakespeare na sua tragédia “Julio Cesar”.

Depreciar o Brasil sempre que possível: essa é a estratégia perversa e impatriótica dos conservadores e reacionários. Minimizar as conquistas sociais dos governos Lula e Dilma, na ilusão de que esconder ou depreciar tais conquistas irá enganar os principais beneficiários delas. Isso sem falar nos novos revolucionários de esquerda sem ideologia que andam aí pelas ruas e alguns laboratórios acadêmicos na missão de enumerar as mazelas ainda existentes, mas sempre faltos de idéias que possam minimamente ser aproveitadas pelo governo ou quem de direito.

O hiato provocado pelo futebol nas primeiras manifestações de uma campanha eleitoral que se prevê bastante acirrada e selvagem por parte da chamada (com o perdão da palavra) elite é provável que vá contribuir, ao contrário do que se poderia esperar, para uma animosidade ainda maior nos próximos meses. Quem viver verá…

A matilha protofascista já afia os dentes e mira a jugular do país na expectativa de impedir a reeleição da presidente Dilma Roussef, o que seria o mal menor de tal empreitada, tendo a imprensa como porta voz fiel de um pensamento ultrapassado, conservador, antitrabalhista e antiprogressista. Verdadeiro terrorismo midiático que, como todo terrorismo é preciso ser combatido no nascedouro, antes que seja tarde.

Ao contrário de outros atos terroristas, o midiático não causa danos físicos ou materiais. É mais perverso que isso: é produzido para obter algum efeito psicológico, seja de pânico, pavor, abulia, revolta, desinteresse, mal estar entre as pessoas, com uma intervenção que se dá de semana em semana, de um dia para o outro, de hora em hora, minuto a minuto nas cidades e países onde vivemos.

É o terrorismo praticado pelos meios de comunicação e que, normalmente, é utilizado para objetivos políticos como a desestabilização de um governo legitimamente eleito pelo voto popular, pois confunde e bloqueia o discernimento dos cidadãos. Quando não os induz à violência e ao desespero.

Na sopa de letrinhas putrefatas que nos oferece a mídia nacional vamos nos envenenando e, sem perceber, vamos nos acostumando ao ódio e ao irracionalismo cada vez menos sutil de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Vamos aos poucos nos tornando intolerantes e já não distinguimos com a clareza necessária o caminho a seguir. É neste cenário que caminhamos para as eleições de outubro.

Eleições que, no meu modesto entender, poderão alicerçar de vez o crescimento econômico, político e social do país em direção a um futuro promissor para suas novas gerações, mais democrático ou virar as costas a tudo isso e então mostrar covardemente para o mundo a sua incompetência, aquela acachapante e rancorosa incompetência que o jornalista Arnaldo Jabor encara toda manhã ao se olhar no espelho.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O professor ladrão e a Revolução Francesa

O “professor ladrão” do título é uma referência ao pesadelo de um mestre. Esclareço logo. Bem sei que a Copa do Mundo é o assunto fundamental deste mês. Mas a vida continua, dentro e fora dos estádios de futebol. Daí que é necessário falar do que não gostaríamos. Parece mesmo que não temos um minuto só de trégua, de paz, ainda que falsa. É o caso desta notícia, que copio e passo a comentar agora.

“Acusado de assalto, professor de História é obrigado a dar aula para provar inocência. Espancado por moradores, André Luiz Ribeiro precisou dar aula sobre Revolução Francesa e ainda foi preso por dois dias. Confundido com um ladrão…”

Primeira pausa. Se fosse um ladrão estaria certo sofrer o que o professor sofreu? Mas continuando:

“…um professor de História foi espancado por moradores da periferia de São Paulo e só conseguiu se livrar do linchamento quando, segundo ele, foi obrigado a dar uma aula sobre Revolução Francesa. Mesmo assim, André Luiz Ribeiro, 27 anos, foi levado para a delegacia, onde ficou por dois dias, já que o dono do bar assaltado confirmou em depoimento que ele seria o ladrão.

O professor contou que quando foi socorrido por Corpo de Bombeiros, teve de ‘dar uma aula’ sobre a Revolução Francesa para provar sua inocência. Os bombeiros declararam que ‘informações são improcedentes’ e que não houve ‘desrespeito ou deboche’. André conta que estava correndo na última quarta-feira, no bairro Balneário São José, em São Paulo, quando um bar foi assaltado.

— Eu corro dez quilômetros todos os dias, estava de fone de ouvido, sem identificação porque moro por perto, e fui confundido com um dos três assaltantes. O dono do bar e o filho dele me acorrentaram. Umas 20 pessoas me cercaram e começaram a me bater. Acorrentaram meus braços e pernas e me colocaram de barriga para baixo na rua — conta o professor.

Segundo ele, um dos bombeiros que o socorreu teria dito: ‘Se você é professor de História, então dá uma aula sobre Revolução Francesa’”

Outra pausa: notem que já houve, seguramente, deboche e abuso. O bombeiro pensou em pedir o impossível, pensou em se divertir com o homem espancado, ou seja, em livre leitura do seu ato: “se você é professor, ô ladrão, dê uma aula de história, e sobre a Revolução Francesa. Quero ver. Vamos”.

Mas para desgraça da piada, o homem ferido era mesmo professor.

Continuando:

“— Falei que a França era o local onde o antigo regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução”

Mas que poder de síntese, meus amigos. Que lucidez impressionante no fundo da dor. Quantos de nós conseguiríamos ter esta luz no meio da mais funda selva, quando tudo parecia perdido?

Continuemos com o mestre humilhado:

“Falei por uns três minutos e perguntei se já estava bom.

O professor de história também diz que foram os bombeiros que salvaram sua vida, pois enquanto ele dava a aula para provar que era professor, ouviu o proprietário do bar dizer que ia buscar um facão. Em seguida, a Polícia Militar chegou no local, o levou para o pronto-socorro da região. Depois, foi encaminhado à delegacia, onde ficou preso até sexta-feira.

— O proprietário do bar assaltado, Djalma dos Santos, 70 anos, negou que tenha espancado o professor. Questionado se tinha certeza de que Ribeiro era um dos assaltantes, ele não confirmou.

— A população que acorrentou, que bateu, eu não fiz nada. O que eu tinha que falar já falei na delegacia. Não adianta nada ficar perguntando, não vou retirar o que disse. Eu gritei que era ladrão e a população da rua foi atrás dele. Se ele não devia nada, vai dar uma mancada dessas de estar correndo no meio dos bandidos na hora do assalto? — afirmou o proprietário do bar”.

Quanto cinismo do dono do bar. Ele não bateu, apenas atirou um homem às feras. “Podem matar”, foi a sua atitude.

Continuando a notícia do crime:

“A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, “se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação”, já que os criminosos que participaram do crime ainda não foram presos.

— O professor foi preso em flagrante em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vitima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades. A Justiça concedeu liberdade provisória ao acusado — diz nota da SSP”.

Para mim, o gênio de Kafka não escreveria melhor que essa resposta burocrática do delegado de polícia. Um inocente foi enquadrado no artigo 302 do código penal, e a justiça concedeu liberdade provisória ao inocente criminoso enquadrado. Para a polícia, o problema legal foi resolvido, pelo visto. Mas a justiça humana é outra história, não entra no boletim de ocorrência. Voltemos ao mestre de escola pública:

“Só depois de explicar sobre a ascensão da burguesia é que o levaram ao hospital, diz.

‘Foi algo surreal. Só acreditamos quando chega próximo de nós. Aí você vê que é muito real mesmo, esse ódio das pessoas. Essa brutalidade do ser humano.’

Eu estou bem melhor, mas a ferida na alma, a inocência, está perdida.”

E agora, merece destaque o depoimento corrido do mestre de história quase morto:

“Quando vi, as pessoas olhavam na minha direção, provavelmente porque foi a direção que os ladrões tomaram. Eu estava indo no sentido contrário. Com fone de ouvido. Nem achei que tinha acontecido um roubo. Nem sabia que era comigo.

Até onde eu lembro, eu ouvia ‘Lion Man’, do Criolo. Sou fã, gosto para caramba. O show dele já fui, é louco. Pelo fato de ele retratar as favelas, a realidade aqui. Também eu ouvi Facção Central, de rap, que tem uma causa social muito forte em pauta.

Aí eu vi as pessoas se afastando bruscamente. Foi quando eu vi um fusca vermelho para me atropelar, vindo com muita velocidade. Pararam quase em cima de mim. Aí desceram do carro o dono do bar e o filho. E começaram a me bater.

Eu falava em todo momento que eu era inocente, que era professor. Eu não tinha documento nenhum porque estava correndo, todo mundo me conhece ali perto. Mas já me bateram, me jogaram no chão.

Os dois começaram. Só que veio a multidão. Foi de 15 a 30 pessoas que me bateram. Nem me perguntaram, nem olharam para os meus bolsos para ver se eu tinha alguma coisa. Eu não ia fugir, já pus as mãos para cima quando se aproximaram, mas tomei um soco na cara.

Ainda estava no chão, mas eles não acreditavam em mim. Eu disse que era professor, que estava ali por acaso. Aí um dos bombeiros falou para dar uma aula sobre Revolução Francesa. Foi o que me salvou.

Eu estava arregaçado, mas consciente. O raciocínio fica difícil, porque você fica em choque. Eu falei da ascensão burguesa ao primeiro escalão, que tinha poder econômico, mas não poder político, e de como a revolução mudou a forma como vivemos hoje.

Achei mesmo muito irônico esse ter sido o tema que ele perguntou, ali, naquele momento. Liberdade, igualdade, fraternidade. Falei sobre a queda da Bastilha. É um assunto que eu dou para 7ª série. Estava fresco na minha cabeça. Mas, mesmo assim, eu leio muito. Eu tenho conhecimento mínimo acerca da História.

Foi algo surreal. Só acreditamos quando chega próximo de nós. Aí você vê que é muito real mesmo, esse ódio das pessoas. Essa brutalidade do ser humano.

Nunca imaginei que eu ia ser preso um dia. Mas hoje eu tenho ferramenta para falar para os meus alunos”.

É uma notícia, ao mesmo tempo, triste, que comove, e revoltante. Dependendo do ângulo sob o qual a gente olha, pode dizer que é uma vitória do conhecimento sobre a barbárie (o professor, acorrentado, quase morto, deu uma aula que o salvou), ou pode ser dito também que é uma vitória parcial da barbárie sobre o conhecimento, porque espancou e quis matar um homem por aparências frágeis, sem consistência, em franca e bárbara injustiça.

Lembro do programa do rádio Violência Zero, na Tamandaré do Recife, onde eu, Marco Albertim e Rui Sarinho, trabalhamos, da reportagem à apresentação.

O Violência Zero era um programa de direitos humanos. Nele, travamos com travo esse conhecimento dos bárbaros que clamam vingança matando. No estúdio da Rádio Tamandaré, no fim dos anos 80, sentíamos a disputa de ideias na sociedade do Recife entre punir sem medida e o direito à justiça. Mas não com essa força de agora, dos últimos meses. Na época, ainda que sem método científico, pelos telefonemas dos ouvintes, notávamos que a divisão entre os mais bárbaros e civilizados era quase meio a meio. O que houve agora para esse assalto de vingança?

Vocês perdoem eu não ter feito um comentário à altura desse crime. Eu ainda estou ruminando. Mas bem mereciam processos penais os comunicadores da televisão como a fascista Sheherazade do SBT, Para lembrar o que está na Wikipédia sobre ela:

“Em 4 de fevereiro de 2014, Rachel comentou a ação de um grupo de pessoas que espancou um assaltante adolescente e o prendeu pelo pescoço a um poste com uma tranca de bicicleta, dizendo que aconteceu foi uma ‘legítima defesa coletiva’ contra a violência urbana. No comentário, a jornalista classificou o caso como resultado da ‘desmoralização da polícia’ e da ‘omissão do Estado’, além de dizer era ‘compreensível’ que o ‘cidadão de bem’ reagisse dessa maneira. Ela chamou o adolescente agredido de ‘marginal’ e pediu, em tom irônico, aos grupos em defesa de direitos humanos que estavam com ‘pena’ do jovem que ‘adotassem o bandido’”.

Essa comunicadora e seus semelhantes deveriam estar presos numa rigorosa solitária, onde se ouvisse a voz do professor André Luiz Ribeiro falando sobre a Revolução Francesa. Pelas paredes ouviriam da cabeça torturada do mestre uma aula de civilização contra As mil e uma barbáries.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Fábio Hideki x Raymond Whelan: o verdadeiro jogo da Copa

14.07.08_Jorge Luiz Souto Maior_BoitempoPor Jorge Luiz Souto Maior.

No dia 23 de junho, Fábio Hideki Harano, um cidadão brasileiro que tem emprego fixo – ele é empregado público na Universidade de São Paulo, onde também segue o curso de ciências sociais – foi preso sob a acusação de porte de explosivos e “associação criminosa”, tendo sido acusado, também, de ser um “black bloc”.

Apesar de todas as evidências negarem as acusações (estava sozinho em escadaria de estação do metrô quando foi preso; no ato da prisão não foi apresentado qualquer artefato explosivo que estivesse em sua mochila), Fábio foi preso “em flagrante delito” e depois, mediante decisão judicial que autorizou a prisão preventiva até o julgamento, que não tem data para ocorrer, foi transferido para o presídio de Tremembé, onde se encontram criminosos considerados de grande periculosidade.

A prisão de Fábio se deu no contexto da repressão às manifestações que propunham aproveitar a visibilidade da Copa para questionar os problemas ligados à preparação para o evento, tendo sido utilizada como forma de impedir que tais manifestações ocorressem, valendo lembrar que a atuação da Polícia em São Paulo, no dia 12 de junho, dia da abertura do mundial, se deu de forma violenta, chegando mesmo a proibir que uma manifestação fosse iniciada.

O fato concreto é que Fábio ainda está preso por uma opção política de sufocar o direito de manifestação, tendo como pretexto a viabilização da realização sem transtornos da Copa do Mundo da Fifa 2014.

A grande mídia não dá destaque ao fato. A sociedade em geral dele não tem conhecimento e se tem é levada a considerar que os manifestantes são inimigos a serem derrotados e que, portanto, a prisão se justifica. Aliás, muito já se tem dito sobre as vitórias sobre os pessimistas e que o Brasil já pode se considerar campeão, pois deu conta de organizar a “Copa das Copas”.

Mas, a que preço? Fábio está arbitrariamente preso. O Estado Democrático de Direito está suspenso em diversos aspectos, tendo se chegado ao cúmulo de que no dia 1º. de julho de 2014, na Praça Roosevelt, em São Paulo, um debate sobre a situação vivenciada por Fábio foi sufocado pela ação da tropa de choque da Polícia Militar, a qual, com contingente que chegava a três vezes o número de manifestantes, literalmente sitiou a praça e manteve ouvintes e debatedores sob a condição de criminosos

As vitórias da seleção brasileira em campo, as belezas das partidas, a boa organização nos estádios, nada disso pode nos impedir de ver a completude dos fatos e de nos posicionarmos contra os absurdos cometidos para realizar e manter sob controle o evento, pois como muito bem pontuado por Pedro Abramovay, “Uma prisão como a de Fábio nos diminui enquanto democracia. O silêncio perante esta prisão nos diminui enquanto sociedade.”

Deixando qualquer perspectiva eleitoral de lado, é de suma importância perceber o preço que a sociedade brasileira está pagando para realizar a Copa. Como venho advertindo há algum tempo, o que está em jogo é a vigência das instituições do Estado Democrático de Direito, sendo que a porta aberta ao Estado de Exceção não encontra limites e tende a possibilitar a utilização seletiva das estruturas de poder para a satisfação de interesses determinados, nem sempre revelados.

Vale reparar que o mesmo rigor jurídico não foi adotado com relação a Raymond Whelan, cidadão britânico, diretor da empresa Match, empresa associada à Fifa, que, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, seria o chefe de uma quadrilha orquestrada para a venda ilegal de ingressos.

Whelan foi preso na segunda-feira em um quarto de hotel, tendo sido apreendidos consigo 82 ingressos dos jogos semifinais e final da Copa, além de outros aparelhos que seriam utilizados para a comercialização dos ingressos.

Num suspiro de euforia, como se o Estado de Exceção estivesse sido posto em questão, o jornalista Juca Kfouri, sempre atento às questões sociais ligadas ao esporte, chegou mesmo a dizer que a prisão de Whelan, que serviria para desmascarar a Fifa, exibindo mundialmente o seu esquema de câmbio negro, seria o maior legado da Copa no Brasil.

Mas a alegria durou muito pouco. Na madrugada de terça-feira, mediante decisão judicial que autorizou o pagamento de fiança, Whelan já estava solto.

Segundo o Delegado responsável pela operação, Fábio Barucke, a soltura de Whelan “faz parte do processo democrático”, mas ressaltou: “as provas não foram analisadas pela Justiça”.

O resultado é que Fábio, um jovem que tem como característica principal a solidariedade, que se dispõe a lutar pela efetividade de direitos alheios e que vislumbra o seu papel na construção de uma sociedade melhor para todos, está preso há 16 (dezesseis) dias, enquanto Whelan, contra quem se diz existirem provas contundentes de participação em um esquema de venda ilegal de ingressos, que chegaram a ser comercializados por R$35.000,00 (trinta e cinco mil reais), não ficou preso mais que poucas horas.

Os fatos acima narrados não ocorreram por acaso. Estão interligados e revelam que no verdadeiro jogo da Copa, Whelan, Fifa e Estado de Exceção estão derrotando de goleada Fábio, sociedade brasileira e Estado Democrático de Direito.

Nesse contexto, o jogo do Brasil contra a Alemanha hoje à tarde é apenas um detalhe sem maior relevância…

São Paulo, 08 de julho de 2014.

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

A política nas urnas e no gramado

14.07.08_Ricardo GozziPor Ricardo Gozzi.

A extrema polarização que antecedeu a Copa do Mundo no Brasil induziu muitos observadores dos campos em disputa a uma leitura segundo a qual o desempenho tanto da chapa governista quanto da oposição nas eleições presidenciais deste ano terá correlação com o desempenho da seleção brasileira no Mundial.

Segundo esses observadores, um eventual sucesso da seleção beneficiaria a presidente Dilma Rousseff em sua campanha pela reeleição, enquanto a derrota ajudaria a oposição conservadora a angariar votos.

Essa análise, se assim pode ser chamada, é particularmente popular entre os opositores do governo federal. A julgar pela história, porém, não é apenas improvável, mas também fantasioso e leviano considerar que uma fração decisiva do eleitorado é míope ao ponto de fundamentar seu voto no resultado da seleção nos gramados.

Tomemos como exemplo as eleições presidenciais realizadas no Brasil a partir da redemocratização. Com exceção do pleito de 1989, todas as demais votações ocorreram nos meses posteriores à Copa do Mundo.

Somente na primeira delas, em 1994, houve essa coincidência. Na ocasião, a seleção levantou a taça nos Estados Unidos e Fernando Henrique Cardoso, candidato do governo, chegou ao Palácio do Planalto.

Em todos os demais anos de eleição e Copa do Mundo, essa suposta correlação simplesmente inexistiu. Se alguma coisa pôde ser observada, aliás, foi justamente o contrário: o desempenho da seleção em nada influiu nos resultados das urnas.

Em 1998, o Brasil perdeu da maneira que perdeu na final para a França e FHC reelegeu-se em primeiro turno. Já em 2002, a seleção brasileira chegou ao penta e Lula desbancou o PSDB. Quatro anos mais tarde, a seleção foi eliminada precocemente e foi a vez de Lula contrariar essa “sabedoria popular” para reeleger-se. Em 2010, novo fiasco da seleção na Copa do Mundo e nova vitória da chapa governista nas eleições presidenciais. 

É claro que haverá quem vá querer enxergar qualquer eventual coincidência entre o resultado das urnas e o desempenho da seleção como “comprovação empírica” dessa percepção, consistentemente contestada pelo fatos. Assim como houve quem comemorou – em segredo ou em público – quando soube que a gravidade da lesão de Neymar o tiraria da Copa, certamente sem se dar conta de que isso dificultará somente uma campanha, a da seleção brasileira.

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Leia também “Boicotar a Copa“, de Ricardo Gozzi, no especial /megaeventos do Blog da Boitempo:

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Ricardo Gozzi, 38 anos, é jornalista. Escreveu, com Sócrates Brasilieiro Democracia Corintiana: a utopia em jogo (2002), pela coleção Paulicéia da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o especial “Brasil em jogo: o legado dos megaeventos”.

Ilustrando a barbárie | Tréplica de Christian Dunker a Rodrigo Constantino

14.07.07_Christian Dunker_Ilustrando a barbáriePor Christian Ingo Lenz Dunker.

Caro Rodrigo Constantino, seu comentário a meu texto, sobre o declínio da ilustração na direita brasileira, afirma que o apelido “Bob Fields” é uma “expressão pejorativa usada pela esquerda nacionalista”, seguido pela ilação de que “simulo uma suposta nostalgia em relação a esta direita mais nobre”. Isto como se não fosse possível que alguém com um familiar liberal pudesse transformar-se em um “esquerdista lacaniano” – ao que outros complementam: “só pode ser um trauma”. É o que se chama de argumento ad hominem, pelo qual você diz: olhem para esta pessoa, ela está mentindo sobre o próprio avô, a prova disso é o apelido que ele emprega (Bob Fields), não leiam o que ele está dizendo, este ‘desonesto’, mas atentem para suas intenções, que são as da esquerda nacionalista. Em suma, evitem o argumento e olhem bem para quem é este sujeito: lacaniano, leitor de “malucos”, que trabalha com gente do PSOL e que deve ser tomado como uma “cobaia”.

Vou poupar suas críticas ao PT, pois meu texto foi, obviamente, tomado apenas como pretexto para repetí-las. A presença ou ausência do PT é indiferente ao argumento, mas aparentemente você precisa localizar qualquer crítico neste lugar. Entenda, não é porque alguém te critica que este alguém é vermelho, esquerda caviar ou PT. O mundo é maior que isso. Contudo, nunca afirmei que você, nem o movimento que você ilustra, tenha sido paranoico ou radical. Aliás, justamente lhe falta radicalidade, no sentido de remeter a raízes, que você ainda não apresentou. E quanto à paranoia, só vejo, neste caso, a fragilidade banal de quem quer ganhar reputação amealhando preconceito e criando inimigos. Por isso você não consegue admitir que respeito, sim, a direita liberal. Gostaria de ouvir dela mais e melhores razões para o projeto de Brasil que precisamos. Algo que vá um pouco além da eliminação ou desqualificação de adversários vermelhos. Sua resposta, neste sentido, é uma boa ilustração do problema que eu estava a descrever. Em minha réplica bastaria acrescentar: como se queria demonstrar (CQD).

De fato, sinto falta de um José Guilherme Merquior, em seu De Praga a Paris argumentando de forma crítica e instrutiva contra o pós-estruturalismo francês. E você realmente quer comparar um trabalho como este, que teve papel formativo para muitos de minha geração, a livros como O Guia não sei o quê, do Politicamente Incorreto? É vergonhoso. E se não for deixar você vermelho demais, de vergonha, desafio-o a discutir em detalhe qualquer trabalho desta série ou seus análogos. Em suma, a minha pergunta, ainda sem resposta, poderia ser reduzida a: onde está hoje o De Praga a Paris? Virou De Cuba a Miami?

Não percebo humildade alguma em sua atitude, que se recusa responder à pergunta que coloquei, substituindo argumentos por pichações genéricas sobre a esquerda (exatamente como descrevi) em tom de paródia ao meu texto anterior. Você realmente escreveu um livro sobre a romancista Ayn Rand, mas posso depreender disso que você está advogando que a cura para os males do Brasil depende da implementação, em escala moral, cultural e institucional do que ela chama de “egoísmo racional”? Quer dizer que somos demasiadamente altruístas e a solução é aumentar, genericamente, nossa disposição ao individualismo, o que nos fará melhores, segundo a lei geral da inveja aos mais fortes e bem sucedidos? Acho que isso vai terminar, como está terminando, em violência e ressentimento social.

Sim, você traduz obras de Milton Friedman, mas onde está sua coluna dizendo que diante da crise de 2008 devíamos deixar os bancos quebrarem e manter o governo, neste caso o Americano, fora da economia? É isso que chamo de moralidade de ocasião do positivismo brasileiro.

Você não entendeu que meu artigo é sobre a hipótese de declínio, voluntário ou acidental, real ou imaginário, da atitude de ilustração, da qual você é somente um exemplo, quiçá equivocado. Ilustração significa crença no poder libertador do progresso cultural, sem que este acompanhe-se, necessariamente, de transformações políticas equivalentes. Você poderia facilmente ter dito que isso é uma ilusão de minha parte. Que tendemos a achar que o passado era melhor que o presente, pois, como éramos mais jovens e incautos, as ideias liberais pareciam melhores antes do que hoje. Meu texto era sobre o liberalismo, mas parece que você gosta mesmo é de falar de comunismo.

Era fácil ver em meu texto uma alusão à hipótese de que antes o liberalismo criticava a economia, guarnecido na cultura, hoje fala de política sem se exigir explicitar referências, simplesmente apoiado em um moralismo vulgar. Entendo como exemplos de moralismo vulgar sua crítica do estatuto do idoso, sua objeção ao “feriado racista”, sua oposição às cotas raciais, sua defesa do livre mercado de órgãos humanos, sua proposta da privatização da floresta amazônica, sua alusão aos “bárbaros incapazes de reconhecer sua própria inferioridade” (os que participam de “rolezinhos”) e principalmente sua declaração sintética em matéria de saúde mental:

“A verdadeira desordem psiquiátrica é justamente esse esquerdismo doente, que relativiza tudo e não encontra mais parâmetro algum de comportamento decente.” (Rodrigo Constantino. “Pedofilia: uma orientação sexual?”. Veja,  31.10.2013. Página visitada em 20.11.2013.)

Orientação política não pode ser uma patologia, e esta não tem nada a ver com comportamento decente ou indecente. É este tipo de estrepitosa ignorância que vejo representada em sua versão de nova direita liberal. Mesmo assim acho que há algo de fóbico e de francamente não resolvido nesta sua tendência a patologizar os outros, em suas orientações políticas ou religiosas, tendência ademais disseminada entre seus acólitos.

A direita neoconservadora de hoje parece inculta, não porque não tenha méritos ou seus próprios critérios de erudição, mas porque não quer vir para o debate. Cultura não é posse de conhecimento acumulado, mas convivência em conflito de diferenças. Que interesse há em ganhar uma discussão pela métrica de predicados e habilidades? Entendo que você tenha tomado assim a crítica – como um confronto de elites onde o mais forte vence, como diria Ayn Rand – mas aí teríamos que medir títulos, o que você não quer e eu não acho necessário. A questão realmente importante é como sair deste Fla-Flu imaginário que leva a comparação ao território da força, do coro e da quantidade de vozes, em vez do problema real que se está a discutir. Se este é o discurso do liberalismo baseado no “egoísmo racional individualista”, como impedir que a diferença transforme-se em violência?

Você não teve humildade para ver que meu argumento não diz que a esquerda possuiria qualquer forma de superioridade cultural, pelo contrário, afirmo que isso não se espera dela, ainda que de vez em quando aconteça. A comparação que propus não é entre esquerda e direita, nem mesmo entre a direita em geral, ontem e hoje, mas sobre certa direita liberal de hoje e seus antepassados dos anos 1980, se é que os elegi corretamente. Isso você poderia ter corrigido, ou respondido, mas não o fez. A pergunta de fundo não era sobre suas credenciais, mas sobre seu percurso. Seria ele endogamicamente fundado e reproduzido no interior do jornalismo pirotécnico, do sensacionalismo político, ou há alguma experiência, representativa, que o habilite para tal? Caso contrário, entendo seu impulso a ir sempre mais à frente, elevando a voz e incitando a raiva: é uma estratégia para angariar descontentes.

Contudo, a questão mais preocupante, e que me levou a escrever esta réplica, não está em seu comentário, mas no tipo de reação que ele suscita em seus leitores. E este é o problema maior que temos pela frente: o acirramento de posições que se recusam a ceder o mínimo de reconhecimento à parte oposta (como tentei fazer em minha deferência ao liberalismo ilustrado). Um discurso não se mede apenas pelas insígnias de quem o pratica, nem pelo conteúdo de seus argumentos, mas também pelos efeitos que ele produz. E constatei que, no seu caso, suas colocações incitam comentários, que colhi nominalmente no Blog da Veja e no Blog da Boitempo, despertando o seguinte tipo de reação contra meu texto:

“Tinha que ser judeu o imbecil! Ô racinha maldita pra criar intriga e jogar uns contra os outros. Seu lugar é em Aushwitz. (…) Com esse sobrenome ridículo deve [ser] um maldito filho de sião. Zyklon b neles.”

“esquerdopata”, “idiota”, “gente asquerosa!”, “acéfalo”, “pessoas assim merecem o ostracismo”, “o próprio estudo do marxismo já torna o cidadão paranoico”, “imerso nos seus delírios”, “uma besta quadrada”, “boçal”, “sociopatia”, “todo esquerdista é um abestado incurável”, “analfabeto funcional”, “vade retro satanás”, “verme”, “abutre fedorento”, “só se o pai fosse um pulha este comportamento seria explicado”, “esquerdista nojento”, “tem que chutar a canela desses caras”, “a verdadeira face desses canalhas”, “os intestinos estão acima e atrás dos olhos”, “desonestos”, “só existe um jeito dele fazer este bem, é se matando”, “precisa de uma longa terapia”, “malucão uspiano”, “para ser esquerdista, tem que ser canalha”

Se você quer mesmo me tomar como cobaia, vai precisar ilustrar seu experimento melhor que isso.

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miniaturaEm outubro a Boitempo lança Mal-estar, sofrimento e sintoma, de Christian Dunker. Novo título da coleção Estado de Sítio, coordenada por Paulo Arantes, o livro parte de uma psicanálise da vida em condomínios para desenvolver uma aprofundada reflexão interdisciplinar sobre a privatização do espaço público e inserção da psicanálise no Brasil.

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Christian Dunker assina a orelha de A visão em paralaxe, de Slavoj Žižek. Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil:

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Sofrimento, mal-estar e sintoma (Boitempo, 2014, no prelo). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Neodesenvolvimentismo e a nova miséria espiritual das massas no Brasil

14.07.07_Giovanni Alves_Miséria[Giorgio de Chirico, Torino a primavera, 1914, óleo sobre tela]

Por Giovanni Alves.

O “choque de capitalismo” ocorrido na década de 2000 intensificou e ampliou as contradições sociais inerentes ao desenvolvimento histórico da sociedade burguesa no Brasil. Dez anos de Lula e Dilma (2003-2014) significaram uma indiscutível atualização histórica do capitalismo no Brasil e o fortalecimento da hegemonia burguesa no país por conta do novo ciclo de modernização neodesenvolvimentista. Aumento real do salário-mínimo (cerca de 70%), aumento do emprego formal (de baixa qualificação) e redistribuição de renda por meio de programas sociais de combate a pobreza extrema (Bolsa Família), que implicou na saída da pobreza absoluta de mais de 20 milhões de pessoas. De fato, trata-se de algo sem precedentes em nossa história republicana. Apesar da persistência do Estado neoliberal no Brasil, alterou-se o padrão de desenvolvimento capitalista nos últimos dez anos, provocando indiscutivelmente, mudanças internas na morfologia das classes e camadas sociais.

A discussão candente sobre a “nova classe média” (Marcelo Neri), ou melhor, “nova classe trabalhadora” (Márcio Pochmann), ou ainda os “batalhadores brasileiros” (Jessé de Souza); ou ainda, o debate sobre o “precariado” (Ruy Braga/Giovanni Alves), demonstram que o Brasil mudou – é claro, mudanças sociais no interior do padrão histórico de desenvolvimento do capitalismo hipertardio caracterizado ontogeneticamente pela “modernização conservadora” e passivização histórica (como diria Tomaso di Lampedusa, “tudo deve mudar para que tudo fique como está”).

O neodesenvolvimentismo no Brasil, como modo de “revolução passiva” do capitalismo brasileiro nas condições históricas da crise do capitalismo neoliberal, repôs de modo farsesco, o traço ontogenético do capitalismo hipertardio de feição colonial-escravista: a modernização conservadora. Na verdade, é impossível fazer uma crítica relevante do capitalismo brasileiro sem levar em consideração as mudanças sociais ocorridas no Brasil nos últimos dez anos de Lula e Dilma (o que explica, de certo modo, a irrelevância politica da maior parte da critica da extrema-esquerda marxista que despreza in limine, a natureza qualitativamente nova da hegemonia burguesa no Brasil que surgiu na era do lulismo).

Entretanto, afirmar que o Brasil sofreu um “choque de capitalismo” nos dez anos de Lula e Dilma implica buscar desvendar o enigma do neodesenvolvimentismo (o que tentamos fazer no recém-lançado livro Trabalho e neodesenvolvimentismo), rastreando os vestígios da contradição viva do capital que se expressam, principalmente, no plano do metabolismo social do trabalho. Para uma crítica relevante do capitalismo brasileiro hoje, urge desvendar, com imaginação sociológica, os impactos do “choque de capitalismo” da última década na morfologia social e sociometabolismo do mundo do trabalho no Brasil. Nossa hipótese, neste pequeno ensaio, é que a modernização neodesenvolvimentista – variante da modernização histórica da periferia capitalista na era do declive civilizatório do capital – fez surgir no Brasil novas misérias humanas decorrentes da aceleração da vida social nas metrópoles capitalistas por conta da disseminação da lógica do trabalho abstrato.

* * *

A nova expansão do capitalismo no Brasil nas condições do capitalismo manipulatório de base midiático-informacional, disseminou no corpo social, insanas e delirantes contradições vivas próprias do novo sociometabolismo do capital global, contradições sociais que se desdobram naquilo que caracterizamos como sendo inquietações existenciais e carecimentos radicais nas individualidades pessoais de classe. Na verdade, ocorreram não apenas mudanças cruciais na estrutura de classes e estratificações sociais (com recorte geracionais, étnico e de gênero), mas principalmente, mudanças no metabolismo social das camadas e frações de classe do proletariado urbano.

A “modernização conservadora” de cariz neodesenvolvimentista que ocorreu no Brasil da década de 2000 expos na década seguinte seus limites irremediáveis – o que não se confunde com o esgotamento do neodesenvolvimentismo. Os limites do neodesenvolvimentismo dizem respeito à crescente contradição entre as promessas (e expectativas) de reforma social do capitalismo no Brasil, e os candentes constrangimentos do orçamento público da União pelo comprometidmento com a amortização e serviços da divida pública nas mãos do capital financeiro. Por exemplo, dados do Senado Federal relativos a 2013 apontam o pagamento de R$ 718 bilhões em juros e amortização da dívida, o que equivale a 40,3% de tudo que foi arrecadado em impostos pelo poder público no ano passado com a amortização da divida pública. Na medida em que as reformas sociais exigem um maior aporte de gastos públicos, o orçamento público encontra-se “capturado” pelos interesses do capital financeiro (banqueiros e grandes investidores do sistema financeiro internacional).

Portanto, por um lado, o “choque de capitalismo” explicitou candentes necessidades sociais que, para serem satisfeitas, exigem dos governos – federal e estadual – altos gastos públicos (por exemplo, investimentos na educação e saúde pública de qualidade, transporte e infraestrutura urbana, segurança pública, etc). Por outro lado, as pretensões de reforma social implicam romper efetivamente com os constrangimentos do Estado neoliberal (sociedade politica oligárquica e sociedade civil neoliberal), renunciando à lógica da estratégia politica do lulismo, que garantiu nos últimos dez anos, as alianças políticas e a governabilidade do projeto neodesenvolvimentista (reformismo mais fraco e lento, incapaz de confrontar o bloco de poder do capital). Na verdade, o salto qualitativamente novo no interior do projeto neodesenvoliventista de combate à desigualdade social e reforma social no País exigiria alterar a própria correlação de forças sociais e politicas entre os interesses do trabalho e do capital na sociedade brasileira (o que está muito distante de ocorrer).

Portanto, nossa hipótese principal neste ensaio é que, o “choque de capitalismo” neodesenvolvimentista provocou, no plano do metabolismo social do trabalho vivo, profundas inquietações existenciais nas individualidades pessoais de classe, expondo nelas, carecimentos radicais próprios de indivíduos universalmente desenvolvidos nas condições históricas do desenvolvimento civilizatório do capital alcançado como contradição viva. Nos Grundrisse, Karl Marx afirmou que,

“o grau e a universalidade do desenvolvimento das faculdades, que tornam possível esta individualidade, pressupõem precisamente a produção baseada sobre os valores de troca, pois só ela produz a universalidade da alienação do indivíduo para consigo mesmo e para com os outros; mas igualmente a universalidade e a generalidade das suas relações e capacidades”.

Na verdade, os carecimentos radicais provocados pelo novo modo de vida just-in-time no Brasil da era do neodesenvolvimentismo, levaram as pessoas, diante das misérias espirituais da sociedade civil neoliberal, a fazer escolhas pessoais espúrias ou buscar vias grotescas de escape no plano pessoal.

Como salientamos no livro Trabalho e neodesenvolvimentismo, o Estado neoliberal (sociedade política oligárquica e sociedade civil neoliberal) persiste no Brasil nos dez anos de Lula e Dilma, o que nos leva a distinguir Estado de governo. A incapacidade dos governos neodesenvolvimentistas de alterarem o Estado neoliberal significou, não apenas a manutenção da sociedade politica neoliberal, mas também a preservação da sociedade civil neoliberal com seu sociometabolismo da barbárie. A cultura neoliberal, disseminada intensa e extensivamente a partir da década de 1990, contribuiu para aprofundar a miséria espiritual das massas manipuladas pelo capitalismo global. Por isso, observou-se, ao longo de mais de vinte anos de hegemonia da cultura neoliberal no Brasil, a imbecilização espiritual e o esvaziamento ideológico dos aparelhos privados de hegemonia social, como partidos e sindicatos de trabalhadores, expondo, deste modo, o vazio intelectual-moral profundo da sociedade brasileira.

A miséria espiritual da sociedade civil neoliberal no Brasil, com sua crise do sentido humano (ensimesmamento) e crise do trabalho vivo (o que discutimos no livro Trabalho e neodeenvolvimetismo), explica o surgimento candente das inquietações existenciais e carecimentos radicais insatisfeitos pela nova dinâmica sociometabolica da organização do trabalho e modo de vida. O novo modo de vida just-in-time, que nasceu no bojo do toyotismo sistêmico (que discutimos no livro O novo (e precário) mundo do trabalho) explica a disseminação das vias grotescas de escape que adquirem o caráter de espiritualidade espúria ou assumem a forma de irracionalidade social.

O capitalismo como religião no Brasil do neodesenvolvimentismo necessita de sua teologia profana. É o que denominamos, a tríplice teologia do neodesenvolvimentismo, isto é, as teologias da prosperidade, as teologias da auto-estima e empreendedorismo; e as teologias do consumo de marcas. Ao mesmo tempo proliferam filosofias de auto-ajuda, com milhões de trabalhadores brasileiros – a maior parte das “camadas médias” – em busca de apoio espiritual e sucesso individual. Na década do choque de capitalismo neodesenvolvimentista, os livros de auto-ajuda tornaram-se best-sellers nas livrarias. Enfim, as pessoas-humanas-que-trabalham, imersas na condição de proletariedade, buscam soluções prontas para seus problemas cotidianos, vias de escape para o sofrimento, receitas de sucesso e de felicidade, simplicidade para encarar os complexos problemas da existência alienada; buscam um refúgio de suas realidades, com a fantasia de poderem magicamente e com o mínimo de esforço e sofrimento resolver suas vidas. Além dos livros de auto-ajuda, temos as vias do espiritualismo da Nova Era, gnoses, crenças carismátivas, esotéricas e antroposoficas, etc.

Por exemplo, nas teologias da auto-estima e do empreendedorismo, Deus é substituído pelo ideal de Sucesso. A ideologia do empreendedorismo originou-se da ideologia do sucesso oriunda dos EUA, a civilização do capital global. É clássica a divisão ideológica na cultura liberal entre winners e losers. A idéia de empreendedorismo é a das idéias teológicas a mais insidiosa, porque opera o mecanismo ideológico da auto culpabilização da vítima: “se eu fracassei a culpa é minha”. A teologia do empreendedorismo é a internalização absoluta dessa censura: “O sucesso é minha responsabilidade, o fracasso é minha culpa”. Coragem, ousadia, auto-estima, iniciativa, fazem parte do sujeito vitorioso.

O novo homem do capital no século XXI é o empreendedor. Ele é o modelo de uma teologia imanente, uma teologia da matéria, que atingindo aquele ponto leva os outros à felicidade. Este novo homem adquire a salvação mediante sua iniciativa pessoal, tal como o homem medieval, mas não é uma iniciativa pessoal em busca de um além, mas é de um hic et nunc, de um aqui e agora terreno; e o inferno dessa teologia é o fracasso financeiro e pessoal. Na era do neodesenvolvimentismo disseminaram-se os livros sobre empreendedorismo, com treinadores pessoais, coaches, dizendo “você precisa confiar em você”, “você precisa ter metas”, “você precisa se desenvolver”, “você precisa colocar essas metas e repetir ‘eu posso’, ‘eu sou vitorioso’”. É curioso que, há alguns anos isso seria tido como esquizofrenia ou bipolaridade; hoje é tido como consistência pessoal.

As maiores vítimas das teologias do empreendedorismo e auto-ajuda e das teologias do consumo de marca são a juventude precária, a dita “geração Y” nascida na era neoliberal, manipulada incisivamente pelo “espirito do toyotismo” e exposta hoje, mais do que nunca, à inquietação existencial e carecimentos radicais (vide meu livro Trabalho e subjetividade – o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório).

A “teologia da prosperidade”, também conhecida como “evangelho da prosperidade”, é uma doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos; e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel. A doutrina das teologias da prosperidade interpreta a Bíblia como um contrato entre Deus e os humanos; se os humanos tiverem fé em Deus, Ele irá cumprir suas promessas de segurança e prosperidade. Reconhecer tais promessas como verdadeiras é percebido como um ato de fé, o que Deus irá honrar. O show da fé procura cultivar ilusões de prosperidade por meio de acessos mágicos à sociedade de consumo. Apesar do recuo do crescimento das igrejas evangélicas neopentecostais na década de 2000, em comparação com a década de 1990 (segundo dados do censo religioso de 2010, na década de 1990, os evangélicos cresceram 120%, enquanto na década de 2000, o crescimento foi de 61,45%), o crescimento do evangelho da prosperidade na década do neodesenvolvimentismo não deixou de ser significativo. Em 2000, cerca de 26,2 milhões de brasileiros se disseram evangélicos, ou seja, 15,4% da população; em 2010, eles passaram a ser 42,3 milhões, ou 22,2% dos brasileiros. De qualquer modo, o crescimento das teologias de prosperidade na temporalidade histórica neoliberal no Brasil não deixa de ser impressionante (em 1980, o percentual de evangélicos era de 6,6%; em 1991, de 9%; e em 2010, de 22,2%). Na verdade, presenciamos o crescimento do pluralismo religioso no Brasil, inclusive de pessoas sem religião, mas que não deixam de expressar um ateísmo religioso, pois surgem outros modos de espiritualidades espúrias, tais como as teologias da auto-estima e do empreendedorismo e o culto das marcas, ou filosofias de auto-ajuda, espiritualismos da Nova Era, gnoses, crenças carismáticas, esotéricas e antroposóficas, etc.

As teologias do consumo de marca surgem no bojo do novo padrão de desenvolvimento capitalista no Brasil. O neodesenvolvimentismo baseou-se na exacerbação do crédito capaz de incrementar o mercado interno de consumo (de 2003 a 2013, a oferta de crédito cresceu cerca de 140% no País). A própria idéia de cidadania reduziu-se à idéia de acesso ao mercado de consumo de massa. Proliferou-se a idéia da inclusão social pelo consumo como meio de afirmação da identidade social. Nas condições de crise do trabalho vivo, constituído pela crise da vida pessoal, crise de sociabilidade e crise de auto-referencia pessoal, o consumismo tornou-se via grotesca de escape do vazio existencial, principalmente entre os jovens das camadas médias ou camadas populares do proletariado (precariado ou “proletaróides”), alvos privilegiados das estratégias de marketing e propaganda das grandes empresas do capital global. A carência de modernização que caracteriza o capitalismo hipertardio no Brasil, fez com que o consumo de marca se tornasse um ídolo sagrado. Na verdade, o sagrado está cada vez mais comercializado e dessacralizado. A década do neodesenvolvimentismo demonstrou que o Brasil está cada vez mais desencantado, apesar da proliferação das teologias da prosperidade. Nas condições da miséria brasileira, percebemos hoje, mais do que nunca, a articulação orgânica entre o arcaico e o moderno, o sagrado e o profano. Entretanto, é importante ver também o consumo popular das marcas, ou a sua ostentação social, como um sentido íntimo de afirmação pessoal, símbolo de ascensão social nas condições da sociedade brasileira historicamente desigualitária, racista e excludente.

As vias grotescas de escape da tríplice teologia do neodesenvolvimentismo são, como as filosofias da auto-ajuda e filosofias da Nova Era, respostas às inquietações existenciais e carecimentos radicais das pessoas-que-trabalham. Não podemos condenar as criaturas aflitas que procuram na religião, sagradas ou profanas, uma via de escape para sua miséria humana. Inclusive, podemos dizer que a tríplice teologia do neodesenvolvimentismo no Brasil, possui, de certo modo, a mesma legalidade ontológica do sentimento religioso. Disse Karl Marx numa brilhante passagem da introdução de 1844 a sua Crítica à filosofia do direito de Hegel:

“A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.” (Crítica à filosofia do direito de Hegel, p.145)

Na verdade, o “choque de capitalismo” no Brasil neodesenvolvimentista – que incorporou o espírito do capitalismo global –, explicitou, de modo candente, a impossibilidade da vida plena de sentido nas condições históricas do sociometabolismo da barbárie. Por isso o apego às teologias do neodesenvolvimentismo, que podemos denominar, teologias do grotesco (ou teologias da caricatura). As teologias do neodesenvolvimentismo podem ser denominadas “teologias do grotesco” na medida em que o grotesco obstaculiza o sentimento de tragédia (que possui um elemento catártico).

Mas o século XXI, tal como o século passado, pode ser considerado o “século de Franz Kafka”, como diria o filosofo Karel Kosik no texto “O século de Grete Samsa: sobre a possibilidade ou a impossibilidade do trágico no nosso tempo”. Disse Kosik:

“Kafka chegou à conclusão – e essa, a meu ver, é a sua descoberta mais significativa – de que a nossa época moderna é hostil ao trágico, trata de exclui-lo, e em seu lugar institui o grotesco. Por isso, o século de Franz Kafka é, ao mesmo tempo, o século cuja quintessência se acha corporificada numa de suas figuras: a personagem Grete Samsa, uma espécie de anti-Antígona do século XX”.

O capitalismo global (1980-2014) inaugurou uma nova era da desmedida do capital, que exacerbou – e elevou a um patamar superior – o sociometabolismo da barbárie que marcou o breve século XX. As vias grotescas de escape às inquietações existenciais e carecimentos radicais do século XXI, expõem a natureza do grotesco como caricatura ou imitação pobre (pode-se dizer, por exemplo, que as teologias da prosperidade são uma imitação pobre das religiões); e, ao mesmo tempo, impossibilidade de catarse ou auto-transcendencia. Como disse Kosik, a tragédia nasceu com a pólis grega:

“A pólis se funda, perdura e renova no conflito (“pólemos”) entre o humano e o divino, o passageiro e o duradouro, o banal e o elevado. Se o humano suprime o divino, o passageiro elimina o duradouro e o banal acaba com o elevado, a comunidade se desintegra, a pólis desaparece e com ela desaparece também a tragédia”.

Portanto, a era do grotesco tornou-se a era da banalização universal, era da corrosão do caráter (Sennett) ou era da “vida líquida” (Baumann); era do isolamento e da atomização; e as vias grotescas de escape, esvaziam o conflito ideológico, desintegrando, no plano ideal, a dimensão da pólis (política) e da própria tragédia como expressão do caráter contraditório do tempo, que expressa o que passa e o que perdura (o que significa que a “presentificação crônica” constada por Eric Hobsbawn é um sintoma lúgubre da era do grotesco); ou ainda, suprimindo o sentido de tragédia como expressão da própria percepção de possibilidade de auto-transcendência da inquietação existencial. A rigor, a inquietação existencial e seus carecimentos radicais na era do capitalismo global são apreendidos como normalidade – isto é, a “normalidade” é a banalidade, a superficialidade, a pequenez. O ensimesmamento faz com que a pessoa não tenha mais disponibilidade ou vontade para sair dessa situação degradante.

Podemos dizer que as teologias do consumo de marca, teologias do empreendedorismo e teologias da prosperidade, com suas vias de cariz neopentecostalista ou vias do espiritualismo da Nova Era (as gnoses, crenças carismáticas, esotéricas e antroposóficas, etc), são expressões efetivas do fenômeno social da crise do trabalho vivo e da “vida reduzida”; traços do sociometabolismo da barbárie na época histórica da crise estrutural do capital, que obstaculizam a autotranscendencia do existir humano; e, por conseguinte, impedem as pessoas ensimesmadas de encontrarem um sentido pleno para a vida. Ao mesmo tempo, a “vida reduzida” (categoria social que discutimos no livro “Trabalho e neodesenvolvimentismo”), produz homens imersos em atitudes e comportamentos intimistas e “particularistas”, construídos (e incentivados) pelas instituições (e valores) sociais neoliberais. No caso da espiritualidade espúria, o culto de Deus interverte-se no culto de dEUs, isto é, culto narcísico do Eu. Estas são as condições de existência social que surgem do metabolismo social do trabalho reestruturado no capitalismo global, contribuindo para a exacerbação do fenômeno do “estranhamento” na sociedade burguesa.

Finalmente, podemos dizer que o neodesenvolvimentismo como modernização conservadora no Brasil nos projetou historicamente para um novo campo de possibilidade do pensamento crítico, capaz de elaborar um entendimento radical da civilização planetária do capital. O Brasil – quinta economia do mundo – está hoje no centro das misérias do capitalismo global, articulando, em si e para si, as contradições sociais da ordem metabólica do capital. Instigados pelo choque de capitalismo da década de 2000, procuramos exercer a critica do modo de civilização burguesa, que encontra no Brasil do século XXI, sua feição grotesca.

Estamos hoje na era de crise irremediável do neodesenvolvimentismo, que expressa em si e para si – e não poderia deixar de ser diferente – a crise rastejante do padrão civilizatório do capitalismo hipertardio nas condições históricas do declive civilizatório do capital. Mais do que nunca, o capital nas condições históricas do capitalismo global, se explicita como contradição viva, disseminando ilusões sobre suas possibilidades civilizatórias, principalmente na borda periférica da civilização do capital, como é caso do Brasil. Na verdade, existem contradições candentes entre promessas civilizatórias (postas como ideologia) e a efetividades da barbárie social como manipulação reflexiva do sujeito-que-trabalha.

O resgate da critica radical do capital, implica não apenas elaborar um tertium datur entre o social-reformismo e o esquerdismo político, pólos antitéticos e unilaterais que dilacera a esquerda brasileira; mas principalmente elaborar um pensamento critico e radical capaz de discutir a problemática do novo sociometabolismo do capital, apreendendo, por exemplo, as dimensões da precarização do trabalho vivo como precarização do homem como ser humano-genérico; e colocando como tarefa crucial, a construção da nova hegemonia socialista no país por meio da formação humana para além do dogmatismo e sectarismo que caracterizaram a esquerda marxista no século XX. 

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura. O autor conta com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, à venda em ebook por apenas R$5 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, dentre outras. Giovanni Alves conta também com o artigo “Trabalhadores precários: o exemplo emblemático de Portugal”, escrito com Dora Fonseca, publicado no Dossiê “Nova era da precarização do trabalho?” da revista Margem Esquerda 18, já à venda em ebook na Gato Sabido.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Agamben: A democracia é um conceito ambíguo

14.07.03_Giorgio Agamben_A democracia é um conceito ambíguoEntrevista especial com Giorgio Agamben.

APRESENTAÇÃO

O que é a política? É isso que, com um olhar otimista, Agamben sugere perguntar na entrevista grega que apresentamos, antecedendo as eleições para o parlamento europeu (22-25 de maio de 2014), nas quais o radical grego Tsipras será o candidato da esquerda. As questões sobre as quais o filósofo nos convida a refletir são muitas. O fio condutor pode ser identificado como abordagem dos dispositivos que, mesmo sujeitando a matéria biológica, investem nossa capacidade de ativar processos de subjetivação que, no caso, apresentam resistências. A crise que estamos vivendo pode tornar-se, então, busca de novas formas. Estas não são nem jurídicas, nem morais, mas, acima de tudo, políticas. Na esteira do melhor ensinamento foucaultiano, mais do que um gesto de libertação, temos de construir uma prática da liberdade, não um outro existencialismo, mas uma ética de si não reduzida à individualidade.

“Que política?” é, por outro lado, uma pergunta não colocada numa dimensão estatal. O problema não é o de libertar o indivíduo do Estado – diria Foucault –, mas o de libertar a nós mesmos dele e de sua propriedade individualizante. Uma dimensão política (sempre não estatal) que Agamben deseja para o plano europeu, através de um questionamento genealógico a respeito da ambígua democracia, de seus limites e de seu legado. Sendo assim, enquanto se trabalha sobre o exercício coletivo de definição programática de práticas de luta que não se traduzem em exigência de reconhecimento, enquanto Balibar apresenta sua ideia radical de cidadania, Agamben penetra na linguagem e remete à ação política – a que somos remetidos – exclusivamente destituinte.

Xenia Chiaromonte

14.07.03_Giorgio Agamben_A democracia é um conceito ambíguo_1

ENTREVISTA

O filósofo Giorgio Agamben estava em Atenas, convidado pelos jovens de SYRIZA e pelo Instituto Nikos Polantzas. Sua conferência, para um auditório lotado de Tecnopolis, sob o título Uma teoria do poder da espoliação e da subversão, foi organizada para celebrar os quarenta anos da revolta do Politécnico. Domingo, dia 17 de novembro, após a passeata, Anastasia Giamali, para o ALBA, e Dimosthenis Papadatos-Anagnostopulos, para a RedNotebook, conversaram com Agamben. O texto que segue é a entrevista completa; uma versão reduzida pode ser encontrada nos Entemata tes Aughes e em seu blog.

O senhor começou sua fala em Atenas dizendo que a sociedade na qual vivemos não é simplesmente não democrática, mas, em última instância, não política, porque o status de cidadão ficou reduzido a uma categoria do direito. Porventura, é possível conseguirmos a mudança política na direção de uma sociedade política?

Agamben: O que procurei evidenciar é o aspecto totalmente novo da situação. Acredito que, para entendermos o que estamos habituados a chamar de “situação política”, devemos levar em conta o fato de que a sociedade em que vivemos talvez já não seja uma sociedade política. Um fato como esse nos obriga a mudar completamente nossa semântica. Assim, tentei mostrar que, na Atenas do século V a.C., a democracia começa com uma politização do status de cidadão. O fato de alguém ser cidadão em Atenas é um modo ativo de vida. Hoje, em muitos países da Europa, assim como nos Estados Unidos, onde as pessoas não vão votar, o fato de ser cidadão é algo indiferente. Talvez na Grécia isso valha em menor medida, pois, pelo que sei, aqui ainda existe algo que se assemelha a uma vida política. Atualmente, o poder tende a uma despolitização do status de cidadão. O que é interessante numa situação tão despolitizada é a possibilidade de uma nova abordagem da política. Não podemos ficar presos às velhas categorias do pensamento político. Urge arriscar, propor categorias novas. Sendo assim, se no final se verificar uma mudança política, talvez ela será mais radical do que antes.

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Seguindo Foucault, o senhor disse que a “lógica” do poder contemporâneo não consiste em enfrentarmos a crise, mas em gerirmos suas consequências. Em seu livro A Comunidade que vem, o senhor sustenta que as coisas não mudam e que, se algo muda, são seus termos. Se isso for válido, é inevitável, então, a formação de uma força política que queira enfrentar as causas dos problemas (os problemas “em sua raiz”) seguindo essa lógica? E, do contrário: uma tentativa de “mudança dos termos” poderá inspirar também uma mobilização, se, ao mesmo tempo, não aspirar a mudar as coisas?

Considero este ponto extremamente significativo: que os novos governos ou pelo menos os governos contemporâneos não querem governar enfrentando as causas, mas unicamente as consequências. Significativo porque isso é totalmente diferente da concepção tradicional que temos do poder – na perspectiva da concepção que Foucault tem de Estado soberano. Se a lógica do poder consiste em controlar apenas as consequências, e não as causas, há uma grande diferença.

O que pretendi dizer com a ideia de “mudança dos termos” é que temos um poder que simplesmente gera consequências. Isso ficou muito claro para mim no caso do policial de Gênova [que matou o ativista Carlo Giuliani em 2001], que disse aquela coisa incrível: que a polícia não gere a ordem, mas as desordens. Tal é a situação em que vivemos. Não só a política interna, mas também a externa; por exemplo, os Estados Unidos, que criam zonas de desordem, para que as possam gerir e dirigir para uma direção favorável. A pergunta é: o que fazemos ao enfrentarmos semelhante situação?

Levando em consideração o que vimos acontecer na Itália, os partidos de esquerda foram enredados nessa lógica de gestão das consequências. É mais simples e mais rentável. Mas não há outra saída? Talvez não. No entanto, isso constitui outro indício de que a semântica política deve mudar. Devemos enfrentar algo que não é nem causa nem consequência. Devemos encontrar uma espécie de terceira via como lugar correto da política. O que procuro fazer não é simplesmente recorrer à tradição da esquerda. Não por se tratar de algo superado, mas por considerar que seja necessária uma grande mudança semântica. Do contrário, perderemos. É impossível derrotar um poder se não compreendermos sua lógica.

Em artigo publicado no mês passado no jornal Libération, o senhor lembrava um ensaio de Alexandre Kojève, de 1947, intitulado “O Império latino”, no qual o filósofo francês propõe a constituição de um “império”, reunindo França, Itália e Espanha, países com base cultural comum que, em colaboração com os países do Mediterrâneo, poderiam contrastar uma Alemanha com a pretensão de voltar a ser grande. O senhor pensa que tal projeto seja um possível contrapeso à hegemonia de Angela Merkel. Mesmo assim, parece que os líderes daqueles países estão mais interessados na realização do “dogma Merkel” na própria política interna do que nas repercussões daquele dogma numa Europa cada vez mais fragmentada.

Escrevi aquele artigo porque queria lembrar que a Europa que temos hoje é, pelo menos do ponto de vista institucional, não legitimada. Como sabem, a Constituição Europeia não é uma Constituição, mas um acordo entre Estados – ou seja, o contrário de uma Constituição, pois as Constituições são feitas por povos. Por isso recorri a esta ideia de Kojève: é possível outro modelo para a Europa? Aquele modelo é interessante porque não se baseia numa unidade abstrata, mas numa unidade muito concreta, baseada na tradição, no estilo de vida, na religião. De alguma maneira, constitui, talvez, uma possibilidade concreta. Naturalmente, a Grécia deveria fazer parte desse grupo.

Fiquei surpreso com as reações que o artigo suscitou. Quando o escrevi, era sobretudo uma provocação para começar uma crítica à Europa. Mas na Alemanha iniciou-se um enorme debate. Ficaram muito incomodados. E ainda me escrevem, pedindo-me que explique o que eu queria dizer. Isso significa que também um alemão percebe que hoje existe um erro na Europa, mesmo em sua óptica de alemão. Demonstra também que o modelo de Europa que temos hoje não é correto. Haja vista o fato de que os povos francês e holandês disseram não à Constituição Europeia – e imagino que também na Grécia ela será rejeitada.

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Falamos de uma falta de legitimação da estrutura da Europa, ou seja, de uma enorme falta de democracia na Europa. Ao mesmo tempo, parece que as próximas eleições europeias irão ver reforçada a extrema direita. Por que a “resposta” mais popular a uma Europa antidemocrática coincide com uma sustentação por parte dos mais “autênticos” inimigos da democracia?

Penso que o verdadeiro inimigo não é a extrema direita. Ela acaba sendo revigorada por uma situação contingente, revigorada pelos governos europeus. Não sei se vocês se lembram de alguns anos atrás: o partido de Marine Le Pen se havia reforçado muito. Todos os socialistas votaram no candidato gaullista, temendo, então, o Le Pen pai. Foi um grande erro – porque dessa maneira (a Frente Nacional) obteve legitimação plena. Claro que existe a extrema direita, ela é uma realidade. Mas não é o inimigo principal. O inimigo principal é o sistema bancário. Na Itália, jogou-se a carta dos extremismos opostos. Assim, destruiu-se a esquerda: utilizando e, provavelmente, instigando a extrema direita para que se construísse o joguinho dos extremismos opostos. Portanto, não acredito que a esquerda se deveria ocupar com a extrema direita.

Contudo, parece que a extrema direita convenceu um setor importante da sociedade de que ela era a resistência real à falta de democracia.

De fato, também Le Pen faz o mesmo jogo. Nossa estratégia deverá ser a de demonstrar que o sucesso da extrema direita favorece o governo.

Sua obra é particularmente popular, embora irradie certo pessimismo. Žižek, por exemplo, a respeito de Homo sacer, escreve que o senhor, ao sustentar que a esfera da “vida nua” – de uma vida desnudada de prerrogativas e direitos – tende a ser a esfera da política, quer menosprezar a democracia, o estado de direito etc., como se os considerasse “artifícios” do poder contemporâneo, como se percebesse como autêntica essência desse poder os campos de concentração do século XX. Tem fundamento essa crítica?

Não sou pessimista, muito pelo contrário. Aliás, o otimismo e o pessimismo não são categorias filosóficas. Não se pode julgar um pensamento ou uma teoria com base em seu otimismo ou pessimismo. Às vezes, meu amigo Guy Debord citava uma passagem de Marx que diz: “A situação catastrófica das sociedades em que vivo me enche de otimismo”. O que procuro fazer em meu livro sobre Auschwitz, sobre o campo de concentração e a contemporaneidade, não é um juízo histórico. Procuro, sim, delinear um paradigma, com o objetivo de compreender a política em nossos dias. Não quero dizer, portanto, que vivemos num campo de extermínio – muitos dizem: “Agamben diz que vivemos num campo de concentração”. Não. Mas se tomarmos o campo de concentração como paradigma para compreender o poder hoje, isso pode ser útil.

Nos anos da crise parece quase natural lembrar o primeiro pós-guerra, a república de Weimar. Por toda a sua vida, o senhor dialogou, como escritor ou como tradutor, com uma importante personalidade desse período, Walter Benjamin. O que nos tem a dizer Benjamin hoje em dia?

A edição da obra de Benjamin na Itália significou uma renovação do pensamento de esquerda. O que acho interessante em Benjamin é a maneira como toma a semântica teológica – como o conceito de tempo messiânico e a escatologia da concepção – e a extrai do contexto teológico, fazendo que funcione na esfera política. De um ponto de vista metodológico, isso é muito importante. Para produzirmos uma nova semântica política, devemos aprender com Benjamin. Em meu livro O Reino e a glória, mostrei que a teologia cristã reelaborou esse paradigma. Foi incrível para mim descobrir – trabalhando e voltando à pesquisa – que, para compreender o que é o governo, é mais importante estudar tratados medievais sobre os anjos do que ensaios de doutrina política. Foi de fato esclarecedor. O mesmo acontece para Benjamin. Ele tem uma boa ideia sobre o tempo messiânico – todo átimo da história é o átimo decisivo, a Hora do Juízo: enfrentamos a história como se todo átimo fosse o decisivo.

A pergunta sobre a verdadeira democracia mobilizou milhões de homens, desde a Primavera árabe, aos Indignados da Europa, até a Occupy nos Estados Unidos. No entanto, em seu livro A Comunidade que vem, o senhor escreve que a democracia é um conceito genérico demais para que constitua um verdadeiro terreno de confronto.

Diria que a democracia é menos um conceito genérico do que ambíguo. Usamos esse conceito como se fosse a mesma coisa na Atenas do século V e nas democracias contemporâneas. Como se estivesse em todos os lugares e sempre bem claro de que se trata. A democracia é uma ideia incerta, porque significa, em primeiro lugar, a constituição de um corpo político, mas significa também e simplesmente a tecnologia da administração – o que temos hoje em dia. Atualmente, a democracia é uma técnica do poder – uma entre outras.

Não quero dizer que a democracia é ruim. Mas façamos esta distinção entre democracia real como constituição do corpo político e democracia como mera técnica de administração que se baseia em pesquisas de opinião, nas eleições, na manipulação da opinião pública, na gestão dos meios de comunicação de massa etc. A segunda versão, aquela que os governantes chamam democracia, não se assemelha em nada com aquela que existia no século V a.C. Se a democracia for isso, simplesmente não me interessa.

Creio, pois, que cada um deva tomar aquilo que acha interessante em cada ponto, e não se meter a apresentar receitas. Não podemos usar a democracia como novo paradigma, se não dissermos o que é hoje a democracia. Se quisermos propugnar a democracia, devemos pensar algo que não tenha relação alguma com aquilo que hoje se chama democracia.

Nessa concepção, de fato, a democracia é algo muito genérico. Por que, porém, a comunidade que vem não é um novo comunismo, mesmo que seja radicalmente diferente das tentativas do século XX?

Procuro evitar continuar aderindo simplesmente à tradição da esquerda, que me é muito familiar e com a qual estive e estou em estreito contato. O comunismo também foi uma excelente ideia, mas se nos referirmos ao que aconteceu nos tempos de Stalin nada tem de excelente. Portanto, não podemos usar hoje conceitos como a democracia ou o comunismo como se fossem claríssimos. Não são claríssimos. Vimos o que aconteceu com a democracia – o mesmo aconteceu com o comunismo. Digo isso quando me confronto com filósofos como Žižek ou Badiou, que usam o comunismo dessa maneira, como se fosse um conceito perfeitamente claro. Se for assim, o que será o comum nesse comunismo?

A Antiguidade clássica, grega e romana, está constantemente presente em sua obra. Essa escolha é fortemente simbólica, num momento em que a universidade pública está sendo desmontada, as ciências humanas são desvalorizadas e a cultura clássica tende a ser vista como uma peça de museu, um anacronismo…

Gosto que me faça essa pergunta. Não se trata simplesmente de uma prioridade cultural. É uma prioridade política. A relação com o passado não é hoje um problema cultural, mas político. Não se pode compreender o que acontece em nossos dias se não se entende que outra coisa que mudou completamente hoje em dia é a relação vivida com o passado. O que o poder faz hoje – vejo-o acontecendo tanto na Itália quanto na Grécia – é desarticular o sistema de “transmissão” do passado. A universidade é o modo como o passado vive e é “transmitido” para hoje.

No que me diz respeito, estou convencido de que a arqueologia, no sentido foucaultiano, é o único modo de termos um vínculo com o presente. Só podemos ter um vínculo com o presente se voltarmos para trás. Essa é uma imagem que Foucault usa muito, dizendo que sua investigação histórica é uma sombra que lança sobre o passado a interrogação sobre o presente. Não podemos questionar radicalmente o presente se não formos para trás. É a única estrada. E é isso que hoje se quer evitar. Apresenta-se o presente como um problema meramente econômico, frente ao qual devemos dizer sim ou não. Isso cria sérios obstáculos à possibilidade de fazer política.

No último período, desde o momento em que a Grécia entrou na fase de vigilância da Troika, os cidadãos recorrem aos tribunais, apelando para a lei, e os tribunais tomam “decisões políticas”, com a ideia de que se baseiam no interesse nacional. Como o senhor situa esse estado de exceção?

Eu não sabia disso. Um tribunal nunca deveria julgar com esses critérios. Isso lembra o que acontecia na Alemanha sob o regime nazista: o poder judiciário estava em seu lugar, intacto, mas não havia liberdade de julgamento para casos que violavam de maneira evidente a lei. Estamos frente a um imane declínio da cultura judiciária, que noutras épocas florescia na Europa. Sem a possibilidade de voltarmos para trás, para os princípios do sistema judiciário, vemos a lei tornando-se um instrumento nas mãos dos governos.

Diz-se que a Grécia serviu de cobaia para experimentar os termos de uma violenta constrição das sociedades europeias através de medidas antissociais por um determinado período de tempo. O senhor compartilha dessa ideia?

Nos anos 1970 dizíamos que a Itália era um terreno de experimentação onde o terrorismo devia tornar-se politicamente significativo, não só como inimigo, mas também como estratégia de governo. Certamente era verdade. Nunca soubemos se Aldo Moro foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas ou por algum bando corrupto dos serviços secretos.

Creio que seja verdade que a Grécia representa a cobaia. Na Itália era claríssimo. O país foi o primeiro laboratório para esse tipo de questão. E, para voltar à ideia do Império latino, podemos afirmar que as grandes potências do Norte se servem de países de tradição política diferente.

Já que falamos de estratégias, quanto mais concreta se torna a eventualidade de uma esquerda de governo, mais surge a pergunta: como a esquerda deve gerir a herança do regime precedente? O senhor acredita que será preciso destruir os velhos esquemas ou que, ao contrário, possamos utilizá-los a favor do novo governo?

O que aconteceu até hoje é que as entidades políticas fortes, como o Estado, deviam ser interrogadas, pois, do contrário, a lógica do Estado acabaria sendo imposta aos movimentos revolucionários. A questão é sutil. Devemos distinguir entre estratégia e tática. A estratégia só pode ser sempre radicalmente “anti-”. Por outro lado, taticamente, numa batalha isolada, se pode voltar atrás com respeito a determinada tradição política – sem esquecer, porém, a estratégia. O que até agora muitas vezes acontecia era que a tática tinha o primado sobre a estratégia… Acredito que o governo de esquerda de Syriza possa ser a centelha de uma reviravolta progressista na Europa.

Carl Schmitt, importante teórico que, como se sabe, abraçou o nazismo, representa para o senhor uma referência constante, especialmente no livro Estado de exceção, no qual o senhor procura demonstrar que a regra do poder não é a lei, mas a exceção – a anomia. Ao mesmo tempo, seu trabalho é profundamente influenciado por Foucault, cujo argumento basilar é que o poder tem um conteúdo positivo – ele forma, constrói. Esse funcionamento “constituinte” do poder muitas vezes é desconhecido em sua obra. Em outras palavras, parece que o senhor percebe o exercício do poder como exercício de violência, como anomia, que, consequentemente, só é possível de ser enfrentado com seus próprios meios. Quais são, afinal, os termos do uso de Schmitt no âmbito de um pensamento progressista?

Vocês me dão a oportunidade de esclarecer esse ponto, pois muitas vezes recebo críticas por esse uso de Schmitt. Schmitt sustenta que soberano é quem decide sobre o estado de exceção, e que, portanto, o poder se fundamenta numa exceção; minha ideia é que, enquanto Schmitt para por aqui, e diz que o campo da lei é o estado de exceção, ao mesmo tempo diz que a lei está em vigor. A concepção da lei em Schmitt é que a lei compreende a exceção à própria lei, mas, ao mesmo tempo, a lei ainda está aí – e por isso não podemos falar de anomia. Eu, pelo contrário, tento demonstrar que isso é um erro: que aquilo que ocorre nesse caso é simplesmente uma zona de anomia.

Qual é, pois, a diferença entre minha posição e a de Schmitt? Eu tento demonstrar que a lei não existe mais. E aqui aparece aquilo que defendi em meu discurso em Atenas no sábado [16 de novembro de 2013 – N. T.], ou seja, que o que importa é demonstrar que a anomia foi subjugada pelo poder. O sistema de Schmitt só funciona se aceitarmos que a suspensão da lei ainda é lei, que aquela zona de anomia é lícita. Em meu discurso, tentei demonstrar que um poder destituinte (destituent power) deve tornar claro que o sistema legal no interior do qual vivemos não se fundamenta numa suspensão legal da lei, mas simplesmente na anomia. E, em tal caso, o sistema de Schmitt cai por terra.

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Acredita que Benjamin seja uma espécie de schmittiano de esquerda?

Não, isso é um erro. Benjamin sustenta que diante do estado de exceção é necessário produzir um verdadeiro estado de exceção. O estado de exceção de Schmitt é fictício, enquanto insinua que a lei ainda existe. Um “verdadeiro” estado de exceção, com Benjamin, é o seguinte: vocês dizem que aqui não há lei? Ah! Então vamos levar isso a sério: de fato, não há. Portanto, a anarquia, que se encontrava no interior do poder, agora se encontra com o poder no estado de exceção como é entendido por Schmitt.

Tal perspectiva, se o entendemos bem, não seria a do uso da lei como limite contra o poder, mas a perspectiva de um enfrentamento frontal do poder.

Não tenho em mente um confronto violento com o poder. Pelo contrário, o que me interessa é podermos demonstrar quão estratégica é essa anomia. Por conseguinte, talvez não se trate de uma ação revolucionária – mas do caminho que demonstraria para os homens que no centro da lei se encontra a anomia. Quando digo que é preciso conceber um poder destituinte, penso que a violência constitui um poder constituinte, ou seja, sustento o contrário. O que seria uma violência como poder destituinte? Não me é fácil dizê-lo. Porém, acredito que um de nossos deveres, hoje em dia, seja o de pensar uma ação política exclusivamente destituinte – não constitutiva de uma nova ordem política e jurídica.

É uma lógica próxima daquela da desconstrução em Derrida?

O que procuro definir é uma estratégia política. A desconstrução em Derrida é, antes de mais nada, uma estratégia teorética.

* A entrevista realizada em Atenas em 17 de novembro de 2013 e publicada em italiano no Doppiozero em março de 2014. A tradução é de Selvino J. Assmann para o Blog da Boitempo

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No dia 22 de julho chega às livrarias brasileiras o novo título da série Homo Sacer, de Giorgio Agamben: Altíssima pobreza: regras monásticas e forma de vida

Todos os títulos de Giorgio Agamben publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebookscom preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Estado de exceção [Homo Sacer, II, 1] * PDF (Travessa | Google)

O reino e a glória [Homo Sacer, II, 2] * ePub (Amazon | Travessa)

Opus Dei [Homo Sacer, II, 5] * epub (Amazon | Travessa |  Google)

O que resta de Auschwitz [Homo Sacer, III] * PDF (Travessa Google)

Profanações * PDF (Travessa | Google)

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Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. Considerado um dos principais intelectuais de sua geração, deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin, é autor, entre outros, de Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008), O reino e a glória (2011), Opus dei (2013) e Altíssima pobreza (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Não vai ter protesto: evolução tática da repressão durante a Copa

14.07.03_Eduardo Tomazine_Não vai ter protestoPor Eduardo Tomazine.

De junho passado até o junho da Copa do Mundo o Estado brasileiro teve tempo e ocasiões suficientes para aprender a lidar com os protestos de rua que mudaram a conjuntura política do país. Aprenderam que os métodos até então convencionais de repressão às manifestações, como o uso indiscriminado de bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha, prisões por falsos flagrantes e outros expedientes do tipo não estavam sendo suficientemente eficazes para “pacificar” as ruas. A prova disso é que, após milhares de manifestantes feridos ou gravemente feridos, centenas de presos, alguns mortos e muito ataque sujo por parte dos aparelhos de relações públicas da repressão, isto é, da mídia corporativa, a greve dos professores no Rio de Janeiro ainda arrastava dezenas de milhares às ruas; as greves selvagens pipocavam por todo o país, angariando apoio de outras categorias e o MTST parava São Paulo novamente através de passeatas que concentravam mais de vinte mil pessoas. “O que estava falhando?”, perguntavam-se editorialistas, empresários, prefeitos, governadores e o alto-comando das suas respectivas polícias. A Copa estava chegando e o povo não saía da rua. Era preciso adotar uma nova estratégia.

Observando atentamente os meios empregados pelas forças de repressão contra os protestos em diversas cidades brasileiras após o início da Copa do Mundo, apreendemos as lições extraídas pelo Estado. Não, os meios coercitivos em si não estavam errados. Eram apenas dispostos de maneira equivocada, ou faltavam-lhes a intensidade e o momento adequados para que o objetivo fosse alcançado. Faziam falta novas disposições táticas aos grupamentos policiais para que os protestos deixassem de dispor de condições físicas, jurídicas e psicológicas para acontecerem. Foi montada, assim, a estratégia do Não vai ter protesto, cujas combinações táticas analisaremos a seguir, utilizando, para isso, depoimentos de manifestantes, reportagens publicadas nas mídias corporativas e ativistas, as minhas observações durante os protestos, além de fotos e mapas que ilustram o estado de “segurança” criado para a Copa (e além?…).

TÁTICA 1: O CERCO VIA “POLICIAMENTO DESPROPORCIONAL”

Esta tática consiste no emprego de forças de segurança, em especial tropas do Batalhão de Choque – equipados com máscaras, armaduras (ao estilo “Robocop”), cães, armas elétricas e coisas do tipo – em um número superior ou, se possível, muito superior ao número de manifestantes em um protesto. O objetivo precípuo desse expediente é cercar por todos os lados os manifestantes em um momento em que o ato ainda conta com poucas dezenas de pessoas, forçá-los a passar pelo cerco policial para chegar ao local de concentração dos atos – ou mesmo negar o acesso aos que desejam entrar –, controlar todos os movimentos das passeatas, podendo deixá-las imobilizadas quando necessário, além de intimidar tanto os que participam quanto os que observam o protesto. Esta quantidade e disposição das forças de repressão preparam o terreno para os próximos passos.

Vimos esta tática ser empregada pela Polícia Militar em diversos atos desde o início da Copa, ocorridos em diferentes estados brasileiros. Os primeiros foram na capital paulista, no dia da abertura do Mundial, 12 de junho. Pela manhã, o cerco foi realizado para impedir a realização do protesto, convocado pela frente Se Não Tiver Direitos, Não Vai ter Copa, com concentração na Estação Carrão do Metrô. À tarde, o sítio policial seria contra o protesto convocado pela CSP-Conlutas em frente ao Sindicato dos Metroviários, em desagravo à morte dos 13 operários em obras relacionadas à Copa e pela readmissão dos 42 trabalhadores demitidos após a greve dos metroviários. O site da Rede Brasil Atual relata assim o cerco:

“Convocadas para a manhã de hoje (12) na zona leste de São Paulo, as duas manifestações de rua que pretendiam criticar a realização da Copa do Mundo horas antes da abertura do torneio foram dura e inexplicavelmente reprimidas pela Polícia Militar. Com um efetivo multitudinário, a corporação sitiou toda a região no entorno das estações Tatuapé e Carrão do Metrô, onde os manifestantes haviam combinado de se encontrar para saírem em passeata. Dezenas de caminhões do choque, viaturas e motocicletas estavam apoiadas por helicópteros e cavalaria. A violência das forças de segurança foi tão grande que as marchas sequer chegaram a ocorrer.”

(“Violência da PM censura manifestações contra a Copa em São Paulo, por Tadeu Breda, 12/06/2014, Rede Brasil Atual)

Em Belo Horizonte, no dia 14 de junho, foi a vez do ato convocado pelo COPAC (Comitê dos Atingidos pela Copa), com concentração na Praça Sete, sofrer o cerco. O relato de Larissa Veloso, ativista do coletivo Tarifa Zero, indica que centenas de policiais da Tropa de Choque e da Cavalaria cercavam a concentração da manifestação, impediam as pessoas de se juntar aos que já estavam na praça e intimidavam os que desejavam sair de lá. Após ser impedida de chegar ao ato por uma rua, Larissa tenta um outro acesso e interpela o policial que igualmente bloqueava a praça:

“– Com licença, o que está acontecendo?
– Não pode passar.
– Mas e como eu faço para chegar na Praça Sete?
– Dá a volta, aqui não pode passar.

Dei a volta e tentei pela rua Rio de Janeiro. Dei de cara com o mesmo cordão de armamentos.

– Moço, por favor, como eu chego na Praça Sete?
– Não está podendo entrar não.
– Mas ninguém está podendo chegar até a praça? Por quê?
– Se você quer sair lá na Afonso Pena, é só contornar.
– Não, eu não quero contornar a praça.
– Onde você quer ir?
– Eu quero ir na manifestação.
– Então não pode passar.

(Uma democracia dentro do cerco da polícia, Tarifa Zero BH, 18/06/2014)

Os cerca de trezentos manifestantes que estavam na praça permaneceram cercados até o final do jogo, que ocorria no estádio do Mineirão, quando, então, os policiais finalmente abriram o acesso para a Avenida Amazonas, utilizado pelos manifestantes para seguirem, após deliberação, para a praça da Estação.

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Cerco via “policiamento desproporcional” ao protesto do dia 14/06/2014, na Praça Sete, Belo Horizonte. Foto: Larissa Azevedo.

Ainda veremos, nas seções seguintes, outros exemplos da tática do cerco via “policiamento desproporcional”, objetivando, com isso, demonstrar como ela se articula a outras táticas para impedir a realização dos protestos. Mas, antes de passarmos para o próximo esquema tático, é preciso oferecer o devido destaque ao cerco exemplar montado pela PM de São Paulo na noite do dia 01 de julho, durante o Debate Democrático Pela Libertação dos Presos Políticos, um ato público organizado pela frente Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa. Eis o mapa do cerco, elaborado pelo grupo Advogados Ativistas, grupo que teve, inclusive, alguns de seus integrantes agredidos e detidos pela polícia:

Mapa-PM

Disposição das forças táticas da PM de São Paulo durante o cerco via “policiamento desproporcional” montado para impedir  a realização de um debate público no dia 01/07/2014. Mapa: Advogados Ativistas

O círculo amarelo indicado no mapa acima não é uma célula da Al Qaeda descoberta em São Paulo. Tampouco é o bunker de Hitler sitiado pelos soviéticos. Representa, simplesmente, o local onde se encontrava a mesa do debate público. Esse mapa é a prova de que não há exagero quando fazemos alusão às táticas militares de sítio aos protestos. Os mesmos Advogados Ativistas relatam como o cerco foi montado e a maneira como procedeu:

“Antes mesmo do início do debate, a praça já se encontrava totalmente sitiada pelas seguintes forças militares: polícia militar ordinária, cavalaria, tropa de choque, Rocam e “tropa do braço”. (…) O local e todos os acessos a ele encontravam-se sob controle completo da PM, de modo que para se aproximar dali era preciso submeter-se à revista pessoal, apresentação de documentos e fornecimento de dados pessoais. Uma situação em que o livre direito de manifestação foi completamente restringido pelo Estado, sem qualquer justificativa para a flagrante desproporção entre o efetivo da PM e a população.

Evidentemente, tal efetivo estava ali para garantir que o ato fosse esvaziado pela intimidação. A perversidade do Estado mais uma vez deixou a todos perplexos com um controle social em tudo injustificável, no impedimento do exercício de reunião, manifestação e liberdade de pensamento.”

(“Corpo estranho em praça pública prende advogados“, Advogados Ativistas, 02/07/2014)

É justamente disso que se trata: o direito constitucional de livre reunião e o direito de ir e vir suspensos pelo emprego de forças policiais militarizadas. A esse estado de coisas costumava-se definir como estado de exceção. Então chamemos as coisas como elas são.

TÁTICA 2 (OFFENSIVE): O ATAQUE POLICIAL PREVENTIVO

Outra tática utilizada pelas forças de repressão do Estado, dessa vez para encerrar as manifestações sob ordem do comando da operação, é o ataque policial preventivo, que é o uso da violência da polícia, mediante bombas de gás, spray de pimenta, balas de borracha e prisões arbitrárias antes mesmo que os manifestantes tenham provocado qualquer distúrbio à “ordem” (afora o fato de exporem no espaço público seu inconformismo para com a ordem). Esta tática, por si só, não é nenhuma novidade, uma vez que a polícia, desde sempre, é quem costuma provocar os distúrbios e causar a violência que, em seguida, busca controlar, a um só tempo legitimando seus abusos e deslegitimando os protestos. A novidade está na combinação do ataque policial preventivo com o cerco via “policiamento desproporcional”. Encurralados por um contingente policial muito superior ao número de presentes nos atos, os manifestantes, atacados preventivamente, contando feridos e detidos, perdem rapidamente a disposição de permanecer no protesto e dispersam, encerrando-se assim a manifestação no momento desejado pela polícia, e não pelos manifestantes.

A matéria da Rede Brasil Atual, que reportamos anteriormente, relata que, em São Paulo, no dia 12 de junho,

“[a]ntes da chegada dos manifestantes, três linhas de soldados do batalhão de choque já estavam em formação de ataque do lado de fora da estação, com escudos, armas e bombas de gás lacrimogêneo. […] Após um leve bate-boca entre soldados e cidadãos revoltados com a magnitude do aparato policial, às 10h15, a tropa deu início à ofensiva, lançando bombas de gás lacrimogêneo contra as não mais de 50 pessoas que, então, estavam por ali. Ao menos uma delas foi detida. […] Depois da correria, os manifestantes tentaram se reagrupar ao redor da estação Carrão do Metrô. E passaram a gritar palavras de ordem contra os policiais que acabavam de agredi-los gratuitamente. “Não acabou, tem de acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”, bradavam. A reação da tropa não tardou, e veio com mais uso da força. Quinze minutos depois do primeiro ataque, por volta das 10h30, uma nova investida policial acabou ferindo uma jornalista da rede de televisão norte-americana CNN. A repórter foi atingida no pulso por um estilhaço de bomba de gás lacrimogêneo e atendida por socorristas voluntários do Grupo de Apoio ao Protesto Popular (Gapp) até a chegada dos bombeiros.”

Após dois ataques seguidos contra os manifestantes, que então já começavam a se dispersar, a PM resolveu agredir deliberadamente as dezenas de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas brasileiros e estrangeiros que registravam a operação. Às 10h40, um policial sem etiqueta de identificação saiu detrás da linha de escudos e lançou uma bomba de gás na direção dos profissionais. A RBApresenciou que, ao todo, contando com a jornalista norte-americana, pelo menos cinco pessoas acabaram feridas por estilhaços nos braços e nas coxas. Entre elas estava um morador de rua.

[…] Às 11h, uma hora depois do pretendido início de um protesto que nunca aconteceu, os arredores da estação Carrão estavam liberados. “A gente não conseguiu nem se ajeitar direito, nem entrar na concentração, e eles começaram a dispersar totalmente. Fecharam as ruas e lançaram bombas por todos os lados”, explica Marcela, militante do coletivo Território Livre, um dos grupos que haviam convocado a manifestação. “Eles quiseram ‘cortar o mal pela raiz’. Não deixaram nem que iniciássemos o ato”.

A reportagem relata ainda que, no ato seguinte, convocado pela CSP-Conlutas, o ataque preventivo da polícia também ocorreu, impedindo que a manifestação acontecesse na rua:

“Não demorou para que outro grupamento fortemente armado da PM viesse em sentido contrário e encurralasse na Rua Serra do Japi as cerca de duas mil pessoas que haviam atendido ao chamado da CSP-Conlutas. Revoltados com o acosso policial, jovens mascarados começaram a hostilizar verbalmente a tropa, que respondeu descarregando sua munição. Então instalou-se um confronto entre rapazes com pedras, que tentavam barrar o avanço da PM com pequenas barricadas, e soldados com escudos, armaduras e artefatos menos letais. Pelo menos um fotógrafo feriu-se com estilhaços em toda a perna – mas não foi o único.

A situação se agravou quando, por volta do meio-dia, a polícia avançou sobre os manifestantes que estavam postados pacificamente diante do sindicato. Como a tropa não se sensibilizou com os gritos de “Chega de bomba, de repressão, é meu direito estar na manifestação”, os organizadores do protesto resolveram usar o carro de som para pedir que as pessoas entrassem na sede do sindicato. “Estamos encurralados. Não temos condições de enfrentar a PM”, apelavam os autofalantes. “Vamos abrir os portões, entrar e dar continuidade ao nosso protesto lá dentro.” Os manifestantes assentiram e continuaram tocando seus tambores no interior do prédio. Lá, estavam a salvo das agressões, mas não dos efeitos do gás lacrimogêneo.

Sem a menor possibilidade de diálogo com a PM, os organizadores do protesto decidiram, às 12h50, encerrar o ato. Ao microfone, o presidente do Sindicato dos Metroviários pediu aos manifestantes que ainda estavam na rua que adentrassem à sede da entidade para que, depois, pudessem “negociar” sua saída com o comando policial.”

No Rio de Janeiro, no ato contra os abusos da organização da Copa do Mundo, convocado para o dia 12 de junho, cuja concentração foi em frente à igreja da Candelária, no Centro, e seguiu pela avenida Rio Branco e o passeio até os Arcos da Lapa, o cerco via “policiamento desproporcional” ocorreu ao fim, no destino previsto pelo ato, e não na sua concentração, conforme eu mesmo pude presenciar. E foi também na parte final do protesto, já contando com o cerco, que o ataque preventivo se deu. Aproximadamente meia hora após a concentração final do protesto, quando ainda algumas centenas de manifestantes se reuniam e confraternizavam pacificamente, um professor foi detido arbitrariamente. Sua detenção despertou a solidariedade de outros manifestantes, que tentaram resgatá-lo dos policiais, o que provocou novas detenções, outras tentativas de resgate e, finalmente, o uso de bombas de gás pela polícia. No total, cinco manifestantes foram detidos e, poucos minutos após o ataque, a manifestação já estava completamente dispersa.

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Um professor que participava do protesto contra a Copa é arrastado por Policiais Militares durante o ataque preventivo, que pôs fim ao ato do dia 12/06/2014, na Lapa, Rio de Janeiro. Foto de autor desconhecido.

TÁTICA 3 (JOGADA ENSAIADA): AS DETENÇÕES POR FALSOS FLAGRANTES COLETIVOS

Se dentro de campo o escrete comandado por Luís Felipe Scolari tem mostrado pouca criatividade e certo descontrole das situações de jogo, fora dele as forças da repressão aos protestos andam esbanjando variações táticas para fazer valer a estratégia do não vai ter protesto. Além dos já abordados cerco via “policiamento desproporcional” e o ataque policial preventivo, a Blietzkrieg da nossa Seleção de Chumbo (a “pátria de coturnos”) se complementa ainda com as detenções de manifestantes mediante falsos flagrantes coletivos, golpe que pode ser aplicado antes, durante ou depois dos protestos de rua.

Uma ressalva importante: detenções por falsos flagrantes são práticas corriqueiras das polícias do Brasil e do mundo quando se trata de criminalizar as manifestações. Nos protestos de rua ocorridos desde o início da Copa, acumulam-se os registros de manifestantes detidos por tal ardil. A título de exemplo, durante a manifestação do dia 23 de junho, convocada em São Paulo pela frente Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa, o professor e assistente de informática Rafael Marques e o funcionário da Universidade de São Paulo, Fábio Hideki, foram presos arbitrariamente e acusados com base em flagrantes forjados pela polícia. Fábio estava indo embora do ato, já nas escadarias do metrô, quando, após uma explosão, foi detido pela PM. Agora ele responde por porte de explosivos e formação de organização criminosa, apesar de não ter sido encontrado nada dentro de sua mochila durante a revista policial, testemunhada inclusive por advogados. Rafael Marques foi preso sob a mesma falsa acusação de formação de organização criminosa e incitação à violência. (o relato das prisões e o acompanhamento das tentativas de libertação do sequestro de Estado ao qual os dois manifestantes foram submetidos podem ser encontrados aqui na revista eletrônica Passa Palavra).

Se prender manifestantes por falsas acusações já fazia parte do repertório da repressão, uma inovação tática, ao menos pelo que eu saiba, é a modalidade dos falsos flagrantes coletivos, isto é, contra vários manifestantes de uma só vez. Pois tal modalidade foi empregada na repressão ao ato do dia 17 de junho, no centro do Rio de Janeiro, dia do jogo Brasil x México. As arbitrariedades da polícia na prisão de manifestantes foi tanta nesta ocasião, que nem mesmo a reportagem do jornal O Globo conseguiu dissimular os abusos. Em meio a um texto que emprega o velho recurso dos sentidos depoimentos de pessoas descontentes com os transtornos provocados pelo protesto – num exercício de deslegitimação que consta no manual interno de redação do referido jornal –, a notícia indica que

“Mais cedo, ainda na Candelária, local da concentração, um grupo de oito estudantes da Uerj, com roupas coloridas, rostos pintados de tinta preta e usando latas para improvisar uma bateria, chegou fazendo uma performance. Quatro acabaram detidos, e as latas apreendidas pela PM.”

(“PM detém 15 e usa gás de pimenta em protesto com cerca de 50 manifestantes, por Antonio Werneck, O Globo, 17/06/2014)

Ignorando solenemente a prática do bom jornalismo, a reportagem não nos deixa saber o motivo da detenção dos quatro estudantes, mas dá testemunho da tática do cerco via “policiamento desproporcional”, quando informa que

“Um protesto contra a Copa do Mundo, que reuniu no máximo 50 pessoas, terminou com 15 manifestantes detidos, segundo a Polícia Militar. Eles foram levados para a 21ª DP (Bonsucesso) e para a 22ª DP (Penha). Além da baixa adesão, também chamou a atenção o forte esquema de segurança: pelo menos cem policiais militares, de diversos batalhões, atuavam no entorno da Igreja da Candelária, onde os ativistas se reuniam.”

(Por que foram detidos? A reportagem não diz nada a respeito). Em seguida, a matéria relata um acontecimento inusitado, do qual, para variar, não dá muitos esclarecimentos, salvo a certeza de que, doravante, o direito constitucional de ir e vir só é válido desde que não seja ir para ou vir de protestos. Lê-se que, “[n]o momento mais tenso da manifestação, cerca de 30 pessoas que tentavam chegar a Copacabana, embarcaram em um ônibus da linha 455 (Méier/Copacabana) na Cinelândia”. Após uma passageira ter se sentido mal, por motivo ignorado pela matéria, “os PMs usaram spray de pimenta e detiveram quatro pessoas alegando desacato.” Parágrafos depois, relata-se – com a notória naturalidade que um órgão de imprensa como O Globo noticia os descalabros da nossa “democracia” e suas “revoluções” – que “o ato foi dispersado [a voz passiva aqui não é por acaso] por volta de 20h, quando o coletivo da linha 455 foi liberado.” Uma informação importante: Copacabana, destino do referido coletivo retido pela polícia até o ato “ser dispersado”, é onde foi montado o circo da Fifa Fan Fest.

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PMs aguardam os manifestantes para executar o cerco a mais um protesto contra a Copa do Mundo, no centro do Rio, no dia 17/06/2014. Foto: Pablo Jacob/ Agência O Globo.

Se o leitor do jornal não tiver a sorte de conhecer um manifestante, policial ou testemunha do ocorrido, ficará sem saber dos “detalhes” envolvendo os estudantes com latas, os cerca de 30 passageiros do ônibus presos até as 20h, o motivo da tal passageira ter passado mal e os 15 manifestantes detidos. Por sorte minha, eu conheço uma das manifestantes que tentou participar do ato, uma moradora da favela da Babilônia e ativista dos direitos humanos, a qual, perplexa diante da inovação tática da PM, publicou na sua rede social o seguinte relato:

Quando cheguei na Candelária achei que tinha caído ‘sem querer’ em algum ato da PM. Mas não, era o efetivo de hoje mesmo. E arrisco dizer que esse dado não contabilizou os que estavam a cada esquina da Rio Branco. Obviamente que não teve o ato e quando as pessoas tentaram ir embora, eles também não deixavam, começaram a fazer revistas e levaram os primeiros detidos. Nem andar na rua foi permitido, apenas pela calçada. Metrôs fechados! Combinamos sairmos todos juntos, de ônibus. Caminhamos até a Cinelândia. As pessoas entravam pacificamente pela porta da frente, pagando passagem. Então o PM googleglass foi até o motorista e pediu para ele abrir a porta de trás, para liberar rápido a rua. Após as pessoas entrarem, acreditando que iam para Copacabana, robocops começaram a entrar também e o googleglass voltou até o motorista e falou ‘Sinto muito, você deu azar, não vai poder sair com o ônibus.’ Tentaram prender as pessoas em flagrante por não pagar passagem! Começou uma confusão, pessoas que não estavam no protesto e estavam no ônibus começaram a querer sair e pulavam a roleta para não irem para a delegacia. Foi o caos! Na confusão do entra e sai, manifestantes entraram em conflito com policiais tentando impedir que levassem os que restavam dentro do ônibus presos. O comandante Cegala, o mesmo tosco que fez a desocupação da ocupação da defensoria e que esbarro toda hora, mandou o ônibus seguir para a delegacia com a gente dentro, acompanhados por policiais, mas parou poucos metros a frente e mandou a gente descer. Incrível! Tentaram forjar um flagrante em massa. Essa polícia é uma vergonha! Acho que hoje foi um sinal que vão começar a desconstruir os atos pela concentração.”

Sim, companheira. Foi, de fato, um sinal. Um sinal de que o estado de exceção decretado sem muito alarde para pacificar a Copa do Mundo um ano após os maiores protestos de rua da história recente do país irá, como você diz, “começar a desconstruir os atos pela concentração”, ou no decorrer deles, ou no momento arbitral em que as ordens superiores dos dirigentes da nossa “democracia” chegarem à soldadesca. É um sinal de que o essencial de Junho já foi assimilado pelo Estado brasileiro: uma minoria organizada pode criar uma situação que fuja do controle tanto da máquina repressora quanto da mesa de cooptação e fazer recuar vinte centavos, e depois mais vinte, até sabe-se lá onde… Por via das dúvidas, a fé pública das nossas instituições militares estará aí para dar uma força e garantir que não haverá protesto, mediante o emprego de todos os meios necessários e disponíveis. Pode isso, Arnaldo? Será esse o maior legado da Copa à “democracia” brasileira?

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Paulo Arantes, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Eduardo Tomazine, 31 anos, é professor substituto de Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando pela mesma universidade. Orientado por uma matriz político-filosófica autonomista, tem procurado compreender o papel dos ativismos na transformação social, bem como “mapear” os seus obstáculos, em especial no que diz respeito à produção do espaço urbano. Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o dossiê /megaeventos.

Não chores por mim seleção brasileira

14.07.03_Jorge Luiz Souto Maior_Não chores por mim seleçãoPor Jorge Luiz Souto Maior.

A grotesca anedota de que a Copa no Brasil seria importante para que enfim os europeus soubessem que a capital do Brasil não é Buenos Aires parece ter encontrado um eco invertido na realidade, pois a partir de imagens descontextualizadas que venham a se divulgar dos jogos da seleção brasileira é possível que se imagine que a melancolia e o drama do tango argentino formam a característica da nação brasileira, que, ademais, fisionomicamente, não se encontra completamente representada na torcida.

As partidas da seleção brasileira, dada a carga emotiva que tomba sobre os jogadores e a comissão técnica, estão muito mais parecidas com um tango argentino do que com um samba brasileiro. Ou seja, se a ideia era “vender” a imagem do Brasil, isso não está dando certo. Cumpre deixar claro que parecer com a Argentina não é demérito algum, muito pelo contrário. Só que, como diria Jorge de Altinho, em gravação memorável de Geraldo Azevedo, “gosto de Juazeiro, mas adoro Petrolina”.

O problema é que o jogo comercial e os interesses políticos, acompanhados de intensa mídia, debruçaram sobre os ombros dos jogadores (e da comissão técnica) da seleção brasileira a carga dos destinos da nação. E o que se tem visto é que os jogadores estão desabando emocionalmente. Tentam, com muito esforço, canalizar positivamente a energia, mas a carga é muito alta e acabam ficando pesados e, no final, desabam.

É oportuno, sobre este aspecto, fazer um paralelo com o que se tem verificado no mundo empresarial, que já repercute também no setor público. Refiro-me às tais novas “estratégias de gestão de pessoal”, pelas quais, começando com elogios e estímulos, procura-se, por meio da imposição de metas quase sempre inatingíveis, extrair dos trabalhadores a maior produção possível, estratégias que se complementam com a pressão constante do desemprego e a técnica de comparações, colocando-se os trabalhadores uns contra os outros no processo de competição na busca de melhores resultados, que são publicizados, possibilitando o desenvolvimento de um ambiente de trabalho altamente assediante e moralmente deturpado, tudo maquiado pelas promessas de concessão de promoções e pagamento de prêmios, quando não se resume à mera garantia de manutenção do emprego, chegando-se mesmo a jogar sobre os ombros dos trabalhadores a responsabilidade pelo sucesso da empresa.

O que se verifica com os jogadores da seleção brasileira é exatamente a mesma coisa, com um grau de tensão, concentrada, muito maior. Primeiro, são afagados, quase endeusados. Depois, são cobrados, comparados e, alguns, descartados, tudo sob o peso da responsabilidade de que sua performance seja condicionante da solução dos problemas do país, sendo que nesta perspectiva o título é o único resultado aceitável.

O fato é que a condição humana não suporta a tensão provocada por situações como estas. E por mais que a ideologia empresarial tente vender a ideia de que o trabalhador deve saber lidar com as pressões, o limite humano sempre falará mais alto, impondo ao trabalhador uma retração do ritmo de trabalho, seja por acometimento de uma doença, seja por uma total aversão à situação, que provoca, ao contrário do pretendido, desestímulo e desânimo, o que prejudica o seu desempenho e, paradoxalmente, aumenta a cobrança que o trabalhador faz de si mesmo, gerando perda da autoestima e, no extremo, a loucura.

Mas, se ao meio empresarial parece cômodo lidar com essa situação, pois o trabalhador é tratado como um elemento descartável, que pode sempre ser substituído por outro, deixando-se o custo do assédio organizacional, que é o exército de doentes, com a Seguridade Social, a mesma ilusão se desfaz muito mais rapidamente quando falamos de uma seleção em um campeonato curto como a Copa do Mundo de Futebol. Ora, se o Paulinho vai mal, coloca-se o Fernandinho. Se o Fernandinho não corresponde, chama-se outro… Mas, há limites, pois são apenas 23 os jogadores, e quando se verifica que a pressão atinge o craque do time, que é insubstituível, percebe-se, claramente, como a estratégia de gestão é destrutiva, até porque não se fazem seleções, empresas e sociedades sem pessoas, sem tratamento humano e sem política de salubridade e sanidade.

E a dificuldade para os trabalhadores aumenta quando estes incorporam o discurso organizacional e tendem a ver a pressão como normal, atraindo para si toda a responsabilidade do sucesso próprio e da instituição.

É o que se verifica, concretamente, com os jogadores da seleção brasileira, que mesmo sofrendo as consequências de um assédio desumano culpam-se pelos maus resultados (se consideradas as expectativas criadas) e minimizam os efeitos deletérios da pressão, que são visíveis nos choros e nas fisionomias, assumindo-os como uma característica pessoal e chegando mesmo a encontrar uma justificativa altruísta para tanto.

O grande goleiro Júlio César disse que chorou antes da cobrança dos pênaltis porque é emotivo mesmo e, depois, dedicou as defesas que fez aos 200 milhões de brasileiros.

Mas, é importante que os jogadores tenham a consciência de que não devem suportar essa carga, que, de todo modo, é plenamente artificial, na medida em que, concretamente, os problemas sociais do Brasil não se resolverão caso a seleção brasileira se consagre campeã. Aliás, nem mesmo os problemas da preparação para a Copa serão corrigidos.

Ademais, a parte da nação brasileira que sofre as consequências da injustiça social, que não foi convidada para a festa nos estádios, está em luta por seus direitos e tem a plena consciência de que somente a sua atuação política, pelos meios que tiverem à sua disposição, é que trará as necessárias mudanças que precisam, sendo oportuno deixar claro que muitos daqueles que têm ido aos estádios, mesmo com uma condição econômica mais favorável, têm a consciência de que mudanças sociais são necessárias, pois a coesão de 200 milhões, juntos em torno da seleção, é uma ilusão que não resiste à realidade das diferenças econômicas, que se refletem social e culturalmente.

Vários setores da sociedade brasileira, que têm a percepção de que no modelo de produção capitalista o que se tem em concreto é uma sociedade de classes, estão em luta. E para os trabalhadores, por exemplo, a luta ainda será intensa, pois a assimilação do governo à lógica empresarial da preparação para a Copa lhes trouxe várias conseqüências negativas: a intensificação da terceirização, que agora está em risco de se consagrar em processo sob julgamento do Supremo Tribunal Federal; a proposta, em trâmite no Congresso Nacional, de minimização dos efeitos do trabalho em condições análogas à de escravo; a proposta, também em trâmite na mesma Casa, de retroceder na limitação da jornada dos motoristas e seus ajudantes; a suspensão, determinada pelo Ministério do Trabalho, da aplicação da NR 12 (Segurança em Máquinas e Equipamentos); o aumento do prazo do trabalho temporário; e a intenção, já anunciada, do governo federal em agradar o setor empresarial, para garantir a reeleição, o que pode viabilizar que se levem adiante propostas ainda mais precarizantes, como a de abrir espaço ao trabalho voluntário, utilizado em larga escala na Copa, nas atividades empresariais, conforme já chegou a sugerir Luíza Helena Trajano Inácio Rodrigues, titular da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, ao mesmo tempo em que dificulta, sobremaneira, o percurso do caminho no sentido contrário, qual seja, o da ampliação dos direitos dos trabalhadores, que requer, com urgência, a regulação, prometida desde 1988, da proteção contra a dispensa arbitrária, nos termos da Convenção 158 da OIT, a garantia de um efetivo direito de greve, inclusive no setor público, e a igualdade de direitos às trabalhadoras domésticas.

Os próprios jogadores de futebol, bem se sabe, pela instituição do Bom Senso Futebol Clube, que bem se poderia chamar Movimento Passe de Classe (conforme sugerido aqui), estão apenas nos primeiros passos para a consagração de seus direitos, individuais e coletivos, e muita luta ainda terão que implementar.

A superação das injustiças sociais, como preceito jurídico, é uma obrigação que se impõe, sendo certo que uma das maiores injustiças que se pode cometer é a de impedir que as vítimas da injustiça social e da intolerância tenham voz, mantendo-as órfãs de uma ação política institucional efetivamente voltada ao atendimento de suas necessidades.

A ordem jurídica está posta no sentido de coibir a intolerância e para reafirmar o compromisso, assumido internacionalmente, de respeito aos Direitos Humanos de índole social, reconhecendo, sobretudo, como fundamentais, os direitos de liberdade de expressão e de reivindicação, e constituindo um relevante instrumento para coibir todas as práticas repressivas, antissociais, antissindicais, antidemocráticas e discriminatórias.

O povo brasileiro está em ação e tem a perfeita consciência em torno da necessidade de lutar, tendo também a compreensão de que a luta não será fácil, carregada que segue de repressão e de criminalização, como vem ocorrendo com bastante intensidade na política de governo do Estado de São Paulo.

Ilustres jogadores e membros da comissão técnica da seleção brasileira saibam, portanto, que o povo brasileiro não está dependente da conquista do mundial para continuar sua luta. Claro que esses lutadores querem ver a seleção campeã, mas isso porque gostam de futebol e para poderem desfrutar de um justo e valioso momento de alegria. Um momento em paralelo à sua luta e não um substitutivo dela.

Só que esta alegria depende também de certa identidade cultural com a seleção. O que se quer ver, antes de tudo, são jogos de futebol, jogados com alegria e boa técnica, e não dramas, pois de dramas a realidade já está cheia, sendo certo que mesmo diante deles o povo brasileiro, como sempre realça Ariano Suassuna, não perde a leveza de espírito e um pouco de dramaticidade cômica.

Em suma, se não for para se engajarem em um discurso que pontue os problemas de uma sociedade social e economicamente injusta, denunciando os absurdos cometidos para a realização da Copa no que tange às remoções e aos imperativos da lógica do Estado de Exceção, apoiando, expressamente, a luta dos excluídos (sem-teto, sem-terra e desempregados), dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres, dos homossexuais, dos negros, dos índios, dos deficientes, o que seria uma força bastante importante, mas não essencial, até porque seria, cabe reconhecer, um ato bastante difícil e arriscado do ponto de vista profissional, o melhor mesmo é que os jogadores da seleção se visualizem como trabalhadores, que percebam o quanto é imerecida, artificial, exagerada e desumana a pressão que sofrem, e que busquem superar as dificuldades por meio de uma união interna, ao mesmo tempo em que, tirando dos ombros o peso dos problemas da sociedade, façam o que sabem fazer: jogar bola. E o façam com leveza, alegria e técnica, ao ritmo e ao balanço do samba, libertando-se do medo de errar e permitindo-se irreverência e improvisos.

Ou seja, deixem os problemas do país em outras mãos, não os carreguem nos ombros e os transfiram para os seus pés, pois isso os impede de flertar com o futebol arte, que não deixa de ser competitivo, por óbvio.

E se chorarem, porque chorar sempre é bom, não o façam em nome de 200 milhões de brasileiros, pois os que necessitam de mudanças estão em luta e sabem que deverão continuar lutando qualquer que seja o resultado da Copa e aqueles para quem a realidade está muito boa a Copa não é mais que um motivo para comemorar.

Enfim, fazendo um paralelo, também invertido, com o drama de Evita, a parcela da população em luta, se chamada a se pronunciar sobre o drama que se tem verificado nas partidas, diria: não chores por mim seleção brasileira!

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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BRASIL EM JOGO500

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Berlim, afinal Berlim

14.07.03_Flávio Aguiar_Berlim afinal Berlim[Capa da revista semanal alemã Der Spiegel de 12 de maio de 2014: "Morte e jogos: o Brasil diante da Copa do Mundo"]

Por Flávio Aguiar.

Toda a relação com qualquer cidade envolve amor e ódio. Por que com Berlim seria diferente?

Mas eu pensei que poderia ser. Mas não. Felizmente não. Porque a descoberta do ódio realça o amor existente.

Amo – assim com A maiúsculo – poucas cidades. A Porto Alegre onde nasci e cresci. A Porto Alegre da inesquecível Campanha da Legalidade de 1961. A Guaíba – Praia da Alegria (que nome, em frente à Praia da Tristeza, do outro lado do rio) onde passava férias, portal do pampa desabrido, onde gauchões enormes, caboclos curtidos pelo sol vinham entregar as boiadas ao matadouro, e depois iam passear com seus cavalos altaneiros na praia onde eu me banhava, minúsculo e maravilhado. Montreal – onde descobri a longevidade do inverno e a realidade dos confrontos culturais. A pequena Burlington, em Vermont, nos EUA, minúscula cidade que de totalmente provinciana passou a condição de vanguarda alternativa.

São Paulo, onde passei a maior parte da minha vida profissional, foi diferente. Aquilo foi um casamento. Como em quase todo casamento, amei algumas coisas e detestei outras. Amo o Butantã, a vizinha Itapecerica da Serra, o Centro Velho, entre outras coisas, e aquele ar de estar sempre pronta para tudo, a qualquer hora do dia e da noite. Detesto grande parte da burguesia da cidade, a mais reacionária e petrificada do país, e o consumismo que agora, como quase qualquer um pode consumir no país, se dirige a Miami.

Berlim: a cidade-história, com suas conquistas, dores e cicatrizes permanentes. A cidade de uma vida cultural intensa e ao alcance da mão e dos bolsos, pois há muita coisa de grande valor e muito barata. Berlim internacional sem ser falsamente cosmopolita. Berlim do transporte público bom e fácil. Berlim, nesta passagem entre ser o burgo dividido e meio provinciano que era e a nova metrópole-capital da principal economia da Europa. Até a Berlim do aeroporto que não consegue sair do chão eu amo, prova de que a “deutsche Effizienz”, afinal de contas, também é humana e tem seus Waterloos como a de qualquer outro país.

Mas nos últimos tempos Berlim me revelou aspectos odiosos de se viver aqui. Bom, isto também é humano, afinal de contas. Não me refiro ao tônus conservador que predomina em toda a política alemã, de que ela é a capital. Me refiro ao fato do Brasil ter entrado na mira do que de pior há na mídia local (e alemã, e europeia). Isto de levantar de manhã e ouvir pelo rádio o martelar de negatividades sobre o Brasil, onde, no fim de contas, nada há nem houve nem nunca haverá de bom. Onde os pobres serão para sempre pobres, os favelados para sempre favelados, os políticos para sempre corruptos, o país cheio, aliás, entupido de pedófilos, cafetões e prostitutas, o país da motosserra, da homofobia, do machismo grosseiro, enfim, tudo me lembrando a expressão  com que muitos oficiais nazistas descreviam o ponto final da linha do trem que ia até Auschwitz: annus mundi, o cu do mundo. Ou o fim do mundo.

E o martelar continuava pelo dia, na mídia escrita, nos noticiários de tevê à noite, sem parar, sem parar, sem parar. Aí veio o episódio da Embaixada do Brasil, que já comentei aqui. Um pequeno bando de juvenília foi lá na calada da noite apedrejar as suas vidraças. Oitenta pedradas, trinta e duas janelas partidas. Acho que o bando de coiós imaginava estar vivendo a sua grande praça Tahir, no Cairo, ou Tiananmen, em Pequim, ou ainda suas tardias jornadas de 68. Mas na verdade estavam vivendo a sua pequena, ridícula e anacrônica Krystallnacht, aquela em que os nazistas destruíram sinagogas e lojas de judeus em 1938. As pedras se dirigiam, agora em 2014, contra o símbolo de um povo considerado de segunda categoria, apedrejado continuamente pela mídia local. Estou sendo exagerado? Estou respondendo ao exagero da “cor local”. Avalizada pela circular do Ministério de Relações Exteriores dirigido aos eventuais viajantes sobre o perigo-Brasil.

Foi odioso. Ainda é. Nesta semana a revista Focus daqui – cuja capa Época copiou – publicou comentário dizendo que o jogo do Brasil contra a Colômbia se passaria na “capital do crime” – Fortaleza. Esquecem talvez que as grandes capitais do crime são as bolsas de Nova Iorque, da City londrina, Paris e – por que não – Frankfurt.

Mas na verdade agora tudo amainou. Como não houve a catástrofe esperada, ou até desejada, o show de incompetência e a inadimplência da Copa no Brasil não aconteceram, como na verdade os turistas e o bilhão ou mais de pessoas que assistem os jogos estão encantados com os espetáculos, do futebol à hospitalidade das gentes do Brasil, o assunto está morrendo pouco a pouco. E vai morrer. Pena que talvez venha a ser substituído pelos outros chavões de sempre: Brasil = praia, futebol, café e bundas de fora.

Não, muita gente não vai se convencer. Vai continuar repetindo que os estádios, depois da Copa, ficarão às moscas, sem se dar conta que o Mané Garrincha, por exemplo, recebeu pouco mais de 300 mil visitas em 36 anos de existência, mas que desde sua transformação na presente arena, recebeu em seis meses, 640 mil em 27 mega-eventos.

Porém é verdade: a tempestade amainou. Talvez apenas por falta de assunto. Os jornalistas que foram ao Brasil querendo encontrar apenas pobreza, miséria e desacerto, encontraram o que queriam. Afinal, em nosso país continuam existindo pobreza, miséria e desacerto. Mas fecharam os olhos para o resto. Pior: muitos insistem em fechar os olhos dos outros para o resto. Pior ainda: muitos destes outros querem mesmo fechar os olhos para o resto e sentirem-se felizes por suas vidas eurocêntricas. Que as vivam, e nos deixem em paz. Ainda creio na frase de Lincoln, segundo a qual é possível enganar alguns o tempo todo, todos por algum tempo, mas é impossível enganar todos por todo tempo.

Como a tempestade amainou, é possível voltar a desfrutar os amores de Berlim. Passear nas ruas, sentir o verão (apesar de sua entrada ter sido cheia de frio…) acariciando as árvores e as flores, ver os corpos se deliciando nos parques, jogados na grama com mais ou menos roupa – às vezes até com nenhuma – curtindo a vida.

E ver os jogos, na Copa mais eletrizante das últimas décadas. Haja coração!

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.