Leon Hirszman e o cinema brasileiro

Leon Hirszman é um caso de cineasta que vai além do cinema. Aquilo que Noel Rosa cantou no samba “Não Tem Tradução”, nos versos

“…Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português”

bem que se pode aplicar ao que penso de Leon Hirszman. Parodiando Noel, dizemos que o trabalho de Leon já passou de cinema. Mas pode ter alguma tradução, que tentarei em três curtos parágrafos.

Ontem à noite, ao ver no Arte 1 dois documentários seus, eu fiquei com os olhos rasos d’água e o coração em estado de encantamento. A imagem com que ele abre o documentário Nelson Cavaquinho, com a cara de mestiço de índio e negro de Nelson, o modo respeitoso e sério e original e único com que vai para o quarto miserável, vizinho do quarto onde dorme o compositor, na casinha pobre de Nelson. O modo como o filma caminhando entre os vizinhos da ruazinha de vila, a honestidade com que filma o gênio de Luz Negra, do compositor de “respeite a minha dor, não cante agora, perdi meu grande amor faz uma hora”, o modo como exibe a voz embargada de Nelson Cavaquinho bêbado, ou zangado, ou sincero e verdadeiro no samba em que canta não se deve negar uma ajuda a quem necessita, eu nunca vi nada igual em toda a minha vida. Esse respeito à integridade de um compositor popular, a originalidade de imagem, da verdade na entrevista que arranca de Nelson a confissão “o samba vem da minha vida, todo o meu samba é triste,” a montagem dos vários e único Nelson Cavaquinho é tão boa, que quando acaba, recebemos um soco no estômago, de raiva: – “Acabou?! Não pode”. Assim pensamos porque ao acabar o documentário parece ter acabado também o momento mágico de ter Nelson Cavaquinho na sala, sob o alcance das mãos, dos olhos de uma grande fraternidade.

Depois, ao ver o Partido Alto, em que Paulinho da Viola o auxilia, e vemos crescer a voz e a pessoa de Candeia, que puxa o samba com uma voz que liberta e sem querer nos move no ritmo como se nos tomasse um canto de terreiro, no sofá, e vai mais longe, vai mais fundo, com as 3 mulatas que mais parecem as 3 mulheres do sabonete Araxá de Manuel Bandeira, e vai até um clímax, quando já de noite, uma roda de samba, com a negrada toda embriagada a cantar, a negrada que somos todos nós, “eu sou eles, eu sou eles”, a vontade que dá é de pular para dentro da imagem, e começar a improvisar também no partido alto, naquela alegria alucinada que o encontro da música favorece, e quem o provou alguma vez sabe que é ótimo e nunca mais se esquece. Isso porque nessa altura Leon Hirszman filma dentro da roda de partideiros, pois a câmera também canta como mais um dos sambistas, e até a imagem escura na noite, a precariedade da luz é boa e sincera, só falta a gente gritar “não acende a luz”, porque se acenderem vão me ver gritando de felicidade.

Então ao acabar esses dois documentários eu comentei com a minha mulher, no último domingo: esse era um cineasta que amava o povo brasileiro. Esse é o cinema que nenhum cineasta brasileiro hoje faz. O trabalho de Leon Hirszman não é uma filmagem exterior, de teoria do bar com a patota, ou sobre o mundo do lúmpen como a classe média imagina que seja o lúmpen. Em dúvida, olhem o amor de Leon Hirszman ao Brasil aqui

Nelson Cavaquinho (1969)

Partido Alto (1982)

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Prometeu envelhecido: proletariedade e velhice no século XXI

Giovanni Alves_gerontariado

Por Giovanni Alves.

É preciso dotar o pensamento social crítico de uma perspectiva estratégica de médio e longo prazo capaz de indicar novas tendências do desenvolvimento social. É importante ficarmos atentos para os novos fenômenos sociometabólicos que estão ocorrendo e devem ocorrer, por exemplo, por conta de mudanças demográficas que devem ocorrer no século XXI – pelo menos a partir de 2030. Nesse sentido, urge ficarmos atentos à reconfiguração da classe social do proletariado que deve ocorrer não apenas por conta da reestruturação produtiva propriamente dita que ocorre no seio do capitalismo global, mas às importantes alterações demográficas que ocorrerão nas sociedades capitalistas centrais e países em desenvolvimento como o Brasil. As mudanças cruciais no sociometabolismo do trabalho por conta da reestruturação demográfica colocarão novos patamares de desenvolvimento das individualidades humanas no seio de candentes contradições sociais abertas pelo movimento do capital como modo estranhado de controle da vida social.

Nosso interesse nesse pequeno artigo é apenas indicar alguns sinais de mudanças sociometabólicas no seio das camadas sociais da classe do proletariado tardio no Brasil com impactos na estrutura (e luta) de classes no século XXI. Por exemplo, em artigos anteriores, ao discutirmos o conceito de precariado (“A revolta do precariado” e “O que é o precariado?”), conceito ressignificado para caracterizar a camada social de jovens proletários assalariados altamente escolarizados inseridos em relações de vida e trabalho precário, buscamos salientar um traço candente (e crescente) do proletariado tardio no Brasil. Deste modo, no Brasil-Pátria Educadora – lema do novo governo Dilma Rouseff – deve crescer, pelo menos na próxima década, em termos relativos, o contingente de jovens trabalhadores assalariados altamente escolarizados mas inseridos em relações de trabalho e vida precários (uma tendência dominante hoje, por exemplo, nos EUA, Japão e União Européia). A afirmação da precariedade nas relações de trabalho”, caso a terceirização se amplie efetivamente no mercado de trabalho, deve contribuir para o aumento paulatino do precariado no Brasil. O contingente do precariado no século XXI encontra imensa dificuldades de representação sindical e politica por conta da própria crise de sindicatos e partidos trabalhistas de esquerda.

Neste artigo, iremos provocar outra discussão sobre uma camada social do proletariado tardio no Brasil que também deve crescer em termos relativos no decorrer do século XXI: o gerontariado, isto é, a camada social de proletários idosos – pessoas com 60 anos ou mais de idade – inseridos em relações de trabalho e vida precária. Um detalhe: uma parte significativa do gerontariado deve ser constituída por pessoas com 60 anos ou mais de idade aposentadas ou pensionistas. A presença crescente da velhice proletária ativa no mundo do capital é expressão de um novo modo de precariedade do trabalho que deve surgir na era do envelhecimento no século XXI (o termo “a era do envelhecimento” foi utilizado pelo economista George Magnus, no seu livro homônimo publicado em 2009 e que trata como a demografia está transformando a economia global e nosso mundo). Na verdade, precariado e gerontariado compõem os dois pólos extremos das contradições candentes – e radicais – do capital na era da sua crise estrutural, expressando enquanto categorias sociais, formas de estranhamento e irrealização humana no estágio altamente avançado do processo civilizatório.

Podemos dizer que presenciamos na era do capitalismo global mudanças cruciais na delimitação das etapas de desenvolvimento geracional das pessoas humanas que trabalham. Por exemplo, por um lado, tivemos o alongamento da trajetória daquilo que se convencionou chamar “juventude” – não “juventude” no sentido de fato biológico, mas sim, como identidade cultural (ela não se restringe apenas à faixa etária dos 18-29 anos, mas pode-se considerá-la próximo dos 40 anos, no caso dos “jovens-adultos”). Mas, além do alongamento da juventude, ocorre, de certo modo, a precariedade de uma importante transição nas etapas da vida pessoal: a passagem da juventude para a vida adulta por conta daquilo que discutimos no artigo intitulado “A derrelição de Ícaro”: a crise da sociedade salarial.

Ao mesmo tempo, em que ocorre o alongamento (e envelhecimento) da juventude, percebemos o aumentou a expectativa de vida nas sociedades capitalistas centrais e em desenvolvimento, alongando, deste modo, a etapa da velhice, constituída pelas pessoas com 60 ou mais anos de idade (o termo “envelhecimento da juventude” foi utilizado pelo sociólogo espanhol Enrique Gil Calvo).

Portanto, por um lado, temos o alongamento e envelhecimento da juventude (com a dificuldade de transição para a vida adulta), e por outro lado, a extensão da velhice como fase produtiva no tempo do capital. Enfim, trata-se de tendências de mudanças demográficas de longo curso que não podem ser desprezadas e que constituem novos fenômenos sociometabólicos na dinâmica das camadas sociais da classe do proletariado tardio.

Como temos discutido, a discussão do fenômeno do “precariado”, tal como concebemos hoje – a camada social de jovens-adultos precários altamente escolarizados em situação de trabalho e vida danificadas – implica levarmos em consideração as metamorfoses da própria categoria social de juventude e a precariedade da transição da juventude para a vida adulta. Primeiro, devido as mudanças estruturais ocorridas no mercado de trabalho, onde um dos rituais de passagem da juventude propriamente dita para a vida adulta era efetivamente a inserção numa condição de “cidadania salarial estável”. Na medida em que aumentou a precariedade do emprego, suprimindo-se o ritual da obtenção do emprego estável, capaz de garantir outras dimensões do sonho da vida adulta (família e consumo), bloqueou-se a transição e alongou-se a fase de transição da adolescência para a vida adulta. Entretanto, muitas vezes, um contingente de jovem-adultos tveram uma serie de experiências de transições ocupacionais caracterizadas pela frustração das expectativas. Por exemplo, verificamos o fenômeno da inadequação entre a profissão adquirida e a atividade ocupacional exercida. Na verdade, a frustração das expectativas – traço indelével da juventude de hoje – implica numa falsa transição da juventude para a vida adulta. Mesmo com emprego estável e insatisfatório profissionalmente, tendo em vista as novas condições da precariedade salarial (gestão toyotista e novas tecnologias informacionais que contribuem para a intensificação do trabalho estranhado), os jovem-adultos continuam a cultivar sonhos juvenis de realização profissional. Por isso, verifica-se outro fenômeno importante – por exemplo, a permanência, para além das expectativas, da ocupação insatisfatória considerada como provisória. Nesse caso, na circunstancia de instabilidade e incerteza do mercado de trabalho, a inserção num emprego estável mesmo que insatisfatório, torna-se um valor social.

Num primeiro momento, o jovem alimenta a expectativa de que logo abandonara aquele emprego estável e insatisfatório. Depois, com o passar do tempo, o provisório tornou-se definitivo. Premido pelas circunstâncias da transição para a vida adulta – família e consumo – submete seus sonhos juvenis de realização profissional (e pessoal) às contingências do mercado. Apesar disso, enquanto jovem-adulto inserido num emprego estável mas insatisfatório, preserva sonhos, expectativas e anseios juvenis.

Portanto, de certo modo, a categoria social de precariado – tal como nós a concebemos – originou-se da interdição no ritual de passagem da juventude para a vida adulta por conta da crise da “sociedade salarial”. É claro que ocorreram importantes mudanças culturais na última metade do século XX como, por exemplo, a valorização do consumo e ethos teenagers que fez com que o apego à auto-identidade da juventude dominada pelas imagens de dinamismo, energia e sexo se fortalecesse. Disseminou-se a síndrome de Peter Pan (utilizando o termo de Dan Kiley). Portanto, tornar-se “adulto” no sentido cultural, com tudo aquilo que isto significa (familia e capacidade aquisitiva sustentável), tornou-se, não apenas uma impossibilidade objetiva, em virtude da precariedade salarial de amplos contingentes de assalariados flexíveis, mas passou a ter um alto custo psicossocial. Por exemplo, no caso do Brasil, surgiu a denominada “geração canguru”, que trata-se de um fenômeno mundial – em Portugal ela se chama “geração casinha-dos-pais” (a “geração canguru”, aquela formada por jovens entre 25 e 34 anos que ainda moram com os pais, e que no Brasil cresceu nos últimos dez anos, segundo os últimos dados do IBGE). A denominação jovem-adulto fez alongar a trajetória da juventude – dos 18-29 anos (jovem) para jovem-adulto (29-40 anos). De certo modo, o alongamento da trajetória da juventude na sociedade do capital que vincula a imagem da juventude à energia, dinamismo e sexo (“amor liquido”, diria Zygmunt Bauman) significou congelar a seta do tempo, como nos indica o sociólogo espanhol Enrique Gil Calvo, fazendo surgir um contingente de jovens “envelhecidos” (e moralmente imaturos) que adiam a passagem para a fase adulta. Trata-se de um fenômeno cultural que se impõe sobre as disposições biológicas do organismo humano. O que significa que, embora tenhamos pessoas humanas que não tenham mais feições (e disposições) da juventude propriamente dita, têm estilo de vida e psicologia de cariz juvenil.

Por outro lado, além do alongamento da juventude e a precariedade da passagem para a vida adulta podemos constar como tendência de desenvolvimento social, a extensão da velhice em termos demográficos, tendo em vista a melhoria da expectativa de vida no capitalismo global. Trata-se de um dado civilizatório de dimensões mundiais. No caso do Brasil, desde o começo da década de 2000 observa-se, ao lado do aumento da expectativa de vida do brasileiro, a tendência de envelhecimento da população. Devido à queda de nascimentos nas populações dos países capitalistas mais desenvolvidos e países em desenvolvimento (incluindo o Brasil), aumentou o percentual de idosos na população. Segundo a última Síntese de Informações Sociais do IBGE, verificou-se que a participação do grupo com até 29 anos de idade diminuiu de 54,4% em 2004, para 46,6% em 2013. Ao mesmo tempo, aumentou o percentual de pessoas para o grupo com 45 anos ou mais de idade, passando de 24% para 30,7%. O IBGE observa que de 2004 para 2013 houve uma grande diminuição na razão de dependência dos jovens, passando de 43,0 para 34,4; enquanto para o grupo dos idosos, no mesmo período, o indicador apresentou aumento de 15,3 para 20,2; ou seja, em 2013 havia um idoso de 60 anos ou mais de idade para 5 pessoas com idade entre 15 e 59 anos. As mudanças neste indicador, diz o documento, estão relacionadas ao processo de diminuição de fecundidade e de maior longevidade da população – o que é um fenômeno histórico do capitalismo global (a taxa de fecundidade total para o Brasil passou de 2,39 filhos por mulher, em 2000, para 1,77 em 2013). Ao mesmo tempo, verificamos nos países capitalistas desenvolvidos e em desenvolvimento pressões estruturais do capital financeiro hegemônico para a precarização das aposentadorias e pensões de homens e mulheres idosos, obrigando-os, deste modo, a manterem-se ocupados, inseridos em situações de trabalho e vida precários. Portanto, o surgimento do gerontariado decorre não apenas da inflexão da curva demográfica no desenvolvimento social da humanidade, mas da vigência do capitalismo neoliberal, forma do capitalismo histórico na etapa de crise estrutural do capital, que possui como traço candente a precarização estrutural do trabalho – incluindo nesse caso, a precarização das pensões e aposentadorias de idosos que dedicaram a vida ativa à trabalhar para outrem.

Deste modo, tal como verificamos no caso do precariado, o gerontariado expõe uma contradição radical da civilização do capital: na etapa de desenvolvimento civilizatório mais avançado, quando se verifica o alto grau de produtividade do trabalho, o tempo de vida reduz-se efetivamente a tempo de trabalho – não apenas tempo de trabalho no sentido de jornada laboral, mas tempo de trabalho no sentido de tempo de existência humana reduzida à atividade alienada/estranhada – isto é, o trabalho como meio de vida. Muitas vezes, proletários idosos subsumidos à laboralidade alienada, não conseguem após a aposentadoria dedicar-se efetivamente à uma vida plena de sentida, tendo em vista que não foram educados – ou formados – para tal. Buscam no trabalho estranhado não apenas um meio de vida, mas um modo perverso de dar sentido à vida alienada.

Portanto, enquanto o precariado representa jovens-adultos assalariados altamente escolarizados inseridos em relações de trabalho e vida precários, o gerontariado representa o proletariado idoso inserido em trabalho e vida precários. Na verdade, as novas camadas sociais do proletariado tardio no século XXI expõem novas formas de ser do estranhamento social do capital. No capitalismo do século XXI tende-se a agudizar-se o que Lukács denominou de estranhamento social, isto é, a contradição entre o aumento das capacidades humanas por conta do desenvolvimento do processo civilizatório – por exemplo, o alto grau de desenvolvimento da produtividade do trabalho – e a degradação da personalidade de homens e mulheres que trabalham inseridos no mundo social do capital. O segmento social de jovens e velhos que trabalham – precariado e gerontariado – encontram-se hoje nos extremos da miséria humana na civilização do capital do século XXI.

Enquanto os primeiros – o precariado – são desvalorizados em sua capacidade produtiva acumulada por conta da alta escolaridade e vigor intelectual-mental imerso em sonhos e expectativas de realização profissional, os últimos – o gerontariado – são desvalorizados no carecimento radical de fruição da vida humana plena de sentido após uma longa trajetória de labor produtivo. A velhice proletária prolonga as mazelas do trabalho estranhado no ocaso das forças produtivas de homens e mulheres, levando a situações crônicas de adoecimento e perda da qualidade de vida. Como salientamos acima, a sociedade do trabalho alienado não prepara as pessoas que trabalham para a fruição da “vida ociosa”. Pelo contrário, o vazio existencial provocado, por exemplo, pela aposentadoria decorre da deformação da personalidade humana pela ideologia do trabalho alienado como elemento de identidade social. Não somos preparados para a vida ativa (no sentido dado por Hannah Arendt). As contradições da vida produtiva prolongam-se na velhice, com o gerontariado sendo obrigado a mobilizar-se, tal como o precariado, como sujeito de direitos e agentes radicais da utopia social.

O capitalismo do século XXI demonstra ser um sistema mundial clivado de densas (e profundas) contradições sociais. O gerontariado de 2050 é o precariado de 2013. Devem-se acumular inquietações existenciais e insatisfações humanas radicais no seio do gerontariado do século XXI. A idéia de uma velhice submissa expressa no poema “O peregrino apaixonado” de William Shakespeare pode pertencer ao passado na medida em que carecimentos radicais convertem-se em consciência de classe necessária (diz o poeta inglês em 1599: “A juventude está cheia de vigor, o alento da velhice dura pouco; a juventude é ágil, a velhice, pesada; a juventude é ardente e audaz; a velhice débil e fria; a juventude é rebelde; a velhice, submissa”).

No plano da existência pessoal, devem aflorar carecimentos radicais que põem a necessidade de sentido para a atividade humana. Como observou o psicólogo marxista soviético Lev Leontiev, a alienação ocorre quando existe uma clivagem entre significado e sentido da atividade humana. Na medida em que o significado da atividade laborativa se adensa por conta do processo de enriquecimento humano proporcionado pelas experiências expectantes (no caso do precariado, anseios e ambições de jovens altamente escolarizados tornam-se mais densos e no caso do gerontariado, o aumento da expectativa de vida e o acumulo de experiencia humana), o sentido da atividade laboral se amesquinha tendo em vista o caráter do trabalho estranhado que permeia a vida produtiva propriamente dita, com o predomínio da lógica do mais-desempenho e envolvimento pessoal exigido pela gestão toyotista. Estamos diante de uma contradição candente expressa nos carecimentos radicais que ardem mais a medida em que se aprofunda o processo civilizatório do capital. O conceito de carecimento radical utilizado por Heller no sentido de anseios de realização pessoal por meio da atividade profissional, o que não poderia se realizar nas condições do trabalho estranhado, caracterizado pela propriedade privada e divisão hierárquica do trabalho.

Finalmente, no plano da dinâmica da reprodução social e política do capitalismo global no século XXI, o crescimento do gerontariado deve exigir maior presença do Estado. Tal como no final do século XIX e começo do século XX atribuiu-se ao Estado uma função social importante na introdução e desenvolvimento de sistemas de seguridade social, para atender o crescimento da população trabalhadora mais jovem com a Segunda Revolução Industrial, no decorrer do século XXI, a necessidade de reprodução social da civilização do capital exige que se amplie novamente a função social do Estado a medida que as populações trabalhadoras envelhecem e se reduzem ao mesmo tempo. Na verdade, o aumento da longevidade das individualidades humanas exigem investimentos crescentes nos sistemas de saúde e pensão e deve-se aumentar a atenção médica tendo em vista que as doenças não transmissíveis se converterão em carga maior para os serviços de saúde. Deve-se colocar cada vez mais no horizonte da luta social e política, a problemática da qualidade (e sentido) da vida. Entretanto, as necessidades da reprodução social da civilização do capital são bloqueadas pela natureza estrutural do capitalismo global como capitalismo predominantemente financeirizado, com o capital financeiro pressionando pela redução da função social do Estado e pela corte dos investimentos públicos na saúde e seguridade social visando privilegiar o pagamento da dívida pública. Esta será uma das principais contradições radicais do capital no século XXI, a contradição entre as necessidades de reprodução humana e as necessidades da autovalorização do valor como capital fictício. A crise do Estado político do capital decorre da explicitação dos carecimentos radicais que, no caso do gerontariado, assume uma dimensão candente. Na medida em que se tornará mais claro a contradição entre carecimentos radicais das individualidades humanas e o capital social total – como diria Mészáros – o gerontariado – tal como o precariado – tornar-se-ão sujeito de ação social e luta de classe.

O aprofundamento da alienação tanto no plano da precarização do homem-que-trabalha, quanto na dinâmica da reprodução social do capital sob dominância do capital financeiro, contribuirá para a ampliação (e intensificação) da condição de proletariedade e a abertura inédita de possibilidades objetivas para a formação da consciência de classe necessária que – caso não sejam realizadas efetivamente no processo de contingencia da luta politica de classes – se interverterão em barbárie social aprofundada (como observou Slavoj Žižek, é o velho insight benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo evidencia uma revolução fracassada”: a ascensão do fascismo no século XXI é a falência da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia potencial revolucionário, descontentamento, que a esquerda não foi capaz de mobilizar).

É contra os fenômenos da vida reduzida e ensimesmamento que a esquerda radical deve lutar na prática de formação humana. Eles – a vida reduzida e o ensimesmamento, discutidos por mim no livro Trabalho e neodesenvolvimentismo – ao mesmo tempo que produzem inquietação pessoal, danificam a percepção do sentido e anulam tendencialmente ideais de autotranscedência obliterando os anseios de ir além do status quo, produzindo vias grotesca de escape. Na medida em que se coloca a consciência política e organização social da luta coletiva na perspectiva da classe, rompe-se o círculo perverso da aceitação do status quo, pois adensa-se o sonho alimentado pelo coletivo em movimento, rompendo-se com as cadeias do conformismo diante da alienação profunda, criando, deste modo, a possibilidade de mudança histórica.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura. O autor conta com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, à venda em ebook por apenas R$5 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, dentre outras. Giovanni Alves conta também com o artigo “Trabalhadores precários: o exemplo emblemático de Portugal”, escrito com Dora Fonseca, publicado no Dossiê “Nova era da precarização do trabalho?” da revista Margem Esquerda 18, já à venda em ebook na Gato Sabido.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A quem interessa o silêncio? Charlie Hebdo e a liberdade de expressão

Jorge LUiz Souto MaiorPor Jorge Luiz Souto Maior.

Um conto atribuído a Malba Tahan1 relata a história de dois amigos que ficaram perdidos na floresta e foram pegos por uma tribo de índios, que, como pena, colocaram corcundas em suas costas. No ritual preparatório para a consolidação da corcunda os índios cantavam: “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta” e a letra assim se repetia incessantemente. Um dos prisioneiros, então, sem querer, começou a cantarolar baixinho, “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta…”, ao que foi interrompido pelo chefe da tribo, que perguntou: “quem é que está cantando assim tão bem?”. Os índios responderam: “É ele, é ele, o prisioneiro da cela 1”. O chefe então sentenciou: “Tirem a corcunda dele!” E os índios retomaram o ritual, voltando a cantar… O outro prisioneiro, vendo o que se passou, não teve dúvida: começou a cantar e em voz bastante alta, para não ter dúvida de que fosse ouvido: “segunda, terça e quarta; segunda, terça e quarta…”, mas se empolgou e também querendo agradar ainda mais, complementou: “quinta, sexta, sábado e domingo também!!!!”. O chefe novamente mandou parar a música e perguntou: “Quem é que está cantando assim… tão mal?” “É ele, é ele, o outro prisioneiro”, respondem os índios. A sentença é implacável: “Pois peguem a corcunda do outro e coloquem nas costas dele!!!”

Na mesma linha do conto acima, relata-se que certa vez alguns amigos em um bar ficaram maravilhados com o tira-gosto que lhes fora servido e então chamaram o garçom e pediram a ele que transmitisse ao cozinheiro efusivos elogios, encomendando nova porção. Quando esta veio, o garçom, todo animado, disse que o cozinheiro havia “caprichado”. Ocorre que para agradar dobrou a quantidade do tempero, mas na avaliação dos clientes o que era bom ficou horrível.

A mensagem que esses contos querem passar é a de que há um ponto de equilíbrio, não codificado, a se respeitar. Expressam ainda que aumentar a dose da fórmula que conduziu ao sucesso não significa, necessariamente, obter um sucesso ainda maior, podendo, bem ao contrário, gerar o efeito inverso e destruir a própria essência da conquista, como se, neste instante do texto, percebendo que o leitor está gostando das analogias eu ficasse relatando novos e novos exemplos para ilustrar a mesma ideia…

A nossa liberdade de atuação e de expressão, portanto, encontra limites na perspectiva das correlações sociais e quem define esses limites não é aquele que exerce a liberdade de expressão, mas os que são alvo dela, no sentido do acolhimento ou rejeição, difusão ou desprezo, à ideia.

Esses limites, assim, não devem ser fixados previamente e ao mesmo tempo são flexíveis considerando a dinâmica dialética do processo histórico. Ora, a liberdade de expressão, historicamente, foi uma conquista fundamental da humanidade, pois enquanto não se a concebia como um direito grandes personalidades tiveram fins trágicos, como Giordano Bruno, na época da inquisição.

Assim, é essencial defender a liberdade de expressão, coibindo qualquer tipo de censura, até porque para censurar seria preciso criar arbítrios para separar o “certo” do “errado”, o “bem” do “mal”, e isso nos remeteria ao mundo medieval, ao obscurantismo e aos regimes ditatoriais. Já disse2 e repito, não tenho medo do grito; tenho medo do silêncio. Não tenho medo da discordância; tenho medo da mordaça e da ignorância.

O problema de se tentar criar parâmetros para impedir que algumas coisas sejam ditas é o de obstar o avanço do conhecimento, que parte da contestação aos padrões do conhecimento posto, admitidos como absolutos.

Além disso, essa preocupação com a delimitação é muito mais uma desconfiança da capacidade intelectiva e cultural do receptor da mensagem do que uma forma de estabelecer padrões aceitáveis da convivência humana. Ou bem acreditamos que os seres humanos são capazes de discernir, distinguindo as manifestações que contribuem para a sua evolução e as que se prestam à sua destruição, ou não temos porque ficar criando lógicas de raciocínio.

Importante deixar claro que repudio, de forma veemente, manifestações de cunho racista, machista, elitista, pedófilo, discriminatório, homofóbico, antissemita, islamofóbico, além de outras, carregadas de intolerância de qualquer natureza, que expressam agressões às religiões ou que instigam a violência contra seres humanos, nem acho qualquer graça em piadas com esses conteúdos, sobretudo quando direcionadas a grupos fragilizados com o propósito, não revelado, de favorecer à sua opressão.

Compreendo, ainda, que a ordem jurídica protetiva dos Direitos Humanos consagra valores que representam um avanço na evolução da racionalidade humana, sendo punível, juridicamente, o retrocesso.

Mas acho também que a punição jurídica não é suficiente nem eficiente, além de ser bastante perigosa a limitação das análises sobre os valores relevantes à evolução da humanidade aos padrões da ordem jurídica posta, vez que esta representa, em dado momento histórico, a reprodução da compreensão da classe dominante e que serve a esta como instrumento de poder para se preservar enquanto tal. A desconsideração da existência da sociedade de classes e a eliminação da legitimidade da luta de classes, ademais, criam a máscara do bem comum, punindo as aberrações para forjar a abstração de uma sociedade justa, enquanto se mantém, na dinâmica concreta, violenta, opressiva, seletiva, machista e racista.

Assim, entre defender cegamente limites para a liberdade de expressão, adotando-se os parâmetros da ordem jurídica liberal, e defender a plenitude da liberdade de expressão, mesmo não concordando com o conteúdo da fala, melhor pender para esta última, para não correr o risco de aprofundar as ilusões do alcance corretivo do direito burguês, para não reduzir as potencialidades do raciocínio crítico e para não eliminar as possibilidades de superação dos desajustes sociais e de minimização das fragilidades humanas.

Vale lembrar que em nome da preservação da ordem jurídica, uma decisão, ainda vigente, da Justiça Federal do Maranhão, determinou, em agosto de 2013, o sobrestamento das atividades do Centro de Difusão do Comunismo da Universidade Federal de Ouro Preto dentre outros motivos porque o curso ministrado seria antidemocrático por sustentar que o comunismo é o “único modelo capaz de explicar e positivamente transformar a realidade”, sendo de se ressaltar que tal decisão, de um juiz a partir da pretensão de um advogado, ou seja, da comunhão do pensamento de duas pessoas, foi aplaudida por alguns veículos jornalísticos (que se dizem “Charlie”) e por tantos outros foi solenemente ignorada.

É relevante perceber, também, que as punições aos valores jurídicos consagrados não são condicionantes do pensamento. Punir a fala não corresponde a alterar o modo de pensar. E, como dito, ao simplesmente punir a fala – o que pode ter propósitos diversos, que não se expressam – mantém-se inalterado o pensamento. Assim, se pautamos toda nossa confiança na humanidade na força coercitiva dos limites juridicamente impostos, deixamos de formular compreensões a respeito dos valores consagrados, sendo, de certo modo, uma forma de desacreditar na humanidade. Ademais, o estágio evoluído da humanidade pressupõe a inexistência do Direito, da desnecessidade de coerções externas, sendo que para chegarmos a isso é preciso enfrentar o desafio da contraposição de ideias, incentivando diálogos abertos, baseados na franqueza, na sinceridade, na confiança e na ética, sem desprezar, é claro, o necessário aprofundamento teórico, o que não elimina, vale dizer, a cultura popular, muitas vezes mais sábia que muitos supostos intelectuais. Fato é que em toda relação pessoal que se estabiliza por intermédio do controle coercitivo predominam a desconfiança e o artificialismo, sobressaindo a própria fragilidade da dominação, até que um dia, como diria Chico Buarque em passagem célebre, o dominado diz: “te perdoo por te trair”3.

Na última manifestação organizada pelo MPL, contra o aumento da tarifa de ônibus, ocorrida em São Paulo no dia 16 de janeiro, o forte aparato policial reprimiu duramente, todo o tempo, a manifestação, e mais ainda quando “decidiu” que o ato deveria terminar, arremessando bombas sobre a multidão e saindo, literalmente, à caça de manifestantes que se dispersaram pelas ruas. Mas ninguém saiu dali convencido de que a Polícia detinha a razão, de que o direito de manifestação não deva ser exercido ou de que lutar por uma sociedade mais justa seja crime.4 Muito pelo contrário, a repressão apenas aumentou a convicção em torno da necessidade de continuar gritando.

Nesse assunto do semanário francês, Charlie Hebdo, parece-me, portanto, que não se pode tentar, minimamente que seja, justificar o morticínio com argumentos de que os cartunistas excederam os limites da liberdade de expressão, estando fora da análise se eram, ou não, de bom gosto as charges que faziam. Ora, se para se contrapor a uma ideia, que, segundo o receptor, lhe tenha gerado uma ofensa moral, o considerado ofendido se vê no direito de matar o ofensor e justificamos o ato, fazendo críticas à postura de quem expôs a ideia, extingue-se a possibilidade do choque de ideais e decreta-se o fim da produção do conhecimento.

Claro, existe bastante hipocrisia neste assunto, já que muitos defensores da liberdade de expressão não a aceitam quando a ideia exposta contraria seus valores. Do ponto de vista do suposto choque de civilizações, o que se tem visto, nos meios de comunicação que temos acesso, é uma tendência a uma espécie de naturalização da ridicularização do mundo muçulmano ao mesmo tempo em que se caminha para uma institucionalização de autênticos tabus da tão preconizada racionalidade ocidental. De todo modo, não é uma disputa entre o bem e o mal, não se exigindo, pois, um posicionamento em favor de uma ou de outra cultura, sendo essencial, isto sim, reconhecer a existência das imperfeições que carregam, afinal o conhecimento deve suplantar todo tipo de fundamentalismo.

Assim, a explicitação da hipocrisia liberal não é argumento para negar a relevância da liberdade de expressão até porque não é ela a causa dos problemas identificados, constituindo, bem ao contrário, o instrumento para sua denúncia e contestação. Em outras palavras, é apenas o direito à liberdade de expressão que pode afrontar a hipocrisia e apontar as contradições, buscando superá-las.

Na realidade brasileira, por exemplo, o conhecimento tem sido negado a várias gerações, estabelecendo-se uma censura velada do que pode e do que não pode ser dito nos meios de comunicação, nas escolas, nos livros, nas faculdades, a tal ponto que não conhecemos a nossa própria história e nem mesmo as diversas “comissões da verdade” criadas conseguiram chegar a revelações completas. Temos, portanto, um grande déficit no exercício do direito à liberdade de expressão, sobretudo se considerarmos a realidade dos segmentos econômica e politicamente menos favorecidos da sociedade de classes em que vivemos. A deficiência da formação intelectiva é impeditiva da formulação de sensos críticos próprios, restringindo a liberdade de expressão a uma fórmula vazia de reprodução dos valores dominantes, que são, midiática, ditatorial e incessantemente inculcados.

Além do aspecto da formação do conhecimento, a efetividade do direito à liberdade de expressão exige o acesso democrático aos instrumentos de difusão das ideias. A dominação antidemocrática dos meios de comunicação em massa constitui obstáculo à efetividade da plena liberdade de expressão em dada realidade social.

Os meios de comunicação em massa, empurrando a fórceps nas mentes de todos a racionalidade da classe dominante, utilizam-se de figuras abstratas, quase mitológicas, como a da “sociedade civil”, desprezando a configuração da sociedade de classes e as condicionantes econômicas que geram grandes diversidades nas experiências humanas e as delimitam. É assim, por exemplo, que a grande mídia, para minar os movimentos grevistas, sempre põe em destaque os prejuízos gerados pela greve à “sociedade”, como se a tal sociedade fosse um todo indivisível e um adversário dos trabalhadores grevistas, que neste instante deixam de se integrar à “sociedade”. Esquece-se, ademais, que a “sociedade prejudicada” é composta de vários outros integrantes da classe trabalhadora, que, mais dia, menos dia, estarão em greve e se verão submetidos ao mesmo massacre midiático.

O que a limitação à liberdade de expressão, ou a sua produção restrita à perspectiva da classe dominante, tenta fazer é evitar a produção de um conhecimento vital à consciência de classe, ao mesmo tempo em que as deficiências estruturais do modelo de sociedade capitalista servem para negar aos trabalhadores as possibilidades concretas, dos pontos de vistas político, jurídico e econômico, de difundirem, com pretensões massificadoras, a sua visão de mundo, os seus interesses e a legitimidade de sua luta, sendo certo que não se deixa de utilizar, caso necessário, a força institucional repressiva, trazendo-se à tona, inclusive, a alegada prevalência jurídica dos valores liberais.

É assim, por exemplo, que as greves e as manifestações populares são violentamente reprimidas com base na proteção dos valores liberais clássicos, como o “direito de ir e vir” e o “sagrado” direito de propriedade, mesmo que esta esteja em desacordo com a ordem jurídica posta, que lhe garante legitimidade apenas quando cumpra uma função social.

As greves são a essência da liberdade de expressão dos trabalhadores, pois são, ao mesmo tempo, consciência e meio de difusão. Reprimir a greve, tratando-a como caso de polícia, é negar vigência à liberdade de expressão, sendo a defesa do direito de “ir e vir” apenas um subterfúgio para se atingir esse objetivo, até porque o tal direito de ir e vir também atinge os grevistas.

Essas formulações exemplificativas, acima expostas, reforçam a afirmação de que é preciso defender a liberdade de expressão para superar a censura e permitir a produção do conhecimento, admitindo como conseqüência inevitável, a contraposição no campo das ideias.

Defender de forma coerente a liberdade de manifestação requer uma demanda de que ela se exerça, concreta e democraticamente, por todas as pessoas, independente da posição social, sendo que a constatação da inviabilidade real de seu exercício pela classe trabalhadora constitui a demonstração clara das falácias dos valores liberais em um modelo de produção capitalista.

Portanto, não me parece que seja função do pensamento de esquerda apontar as contradições da racionalidade burguesa para se contrapor à liberdade de expressão. Muito menos lhe cumpre minimizar a importância das manifestações populares que têm ocorrido em defesa desse valor, que não é essencialmente burguês, mas uma conquista da humanidade como um todo, ainda que não esteja servindo, concretamente, a todas as classes sociais.

Quando se diz que é indigna essa defesa porque não se a viu com a mesma intensidade com relação a tantas outras atrocidades que ocorrem mundo afora acaba-se reproduzindo uma racionalidade reacionária, que conduz a humanidade a uma imobilidade e ao conformismo, negando a própria força das iniciativas populares.

Lembre-se que a mesma lógica argumentativa, de índole reacionária, é costumeiramente produzida quando algumas pessoas lutam por pautas específicas, como, no caso brasileiro, a moradia e a tarifa-zero, ou quando se solidarizam com aquelas que lutam, dizendo-se, por exemplo, que: “esses ‘invasores’ de terras são espertos e querem passar à frente de quem espera na fila para obter uma moradia popular”; “o que adianta lutar pela redução de apenas 0,20 na tarifa?”; “onde estavam essas pessoas quando tantas outras foram presas e mortas?”; “por que não se solidarizaram com os mortos dos regimes ditatoriais de esquerda?” E por aí vai… Ora, toda luta por direitos, a luta do dia-a-dia, é importante e a tentativa básica de eliminá-la é preconizar que a ação só vale se for pela solução completa dos problemas sociais ou que quem nunca lutou por nada não pode, agora, lutar.

O mundo tem vários obscurantismos e injustiças sociais, envoltos em inúmeras contradições, que somente serão desafiadas e superadas com o conhecimento cujo desenvolvimento requer o exercício pleno do direito à liberdade de expressão.

Vale um destaque final ao humorismo, que deve ser mesmo entendido como uma reprodução caricata da realidade social. Ainda que seja bastante tênue o limite entre a genialidade e a mediocridade, ou mesmo a bestialidade, nessa forma de comunicação, sua importância não pode ser negada tanto para o avanço da compreensão humana, pois a institucionalização do raciocínio tende a uma rigidez tal que muitas vezes faz bem que seja exposta ao ridículo ou ao seu lado tragicômico, quanto para, simplesmente, aliviar um pouco o espírito5. Nesse tema da liberdade de expressão, por exemplo, é impagável a cena em que Bart Simpson6, enquanto sobrepõe, nas imagens de um livro, um diálogo imaginário7 entre Abraham Lincoln e George Washington, diz: “obrigado pela liberdade de expressão: otários!”.

São Paulo, 18 de janeiro de 2015.

NOTAS

1. Júlio César de Mello e Silva, escritor e matemático brasileiro, famoso pela difusão de fábulas e lendas passadas no Oriente.
2. Jorge Luiz Souto Maior, “Vencendo o terrorismo do medo: a hora da política“, Carta Maior, 24/06/2013
3. Música, Mil perdões, 1983.
4. Embora parte da grande mídia, no mesmo dia e no dia seguinte, tenha cumprido o que considera ser o seu papel de tentar convencer a “sociedade” de que os manifestantes não fazem parte da “sociedade”, que são vândalos e baderneiros, que não possuem uma consciência e que se equipararam à Polícia no poderio bélico e na prática de atos de violência, desvirtuando completamente os fatos, tudo para aniquilar o direito da manifestação popular.
5.  E por isso que a graça quando se presta à agressão, ainda mais de forma seletiva, perde a graça e a sua função.
6. Os Simpsons, temporada 24, episódio 10.
7. Lincoln: “NICE WIG, GRANDMA”; Washington: “AT LEAST A CAN TAKE A BULLET”.

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Humor com humor também se paga

Imagem 01Por Izaías Almada.

Não poderia haver melhor demonstração de cinismo e hipocrisia nas delicadas relações entre as nações do que aquela que se passou há poucos dias nas ruas de Paris: milhões de franceses reunidos com personalidades internacionais, de braços dados, a marcharem contra o terrorismo e em defesa da liberdade de expressão.

Entre as tais personalidades, para além de grandes fabricantes e compradores de armas, uma chamou a atenção em especial, pelo deboche da sua presença: a do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyhau, responsável direto pelo massacre de milhares de palestinos em 2014. E não bastasse essa pantomima, menos de uma semana da badalada manifestação um comediante frances é preso por fazer humor contra os judeus. Assim como é de domínio público que o grande Siné foi mandado pra rua no Charlie por ter feito uma gozação com os judeus e o filho do Sarkozy.

Imagem 02

Pois bem: aqui na brasilandia, que se arrepia sentimentalmente por qualquer “dá lá aquela palha”, defensores da liberdade de imprensa e de opinião “a qualquer preço” apareceram aos magotes. A maioria deles, tudo indica, tomados pela violência de um atentado estúpido, irracional, mas sem se dar conta dos antecedentes históricos que levaram até ele.

Existem ideias que podem ser tão mortíferas quanto uma AK-47, principalmente quando espalhadas para disseminar o preconceito, o ódio, a violência.

Espero não estar ofendendo ninguém, mas humor com humor também se paga. Os photoshops são de autoria do designer André Almada.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A farsa se repete como história?

15.01.15_Izaías Almada_A farsaPor Izaías Almada.

Com a possibilidade de me colocar na contramão dos desejos da maioria dos brasileiros (onde paradoxalmente me encontro, que isso fique claro), permita-me o leitor a ousadia de colocar em dúvida o significado de alguns fatos políticos que envolveram e envolvem a nova equipe escolhida pela presidente Dilma Rousseff para dar continuidade ao seu governo. Ainda é cedo para essa ou aquela reflexão a respeito, certo, mas expectativas não padecem do fator tempo. Por isso mesmo são expectativas. E por que tal preocupação?

Que a economia seja a força catalisadora e mobilizadora das relações humanas, fenômeno demonstrado por inúmeros economistas, pensadores e cientistas políticos, sendo Marx considerado um dos mais argutos e didáticos a respeito, já não surpreende a ninguém que nesse momento de transição eleitoral e de eventuais mudanças político/administrativas no país haja particular preocupação com a escolha ou manutenção dos responsáveis pela condução da economia brasileira nos próximos quatro anos.

Sobretudo numa nação que se destaca cada vez mais no cenário mundial e tem a defender não só o seu próprio desenvolvimento com ampliação das melhorias sociais, mas também solidificar as garantias democráticas conquistadas após o período ditatorial.

O governo da presidente Dilma Rousseff, agora reeleita, entra na segunda etapa de sua estratégia de ação: desenvolvimento com justiça social. Os exatos 66 dias entre a proclamação oficial do resultado eleitoral e a posse da presidente, 60 deles foram dedicados à escolha e nomeação dos novos condutores da economia brasileira entre consultas, hipóteses, entrevistas, confirmações ou não daqueles que, à esquerda e à direita do espectro político, procuravam identificar tendências de ação do governo para o novo quadriênio. 

O natural debate que se seguiu aos nomes confirmados ocupou grande espaço na mídia nacional, quer aquela que defende com unhas e dentes seus interesses comerciais, político/partidários e ideológicos, num viés conservador e de pensamento único, quer a de seus principais opositores, os blogues e sites que estão desempenhando com vigor o contraponto progressista e democrático que desgraçadamente desapareceu do jornalismo brasileiro.

Como explicar a presença de Kátia Abreu no Ministério da Agricultura ou a presença de um Barbalho no Ministério da Pesca, do pastor Hilton da Universal do Reino de Deus para comandar (sic) o esporte ou ainda a permanência de Cardoso no Ministério da Justiça, para ficarmos em alguns nomes?

No dia 1º de janeiro, finalmente, após os ensaios ridículos e frustrados da oposição de não reconhecimento do resultado das urnas, chegou-se à posse da presidente e seu ministério. Novas expectativas e não só as minhas, como é óbvio. Sobretudo com os discursos dos responsáveis pela área econômica, agricultura, justiça, indústria e comércio, comunicações. Nesse aspecto, algumas nuvens mais cinzas, ainda que poucas, deslocavam-se sob o lindíssimo céu azul de Brasília.

Na posse de cada ministro de estado, novo ou vindo do governo anterior, os protocolares discursos de praxe. Vamos começar fazendo isso, aquilo e aquilo outro, entoaram em coro. Mídias e blogues atacaram: conseguirá o ministro Berzoini regulamentar uma nova lei de meios? Será que em dois anos, com a pasta da Educação prestigiada, até com uma nova palavra de ordem do governo, a “pátria educadora”, o ministro Cid Gomes dará novo perfil à educação no país? Kátia Abreu e Patrus Ananias se entenderão sobre latifúndio e Reforma Agrária? Privatizar voltará a ser palavra de ordem? E a regulação da mídia? E a Cultura?

Deixando de lado o que a oposição diz no seu desvario da má perdedora, onde o melhor que pode fazer por interpostas pessoas foi criticar a roupa da presidente no dia da posse a que muitos sonhavam impedir, tentemos refletir sobre o que de fato parece significar o ministério escolhido e o comportamento do “não estou nem aí, eu sei o que estou fazendo” da presidente Dilma Rousseff.

Nesse jogo intrincado de xadrez, para levarmos essa questão a sério, haverá algum cheirinho de Maquiavel? Não acreditoQuando muito a tal da governabilidade… humm… O fato é que esquerda e direita ainda não assimilaram bem o que vem por aí. E o país político se pergunta: para onde sopram os ventos? A propósito, o que vem a ser esquerda e direita no Brasil contemporâneo?

Mas voltemos ao ministério. Começaria por dizer que a arrogância não é boa conselheira política. Como também não o são o medo ao poder econômico e à mídia. Parece que é disso que se trata. Essa é a sensação que fica na escolha de um ministério que, tudo indica, tem mais a ver com um leilão do que propriamente com a indicação de pessoas preparadas e com projetos que se encaixem nos propósitos até aqui do governo federal. Pelo menos o tão decantado programa dos últimos doze anos… A diminuição da pobreza é um mérito de imensa proporção, não há dúvida, mas a miséria do Brasil não é só econômica.

A política em muito se assemelha a uma pantomima, sabemos todos, um jogo de logros, mesmo que alguns de seus principais comediantes se mostrem sisudos e verazes. As intenções contam, mas contam mais ainda os resultados práticos das metas anunciadas. Caso contrário, o estigma de que os políticos são todos iguais, isto é, pessoas insensíveis aos desejos dos cidadãos e mesmo trambiqueiras, continuará como um cutelo sobre nossas cabeças.

Existe, sim, ministra Kátia Abreu, latifúndio no Brasil, sendo o pior deles, talvez, o latifúndio midiático, onde inúmeros deputados, senadores, governadores possuem empresas de rádio, televisão, jornais e revistas, o que é inconstitucional: uma farsa.

A justiça no Brasil é uma farsa, com o STF a fingir que é um poder imparcial e defensor de todo e qualquer cidadão. Condena sem provas e nada acontece. Cabe lembrar uma vez mais  a roubalheira nos governos do PSDB, onde é que fica?

A imprensa, mais do que uma farsa, transformou-se em deboche da boa fé dos brasileiros que insistem em acreditar que a esperança venceu o medo. Meia dúzia de emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas, mentem, distorcem, escondem fatos, julgam, prejulgam, prendem, escarnecem e nada muda no dia a dia do país, que vai acumulando farsa atrás de farsa, hipocrisia atrás de hipocrisia.

A impunidade, contudo, não é uma farsa, é a realidade mais visível de um país que finge combatê-la. Outra farsa e essa, dolorida, cruel.

O ano de 2015 começa com ar estranho no país e no mundo. O número de tragédias e farsas tomou conta dos quinze primeiros dias do calendário, criando sobressaltos que podem gerar mudanças para pior e desagradáveis surpresas.

Tragédias e farsas que de tanto se repetirem estão, sim, se tornando História. Os arautos da hipocrisia pregam aos quatro ventos que os piores atributos do ser humano são próprios da sua natureza. Que o homem já nasce assassino, corrupto, ladrão, injusto e por aí afora…

Diante dessa falácia, quando vejo uma mãe a empurrar, cuidadosa, o carrinho do seu bebe recém nascido, minha reação é imediata: ali vai um corrupto de chupeta. O que será dele ou dela daqui a trinta, quarenta anos? Será dirigente de uma grande empreiteira ou repórter da revista Veja? Um banqueiro? Um pastor de almas a 10%? Ou até mesmo um idiota como eu, que continuo a me preocupar com tais questões…

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Julian Assange e o Charlie Hebdo

Julian AssangeMarcelo Justo entrevista Julian Assange.

A interpretação do massacre da Charlie Hebdo se transformou em um território em disputa. A liberdade de expressão e a relação com a minoria muçulmana, a dicotomia entre multiculturalismo à britânica ou integração secular à francesa, a luta antiterrorista e privacidade são alguns dos eixos do debate.

No Reino Unido, o diretor do MI5 Andrew Parker propôs uma nova lei antiterrorista que concede mais poderes de vigilância eletrônica aos serviços secretos. Um importante editor e historiador conservador, Mark Hastings, não hesitou em acusar como corresponsáveis do que aconteceu o fundador do Wikileaks Julian Assange e o ex-agente da CIA Edward Snowden. Da Embaixada do Equador em Londres, onde está há dois anos e meio esperando uma autorização para deixar o país, Julian Assange falou à
Carta Maior.

Depois de seu livro de estréia Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o fundador e editor-chefe do WikiLeaks prepara-se para lançar o explosivo Quando o Google encontrou o WikiLeaks, em fevereiro de 2015.

* * *


Qual é sua interpretação do massacre da Charlie Hebdo?


Como editor, foi um fato extremamente triste que aconteceu com uma publicação que representa a grande tradição francesa da caricatura. Mas agora temos que olhar adiante e pensar o que ocorreu e qual deve ser a reação. É preciso entender que a cada dia acontece um massacre dessa magnitude no Iraque e em outros países do mundo árabe. E isto aconteceu graças aos esforços desestabilizadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A França participou do fornecimento de armas para a Síria, Líbia e da recolonização do Estado africano de Mali. Isto estimulou o ataque neste caso, usando um alvo fácil como a Charlie Hebdo. Mas a realidade é que o serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder sobre o acontecido.


Acredita que houve um fracasso dos serviços secretos franceses?


É o que estão tentando esconder. Os serviços de segurança da França sabiam das atividades dos responsáveis pelo massacre e, no entanto, deixaram de vigiá-los. Por que os irmãos Kouachi, conhecidos por seus laços com extremistas, não estavam sob vigilância? Cherif Kouachi havia sido condenado por crimes terroristas. Longe de estar enviando mensagens criptografadas, eles se comunicaram centenas de vezes antes e durante os ataques com celulares comuns. Há muitas perguntas. Por exemplo, por que os escritórios da Charlie Hebdo não estavam mais protegidos dadas as duras críticas da revista ao Islã? Como os conhecidos jihadistas conseguiram armas semiautomáticas na França? Apresentaram os assassinos como supervilões para ocultar a própria incompetência dos serviços. A verdade é que os terroristas eram amadores bastante incompetentes que bateram o carro, deixaram suas cédulas de identidade à vista e coordenaram seus movimentos por telefone. Não era preciso uma vigilância massiva da internet para evitar este fato: era necessária uma vigilância específica.


Uma percepção bastante ampla é que você e o WikiLeaks se opõem à vigilância eletrônica. Na verdade, você faz uma clara distinção entre vigilância massiva e vigilância com objetivos definidos.


A vigilância massiva é uma ameaça à democracia e à segurança da população, pois outorga um poder excessivo aos serviços secretos. O argumento para defendê-la é que assim se pode encontrar gente que não se conhecia de antemão. O que vemos, no caso de Paris, é que os protagonistas foram identificados. Deveria haver uma investigação profunda de como foram cometidos esses erros, apesar de minha experiência ser que isto não vá acontecer porque estes serviços são corruptos e são assim por serem secretos. A vigilância massiva não é gratuita e, neste sentido, é uma das causas do que aconteceu, porque restaram recursos e pessoal para o que teria de ter sido a vigilância específica contra uma ameaça terrorista.


Uma das reações mais virulentas na imprensa britânica foi a do historiador e jornalista Max Hastings que acusou você e Edward Snowden de responsabilidade nestes fatos. Hastings não está sozinho. Há muitas vozes que pedem que fechem ainda mais o certo sobre o WikiLeaks. Percebe que o WikiLeaks está ameaçado pela atual situação?


Há um ano que os setores vinculados a este modo de ver as coisas propõem um aumento da vigilância massiva e um corte das liberdades. Estão em retrocesso por todas as denúncias que houve sobre os excessos de espionagem cometidos pelos governos, inclusive com seus próprios aliados. O que estão tentando fazer é aproveitar esta situação para recuperar o território perdido. O WikiLeaks publicou as caricaturas da Charlie Hebdo utilizadas como pretexto para o atentado, algo que não fizeram vários jornais como o Guardian ou o Times porque têm muito medo. Mas uma das coisas positivas que surgiram nos últimos dias é a defesa da liberdade de expressão. Digo isto apesar de, na manifestação de domingo, estarem presentes figuras que são os piores inimigos da liberdade de expressão, como Arábia Saudita e Turquia. Mas, por mais que estejam tentando aproveitar a situação, o WikiLeaks funciona há bastante tempo e desenvolvemos técnicas para lidar com este tipo de ameaças. Não vão nos intimidar. Esperemos que outras mídias em nível mundial também não se deixem intimidar.

* Publicado originalmente no Público, de Portugal, em 4 de maio de 2013.

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Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. Atualmente dirige o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordena o Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Pela Boitempo, publicou Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007). Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

Charlie Hebdo: uma reflexão difícil

boaventuraPor Boaventura de Sousa Santos.

O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartunistas do Charlie Hebdo torna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste ato bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas, as nossas instituições e as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.

A luta contra o terrorismo, tortura e democracia

Não se podem estabelecer ligações diretas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados travam desde o 11 de setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são  meramente especulativas, como consta do recente relatório apresentado ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune.

Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar seguindo as mesmas políticas que a têm alimentado, como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela na Europa? Certamente não o partido Podemos, na Espanha, ou o Syriza, na Grécia.

A liberdade de expressão

É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a  esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a “sua” liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se na Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; na França, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartunista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crônica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, os grandes meios de comunicação, controlados por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres.

Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartuns fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartuns com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram,  que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o Islã, as mulheres e o estado de bem-estar social. Obviamente, que, ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas foi igualmente imediato o seu repúdio por este crime bárbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que alguns creem  ser universais.

A tolerância e os “valores ocidentais”

O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samara na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da civilização europeia estão entre “nós”, odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A pulsão anti-imigrante é evidente. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as “aguentar”, até porque nos são uteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os “valores ocidentais”?

Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome destes valores dentro e fora da Europa — da violência colonial às duas guerras mundiais — exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns, ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de segunda guerra mundial. No entanto, nos últimos anos, a proteção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado “arco da governabilidade”. A crise social causada pela erosão da proteção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para a fogueira do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?

O choque de fanatismos, não de civilizações

Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses econômicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003 e o eventual maior acesso ao poder que terão conquistado recentemente com a vitória do Presidente Modi faz prever o  pior; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado califado massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque.

A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirato Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirato Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa: pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.

O valor da vida

A repulsa total e incondicional que os europeus sentem  perante estas mortes devem-nos fazer pensar por que razão  não sentem a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Yemen num atentado a bomba. No ano passado, a invasão israelense causou a morte de 2000 palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões ou regiões. Será então porque estes últimos estão mais longe dos europeus ou são pior conhecidos por eles? Mas o mandato cristão de amar o próximo permite tais distinções? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

* Publicado originalmente no Público, de Portugal, em 4 de maio de 2013.

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Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. Atualmente dirige o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e coordena o Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Pela Boitempo, publicou Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007). Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.

Guerra ao terror

MouzarCharlie[Capa da edição de hoje, 14/01/2015, do semanário Charlie Hebdo, primeira após o atentado]

Por Vladimir Safatle.*

Depois da semana passada, vemos a afirmação em coro de que o extremismo muçulmano é um dos maiores problemas da atualidade. Mas nem sempre o coro se dispõe a dar um passo à frente e se perguntar pelas coordenadas sociopolíticas do aparecimento de tal problema.

Ao que parece, alguns acreditam que simplesmente colocar a questão nesses termos já é ser cúmplice e não demonstrar solidariedade pelas vítimas. É querer ser racional com o irracional, relativizar o que seria motivado pelo mal radical, pelo ódio milenar contra nós e nossa liberdade, apoiar a superstição contra as luzes. Em nome de tal visão de combate que nada quer saber sobre causas pois não se interessa em mudá-las, estamos em “guerra contra o terror” há quase 15 anos.

No entanto, depois de 15 anos em guerra, não estamos mais seguros do que em 2001. O que temos são: três países invadidos (Afeganistão, Iraque e Mali), um conjunto impressionante de leis e práticas de controle que cerceiam a liberdade em nome da defesa da liberdade, um Estado Islâmico a controlar áreas de antigos países do Oriente Médio, o aumento exponencial da xenofobia e da islamofobia em países europeus e novas levas de jovens muçulmanos europeus dispostos a serem mártires do jihadismo internacional.

Ou seja, enveredar pela “guerra ao terror” é a melhor maneira de se afundar no problema. Pois qual seria o próximo passo: reforçar as fronteiras, uma nova intervenção militar? Mas para que, se os novos jihadistas são cidadãos europeus, morando nas periferias? Quem sabe então tentar concentrar os muçulmanos europeus em campos nos quais eles poderiam ser melhor controlados?

Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles tem bastantes aliados entre nós.

Não é vitimizar assassinos dementes tentar sair desta toada surda e entender o sentimento, a assombrar os descendentes de árabes vivendo na Europa, de impotência política, de exclusão econômica brutal, de não ter ninguém que os defenda de ataques racistas vindos de partidos e da vida ordinária. É a melhor maneira de tentar impedir que novos assassinos apareçam.

* Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo em 13 de janeiro de 2014.

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Atualmente, mantem coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo e coluna mensal na Revista CULT. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (Boitempo, 2012), publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior.

A crítica crítica (crítica, crítica, crítica)

15.01.13_Harvey_Linera[Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia e o geógrafo marxista David Harvey]

Por Emir Sader.

“A teoria, quando penetra nas massas,
se torna força material.”
– Karl Marx

O intelectual olha para a teoria e a encontra magnifica (de fato, varias delas o são). Olha para a realidade e a encontra muito menos coerente e atraente. Fica enfim com a teoria, dando as costas para a realidade. Essa é a postura espontânea dos intelectuais, cuja pratica está vinculada a atividades acadêmicas, desvinculadas da pratica política.

A postura normal de um intelectual é a de interpelar a realidade a partir da teoria, perguntando-se por que a realidade não obedece aos cânones da teoria, sendo sempre um desvio em relação a esses cânones. Nada melhor então que o refugio da teoria, das teorias sobre as teorias, da crítica crítica.

Ao invés de interpelar a teoria a partir da realidade, que é a forma dialética de pensar as relações entre teoria e prática. O que a teoria tem para nos ajudar na transformação profunda da realidade?

A dissociação dramática entre a teoria e a prática política dentro mesmo do marxismo – que propõe, na sua essência, um vinculo indissolúvel entre elas –, foi abordada por Perry Anderson em seu Considerações sobre o marxismo ocidental, publicado pela Boitempo no Brasil. Como resultado da confluência da ação repressiva dos fascismos europeus e da stalinização dos Partidos Comunistas – ambas agindo na direção de bloquear o debate e a criatividade teórica, surgiu a figura do marxista acadêmico – uma categoria contraditória com o próprio marxismo.

Fragmentavam-se, por um lado, teorias sem transcendência na realidade, fechadas sobre si mesmas, cada vez mais debatendo suas próprias teorias. Por outro lado, práticas políticas pobres de reflexão teórica e estratégica.

As duas figuras se perpetuaram no tempo. Passaram a proliferar intelectuais que se consideram marxistas, apesar de não terem vinculo partidário algum, e que agem como franco-atiradores, críticos da esquerda realmente existente. De posse dos livros, se consideram mais marxistas que quaisquer outros, críticos contumazes das praticas partidárias, que se rendem às realidades concretas, “traindo” a teoria.

No Brasil eles proliferam na academia e na mídia tradicional, em geral criticando a esquerda, nunca, ou quase nunca, a direita – uma espécie de condição implícita para ter esses espaços. Publicam livros e têm amplos espaços na mídia, contanto que sejam livros críticos da esquerda, desencantados, pessimistas, céticos no limite do cinismo. São da turma do Cambalache: tudo é igual, nada é melhor. Se estiver melhor, se esgota sua perspectiva cética, então o uso da teoria por ele é para desmascarar qualquer possibilidade transformadora da realidade.

Para esse tipo de intelectual a teoria não é, ao mesmo tempo, um instrumento de compreensão e de transformação da realidade. Para que fosse assim, eles teriam que ser militantes, membros de partidos, participantes da construção coletiva de processos políticos realmente existentes e não livre atiradores – o que se contrapõe frontalmente à possibilidade de que possam se reivindicar o marxismo.

É na América Latina, nos processos pós-neoliberais mais avançados – na Bolívia e no Equador –, que essa dicotomia começa a ser superada. O presidente equatoriano Rafael Correa e o vice-presidente boliviana Álvaro García Linera, são as duas expressões mais claras dessa recomposição entre prática teórica e capacidade de direção política, onde se mostra que a crítica profunda da realidade só pode desembocar em projetos de transformação profunda da realidade, se não quiser permanecer sempre como crítica crítica.

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A Boitempo acaba de reeditar o clássico Estado e política em Marx, de Emir Sader. Confira o depoimento abaixo, em que Sader relembra o contexto da defesa e publicação desta que foi a primeira tese sobre Marx defendida na USP:

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Publicou, entre outros, Estado e política em MarxA nova toupeira e A vingança da históriaColabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.