Tambeíba enchia o saco dos índios de língua tupi

14.11.02_Mouzar Benedito_Indios[Pictogramas na Cachoeira Resplendor, Pará]

Por Mouzar Benedito.

comentei neste blog sobre aves que existiam aqui antes da chegada dos portugueses, mas cujos nomes em língua tupi foram abandonados. É o caso, por exemplo, de beija-flor, pica-pau e joão-de-barro.

Mas isso não acontece só com aves. Muitos e muitos animais permanecerem com seus nomes tupis (como jacaré, cutia, capivara, paca…), mas alguns passaram a ser chamados por nomes não tupis. É o caso da cascavel, que em tupi é boicininga (palavra que significa cobra que chocalha) e do macaco-inglês, que tem o rosto bem vermelho, e recebeu este nome porque os ingleses que andavam sob o sol da Amazônia ficavam muito vermelhos também. Em tupi o nome dele é uacari (indivíduo velhaco).

Mico não é de origem portuguesa, mas também não é tupi, é genérico de macacos pequenos, vem de uma língua karibe. Aqui nós o chamamos também pelo nom tupi, que é sagui (olhos vivos), ou sauim (de sôo-in, bicho pequeno).

Mico-leão é considerado uma espécie de sagui, seu nome em tupi é saguipiranga ou sauimpiranga (sagui vermelho, mico vermelho).

Outro bicho nosso com nome português é o ouriço-cacheiro. Em tupi, seu nome é cuandu que significa ligeiro e rumoroso; ou cua (cintura) ndu (cauda capaz de pegar, segurar). Outra versão sobre seu nome é que ele significa “o que faz pavor na roça”. Mas parece que o mais lógico é que seu nome signifique mesmo “muitos espinhos”. Pode ser também cuim (compridinho ou língua pequena, ou inquieto). Uma espécie de ouriço-cacheiro é chamado de queiroá ou queiroã, que significa “espinhos eriçados”.

Lagartixa em tupi é aimberê (que é também nome de homem), palavra que significa aquele que se contorce. Já o bicho-preguiça tem um nome onomatopéico em tupi, é aí ou aígue. Nunca ouvi o som que ele emite, mas dizem que é esse.

O nome genérico de morcego é bopi (o que fura a pele), mas tem o andirá, que significa morcego que tem chifre.

Queixada é taiaçu ou tajaçu (dente grande) e também tacuité.

Carrapatos, gafanhotos e outros bichos

Quanto aos insetos, parece que os portugueses renomearam quase todos. Vamos ver alguns deles.

Gafanhoto em tupi é tucura (bicho voraz), e seu nome aparece, por exemplo, no nome do bairro paulistano do Tucuruvi (gafanhoto verde) e na usina de Tucuruí (rio do gafanhoto).

Louva-a-deus é caajara (senhor do mato) ou emboici (mãe da cobra). Libélula (também conhecida como lavadeira ou lavandeira, talvez por “morar” em rios) é jacina (deitada na lua) ou jacatinga, palavra que significa árvore fétida, mas no caso da libélula deve ser “o que tem a cabeça branca” ou “o que tem o peito branco”.

Carrapato é jatevoca (o que racha com o ferrão), jatebuca, jateúca, jatevu, jatiúca (jati é pontudo, jatiúca é o que finca a tromba), e tem o carrapato-estrela, que é chamado de jatebuçu (carrapato grande). Bicho-de-pé é tunga (o que come). Pulga é tungaçu.

E vocês pensam que índios não pegavam aquele bichinho desgraçado chamado chato? Ora, pegavam, sim, e seu nome em tupi é tambeíba (o que se apega aos pelos do també – e també, é o nome da xoxota). Mas é chamado também de quibarana (semelhante ao piolho), já que o nome de piolho é quiba.

Grilo é jaqui ou iaqui (irrrequieto, agitado). Mas aqui entra uma dúvida minha: cigarra, que para os índios não passa de um piolho grandão, é jaquirana (o que é semelhante ao piolho, e a tradução literal seria “semelhante ao grilo”). Mas a cigarra é chamada também de guaruçu, o que é muito esquisito porque guaru é peixe comilão.

E já que o assunto é piolho, a centopeia, que popularmente é conhecida como piolho-de-cobra, em tupi tem o nome exatamente com esse significado: boiquiba (mboy é cobra e quiba é piolho), mas ela é chamada também de embuá, que pode significar pelos erguidos (viria de ambo-ã). Mas será que o “embu” de embuá não veio de mboy, que é cobra em tupi? A cidade de Embu, em São Paulo, deriva dessa palavra.

Percevejo é taminguá (pequeno comedor), tambejuá, pixuca ou pixunga (nome que davam ao fumo de corda de qualidade ruim).

Vagalume é uauá, mas pode ser também muá, uã ou cuici. Só consegui descobrir o significado de uã, que é uma derivação de anga, e significa alma.

Barata é arabé (o que é chato, rasteiro), mas besouro também é chamado por esse nome.

Lacraia aparece como japeguá (que tem “casca” redonda), mas japeguá no guarani falado até hoje no Paraguai é caranguejo e também escorpião.

Vespa é caba, caua ou cava (o que fere). Gusano é ibiraçoca (verme da madeira). Lesma e sanguessuga têm o mesmo nome, cumbe (língua achatada ou longo e achatado) – cum pode ser língua ou longo.

Aranha é nhandu (a que sente, sensitiva), e caranguejeira é nhanduaçu (aranha grande – mas esta palavra pode também significar ema grande, pois nhandu é também nome tupi da ema – neste caso, nhandu significa perna de correr, corredora).

Mosca é mberu, meru, e varejeira é merobi (mosca verde). Muriçoca (o nosso pernilongo) é “meru pequeno”, mosquito, e o borrachudo é pium (mosquitinho). “Beru”, às vezes, tem outra pronúncia, como no caso de Birigui (cidade paulista) e Barigui (parque de Curitiba), e também significam mosquitinho.

Já o barbeiro (chupão) é brocotó ou procotó – o que sacode a gente (quando pica).

Vermes que dão em frutas (e também caruncho) são chamados de açoca ou içoca (o que quebra fruta). Já a mosca do desgraçado do berne, que em vez de furar frutas bota ovos na pele da gente e dos animais, e seus “filhotes” entram pele a dentro crescem ali, provocando dor, chama-se ura (nasce dentro).

Borboleta é panamã (pa: bater; amã: levantar – o que se bate se levantando). Vale panamá também. Pode ser só panã (bater, malhar) ou paná. Borboleta que vive em bandos é panapanã. Em guarani é panambi, palavra usada para mariposa em tupi.

Peixes e outros que vivem nas águas

Entre os peixes, há o caso do dourado, que é simplesmente uma tradução de piraju, nome dele em tupi.

Alguns preservam mais ou menos o nome tupi, ao lado do português, como é o caso da enguia, que em tupi é muçum (significa o que desliza, escorregadio).

Mas muitos receberam nomes que nada têm com os originais do tupi. Arraia é jabebira (o que tem a pele estufada, encaroçada). Bagre é jundiá (cabeça com espinho – alusão à barbatana). Cascudo é chamado acari, cari e juruitaquara (o que fica deitado no buraco da pedra, na loca).

O peixe-boi, que não é boi e sim um mamífero, é conhecido aqui também pelo nome de manati, palavra da língua do povo Taino, do caribe, e significa peito de mulher. Os povos de língua tupi o chamavam de guaraguá, palavra que pode ter três significados, conforme a interpretação: peixe gordo, peixe redondo e morador das enseadas.

E continuamos com os bichos aquáticos. Uçá é o nome genérico de todos os caranguejos de unha pontuda, Significa “olhos na perna”, porque parece que ele tem mesmo olho na perna.Um caranguejo que permaneceu com o nome tupi no Nordeste é o guaiamum (o indivíduo do buraco, ou o encovado).

Camarão, todo mundo deve se lembrar que é poti, pois aparece no gentílico de quem nasce no Rio Grande do Norte, potiguar (comedor de camarão). E um líder indígena que participou da expulsão dos holandeses chamava-se Poti e depois foi batizado como Felipe Camarão. Mexilhão é sururu (o bicho tímido, ou encharcado);

E chegamos às rãs, cujo nome genérico em tupi é jia. Sapo em geral é cururu (não só o que nós chamamos por esse nome em português), palavra que significa rugoso. O sapo-boi e o sapo-de-chifre são chamados de intanha ou intão, uma adaptação de ji (rã) tã (forte).

Bom, termino por aqui. E já que terminei falando de sapo, lá vai um ditado caipira envolvendo o dito-cujo, mas em português mesmo: “Sapo não pula por boniteza, pula por precisão”.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

As esquerdas na encruzilhada: eleições, crise do centrismo e o quadro político brasileiro

14.11.01_Carlos Eduardo Martins_EsquerdasPor Carlos Eduardo Martins.

A QUEDA DE VOTOS DO PT E SUAS RAZÕES

As eleições no Brasil, vencidas por Dilma Rousseff, registram o acirramento da luta política no país, o que se manifesta pela estreita vantagem eleitoral obtida e recuo expressivo da representação parlamentar do Partido dos Trabalhadores (PT), pela votação marginal das esquerdas e o avanço significativo dos setores conservadores no Legislativo. A diferença eleitoral em favor do PT nas eleições presidenciais se manteve estável entre 2002 e 2006, na faixa dos 22% dos votos válidos, mas a partir de 2010 caiu para 12,1% e em 2014, para apenas 3,3% destes. No Parlamento, o PT conquistou 70 cadeiras, em 2014, perdendo 21 em relação ao seu melhor resultado, alcançado em 2002. O Congresso eleito é considerado o mais conservador desde 1964 e nele as bancadas sindicais e dos movimentos sociais perderam mais de 50% de seus representantes

Como explicar este descenso da votação do Partido dos Trabalhadores e o desempenho pífio das esquerdas, especialmente após os protestos de junho de 2013 que levaram mais de um milhão de pessoas às ruas em todo o país e a confrontações bastante violentas?

Ao meu ver, este descenso está vinculado a uma inadequação de estratégias para lidar com a nova conjuntura que emerge a partir da década de 2010. Esta conjuntura está marcada por restrições econômicas internacionais que impulsionam as internas e limitam o espaço estrutural do centrismo, afetando a América Latina no seu conjunto e impulsionando uma situação social populista. As restrições internacionais se referem à interrupção do ciclo de boom das commodities, queda de superávits comerciais, e limitações a partir de 2012 nas entradas de capitais estrangeiros. Elas diminuem os excedentes que compõem a taxa de lucro do grande capital nacional e estrangeiro e restringem o espaço para as políticas distributivas e de ampliação do mercado interno, que se chocam com os limites da superexploração, característica estrutural do capitalismo dependente.

A situação social populista, tal como descrita por Ernesto Laclau, em seu livro La razón populista (2005), é marcada pelo predomínio das demandas equivalenciais sobre as demandas diferenciais, próprias dos Estados liberais, e se estabelece quando o espírito nivelador prevalece levando os indivíduos a constituírem uma unidade, o povo, como sujeito social em busca de uma interpelação que lhe revele as razões da condição de exclusão em que se encontram e o inimigo a ser vencido. Diferentemente, o Estado liberal se coloca como o de todos e atende às interpelações dos indivíduos verticalmente, de cima para baixo, evitando polarizações e o primado da lógica da confrontação. No Estado liberal, a unidade das demandas dos indivíduos é minimizada e estes assumem o seu lugar numa sociedade civil estratificada, burguesa, buscando seus interesses privados e diferenciados, sem apelar à construção de um sujeito coletivo, uma vez que cabe ao Estado articular a totalidade.

A SITUAÇÃO POPULISTA NO BRASIL E SEUS EFEITOS

Junho de 2013 revela o surgimento no Brasil exatamente de uma situação social populista, onde o acumulo de tensões leva os indivíduos com as demandas mais diversas a identificarem-se mutuamente, criando mobilizações de massa que quebram os princípios de funcionamento do Estado liberal em vários níveis ao:

  1. criarem um sujeito coletivo que rompe com o mecanismo verticalizado e hierarquizado de interpelação e com sua temporalidade, lenta e moderada para o atendimento de demandas;
  2. estabelecerem uma polarização social que rompe com a concepção de uma sociedade homogênea e diversificada, indicando a existência de uma exclusão permanente e estrutural imposta por grupos sociais minoritários às amplas maiorias;
  3. buscarem a nomeação de um inimigo, que responsável pela exclusão permanente e estrutural, deve ser vencido.

As estimativas sobre o perfil das massas que saíram às ruas em junho de 2013 são imprecisas, mas é certo que uma parcela significativa era composta por jovens e por setores de baixos ingressos. Segundo cálculos do Ibope as famílias com 2 a 5 salários mínimos – que correspondem àquelas dos trabalhadores de baixa renda, com recursos suficientes para não participarem do bolsa família, mas em condição de vulnerabilidade econômica e social – compunham 30% dos manifestantes e somados aos 15% que vivem em famílias que recebem até 2 salários mínimos, representavam 45% dos manifestantes.

A este segmento se somam as famílias com renda entre 5-10 salários mínimos que representaram 26% dos manifestantes e compõem uma classe trabalhadora de renda média. No conjunto, pelo menos, 71% dos manifestantes configuram frações heterogêneas da classe trabalhadora.

Trata-se de uma população que foi às ruas de forma difusa, impulsionada por um sentimento de exclusão, reivindicar a aplicação dos direitos sociais da carta constitucional de 1988 – que garante formalmente os direitos à saúde, educação, lazer, segurança, a previdência, assistência social, proteção à maternidade e à infância – e estendê-la para incluir aí o direito ao transporte e à informação. A quebra da estética liberal de fazer política, implicou um esvaziamento do centro, abrindo-se o espaço para uma ofensiva dos extremos, à direita e à esquerda, que misturavam-se nas manifestações, muitas vezes conflitivamente, empunhando bandeiras contraditórias.

Nas manifestações junho de 2013, a situação populista cumpria dois de seus requisitos: a criação de um sujeito coletivo manifesto em mobilizações de massa e a reinvindicação da polarização social, mas falhava num terceiro aspecto, a identificação do inimigo, razão do seu caráter extremamente difuso, de sua frágil unidade e de sua vulnerabilidade a articulações discursivas que o propusessem. Frente a esta situação social, a preservação do estilo liberal do governo Dilma, vinculado aos interesses dos mais amplos segmentos, isto é, os extremamente pobres e os extremamente ricos, e profundamente institucionalizado, ao atuar politicamente no marco da relação de força entre os 3 poderes sem mobilizar a participação popular, torna-se uma enorme desvantagem.

O governo Dilma manteve-se como um governo de todos, hierarquizado e não definiu nenhum inimigo que fosse na direção do desejo de nomeação, articulado à explicitação das frustrações, descontentamentos e enorme emprego de energias populares. Inversamente, o sistema midiático e a direita lançaram suas interpelações à população: inicialmente o inimigo seria a corrupção impulsionada pelos partidos políticos; posteriormente a interpelação foi se fixando quase exclusivamente no PT e no governo Dilma, como os seus principais responsáveis. Foi apenas no processo eleitoral que a popularidade do governo Dilma voltou a subir, saindo da faixa dos 30% para os 40%, quando sua campanha política indicou como o inimigo o risco da volta do neoliberalismo radical. Todavia a recuperação da popularidade foi tímida e esta manteve-se muito longe do patamar anterior às manifestações de 2013, quando se situou em torno dos 70%. A experiência de governo que contrariou a campanha, mantendo a estética liberal, não se propondo a identificar o inimigo que as massas buscavam nas ruas, limitou fortemente esta recuperação.

As eleições revelaram uma alteração da geografia do voto do PT:

  1. A maior parte da votação do PT se deslocou para o Nordeste que ultrapassou a contribuição do Sudeste – região de maior concentração de votantes no país, cerca de 44% – por 37% x 36;
  2. recuou significativamente a votação do PT no conjunto das capitais, em particular as do Sul e Sudeste, enquanto aprofundou-se significativamente a do interior e em menor intensidade a de capitais do Nordeste;
  3. nos munícipios onde a maior parte da população recebe bolsa-família, Dilma atingiu 72% dos votos válidos no segundo turno, enquanto que naqueles onde menos da metade da população recebe o benefício, alcançou apenas 47,5% destes.

Tais evidências revelam a expressiva perda de votos do PT entre os segmentos que participaram das manifestações de junho de 2013, isto é, trabalhadores de renda média ou baixa, que não foram alvo da política petista de combate à pobreza, focalizada e dirigida à extrema pobreza – basicamente aqueles segmentos populacionais com renda mensal inferior a ½ salário mínimo, ao passo que, segundo o Dieese, encontram-se em condições carência de satisfação de necessidades básicas aqueles indivíduos que percebem menos que 1 salário mínimo mensal, situação de 56% da população brasileira em 2013, segundo a PNAD.

O EQUÍVOCO DO CONCEITO DE CLASSES MÉDIAS

Esse contingente populacional não é constituído por classes médias. Um grande equívoco conceitual com incidência sobre a construção de políticas públicas foi a construção do conceito de classe médias pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que inclui nesta faixa um amplo conjunto populacional constituído por aqueles que recebiam renda entre R$ 291 e R$ 1019, em valores de abril de 2012, isto é entre 0,46 e 1,63 salários mínimos. Apenas nas condições de 2009, segundo documento da SAE, 68% dos brasileiros se encontravam da classe média-média para baixo, isto é, recebiam ou estavam em famílias com renda per capita inferior a 1,03 salários mínimos (ver: Perguntas e respostas sobre a definição de classe média).

Longe de constituírem uma classe média, com características e ideários pequeno-burgueses, estes contingentes amplamente heterogêneos constituem frações distintas da classe trabalhadora. Algumas em situação de pobreza, desassistidas das políticas de renda mínima e percebendo entre 0,46 e um salário mínimo per capita, outras em situação de vulnerabilidade, porque próximas da situação de pobreza e pressionadas a formar o valor de sua força de trabalho num mercado de trabalho com exigências crescentes de qualificação, desempenho e consumo, onde o piso do que é pobreza se eleva.

Portanto o que explica a perda destes contingentes da classe trabalhadora no arco de votação do PT não é seu aburguesamento, mas o fato de serem abandonados pelas políticas públicas. Pesquisas sobre a concentração de renda que incluíram a declaração do imposto de renda como indicador e não a autodeclaração, mostram que entre 2006-2013 a concentração de renda não baixou, permaneceu estável e altamente desigual, evidenciando o caráter centrista dos governos petistas.* O 1% mais rico da população se apropriava de 1/3 da renda e os 10% mais ricos de 60% da mesma em 2012. É exatamente a combinação de reversão da conjuntura internacional favorável, forte redução da taxa de crescimento econômico no governo Dilma, com aumento de empregabilidade e conservação de altos níveis de desigualdade que abriu o espaço para explodir tensões acumuladas. Entre os fatores que pressionam a desigualdade para cima está a brutal elevação de preços de aluguéis e do metro quadrado dos imóveis residenciais,** que somados às intervenções urbanísticas associada aos megaeventos, deslocaram expressivos contingentes populacionais para as periferias das grandes cidades, agravando os problemas de mobilidade urbana nas capitais.

Para retomar a hegemonia sobre estes segmentos populacionais cabe ao Governo Dilma reconhecer a situação populista que persiste no Brasil, e que tende a se aprofundar, e indicar um inimigo, considerando a relação de forças que se apresenta, atendendo aos anseios de polarização social da população. A ausência de uma interpelação mais concreta do inimigo durante a campanha eleitoral – o inimigo estaria no passado, seria a volta do neoliberalismo radical representado pelo PSDB, DEM ou pela rede de Marina – é insuficiente para ampliar a reconquista das bases populares petistas ou mesmo para mantê-las, uma vez que este teria sido derrotado na própria campanha eleitoral.

O centrismo petista e a fragmentação das esquerdas no processo eleitoral – dividida em 4 partidos (PSOL, PCB, PSTU, PCO) incapazes de unificar candidaturas e programas eleitorais – levou a um pífio resultado no Legislativo, resultado da ausência ou da desorganizacão de suas interpelações às múltiplas demandas progressistas colocadas por expressivos contingentes que foram as ruas em junho de 2013: desmilitarização da polícia, descriminalização do consumo de drogas, descriminalização da interrupção da gravidez, legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outras. Na ausência de interpelação verticalizada à esquerda destas demandas difusas e horizontalizadas, a direita lançou as suas, aproveitando-se de suas instituições hierarquizadas e consolidadas na sociedade civil, ampliando a bancada da bala e a bancada evangélica no Legislativo, indicando como inimigo o pacifismo, a tolerância e a liberalização dos costumes.

QUAL DEVE SER A AGENDA DO GOVERNO DILMA? A RUPTURA COM O CENTRISMO!

O que poderão então fazer o governo Dilma e o PT neste cenário? Não adianta colocar a prioridade em temas que dependam do Congresso, como reforma política e regulamentação da mídia. Por mais importantes que sejam, essas pautas escapam ao controle do Poder Executivo e ao Presidencialismo de coalizão, dada a relação de forças desfavorável no Legislativo.

A prioridade deverá estar em romper com a hegemonia do capital financeiro sobre o Estado e o orçamento público. Para isto torna-se necessário reduzir drasticamente as taxas de juros, reformular o Conselho Monetário Nacional, hoje reduzido ao Ministro da Fazenda, ao Ministro do Planejamento e ao Presidente do Banco Central, incluindo nele atores que no passado dele fizeram parte, como o Ministro do Trabalho, da Indústria, etc. Trata-se de liberar o orçamento federal, comprometido em 40% do seu montante com o pagamento de juros e amortizações, para investimentos públicos massivos em educação, saúde, habitação, mobilidade urbana e infraestrutura. Tais investimentos permitiriam direcionar uma política pública para amplas camadas das classes trabalhadoras que hoje não encontraram apoio significativo nas políticas governamentais.

A redução das taxas de juros permitiria ainda saltar os obstáculos que superexploração do trabalho parece colocar ao dinamismo do mercado interno, em função das pressões sobre os custos que a elevação salarial provoca numa burguesia dependente que repassa aos seus trabalhadores as perdas oriundas da competição assimétrica com o grande capital internacional. Tal redução diminuiria os custos de produção e permitiria criar durante algum tempo um boom neodesenvolvimentista que até aqui permanece mais como uma promessa que como um resultado efetivo dos governos petistas. Este boom poderia ser a base para a formação de um resultado muito mais favorável no Congresso em 2018, o que permitiria lançar projetos muitos mais ousados de reforma da sociedade brasileira.

Todavia não vai ser fácil para o governo Dilma mudar sua forma de fazer política. A dinâmica da campanha, onde a militância momentaneamente se autonomizou do Partido, e este do governo, reintroduzindo vitalidade ao bloco histórico liderado pelo PT, precisa se consolidar, mas possui bases muito frágeis que podem, todavia, se fortalecer novamente num cenário mais dramático de crise institucional. Os primeiros sinais do governo Dilma vão no sentido de ampliar sua aproximação à direita, diminuindo as tensões com a oligarquia financeira e o empresariado; estabelecendo novo ciclo de alta dos juros e definindo uma equipe econômica de predomínio conservador e ortodoxo.

Tal leitura do recado das urnas é equivocada, amplia o seu desgaste de curto e médio prazo, abrindo o espaço para novas ofensivas da direita. A ofensiva fascista que se observou nas ruas brasileiras, seja em setores específicos dos movimentos de massa em 2013, seja durante ou após a campanha eleitoral de 2014, solicitando impeachment ou intervenção militar, se alimenta da combinação entre situação populista, política deflacionista e desgaste das esquerdas. Caso esta venha a se combinar no futuro com a elevação dos níveis desemprego, como ocorreu na Alemanha em Weimar, pode criar uma situação explosiva, levando ao recrudescimento de expressivos movimentos de massa fascistas que questionem o centrismo de esquerda na busca de soluções radicais.

Tal situação necessita ser avaliada com cuidado pelo amplo leque de forças de esquerda no país para se pensar os caminhos de uma nova etapa de políticas públicas macroeconômicas e sociais que sejam o lastro para uma ofensiva político-cultural capaz transformar amplamente as estruturas jurídico-políticas da sociedade brasileira, democratizando-a.

Leia também “A primavera brasileira: que flores florescerão” e “As eleições presidenciais e os cenários da política brasileira“, na coluna de Carlos Eduardo Martins no Blog da Boitempo.

NOTAS

* Veja-se o artigo “A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil: 2006-2012”, de Marcelo Medeiros, Pedro Sousa e Fabio Castro.

** O índice FIPE-ZAP que mede a oscilação de preços dos imóveis em grandes capitais apontou uma valorização de 97% e 143% dos alugueis em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre janeiro de 2008 e julho de 2014. Já o preço do metro quadrado do imóvel residencial oscilou no período em 260% no Rio de Janeiro e em São Paulo em 214,9% contra a inflação do IPCA de 45%.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Michael Löwy, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

Uma usina no meio do caminho

14.11.28_Roniwalter Jatobá_Usina da traiçãoPor Roniwalter Jatobá.

Durante anos, todos os dias, cruzava com a usina da Traição, na Marginal Pinheiros, no caminho de Santo Amaro. Ali, a já desagradável paisagem do rio se transformou num mar de garrafas vazias. “Beba coca, pepsi e tubaína”, piscam néons no meio do lodo. Li no jornal que moradores da vizinhança reclamavam do excesso de lixo e sujeira do rio.

Não é novidade. O rio Pinheiros veio virando um canal de esgoto desde que, no final da década de 1930, eliminaram suas sinuosas curvas e remansos, para que o seu leito então pré-determinado tornasse possível a transferência das águas do rio Tietê para o reservatório Billings.

Quem passa sempre apressado ao lado da usina não sabe que no seu interior está escondido um conjunto de casas construídas pela antiga Light para os trabalhadores. A rua principal lembra uma cidade interiorana. As moradias, em estilo inglês clássico, ficam a poucos metros da usina e do rio encobertos pela vegetação. Há também sabiás e bem-te-vis.

Anos atrás, conheci uma pessoa que morou na Traição boa parte de sua vida. Seu nome: Jayme Nazaré. Vivia numa das casas da Vila, também conhecida como “Vila dos Mineiros” (dos onze moradores, sete eram de Minas Gerais). Nascido em Juiz de Fora, gostava de uma boa prosa. Mas os olhos ficavam tristes com a sujeira acumulada nas grades da usina, a espuma descendo rio abaixo para pegar a corrente do Tietê.

– Antigamente, o lixo era mais capim e até mesmo árvores – ele lembrou na época. – Hoje, só dá plástico, que entope tudo.

Sentia-se em segurança, no entanto, e ali criou os três filhos. Quanto ao cheiro das águas do rio, achava que as árvores montavam uma espécie de filtro e a depressão do morro ao lado mexia com o vento, protegendo as casas.

Durante mais de 20 anos viveu muitas histórias. Numa madrugada de 1987, um operador de máquinas fazia, normalmente, o trabalho de retirada de lixo do rio. Quando chegou à metade de recipiente onde jogava os destroços retirados das águas, viu o que parecia ser um braço humano. Aterrorizado, chegou perto e descobriu que tinha razão. Gritou e correu pedindo socorro. Além de lixo e mais lixo, o rio era também desova de cadáveres.

Outra vez, uma mulher pulou da ponte Cidade Jardim, a cerca de 1,5 km da usina. Às vezes, ela flutuava, às vezes, descia, mas na ânsia ia submergindo. E Jayme olhando. Depois, ele e outros correram para salvá-la, pois ia chegando perto da usina. Aí, conseguiram retirar a mulher para a terra firme. Desesperada, ela queria pular de novo e foi preciso amarrá-la a uma árvore até a chegada dos Bombeiros.

Havia até casos policiais. Toda noite, um segurança contratado deixava o seu plantão e ia assaltar as mansões ao lado, no bairro de Cidade Jardim. Por algum tempo, o plano deu certo. Mas, uma noite, entrou na casa de um delegado. Depois de encher um saco com armas, o alarme da casa disparou. O sujeito fugiu, mas com um carro da Rota no seu encalço. Correndo, ele entrou no terreno da usina, vestiu a roupa de guarda e ficou esperando a polícia. E até muito disposto para procurar o meliante. Mas os sapatos sujos de lama, levantaram suspeita. Foi preso. Na manhã seguinte, encontraram armas de toda espécie espalhadas no gramado.

– Numa velha câmara cheguei até a gravar imagens de um jacaré, logo apelidado de “Teimoso”, que apareceu no Pinheiros – me relatou Jayme, que na certa levou as imagens para Minas, onde vive aposentado.

A usina, um prédio com sete andares, é hoje um símbolo de um passado recente paulistano e essencial para o controle das enchentes na cidade. Contam que logo após sua inauguração, em 1940, no alto do seu topo e tendo uma vista panorâmica da Zona Sul paulistana, um dirigente da antiga Light bolou um plano mirabolante para resolver o problema do transporte urbano entre a capital e a Baixada Santista.

A ideia do engenheiro canadense envolvia a área compreendida pelos rios paulistanos num eficiente transporte fluvial. Era mais ou menos assim: barcos de passageiros fariam viagens programadas a partir das proximidades do bairro da Penha, via Tietê, e depois seguiriam Pinheiros e Billings afora. Vencendo estrategicamente a descida na Serra do Mar, chegariam a Cubatão e, depois, à beira do Atlântico.

Outro dia visitei o que restou de um sonho: um embarcadouro carcomido pelo tempo no começo da Billings, no bairro da Pedreira, em Santo Amaro, agora ponto estratégico de bandos de famintos patos selvagens, também conhecidos como biguás.

14.11.28_Roniwalter Jatobá_Usina da traição_1930

Usina Elevatória da Traição em construção no início dos anos 1930.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

O mal-estar do neodesenvolvimentismo

14.11.27_Giovanni Alves_Mal estar no neodesenvolvimentismo[Giorgio de Chirico, Orfeo trovatore stanco, 1970]

Por Giovanni Alves.

O neodesenvolvimentismo é considerado por nós como sendo um novo modo de desenvolvimento capitalista no Brasil apoiado numa frente política composta, por um lado, pela grande burguesia interna constituída pelos grandes grupos industriais tais como as empreiteiras OAS, Odebrecht, Camargo Correia, etc, e os grupos industriais da Friboi, Brazil Foods, Vale, Gerdau, Votorantim, etc e o agronegócio exportador – todos beneficiados pelo aumento das exportações focado numa agressiva politica de financiamento através do BNDES, voltados para promover as empresas e os investimentos brasileiros no exterior; por outro lado, pelas camadas organizadas do proletariado brasileiro (velha classe operária) e setores populares – incluindo o subproletariado pobre, beneficiados pelo crescimento da economia, redução do desemprego aberto e formalização do mercado de trabalho, oferta de crédito para dinamizar o mercado interno; aumento do gasto público e políticas de transferência de renda via programas sociais (Bolsa-família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, etc).

A burguesia interna não é burguesia nacional mas sim a grande burguesia brasileira – grandes grupos industriais, que não rompendo com o capital financeiro interacional, manteriam interesses, não apenas no crescimento do mercado interno, mas na política de financiamento da exportação com recursos do BNDES visando inseri-los na concorrência no plano internacional e tráfico de influencia e acesso a recursos do Estado político-oligárquico herdado pelos governos neodesenvolvimentistas.

Diferentemente do velho nacional-desenvolvimento lastreado na burguesia nacional, o neodesenvolvimentismo baseado nos interesses da burguesia interna se resignou à mundialização do capital renunciando, deste modo, ao projeto de desenvolvimento nacional-popular (o neodesenvolvimentismo é o desenvolvimentismo capitalista na era do globalismo sob a dominância do capital financeiro). Entretanto, setores populares da frente do neodesenvolvimentismo apoiam projeto nacional-popular de desenvolvimento digladiando-se com os interesses da burguesia interna no interior da frente política (por exemplo, os governos neodesenvolvimentistas, ao mesmo tempo que contemplam o agronegócio exportador, incrementam uma política de crédito para o pequeno produtor e assentamentos dos sem-terra; ao mesmo tempo que propicia ganhos aos sindicalismo como o aumento do emprego no setor público e privado, oficialização das centrais sindicais, melhoria salarial do funcionalismo público, recuperação do salário-mínimo, aumento da formalização no mercado de trabalho, o governo neodesenvolvimentista preserva os interesses estratégicos de acumulação e exploração da burguesia interna recusando-se a promover uma recuperação dos direitos trabalhistas e sociais corroídos na década neoliberal. Pelo contrário, mantem-se indiferente à ofensiva patronal que ocorre no Congresso Nacional e STF pela disseminação da nova precariedade salarial no Pais.

Ao promover ascensão política da grande burguesia interna em aliança com setores populares – e sem romper com o bloco de poder hegemonizado pelo capital financeiro internacional – Lula criou o que poderíamos considerar um ornitorrinco político – a frente política do neodesenvolvimentismo – sendo tal arquitetura política o próprio espírito do “lulismo”.

Fazendo um balanço dos últimos dez anos de governos Lula e Dilma, percebemos que ocorreu no país um “choque de capitalismo” que, impulsionado pela oferta de crédito e renúncias fiscais em prol dos monopólios, contribuiu, deste modo, para a expansão dos negócios, especulação imobiliária e acumulação do capital, e por conseguinte, a preservação (e ampliação) de formas arcaicas e modernas de degradação do trabalho no Brasil (o neodesenvolvimentismo – como não poderia deixar de ser – traz em seu código genético, traços da “modernização conservadora” que caracteriza as entificações capitalistas hipertardias e dependentes).

A expansão capitalista na era do neodesenvolvimentismo ocorreu no interior da macroestrutura do capitalismo neoliberal hegemônico no plano do mercado mundial – o que explicita os limites do neodesenvolvimentismo. Neodesenvolvimentismo não significa pós-neoliberalismo. Na verdade, neodesenvolvimentismo expõem densas contradições orgânicas no interior da sua frente política, expostas acima, quanto na relação do governo neodesenvolvimentista com o Estado neoliberal (sociedade política e sociedade civil) herdado da ditadura civil-militar e “modernizado” pelos governos neoliberais (1990-2002). A preservação do Estado político-oligárquico adequado ao capitalismo neoliberal contribuiu para que se mantivesse (e ampliasse) a corrupção da coisa pública com tráfico de influencias e propinas nos negócios operados pelas empresas públicas e grupos industriais da burguesia interna. (vida Operação Lava Jato, etc).

Na medida em que o neodesenvolvimentismo promoveu um “choque de capitalismo” no Brasil, implementou-se o toyotismo sistêmico no plano da produção do capital. É o que temos salientado nos últimos anos: a disseminação do espirito do toyotismo nas práticas de gestão da indústria, serviços e inclusive administração público, a exacerbação do fetichismo da mercadoria e as múltiplas alienações que permeiam a vida cotidiana, a crise de sentido e os carecimentos radicais que inquietam camadas médias (e populares) e a adoção do modo de vida just-in-time contribuíram efetivamente para a inquietação social que caracteriza as metrópoles brasileiras e a agudização da crise do trabalho vivo.

Com o “choque de capitalismo” da era do neodesenvolvimentismo, o capital impulsionou o processo de desmonte da pessoa humana nos seus elementos compositivos (subjetividade, alteridade e individualidade). Na era do neodesenvolvimentismo surgiram novas formas de precarização laboral que se articulam com a nova precariedade salarial caracterizada pelas práticas de flexibilização de jornada, remuneração e contratação do trabalho. Nos dez anos de neodesenvolvimentismo, apesar dos indicadores positivos da macroeconomia do trabalho expostos acima, cresceram a rotatividade do trabalho e a prática da terceirização laboral, expondo a formação de um novo e precário mundo do trabalho. A precarização do homem-que-trabalha ou a degradação da pessoa humana se manifesta no crescimento exponencial dos adoecimentos laborais.

O neodesenvolvimentismo nos governos Lula e Dilma tinha como estratégia política, o lulismo que implementou um “reformismo fraco”, evitando o enfrentamento direto não apenas com o grande capital financeiro internacional que hegemoniza o bloco de poder do capital no Brasil, mas também evitando o enfrentamento com a grande burguesia interna que compunha a frente política do neodesenvolvimentismo. O mote do lulismo era o lema “Lula, Paz e Amor” e o lema do governo era “Um Brasil para Todos”. Na verdade, a grande argúcia política do lulismo foi construir uma estratégia política que deslocasse politicamente frações do bloco de poder do capital – a burguesia interna – para seu projeto de governo com apoio de frações da classe trabalhadora organizada e o subproletariado pobre. O lulismo e a arquitetura da frente política do neodesenvolvimentismo tornaram-se o espírito da governabilidade do projeto político de governo conduzido por um Executivo do PT num país capitalista onde a correlação de forças a favor da classe trabalhadora após o dilúvio neoliberal era bastante desfavorável no plano político-institucional.

Entretanto é preciso salientar que o neodesenvolvimentismo da década de 2000 – os governos Lula – beneficiou-se da conjuntura favorável da economia mundial baseada, por exemplo, na bolha financeira e valorização das commodities. Na medida em que a economia brasileira crescia, reduzia-se o conflito redistributivo entre as classes que compunham a própria frente do neodesenvolvimentismo e inclusive, os conflitos redistributivos no interior das classes dominantes que compunham o bloco do poder do capital. Ao mesmo tempo o realinhamento eleitoral do PT que incorporou a base política do subproletariado pobre, deu-lhe impulso político, não apenas para Lula reeleger-se mas depois, eleger a sucessora Dilma Rousseff. Os indicadores positivos da macroeconomia do trabalho na era Lula compuseram os anos dourados do neodesenvolvimentismo em contraste, por exemplo, com os anos de chumbo do neoliberalismo da década de 1990. A última grande performance do neodesenvolvimentismo foi a política macroeconômica adotada como resposta à crise de 2008, alternativa às políticas de austeridade fiscal e monetária exigidas pela direita neoliberal e adotadas na União Européia.

Entretanto, a conjuntura da economia mundial se inverteu na década de 2010. A bolha financeira estourou em 2008 e o preço das commodities despencam no mercado mundial. Esse é o ponto significativo de inflexão da conjuntura que demarcará os limites do neodesenvolvimentismo nos governos Dilma. A crise financeira de 2008 alterou a dinâmica da conjuntura da economia mundial e prolongou-se, com diferentes modulações, na década seguinte, arrastando-se num longo depresso nas economias centrais (tal como a crise de 1929). No núcleo orgânico do sistema mundial do capital, emergiu em 2010, com vigor, a crise da União Européia impulsionada depois pelas medidas de austeridades neoliberais propostas pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Européia), atingindo principalmente, os países do sul da Europa, aumentando o desemprego e a pobreza social, desmontando os rudimentos de Welfare State construídos na era dourada do capitalismo central. A juventude altamente escolarizada que trabalha – o precariado – é a parte mais penalizada das políticas neoliberais de austeridade adotadas pelo capital financeiro nos países do sul da Europa. As perspectivas de recuperação da economia européia em 2013 frustraram-se e percebeu-se depois em 2014, sinas de desaceleração – e inclusive recessão – no carro-chefe da economia européia: a Alemanha. Ao mesmo tempo, apesar de ter saído da recessão., a economia norte-americana cresce a taxas medíocres e a economia japonesa não consegue sair da estagnação econômica de longa data. Mas um acontecimento significativo da primeira metade da década de 2010 não é apenas a persistência da crise européia e o crescimento medíocre da economia dos EUA e estagnação no Japão, mas a desaceleração da economia da China com impactos nos ditos países emergentes.

As perspectivas da segunda metade da década de 2010 não são promissoras – pelo contrário, não existem perspectivas de retomada da crise do capitalismo global, colocando dificuldades candentes para o segundo governo Dilma que herdou os limites do neodesenvolvimentismo. Internamente o bloco de poder do capital no Brasil se rearticula na década de 2010 visando não apenas desgastar e implodir a frente política do neodesenvolvimentismo, mas – no interior da própria frente política do neodesenvolvimentismo – a grande burguesia interna busca isolar e derrotar os setores populares no interior da frente política.

Por um lado, o capital financeiro, fração hegemônica do bloco de poder, que faz oposição sistemática à frente política do neodesenvolvimentista desde 2002, encontrou aliados em setores insatisfeitos da grande burguesia interna, que, num cenário de crise internacional, pressionam o governo Dilma para adotar medidas de redução do “custo Brasil”, isto é, desmonte dos direitos trabalhistas (o movimento parlamentar do PSB e do próprio PMDB indicam sinais de corrosão da frente neodesenvolvimentista).

O mal-estar do neodesenvolvimentismo ocorreu, num primeiro momento, em 2012 e 2013 – quando o governo Dilma confrontou diretamente o capital financeiro reduzindo as taxas de juros e utilizando bancos públicos para política de crédito. Naquele momento, a fração do capital financeiro hegemônica na grande mídia e frações insatisfeitas da grande burguesia interna que não conseguiram apoio do governo para implementar a Reforma Trabalhista visando reduzir direitos dos trabalhadores, sitiam o governo Dilma que encontra a partir de 2013, ano pré-eleitoral, um cenário de desgaste midiático por conta da queda do crescimento da economia devido a contenção de investimentos privados – parte do empresariado nacional num cenário de crise mundial recusou-se a investir; pressões inflacionárias, com novos conflitos distributivos entre as classes e camadas de classes; e pressões sociais por parte de camadas médias, órfãs do neodesenvolvimentismo.

As jornadas das ruas de 2013, movimento massivo impulsionado, por um lado, pelos limites do neodesenvolvimentismo, e por outro, enquadrado pela mídia neoliberal hegemônica, compõem o cenário primordial de mal-estar do neodesenvolvimentismo. As demandas sociais postas pelos protestos de rua não poderiam ser satisfeitos por um governo neodesenvolvimentista constrangido pelas contradições orgânicas da frente política e constrangido pela contradição crucial entre governo neodesenvolvimentista e Estado neoliberal. A estratégia política do lulismo construída num cenário macroeconômico favorável para redistribuição de renda sem confrontar o grande capital (década de 2000), torna-se inócuo num cenário de persistente crise econômica mundial e candentes conflitos distributivos entre classes e no interior das classes .Deste modo, as políticas do neodesenvolvismo encontram na metade da década de 2010 um cenário adverso tanto internamente quanto externamente – embora as duas situações se inter-relacionem.

Por um lado, o aprofundamento da crise do capitalismo global com a desaceleração da China, acompanhada pela desaceleração da economia alemã. No centro capitalista, pressões deflacionárias se contrastam com pressões inflacionárias no Brasil que obrigam o governo a aumentar os juros para contê-las num cenário de desaceleração da economia. Apesar do baixo crescimento, o governo Dilma mantém o gasto público com programas sociais, incomodando os setores da ortodoxia neoliberal não apenas ligados ao capital financeiro mas a grande burguesia interna que exige o ajuste fiscal. A dificuldade de fechar as contas do governo em 2014 expõem as dificuldades de manter as políticas do neodesenvolvimentismo que beneficiaram as camadas populares e ameaçam romper a frente política entre grande burguesia interna e camadas populares.

A corrosão da frente política do neodesenvolvimento em 2014 se explicita tanto no plano do processo sucessório – as últimas eleições para Presidência da República – quanto na própria governabilidade. No plano social, os limites do neodesenvolvimentismo se explicitam pelo menos desde 2013 com a pressão das ruas por reformas sociais. O governo, refém de suas contradições, constrangido pelo Estado neoliberal – e sendo ele próprio artífice do ornitorrinco político (a frente politica do neodesenvolvimentismo), proclama, como palavra de ordem, a Reforma Política visando desatar o nó gordão da governabilidade espúria. Na verdade, para que ocorram as reformas sociais necessárias para a democratização do Brasil torna-se necessária uma nova institucionalidade política capaz de representar efetivamente a vontade popular. Entretanto, o desejo do governo – pelo menos de parte dele, ligado ao setores mais avançados do PT – implica confrontar-se com os pilares da frente neodesenvolvimentista que contém larga representação de frações das classes dominantes do bloco de poder do capital.

As eleições de 2014 significaram no plano da governabilidade maiores dificuldades para o governo neodesenvolvimentista. Por um lado, um Congresso mais conservador resiste a reforma política capaz de representar a vontade popular. Por outro lado, num cenário de desaceleração e inclusive recessão econômica, o projeto de desenvolvimento com inclusão social não se sustenta. Crescer a economia tornou-se a única saída para preservar a frente do neodesenvolvimentismo. Ao mesmo tempo, crescem no interior da própria frente política hegemonizada pela grande burguesia interna, pressões para o governo Dilma adotar a agenda neoliberal que coloca como pressuposto da retomada da economia, um profundo ajuste fiscal que penaliza programas sociais e direitos dos trabalhadores.

A pressão pela agenda ortodoxa não é só da burguesia rentista mas de parcelas da burguesia interna que num cenário de aprofundamento da crise mundial, prepara uma ofensiva contra os direito dos trabalhadores no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, por exemplo, aprovando projetos de lei da terceirização ampla e irrestrita. A alta corte constitucional no Brasil tornou-se a ferramenta da precarização do trabalho no Brasil vilipendiando a Justiça do Trabalho.

Portanto, no caso do Brasil, a explicitação dos limites do neodesenvolvimentismo leva a um profundo mal-estar social e político, colocando dificuldades candentes para o último governo Dilma, impondo-se, mais do que nunca, a pauta da construção de uma nova frente política hegemonizada pela esquerda capaz de mobilizar a sociedade brasileira e isolar as forças conservadoras e reacionárias no plano institucional. No plano da governabilidade, as imensas dificuldades exigem um salto de qualidade de intervenção política do PT, não apenas no Congresso Nacional, mas principalmente na sociedade civil, onde se dará efetivamente o embate pela preservação da democracia e conquistas populares da era do neodesenvolvimentismo e ampliação para além do próprio neodesenvolvimentismo da satisfação das necessidades sociais. A pauta da Reforma Política com constituinte exclusiva é o sine qua non para todas as reformas necessárias para democratizar o Estado e a sociedade brasileira. Inclusive, sem Reforma Política capaz de resgatar a representação da vontade popular no Congresso Nacional, a democratização dos meios de comunicação de massa não ocorrerá – como não ocorreu nos últimos dez anos de Lula e Dilma.

Entretanto, num cenário de crise da economia, caso o Brasil não cresça capaz de permitir a inclusão social e a redistribuição de renda sem confrontar os interesses do grande capital, a disputa política e a luta de classes podem tornar-se uma tarefa política inglória para setores populares num país onde não existem organizações de massa e direção política de esquerda capaz de hegemonizar o processo social. Como ocorreu em junho de 2013, num cenário de inquietação social e campanha midiática voraz, a direita deve pautar o movimento visando derrubar o governo antes mesmo do pleito de 2018.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura. O autor conta com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, à venda em ebook por apenas R$5 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, dentre outras. Giovanni Alves conta também com o artigo “Trabalhadores precários: o exemplo emblemático de Portugal”, escrito com Dora Fonseca, publicado no Dossiê “Nova era da precarização do trabalho?” da revista Margem Esquerda 18, já à venda em ebook na Gato Sabido.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Cultura inútil: O que eles disseram

14.11.25_Mouzar Benedito_O que eles disseram_Por Mouzar Benedito.

Albert Einstein: “Só os estúpidos precisam de organização. Os gênios controlam o caos”.

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Goethe: “O homem de bom senso jamais comete uma loucura de pouca importância”.

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Humberto de Campos: “A evolução da sociedade é feita, aliás, não pela democratização das elites, mas pela aristocratização da plebe”.

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Afonso Schimidt: “As prostitutas têm sido mais úteis aos homens do que Moisés ou Zoroastro”.

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Juca Chaves: “Água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer dar, ninguém segura”.

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Camilo Castelo Branco: “Se começarmos a ver o mundo tal qual é, a poesia acaba toda”.

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Afrânio Peixoto: “De todas as incapacidades humanas a mais certa é a de prever”.

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Mae West: “Entre dois males, escolho sempre aquele que ainda não experimentei”.

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Júlio Ribeiro: “Dos insubmissos tem emanado todo o progresso social”.

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Dom Francisco Manuel de Melo: “Nunca me arrependi do que não disse”.

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Millôr Fernandes: “Psicanalista é uma espécie de mágico que tira cartolas de dentro dos coelhos”.

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Medeiros e Albuquerque: “Estudando as origens de quase todas as cerimônias religiosas, vê-se que elas são, ora pueris, ora grosseiras”.

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Marilyn Monroe: “Os homens passam, os diamantes ficam”.

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Latino Coelho: “Dantes havia público e autores, homens que liam e poucos que escreviam; hoje é o contrário – todos escrevem, e ninguém lê”.

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Stanislaw Ponte Preta: “Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78”.

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Juracy Magalhães (governador da Bahia durante a ditadura): “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

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General Figueiredo (quando o último presidente da ditadura iniciada em 1964, quando perguntado o que faria se fosse operário e ganhasse salário mínimo): “Dava um tiro no coco”.

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Jarbas Passarinho (quando era ministro da Educação e, como os outros ministros, assinou o AI-5): “Às favas com os escrúpulos”.

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Plínio Salgado: “O integralismo nega a eficácia do voto, nega a concepção democrática do cidadão, condena o sufrágio universal”.

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Assis Chateaubriand: “A clareza se revolta contra a religião, que é a obscuridade, o simbolismo e o mistérios”.

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Garrincha (enquanto os demais jogadores comemoravam a vitória sobre a Suécia e a conquista da Copa do Mundo, em 1958): “Que torneio mixo! Não tem nem segundo turno?”.

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Marquês de Maricá: “Os homens mais respeitados não são sempre os mais respeitáveis”.

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Capistrano de Abreu: “Constituição brasileira, artigo único: todo brasileiro é obrigado a ter vergonha”.

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Heitor Moniz: “De vez em quando sopra na humanidade o vento da loucura. Há um grande entusiasmo coletivo. Os povos sublevam-se, tomam as armas, fazem a revolução”.

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Machado de Assis: “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas”.

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Guimarães Rosa: “Trabalho não é vergonha, é só uma maldição”.

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Mark Twain: “Uma mentira é capaz de dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos”.

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Agripino Grieco: “A sarna é uma das poucas distrações que restam aos pobres”.

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Victor Hugo: “Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha”.

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Viana Moog: “Temos a capacidade de tornar sensacional o que em si mesmo não tem a menor importância”.

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Abraham Lincoln: “A melhor forma de destruir seu inimigo é converter-lhe em seu amigo”.

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Roquette Pinto: “Os escravos sempre serviram para carregar, entre outros fardos, a culpa dos senhores”.

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O povo (nome de um bloco de carnaval do Rio): “Simpatia é quase amor”.

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Charlie Chaplin: “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”.

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Carmem Mayrink Veiga: “Há duas coisas que nunca pretendo fazer: esportes e trabalhar”.

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Vinícius de Moraes: “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”.

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Galeão Coutinho: “O charuto é a chaminé da prosperidade”.

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Voltaire: “É perigoso estar certo quando o governo está errado”.

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Luís Fernando Veríssimo: “Às vezes, a única verdade em um jornal é a data”.

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Gondin da Fonseca: “Judas era um cidadão respeitável comparado a certos entreguistas do Brasil”.

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Mário Quintana (sobre seus críticos): “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão… eu passarinho”.

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Chico Xavier: “Ambiente limpo não é o que mais se limpa. É o que menos se suja”.

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Marquês de Maricá: “O roubo de milhões enobrece os ladrões”.

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Walther Waeny: “O homem é um animal racional. Racional, às vezes; animal, quase sempre”.

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Graciliano Ramos: “Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morrer. Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou forca, o resultado é o mesmo”.

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Roberto das Neves: “O mundo começou por um incesto e um fratricídio, e até hoje não melhorou”.

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Câmara Cascudo: “Nações e frutos têm sua hora natural de maturação”.

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O povo (ditado popular): “Casa de mulher feia não precisa de tramela”.

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Constâncio Alves: “Há anedotas que passam de celebridade em celebridade, como roupas de aluguel, que passam de corpo em corpo”.

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Érico Veríssimo: “A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos”.

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O povo (dito popular): “O tempo tudo cura, menos a velhice”.

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César Zama: “Suicidem-me os senhores, porque por minhas mãos eu não me suicido”.

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Paula Nei: “A maternidade é um fato, mas a paternidade é um problema”.

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Carlito Maia: “Quem tem mãe não sabe o que está perdendo”.

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Aristides Ávila: “A diferença é a seguinte: apetite é fome de quem tem o que comer; fome é apetite de quem não tem o que comer”.

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Antônio Carlos de Andrada (governador de Minas, pouco antes de estourar a revolução de 1930): “Façamos a revolução antes que o povo a faça”.

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Pedro Ferreira da Silva: “A família é uma comuna dentro de uma sociedade que condena o comunismo”.

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Groucho Marx: “Acho que televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro”.

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Ferreira de Almeida: “Atleta é um indivíduo que é forte demais para trabalhar”.

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Lula (num comício pelas eleições diretas, em 1987): “Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico”.

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Jules Lévy: “O ventre é a primeira sala de espera”.

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Paulo Leminski: “A vida não imita a arte. Imita um programa ruim de televisão”.

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Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

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Menotti Del Picchia: “Todos têm medo da felicidade porque a felicidade se parece muito com a morte”.

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Cid Cercal: “A ignorância das ignorâncias é a ignorância da própria ignorância”.

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Darcy Ribeiro: “Mestrado é só para mostrar que o sujeito é alfabetizado, pois a metade dos que estão na Universidade não sabe ler”.

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Mário Pires (meu amigo, tomando uma cachaça): “Mens sana, in corpore cana”.

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Paulo Francis (há quem atribua essa frase a Jaguar): “Intelectual não vai à praia. Intelectual bebe!”.

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Jânio Quadros (esta sim, eu tenho quase certeza que foi dita por Jaguar, quando lhe perguntaram porque ele bebia, mas Jânio ficou com a fama): “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, eu comia”.

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Maxim Gorki: “Esse negócio de ‘busca de Deus’ deve ser proibido por algum tempo. Afinal, é uma ocupação totalmente inútil”.

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Geraldo Tartaruga (contador de causos de São Luiz do Paraitinga): “Antigamente, o diabo aparecia pros fazendeiros. Agora não aparece mais, porque tem medo”.

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Bocage: “A vida é filha da puta, / a puta é filha da vida… / Nunca vi tanto filho da puta / na puta da minha vida”.

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Emílio de Meneses: “Beber é uma necessidade, saber beber uma ciência, embriagar-se uma infância”.

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Jorge Luis Borges: “O casamento é um destino pobre para uma mulher”.

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Lima Barreto: “Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa”.

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Gino Meneghetti: “O comerciante é um ladrão que tem paciência”.

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Beppe, avô de Meneghetti, quando soube que o neto, ainda menino, havia praticado roubos, e o aconselhando a não ser um ladrãozinho: “Muitos dos homens bem colocados que você vê aqui em Pisa são ladrões refinados, mas roubam dentro da legalidade. São ladrões da pátria, ladrões de salão. Roubam e a lei ainda lhes presta honras, porque dependem deles para aumentos, nomeações e outras coisas. Durante sua vida você vai ver muitos destes, vá em que país for, porque o mundo está cheio deles. São vigaristas e ladrões, mas vigaristas e ladrões bem sucedidos. Roubam milhões e nada acontece”.

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Barão de Itararé: “O casamento é uma tragédia em dois atos. Um no civil e um no religioso”.

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Por que não terminar com algo de minha autoria? Lá vai: “Entrou por um ouvido e saiu pelo outro: foi tiro de fuzil”.

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Ou clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

O mais alto vendedor de livros

Uma notícia de Londres nos fala: “A Penguin, editora de livros de bolso mais famosa do mundo, que revolucionou o mercado editorial, comemora 79 anos”. E mais nos diz, no seu inglês de tradução literal, of course:

“Curiosamente, seu editor Allen Lane, nascido em Bristol [Inglaterra], em 1902, estudou só até os 16 anos de idade e não mostrou inicialmente muito interesse pelos livros… No entanto, aprendeu rapidamente todos os segredos do ofício e, embora não fosse intelectual, tinha grande tato para perceber, lendo apenas algumas páginas, o que valia a pena ser publicado”.

É esse “no entanto” que nos interessa, que nos move a contar algo de viva experiência, que não está nas agências de notícias que despacham da Inglaterra. O “no entanto” nos lembra uma editora, que chamaremos de Editora C, e o seu editor, que chamaremos de J, ainda vivo e próspero, que Deus o tenha, porque vive do santo ofício de espalhar cultura a mancheias. O ano e o lugar diremos já, sem artifício do C e do J: foi no ano de 1977, em São Paulo.

A Editora C nasceu de uma livraria, como um prolongamento da venda de livros feita pelo Senhor J. Quando chegamos a ela foi o mesmo que flagrar o nascimento de uma estrela – ela, a editora, ainda era uma livraria. E para que haja e aja mais a verdade, deixemos esse falso nós: quando lá cheguei, eu, como todo o mundo, acredito, possuía o maior respeito por livros e pelo mundo dos livros. O que vale dizer, se perdoam a rima: a minha relação com os livros era, em razão de respeitosa, mais que cerimoniosa, mui respeitosa, com cheiros de religiosa.

“No entanto”, a livraria, o santuário, a nascente estrela, ficava no meio de uma ladeira, com uma entrada para o seu interior, ao qual descíamos por uns seis degraus, como quem entra num subterrâneo. E se o leitor, com a vista em sombra por essa caverna esquece o óbvio, acrescento: era entrar naquele antro e se deparar com livros, do chão ao teto, em curvas, em labirintos, em esconderijos secretos, até mesmo em portas ocultas, que se abriam pelo dom de um vendedor baixo, gordinho, que se movia serelepe por títulos da Espanha ao México, do México à Argentina, e da Argentina ao Brasil. Um vendedor que, não bastasse a extraordinária desenvoltura por tantas civilizações – e aqui não pensem que invento – atendia pelo nome de Virgílio. Esse homem vivamente me impressionava. Para mim, saído do Recife, de uma província em que o livro, o mais ordinário livro, tinha o peso cultural de um ente sagrado, e o valor também, porque era o preço material de uma Bíblia impressa em letras de ouro em razão do nosso bolso vazio, esse homem vivamente me impressionava.

Que naturalidade! Que simplicidade! Que cultura extraordinária possuía esse homem, tão baixinho no físico e ao mesmo tempo tão grande e tão alto como um moderno Virgílio, um homem que sabia todos os conteúdos e nomes de livros e autores e editoras e pronúncia na língua dos títulos e anos de edição e preços e locais e origens e países!!! Quem lhe poderia fazer frente, que filósofos, que intelectuais da velha Europa e do Novo Mundo poderiam dialogar com Virgílio? – Ninguém. Ninguém nem nadie, me parecia. (E mesmo até hoje, nesse particular de conhecimento aéreo, vasto, não sei quem lhe fizesse frente.)

Um dos meus defeitos, ou virtudes, a esta altura da maturidade não sei, e quanto mais os anos passam mais misturo e confundo os pólos, e por isso perco inabaláveis certezas, em resumo, para simplificar, uma das minhas características é não saber ocultar uma admiração. Em 1977 eu já era assim. Virgílio deve ter notado, tão transparente eu me punha em sua presença. E uma noite, antes de fechar a livraria, antes de seguirmos até a esquina para uma despedida no bar com uma mistura de cachaça e cinzano, ele quase me põe a ponto de arrebentar pelos poros de arrebatamento e admiração. Pois ele me disse:

– Eu sei onde está qualquer livro nesta livraria. Qualquer um. No escuro.

O acervo da livraria C estava entre os grandes de livrarias de São Paulo. Não lhes digo o número de exemplares, porque isso me obrigaria, primeiro, a malabarismos de memória e de estimativa, e em segundo lugar porque eu pareceria mentiroso. Mas se vocês já viram indivíduos que decoram todos os números e assinantes de uma lista telefônica de uma grande cidade, de São Paulo ou Nova York, poderão dar algum crédito a minhas palavras, ao mesmo tempo que ganharão uma ideia do espetáculo que Virgílio me oferecia. Porque lhes digo que ele me disse:

– Peça qualquer livro, qualquer um, que eu apago a luz, e com a livraria no escuro, eu encontro o livro.

A era das revoluções, eu lhe disse.

– Este é muito fácil. Peça mais outro. Eu lhe trago os dois.

Se eu vivesse em 1977 a experiência de 2014, eu lhe teria pedido que me trouxesse O filho renegado de Deus, somente para derrubar o estro e a poesia de Virgílio. Mas como estava em 1977, eu lhe disse:

– Traga-me O capital.

– Da Siglo XXI ou da Grijalbo?

Pois ele me trouxe, em poucos minutos, sorridente, o que eu lhe pedira. E lhes asseguro que fez sua busca no escuro, porque na porta da caverna eu o esperava. E com isso ele me deixou literalmente sem palavras. Os volumes que me exibia não estavam antes com ele, com absoluta certeza, até porque entre as suas habilidades intelectuais não estava a adivinhação, o saber por antecipação o que eu queria. Fiquei sem palavras. Pior, ou melhor, para ele, com a cara de um camponês espantado que acabara de ver uma aparição de Nossa Senhora de Fátima: Virgílio a sair do escuro com O capital e A era das revoluções era ela.

Fomos até a esquina. E me pus então a estudar em silêncio o fenômeno, está visto, a estudá-lo com uma cara de idiota, porque ele me disse:

– Pergunte, que eu respondo.

– Virgílio, você sempre gostou de ler?

– Sempre, muito. Eu gosto muito de ler.

– Quando você sai daqui, você mergulha nos livros…

– Depois do bilhar. Primeiro o bilhar, depois a leitura. Isso pra mim é sagrado.

Os gênios são mesmo estranhos, eu me disse. Ele devia fazer combinações de lances no pano verde com os livros enquanto jogava. E como quem nada quer, enquanto mais e mais o admirava, eu lhe perguntei:

– Sei… o que você mais gosta de ler?

– Eu adoro o Pato Donald.

E quase caí, e somente não caí, hoje sei, por força da mistura de cachaça e vermute. Mas no bar me encostei a um banco, a contemplar aquela revelação do mundo dos livros. Havia naquilo uma vulgaridade que o meu espírito humano revoltava. Virgílio e o Pato Donald. Eu adorava Virgílio, que adorava o Pato Donald. Um de nós dois seguramente era idiota. E Virgílio sabia, com toda certeza, que o idiota não era ele.

Mas amigos, de Londres veio a notícia de que o editor da Penguin estava longe de ser um intelectual, que por tato, à primeira leitura, avaliava um livro para a edição. Não sei se Virgílio em 1977 já sabia dessa notícia. Porque ele, o moderno Virgílio, mais sereno, sem alarde, no escuro fazia a diferença entre o Marx da Siglo XXI e o Marx da Grijalbo. E somente agora ao fim percebo a associação que em minha mente se fez entre Virgílio e Allen Lane: pela estatura e tamanho do ventre, o genial vendedor de São Paulo lembrava um pinguim. Embora atendesse pelo nome de um mais alto poeta.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Leandro Konder (1936-2014): marxista impenitente

14.11.24_Michael Löwy_Leandro Konder_Marxista impenitentePor Michael Löwy.

Com o desaparecimento de Leandro Konder, a cultura marxista brasileira perdeu uma de suas figuras mais significativas. Segundo Lucien Goldmann, uma grande obra – literária ou filosófica – é aquela que consegue associar a coerência com a riqueza. Profundamente generoso, humano e criativo, Leandro se distinguia pela coerência de suas ideias, e pela extraordinária diversidade e riqueza de seus interesses e curiosidades. Seus escritos incluem não só brilhantes ensaios sobre a filosofia marxista, mas também obras sobre Fourier, Flora Tristan, Kafka, Walter Benjamin, a filosofia da educação, a questão do fascismo – sem falar de seu clássico livro sobre A derrota da dialética e seus dois romances. Leandro era um espírito autenticamente universal: um bicho raro nestes tempos de especialização acadêmica, fragmentação do saber e encerramento das disciplinas em compartimentos estanques.

Leandro – Leo para os amigos – nunca abandonou, cedeu, recuou, ou capitulou, em sua adesão ao comunismo e à dialética marxista. Impenitente, segundo a teologia, é aquele que nunca se arrepende de seus pecados. Leo nunca se arrependeu do “pecado” de lutar contra o capitalismo, por uma sociedade de justiça e liberdade humana. Seja na resistência contra a ditadura militar – que o prendeu e torturou, obrigando-o a se exilar –, nas fileiras do PCB, e mais tarde, do PT, e finalmente, do PSOL, ele sempre esteve na primeira linha do combate pela democracia e pelo socialismo. Sua arma, nesta luta, era tão ou mais poderosa que o melhor fuzil: a pluma.

Seu outro “pecado” era o humor, a ironia e auto-ironia com que apimentava seus escritos, suas aulas e suas conversas com amigos. Um exemplo bem conhecido era sua proposta de completar seu Curriculum Vitae (CV) com um Curriculum Mortis (CM), enumerando todas as derrotas, fracassos e insucessos do autor… No CM de Leandro Konder figura em bom lugar sua notória incapacidade de ser um acadêmico conformista, um burocrata partidário, um intelectual bem pensante e um pensador bem visto pelas autoridades competentes.

Conheci o Leandro em meados dos anos 1970, por ocasião de sua estadia em Paris, nos anos do exílio. Embora oriundos de “capelas” diferentes – ele o Partidão, eu a POLOP – comungávamos no culto a São Jorge (György Lukács). Passávamos horas a discutir as sutilidades da dialética lukacsiana e da necessidade de salvar o marxismo das calamidades positivistas e estruturalistas que o ameaçavam.

Muitos outros encontros se seguiram, não só em Paris, mas também no Rio de Janeiro, a partir do fim da ditadura. Nossas conversas se davam frequentemente em companhia de um outro mosqueteiro da dialética, o Carlos Nelson Coutinho. Além de Lukács, Gramsci, Goldmann, Kosik e outros profetas do Antigo e do Novo Testamento Dialético, discutíamos também sobre política brasileira. Partindo, no começo dos anos 1980, de perspectivas bastante diferentes, acabamos nos aproximando muito, partilhando esperanças e decepções. Esta aproximação se traduziu, por exemplo, na redação de um texto comum, “O Socialismo Libertário de William Morris”, que serviu de introdução à edição brasileira do romance utópico de William Morris, Noticias de Lugar Nenhum (São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002).

Nesses trinta e tantos anos de leituras, conversas e discussões em torno de um café, uma cerveja ou uma batidinha, aprendemos um com o outro. Pessoalmente, aprendi muito com o Leandro. Não só sobre a história do marxismo no Brasil, mas também sobre Kafka, Lukács, Walter Benjamin. E sobre aquele “elemento pérfido” (Bernstein dixit) do marxismo: a dialética, é claro! Nunca li um livro de Leandro sem encontrar nele ideias, hipóteses, análises que me enriquecessem e me ajudassem a refletir. Meu preferido é Walter Benjamin, o marxismo da melancolia. Neste livro aparece o seguinte comentário: “Benjamin sabia da necessidade de pensar agindo, de agir pensando.” O mesmo se aplica, palavra por palavra, ao itinerário do intelectual militante Leandro Konder.

Semanas atrás, por ocasião de uma curta estadia no Rio, Eleni (minha companheira) e eu fomos visitar Leo e Cristina. Nosso amigo se movia com dificuldade e a voz estava enfraquecida, mas o espirito nada tinha perdido de sua agilidade e de sua força. Conversamos sobre a reedição de suas obras: nossa cara Ivana Jinkings, da Editora Boitempo, estava muito interessada e esperava por propostas. Eu não podia imaginar que este seria nosso ultimo encontro…

O Leo vai nos fazer muita falta… Mas suas ideias estarão no coração e no espirito de muitas gerações de marxistas. Se algum dia a dialética tiver sua revanche no Brasil, ela terá uma grande dívida para com o Leandro, combatente obstinado por um marxismo dialético, aberto, humanista, democrático e revolucionário (no sentido gramsciano da palavra).

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Carlos Nelson Coutinho, Michael Löwy e Leandro Konder juntos em rara fotografia de 1992.

Confira também, “Um amorável marxista: Leandro Konder (1935-2014)“, de José Paulo Netto, “Chegada do manifesto“, de Leandro Konder, “Sobre o amor“, homenagem de Marcelo Freixo a Leandro Konder, e a entrevista integral de Leandro e Carlos Nelson Coutinho a Emir Sader e Maria Orlanda Pinassi para a revista Margem Esquerda.

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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lançamento Boitempo: “O capital, Livro II”, de Karl Marx

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Capa de O capital: Crítica da economia política. Livro II: O processo de circulação do capital, de Karl Marx, com ilustração de Cássio Loredano

A Boitempo acaba de lançar o aguardado Livro II de O capital, de Marx. A edição é a primeira no mundo a basear-se no conjunto publicado recentemente pela MEGA-2 (Marx-Engels-Gesamtausgabe), amplamente considerada por estudiosos a edição definitiva d’O capital de Marx. Esses documentos, que nunca haviam sido traduzidos para o português, permitiram a reconstrução dos manuscritos em sua totalidadeAlém disso, o Livro II recebe o acréscimo de treze textos originais de Marx descartados por Engels em sua edição da obra. A tradução é de Rubens Enderle, que acaba de receber o Prêmio Jabuti de 2014 pela tradução do Livro I d’O capital. Disponível tanto em capa dura, quanto em brochura, a edição conta ainda com um prefácio de Michael Heinrich, discutindo as principais questões envolvendo o Livro II, e uma introdução, elaborada pelos pesquisadores da MEGA-2, contextualizando o que a nova edição ajuda a elucidar. A orelha, que reproduzimos integralmente abaixo, é do sociólogo do trabalho Ricardo Antunes.

O livro chega às livrarias brasileiras junto com Para entender O Capital: Livros II e III, volume final do guia de leitura de David Harvey à obra máxima de Karl Marx.

Leia abaixo, a orelha do livro, assinada por Ricardo Antunes

O Livro II de O capital oferece pistas espetaculares para se compreender e atualizar a teoria do valor-trabalho. Ao contrário do fim do valor, tão alardeado há décadas, o que o mundo produtivo (em sentido amplo, como o define Marx) vem presenciando é a expansão sem limites de novas formas geradoras do valor, ainda que sob a aparência do não-valor.

Como a alquimia do capital não pode se eternizar sem alguma modalidade interativa entre trabalho vivo e trabalho morto, o moinho satânico não descansa. Cria e recria, produz e destrói, cria novos espaços e também desespacializa. Vale qualquer coisa para extrair mais-valor. Com o mundo maquínico-informacional-digital tudo ficou mais fácil para o capital e todos os espaços possíveis são potencialmente convertidos em geradores de mais-valor. E se este nasce na esfera da produção (Livro I), Marx nos recorda que produção é também consumo, distribuição e troca/circulação.

Aqui reside o traço distintivo do Livro II: tratar de modo abrangente o processo de circulação do capital. Como o seu objetivo precípuo é a valorização, reduzir o tempo de circulação do capital torna-se vital. Como o tempo global do capital depende tanto do tempo de produção como do de circulação, diminuir a diferença entre eles é um dos desafios cotidianos da engenharia do capital dos nossos dias. Enquanto a mercadoria produzida, seja ela material ou imaterial, não é vendida, não há realização plena do mais-valor já criado. Desse modo, o tempo de circulação necessário torna-se um limitador do tempo de produção.

Urge, então, reduzi-lo ao mínimo, de modo a encurtar o tempo de rotação total do capital, que é dado pelo tempo de produção mais o de circulação. O que leva Marx a oferecer duas conclusões, colocando a crítica da economia política de seu tempo em um patamar mais elevado: primeiro, quanto mais o tempo de circulação se aproxima de zero, maior é a produtividade do capital e, segundo, maior é também a geração de mais-valor. O que significa dizer: em situações particulares, como na indústria de transportes e de comunicações, embora não ocorra aumento da quantidade material produzida, há geração de mais-valor.

Como se dá tal mutação? Esse é o maior motivo do convite à leitura deste Livro II de O capital, peça absolutamente imprescindível para uma compreensão plena do Livro I e que será enfeixado pelo Livro III, o qual trata do processo global de produção do capital (e que será em breve publicado pela Boitempo).

Torna-se, assim, este Livro II ponto de partida necessário para uma melhor intelecção do papel das tecnologias de informação (TIC), dos novos serviços quase todos mercadorizados e da crescente importância do trabalho e da produção imaterial no capitalismo de nosso tempo.

* * *

O material manuscrito legado por Marx para o Livro II demonstra com que inigualável rigor, com que severa autocrítica ele procurava conduzir à extrema perfeição suas grandes descobertas econômicas antes de publicá-las; uma autocrítica que raramente lhe permitia adaptar a exposição, em seu conteúdo e forma, a seu campo de visão constantemente ampliado por meio de novos estudos.Friedrich Engels

O Livro II é a parte mais subestimada de O capital. Na realidade, esse volume tem uma enorme importância para a compreensão da crítica econômica marxiana, e por duas razões totalmente distintas: a primeira diz respeito à matéria nele tratada; a segunda, à posição que estes manuscritos ocupam no processo de formação da obra capital de Karl Marx.Michael Heinrich

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Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II (2013) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), ambos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Adeus ao trabalho? (Cortez), Os sentidos do trabalho (1999) e O caracol e sua concha (2005), além de O continente do labor, esses três últimos também pela Boitempo Editorial.

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Dos livros de Ricardo Antunes, a Boitempo publicou dois em versão eletrônica (ebook): Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual e O continente do labor, além de diversos títulos da Coleção Mundo do Trabalho. Ambos custam menos da metade dos livros impressos e podem ser adquiridos nas livrarias Cultura, Saraiva e Gato Sabido, dentre outras.

Weird Fiction: essa força estranha (parte I)

1Por Fábio Fernandes.

Antes da ficção científica surgir como gênero literário assumido, ela já estava lá. Antes da fantasia se consolidar com Tolkien e seus seguidores, ela já fazia sucesso. A Weird Fiction (termo que não tem tradução para o português, mas que poderíamos interpretar aproximadamente como “ficção do estranho” ou “ficção do bizarro”) já mexia com a imaginação dos leitores desde o século dezenove.

Não é difícil imaginar o motivo: tendo como seus principais temas o macabro de modo geral e as histórias de fantasmas em particular, esse subgênero da ficção especulativa está diretamente ligado ao que convencionamos chamar de narrativa de horror. Mas, segundo o pesquisador S. T. Joshi em seu livro The Weird Tale, ela se distingue do horror e da fantasia porque é anterior à divisão mercadológica em gêneros. E foi isso o que lhe deu, digamos, sustança: como as convenções estilísticas de gênero, os marcadores semióticos que determinam o que cada gênero tem que ter ou não (por exemplo, robôs e espaçonaves na ficção científica, espadas e magia na fantasia) ainda não haviam sido estabelecidas no século dezenove (a ficção científica só começa a definir esses marcadores em 1926, quando Hugo Gernsback cria a revista Amazing Stories nos EUA e também a expressão “science fiction”).

É a partir daí que a weird fiction acaba sendo realmente uma força estranha; um caldeirão que, criado na Grã-Bretanha ainda no tempo da expansão colonial, mistura vários tipos de narrativa num samba (ou seria valsa?) do britânico louco, que é confrontado com forças sobrenaturais e míticas além de seu controle e explicação. Mas é um americano, H. P. Lovecraft, que no começo do século vinte, adota o termo Weird Fiction de seu criador (Sheridan Le Fanu, autor de Carmilla, história de vampiros que influenciou o Drácula de Bram Stoker) e procura, com o espírito de racionalização do estadunidense da era moderna, dar explicação para o que não faz sentido. Em seu livro O Horror Sobrenatural na Literatura, Lovecraft define assim o gênero:

“A verdadeira história weird tem algo mais do que assassinatos secretos, ossos e sangue, ou uma forma coberta por um lençol sacudindo correntes de acordo com as regras. Uma certa atmosfera de sufocamento e inexplicável pavor de forças exteriores e desconhecidas deve estar presente; e deve haver uma pista, expressada com profunda seriedade e gravidade, daquela mais terrível concepção do cérebro humano: uma maligna e particular suspensão ou derrota das leis fixas da Natureza que são nossa proteção contra os ataques do caos e os demônios do espaço insondável.” (tradução nossa)

Le Fanu é considerado o precursor da Weird Fiction, mas foi Lovecraft seu principal evangelista. Juntamente com autores como Robert E Howard (pai de Conan, o Bárbaro, que também navegou um pouco por essas águas), William Hope Hodgson, Arthur Machen, Clark Ashton Smith e Lord Dunsany, Lovecraft escreveu histórias que mesclavam horrores sobrenaturais, científicos e cósmicos. Nas Montanhas da Loucura (que quase virou filme nas mãos de Guillermo del Toro recentemente) é um de seus exemplos mais interessantes de horror seguindo suas próprias regras: uma missão exploratória na Antártica encontra uma construção gigantesca e vestígios do que pode ter sido uma civilização alienígena que teria montado sua base aqui na nossa pré-história… mas pode também ser algo mais que isso, algo mais pavoroso. E aí, nessa dúvida, nessa linha fina entre loucura e sanidade, está grande parte da Weird Fiction lovecraftiana.

Que tem como seu eixo o mito de Cthulhu, criado por Lovecraft na história The Call of Cthulhu em 1926 e publicado em 1928 na revista Weird Tales, o principal bastião desse subgênero (publicada ininterruptamente de 1923 a 1954 e que, depois de diversas reencarnações – nada mais natural para uma revista weird –, retornou em 2007, aparentemente para ficar). Cthulhu, cuja descrição é deliberadamente obscura mas que é de modo geral caracterizado como uma imensa criatura aquática adormecida desde os primórdios da Terra no fundo dos mares e destinada a emergir de seu sono eterno no fim dos tempos, virou uma coqueluche entre os apreciadores do subgênero. Tanto que a expressão “mito de Cthulhu”, na verdade, foi criada posteriormente por August Derleth, amigo e correspondente de Lovecraft, responsável pela criação da editora Arkham House e pela divulgação póstuma de suas obras, que continuam a fazer um incrível sucesso até hoje – isso mais pelas imagens aterradoras, que grudam na retina e insistem em não sair, do que das descrições racistas e de uma virulência impressionante contra os negros em particular.

Isso fez com que em meados de 2014 o americano Daniel José Older, autor do romance Salsa Nocturna e co-editor da antologia de fantasia Long Hidden começasse uma petição para que se troque o busto de Lovecraft como premiação dos World Fantasy Awards pelo de Octavia E. Butler, autora que nas últimas décadas vem ganhando mais importância e servindo de norte para novos autores de FC e fantasia. (Disclaimer: este que vos digita assinou a petição.) Embora a petição não tenha valor de lei e a discussão ainda esteja longe de terminar – S.T. Joshi criticou aberta e furiosamente Older por supostamente não entender que Lovecraft era um homem de seu tempo e que isso seria natural (mas uma lida em textos como o poema On the Creation of Niggers basta para vermos que não é bem assim) – o que é preciso mesmo é entender que o mundo mudou, e embora se possa gostar do mito de Chtulhu, não se pode subscrever às crenças de seu criador.

Agora, mudando de pato para ganso (metamorfose que em weird fiction é normal e perfeitamente aceitável), façamos um rápido pit-stop aqui e observar algo que é evidente mas que nem sempre é lembrado quando se escreve um texto a respeito do weird: os anglo-americanos não são os detentores das histórias de fantasmas e congêneres que caracterizam esse subgênero. Entre os hoje aceitos como autores desse tipo de narrativa estão o japonês Ryonosuke Akutagawa (autor de Rashomon, imortalizado no cinema por Akira Kurosawa) e Jorge Luis Borges (que na verdade é inclassificável, e talvez por isso mesmo – e por ser assumidamente fã de Lovecraft, a quem inclusive dedicou um de seus contos, There Are More Things – entra na lista).

Mas alguns brasileiros também se encaixam muito bem no gênero. Joaquim Manuel de Macedo, com A Luneta Mágica, por exemplo, Machado de Assis (sim, Machado, com histórias como Uma Visita de Alcibíades, ainda que com um humor que não é costumeiro das narrativas weird) e João do Rio, com o assustador O Bebê de Tarlatana Rosa, são apenas alguns dos autores. E entre 1947 e 1958 o radialista Almirante, em seu programa Incrível, Fantástico, Extraordinário, apresentou algumas das mais apavorantes narrativas macabras à brasileira, envolvendo ameaças de mortos, cirurgias espirituais, e até blocos carnavalescos com baterias de desencarnados! Em termos de estranheza e bizarrice o Brasil nunca deveu nada a ninguém.

A Weird Fiction nunca deixou de fazer sucesso, nem aqui nem no exterior, onde poucos anos atrás ela ressurgiu sob outro formato, mais turbinado e com autores mais em sintonia com nosso tempo e nossa realidade, ganhando inclusive outro rótulo: New Weird. Mas isso é assunto para a próxima coluna.

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Fábio Fernandes é escritor e tradutor. Está atualmente traduzindo A cidade & a cidade, de China Miéville, previsto para ser lançado pela Boitempo em novembro de 2014. Colabora com o Blog da Boitempo, mensalmente, às sextas.

Simón Bolívar (Parte I)

14.11.21_Izaías Almada_Bolivar IPor Izaías Almada.

No mais das vezes citada como sendo alguma coisa ruim, perversa, a expressão “bolivarianismo” vem ganhando relevância em alguns feudos da direita brasileira, introduzida que foi pela portas dos fundos de redações, parlamentos e tribunais. Sem contar a idiotia generalizada das chamadas redes sociais.

Usada nesse sentido, a expressão demonstra o grau de ignorância e atraso mental de seus disseminadores, cuja imagem mais candente se materializou com a foto de um dos diretores do jornal O Estado de São Paulo em passeata golpista pró intervenção militar em que segurava um cartaz com os dizeres “foda-se a Venezuela”.

Dou aqui, modestamente, um pequeno contributo a tamanha ignorância, sem esquecer um pequenino e relevante fato: o de lembrar que um dos primeiros atos de Hugo Chávez como presidente eleito democraticamente na Venezuela em 1998 foi uma profilaxia de natureza ética no Poder Judiciário do país.

Para compreender, pois, essa Venezuela que entrou no século 21 eliminando o analfabetismo de suas fronteiras1, entre outras importantes conquistas sociais, será necessária uma exegese e o estudo para o conhecimento mínimo daquilo que ouso denominar de tripé histórico, político e econômico, cuja base é hoje formada por uma população de 25 milhões de habitantes.

Dois nutrientes desse tripé se identificam com duas personalidades, dois homens de inegável poder carismático e que estão separados por 124 anos de história do país, Simón Bolívar e Hugo Chávez.

O terceiro suporte do tripé é o petróleo, riqueza natural que vai ajudando a construir a riqueza da nova Venezuela, embora não seja inesgotável, e que com a chegada de Chávez ao poder deixou de ser monopólio da burguesia local e internacional. Em todas as análises, ensaios, revistas, vídeos e livros a que já tive acesso, dos mais superficiais aos mais verticalizados, o denominador comum subjacente a cada um deles passa necessariamente pela citação de um desses três vetores ou quase sempre dos três. Não fujo à regra.

O presidente Hugo Chávez tinha por costume dizer que a seiva de que se nutria ideologicamente a Revolução Bolivariana era proveniente de três raízes de pensamento e ação: Simón Rodríguez, Ezequiel Zamora e Simón Bolívar. Dos três, o mais reverenciado ainda nos dias atuais, não só na Venezuela, é Simón Bolívar.

É quase impossível para um turista que vá hoje à Venezuela ficar indiferente à presença constante, em pinturas, gravuras, estátuas, nomes de ruas e praças, impressão em cédulas e moedas, camisetas, cartazes, publicações das mais variadas, museus, desenhos animados, da figura de Simón Bolívar, o Libertador, como é carinhosamente chamado.

E não é um fenômeno atual, que diga respeito somente à Revolução Bolivariana. Trata-se de uma tradição histórica cultivada praticamente desde a sua morte em 1830. Governantes, os mais diversos no século 20, sempre reverenciaram a memória do Libertador.

Tal reconhecimento e respeito pela figura do herói da independência conquistada ao colonizador espanhol têm sua maior expressão, a meu ver, no fato de haver a Constituição da V República, elaborada por uma Assembléia Nacional Constituinte em 1999, se consagrado como Constituição da República Bolivariana da Venezuela e dizer em seu artigo 1º:

“A República Bolivariana da Venezuela é irrevogavelmente livre e independente e fundamenta seu patrimônio moral e seus valores de liberdade, igualdade, justiça e paz internacional na doutrina de Simón Bolívar, o Libertador.” 2

Lamento não existir sentimento semelhante no Brasil, até porque muitos dos que entre nós lutaram pela independência em relação a Portugal nem sequer são estudados com o devido apreço por suas ações. O mais famoso deles, Tiradentes, durante muitos anos foi ironicamente o nome de um não menos famoso presídio na cidade de São Paulo.

Ainda carecemos de patriotismo, infelizmente. Ou, pelo menos, ele fica mais evidente de quatro em quatro anos, quando o país se ufana nas copas mundiais de futebol. O grito do Ipiranga está condenado a ser um grito de gol ou um quadro famoso na parede e o seu protagonista, para aqueles que não se dedicam ao estudo da história pátria, alguém que apenas consumou uma situação de fato ao bradar “Independência ou Morte!”

Dom Pedro I está longe de se tornar um mito, um personagem em que o cidadão mais humilde se reconheça em sonhos de igualdade, liberdade e fraternidade. Talvez até nem tivesse estatura para tanto, concordo, mas outros tiveram e nem por isso são reverenciados.

Não tivemos nem grandeza e nem heroicidade na nossa independência e por isso, talvez, é que carreguemos ainda nos dias de hoje, amortecidos dentro de cada um, a esperança e o desejo de uma verdadeira libertação. Ou de um sadio orgulho patriótico. Tentativas nessa direção invariavelmente são abafadas pelo aculturamento de nossas “elites”, sempre prontas a tirar os sapatos (e se preciso for até as calças) em alfândegas no exterior.

Algum orgulho patriótico, contudo, permeia boa parte da história da América espanhola com os feitos e as lutas de Bolívar e não só contra os espanhóis, ao tentar criar a sua Grande Colômbia.

Entretanto, o que chama a atenção em Bolívar, quando se começa a ler um pouco da sua história, não é o aspecto factual ou a descrição das batalhas e conflitos políticos em que se envolveu, mas é – sobretudo – a sua visão de estadista, escrita em muitos documentos e cartas, adquirida, sobretudo, em meio aos inúmeros combates que travou. Muitos deles na companhia de um digno militar de origem brasileira, José Inácio de Abreu e Lima.3

Suas reflexões, em particular, sobre o então incipiente conflito com os Estados Unidos da América, já no decorrer do século XIX nos dão a dimensão de sua ação política libertadora e visionária. Em muitos dos seus discursos e cartas, ele costumava chamar a atenção para esse fato, sendo já famosa uma frase sua: “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher de fome e miséria a América em nome da Liberdade”.

Tão logo saíram os espanhóis de cena, na primeira metade do século XIX, o espaço político e mesmo geográfico da América espanhola, confirmando a previsão de Bolívar, foi sendo aos poucos ocupado pelos norte-americanos, cuja política expansionista avançou pela América Central e Caribe, desde a anexação de Estados como a Califórnia e o Texas, tomados em tratados de “mão grande” aos mexicanos.

Conhecer os conceitos e a prática dessa política expansionista desde os seus primórdios me parece um cuidado que se deveria tomar para o embasamento de propostas políticas alternativas dentro do panorama geopolítico contemporâneo, onde nenhum povo ou país deve se submeter à supremacia de quem quer que seja.

Nesse aspecto, a bibliografia citada pelo escritor venezuelano Carlos Méndez Tovar em seu livro Conoce Usted a su Enemigo? nos remete a um conjunto de obras sobre o tema.4

Continuarei em próximo artigo.

NOTAS

1 No dia 28 de outubro de 2005, a Venezuela foi reconhecida e declarada oficialmente pela UNESCO como tendo erradicado o analfabetismo de seu território. Para isso, muito contribuiu o governo cubano.

2. Constitución de La República Bolivariana de Venezuela, artigo 1, Principios Fundamentales.

3. CHACON, Vamireh, ABREU E LIMA, General de Bolívar, Editora Paz e Terra, 1983 – Coleção ESTUDOS BRASILEIROS.

4. TOVAR, Carlos Méndez, Conoce Usted a su Enemigo? Pablo de La Torriente Editorial, Cuba. 2001.

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Eleições630p

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.