Balanço dos governos neoliberais no Brasil

Internas.inddPor Emir Sader.

Sai na próxima semana o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. Eu organizei o livro com 22 artigos de alguns dos melhores pensadores brasileiros, mais uma longa entrevista do Lula de balanço do seu governo, como forma de incentivar a reflexão sobre as transformações que o Brasil viveu nesses dez anos, assim como sobre os obstáculos e as perspectivas postas por esse imenso processo de democratização social.

Acreditamos que balanços desse tipo são indispensáveis para inserir os processos políticos numa ótica de mais longo prazo, em função dos seus objetivos estratégicos. Estamos incentivando a realização de balanços similares pela esquerda argentina – já se cumpriram dez anos dos governos dos Kirchner – e da uruguaia – logo se cumprirá uma década de governos da Frente Ampla.

É normal que seja assim. A esquerda tem que ter consciência dos passos que deu, dos que está dando e das dificuldades que enfrenta.

Não é o caso dos governos neoliberais. Tanto aqui, quanto na Argentina, no Uruguai e nos outros países da região, não se conhece balanços dos seus governos, feitos pelos que o dirigiram ou pelas forças que os apoiaram ou por pensadores – jornalistas ou intelectuais – que os elogiaram durante a totalidade de suas durações.

Foram governos que saíram derrotados – alguns dos seus presidentes foram parar na cadeia, outros mais também mereciam esse destino –, ficaram definitivamente rejeitados pelo povo desses países, mas nunca fizeram o balanço do que fizeram e do que o povo impediu que fizessem. Vergonha? Incapacidade de dar conta do seu fracasso?

No caso do Brasil, tivemos um governo presidido por um sociólogo, com enorme quantidade de obras e artigos publicados na mídia, loquaz e de palavra fácil. Contou também com outros intelectuais (ou ex-), com livros publicados – que depois abandonaram essa atividade, provavelmente sem ter o que dizer dos governos de que participaram.

Economistas que quebraram o país três vezes e que o entregaram ao Lula em meio à mais prolongada e profunda recessão que o Brasil tinha conhecido em muito tempo, ficam escrevendo nos jornais e revistas, falando nas rádios e TVs, ditando cátedra do que o país deveria fazer, mas nunca escreveram o balanço do que eles fizeram com o país. Da mesma forma que o presidente que os escolheu e que comandou a quebra do Brasil.

Por quê? Eles têm à disposição um montão de editoras, revistas, outros meios de comunicação, mas o país foi privado das explicações do fracasso dos governos neoliberais no Brasil. Não sabemos se eles acham que foram um sucesso ou não tem coragem de confessar que fracassaram. E nem tem os argumentos para explicar o fracasso, porque continuam a propor as mesmas políticas do seu fracasso, que alimentam também a candidatura presidencial tucana.

Teriam que confessar que a centralidade do mercado, o Estado mínimo, a abertura acelerada da economia, as privatizações, a promoção da hegemonia do capital especulativo, a política de precarização das relações de trabalho, a política externa de livre comércio e de subordinação a Washington – foram as causas do fracasso dos governos Collor, Itamar e FHC. E da razão pela qual o país não quis nunca mais voltar a tê-los na direção do Brasil.

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Não perca o debate de lançamento de 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil, na próxima segunda feira, dia 13, às 19h. O evento contará com a presença de Marilena Chaui, Marcio Pochmann, Emir Sader e o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, todos colaboradores do livro. Aberto ao público, o evento é gratuito e não requer inscrição. Senhas para entrada serão distribuídas a partir das 18h, no local do evento.

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Serviço

Debate de lançamento de
10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma

com Lula, Marilena Chaui, Marcio Pochmann e Emir Sader
13/05 | Segunda-feira | 19h
CCSP | Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 | Liberdade | São Paulo | SP 
Retirada de senhas para entrada a partir das 18h, no local.

  

O livro estará a venda com preço especial no evento e, a partir da segunda quinzena de maio, disponibilizado gratuitamente em versão eletrônica (ebook). Saiba mais sobre o livro aqui.

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A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana é o primeiro livro de Emir Sader pela Boitempo a ganhar versão eletrônica (ebook), já à venda por apenas R$20 na Gato Sabido, Livraria da Travessa e iba, dentre outras.

As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

A tirania da velocidade e da inovação para o lucro

13.05.08_A tirania da velocidade e da inovação para o lucro_Dênis de MoraesPor Dênis de Moraes.*

Uma das verdades mais incômodas e flagrantes sobre o mundo atual chega-nos pela ótica de um magnífico escritor, John Berger: “É um espaço sem horizonte. Tampouco há continuidade entre as ações, nem pausas, nem atalhos, nem linhas, nem passado nem futuro. Vemos apenas o clamor de um presente desigual e fragmentário. Está cheio de surpresas e sensações, mas em lugar algum aparecem suas consequências ou seus resultados.” (1)

Hoje com 87 anos e cada vez mais lúcido, Berger vivenciou, em décadas passadas, tempos infinitamente menos desvairados. Tempos em que as sofreguidões suaves lhe permitiam contemplar o primeiro pôr-do-sol de primavera em uma praia europeia para dividir com uma tela a óleo o que a pintura lhe indicava ser a necessária proximidade com as fagulhas incendiárias do amor.

Vivemos uma época de velocidade implacável, em que tudo parece atropelado pela urgência dos milésimos. A existência dilui-se e restabelece-se sem direito a intervalos. As pausas para respirar parecem insolentes ou extemporâneas. E dizem-nos que assim deve ser porque desfrutamos da conectividade permanente, viabilizada por tecnologias avançadas. Qualquer atraso pode implicar um curto-circuito com a realidade imediata, ou revelar incapacidade de antecipar-se ao futuro fugaz.

A aceleração tecnológica – “velocidade crescente na tradução de saberes múltiplos para sua aplicação no ámbito da produção”, conforme René Armand Dreifuss (2) – lubrifica as engrenagens do capitalismo. O sistema tecnológico, em processos de revisão, superação e retroalimentação contínuas, se incumbe astuciosamente de controlar o repertório de conhecimentos e inovação em circulação na sociedade. O que confere à racionalidade tecnológica o poder de intervir em várias dimensões da vida social e também de induzir a um conjunto de modificações e realinhamentos nos sistemas, métodos e instrumentos de produção, gestão e organização empresarial. (3)

O modo de produção hegemônico necessita azeitar sua capacidade inovadora e reativar permanentemente a cadeia de valor que reforça a acumulação de capital numa economia de interconexões eletrônicas. Cada novo bem ou serviço ambiciona monopolizar a última geração, para estar à frente, suplantar o concorrente. Peter Drucker, velho guru da gestão empresarial, não deixa dúvida quanto às vantagens conferidas pela primazia no ciclo perpétuo da inovação, numa frase já clássica: “A melhor maneira de se prevenir para o futuro é criá-lo.” A velocidade das ações e os meios mais rápidos de mobilidade chegaram à posição de “principal ferramenta do poder e da dominação”, ressalta Zygmunt Bauman (4). Uma ferramenta já livre de resistências do espaço físico e territorial; agora é virtual, móvel, leve, ubíqua, desenraizada.

As mensagens publicitárias sustentam que o que perdemos em durabilidade ganhamos na intensidade dos impulsos. O prazer deve ter breve duração, permitindo que, com a descontinuidade, ressurjam modos de alcançá-lo, especialmente através de objetos de reposição imediata. Regula-se a relação entre desejo, necessidade e satisfação, removendo-se aquilo que retarde o ímpeto de consumir. O parâmetro de avaliação modificou-se: tende a prevalecer o que produz frisson, em detrimento da profundidade das impressões

Volto a dialogar com  Zygmunt Bauman quando observa que a velocidade das inovações está em perfeita sintonia com o mundo fluido, incerto e instável da “modernidade líquida”, avesso a planejamentos e investimento de longo prazo (5). A conexão com a pressa imoderada fundamenta iniciativas inovadoras que interferem nos modelos de negócios, processos operacionais, práticas de propriedade intelectual, estratégias de relacionamento com o cliente, tempo de resposta ao mercado e campanhas publicitárias. A opção pela inovação tem a ver, na lógica dos gestores estratégicos, com a conquista de dividendos competitivos, viabilizando reestruturações dos sistema tecnoprodutivos e gerenciais.

Analisando as formas de domínio das inovações, David Harvey sublinha a ênfase permanente do capitalismo na obtenção do “rendimento monopólico”, que implica o controle da singularidade, da exclusividade e das qualidades de um determinado objeto, de modo a assegurar receitas permanentes e ampliadas (6). Para preservar poderes monopólicos, as corporações recorrem a duas manobras principais: “uma ampla centralização do capital, que busca o domínio por meio do poder financeiro, economias de escala e posição de mercado, e a ávida proteção das vantagens tecnológicas (…) por meio de direitos de patente, leis de licenciamento e direitos de propriedade intelectual” (7).

Significa concentrar nas mesmas mãos todas as etapas e consequências rentáveis dos processos tecnoprodutivos, com vistas a garantir o maior domínio possível sobre a cadeia de fabricação, processamento, comercialização e distribuição dos produtos e serviços. Em cenários assim, às pequenas e médias firmas restam nichos mercadológicos ou o fornecimento de insumos e serviços especializados, sempre que é mais vantajoso para as grandes companhias terceirizar a produção ou adquirir itens cuja fabricação seria dispendiosa. Tudo isso beneficiado pela desregulamentação dos mercados e por legislações omissas ou complacentes diante da força esmagadora dos megagrupos.

A concentração monopólica trabalha para validar o regime de substituição precoce das mercadorias em circulação exigido pela escala da rentabilidade. Entre as matrizes conceituais da obsolescência programada, está a célebre teoria da “destruição criativa” que Joseph Schumpeter elaborou na primeira metade do século XX. Ao analisar os avanços tecnológicos a partir da Revolução Industrial, ele discerniu que o ciclo evolutivo do capitalismo “decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria” (8). O economista austríaco define a destruição criativa como um processo em que antigos objetos e estruturas são substituídos, sequencialmente, por novos, acelerando o ritmo da economia e aumentando a acumulação de renda pelas empresas que operam em tal paradigma, ao mesmo tempo em que asseguraria outros níveis de bem-estar social. A seu ver, o caráter determinante da concorrência não se cinge à fixação de preços competitivos e se projeta na inovação, que acaba por estabelecer as linhas de supremacia competitiva no interior do modo de produção. “O empreendedor é o agente do processo de destruição criativa. É o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista, constantemente criando novos produtos, novos mercados e, implacavelmente, sobrepondo-se aos antigos métodos menos eficientes e mais caros” (9). Com base nessas premissas, Schumpeter advoga que “todos os elementos da estratégia de negócios” sejam concebidos “sob o vento perene da destruição criativa”, não podendo ser compreendidos “sob a hipótese de que existe eterna calmaria” (10).

Gary Hamel e Robert Tucker partem das teses de Schumpeter para classificar a inovação como “combustível para o crescimento das empresas” e como estratégia eficaz para que uma organização possa sobrepujar a concorrente na busca de “receitas de primeira linha”, com rapidez inaudita. Os dois consultores calculam que cada crescimento percentual de 10% no portfólio de novos produtos equivalem a 2,5% no crescimento consistente das receitas e dos retornos para os acionistas (11).

A inovação converte-se, por conseguinte, em requisito valioso numa época em que os bens disponíveis criam problemas e expectativas que somente se equacionam mediante novas demandas e soluções tecnológicas. Como as soluções dependem de lastro financeiro, tecnologias de ponta, know how gerencial e desembaraço logístico-operacional, instaura-se um círculo vicioso: a cadeia de descobertas, transferências e imitações de tecnologias gravita em torno de um rol restrito de corporações que acumulam diferenciais inacessíveis a organizações de menor porte.

Uma das fórmulas para sedimentar dividendos competitivos é suplantar o que acaba de ser lançado. Até 2005, Motorola, Nokia, Samsung e LG conseguiam colocar nas mãos dos clientes um modelo novo de celular a cada 18 meses. Tal prazo agora é considerado uma eternidade. A média caiu para nove meses. Em alguns casos, o lançamento demora seis meses. Outra fórmula é descobrir o que deverá ser inovação daqui a cinco, dez, quinze anos. A Intel trabalha simultaneamente em três gerações de microprocessadores: enquanto prepara a segunda geração, avança no desenho da terceira. São exemplos, entre tantos outros, da subordinação de decisões de investimentos a um padrão de velocidade inédito para que se mantenha (ou venha a alterar-se) a pirâmide da feroz concorrência estabelecida em setores condicionados por tecnologias de ponta.

O quadro acima descrito realça a urgência da crítica à cultura tecnológica que respalda a apoteose da velocidade e a tirania da inovação para o lucro. Se recusarmos a glorificação dos cotidianos conectados sem causa digna, não será difícil enxergar o outro lado da aceleração incontrolável. Ao mesmo tempo em que amplia as nossas capacidades de conhecer, imaginar e interagir, o delírio  tecnológico não desfaz desigualdades socioeconômicas, repõe tensões sociais e, não raro, se presta ao fim último de mercantilizar a vida.

Ainda que os processos não sejam lineares e comportem variações, as tecnologias estão longe de equacionar desníveis nos acessos a informações e inovações. A brecha digital também ocasiona descompassos na produtividade e no desempenho em atividades que não podem prescindir de sistemas e ferramentas tecnológicos. Como assinala Martín Hopenhayn: “Quem não está conectado estará excluído de maneira cada vez mais intensa e variada. A brecha acirra os contrastes entre regiões, países e grupos sociais. Países menos digitalizados vão sendo confinados ao quintal da globalização em termos de intercâmbio cultural, protagonismo político, crescimento econômico e, em consequência de tudo isso, bem-estar social.” Inversamente, acentua Hopenhayn, quanto mais se consegue diminuir a brecha, mais se distinguem no horizonte as possibilidades de integração social, diversificação comunicacional e igualdade de oportunidades produtivas, tanto dentro dos países quanto entre eles (12).

Esses descompassos estão ligados aos vácuos tecnológicos, ao baixo poder aquisitivo, aos altos preços de bens e serviços teleinformáticos, à ausência de políticas públicas de ciência e tecnologia que priorizem a inclusão social e os direitos da cidadania. Os custos de utilização de tecnologias de informação em mercados de baixa renda também inibem investimentos e projetos em países periféricos, constituindo entrave ao desenvolvimento das telecomunicações e adicionando agravantes ao histórico de estratificações entre sociedades, povos e nações.

A evolução técnica deveria ampliar o conhecimento das sociedades e dos homens. Mas, na prática, ocorre uma perversa inversão: as técnicas avançadas são apropriadas por elites e atores privilegiados em função de objetivos determinados. A explosão inovadora não representa um bem comum, nem uma conquista repartida pela maioria das sociedades. Depende, muitas vezes, de estágios tecnológicos e condições aquisitivas marcadamente desiguais. Grandes empresas e instituições hegemônicas detêm a prerrogativa de utilizá-la em função de ambições particulares. São elas que dispõem de poderio financeiro, influência política, capacidade industrial e esquemas de distribuição pelos continentes.

Não estou defendendo a ideia ingênua de que a aceleração tecnológica só produz embaraços e efeitos negativos. Sem dúvida as tecnologias facultam novos modos de sociabilidade, informação, acesso a serviços públicos, metodologias educativas, pesquisas científicas, entretenimento e intervenção política, entre outras potencialidades. Mas esta percepção não autoriza desconsiderar os domínios monopólicos, as competências desiguais para lidar com as tecnologias e as exclusões daí decorrentes.

Se contestamos a velocidade como virtude e desejamos superar o amálgama entre velocidades fortuitas e mercantilização – que alimenta os ciclos de expansão planetária do capital –, devemos rejeitar a idolatria do mercado como síntese de organização social; descartar a velocidade como emblema atávico de evolução sociotécnica; questionar  euforias tecnológicas (sem que isso se confunda com tecnofobia); reverter a comercialização desenfreada da informação; e empenhar forças na longa luta por alternativas socioeconômicas inclusivas e democratizadoras. Penso que essa reação incisiva poderia nos fornecer a chave de resposta, numa perspectiva de humanização da existência e de partilhas equânimes dos benefícios do progresso tecnocientífico, à inquietante pergunta de Jeremy Rifkin: “Quando até o próprio tempo é comprado e vendido, e quando nossa vida é pouco mais que uma série de transações comerciais sustentadas por contratos e instrumentos financeiros, o que acontece com as relações recíprocas de tipo tradicional que surgem do afeto, do amor e da lealdade?” (13)

Notas:

(1) John Berger. El tamaño de una bolsa. Buenos Aires: Taurus, 2004, p. 218.

(2) René Armand Dreifuss. Transformações: matrizes do século XXI. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 266.

(3) René Armand Dreifuss, ob. cit., p. 266-267.

(4) Zygmunt Bauman. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 16-18.

(5) Zygmunt Bauman. Vida de consumo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 51.

(6) David Harvey, “A arte de lucrar: globalização, monopólio e exploração da cultura”, em MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação: mídia, mundialização e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 165-167.

(7) David Harvey. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 85.

(8) Joseph A. Schumpeter. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984, p. 112.

(9) Ibidem, p. 114

(10) Ibidem, p. 113

(11) Robert Tucker e Gary Hame citados por Sandro Marques e Marcelo Torres, “Inovação, crescimento e sustentabilidade”, Revista da ESPM, vol. 3, ano 12, nº 3, maio-junho de 2006, p. 39.

(12) Martín Hopenhayn, “Educación y cultura en Iberoamérica: situación, cruces y perspectivas”, em CANCLINI, Néstor García (org.). Iberoamérica 2002: diagnóstico y propuestas para el desarrollo cultural. México: Santillana, 2002, p. 328.

(13) Jeremy Rifkin. La era del acceso: la revolución de la nueva economía. Barcelona: Paidós, 2000, p 157.

* Este artigo é uma versão condensada e revista do meu texto contemplado no Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido em 2010 pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro, e incluído no livro Pensar a Contracorriente VII (La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 2011, p. 79-105).

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Dênis de Moraes lançou no último mês a coletânea de textos, com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano, Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação. Leia o texto de orelha do livro clicando aqui. Já nas livrarias!

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A versão eletrônica (ebook) de O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes, já está disponível por metade do preço do impresso na Gato Sabido e na Livraria da Travessa!

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Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO, Argentina, 2005). Atualmente, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Foi contemplado em 2010 com o Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro. Autor de mais de 25 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba. Pela Boitempo, publicou Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (2013) e O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

De bar em bar XXIV: Ferro’s Bar

13.05.07_MouzarBenedito_FerrosBarPor Mouzar Benedito.

Eu já morava em São Paulo em 1964, mas era ainda um molecão, não frequentava botecos. Nem tinha dinheiro pra isso. Mas sei que nessa época, antes do golpe militar de 31 de março, os militantes comunistas frequentavam regularmente dois bares aqui: o Riviera, na esquina da Consolação com a Paulista, e o Ferro’s, na rua Martinho Prado, em frente à sinagoga.

Com o golpe, a repressão baixou nesses bares e os comunistas se afastaram, e eles passaram a ser frequentados por outro tipo de gente. O Riviera virou ponto da contracultura, dos grupos underground, de artistas e de uma esquerda estudantil meio festiva. Ficou famoso, entre outras coisas, por seus garçons antigos, íntimos de todo mundo, que até bebiam com os fregueses. Muitas revoluções de boteco foram discutidas nas madrugadas que – já nesse tempo “alternativo” – a gente varava lá.

O Ferro’s Bar passou a ser ocupado pelas lésbicas. Em 1967, quando eu me mudei para a avenida 9 de Julho, ali pertinho, suas mesas eram ocupadas por casais de mulheres ou por grupos de lésbicas. A comida era de ótima qualidade e barata, e o bar ficava aberto a noite toda. Virou um ponto da minha turma.

Dois personagens me vêm à memória quando me lembro do Ferro’s. Um era o Doce e o outro era a Joana (nome fictício). O Doce tinha uma cara imberbe e atraente para as mulheres das lésbicas. Era só a gente chegar ao Ferro’s e ocupar uma mesa que logo ele começava a ser paquerado por alguma delas. E a parceira da paqueradora logo ficava brava, começava a rodear a nossa mesa olhando fixo na cara dele e dando murros na própria mão. Não o atacava porque sempre tinha amigos dele na mesma mesa.

A Joana eu encontrava no Ferro’s por volta de 1975 ou 76, quando eu estudava jornalismo, morando de novo no mesmo apartamento da 9 de Julho. A primeira vez que a vi lá foi num sábado de madrugada, voltando pra casa, a pé, com fome, e parei no Ferro’s pra tomar uma cerveja e jantar. Dei de cara com ela, minha colega da faculdade, no maior amasso com outra mulher.

Ao me ver, ela ficou meio incomodada e eu fui pra uma mesa lá no fundo, pra evitar constrangimentos. Na faculdade, a Joana passou a me cumprimentar meio ansiosa. Percebi que ela tinha receio que eu contasse pros colegas. Como não falei nada, ela pegou confiança em mim. Aí, todas as sextas-feiras me chamava no final das aulas:

— Vamos pegar umas mulheres num bar aí?

Às vezes eu ia, mas quem pegava mulher era só ela, pois os bares a que me levava eram sempre o Ferro’s ou outros pontos de mulheres que só apreciavam outras mulheres. Serviu, entre outras coisas, pra eu descobrir um monte de lugares de São Paulo frequentados apenas por lésbicas. Não imaginava que eram tantos.

Outra coisa que me lembro daquele bar, que infelizmente fechou há alguns anos, é que gostava de sacanear mocinhas ingênuas, principalmente as recém-chegadas do interior, levando-as ao Ferro’s. Elas ficavam de olhos arregalados vendo moças se amassarem, assustavam-se ao serem paqueradas por mulheres.

Fora isso de assustar mocinhas, muitas vezes parava com alguma namorada ali para beber uma cerveja antes de chegar em casa, sem nenhuma intenção de chocar. Numa dessas vezes, eu tinha começado a namorar uma judia e estávamos indo pra casa. Resolvemos dar uma paradinha no Ferro’s. Logo chegou o Ricardinho e ocupou uma cadeira na nossa mesa. Percebeu que a moça era judia e perguntou se ela sabia o que estava escrito em hebraico no portal da sinagoga ali em frente.

A moça olhou, olhou, disse que não se lembrava. O Ricardinho, brincou:

— Pô, eu que não sou judeu sei o que é.

— O que é, então? — perguntou ela, e ele gozou:

— Agradecemos a preferência.

Ela levantou brava, foi embora e eu, que não tinha nada a ver com a brincadeira do Ricardinho, fiquei chupando o dedo. Perdi a namorada.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Lançamento Boitempo: Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro

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A Boitempo Editorial lança hoje (na abertura do IV Curso Livre Marx Engels) o extraordinário Estado e forma política, do jurista e filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro. Após a aula de Mascaro, haverá sessão de autógrafos (mais informações abaixo).

O livro, voltado tanto ao público geral como a estudiosos do direito, modifica o estudo da teoria do Estado e da ciência política. Convidado a escrever o texto de capa, o filósofo esloveno Slavoj Žižek não só aceitou a missão, como encontrou o que considera “simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas” [leia o texto completo de Žižek clicando aqui].

O livro chega às livrarias a partir da próxima semana e será lançado em breve em versão eletrônica (ebook).

Leia resenha crítica do sociólogo João Alexandre Peschanski (editor-adjunto da Boitempo), clicando aqui

Sobre o livro

Estado e forma política surge e se afirma como obra referencial do pensamento político crítico contemporâneo. Superando análises dominantes no direito e na ciência política — conservadoras, liberais e institucionais —, o jurista e filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro empreende uma aprofundada redefinição do Estado e da política, tomando-os a partir de uma perspectiva marxista.

Ao investigar a totalidade social a fundo, a partir das relações de produção, Mascaro revela um campo político necessariamente atrelado às formas sociais do capitalismo, nas suas múltiplas relações e contradições. A interpretação do Estado, portanto, se dá com base nas categorias da mercadoria, do valor e das formas sociais capitalistas, permeadas por conflitos e lutas de classes.

Mascaro opera tanto no nível dos conceitos mais tradicionais da teoria política e do Estado, forjando-lhes uma nova constituição, quanto avança para temas fundamentais da política contemporânea, como o sistema internacional de Estados, os debates da regulação econômica e as crises do capitalismo. Estado e forma política, obra inovadora e, na apreciação de Slavoj Žižek, incontornável, desponta como grande marco teórico para o estabelecimento de uma leitura transformadora, crítica e radical do Estado e da política nos nossos tempos.

Sobre o autor

Alysson Leandro Mascaro, jurista e filósofo do direito brasileiro, nasceu na cidade de Catanduva (SP), em 1976. É doutor e livre-docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (Largo São Francisco/USP), professor da tradicional Faculdade de Direito da USP e da Pós-Graduação em Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de fundador e professor emérito de muitas instituições de ensino superior. Publicou, dentre outros livros, Filosofia do direitoIntrodução ao estudo do direito, pela editora Atlas, e Utopia e direito: Ernst Bloch e a ontologia jurídica da utopia, pela editora Quartier Latin. É o prefaciador da edição brasileira de Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, e da nova edição de Crítica da filosofia do direito de Hegel, de Karl Marx, ambos lançados pela Boitempo.

Filósofo do direito especialista na obra marxiana, Alysson Leandro Mascaro apresentou aulas em todas as edições do Curso Livre Marx Engels, organizados pela Boitempo. Confira abaixo as aulas da primeira (2008, PUC-SP) e terceira (2012, Sindicato dos Bancários de São Paulo) edição do curso.

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IV Curso Livre Marx Engels: ainda há vagas!

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Alysson Leandro Mascaro inaugura hoje (07/05, às 15h30) o IV Curso Livre Marx Engels, no SESC Pinheiros, com a aula “A crítica do Estado e direito: forma política e forma jurídica”. Após a aula, será realizada sessão de autógrafos de lançamento de Estado e forma política. Os interessados que ainda não se inscreveram no Curso podem comparecer ao Teatro Paulo Autran (R. Paes Leme, 195 – próximo à estação Pinheiros do metrô) a partir das 14h.

Saiba mais no site do projeto Marx: a criação destruidora.

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Debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários

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Será realizado no sábado 18 de maio, às 10h30, debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (Rua São Bento, 413 – próximo à estação de metrô São Bento). Confirme sua presença na página do evento no Facebook!

Forma-mercadoria, história e forma política: comentários sobre “Estado e forma política”, de Alysson Leandro Mascaro

Recorte de fotografia “Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional no dia da inauguração de Brasília” (1960), de Thomaz Farkas (Acervo Instituto Moreira Salles), utilizada na capa de "Estado e forma política", de Alysson Mascaro

Recorte de fotografia “Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional
no dia da inauguração de Brasília” (1960), de Thomaz Farkas (Acervo Instituto Moreira Salles), utilizada na capa de Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro

Por João Alexandre Peschanski.

Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro, recém publicado pela Boitempo, é surpreendente – ou, mais exatamente, uma leitura de surpresas. A primeira surpresa diz respeito à forma do texto: clara, analítica, didática. Por mais que o tema seja difícil – os mecanismos de compatibilização da política às relações de produção, especificamente no capitalismo – e que o leitor muitas vezes tenha de reler trechos inteiros para realmente apreender o conteúdo, as ideias são precisas e organizadas. Elaborado em cinco grandes capítulos – “Estado e forma política”, “Estado e sociedade”, “Política do Estado”, “Pluralidade de Estados” e “Estado e regulação” –, cada qual dividido em vários tópicos, o livro apresenta cuidadosamente os conceitos que emprega, justifica em variados níveis de abstração os argumentos, dá visibilidade às teorias e aos debates nos quais se insere e que rejeita, retoma o encadeamento lógico da argumentação quando alguma ideia de impacto é avançada.

A segunda surpresa é a ambição do argumento de Mascaro. Professor de Direito na Universidade de São Paulo e no Mackenzie, ele faz uma defesa explícita da análise marxista do Estado – que “reconfigura totalmente o âmbito do político e do estatal, atrelando-o à totalidade da reprodução social capitalista”. A perspectiva marxista escancara a insuficiência das outras teorias, mais em voga no Direito, que se fundamentam em “mistificações metafísicas como a de que o Estado é o bem comum ou legítimo” ou que são apenas parcialmente críticas. Estado e forma política apresenta, portanto, um debate novo, baseado em problemáticas novas, tomando a sério funções e estruturas no processo de reprodução social e suas contradições.

A terceira surpresa é, para além da rejeição às teorias em voga no Direito, a contribuição positiva do livro. Mascaro se apropria de uma literatura altamente controversa no marxismo, pejorativamente conhecida como formal-funcionalista. A referência é explicitada no capítulo onde se dá a contribuição mais original do livro, o quinto (sobre Estado, crise e regulação). É um trecho complexo da obra, a ser lido após estudo das partes anteriores – que constroem o arcabouço conceitual para realmente  ter claro seu argumento. A ideia central desse capítulo é que, na medida em que se entende a forma política como derivação da forma-mercadoria (de onde emana o Estado capitalista), isto é, na medida em que a acumulação de capital pressupõe a construção do Estado, a atuação do Estado depende – ou se entende – a partir das variações na ordem da acumulação do capital. O desenvolvimento do Estado depende, por exemplo, das disputas de classe, dos rearranjos produtivos, do ordenamento global da acumulação e das múltiplas crises do modo de produção capitalista. Assim, mesmo quando o capital parece fluir solto, a ideia errônea que alguns analistas ainda têm da situação neoliberal, o Estado organiza o ordenamento e as possibilidades conjunturais para que esse fluxo se dê.

A ideia central do quinto capítulo, a retomada com mais intensidade do derivacionismo e por mais que o termo seja carregado do funcionalismo na tradição marxista, se dá a partir da própria atualização das propostas dessa linha de análise. A grande objeção aos derivacionistas (as investigações de Hirsch pelo menos até 1973, em específico) é que se mantêm a-históricos, trabalhando em níveis de abstração que nunca chegam ao concreto. Nos acalorados debates da segunda metade do século XX, rendeu aos autores que se engajavam nesse tipo de análise todos os impropérios, especialmente porque colocavam que uma reordenação do Estado sem mudanças estruturais na acumulação do capital era simplesmente variar sobre o mesmo tom, ou seja, variar sobre como o capitalismo se manifestava. Aos que viam a tomada do Estado como uma possibilidade real de transformação – que pressupunham que o aparato estatal era minimamente neutro, ou seja, podia ser guiado contra os interesses da reprodução do capitalismo – o derivacionismo era inaceitável e, por isso, foi castigado.

A análise de Mascaro justamente coloca a forma política, ainda derivada da forma-mercadoria, dentro de sua trajetória histórica, que a diferencia do pré-capitalismo e se diferencia nos vários processos de implementação da lógica de acumulação do capital e compatibilizações da forma política. Eventuais considerações sobre a permanência da forma são fundamentadas de maneira histórica. Estado e forma política vai e vem nos níveis de abstração, e o concreto não é mera ilustração de uma teorização fantasiosa, mas a chave analítica que se descobre central para entender o Estado e a forma política.

Não é surpresa, com tudo isso, que o autor da quarta-capa, ninguém menos do que Slavoj Žižek, tenha se entusiasmado com o livro. E isso a ponto de declarar que se trata da principal contribuição marxista das últimas décadas. De fato, trata-se de uma contribuição real à análise do capitalismo – o que também me surpreendeu, pois em conversa particular com o autor este me disse que preparava um “manual” – e, em tempos de vacas magras da teoria anticapitalista, se torna uma joia rara.

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IV Curso Livre Marx Engels: ainda há vagas!

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Alysson Leandro Mascaro inaugura amanhã (07/05, às 15h30) o IV Curso Livre Marx Engels, no SESC Pinheiros, com a aula “A crítica do Estado e direito: forma política e forma jurídica”. Após a aula, será realizada sessão de autógrafos de lançamento de Estado e forma política. Os interessados que ainda não se inscreveram no Curso podem comparecer ao Teatro Paulo Autran (R. Paes Leme, 195 – próximo à estação Pinheiros do metrô) a partir das 14h.

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Debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários

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Será realizado no sábado 18 de maio, às 10h30, debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (Rua São Bento, 413 – próximo à estação de metrô São Bento). Confirme sua presença na página do evento no Facebook!

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João Alexandre Peschanski é sociólogo, editor-adjunto da Boitempo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A atualidade do Manifesto comunista

13.05.03_Ricardo Musse_A atualidade do Manifesto comunista_3Por Ricardo Musse.

No Manifesto do partido comunista, Marx e Engels apresentam, pela primeira vez, o mundo burguês como uma unidade contraditória entre fatores dinâmicos e invariância estática. O paradoxo de uma sociedade que não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção e, com eles, o conjunto das relações sociais é próprio do mundo moderno. Enquanto os antigos modos de produção assentavam-se, à maneira de uma tradição, na manutenção e conservação de relações fixas e cristalizadas, a sociedade burguesa se reproduz, mantendo-se idêntica, apenas ao preço de uma contínua transformação que, acarretando a obsolescência e uma incontrolável destruição de toda estrutura de produção existente em um determinado momento, subverte de forma incessante inclusive o cenário histórico e político.

Por razões conjunturais, Marx e Engels privilegiaram, nesse entrelaçamento, o aspecto dinâmico, a constância da transitoriedade, materializado na frase-emblema: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Muito do interesse e parte da recepção do Manifesto explicam-se por essa ênfase. Em períodos de estabilização e consolidação do capital, seja entre 1850 e 1870 ou no quase meio século que se estende de 1950 a 1989, o marxismo volta-se para a compreensão da estática imanente à dinâmica social, concebendo a sociedade como uma segunda natureza e debruçando-se sobre o sempre-igual de fenômenos como o fetichismo da mercadoria. Hoje, no entanto, quando o engessamento do capitalismo (provocado por uma conjunção especial de fatores: conflito entre blocos e guerra fria, estabelecimento nos países centrais de um Estado do bem-estar social, predomínio incontestável da hegemonia norte-americana) parece ter chegado ao fim, muito do que se diz no Manifesto volta a ter uma inesperada atualidade.

Isso não significa que a análise e a crítica do fetichismo da mercadoria e da “naturalização” da vida social deva ceder lugar a um retorno puro e simples às formas antiquadas de “luta de classe”. Muito pelo contrário, a ausência dessa crítica é que impede a superação de um padrão de contestação que se apresenta como movimentos internos do mundo moderno, isto é, como determinações inerentes à sociedade burguesa.[1] Mas, por outro lado, se é verdade – à luz da história dos últimos 150 anos – que as tentativas de emancipação do proletariado, seja na vertente dita “revolucionária”, seja nos quadros do “reformismo” ou ainda do anti-imperialismo terceiro-mundista, consagradas em conquistas efetivas do poder estatal, não foram além de variações do “socialismo de Estado” deixando intocada a premissa principal do capitalismo, a generalização da forma-mercadoria, nada assegura que a classe trabalhadora esteja condenada ontologicamente, de antemão, a repetir novamente essa trajetória. Se as formas históricas próprias desses ultrapassados movimentos de contestação ainda sobrevivem em meio à sua agonia e ao caos presente, salientado pela falta de perspectivas práticas, disso tampouco se pode inferir que o proletariado, em seu sentido amplo, tal como definido no Manifesto, seja uma carta fora do baralho na luta pela emancipação.

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O texto do Manifesto constitui-se pela combinação, quase sempre inextricável, de uma exposição concisa que se propõe a apresentar abertamente, “opondo-se à lenda do espectro”, a teoria do comunismo com o detalhamento de uma plataforma política do proletariado para uma revolução que Marx e Engels julgavam iminente e que de fato se desencadeou pouco menos de um mês após sua redação.

Essa conjunção de doutrina e programa, a simbiose entre conceito e história, a unidade de teoria e prática realiza, novamente pela primeira vez (impossível não destacar repetidamente o caráter inaugurador do texto), o projeto mais ambicioso da filosofia do idealismo alemão, enunciado por Fichte como a junção entre o a priori, o desdobramento lógico, e o a posteriori, a experiência do mundo real e que Hegel, na Fenomenologia do espírito – conforme a voz corrente na filosofia da época, dos jovens-hegelianos a Schopenhauer – apenas conseguira alcançar, retrospectivamente, para as formas do passado.

Mas não é só no terreno da filosofia, ao efetivar a exigência, reiterada no debate intelectual da década de 1840, de dar conta do presente histórico, que o Manifesto apresenta inovações. Além de contribuições no campo da sociologia (a teoria das classes sociais) e da economia (embora aqui ainda esteja ausente um ponto central do arcabouço – a teoria marxista do valor), o Manifesto inaugura ainda, de acordo com a opinião insuspeita de Schumpeter, a interpretação econômica da história e a teoria moderna da política.

O gesto inaugural ou a introdução de avanços em disciplinas aparentemente tão díspares – que dificilmente poderá, por conta da superespecialização hoje vigente no trabalho intelectual, ser repetido por um outro livro – explica-se facilmente por um círculo virtuoso. Marx renovou a história porque conhecia bem economia, revolucionou a política porque conhecia a história como poucos, reinterpretou criticamente a economia graças aos seus conhecimentos de política e de história etc.

Não se pode dizer o mesmo, porém, do processo de disseminação que tornou o marxismo um fenômeno mundial a partir da última década do século XIX. Como a divulgação se fez prioritariamente pela via da esquematização, a difusão acarretou o empobrecimento tanto do conteúdo quanto do método. Não foi só o retalhamento do legado de Marx e Engels em partes e disciplinas estanques por obra do anseio enciclopédico da época e pela posterior incorporação, em separado, de algumas descobertas do marxismo pelo mundo acadêmico burguês. O próprio Engels, apenas cinco anos depois da morte de Marx, acrescentou ao Manifesto, na edição inglesa de 1888 e, depois na edição alemã, uma série de notas explicativas, presentes em todas as edições e traduções posteriores, que dissociam conceito e história. A primeira nota, por exemplo, adendo ao título da primeira parte – “Burgueses e proletários” – define logicamente estas duas classes por sua posição em relação à propriedade dos meios de produção. Já o texto do Manifesto expõe esses conceitos por meio de uma síntese da história moderna que destaca o processo de formação de cada classe e a conexão entre elas, o antagonismo que as envolve numa luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta.

A súmula do mundo moderno, pequeno esboço de história universal, que o Manifesto apresenta em poucas páginas, dotada de um impressionante poder de compreensão e síntese, constitui a primeira aplicação e exposição pública da concepção materialista que Marx e Engels haviam desenvolvido num manuscrito, A ideologia alemã, até 1932 abandonado a “crítica roedora dos ratos”. O Manifesto além de retomar, sob a forma de drásticos resumos, passagens inteiras desse manuscrito, concretiza a ideia, ali apenas enunciada, de uma história que não separa nem distingue os aspectos econômicos, sociais ou políticos.

Essa teoria da história se propõe a combater o ponto de vista de um “assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano” pela observação das relações materiais. Seu fio condutor foi posteriormente condensado por Marx nos seguintes termos: “na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes…” (Prefácio a Contribuição à crítica da economia política).

O travamento no desenvolvimento das forças produtivas (a ausência de crescimento), a contradição entre relações sociais existentes manifestam-se sob a forma de crises. As relações burguesas tornaram-se estreitas demais para conter a riqueza colossal que a própria burguesia despertou no seio do trabalho social por meio da exploração do mercado mundial. As medidas protelatórias, segundo Marx e Engels, apenas preparam crises mais gerais e violentas.

A partir desse cenário o Manifesto fez uma dupla aposta. Primeiro, sustentou a hipótese, que se revelou verdadeira, de que a crise levaria a uma revolução social que varreria do mapa europeu os velhos regimes. Equivocou-se, porém, na previsão de que o desenvolvimento do capitalismo avançara a ponto de tornar possível uma vitória definitiva do proletariado. Em 1850, Marx e Engels reconhecem, no último artigo de As lutas de classes na França, que a perspectiva de uma continuação do processo revolucionário estava inviabilizada pela retomada, após a crise de 1847, da prosperidade industrial.

O desfecho das revoluções de 1848 – na França marcado pelo golpe de Estado de Luís Bonaparte em dezembro de 1851 –, que levou Marx a se exilar na Inglaterra e a se dedicar, por longos anos, apenas à redação de O capital, modificou profundamente a visão de Marx e Engels acerca do papel da burguesia. Sua capacidade em se acomodar, quando preciso, com setores da aristocracia fundiária e com a burocracia monárquica, desfizeram a impressão, amplificada pelo Manifesto, de que se tratava de uma classe eminentemente revolucionária, apta a “criar o mundo à sua imagem e semelhança”. Desde então, a burguesia passa a ser vista como uma classe contrarrevolucionária, trazendo para o primeiro plano seu conflito com o proletariado.

Muito se criticou a teoria de classes do Manifesto, o substrato da famosa afirmação que abre o livro, “a história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes”, principalmente a simplificação dos antagonismos em dois grandes campos inimigos: burguesia e proletariado. Quando se atém, porém, ao núcleo da determinação do conceito de proletário, à condição de homens que são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, sujeitos às vicissitudes da concorrência e às flutuações do mercado, como negar, ainda hoje, a veracidade e a pertinência dessa teoria?

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Os problemas do Manifesto e, por extensão, do próprio marxismo surgem na determinação da consciência de classe, e portanto, no delineamento da atuação política do proletariado. O processo de formação da classe proletária que o Manifesto descreve, das lutas isoladas a organização em associações permanentes e em coalizões anti-burguesas, a conversão das lutas locais em uma luta política nacional, é impecável. Porém, a expectativa de Marx e Engels de que o incremento de dois fatores dissonantes – o empobrecimento do proletariado por causa da concorrência entre os proletários por trabalho e o aumento do seu poder social por conta da concentração industrial – conduzisse à revolução proletária não se mostrou factível.

Poderes e capacidades estatais diferenciadas conduziram, por meio de um complexo processo de inovação e restruturação permanentes, a substanciais diferenças espaciais.[2] Nos países centrais do capitalismo, ao longo destes 150 anos, o poder social do proletariado foi significativamente ampliado, como se pode constatar pelo estado de bem estar social ali construído. Já na periferia e na semiperiferia, a crescente penúria das massas proletarizadas possibilitou que organizações que reivindicavam a herança marxista conquistassem o poder estatal como plataforma para programas de industrialização.

Após 1968-1973, no entanto, esses dois fatores dissonantes, que sempre correram paralelos – criando o contrassenso de um forte poder social proletário avesso ao marxismo e de estados e organizações alheios aos interesses do proletariado formalmente marxistas – aproximam-se cumprindo, talvez pela primeira vez, o prognóstico do Manifesto. Enquanto surgem no núcleo orgânico amplas camadas proletárias sujeitas ao empobrecimento (principalmente entre a força de trabalho feminina ou imigrante), intensificam-se nas regiões periféricas e semiperiféricas do Leste Asiático, do Leste Europeu, da América Latina e mesmo da África Austral o poder social da classe trabalhadora.

Na medida em que a retomada do mercado mundial tende cada vez mais a conjugar as premissas que o Manifesto colocou como indispensáveis para a revolução socialista, acarretando uma crescente perda de legitimidade da burguesia, as organizações marxistas tradicionais, paradoxalmente, passam a constituir hoje o último entrave para um revivescimento mundial da luta proletária.

Quem examina o Manifesto procurando um caminho para essa retomada, certamente não vai encontrar lá respostas prontas ou um repertório doutrinário de programas. Mas se pode aprender muito com o seu caráter aberto. Ele, em lugar de esmiuçar uma teoria sistemática do partido, com regras e critérios de estruturação e funcionamento, toma o conceito de partido, que agrega no nome Manifesto do partido comunista, como uma extensão da classe determinando, na fórmula de Claudín não “o partido do proletariado, mas o proletariado como partido”. Em vez de uma definição peremptória do modelo de uma sociedade socialista, oferece poucas, breves e vagas indicações (destacando, porém, que a revolução social também significa, nos termos de 1968, “mudar a vida”) à espera de que o desaparecimento do antagonismo entre as classes, do fetichismo da mercadoria e do predomínio do interesse monetário, por si sós, ajude a delinear os contornos de uma forma social mais justa.


Notas:

[1]Cf., por exemplo, Immanuel Wallerstein. O capitalismo histórico (São Paulo, Brasiliense, 1985) ou Robert Kurz. Os últimos combates (Petrópolis, Vozes, 1997).

[2] Para o que segue cf. Giovanni Arrighi “Século Marxista, Século Americano”. Em: A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis, Vozes, 1997.

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Manifesto comunista é o primeiro título da coleção Marx e Engels da Boitempo e já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso nas livrarias Travessa, Saraiva e Gato Sabido.

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No dia 8/5, José Paulo Netto, ministrará a aula “A relevância e atualidade do Manifesto Comunista” no IV Curso Livre Marx-EngelsAs aulas sobre o Manifesto comunista na primeira e terceira edição do curso foram ministradas, respectivamente, por Francisco de Oliveira e Osvlado Coggiola:


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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

A Igreja e seus achaques

13.05.02_A Igreja e seus achaques_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Li estarrecido a notícia sobre a excomunhão de um padre em Bauru, no interior de São Paulo, por ter ele defendido homossexuais e condenado as atitudes retrógradas da Igreja Católica em relação a sexo. Diz o juiz instrutor do caso que a decisão de excomungá-lo não teve por base o apoio aos gays, mas sim a sua recusa em obedecer às autoridades da Igreja.

Seja como for, o caso entra para o passivo da Igreja, que terá de prestar contas perante o Criador no dia do Juízo Final ou outra circunstância parecida.

Porque não dá para deixar de sublinhar o rigor desta medida cavernosa diante da indulgência com que a hierarquia católica tratou, até agora, os casos de pedofilia e de outras barbaridades cometidas nas barbas, não do Profeta, mas dos Santos Papas, se eles as tivessem, como alguns já tiveram bem antigamente.

Esquece a hierarquia da Igreja a palavra do próprio Cristo, através do evangelista: “Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos.” (Lucas, 17, 1-2).

Fico imaginando o que aconteceria se o meu livro A Bíblia segundo Beliel caísse nas mãos de um juiz destes. Certamente eu e o Beliel iríamos para o beleléu.

Decididamente a Igreja está precisando de um choque de gestão. Conseguirá dá-lo o Papa Francisco I? Não sei. Recentemente ele apontou uma espécie de Conselho Episcopal, composto por cardeais dos cinco continentes, como uma espécie de grupo auxiliar para auxiliá-lo na administração (faxina, eu diria) da Igreja.

Haverá remédio para a Santa Madre? Bom, é verdade que, apesar das cruzadas da direita vaticana e opusdêica contra, por exemplo, a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base, estas continuam e, por debaixo dos panos eclesiásticos passam bem, obrigado. Estão, é verdade, numa espécie de clandestinidade obsequiosa. Mas não desapareceram.

É difícil coisas desaparecerem na Igreja. Certa vez meu querido (e infelizmente ido) amigo Eder Sader me contou um episódio, sobre um encontro que ele assistiu na sede do Cebrap, com sociólogos, antropólogos, teólogos, religiosos, etc. sobre os destinos da Santa Madre. Disse-me ele que um dos presentes defendia a tese de que o acontecia com as CEBs no Brasil e na América Latina era o que havia de mais importante para definir os destinos da Igreja no próximo milênio. “Flávio”, me disse ele, arregalando os olhos como fazia nessas ocasiões, “eles pensam em milênios!”…

É verdade, penso até hoje. O tempo eclesiástico é de outra dimensão, assim como o do Criador, de certo modo, é o da eternidade. Esta é uma outra razão para meu pensamento que pode ser herético, mas não é desrespeitoso. Exatamente por ser seu tempo o da eternidade, é que o Criador teve que se dedicar a tirar do tudo (ou do nada, para alguns) a Criação, e dentro dela o ser humano. É porque na eternidade não há prazer. Esta é uma das razões por que, por exemplo, o Zeus grego ficava procurando as humanas gostosas, ao invés de ficar apenas com a insípida Hera. Era para ver se ele conseguia pelo menos vislumbrar o que era o prazer, porque o prazer só é prazer porque acaba. O prazer é umbilicalmente ligado à sensação de finitude.

E esta é uma das dimensões do gigantesco erro em que a Santa Madre incorre ao defender coisas como a castidade, a querer proibir o direito ao aborto (não que eu seja indiscriminadamente a favor do aborto, mas sou sim contra a sua criminalização), ao atacar a opção das pessoas do mesmo sexo que se amam, etc. Porque isto parte de uma ideia de negação do prazer, que é uma das dimensões que, através da Criação, o Criador (ou o Big Bang, para os íntimos da religião científica) ou seja lá quem for ou que nome se lhe atribua, entregou, como dádiva, aos seres que a povoam, desde as amebas até o ser pensante que julgamos ser.  

Durma-se com uma excomunhão dessas! Ou com as duas – a do padre de Bauru e a do prazer.

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A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

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Confira o Booktrailer do livro abaixo:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Esse cara é Roberto Carlos

13.04.30_Urariano Mota_Esse cara é o Roberto CarlosPor Urariano Mota.

Esta semana, no ônibus, me veio de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? E outras perguntas semelhantes: qual canção, quais canções, que compositor seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril? E não sei se por acaso, ou se por felicidade do acaso, no rádio do ônibus começou a tocar:

“Meu amor está tão longe de mim
Meu bem não seja tão ruim
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor

Diga que você não me esqueceu
E que o seu coração ainda é meu
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor

O beijo que você me deu
Eu guardo até hoje o calor
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor”

Essa canção me fez lembrar, como num estalo, que Roberto Carlos foi o compositor mais representativo daqueles anos. Não sei se conseguirei me fazer entender.

Quando falamos em música e 1964, a associação imediata aos anos de ditadura é sempre a dos grandes compositores que, contra o golpe militar, se viram metidos num embate. Então nos lembramos de imediato de Chico Buarque, de Geraldo Vandré. Fica mal com Deus quem assim não se lembrar. Mas a associação imediata é sempre a da superfície. O imediato sempre vem ao que estamos acostumados por tradição, por uso, e até por força da lei do menor esforço. Lembrar de fato é mergulhar, reviver, viver, entrar de volta na pele daqueles anos. Quando assim mergulhamos, quando voltamos a ser aquele rapazinho magriço em 1965

“Meu amor está tão longe de mim
Meu bem não seja tão ruim
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor …”

Essa voz suave que nos chega abre espaço para uma segunda voz, que nos sopra “o diabo não tem chifres”. Entendam. Sabemos, claro, que a lembrança mais funda de uma época vem misturada a pó, a disfarces. A lembrança mais funda pode não ser a época objetiva. Mas o que será mesmo a realidade objetiva sem a apreensão dela por um homem? Quero dizer, o que há mesmo de objetivo na beleza de um rio sem olhos que o vejam? Dizem-nos “se os teus olhos se fecharem, o rio continuará lá, independente dos teus olhos. Isto é objetivo”. Ao que respondemos, para que mesmo serve esse rio objetivo sem olhos que bebam a sua beleza? Água em si não é bela. É líquido, fórmula química, fria natureza. Então voltamos. A gente sabe que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com todos os rádios, em todos os lugares, tocando

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem e eu estou a lhe esperar
só tenho você no meu pensamento
e a sua ausência é todo meu tormento
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno

De que vale a minha boa vida de play boy
se entro no meu carro e a solidão me dói
onde quer que eu ande, tudo é tão triste
não me interessa o que de mais existe
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
quero até morrer do que viver assim
só quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno.”

A gente sabe. Então vêm perguntas dos resistentes velhinhos do fã-clube do Rei: “Fazer sucesso naqueles anos da ditadura é o mesmo que ser o compositor da ditadura? Por acaso a música do Rei saía da boca dos generais? Roberto Carlos tem culpa de ter sido um sucesso estrondoso em 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73…?”. Por esse critério, reconhecemos, arrastaríamos todos os grandes sucessos desses anos, e diríamos que seus autores foram e são por isso culpados. Então entendam, por favor, que o sucesso não é o critério – embora, forçoso é dizer, possa oferecer uma pista daqueles anos. Para melhor compreensão, nos aproximemos de 1965.

Quando Roberto Carlos cantou em todos os rádios do Brasil, ele veio dentro de um projeto, de um programa que arrebentou em 65. “Em 1965, estreou ao lado de Erasmo e Wanderlea o programa Jovem Guarda, que daria nome ao movimento”, dizem as notas. O Jovem Guarda se opunha ao O Fino da Bossa, com Elis Regina. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha guarda do samba e os compositores de esquerda, de convicções socialistas, o Jovem Guarda

“Eu vou contar pra todos a história de um rapaz
que tinha há muito tempo a fama de ser mau
seu nome era temido sabia atirar bem
seu gênio violento jamais gostou de alguém

E ninguém jamais viveu pra dizer
que o contrariou sem depois morrer
nos duelos nem piscava,
no gatilho ele era o tal
todos que o desafiavam
tinham o seu final…”

ou

“Quem não acreditar
venha ver a multidão
que com ela quer dançar
ela adivinha que eu
estou sofrendo
também querendo
com ela dançar…”

“O Rei, o Rei não tem culpa…”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa…”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não tem culpa de fazer o medíocre, que falava aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, certamente, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal há em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? Certo, Roberto Carlos não tem culpa de não compor algo como

“Tristeza não tem fim,
felicidade, sim.

A felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar
voa tão leve, mas tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar…”

Certo, compreendemos, ninguém é louco de pedir ao Rei o impossível. Certo, concordamos que ele não tem culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles, de macaquear em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool. Toucas, acordes “jovens”, vestuário, um arrebentar de norte a sul do Brasil, que mal há? Claro que não há mal. Mas…

Meus amigos, chega de rodeios. Tentemos atingir a raiz, o específico. Vamos adiante, pois começaremos por dizer: em relação à música popular, o que caracterizou a ditadura militar no Brasil foi o veto, a censura absoluta a qualquer alusão política nas letras. O veto, o corte, o mutilar a canção por qualquer insinuação política foi ampliado até a mais leve crítica a qualquer aspecto social ou físico da paisagem brasileira. Tinham passagem pelo apertado funil, ou melhor, eram bem-vindas as canções mais ufanistas como

“As praias do Brasil ensolaradas,
o chão onde o país se elevou,
a mão de Deus abençoou
mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O céu do meu Brasil tem mais estrelas,
o sol do meu país mais esplendor.
A mão de Deus abençoou,
em terras brasileiras vou plantar amor.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil.
eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Ninguém segura a juventude do Brasil…” (Don e Ravel)

É sintomático em Roberto Carlos a passagem de cantor da juventude, da jovem guarda, para cantor “romântico”. Essa passagem se dá na medida em que os jovens de todo o mundo deixam de ser apenas um mercado de calças Lee e Coca-Cola, e passam a explodir em protestos contra a guerra do Vietnã, até mesmo em festivais de rock, como em Woodstock. Ou, se quiserem numa versão mais brasileira, o Rei Roberto se torna um senhor “romântico” na medida mesma em que as botas militares pisam com mais força a vida brasileira. Ora, nesses angustiantes anos o que compõe o jovem, o ex-jovem, que um dia desejou que tudo mais fosse para o inferno? – Os títulos dizem bem: Eu te amo, te amo, eu te amo, As canções que você fez pra mim, As flores do jardim da nossa casa, e, claro, para que não me vejam má vontade, Sua Estupidez:

“Meu bem, meu bem,
você tem que acreditar em mim
ninguém pode destruir assim
um grande amor …”

É claro, já se vê que a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se dá pelo envelhecimento do seu público. Ora, de 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5 correm sangue e enfurecimento da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo. Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é “Vista a roupa, meu bem” (e vamos nos casar). Ora. Se fizéssemos um gráfico, se projetássemos curvas de repressão política e de “romantismo” de Roberto Carlos, veríamos que o ápice das duas curvas é seu ponto de encontro. O que é uma coincidência, quero dizer, os dois pontos coincidem.

O namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância. Não sei se me explico bem. O Rei Roberto não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição. O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam. Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que realçavam o mundo ordenado pelo regime. Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibia-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que faz o nosso Rei? O Rei irrompe com uma canção que é um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, o Rei ora:

“Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui
olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando
olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando
como essa nuvem branca, essa gente não sabe aonde vai
quem poderá dizer o caminho certo é Você, meu Pai

Toda essa multidão tem no peito amor e procura a paz
e apesar de tudo a esperança não se desfaz
olhando a flor que nasce no chão daquele que tem amor
olho pro céu e sinto crescer a fé no meu Salvador….”

Isso foi em 1971. Depois, o Rei Roberto, em sua experiência internacional, manteve a velha coerência. Olhem as gracias que ele rendeu ao ditador Pinochet aqui:

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Em 2004, a Boitempo Editorial publicou uma análise social e ao mesmo tempo emotiva da obra e trajetória de Roberto Carlos – Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa), de Pedro Alexandre Sanches. Disponível nas livrarias e, em breve, em ebook!

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Promoção! Boitempo oferece 40% de desconto nos livros da coleção Mundo do Trabalho em comemoração ao Dia do Trabalhador

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A Boitempo realiza uma promoção especial em comemoração ao Dia Internacional do Trabalhador de 29 de abril a 1º de maio de 2013, na compra feita diretamente com a editora, de livros da coleção Mundo do Trabalho, que poderão ser adquiridos com 40% de desconto.

Com coordenação de Ricardo Antunes, a coleção Mundo do Trabalho reúne estudos sobre o trabalho e sua centralidade, análises do sindicalismo, questões de gênero e o impacto das transformações trazidas pela globalização. São leituras essenciais para a reflexão acerca do mundo do trabalho, abordando seu passado, presente e formulando perspectivas para o futuro.

O contato para a compra dos livros com desconto deve ser feito para o e-mail vendas01@boitempoeditorial.com.br, com o assunto “Promoção Mundo do Trabalho”. O pedido deve conter o endereço completo (com CEP) para cadastro como cliente e cálculo do frete (para pedidos abaixo de R$ 150,00 líquido), além do número do RG e CPF. Nas compras acima de R$150,00 o frete será grátis para todo o país. O pagamento será feito por meio de depósito em conta corrente a ser posteriormente informada. Interessados em pagar com cartão de crédito devem entrar em contato por telefone (11 3875-7285) e procurar por Thiago Freitas no horário das 9h às 18h. A promoção está sujeita à disponibilidade dos livros em estoque. Caso o título solicitado esteja em falta, o comprador será informado antes da conclusão do pedido.

Somente e-mails com os dados completos serão respondidos.

Relação dos livros com desconto:

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição, de István Mészáros – R$61,20

Estrutura social e formas de consciência I: a determinação social do método, de István Mészáros – R$29,40

Estrutrura social e formas de consciência II: a dialética da estrutura e da história, de István Mészáros – R$33,60

O desafio e o fardo do tempo histórico, de István Mészáros – R$34,80

A crise estrutural do capital, de István Mészáros – R$15,00

A educação para além do capital, de István Mészáros – R$15,00

Filosofia, ideologia e ciência social, de István Mészáros – R$24,60

O poder da ideologia, de István Mészáros – R$48,00

O continente do labor, de Ricardo Antunes – R$21,00

Infoproletários: degradação real do trabalho virtual, de Ricardo Antunes e Ruy Braga (orgs.) – R$26,40

Trabalho e dialética: Hegel, Marx e a teoria social do devir, de Jesus Ranieri – R$20,40

Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório, de Giovanni Alves – R$21,60

A máquina automotiva em suas partes: um estudo das estratégias do capital na indústria de autopeças, de Geraldo Augusto Pinto – R$22,80

O emprego no desenvolvimento da nação, de Marcio Pochmann – R$22,80

Mais trabalho!, de Sadi Dal Rosso – R$19,20

Forças do trabalho: movimentos de trabalhadores e globalização desde 1870, de Beverly J. Silver – R$24,00

Linhas de montagem: o industrialismo nacional-desenvolvimentista e a sindicalização dos trabalhadores, de Antonio Luigi Negro – R$27,00

A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil, de Adalberto Moreira Cardoso – R$24,60

Retorno à condição operária: investigação em fábricas da Peugeot na França, de Stéphane Beaud e Michel Pialoux – R$39,00

A desmedida do capital, de Danièle Linhart – R$21,60

O roubo da fala: origens da ideologia do trabalhismo no Brasil, de Adalberto Paranhos – R$20,40

Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira, de Marcio Pochmann – por R$ 19,20

A obra de Sartre: busca da liberdade e desafio da história, de István Mészáros – R$ 32,40

A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, de Ruy Braga – R$ 23,40

Da grande noite a alternativa, de Alain Bihir – por R$ 25,20

Nova divisão sexual do trabalho, de Helena Hirata – R$ 27,60

O emprego na globalização, de Marcio Pochmann – R$ 19,80

O século XXI: socialismo ou barbárie?, de István Mészáros – R$ 19,20

Shopping Center: a catedral das mercadorias, de Valquíria Padilha – R$ 21,00

Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência

13.04.25_Mauro Iasi_Senso comum e conservadorismoPor Mauro Iasi.

Um dos mitos da estratégia democrática popular é o acumulo de forças. A ideia geral é que por não haver condição de rupturas revolucionárias, nem correlação de forças por mudanças estruturais no sentido do socialismo, a democratização da sociedade e as reformas graduais iriam criando as bases políticas para o desenvolvimento gradual de uma consciência socialista de massa.

No 5o Encontro Nacional do PT em 1987, o problema é colocado da seguinte maneira: certos companheiros não distinguem entre as ações ligadas ao acumulo de forças daquelas voltadas diretamente à conquista do poder, não entendendo, segundo o juízo dos formuladores, a diferença entre o “momento atual, (…) em que as grandes massas da população ainda não se convenceram de que é preciso acabar com o domínio político da burguesia, e o momento em que a situação se inverte e se torna possível colocar na ordem do dia a conquista imediata do poder”.

O resultado desta incompreensão seria que os “pretensamente revolucionários” não seriam entendidos pela população e pelos trabalhadores contribuindo, assim, de fato para a “desorganização das lutas” ficando condenados a “pequenos grupos conscientes e vanguardistas”.

Bem, o centro deste argumento que contrapõe os pretensos revolucionários aos verdadeiros seria que estes últimos teriam a capacidade de dialogar com a consciência imediata das massas e dos trabalhadores criando a mediação necessária para elevá-la à compreensão da necessidade da conquista do poder.

Nada como uma década depois da outra para julgarmos as pretensões anunciadas. A prova da validade ou não de tal formulação deve ser buscada na seguinte pergunta: após dez anos de governo petista os trabalhadores estão hoje (considerando como ponto de referencia 1987 e o 5o Encontro do PT) mais organizados e se desenvolveu uma consciência de classe que coloca de forma mais evidente a necessidade de conquista do poder “acabando com o domínio político da burguesia”?

Comecemos pela expressão maior dessa estratégia e seu líder incontentável: Luis Inácio Lula da Silva. Como operário ele expressava no início de sua trajetória política os elementos evidentes do senso comum, nos termos gramscianos, ou de uma consciência reificada nos termos de Lukács. Em seu discurso de posse no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975, dizia que vivíamos em um momento “negro” para o destino dos indivíduos e da humanidade, porque tínhamos “de um lado” o homem “esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia marxista, tolhido nos seus mais comezinhos ideais de liberdade”, e de outro lado, tínhamos o homem “escravizado pelo poder econômico explorado por outros homens” (Discurso de Lula na posse do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e Diadema, 1975).

As mudanças na consciência dos trabalhadores não vêm da autodescoberta ou do esclarecimento, são o resultado de sua inserção na luta de classes. As lutas operárias do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 colocariam novos elementos à consciência deste operário em construção.

Em seu discurso na 1a Convenção Nacional do PT em 1981, Lula já diria: “O PT não poderá, jamais, representar os interesses do capital”.  Em outra parte do mesmo discurso o líder em formação afirmaria:

“Nós, do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os trabalhadores que tomaram a iniciativa histórica de propor a criação do PT já sabiam disso muito antes de terem sequer a ideia da necessidade de um partido (…). Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso sentimos na própria carne e queremos, com todas as forças, uma sociedade (…) sem exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista”
(Discurso de Lula na 1a Convenção Nacional do PT, 1981).

Os trabalhadores, no momento de fusão que os constituía em classe contra o capital, expressavam a difícil passagem da consciência reificada à consciência em si, apontando já neste momento os germes de uma consciência para si, ou seja, mais que a consciência de uma classe da ordem do capital, mas uma classe portadora da possibilidade de uma nova forma societária para além da sociedade burguesa.

As lutas operárias, assim como o retomar de um conjunto muito amplo de lutas sociais, tornaram possível um salto organizativo que resultou na formação de um partido e, depois, de uma central sindical, da mesma forma que se alastra pela sociedade a retomada de associações, movimentos sociais e lutas das mais diversas.

Façamos um corte e pulemos para uma entrevista em que Lula recebe o repórter do programa norte americano 60 minutes por ocasião do final de seu segundo mandato como presidente.

Nesta entrevista o repórter norte americano pergunta ao ex-presidente:

“Havia empresários, no Brasil e no exterior, muito preocupados com sua posse, que pensavam que era um socialista e que daria uma virada completamente à esquerda. Agora estas pessoas são seus maiores apoiadores. Como isso aconteceu?”

E Lula responde:

Veja, eu de vez em quando brinco que um torneiro mecânico com tendências socialistas se tornou presidente do Brasil para fazer o capitalismo funcionar.  Porque éramos uma sociedade capitalista sem capital. E se você olhar para os balanços dos bancos neste ano (final do segundo mandato de Lula) verá que nunca antes os Bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil como eles ganharam no meu governo. E as grandes montadoras nunca venderam tantos carros como no meu governo. Mas os trabalhadores também fizeram dinheiro.

O repórter um tanto surpreso pergunta: “Como você consegui fazer isso?”. E Lula responde: “Eu descobri uma coisa fantástica. O sucesso do político é fazer o que é óbvio. É o que todo mundo sabe que precisa ser feito, mas que alguns insistem em fazer diferente”.

Notem bem, Lula expressava entre 1975 e 1987 o movimento da consciência de classe que passava de uma determinação da alienação à consciência de classe em si. Da mesma forma fica manifesto na consciência de sua liderança mais expressiva o caminho de volta à reificação.

O problema é que a consciência expressa na liderança é representativa do resultado político da estratégia por ele implementada no conjunto da classe e em sua consciência. Como a consciência em seu movimento é síntese de fatores subjetivos e objetivos, a ação política da classe conformada por uma estratégia incide diretamente sobre a classe e sua formação enquanto classe.

Em sua análise sobre a social-democracia, Adan Przeworski (Capitalismo e Social-democracia, São Paulo: Cia das Letras, 1989) afirma que:

“A classe molda o comportamento dos indivíduos tão-somente se os que são operários forem organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como operários, e sim como “as massas”, o “povo”, “consumidores”, “contribuintes”, ou simplesmente “cidadãos”, os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe.” (Przeworski, 1989:42).

O mito do acumulo de forças só se sustenta renovando-se ao infinito, isto é, nunca estamos prontos, nunca há a correlação de forças favorável, nunca o nível de consciência das massas e dos trabalhadores chega à necessidade da conquista do poder. O problema é que agindo desta forma criam-se as condições para que de fato nunca estejam dadas as condições.

No entanto, a questão é ainda mais séria. Os defensores do acumulo de forças acreditam piamente que os patamares de consciência não regridem, isto é, a consciência de classe desenvolvida nos anos oitenta e noventa ficaria ali no ponto onde chegou e iria se tornando massiva em consequência do andamento positivo das ditas reformas. Nesta leitura, se ainda não temos uma consciência revolucionária, que já coloca a necessidade da conquista do poder, teríamos a generalização gradual de uma consciência em si, digamos democrática, disposta a manter o patamar das conquistas e reagir quando estes estão ameaçados.

Não é o que verificamos. A consciência expressa na liderança revela que o conjunto da classe retoma um patamar que Sartre denominava de serialidade e ao qual corresponde a consciência reificada. Esta é a consciência da imediaticidade, da ultrageneralização, do preconceito, da perda do capacidade de vislumbrar, ainda que potencialmente,  a totalidade.

Presos a esta forma de consciência, os trabalhadores não agem como uma classe nos limites da ordem do capital em luta contra suas manifestações mais aparentes e, pior, eles a naturalizam e se comportam como agentes de sua reprodução e perpetuação desta ordem.

O senso comum reflete este movimento e é no cotidiano que ele se manifesta. Se podíamos falar de um senso comum progressista, ou tendencialmente de esquerda, no contexto de intensificação da luta de classes na crise da autocracia burguesa e no processo de democratização, hoje no quadro de uma democracia de cooptação consolidada temos um senso comum que tende a ser conservador e, por vezes, reacionário.

Permitam-se um exemplo caseiro, mas creio que significativo. Lincoln Secco escreveu um texto sobre a situação da Coréia do Norte em nosso blog (Kim Jong-un 17/04/2013). Um comentador simplesmente respondeu com um direto “vai morar lá”, mas deixemos este de lado. Destaco dois comentários mais substanciosos e que revelam uma forma de compreensão do mundo atual e seus dilemas:

“Olha, até pouco tempo tinha raiva dos EUA pela sua indústria cultural, sua arrogância, sua intromissão em assuntos de outras nações, etc. Entretanto, depois de conhecer o país e seu povo, mudei completamente minha concepção. Os caras são os “caras” porque trabalham duro, estudam bastante e são muito educados e politizados. O fazem mundo afora é conhecido na natureza como a lei do mais forte. Queria eu morar num país que dita as regras aos outros e ninguém tira farinha. Além disso, em pleno século XXI, os norte coreanos são tratados como um rebanho e não como cidadãos livres. Abaixo o apoio ao totalitarismo, como ocorre por lá!!!”

Um outro, mais duro, afirma:

“kkkkkkkkkkkkkkkkk . País sitiado? por quem? Paranoicos, malucos mesmo, todos eles, o “estadista mirim”, o “professor” que assina esta bobagem. Veja bem, a lição de história pode até ser boa, talvez o que o trai sejam as convicções políticas… o tempo passou e eles não perceberam… O Presidente dos Estados Unidos, já é Obama, viu pessoal…Ameaça do Ocidente? Para quem? Despertem deste “sono” louco, sejam felizes, ou não, mas, deixem de loucura! Vivemos num mundo diferente do das “cartilhas” que vocês estudam!!!”.

Não vou entrar no mérito, não guardo nenhuma simpatia pela forma política norte coreana, mas em seu núcleo central o texto do companheiro Lincoln, apenas afirma que existe um espaço de soberania dos Estados nacionais e que estes tem direito de se defender, o que o leva a constatação que não são eles que provocam e atacam, mas ao contrário, estão sendo provocados por “exercícios militares” que partem dos EUA. Como explicar tal reação?

Não vai aqui nenhuma consideração aos comentadores, eles tem direito de expressar sua opinião, concordemos ou não. Um blog tem de tudo e tais comentários o deixam ainda mais interessante. O que nos preocupa é que ele revela, e isto é uma virtude, um elemento do senso comum que indica uma preocupante guinada conservadora, mesmo em relação a valores mais elementares, e isso em um leitor de um blog de uma editora com uma linha claramente de esquerda em um pais que está há dez anos “acumulando forças”.

Podemos ver este fenômeno como um resquício ou uma exceção em um senso comum que tende a ser mais progressista. Infelizmente eu acredito que não. A forma do senso comum é resultado de toda a história da formação social, sua resultante cultural, a permanência das relações sociais de produção burguesas, mas também do processo político mais recente que como toda práxis pode superar ou reforçar o existente. No caso reforçou.

Lembrando ainda Przeworski, sabemos que a chamada organização das massas precisa ser compreendida de forma mais profunda. Não há uma relação direta entre organização e ação, é possível organizar para apassivar. Diz o autor:

“Os líderes tornam-se representantes. Massas representadas por lideres – eis o modo de organização da classe trabalhadora no seio das instituições capitalistas. Dessa maneira, a participação desmobiliza as massas” (Przeworski, 1989: 27).

É triste.


***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.