Os limites do neodesenvolvimentismo

13.10.21_Os limites do neodesenvolvimentismo.jpgPor Giovanni Alves.

Para além das manifestações de junho de 2013, o que temos hoje (e que irá prosseguir) é a explicitação dos limites do padrão de desenvolvimento capitalista implantado no país desde 2002 sob a direção da frente política do neodesenvolvimentismo sob inspiração do lulismo. As manifestações sociais expõem uma demanda reprimida de necessidades sociais e carecimentos radicais candentes do proletariado urbano brasileiro – incluso camadas médias assalariadas. Na verdade, o sistema democrático-politico da ordem burguesa no Brasil (e nos países capitalistas mais desenvolvidos) está paralisado há tempos em sua capacidade de dar respostas efetivas às demandas coletivas por reformas sociais.

O tema dos transportes públicos foi o gatilho em junho deste ano dos protestos massivos de rua; e o tema da educação pública municipal foi o disparador das manifestações no Rio de Janeiro. Entretanto, nos “dez anos que abalaram o Brasil” – título do livro de João Sicsú – não faltam insatisfações sociais reprimidas quando discutimos transporte publico, educação, saúde e qualidade de vida nas metrópoles brasileiras. Eis os limites do neodesenvolvimentismo.

Indiscutivelmente, o Brasil melhorou seus indicadores sociais, principalmente aqueles que dizem respeito às camadas pobres do proletariado brasileiro atendidas pelos programas sociais do governo Lula e Dilma. Como mostram indicadores medidos do Pnad/IBGE, de 2002 a 2013 diminuiu a desigualdade social com a redução da pobreza extrema, aumentou o consumo dos pobres com o crescimento da posse de bens duráveis e o acesso a serviços públicos essenciais. Nesse período, ocorreu a redução do subproletariado pobre e o surgimento de uma “nova classe trabalhadora”, isto é, trabalhadores assalariados de baixa renda com carteira assinada, identificado erroneamente por alguns como “nova classe média” (Marcelo Nery) ou “batalhadores brasileiros” (Jessé de Souza). Enfim, ocorreram mudanças de renda e consumo nada desprezíveis para as camadas pobres do proletariado que alteraram a estratificação social, mas não a estrutura de classes no país.

Entretanto, como temos salientado nos artigos anteriores, as camadas médias do proletariado urbano, principalmente o precariado (a camada social de jovens trabalhadores urbanos e estudantes altamente escolarizados, mas inseridos em relações de trabalho e vida precários), sentem-se órfãs do neodesenvolvimentismo. No caso do precariado, encontram-se imersos em frustrações de expectativas profissionais e carecimentos radicais insatisfeitos pela ordem burguesa; e no caso dos trabalhadores assalariados médios, apesar do aumento da sua renda nos últimos dez anos de neodesenvolvimentismo, aumentaram também, ao mesmo tempo, a carga tributária direta nos seus rendimentos e os gastos com serviços privados de péssima qualidade tendo em vista o sucateamento dos serviços públicos (é o caso, por exemplo, da educação e saúde pública nas grandes cidades).

Apesar da redução do desemprego e aumento da formalização no mercado de trabalho, preserva-se no Brasil neodesenvolvimentista, profundos traços de precariedade salarial historicamente estrutural no país, como, por exemplo, as altas taxas de rotatividade e crescimento das terceirizações (por exemplo, em 2000, o Brasil tinha cerca de 3 milhões de trabalhadores terceirizados; em 2013, tem cerca de 15 milhões e, segundo estimativas, em 2020, terá cerca de 20 milhões).

Ao mesmo tempo, nos últimos dez anos, pelo menos, as camadas médias dos trabalhadores assalariados urbanos, empregados nos locais de trabalho reestruturados, com a disseminação do espírito do toyotismo nas práticas de gestão laboral, tiveram o aumento da carga de trabalho e incremento da pressão para cumprimento de metas de produtividade nas empresas privadas ou públicas (o que explica, por exemplo o crescimento, no período, das denúncias de assédio moral no trabalho). Com o choque de capitalismo flexível ocorrido nos últimos dez anos, o modo de vida just-in-time disseminou-se nas grandes cidades. Instaura-se o que consideramos como sendo uma nova dimensão da precarização do trabalho no Brasil: a precarização existencial, traço sociometabólico da era do neodesenvovimentismo. É o que explica, por exemplo, o crescimento das ocorrências de adoecimentos laborais, principalmente transtornos psicológicos e doenças psicossomáticas (como a LER-DORT), muitos delas subnotificadas e invisíveis socialmente. Os adoecimentos mentais – burn-out, síndrome do pânico e depressão, por exemplo – possuem um nexo causal com o complexo da precarização existencial ocasionada pela forma de gestão toyotista e modo de vida just-in-time que promove o fenômeno da “vida reduzida” (como salientamos no artigo anterior). Enfim, o mundo do trabalho hoje – com dez anos de surto de modernização neodesenvolvimentista – é um mundo do trabalho adoecido.

É esta camada social média do proletariado urbano brasileiro, órfã (e vítima) do neodesenvolcvimentismo e choque de capitalsimo flexível, que hoje apoia e participa das manifestações sociais de massa, exigindo, por exemplo, educação, saúde e transporte publico de qualidade e expondo irremediavelmente os limites do neodesenvolvimentismo. Mas perguntemos: em que medida estas demandas sociais reprimidas do proletariado urbano no Brasil expõem os limites do neodesenvolvimentismo? Nossa hipótese é de que são as camadas médias do proletariado brasileiro que expõem os limites do neodesenvolvimentismo quando mostram, por exemplo, a incapacidade do Estado brasileiro hoje em investir muito mais nas áreas sociais. Este é o verdadeiro limite do neodesenvolvimentismo.

Antes de prosseguirmos tratando dos limites do neodesenvolvimentismo é importante esclarecermos o significado de uma série de conceitos capazes de organizar nossa percepção e entendimento crítico do fenômeno do neodesenvolvimentismo no Brasil.

Primeiro, como salientamos nos últimos artigos, partimos da hipótese de que neodesenvolvimetismo não é neoliberalismo. Na verdade, neodesenvolvimentismo diz respeito a outro padrão de desenvolvimento capitalista no interior da temporalidade histórica do capitalismo global ou bloco histórico do mercado mundial sob o regime de acumulação flexível predominantemente financeirizado. Na verdade, o neodesenvolvimentismo no Brasil nasce da crise do modo de desenvolvimento neoliberal no Brasil nos primórdios da década de 2000, embora ele próprio – o neodesenvolvimentismo – não consiga romper o bloco histórico do capitalismo neoliberal que deu origem a nova forma de Estado politico do capital (Estado neoliberal), desenvolvida nos últimos trinta anos, tanto no centro quanto na periferia capitalista desenvolvida. Nesse caso, o neodesenvolvimentismo no Brasil é uma variante do desenvolvimento capitalista possível na periferia capitalista inserida na macroestrutura do sistema do capital no plano mundial.

No Brasil, na década de 1990, a frente politica do neoliberalismo vitoriosa nas eleições de 1989 (com Fernando Collor de Mello) e depois, em 1993 (com Fernando Henrique Cardoso), adequou o capitalismo brasileiro à nova ordem burguesa global, constituindo os pilares do Estado neoliberal no Brasil, o Estado politico do capital adequado à nova temporalidade histórica do capitalismo global ou bloco histórico da acumulação flexível de cariz predominantemente financerizado (a frente política do neodesenvolvimentismo ao assumir o governo em 2003, incapaz de alterar a forma do Estado neoliberal, organizou seu plano de governo no interior da nova forma estatal construída na década anterior).

Na década neoliberal no Brasil, ocorreu um terremoto social que alterou não apenas a morfologia social do trabalho no Brasil, mas também o perfil da grande burguesia brasileira. Nesse período, no bojo da adequação à ordem burguesa global, consolidou-se um novo bloco de poder no capitalismo brasileiro, a partir do qual se articulou inicialmente a frente politica do neoliberalismo, com os partidos PSDB-PFL, que durante quase dez anos, governaram o Brasil (1994-2002).

É importante esclarecer que bloco de poder não se confunde com frente politica tendo em vista que frente politica é a articulação de classes, camadas, frações e categorias sociais de classe, que apoiam, por exemplo, um governo e sua estratégia politica.

Por exemplo, o bloco de poder neoliberal é o bloco das classes dominantes (com suas camadas, frações e categorias sociais) que mantém o poder do capital nas condições do capitalismo global. A espinha dorsal do novo bloco de poder no Brasil constituído na década neoliberal é constituída pelo capital financeiro que possui vínculos orgânicos, por exemplo, com o agronegócio, empreiteiras, grandes corporações industriais, grandes empresas de distribuição e serviços de telecomunicações, inclusive fundos de pensões sob gestão estatal. Deste modo, o bloco de poder neoliberal constitui uma “oligarquia financeira” que encontra no aparato do Estado neoliberal, um veículo privilegiado de articulação sistêmica (a frente política do neodesenvolvimentismo, que é governo, não conseguiu romper com o poder dos grandes grupos financeiros).

Por outro lado, um governo é constituído por uma frente politica que articula tanto camadas, frações e categorias da classe dominante, que compõem parcelas do bloco de poder e garantem a sustentação do governo no interior do Estado político do capital; e camadas, frações e categoriais sociais da classe dominada e classes intermediárias que, no caso do Estado político do capital, atuam como classe-apoio. Uma frente política, por exemplo, não se reduz efetivamente às representações politicas no Congresso nacional (câmara dos deputados e senado), mas se compõem também por apoios (hegemonia) no poder judiciário, meios de comunicação de massa, forças armadas e sociedade civil organizada enquanto instancias compositivas do bloco de poder do capital. É a composição com parcelas do bloco de poder e o apoio e interpelação de outras classes e camadas sociais – inclusive classes subalternas – que dá o tônus da governabilidade e hegemonia politica na sociedade burguesa.

Por exemplo, um governo que rompesse efetivamente com o bloco de poder burguês, para ter sustentação e governabilidade, teria que basear-se numa frente politica vinculada a outro bloco de poder (por exemplo, um bloco de poder popular). Não apenas ter maioria na representação politica no Congresso Nacional (sociedade política), mas ter apoios (hegemonia) na sociedade civil organizada. A frente politica seria tão-somente a cristalização do processo de hegemonia politica e cultural da classe do trabalho organizado nas cidades e no campo. Este bloco de poder popular implicaria a democratização radical da sociedade, com a constituição de conselhos sociais e populares, implodindo, deste modo, por dentro, o Estado político centralizado e burocrático do capital. Estamos no plano radical da utopia social, tendo em vista que não existem – nem de longe – possibilidades de um bloco de poder popular no Brasil. O que significa que, na perspectiva do realismo político, a sustentação e a governabilidade hic et nunc de uma frente política com pretensões de reforma social, implicaria irremediavelmente, num primeiro momento, articulação – mesmo que contraditória – com determinadas camadas, frações e categoriais do bloco de poder burguês. That’s the question.

Não nos interessa discutir os problemas da revolução social no Brasil, mas sim entender o que consideramos como sendo o neodesenvolvimentismo. Portanto, para nós, neodesenvolvimentismo é um modo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil operado por um determinada frente politica inspirada por um estratégia de governo (o lulismo). A frente politica do neodesenvolvimentismo visa operar um capitalismo periférico com pretensões social-democrata capaz de redistribuir renda e reduzir a desigualdade social no país. Esta frente política, embora tenha vínculos orgânicos com camadas, frações e categoriais sociais do bloco de poder neoliberal (burguesia produtiva interna e fundos de pensões articulados com o capital financeiro), se distingue efetivamente da frente politica do neoliberalismo, lideradas pelo PSDB-PFL, vinculada organicamente com a burguesia parasitária-especulativa.

Apesar disso, na medida em que opera no interior do Estado politico do capital originado do bloco histórico neoliberal no plano do mercado mundial sob a dominância do regime de acumulação flexível predominantemente financeirizado, a frente politica do neodesenvolvimentismo mantém, mais ou menos, linhas de continuidade com a construção macroeconômica anterior (superávit primário alto, câmbio flexível e o sistema de metas de inflação), o que dá a efetiva ilusão de que nada mudou e que os novos governos “pós-neoliberais” são meros governos neoliberais. Entretanto, não apreender traços significativos de descontinuidade na política do neodesenvolvimentismo lulista em comparação com a estratégia política da frente do neoliberalismo da década de 1990, significa perder a dimensão da profunda contradição não-antagônica no seio do próprio bloco de poder do capital instaurada pelo novo modo de desenvolvimento capitalista no Brasil de feição neodesenvolvimentista.

Por outro lado, o neodesenvolvimentismo não é apenas um novo modo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, mas uma frente politica inspirada por uma estratégia politica ou estrategia de governo denominada lulismo. Deste modo, é importante distinguir neodesenvolvimentismo de lulismo.

O primeiro – neodesenvolvimentismo – diz respeito a um padrão de desenvolvimento da ordem capitalista no País, operada por um frente politica baseada em camadas, frações e categoriais do bloco de poder do capital (a burguesia interna das grandes empresas, agronegócio, empreiteiras e fundos de pensão) com apoio de camadas, frações e categorias sociais do proletariado brasileiro (com destaque para a multidão do subproletariado pobre e proletariado de baixa renda, embora tenha apoio em parcelas organizadas do proletariado industrial do campo e da cidade).

O segundo – o lulismo – diz respeito a uma estratégia de governo ou estrategia politica que caracteriza esta frente politica que nasceu em 2003. O lulismo – tal como interpretamos as idéias desenvolvidas por André Singer no livro Os sentidos do lulismo – compõe-se hoje por três elementos básicos, isto é, o lulismo é uma estratégia de governo da nova ordem burguesa no Brasil que se caracteriza por (1) interpelar o apoio do subproletariado pobres e das camadas de baixa renda do proletariado brasileiro, das cidades e do campo por meio de programas sociais (Bolsa-Família, Minha Casa Minha Vida, por exemplo) e valorização do salário-minimo – 70%, de 2002 a 2012; (2) por adotar a postura de não-confrontar o capital como bloco de poder (o que explica o viés bonapartista de Lula e Dilma, agindo aparentemente acima das classes sociais antagônicas, extirpando, inclusive, do horizonte do discurso político, o léxico do antagonismo de classe e cultivando como alma mater, a conciliação social como valor fundamental, com o mote “Lula Paz e Amor” ou ainda “Brasil País de Todos”); (3) e, por fim, por adotar um reformismo fraco baseado em politicas de combate a pobreza, incentivo ao consumo visando mercado interno e programas sociais voltados para a redução da desigualdade social. Na verdade, o reformismo fraco oculta a incapacidade política da frente do neodesenvolvimentismo de operar reformas sociais que incomodem os interesses de camadas, frações e categoriais sociais do bloco de poder neoliberal. Eis os limites do neodesenvolvimentismo.

Na medida em que o lulismo entrou em crise, tendo em vista as novas contradições sociais que surgem no desenvolvimento da conjuntura da luta de classes no Brasil, abriu-se um novo campo de contingencia politica: exige-se, por exemplo, de Luis Inácio “Lula” da Silva, criador (e criatura) do lulismo, hábil negociador sindical e personalidade politica carismática, a notável capacidade de auto-reforma do espírito lulista, capaz de preservar o espólio do novo gestor da ordem burguesa no Brasil – o Partido dos Trabalhadores. De fato, a crise do lulismo abala a capacidade de governabilidade da frente politica do neodesenvolvimentismo, expondo os limites do neodesenvolvimentismo e exigindo mudanças de rumo da condução da ordem burguesa do Brasil.

Na verdade, os limites do neodesenvolvimentismo expõem a crise do lulismo como estratégia política, não no sentido de que a frente politica do neodesenvolvimentismo tenha perdido o apoio do subproletariado pobre ou do proletariado de baixa renda – as politicas sociais adotadas pela frente politica do neodesenvolvimentismo são indiscutivelmente positivas na perspectiva da consciência (e dos interesses) de classe contingente do proletariado brasileiro. Consideramos que a crise do lulismo ocorre no sentido do governo Dilma, por exemplo, ser interpelado, mais do que nunca, por outras camadas do proletariado brasileiro – as camadas médias assalariadas e principalmente o precariado – que se manifestam hoje nas ruas exigindo mudanças no tônus do reformismo fraco.

O lulismo hoje é intimado a adotar um reformismo forte, o que significa, por conseguinte, confrontar o núcleo do bloco de poder do capital e seus aliados sociais: o capital financeiro. Portanto, os limites do neodesenvovimentismo põem-se com a exigencia de reformas sociais que signifique – pelo menos – mais investimentos sociais nos serviços públicos de qualidade (por exemplo, educação, saúde e transporte público). Impõe-se, deste modo, para construir uma nova forma do Estado brasileiro, uma frente política capaz de ir além do Estado neoliberal; o que significa implementar, pelo menos, duas reformas sociais preliminares: primeiro, reforma política que democratize o parlamento brasileiro, resgatando o valor da representação politica corrompida pelo particularismo dos interesses oligárquicos; e uma reforma tributária capaz de implantar efetivamente a justiça social no País (a taxação das grandes fortunas e a tributação do capital parasitário-especulativo). Na verdade, trata-se de operações politicas de alta impacto que o lulismo não conseguiu fazer – e nem conseguirá faze-lo – nos dez anos de neodesenvolvimentismo. Elas são pre-condições politicas para deixar de lado o reformismo fraco e alterar a face do Estado neoliberal capturado pela divida pública.

Ao dizermos limites do neodesenvolvimentismo, não se trata de afirmar que o neodesenvolvimentismo como novo modo de desenvolvimento capitalista se esgotou irremediavelmente. Enquanto não se constituir uma nova frente política capaz de ir além dos limites do neodesenvolvimentismo, o novo padrão de desenvolvimento capitalista brasileiro herdado do lulismo, persistirá como um cadáver insepulto, sendo conduzido (e administrado) inclusive por uma nova frente política (de direita) hoje oposicionista que almeja assumir o espólio dos governos do PT.

O que se discute não é a capacidade de desenvolvimento do capitalismo no Brasil (o neodesenvolvimentismo), mas a redução (ou ampliação) da desigualdade social e precarização do trabalho em suas dimensões cruciais. Pode-se inclusive admitir um neodesenvolvimentismo de direita capaz de fazer o Brasil crescer, administrando a barbárie social nos limites da farsa democrática e do Estado policial vigente.

Os limites do neodesenvolvimentismo são, deste modo, os próprios limites do Estado brasileiro como Estado neoliberal de feição oligárquico-financeira – enfim, um Estado capturado pelo capital especulativo-parasitário. A estratégia politica do lulismo – talvez justificada pela correlação de forças desfavorável na sociedade civil e sociedade política – optou pelo caminho de menor resistência do bloco de poder do capital. Por exemplo, mais investimentos sociais na educação, saúde e transporte público com qualidade, são investimentos públicos bastante caros que exigem mais de um Estado brasileiro que tem hoje cerca de 42% do orçamento publico comprometido com o pagamento da divida publica (por exemplo, só em 2014 mais de 1 trilhão serão pagos a este título).

É a divida publica brasileira que expõem o circulo de ferro do capital financeiro que aprisiona o país. PT e PSDB, partidos-gestores do condomínio da ordem burguesa no Brasil, nunca assumiram (nem poderia assumir), a tarefa da auditoria soberana da divida publica, tendo em vista seus vínculos orgânicos com o bloco do poder neoliberal. Ao mesmo tempo, a maioria do Congresso Nacional hoje está cativa da lógica financeira que mantem, sob a espada de Damocles da Lei de Responsabilidade Fiscal, os limites do Estado brasileiro em atender as necessidades sociais ampliadas. Na verdade, parlamento, poder judiciário, forças armadas e grande mídia e, last but not least, igreja católica e igrejas evangélicas, são trincheiras da ordem burguesa desigualitária que impedem reformas sociais estruturais de maior espectro. Por outro lado, obviamente, mesmo que a oposição de direita ganhe, ela não tem condições (e vontade) política em romper com esta lógica do capital financeiro que determina a própria lógica da governabilidade no país que é hoje o elo mais forte do imperialismo na América Latina.

Finalmente, podemos concluir dizendo que a função do cientista social é ir além da imediaticidade histórica, embora não deva despreza-la em sua riqueza e diversidade contingente. Muitas análises das manifestações de junho de 2013 ficaram no impressionismo jornalistico sem atentar para as causalidades estruturais e estruturantes da nova configuração das classes sociais no Brasil, com suas camadas, frações e categorias sociais surgidas do movimento da reorganização do capitalismo no Brasil dos últimos dez anos. Temos salientado que o Brasil sofreu nos últimos vinte anos de neoliberalismo e neodesenvolvimentismo um terremoto social que alterou a configuração das classes, camadas, frações e categoriais sociais nas metrópoles brasileiras. A inquietação social das ruas possui uma base material profunda de classe – é preciso salientar isso. O que se manifesta nas ruas precisa ser melhor decifrado nas suas raízes sociológicas e a raiz está na nova configuração da estrutura de classes e suas camadas socais (a nova classe trabalhadora e o precariado).

Com o neodesenvolvimentismo alterou-se certas dinâmicas – o subproletarado ascendente transformou-se em nova classe trabalhadora e a camada social média do proletariado urbano tornou-se um imenso e inquieto precariado frustrado diante de um Estado brasileiro limitado em sua capacidade de dar respostas estratégicas às demandas sociais reprimidas. Ao mesmo tempo, temos um grande empresariado dependente do submundo financeiro que comanda o circuito da governabilidade, cercando situação e oposição, neutralizadas em sua capacidade de reforma social estrutural.

Com os protestos de ruas, as organizações tradicionais – partidos e sindicatos – perceberam a sua crise orgânica, incapazes de dar a direção politica e ideológica das manifestações sociais. O Brasil vive há muito tempo uma crise de representação politica que se exacerbou nas condições de explicitação dos limites irremediáveis do neodesenvolvimentismo como crise do capitalismo periférico. Nesse caso, o vazio organizacional e politico é ocupado pela grande midia como força sinistra da ordem burguesa, que manipula e pauta os movimentos sociais em prol dos interesses das forças oligarquicas do bloco de poder neoliberal. No calor dos protestos de rua e de exposição dos limites do neodesenvolvimnetismo abriu-se um cenário de risco para a democracia politica paralisada por sua ineficácia de representação e esvaziamento de legitimidade devido o apodrecimento do Estado burgues no Brasil. Enfim, o que pode parecer para os incautos com déficit de percepção dialética e perspicácia politica mais apurada um cenário de revolução social, é mais a ante-sala do fascismo social sob o manto da democracia amesquinhada que reitera a perversidade da ordem burguesa desigualitária no Brasil.

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Leia tembém A revolta do precariado no BrasilO que é precariado?, e a série “Neodesenvolvimentismo e precarização do trabalho no Brasilde Giovanni Alves, no Blog da Boitempo.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura. O autor conta com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, à venda em ebook por apenas R$5 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, dentre outras. Giovanni Alves conta também com o artigo “Trabalhadores precários: o exemplo emblemático de Portugal”, escrito com Dora Fonseca, publicado no Dossiê “Nova era da precarização do trabalho?” da revista Margem Esquerda 18, já à venda em ebook na Gato Sabido.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Depois da tempestade

13.10.18_Roniwalter Jatobá_Depois da tempestadePor Roniwalter Jatobá.

LEILA

O avião girou para o lado direito como se fosse riscar a asa direita sobre o azul do mar, mas depois tomou o rumo certo da cabeceira da pista, preparando-se para descer no aeroporto de Salvador. Era uma manhã quente e, do alto, o homem avista com nitidez terrenos desabitados e dunas de areias brancas próximos à área de pouso.

Sentado numa poltrona próxima à cabine, ele vê ainda avisos iluminados para não fumar e apertar os cintos, escuta pneus em atrito no asfalto, a força dos reversos das turbinas – termina assim o tranquilo voo São Paulo-Salvador.

Ele traz apenas uma bolsa de mão e, dentro, uma troca completa de roupa branca, afinal a estada ali era de apenas uma noite, a passagem do ano de 1971.

O homem pergunta a si mesmo, o que vim fazer num lugar tão longe para, numa viagem corrida, voltar no dia seguinte?

Ele mesmo responde bem devagar, enquanto percorre os corredores envidraçados, o amor.

Conheceu Leila no final de 1969. Na primeira vez que a viu ela estava sentada numa velha canoa de pescador na praia da Boa Viagem, numa tarde de pôr-do-sol luminoso que caía pelos lados da Ilha de Itaparica. Os lábios grossos realçavam a pele bronzeada de sol. Vestia um maiô azul com pintinhas vermelhas, que ampliava a robustez dos seios.

Na época, ele servia o exército no Forte de São Joaquim, de frente para a antiga Feira de Água de Meninos, bem ali perto, e ia àquela praia nos domingos de folga. Trajava um calção de banho meio desbotado e se aproximou dela com suave timidez.

Leila morava numa travessa da Rua Roma, perto da praia. A partir daí, quando folgava no quartel, ela era uma companhia agradável e festeira.

Por precisão, ele quis fazer a vida em São Paulo. A despedida dos dois foi numa noite já bem alta, na frente da casa de Leila, um mês depois das festas de fim de ano. Na rua morta de gente e iluminada por uma lua crescente de início de janeiro, prometeram se encontrar dali a um ano, na virada de outro janeiro, naquele mesmo lugar.

Ele caminha agora pelo aeroporto de Salvador e pensa que quando se é jovem e apaixonado fazemos as mais absurdas promessas e, mais absurdo ainda, quase sempre as cumprimos.

Ele vai de ônibus para o centro, até o Elevador Lacerda. Na Cidade Baixa, segue noutra condução rumo ao bairro da Ribeira. Quando chega em frente à casa da Rua Roma, às onze horas do dia 31 de dezembro de 1970, Leila estava à sua espera.

Ele voltou a São Paulo no começo da tarde do dia seguinte. Nunca mais viu Leila. A distância, dizem, é muitas vezes inimiga do amor. Anos depois, um amigo lhe contou que viu Leila uma vez no barco que faz a travessia para a Ilha. Estava bem mais gorda e acompanhada de três crianças.

Era uma escadinha, disse brincando, e as crianças pareciam pertencer à sua imensa prole.

Disse ainda que Leila o cumprimentou de longe com um breve aceno de cabeça e, depois, ela e a criançada se perderam no meio da multidão.

JANICE

Ele era um faz-tudo. Aprendeu no mar a fazer o badejo ou a corvina assados na brasa. Viera de uma cidadezinha do litoral do Ceará, onde ainda vivia a família. O pai era pescador, a mãe cuidava da casa e de uma turma de filhos. Chegou de ônibus e desceu no Brás. Seu primeiro emprego foi na padaria do bairro, serviço que nunca tinha feito antes em sua terra. Não ganhava muito, mas gostava do lugar quentinho nas noites frias na cidade.

Anos depois, seus pratos simples, preparados com apuro num boteco do Itaim Bibi, eram disputados entre meio‑dia e duas da tarde por esfomeados peões da construção civil e até mesmo metidos executivos engravatados. Se tivesse um pouco de sorte, dividiria a sociedade com o dono do boteco e, em pouco tempo, talvez pudesse figurar entre os donos de restaurante de origem nordestina que começaram como lavadores de pratos e se deram bem na metrópole.

Ele conheceu Janice numa confeitaria. Seis meses depois, entre risos e beijos, casaram‑se na igrejinha localizada ao lado da Avenida Santo Amaro.

A mãe da moça foi a grande ausência na cerimônia.

A gente já é pobre e você vai se casar com um rapaz mais pobre ainda?, disse à filha na época apaixonada.

Veio a resposta inevitável, ele é trabalhador.

Sem dinheiro ninguém vale nada hoje, afirmou a mãe com suave crueldade, casar com gente pobre hoje não é bom negócio.

Não era. Janice o deixou numa véspera de Ano-Novo. Arrumou suas coisas e sumiu no mundo.

Ele voltou ao trabalho no Itaim Bibi cada vez mais dedicado à profissão. Tomou gosto pela gastronomia. Sabia que tinha outro futuro. Leu até Michel Onfray. Nunca comentou das dificuldades de viver sob o mesmo teto com uma sogra que vivia cobrando para que ele fosse rico.

Num fim de tarde, ele encontrou um amigo na Rua Joaquim Floriano. Na esquina com a Bandeira Paulista, o amigo perguntou por Janice. Ele não respondeu e, sem olhar para trás, atravessou cauteloso a via tomada de trânsito. Deu para entender que Janice era, realmente, coisa do passado.

LUIZA

De repente, os dois se deixaram de ver.

Ela, atarefada pelo trabalho, chegava sempre tarde da noite no apartamento alugado. Ouvia música na sala em volume bem baixo, ora buscava com raiva os destroços do silêncio.

Ele, também cheio de compromissos, esquecia ou queria esquecer de tudo e tardava na hora de chegar em casa.

Também nos fins de semana, os dois não mais se viam.

Ela ficava no apartamento e, quando cansava de ler ou ficar em frente à televisão, cuidava das plantas medicinais que cultivava num vaso de madeira na sacada do apartamento.

Ele pegava o carro bem cedo e, nas manhãs de sábado, dirigia pela rodovia Ayrton Senna, depois Dutra, até o centro de Jacareí. Sentava-se à mesa do restaurante Beira-Rio, ao lado do Paraíba do Sul, e ficava observando a paisagem já urbana, mas tranquilizadora pela presença do curso d’água. Embora já mostrando sinais de poluição – teria peixes? –, o rio possuía uma vegetação rasteira de moitas de capim e flores, onde às vezes surgiam filhotes de capivaras brincalhonas, mas arredias com a presença humana. Corriam pela beirada do rio. Depois, apareciam mais à frente, ainda na margem, para tomar sol. 

Ele voltava já de madrugada e dormia até o começo da tarde de domingo. Ela havia tomado o rumo da casa materna e, na segunda-feira, ia direto para o trabalho.

Toda manhã, fazendo sol ou chuva, ele acompanhava pelas marginais a trajetória do rio Tietê e, depois, do Pinheiros. Embora com águas tão sujas quanto as do Tietê, o Pinheiros sempre tinha sinais de vida. Ele sabia que à sombra de uma torre de energia elétrica na Usina da Traição viviam centenas de preás, espécies de mamíferos roedores da família dos cavídeos, conforme aprendeu na enciclopédia. Antes, habitavam em tocas do outro lado do rio. Migraram todos, buscando o sossego da Usina. No outro lado, os meninos de uma antiga favela os caçavam para comer.

Nesse tempo, ele viu uma capivara, também da família dos preás, e considerada o maior dos roedores atuais, enfrentando as águas poluídas do Tietê. Depois, o animal descansou nas proximidades da ponte do Piqueri. Fugidia, mergulhou no rio em direção ao Pinheiros. O jornal divulgou na manhã seguinte que um casal de capivaras e quatro filhotes viviam às margens do rio na altura da ponte Cidade Jardim, mas seu habitat natural era no Oeste paulista, onde costumavam multiplicar-se nas barrancas dos rios.

Ao ler a notícia, ele se perguntou o que há muito vinha à mente, o que buscam em São Paulo?, fogem em busca de melhores dias?

Sozinho, sentado à mesa do café da ampla cozinha do apartamento, olhar fixo na página impressa do diário, ele desconhece o nível de inteligência das capivaras, mas o que vem em seu pensamento são algumas mulheres que se foram depois da tempestade.

Agora, pensa em Luiza, já separados há anos. Ele tem apenas uma vaga ideia de que ela mora na Vila Madalena, junto com a mãe, e aos sábados frequenta a feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, onde compra bugigangas e coleciona réplicas de cavalos-marinhos.

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

É Brasil…

13.10.17_Flávio Aguiar_Eh BrasilPor Flávio Aguiar.

Depois da Feira do Livro de Frankfurt, eu e a Zinka tomamos o avião de volta para Berlim, no domingo, final de tarde.

Por mais exíguo que seja o assento (e é), por mais parco que seja o serviço de bordo (e é), sempre é uma oportunidade para relaxar. Lamentei até que o voo fosse tão curto: 50 minutos. Porque depois viria a azáfama, o corre-corre de pegar mala, arrastá-las pelos corredores, tomar condução, descer no Zoo (antiga estação central da ex-Berlim Ocidental), arrastar de novo as malas, tomar o metrô, descer, arrastar de novo as malas, chegar ao edifício, subir ao primeiro andar…

Nos primeiros instantes de meu relaxamento, lembrei-me de alguns atos típicos da nova brasilidade que estamos vivendo, desde que setores da velha classe média e black bocs pirados resolveram desencadear uma campanha anti-governo brasileiro, com ânimos exacerbados por toda parte e por todos os lados envolvidos.

Há um certo frenesi de soltar a franga, convenhamos, em qualquer lugar e de qualquer jeito. Fala-se tudo o que se pensa e sobretudo o que não foi pensado, mas veio aos borbotões para fora – sempre com acolhida na velha mídia, desde que seja contra o governo. E também em boa parte da mídia internacional, onde grassa um desejo obsessivo de “desconstruir” o Brasil, uma vez que ele se tornou um pulgão – talvez um enorme percevejo, quem sabe uma mutuca das boas, na camisola neo-liberal que, esfrangalhada, teima em se esticar para ocultar a crise de teoria e práxis que está vivendo.

Duas reações da brasilidade me vieram à tona, ambas na sessão de abertura. A primeira foi ao final do discurso do Luiz Ruffatto: um discurso duro, expondo as mazelas seculares da nossa terra, com um pequenino parágrafo de duas frases mais ou menos, dizendo que “nos últimos dez anos as coisas tinham melhorado”. Ao fim, em meio aos ensurdecedores aplausos de pé, um prestigioso intelectual brasileiro presente levantou-se e gritou que era melhor o Ruffatto “mudar-se do país”. Tudo bem: apesar da justiça do discurso dele, achei-o um pouco exagerado e algo complicado para o momento, de abertura da feira, devido ao exagero. Mas não é por isso que vamos reeditar um “Brasil, ame-o ou deixe-o”, não é mesmo?

A segunda ocasião veio ao final do discurso do vice-presidente Michel Temer, que fez muitos elogios ao Brasil do Bolsa Família, do aniversário da Constituição Cidadã (como a velha mídia calcou depreciativamente este nome dado por Ulysses Guimarães!), etc., com exageros de vice-presidente, é claro. Na segunda parte do discurso o vice-presidente (haverá aí algum complexo de vice, dado exemplos anteriores, tipo “Marimbondos de fogo”?) evocou suas primeiras experiências de leitura, atravessando pelo campo 6 km a pé, ainda menino, para ir até a Biblioteca Pública mais próxima, e seu primeiro livro de poemas, recentemente editado. Ao final, no assomo de não-sei-o-quê, um grupo de umas 20 pessoas brasileiras, situadas à minha direita, no fundo, ensaiou uma vaia, que sumiu debaixo dos aplausos, mesmo que protocolares se assim o fosse. Os alemães não devem ter entendido nada. A velha mídia brasileira também não entendeu, mas captou o instante e as manchetes lascaram: “Temer vaiado em Frankfurt”, ou algo assim. Parecia que a cidade inteira estava vaiando o vice, quando, na verdade, o que acontencera fora um gesto de deseducação por parte de uma pequeníssima parcela das mais ou menos duas mil pessoas que lotavam o auditório (cerca de 1%, ou menos ainda, se levarmos em conta o pessoal do lado de fora, que não entrara).

Ficava eu pensando, de olhos fechados, nestes sintomas de desarrazoamento espiritual que vem assaltando brasileiros em momento de rápidas mudanças sociais, e como isto afirma velho hábito de muitos viajantes de falar mal do Brasil, ou vaiá-lo simbolicamente, quando no exterior, achando que isto agrada europeu, quando assaltou-me a apreensão da conversa no banco de trás, para que a Zinka me chamou a atenção.

Eram duas vozes, uma masculina, que falava mais, e outra feminina, que concordava com tudo. Visivelmente, ou melhor, auditivamente eram marido e mulher, que viajavam e comentavam as benesses da viagem – logo apreendi – à “civilização”, para longe da “nossa barbárie”…

Espremido na poltrona menor que os sete palmos medidos do poema do João Cabral, ouvi a voz masculina dizer: “como o voo aqui é melhor do que o da… (a companhia nacional com que tinham chegado a Frankfurt)! O serviço de bordo é muito melhor!”.

Aí veio a informação principal: “até o gelo daqui tem gosto melhor do que no Brasil!”.

E a voz feminina concordava.

Só falta elogiarem o café, eu pensei.

Daí a conversa concentrou-se abaixo do avião.

“Olha como tem verde!”, disse a máscula voz. “Muito mais do que no Brasil!” (Pobre Floresta Amazônica, eu pensei). “É”, disse a fêmina consorte, “mas olha como tem folhas amarelas. Por que será?” O silêncio que se seguiu deixou-me em dúvida: seria um silêncio obsequioso, diante da estupidez da pergunta, ou seria um silêncio filosófico, manifestando igual perplexidade diante de uma natureza exótica e abstrusa? Lembrei-me de outra ocasião, de outro comentarista igualmente perplexo diante de tais manifestações da alteridade, de uma natureza “outra”, no caso hibernal, aqui em Berlim, diante das árvores que tinham perdido esmagadoramente suas folhas: “Nossa! Eu não imaginava que a Segunda Guerra tivesse feito tanto estrago!”.

Daí o másculo sábio comentou: “Você se lembra da neve que vimos lá embaixo?” (Deve ter sido atravessando os Pirineus, eu conjeturei). “Como era bonita vista daqui de cima, tudo branquinho… É, mas pra quem vive lá embaixo a neve é um inferno!”. Bom, pensei, ele deve ter lido Dante, pois no fundo do inferno o poeta encontra gelo (que também deve ser melhor do que o do Brasil) ao invés de fogo. Não pude também reter o pensamento: serão eles membros da nova ou da velha classe média? Oh, dúvida cruel… E o Marcio Pochmann não estava ao alcance da voz para me esclarecer… nem o Ricardo Antunes, nem a Marilena Chaui… Meu iPad não tinha internet no avião… Eu estava perdido… Mas salvou-me o próximo capítulo, aquoso.

“Olha o rio! Que bonito!”, disse a voz feminil. “Pois é”, retrucou a macha voz, “pode ser o Reno”. Tudo, pensei eu, menos o Reno, que fica pros lados da França. Pode ser até o Elba. “Mas olha”, continuou a virília voz, “parece um espelho. Sabe, aqui na Europa os rios são todos limpos. Não há rios barrentos como .” Puxa, eu pensei, se o Gonçalves Dias tivesse ouvido esta conversa… Teríamos: “Os rios que aqui correiam/Não barreiam como ”. Perdeu-se um grande poema!

“Você vai ver”, atacou de novo a máscula garganta, “como as estradas daqui são melhores. São lisinhas, não têm nenhum buraco! A gente pode passar de 100 numa boa!”. Imaginei que a admiração subiria de tom se ele soubesse que os alemães adoram andar a 300, e ficam furiosos porque nos outros países, como a França, as auto-estradas têm limite de velocidade. Mas não pude deixar de reconhecer: de fato, as estradas europeias são, em geral, melhor conservadas do que as brasileiras. A voz marcara um ponto.

Mas logo adiante ela desfez o ponto que fizera. O avião pousava. E ela, a voz: “Veja esta pista, é perfeita! Parece uma seda!”.

Ufa!, pensei. Chegamos. Felizmente o voo era curto. E logo viria a azáfama, o corre-corre de pegar as malas, arrastá-las pelo corredor, tomar a condução… e fugir, fugir, fugir daquelas vozes, que, no entanto, os anos não apagarão jamais.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O Estado e a violência

13.10.16_Mauro Iasi_O estado e a violênciaPor Mauro Iasi.

“Nosso objetivo final é a supressão do Estado,
isto é, de toda a violência, organizada e sistemática,
de toda coação sobre os homens em geral”
Lenin

A maior de todas as violências do Estado é o próprio Estado. Ele é, antes de tudo, uma força que sai da sociedade e se volta contra ela como um poder estranho que a subjuga, um poder que é obrigado a se revestir de aparatos armados, de prisões e de um ordenamento jurídico que legitime a opressão de uma classe sobre outra. Nas palavras de Engels é a confissão de que a sociedade se meteu em um antagonismo inconciliável do qual não pode se livrar, daí uma força que se coloque aparentemente acima da sociedade para manter tal conflito nos limites da ordem.

A ideologia com a qual o Estado oculta seu próprio fundamento inverte este pressuposto e o apresenta como o espaço que torna possível a conciliação dos interesses que na sociedade civil burguesa são inconciliáveis. A contradição existe no corpo da sociedade dividida por interesses particulares e individuais, enquanto o Estado, ao gosto de Hegel, seria o momento ético-politico, a genericidade como síntese da multiplicidade dos interesses. A este momento político universal se contrapõe o dissenso, a rebeldia, o desvio e este deve ser contido nos limites da ordem, do que resulta que todo Estado é o exercício sistemático da violência tornada legítima.

Desde Maquiavel que a teoria política moderna sabe que a violência não pode ser o instrumento exclusivo do Estado, o uso adequado da violência (para Maquiavel aquele que atinge o objetivo de conquistar e manter o Estado) deve ser combinado com as formas de apresentá-lo como legítimo, o que nos leva à síntese entre os momentos de coerção e consenso, a famosa metáfora maquiaveliana do leão e da raposa. Poderíamos dizer que a violência só é eficaz quando envolvida por formas de legitimação da mesma forma que os instrumentos de consenso pressupõem e exigem formas organizadas de violência. O leão e a raposa são igualmente predadores, suas táticas é que diferem.

A separação entre violência e consentimento, entre coerção e consenso, serve às vestes ideológicas que procuram apresentar o Estado como uma função necessária e incontornável da sociabilidade humana. Nesta leitura ideológica, uma vez constituída a sociabilidade sobre as formas consensuais expressas no ordenamento jurídico, nas normas morais e imperativos éticos aceitos e compartilhados, a violência fica como uma espécie de reserva de segurança para conter os casos desviantes. Assim, a violência é apresentada como exceção e o consentimento como cotidianidade. O Estado é a garantia que a violência será coibida.

Nada mais enganador. A violência é resultante da contradição inconciliável que fundamenta nossa sociabilidade e portanto ela é cotidiana, onipresente e inevitável. Ainda que disfarçada de formas não explícitas como nos consensuais procedimentos legais e fundamentos jurídicos, como valores morais ou formas aceitas de ser e comportar-se. Até Durkheim sabia disso quando afirmava que as formas de ser, agir e pensar são impostas coercitivamente e se não percebemos esta coerção nas formas cristalizadas como hábitos não é porque ela não exista, mas porque já foi realizada com eficiência.

Mesmo a violência explícita é cotidiana. Ela é explícita e invisível, se mostra para ocultar-se. No preconceito que segrega, na miséria que aparta, na polícia que prende, tortura e mata, na moradia que se afasta, nas portas que se fecham, nos olhares que se desviam. Na etiqueta de preço nas coisas feitas em mercadorias que proíbem o acesso ao valor de uso, no mercado de carne humana barata na orgia de valorização do valor, sangue que faz o corpo do capital manter-se vivo.

Mas ela também é explícita e visível. No tapa da cara do trabalhador na favela dado por um homem de farda e armado. Na fila de cara para o muro sendo apalpados, nos flagrantes forjados ou não, no saco de plástico na cabeça, na porrada, no chute na cara, no choque nos testículos. Na cabeça para baixo, olhos para o chão, mãos na cabeça, coração acelerado. Na humilhação de ser jogado no camburão, na delegacia, como carga de corpos violentados nos presídios, longe de direitos e mesmo de procedimentos elementares, muito longe de recursos e embargos infringentes.

Um doente aidético, chora em sua cama na enfermaria do antigo presídio do Carandiru e atrapalha o sono do agente penitenciário. É espancado em sua cama com um cano de ferro. O cano da arma na boca da criança que dorme nos degraus da igreja na Candelária. O viciado arrastado à força para o “tratamento”. O louco impregnado de medicamentos. A família que vê o trator derrubar sua casa na remoção para viabilizar a Copa do Mundo de futebol. A mãe que reconhece o corpo de seu filho assassinado no mato e ouve do delegado para deixar quieto e não fazer ocorrência. Ela parou de falar, obedeceu.

Mas haveria uma ligação entre esta violência dispersa e multifacetada e o Estado como garantia da ordem burguesa? O Estado parece deixar-se distante disso tudo. Certo que são seus agentes que operam esta violência cotidiana, mas o Estado trata, como cabe a uma universalidade abstrata, de abstrações. Ele traça os planos, as metas, as políticas. Ele elabora o PRONASI, um programa nacional de segurança e cidadania, no qual os objetivos são moralmente aceitos, os meios os melhores e as intenções louváveis, mas os corpos começam a aparecer nas UPPs. O prefeito chora em Copacabana quando o Rio é escolhido para sediar o grande evento esportivo e o trator começa a derrubar casas. A presidente aprova a usina hidroelétrica e as árvores e índios começam a perder seus espíritos e raízes.

Há três anos, depois do primeiro turno das eleições nas quais o PT apoiou a candidatura de Sérgio Cabral ao governo do Rio de Janeiro, Lula discursando na inauguração de uma plataforma de petróleo da Petrobras em Angra disse:

“O Rio de Janeiro não aparece mais nas primeiras páginas dos jornais pela bandidagem. O governo fez da favela do Rio um lugar de paz. Antes, o povo tinha medo da polícia, que só subia para bater. Agora a polícia bate em quem tem que bater, protege o cidadão, leva cultura, educação e decência”.

Três anos depois um pedreiro sai de um boteco na Rocinha “pacificada”. É abordado pela polícia militar e levado para averiguações na sede da UPP. Sua cabeça é coberta por um saco plástico, é espancado e toma choques. Epilético, não resiste e morre. Os policiais desaparecem com o corpo. Dez policiais são indicados pelo crime, o governador Cabral e o secretário de segurança Beltrame não estão entre eles. O Estado no seu reino de metafísico está protegido pela muralha da universalidade abstrata, no cotidiano da sociedade civil burguesa onde se estraçalham as particularidades pode-se sempre acusar o erro humano, o desvio de conduta, a corrupção. O Estado então promove seu ritual de encobrimento: vai ser aberta uma sindicância e serão feitas averiguações. Evidente que os dez acusados ou suspeitos não serão sequestrados, suas cabeças enviadas em sacos plásticos e seus corpos desaparecidos.

Na abstração dos direitos somos todos somos iguais. Na particularidade viva da sociedade burguesa somos pobres, pretos, favelados, facilmente identificados para receber práticas discriminatórias em nome da ordem a ser mantida. Ordem e tranquilidade. Na ordem garantida os negócios e acordos são garantidos sem sobressaltos, a acumulação de capitais encontra os meios de se reproduzir com taxas adequadas, o Estado é saneado financeiramente destruindo as políticas públicas e garantindo a transferência do fundo público para a prioridade privatista. A ordem garante que a exploração que fundamenta nossa sociabilidade se dê com tranquilidade.

No entanto as contradições desta ordem, por vezes, explodem em rebeldia e enfrentamentos. Não apenas como nos protestos que presenciamos desde junho, mas também por pequenas explosões e caóticas resistências que vão desde o enlouquecimento e a miserabilidade que se torna incomodamente visível, até o crime.

Professores, universitários do ensino público federal ou da rede estadual e municipal de ensino, que resolvem não aceitar a imposição de um plano de carreira; jovens que se recusam a pagar o aumento das passagens, mulheres exibindo seus seios e jovens se beijando, escudos, vinagres e máscaras; são apenas a expressão mais contundente e parcial da contradição (esperamos ainda que despertem metalúrgicos, petroleiros e outros). Além destas manifestações já estavam lá no corpo doente da cidade, os bolsões de miséria, as favelas, as famílias destruídas, os jovens sem futuro acendendo seus isqueiros para iluminar um segundo de alegria.

O Estado é a trincheira de proteção estratégica da ordem da propriedade privada e da acumulação privada da riqueza socialmente produzida. No centro desta zona estratégica está a classe dominante, a grande burguesia monopolista dona de fábricas, bancos, empresas de transporte, controlando o comércio interno e externo, o agronegócio, as indústrias farmacêuticas e das empresas de saúde, etc. São cerca de 124 pessoas que controlam mais de 12% do PIB do Brasil, os 10% mais ricos que acumulam 72,4% de toda a riqueza produzida. Em seu entorno estão seus funcionários, um exército de burocratas, políticos, técnicos e serviçais de toda ordem que erguem em defesa deste círculo estratégico de uma minoria plutocrata as esferas do poder público e seus aparatos privados de hegemonia.

Na forma de um terceiro círculo de defesa, mas que se articula a este segundo, está um exército de funcionários que executam o trabalho (limpo ou sujo) de manutenção da ordem. Como extrato baixo da burocracia Estatal não compartilha dos altos salários e benesses do segundo círculo, mas isso não os faz diretamente membros da classe trabalhadora por receberem baixos salários e terem que trabalhar e viver nas condições de nossa classe. O ato de um policial militar que estapeia o rosto de um trabalhador na favela é o ato pelo qual ele abdica de sua condição de classe, se alia aos nossos algozes e se torna nosso inimigo.

Contraditoriamente, o ato pelo qual uma corporação, como os bombeiros, se levanta em greve por condições de trabalho e salários, é o ato pelo qual rompe com seus chefes e busca aliar-se a sua classe para constituí-la enquanto classe. “O bombeiro é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo”, gritam os trabalhadores que lhes abrem os braços com a infinita solidariedade que constitui a liga sólida que nos faz classe.

Um taxista pega um grupo de professores e pergunta se eles estavam na manifestação contra o Prefeito Eduardo Paes e seus planos de carreira. Diante da resposta positiva o taxista diz: “então não vou cobrar esta corrida, fica como contribuição para a luta de vocês”.

O Estado precisa reprimir e criminalizar toda e qualquer dissidência pelo simples motivo de que por qualquer pequena rachadura da ordem pode brotar a imensa torrente que nos unirá contra a ordem que o Estado garante. Ainda que muitos de nós ainda não saibamos disso, o Estado e a classe que ele representa sabem.

A ridícula minoria de exploradores e os círculos de defesa que se formam em torno deles, está cercado por nós, a maioria. Primeiro pelos trabalhadores recrutados pelo capital para valorizar o valor, depois um enorme contingente de trabalhadores que garantem as condições indiretas de produção e reprodução da força de trabalho e logo em seguida pela massa de uma superpopulação relativa cujo papel e pressionar os salários para baixo para manter a saúde da acumulação de capitais. Por isso eles estão armados até os dentes, por isso tem tanto medo de nós.

Fica evidente o motivo pelo qual a classe dominante precisa do Estado, a grande pergunta é: para que nós precisamos do Estado?

A justificativa ideológica quer nos fazer crer que a complexidade da sociedade contemporânea exige um grau de planejamento, técnica, procedimentos sem os quais seria impossível a vida em sociedade e mergulharíamos no caos da guerra de todos contra todos. Ora, como diria Einstein: defina caos! Estamos mergulhados na guerra da burguesia monopolista e imperialista contra todos! Brecht já dizia em seus poemas sobre a dificuldade de governar: “Todos os dias os ministros dizem ao povo como é difícil governar. Sem os ministros o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. Nem um pedaço de carvão sairia das minas.”

Quem somos nós e porque precisamos deles? Somos trabalhadores, sabemos plantar alimentos, construir casas, fazer roupas e meios de transporte, calçados e todos os tipos de ferramentas, ensinamos e cuidamos de nossa saúde, e como não somos de ferro fazemos músicas e poemas, trazemos a vida para telas e palcos, damos forma ao mármore e ao bronze, nos olhamos e nos apaixonamos e temos filhos tão humanos, tão humanos que carregam a vã esperança de que podemos ser melhores.

Mas isso é utópico, a natureza humana… a natureza humana! Nos gritam os ideólogos. Temos contradições, é verdade. Nós brigamos, divergimos, conhecemos a maldade e os canalhas de toda a espécie. A ordem da propriedade e da mercadoria e o poder que inevitavelmente a ela se acopla transformam nossas contradições em contradições inconciliáveis e criam formas de poder que consolidam uma ordem de exploração. Não querermos abolir as contradições queremos desvesti-las da forma histórica da propriedade e vivê-las humanamente.

Quando tivermos superado esta ordem e um trabalhador hipoteticamente encontrar em um banco de praça o Cabral e o Paes, despidos de toda a autoridade de seus cargos, nus de todo poder com o qual a ordem do capital os ungiu, vai colocar a mão no ombro deles e dizer: “vocês são uns bostas, canalhas mesmo, minha vontade é chamar aquele meu amigo black bloc e te encher de porrada… mas eles não batem em gente, só em coisas. O lanche é às 16 horas e a festa às 20 horas lá na praia, passa lá para a gente vaiar vocês… pelos maus tempos”.

É lógico que eles e seus patrões verdadeiros não vão permitir que isso aconteça, por isso temos que nos constituir como um poder tão grande e definitivo que ninguém possa questionar. Destruir o Estado da Burguesia e construir o Estado dos Trabalhadores que prepare as condições para superar as contradições que exigem um poder separado da sociedade até que consigamos eliminar as classes e constituir uma sociedade sem Estado, autogovernada.

Não precisamos deles (podemos começar fechando o Senado que não vai fazer falta). Não é possível que não possamos fazer melhor que esta porra que está aí. Vai do nosso jeito… nosso porto, por exemplo, pode não ser um “porto maravilha”, porque maravilha para eles é esta cidade horrorosa, desigual e injusta cheia de prédios enormes de cimento e vidro e vazios por dentro à noite, cemitérios com seus túmulos sem ninguém que os habite.

Nosso porto teria casas, algumas modestas com o reboco por consertar e a pintura gasta, com janelas abertas e dentro delas pessoas que as fazem humanas. De lá sairiam crianças alegres, saudáveis e alimentadas, indo para as escolas, parques e museus, e nós sairíamos para o trabalho para fazer todas as coisas que sabemos e a noite voltaríamos para nossas casas e cada um trabalharia de acordo com sua capacidade e receberia de acordo com sua necessidade.

Nós chamamos isso de comunismo, porque somos comunistas. Chamem do que quiser: socialismo, sociedade libertária, anarquismo, plena democracia… não importa, não somos fetichistas das palavras. Queremos apenas, e conquistamos este direito, participar da luta por ela e em sua construção. Afinal, é isso que nós comunistas fazemos… a mais de 160 anos.

Até quando o mundo será governado pelos tiranos?
Até quando nos oprimirão com suas mãos cobertas de sangue?
Até quando se lançarão povos contra povos numa terrível matança?
Até quando haveremos de suportá-los?

Bertolt Brecht

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Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

E não perca no próximo programa: alguém morto sem motivo, ao vivo

13.10.14_Pedro Rocha de Oliveira_não percaPor Pedro Rocha de Oliveira.

No dia 22 de julho de 2013, dois integrantes do coletivo de mídia independente NINJA foram detidos pela PM enquanto filmavam e transmitiam a manifestação que ocorreu na frente da sede do Governo do Estado do Rio de Janeiro, e nos arredores (a parte mais ao norte da Zona Sul do Rio).[1] O segundo deles foi detido diante da delegacia para a qual o primeiro havia sido levado. No momento em que a detenção ocorreu, 15 mil pessoas acompanhavam ao vivo por “Twitcast” a transmissão a partir do celular do jornalista. Um policial, ao mesmo tempo amistoso e provocador, entre o convite e a insinuação, meio atraiu e meio carregou o jornalista para dentro da delegacia. O clima foi ficando gradualmente tenso e a transmissão confusa e incompreensível. Uma voz afirma que ali “tem autoridade”, que ali “não pode filmar”, e a transmissão é encerrada. Em nenhum momento foi fornecido, pelos agentes de segurança pública, algo da ordem da justificativa plausível para a detenção, exceto a suspeita, verbalizada por mais de um PM, e também pelo Twitter da corporação, de que o jornalista poderia estar incitando a violência com as imagens que produzia. A ausência de justificativa plausível evidencia a censura policial direta, nua e crua à documentação audiovisual. Por isso mesmo, entretanto, trata-se de uma espécie curiosa de censura. Para a tradição brasileira de censura, censurar significava obstruir a formação e/ou veiculação de imagens e de informações. No sucedido no dia 22 de julho, entretanto, não seria correto dizer que o resultado da censura é a repressão à formação de imagens. Ao contrário, a censura, aí, produz a formação de imagens sobre a repressão. O conteúdo específico da censura é a propagação da imagem ao vivo do ato de censurar.

De fato, um dos elementos marcantes da experiência social da onda de protestos recentes no Brasil e no mundo é a violência estatal explícita e despudorada. Nas chamadas “redes sociais” é diariamente oferecido um espetáculo transnacional de cenas de “abuso policial”, feridas horrendas provocadas por armas “não-letais” e letais, prisões arbitrárias, mortes injustas, pactos horrorosos com o fascismo, etc. A intensidade, velocidade e continuidade desse espetáculo já deixou claro que, ainda que assistíssemos ao dobro de imagens horrorosas, isso não contribuiria em nada para que elas deixassem de ser produzidas. Torna-se óbvio que não há relação direta entre a quantidade de imagens de violência estatal divulgadas e a nossa capacidade de interromper a violência estatal.

No caso específico brasileiro, é importante observar que o tratamento dado pela mídia à violência estatal não é inédito, se levarmos em conta que, no contexto da repressão violenta nos espaços de pobreza, mais ou menos desde o fim da ditadura, a mídia não tem o hábito de esconder a truculência do Estado: antes, faz propaganda dele. Uma manchete do Jornal do Brasil de 1988 já usava o jargão do “choque” e da “invasão” para descrever uma ação policial na Rocinha, famosa favela carioca, e a foto na primeira página exibia o corpo de um negro sendo carregado como um saco de batatas pelos agentes do executivo[2]. Mais recentemente, em especial por ocasião da “batalha do Alemão” de 2007 e da “guerra do Alemão” de 2010, abundaram em todos os veículos midiáticos comerciais as cenas de repressão policial direta, e o número de vítimas fatais é sempre contabilizado e exibido cuidadosamente. Em mais de uma ocasião, oficiais do poder executivo estadual admitiram a morte de “cidadãos de bem” – inclusive, explicitamente, crianças e idosos – e descartaram-nas como efeitos colaterais de operações fundamentalmente eficazes[3]. Finalmente, o gênero do “cinema de violência” – em particular os filmes Tropa de Elite, o segundo dos quais detentor da marca de filme brasileiro mais assistidos de todos os tempos – também vem se encarregando, pelo menos desde o Cidade de Deus (2002), de tornar público o que todo mundo já sabe, que, na figura da Polícia Militar, o Estado mata, tortura, trafica, etc.

Ora, segundo os códigos e normas da sociedade liberal burguesa, sempre que a atividade individual oferecer perigo ou ameaça para o bem comum e a estabilidade social, o Estado tem legitimidade para atuar contra o indivíduo ou grupo de indivíduos perigosos ou ameaçadores. Evidentemente, a esquerda sempre preservou algum grau de desconfiança e distanciamento crítico diante dessa imagem mais ou menos benigna do Estado burguês. Não obstante, contamos fundamentalmente com ela para nossa atividade política quotidiana – formação de partido, luta por direitos, etc. – embora sempre fiquemos atentos para o risco constante de que uma conjuntura específica possibilite ou faça necessária a suspensão da prática estatal da legitimidade e a implantação mais ou menos formal de um “estado de exceção”. O tal distanciamento crítico, ademais, também inclui a percepção de que não há oposição definitiva entre a violência e o fazer quotidiano da democracia burguesa, que é, afinal, uma ferramenta de dominação de classe. Levando tudo isso em conta, é preciso dizer que, evidentemente, nos casos de violência estatal contra manifestantes e nos espaços de pobreza, a mídia comercial, ao mesmo tempo que exibe e propagandeia a violência estatal, também oferece justificativas legitimadoras: trata-se, aqui, de combater o vandalismo e, ali, de combater o crime organizado. Está em jogo a manutenção da ordem burguesa, em nome da qual, conforme nos mostra a história, muitas vezes sacrificam-se os direitos burgueses.

Mas é interessante prestar atenção no conteúdo específico da justificativa que está em jogo nesses contextos. No caso da violência policial nos espaços de pobreza, a propaganda midiática a respeito da truculência do Estado serve, por um lado, para mostrar serviço para a parcela da população que não vive nesses espaços. Tendo incorporado há décadas a consciência da crise urbana e social, a classe média há muito desistiu de apostar em programas políticos de superação da segregação urbana, e vota sempre nas promessas de repressão explícita: chama a atenção o protagonismo da “política de segurança” nos programas eleitorais.

Que dizer, entretanto, da maior parte da população: aqueles que, justamente, vivem ou nos espaços de pobreza ou às margens dele, num contexto de favelização global[4]? Esse público, sem dúvida, participa em grande parte nos processos de democracia representativa que terminam por eleger e reeleger – no Rio de Janeiro, por larga maioria – administrações cujas imagens estão indiscutivelmente associadas ao fenômeno do exercício declarado e sistemático da violência. Ao mesmo tempo, esse público está mais ou menos posicionado nos espaços onde se darão os inevitáveis “efeitos colaterais” da violência policial supostamente justificável. Não parece razoável que, para essas populações – de fato, o grosso dos consumidores de imagens – a exibição de imagens de violência policial acompanhada de comentários de legitimidade realmente tenha o efeito de – como se diz – “criar consenso”. Por um lado, ironicamente, essas imagens têm a função de informação: moradores da Penha relatam como, durante a ocupação policial-militar em novembro de 2010, o rugir dos helicópteros e das armas automáticas impediam que se chegasse à janela, de modo que a única maneira de saber “o que estava acontecendo” era através da TV. Por outro lado, esse fator de informação tem alcance muito específico. Numa reunião no Complexo da Maré ocorrida em setembro de 2013, promovida por uma organização do movimento de favelas carioca, moradores perfeitamente comuns de diversas das favelas em regime de ocupação policial permanente foram oferecer aos moradores da Maré, então “na mira” da política de UPPs, relatos a respeito da célebre pacificação policial. Nos relatos, as violências relativamente mais fáceis de imaginar estavam combinadas a estupros coletivos, violências sexuais envolvendo cabos de vassoura, emprego de armas não letais para torturas e “brincadeiras” quotidianas, além de desaparecimentos, invasões, assassinatos, tudo de comum conhecimento nas comunidades. Ora, para quem está perfeitamente ciente de que é considerado supérfluo pelo Estado – de que é alvo possível de uma repressão policial absolutamente indiscriminada – o discurso legitimador tem sinal trocado. Ele não pode servir para reforçar os fundamentos da democracia burguesa. Ele serve, antes, para tornar oficial o que poderia, para os desinformados, parecer oficioso. Serve para sacramentar o “estado de exceção” como prática normal: ou seja, para “ensinar” aos pobres aspectos fundamentais da crítica marxista do Estado burguês, sendo que as condições de veiculação desses ensinamentos obviamente retiram dele o potencial crítico.

É verdade que a mídia não é especialmente loquaz a respeito do brutal quotidiano dos espaços de pobreza sob o regime de “pacificação”. Por outro lado, duas observações devem ser feitas a respeito disso. A primeira é que as numerosas e cada vez mais frequentes revoltas populares contra as UPPs ou contra incursões policiais são quase sempre retratadas pela mídia, para quem está do lado de fora dos espaços de pobreza, como atos criminosos perpetrados pelo “tráfico de drogas”. Mas há exceções: após um levante popular na favela do Jacarezinho, em abril de 2013, o comandante da UPP afirmou que a população tem que “se acostumar” com as abordagens constantes e indiscriminadas da polícia pacificadora[5], declaração que claramente opera no eixo da prestação de contas + oficialização do terror. A segunda observação é que a própria marca “Polícia Pacificadora” tem algo de absurdo, e defender que a população em geral poderia realmente ver a polícia militar como veículo da paz e da integração social é trabalhar com a ideia de que o pobre não enxerga um palmo diante do nariz. Mesmo quando figuras da esquerda apoiam a UPP, está em jogo muito mais um cálculo sombrio: a opressão policial é preferível à opressão do tráfico de drogas ou das milícias. Essa fala também aparece frequentemente na boca dos habitantes dos espaços de pobreza, embora não com unanimidade.

Tal avaliação, entretanto, remete a uma marca fundamental da política contemporânea, que é o fechamento do projeto de superação da segregação econômica. Entre nós latino-americanos, esse projeto floresceu antes da onda de golpes militares dos anos 1950-70 e, no Brasil, novamente na época da “reabertura democrática”, especialmente sob o signo do PT. No contexto desse projeto, os pobres não seriam objetos da segurança pública, mas sujeitos de um processo político-econômico de transformação social. A rigor, é apenas um projeto como esse que pode dar recheio concreto à denúncia da falta de legitimidade da atuação violenta do Estado. A política para a pobreza existente hoje consiste na integração através do empreendedorismo de si mesmo e do consumo endividado subsidiado pelo Estado, e é totalmente compatível com o extermínio periódico de pequenas amostras populacionais. Embora operada hoje pelo PT, tal política não é necessariamente projeto de um grupo político específico. Colocando em outros termos: é justamente num mundo em que o neoliberalismo, combinado à crise econômica ou como resposta a ela, inviabilizou o espaço estreito de protagonismo político dos pobres dentro dos marcos do Estado burguês, que é possível exibir a violência explicitamente, descuidando da formação de um consenso político tornado obsoleto pela falta de alternativa político-econômica viável nos marcos da socialização capitalista.

Assim, o problema da propaganda da violência estatal contra os pobres tange o problema da propaganda da violência estatal contra as manifestações políticas. Em tempos recentes, o pico dessa violência ocorreu, sem dúvida nenhuma, num espaço de pobreza: a operação de repressão aos desdobramentos de uma manifestação ocorrida na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, no dia 25 de junho de 2013 – cinco dias depois do ato que talvez tenha levado um milhão de pessoas para as ruas do centro do Rio – deixou saldo de 10 mortos[6], fora desaparecidos e esfaqueados. Nas regiões centrais das grandes capitais, embora sem provocar morticínio, a violência policial também foi explícita, desmedida, e livremente veiculada (apenas com a importante exceção dos sequestros de militantes pela PM praticados em vários estados brasileiros). Foram prisões arbitrárias, mutilações, inúmeros feridos e desfigurados pelo armamento não letal, bares e residências inundados pelo gás lacrimogênio, ataques da polícia a coletivos, toque de recolher anunciado no Centro do Rio no dia 22 de junho, etc. Como no caso da violência estatal nos espaços de pobreza, a divulgação contínua e abundante das imagens da violência estatal no contexto das manifestações se deu em meio à continuidade da produção dessa violência.

É verdade que a existência mesma dessas imagens contribuiu concretamente para a solução de alguns casos pontuais, como a investigação que inocentou um jovem manifestante de ter atirado uma bomba incendiária na polícia no dia 22 de julho[7]. Por outro lado, o fluxo contínuo de imagens de violência estatal e sua vulgarização no contexto das manifestações expandiu para fora dos espaços de pobreza a lógica de reconhecimento e permissividade pública das arbitrariedades da polícia militar. É verdade que a mídia comercial combinou um discurso de legitimação do combate violento ao vandalismo com um discurso que condenava excessos contra os não-vândalos. Porém, essa combinação tem o mesmo efeito dos comentários que, no caso do sequestro do pedreiro Amarildo pela PM, ressaltam tratar-se de um trabalhador, e não de um traficante – ou seja, no fim das contas, mais um efeito colateral inevitável de uma violência sistemática.

A rigor, entretanto, a lógica envolvida aí não contribui para a legitimação da violência estatal. Não se pode dizer que o discurso dúbio a respeito dos excessos e dos erros operacionais acaba legitimado os excessos e os erros. Quando se constrói a imagem – aliás, totalmente verdadeira – de uma sociedade marcada pela violência estatal oficiosa, quando essa imagem é exibida tão detalhadamente que assume a forma da propaganda e do informe científico, o que se está fazendo, na verdade, é trabalhando-se para a superação da questão da legitimidade. Uma sociedade que não apenas deixa a cargo do critério dos agentes do executivo a brutalização e eventual eliminação dos pobres e dos desobedientes – como a sociedade burguesa sempre fez – mas que, além disso, o faz não apenas sem vexame, mas dentro de um esquema internacional de espetacularização contínua e ininterrupta da violência real, está claramente trocando a administração das oposições burguesas clássicas entre oficial e oficioso, legítimo e ilegítimo, consenso e coerção, pelo bullying cultural permanente, e isso sem abandonar oficialmente o estado de direito no interior do qual aquelas oposições se davam. À medida que a experiência da violência estatal deixa de ser uma possibilidade remota e excepcional, a ser praticada nos becos ou nos tribunais burgueses, e torna-se um dispositivo administrado cientificamente sob a luz dos holofotes, a diferença entre o que é legítimo e o que é ilegítimo torna-se questão meramente acadêmica. E estão aí os agentes do executivo que não me deixam mentir: enquanto a mídia ainda oscila entre a defesa da legitimidade e a condenação dos excessos, inúmeros policiais, em inúmeras situações, demonstram despudor total diante das câmeras, identificando-se para a mídia independente enquanto cometem suas já conhecidas arbitrariedades.

Mas, a bem da verdade, e para completar o quadro, é preciso dizer que tal testemunho despudorado não é sistematicamente fornecido apenas pelo baixo escalão das PMs desse país periférico e ainda marcado pelo subdesenvolvimento. Em março de 2013, o Procurador Geral dos Estados Unidos divulgou uma nota oficial na qual assumia publicamente que o Executivo daquele país mantém uma lista de pessoas a serem assassinadas pela CIA tão logo apareça a oportunidade, e que, eventualmente, a administração Obama pode considerar a inclusão nessa lista de cidadãos americanos, residentes em solo americano, se a segurança nacional estiver ameaçada. Essa nota oficial foi o resultado mais palpável de uma campanha jornalística que pôs a nu uma série de arbitrariedades cometidas pelas forças armadas estadunidenses em suas campanhas militares permanentes pelo mundo afora[8]. O que parece se delinear no horizonte são as consequências sócio-políticas de um grau gigantesco de desenvolvimento e concentração das forças destrutivas, e que tornam obsoletos os problemas administrativos tradicionais e os termos clássicos das contradições constitutivas da sociedade burguesa – sem, entretanto, superar essas contradições, evidentemente.

É nesse quadro, também, que se encaixam os boatos surgidos ao fim de setembro de 2013, de que o governador do Rio de Janeiro, então com sua popularidade desintegrada pela onda de manifestações, estaria sendo cotado pelo governo federal para assumir uma pasta ministerial[9]. Sem esperar pela crítica da esquerda radical, o estado burguês está desenvolvendo o hábito de se mostrar como aparato de dominação através da violência e para a administração de interesses privados a nível nacional e internacional. A violência desse ato de mostrar também é calculada, faz parte dos atributos daquele aparato, e, nos tempos que virão, será indissociável da esfera da política.


Notas

[1] Relato da mídia oficial sobre o ocorrido aqui.
[2] C.f. Jornal do Brasil, Jun 2, 1988. Disponível aqui.
[3] Por exemplo, C.f. “Beltrame: mesmo morrendo crianças, não há alternativa”, Portal Terra, 17 de outubro de 2007. Disponível aqui.
[4] Davis, Mike. Planeta favela. Tradução: B. Medina. São Paulo: Boitempo, 2006.
[5] “UPP: comunidade do Jacarezinho deve se acostumar com abordagens”. In: O Dia, 5 de abril de 2013. Disponível aqui.
[6] C.f. Costa, A. C. et al.: “Após nove mortes, moradores da Maré tentam invadir a Avenida Brasil”. In: O Globo On-Line, 25 de junho de 2013. Disponível aqui.
[7] Barreira, Gabriel. “Juíza decide arquivar processo contra estudante Bruno Telles.” In: G1 Rio de Janeiro. Disponível aqui.
[8] Reilly, Ryan J. “Eric Holder: Drone Strike To Kill U.S. Citizen On American Soil Legal, Hypothetically”. In: The Huffington Post, 5 de março de 2013. Disponível aqui. . Miller, Greg. “Muslim cleric Aulaqi is 1st U.S. citizen on list of those CIA is allowed to kill”. In: The Washington Post, 7 de abril de 2010. Disponível aqui.
[9] Amado, Guilherme: “Dilma convida Cabral a integrar seu ministério em janeiro”. In: Extra – Berenice Seara. Disponível aqui.

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Sobre a submissão da política à polícia e a militarização do espaço urbano, a Boitempo publicou recentemente o livro Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, organizado por Pedro Rocha de Oliveira e Felipe Brito.

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Pedro Rocha de Oliveira é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

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Pedro Rocha de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Coorganizador, com Felipe Brtito, de Até o último homem: Visões cariocas da administração armada da vida social, publicado recentemente pela Coleção Estado de sítio, coordenada pelo filósofo Paulo Arantes e editada pela Boitempo Editorial. Colabora esporadicamente com o Blog da Boitempo.

Movimento Passe de Classe

13.10.11_SoutoMaior_Passe de ClassePor Jorge Luiz Souto Maior.

Recentemente, a sociedade brasileira foi definitivamente influenciada pelo Movimento Passe Livre, no sentido de compreender a importância das mobilizações populares na luta pela efetivação de direitos.

Ainda que muitos insistam em fazer crer que se tratou de uma onda passageira, sem maiores implicações históricas, o fato é que várias têm sido as repercussões positivas daquele momento, sendo que a mais recente está prestes a ocorrer exatamente na estrutura mais arcaica e antidemocrática da sociedade brasileira, que é o futebol.

Noticia-se que 75 (setenta e cinco) atletas profissionais do futebol organizaram um movimento para questionar o calendário fixado pela CBF para o ano de 2014.

Esse movimento bem que poderia se chamar Movimento Passe de Classe, por vários motivos.

Primeiro, para, fazendo alusão ao Movimento Passe Livre, expressar que as manifestações de junho repercutiram na mobilização dos jogadores, servindo, inclusive, para demonstrar uma interação destes com os problemas sociais brasileiros.

Segundo, para deixar claro, já no nome, que a reação contra um calendário que só vislumbra os interesses econômicos e políticos dos clubes e das entidades ligadas ao futebol, desprezando a salubridade e a própria sanidade dos trabalhadores, quais sejam, os atletas, tem a função, também, de preservar a qualidade dos passes e dos dribles, em nome de um melhor espetáculo, pois o futebol, por intermédio da construção romântica de tantos poetas, tornou-se também uma arte.

E terceiro, e mais importante, para que os atletas profissionais de futebol assumam, enfim, a sua feição de classe, uma classe de trabalhadores, o que, ademais, representa algo efetivamente revolucionário no meio e serve de grande exemplo para os demais trabalhadores.

O fato é que a estruturação econômica do futebol tem servido, ao longo dos anos, para desprezar a amplitude dos direitos fundamentais dos atletas, os quais acabam se submetendo a inúmeras situações supressivas da dignidade, tudo em prol dos interesses maiores dos clubes, considerados, inclusive, como entidades que carregam a responsabilidade de manter sobre controle social uma legião de seguidores ardorosos e doentes, os torcedores.

É bem verdade que hoje em dia, muitos clubes possuem uma estrutura exemplar no tratamento da saúde e do desenvolvimento do potencial atlético dos jogadores, mas isso está longe de constituir a generalidades dos casos e não elimina todos os sacrifícios a que os atletas são expostos com a quantidade excessiva de jogos, com as concentrações e, até mesmo, com a constante insegurança quanto ao efetivo recebimento dos salários, sem falar de todas as situações que passam ao longo da construção da carreira até conseguirem alcançar os denominados bons empregos, com boas condições de trabalho e bons salários (por vezes ilicitamente disfarçados em direito de imagem).

Desde a formação, os jogadores estão sujeitos a várias agressões. No caso brasileiro, são expostos desde cedo à condição de deixarem os estudos em segundo plano, para privilegiarem a dura luta por um lugar ao sol no futebol (lógica que, infelizmente, se estende a todos os demais esportes). E, para tanto, são expostos, bem cedo, à lógica da concorrência, com incentivo a uma postura individualista na busca do sucesso, da estabilidade econômica e da fama, almejando chegar à condição especial de “astros” do time e de, assim, angariarem a “adoração” da torcida.

Só que até a realização desse sonho, que se concretiza para muito poucos, os jogadores vão se desumanizando até o ponto de se verem considerados como um “patrimônio” do clube ou de “empresários” e neste percurso vão aceitando quase que naturalmente as condições de trabalho impostas e, em geral, dando-se por satisfeitos e agradecidos por terem a oportunidade de participar da equipe, reforçando-se a lógica do favor/gratidão pela difusão da ideia de que os clubes “investem” nos jogadores, de onde advém, aliás, a racionalidade de uma espécie de “escravidão por dívida”, da qual apenas se libertam com o pagamento do “passe”, lógica esta que se reforça seja pela sensação de que a realidade de “pertencerem” a um clube ou a um empresário já é por si bem melhor do que a vida difícil que tinham antes (no geral das vezes), seja pela esperança de que dias ainda melhores virão. E essa opressão é favorecida pelo caráter restrito deste mercado de trabalho, no qual muito facilmente se identificam os “rebeldes” do futebol, que passam a levar consigo essa “marca” e a ser alvo de retaliações, ainda que veladas.

A presente mobilização dos atletas profissionais de futebol contra o calendário significa, portanto, um passo essencial para que estes desenvolvam uma efetiva consciência de classe, promotora da solidariedade, permitindo que reconheçam, enfim, a importância da ação sindical, para que, desse modo, na perspectiva de uma atuação coletiva, várias outras formas de supressão da condição humana dos jogadores sejam postas em pauta, a começar, talvez, pela necessidade de preservação do direito fundamental à privacidade.

A situação vivenciada pelos jogadores de futebol, no sentido das dificuldades, não é pior que aquela por qual passa a enorme maioria dos trabalhadores brasileiros, aliás, muito pelo contrário, até porque estes não são tratados com qualquer espécie de “glamour”, não recebem vultosos salários e estão por aí enfrentando enormes dificuldades para chegar e voltar do trabalho, para manter o emprego e, em certo sentido, para conseguir sobreviver.

De todo modo, não se pode menosprezar as dificuldades enfrentadas pelos jogadores de futebol e minimizar a relevância de sua luta, até porque as histórias de sucesso não se dão para a maioria deles e não é porque se paga ou se recebe um bom salário que a condição humana pode ser aviltada. 

A mobilização dos atletas profissionais do futebol, que se anuncia, é extremamente importante para que se consiga, enfim, dar um basta ao tratamento coisificado que os jogadores têm recebido na relação com os clubes, o que não raramente se estende aos torcedores e mesmo a parte do segmento do jornalismo esportivo, e para que os demais trabalhadores brasileiros percebam que se mesmo neste ambiente hostil à ação coletiva, vez que se baseia na lógica do individualismo e na concorrência predatória, ainda que o jogo seja coletivo, a mobilização organizada é possível, sendo, ademais, a única capaz de alterar a realidade, com muito mais razão devem considerar que a solidariedade de classe é a essência de sua luta trabalhista. Devem reconhecer que não será pela reprodução da lógica da concorrência, da superação do adversário a qualquer custo, que conseguirão uma situação progressiva ou revolucionariamente melhor.

Em suma, que os atletas profissionais do futebol consigam com seu Movimento melhorar o Passe e se vejam, enfim, como Classe.

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Recomendamos também a leitura de Democracia corintiana: a utopia em jogo, de Sócrates Brasileiro e Ricardo Gozzi.

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Livro impresso por R$10,00 nas livrarias
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Jorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos conhecidos como as “Jornadas de Junho”, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa. O livro também conta com um ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e ilustrações sobre as manifestações de Laerte, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, Fido Nesti, Bruno D’Angelo, João Montanaro e Pirikart, entre outros.

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

O principe, o filósofo e o poeta

13.10.10_Izaías Almada_O principe_o filósofo e o poetaPor Izaías Almada.

Considerando que o reino em que vivem está à deriva, um príncipe, um filósofo e um poeta resolveram deitar falação sobre aquilo que consideram estar errado à sua volta. “É preciso estar atento e forte”, pensaram, “não temos tempo de temer a morte”… Irmanados nos versos desta canção de conhecido menestrel do mesmo grupo litero/musical, o príncipe, o filósofo e o poeta, todos sempre prontos a disputar espaços nos mais conhecidos jornais do reino, acharam por bem – do alto de sua sabedoria – botar alguns pingos nos is e descer à ágora dos sacripantas para discordar do governo e sua corte e lançar um pouco de lenha na fogueira das vaidades e das intrigas antirepublicanas.

O povo trabalhador, de volta para casa após mais um dia de labuta, passa por aquelas figuras exóticas sem entender muito bem o que falam na ágora, mas puderam ouvir algumas frases soltas.

Dizia o príncipe envolto em seu fardão com filigranas douradas: “Marina Silva é uma reserva moral do país”… O filósofo, com cara de bravo, acenava com pedagogias democráticas: “Que ao menos fique a lição de que nenhuma invenção democrática neste país será possível sem um processo amplo, geral e irrestrito de combate à corrupção, no qual o último mensaleiro petista será, enfim, enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano”… E como que a concordar com a animada retórica acadêmica, o poeta, de longos cabelos grisalhos, soltou o seu canto ditirâmbico: “Será que esse país tem medo de punir?”

Reserva moral, processo amplo geral e irrestrito, medo de punir, o que será que diziam aquelas sumidades, pensava a massa ignara. Alguns poucos passantes pararam para ouvir, mais pelo exotismo da cena do que propriamente pela peroração do trio.

Estava eu ali a observar todo o quadro, dividido entre falácias e sofismas de um lado e a quase perplexidade de cidadãos trabalhadores do outro, quando avistei um pouco à minha direita um senhor já de idade, atento ao discurso dos três cidadãos. Aproximei-me do senhor e perguntei-lhe se podia explicar o que diziam aqueles oradores tão empolgados e cheios de si.

O velho me olhou por detrás das lentes grossas de seus óculos, que revelavam dois olhinhos inquietos e percucientes, e disparou numa voz firme e convincente:

– Estão criticando o que se passa em nossa democracia…

– E quem são eles? Arrisquei.

– O senhor não sabe?

Considerei que fingir minha ignorância sobre tais celebridades pudesse me trazer sua opinião mais sincera, mesmo que apaixonada.

– Não, confesso que não os conheço ou, pelo menos, não conheço o que pensam.

– Ali estão um príncipe, um filósofo e um poeta, respondeu o velho senhor orgulhoso em mostrar seus conhecimentos. E vou responder em poucas palavras a sua pergunta:

– O príncipe é um senhor que conseguiu entrar para a Academia de Letras depois de pedir a todos nós que esquecêssemos o que ele escreveu, entendeu o paradoxo? Pertence a um partido político onde a honestidade está em baixa e, tal qual todo bom oportunista, resolveu puxar a brasa de uma moralidade até agora desconhecida da tal senhora que teve alguns milhões de votos na última eleição presidencial para tentar dar um respiro ao seu partido em frangalhos…

– Hum, balbuciei segurando o riso.

– O filósofo, continuou, não se sabe muito bem o que ele pensa, mas encheu-se de brios para criticar um caso de suposta corrupção ainda não esclarecido pedindo o enforcamento dos réus, sem nomeá-los, nas tripas uns dos outros, requentando uma velha e surrada expressão dos iluministas franceses que gostariam de ver o último rei enforcado nas tripas do último padre. E veja que ele, inconscientemente, usa a expressão de um general da nossa ditadura sobre abertura ampla, geral e irrestrita. Um ato falho, talvez, ou coisas de uma nova esquerda à qual ele julga pertencer…

Com uma esquerda assim, não é preciso direita, concorda?

– O velho senhor encarou-me sem fazer qualquer comentário.

– E o poeta?

– Bem, o poeta queria saber, tal qual o filósofo, porque a suprema corte de justiça do país se acovardou numa de suas últimas decisões e, segundo, ele, esquivou-se de punir o mais rápido possível, mesmo sem provas, os tais cidadãos que merecem ser enforcados nas tripas uns dos outros… O curioso é que esse mesmo poeta disse estar arrependido de ter sido comunista um dia e que se converteu à democracia. Supõe-se que ele ainda faz parte daquele grupo de pessoas que identificam democracia com capitalismo e ditadura com socialismo… Se estiver arrependido de seus pecados deveria se confessar a um padre, não acha?

Ato contínuo, o velho senhor escafedeu-se…

Fiquei pensando se não tinha conversado por cinco minutos com o desconhecido Stanley Burburinho.

PS: Aviso a alguns poucos comentários escritos com o fígado. Em política só acerta quem erra, pois é a prática que vai enriquecendo o aprendizado. Como dizia o poeta espanhol, o caminho se faz caminhando. Ou ainda, como diz o grande filósofo do STF, Luiz Fux, “A verdade é uma quimera”.

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Leia também sobre a AP 470 Justiça fora dos trilhosA síndrome Safatle/Dutra 1 e 2, As drogas e a direita causam dependênciaE a presunção da inocência? e O lado obscuro da democracia, na coluna de Izaías Almada no Blog da Boitempo.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Intelectuais, luta política e esquerda: conversações com Carlos Nelson Coutinho

13.10.09_Dênis de Moraes_Carlos Nelson CoutinhoPor Dênis de Moraes.

Recentemente, completamos um ano sem Carlos Nelson Coutinho (28/6/1943 – 20/9/2012), mestre do marxismo e principal discípulo no Brasil do grande filósofo italiano Antonio Gramsci. Ainda que a sua ausência entre nós constitua lacuna impossível de ser preenchida, as ideias de Carlos Nelson prosseguem pujantes. Sua obra é uma inspiração fundamental àqueles que não se conformam diante da irrecuperável fábrica de desigualdades e injustiças do capitalismo e se empenham na longa e árdua luta por outra hegemonia política e cultural, em direção ao socialismo. Essa vitalidade de seu pensamento motiva-me a publicar aqui um fragmento da nossa conversação de quatro horas numa tarde de final de verão, em março de 2004, depois editada na íntegra em dois livros – Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise (Record, 2004), por mim organizado, e Intervenções: o marxismo na batalha das ideias (Cortez, 2006), que reúne ensaios e entrevistas dele.

Carlos Nelson recebeu-me com sorriso largo, um café e os cabelos úmidos de quem acordara ao meio-dia, após trabalhar incansavelmente até quase o amanhecer. A cada pergunta, respondia sem economia de minutos, às vezes alternando o raciocínio certeiro com breves goles de outros cafés e desculpas por fumar. O olhar movia-se pendularmente: ora em meu sentido, como seta e alvo, ora para o lugar insubordinado do horizonte em que, provavelmente, buscava as interseções entre o compromisso crítico, a humanização da vida e a convicção socialista. Havia no seu acolhimento um desejo de compartilhar visões de mundo e valores, que expressava com uma ternura diferente e, se preciso fosse, com a ênfase das artérias revigoradas de sangue.

No texto que se segue, Carlos Nelson analisa as responsabilidades públicas dos intelectuais, a atualidade do extraordinário legado de Gramsci, o significado de ser marxista no século XXI e dilemas para a esquerda digna deste nome realizar-se como força política, numa época em que, como ele ressalta, “a barbárie é o que nos espera, ou o que já nos atinge, se cruzarmos passivamente os braços”.

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Como você se sente na condição de remanescente dos anos 60 vivendo neste conturbado começo de milênio?

Enormes mutações realmente ocorreram, mas ao mesmo tempo se pode perceber, por trás da descontinuidade entre os anos 60 e o início do século XXI, algumas linhas de continuidade. A batalha pela hegemonia continuou a marcar todo esse período, com momentos que, sobretudo no início do período, foram mais favoráveis à esquerda. Para resumir o que sinto, lembro que a Livraria Leonardo da Vinci, do Rio de Janeiro, organizou em 2002 uma série de debates sobre as décadas passadas. Coube a mim e a Leandro Konder falar sobre os anos 60. Depois de preparar o texto da minha intervenção, pensei comigo mesmo: que saudades dos anos 60! Foi uma época em que tivemos grandes esperanças. Por paradoxal que pareça, era mais esperançoso viver sob a ditadura do que agora. Você tinha a ideia de que iria sair daquilo e construir alguma coisa realmente nova.

Se Eric Hobsbawm referiu-se ao “breve século XX”, poderíamos falar de uma longa década de 60. Na verdade, a década iniciou-se em 1956 com o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, onde foram denunciados os crimes de Stalin; e, de certo modo, se encerrou com o colapso do eurocomunismo no início dos anos 70. O eurocomunismo foi uma tentativa de retomada do núcleo democrático do comunismo e, ao mesmo tempo, de renovação do pensamento marxista. E, no meio de tudo isso, ocorreu 1968, com o maio francês, a Primavera de Praga e tantos outros movimentos libertários por todo o mundo, no Norte e no Sul, no Leste e no Oeste. Não é casual que, no início dessa longa década – numa declaração feita, se não me engano, em 1958 –, Jean-Paul Sartre tenha afirmado que o marxismo era a filosofia insuperável do nosso tempo. Naquele momento, seguramente, o marxismo disputava hegemonia com muita força.

De lá para cá, assistimos a sucessivos triunfos do capital no terreno da luta de classes. A correlação de forças mudou contra nós. O avanço do capitalismo se refletiu também, evidentemente, no campo da cultura. O pós-modernismo – que Fredric Jameson chamou adequadamente de “lógica cultural do capitalismo tardio” –, com sua tentativa de desconstrução de visões totalizantes do mundo, indica uma perda de força do marxismo. Sabemos que o marxismo coloca a totalidade como critério básico de sua metodologia. Embora acredite que ainda há forças que resistem a essa avalanche irracionalista, não posso deixar de reconhecer que este início do século XXI não parece muito favorável a um intelectual como eu, formado na década de 60 do século passado. Quarenta anos depois, contemplo o mundo com mais ceticismo e mais pessimismo. Mas quero dizer, enfaticamente, que não perdi as esperanças. Adoto e cito sempre aquele dístico de Gramsci: “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade”. Não se trata de um pessimismo irracional, mas daquele que se alimenta da razão crítica. Quanto ao otimismo da vontade, que é uma indicação para que mantenhamos unidas teoria e prática, ele se apoia no fato de que quase tudo o que Marx disse a respeito do capitalismo se confirmou. A crítica ao capitalismo formulada por Marx é cada vez mais atual. O capitalismo de hoje – cuja natureza “globalizada” Marx e Engels já haviam ressaltado há mais de 150 anos, no Manifesto Comunista – não eliminou, mas até aguçou, todas as suas contradições.

O que devemos repensar e discutir é a questão do sujeito revolucionário, o sujeito capaz de operar as transformações. A meu ver, esse sujeito situa-se ainda no mundo do trabalho, mas não é mais a classe operária fabril, como Marx pensava. Temos que estudar a nova morfologia do trabalho e também os vários movimentos sociais que, sem provirem do mundo do trabalho, colocam demandas que chamo de radicais, como são os casos dos movimentos feminista e ambientalista, para citar dois exemplos. São sintomas de que as coisas podem recomeçar para nós. Precisamos recomeçar de novo, com a modéstia de quem perdeu uma batalha, tanto no sentido político quanto no sentido cultural, mas com a convicção de que o resultado da guerra não está decidido.

Que papel público os intelectuais críticos podem almejar nestes tempos cinzentos de supremacia do mercado e de cooptação de homens de cultura pelas engrenagens de poder?

Já me referi a uma figura intelectual que marcou fortemente a cultura dos anos 50 e 60, ou seja, Jean-Paul Sartre. Sartre é um clássico exemplo de intelectual tradicional no sentido gramsciano da palavra, isto é, daquele intelectual que não é ligado diretamente a nenhum aparelho de hegemonia, mas que exerce um papel fundamental na formação da opinião pública; quando de esquerda, este tipo de intelectual denuncia o que lhe parece errado, defende valores de solidariedade e de dignidade, mantém vivo o espírito de rebeldia. Sartre foi um digno continuador de Voltaire. Ora, este tipo de intelectual ainda existe no mundo contemporâneo. Talvez o mais famoso deles seja hoje o norte-americano Noam Chomsky, mas há outros exemplos, como o recentemente falecido Pierre Bourdieu, na França. No Brasil, eu pensaria em figuras como Celso Furtado e Antonio Candido. O fato de existirem figuras assim demonstra que este tipo de intelectual continua a ter um papel relevante a desempenhar, de denúncia, de defesa de propostas transformadoras e, sobretudo, de mobilização da opinião pública. Talvez Chomsky influencie hoje menos do que Sartre influenciou em seu tempo, mas o importante é que esta função do intelectual tradicional continua posta na ordem do dia e vem sendo desempenhada satisfatoriamente por algumas grandes figuras do nosso tempo.

Zygmunt Bauman critica o descompasso entre a intelectualidade acadêmica e a sociedade: “Os intelectuais pararam, em grande parte, de se definir pela responsabilidade que têm para com o povo, a nação e a humanidade.” Como você encara o problema?

Bauman tem razão se tomarmos a média dos intelectuais. Muitos intelectuais continuam a ter, do ponto de vista moral e ético, a ideia de que a transformação social é justa e necessária. Mas, na medida em que a mediação entre eles e a realidade social se tornou nebulosa e até difícil, há uma tendência de vários destes intelectuais a refluírem para o espaço acadêmico, despreocupando-se com sua responsabilidade social. Não se trata de uma traição; não é que esses intelectuais tenham necessariamente se acanalhado. Trata-se de uma condição objetiva: tais intelectuais, com frequência, não encontram meios de atuar de outra maneira e acabam renunciando desempenhar um papel social mais direto. Porém, malgrado tudo, ainda há um bom número de intelectuais que se colocam o problema da intervenção social e que tentam resolvê-lo, talvez um pouco caoticamente, cada um a seu modo, até mesmo porque se debilitaram os espaços comuns de outrora, ou seja, os partidos políticos, as organizações, etc. Trata-se, às vezes, de um combate intelectual solitário, mas eu diria que os intelectuais que travam este combate têm tudo para se rearticular e voltar a desempenhar o papel muito bem definido por Gramsci: o intelectual deve se empenhar na organização da sociedade e lutar pela hegemonia política e ideológica do bloco de classes com o qual se identifica. Decerto, a forma na qual isso acontece hoje é bastante diversa daquela da época de Gramsci; o mundo intelectual mudou, assim como mudou o mundo do trabalho, e não apenas em relação ao tempo de Marx e de Gramsci, mas até mesmo em comparação com a época do Welfare State, iniciado após a Segunda Guerra.

Muitos dizem que Gramsci e Lukács estão superados porque ambos tinham muitas expectativas em relação ao papel dos intelectuais e estas expectativas não se cumpriram. Em grande parte, isso é verdade. Gramsci e Lukács, com efeito, apostaram pesadamente na função revolucionária dos intelectuais, uma função que está hoje bastante diluída. Creio, contudo, que é condição para a retomada de uma batalha pela hegemonia que os intelectuais – entendidos na ampla acepção que lhes atribuiu Gramsci – voltem a desempenhar suas funções públicas.

Não teria a intelectualidade de esquerda uma certa dificuldade de se comunicar com um público mais amplo, em função da linguagem elaborada que utiliza?

Gramsci tem uma teoria dos intelectuais muito rica precisamente nesse sentido. Segundo ele, há o grande intelectual, o produtor de ideologias, mas há também um sem-número de ramificações e mediações, através das quais os pequenos e médios intelectuais fazem com que as grandes ideologias e teorias cheguem ao que ele chama de “simples”, ou seja, ao povo. Para Gramsci, não há uma relação direta entre a grande filosofia, a grande cultura, e o que ele chama de “simples”; trata-se de uma relação que se dá através da mediação de uma grande massa de pequenos e médios intelectuais, aos quais devemos dedicar enorme atenção. Na batalha das ideias, na luta pela hegemonia, devemos estar atentos não só à produção dos grandes intelectuais, mas também temos de levar em conta o modo pelo qual os pequenos e médios intelectuais estabelecem uma relação entre esta produção e o senso comum dos “simples”.

Outro ponto interessante em Gramsci é a afirmação de que, entre os intelectuais e os subalternos, ou os “simples”, há sempre um diálogo. Lenin afirmava que o Partido revolucionário tinha como missão trazer “de fora” a consciência política, socialista, para o movimento operário. Esta afirmação, entre outros problemas, atribui aos intelectuais um peso que eles não têm. A função dos intelectuais, enquanto criadores e propagadores de ideologias, é sobretudo dialogar com os “simples”. Gramsci dizia que o povo sente mas não sabe, enquanto o intelectual frequentemente sabe mas não sente. Desse modo, embora saibamos em teoria que a integração entre os intelectuais e o povo é extremamente importante, muitas vezes esquecemos disso na prática. Ficamos satisfeitos quando nosso departamento universitário tem dois ou três marxistas, quando na revista do departamento, que circula para cem pessoas, são publicados três ou quatro artigos de inspiração marxista. Isso é importante, mas só terá um papel social quando as ideias do marxismo chegarem às grandes massas. Gramsci dizia que é mais importante difundir entre as massas uma ideia correta já conhecida pelos intelectuais do que um intelectual criar uma ideia nova que se torne monopólio de um grupo restrito. A socialização do conhecimento, sobretudo do conhecimento ligado ao pensamento social, é uma tarefa fundamental para os intelectuais – tarefa que, muitas vezes por vaidade, nem sempre fazemos bem.

Nessa tarefa de socialização do saber, há muitos exemplos positivos. Já falei em Noam Chomsky, que certamente tem um peso na opinião pública norte-americana e não só norte-americana. Nos Estados Unidos, boa parte da opinião pública contrária à direita e ao militarismo é inspirada por grandes intelectuais, como o próprio Chomsky, Edward Said, Susan Sontag, Gore Vidal, Michael Moore e outros. Isso acontece também no Brasil. Então, ao contrário da opinião pós-moderna de que o grande intelectual universalista perdeu sua função, diria que ele continua tendo as mesmas funções que Gramsci lhe atribuía, só que em condições morfológicas diferentes. Ou seja: mudou a morfologia dos intelectuais, assim como mudou a morfologia do mundo do trabalho, mas – em ambos os casos – permanecem as funções sociais destes grupos. Os intelectuais continuam a ser tão importantes hoje na produção de hegemonia e de contra-hegemonia quanto o eram na época de Gramsci e nos gloriosos anos 60.

Diante da crise de identidade político-ideológica de partidos de esquerda contemporâneos, ainda podemos conceber o partido como intelectual coletivo, como agente da vontade coletiva transformadora?

Os partidos deveriam ser isto, ou seja, intelectuais coletivos, agentes da vontade coletiva, expressões do ético-político ou da universalidade. Enquanto os movimentos sociais colocam em jogo questões frequentemente decisivas mas sempre particulares, a grande tarefa do partido político deveria ser a de universalizar as demandas que provêm de diferentes setores sociais. Nesse sentido, um partido que se pretenda revolucionário tem de se colocar como criador de uma vontade coletiva transformadora, de uma vontade universal. Gramsci diria: de uma vontade coletiva nacional-popular.

Na prática, os partidos não têm cumprido essa função. Na Europa, por exemplo, os partidos de esquerda, que outrora tiveram uma posição revolucionária, tanto na vertente social-democrática quanto na comunista, assemelham-se cada vez mais ao Partido Democrata norte-americano, ou seja, tornam-se federações de lobbies agrupados em torno de figuras midiáticas. O mesmo ocorre com os partidos de direita, que perdem densidade ideológica e se convertem em meros administradores do existente. A velha forma partido – enquanto agrupamento que tinha como base uma concepção do mundo universalista – está cada vez menos presente até mesmo na Europa, onde teve durante mais de um século um peso decisivo. O que resta da oposição que existia, no Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas? Ou, na Itália, entre democratas-cristãos e comunistas? Podemos falar assim num “americanalhamento” da política europeia.

Temo que o mesmo processo esteja ocorrendo na política brasileira. Assisto, com ansiedade e temor, à conversão do PT – de um partido que se criou na ideia da transformação social, com uma clara bandeira socialista e ligado aos movimentos sociais – num partido de governo, diluído numa frente absolutamente amorfa, num partido que parece abandonar completamente sua vocação originária de organismo de luta pela transformação social. Uma coisa é constatar esse movimento da realidade atual; outra coisa, muito diferente, é fazer da necessidade uma virtude. Acho que devemos continuar lutando para construir partidos capazes de desempenhar a função de agregadores de vontades coletivas e, portanto, portadores de hegemonia e contra-hegemonia.

Infelizmente, no momento, essa não é a marca dos partidos que se intitulam de esquerda. Uma das tarefas do intelectual hoje é empenhar-se para construir partidos deste tipo, bem como movimentos sociais enraizados na sociedade civil. E, na medida em que haja partidos que possam ser instrumentos de mobilização popular, o intelectual deve dar sua contribuição para que tais partidos busquem efetivamente transformar a realidade. Se não houver uma opção partidária adequada, resta ao intelectual atuar de modo autônomo, como Jean-Paul Sartre e Noam Chomsky, mantendo assim sua capacidade crítica e seu papel na formação de novas relações de hegemonia.

Nos últimos anos, Gramsci voltou a ser referência nas ciências sociais. Não há o risco de leituras apressadas e até distorcidas contribuírem para transformar Gramsci em um pensador cultural, reduzindo o potencial político e revolucionário de seu pensamento?

Num artigo sobre a recepção de Gramsci no Brasil, publicado em final dos anos 80, chamei a atenção para o fato de que Gramsci chegou no Brasil nos anos 60 e foi utilizado por muitos de nós, então jovens intelectuais comunistas, como instrumento de uma batalha essencialmente cultural. Naquele momento, subestimamos a dimensão indiscutivelmente política do pensamento de Gramsci. Continuamos delegando à direção do Partido Comunista a tarefa de elaborar a linha política; criamos uma falsa divisão do trabalho, na qual nos cabia apenas definir as linhas gerais da política cultural. Gramsci aparecia para nós, então, apenas como o defensor da filosofia da práxis, da literatura nacional-popular, mas ainda não como o teórico da revolução socialista no que ele chamou de “Ocidente”. Isso se revelou, no final dos anos 70, uma divisão do trabalho impossível. Nós, gramscianos, começamos então a nos meter também na política, a questionar, com base em Gramsci, o que a direção do Partido continuava a defender. Terminamos todos saindo do Partido.

Hoje, a influência de Gramsci no Brasil continua muito forte. Em meio à chamada “crise do marxismo” – não falo de “crise” no sentido de que o marxismo não tenha respostas para o que está acontecendo, mas no sentido de que ele é hoje uma posição cultural bem menos influente do que anos atrás –, Gramsci é um dos pensadores que mais resistiram e mantiveram sua influência. Resistiu aqui e no exterior. Tenho sido convidado para vários congressos gramscianos em diferentes países. Pude constatar, por exemplo, que é fortíssima a presença de Gramsci em Cuba, onde ele é hoje a bandeira dos intelectuais que querem democratizar o socialismo cubano, introduzindo a problemática da sociedade civil. Disseram-me que Gramsci desapareceu no período em que Cuba se aliou à União Soviética e reapareceu com força após o colapso da própria União Soviética. É um fenômeno mais ou menos generalizado na América Latina. Gramsci está muito presente na Argentina e no México, e voltou a estar presente na Itália, depois de uma fase em que praticamente sumiu. Mas eu não diria que ele está voltando só como teórico da cultura, como aconteceu no Brasil dos anos 60: ele é agora cada vez mais, em Cuba e no Brasil, na Itália e nos Estados Unidos, um ponto de referência importante para se pensar uma nova política socialista e comunista.

Por que Gramsci tem sobrevivido às crises do marxismo?

Sobretudo porque Gramsci percebeu que era preciso renovar o marxismo, criando uma nova teoria do Estado e uma nova teoria da revolução. Foi assim capaz de tornar o marxismo contemporâneo do século XX e, acredito, do século XXI. Certamente, há outros pensadores marxistas que também contribuíram para isso, reconhecendo que muitas afirmações de Marx são datadas e que a atualidade do marxismo deriva não de suas afirmações tópicas, mas da justeza do seu método. Penso, por exemplo, em Georg Lukács, que nos ofereceu – com sua Ontologia do ser social – a mais lúcida leitura filosófica do legado de Marx e Engels. Algumas contribuições da chamada Escola de Frankfurt, sobretudo as de Marcuse e Benjamin, também são importantes para essa necessária renovação do marxismo.

Estão em voga nos meios intelectuais norte-americanos e europeus as teses do multiculturalismo e dos estudos culturais, cujas vertentes progressistas propõem teorias críticas em articulação com as ideias de Gramsci. O que você pensa a respeito?

Meu amigo Joseph A. Buttigieg, organizador da edição americana dos Cadernos do cárcere, tem uma posição muito crítica tanto em relação aos estudos culturais quanto ao multiculturalismo: “Não é o que Gramsci disse”, diz ele. Gramsci tinha uma visão claramente universalista. Ele certamente pensava o particular; era capaz de tomar como referência para suas reflexões tanto um artigo sobre os negros da Abissínia quanto as afirmações de uma revista católica italiana do século XIX. Sempre se mostrou muito preocupado com a diversidade cultural, com o enorme pluralismo cultural do mundo moderno, que ele valorizava, buscando sempre um elemento positivo em todas essas manifestações particulares. Mas nele há sempre, ao mesmo tempo, uma clara orientação universalista, que nem sempre vejo nos chamados estudos culturais e no multiculturalismo, ainda que estes se intitulem “críticos do presente”. Os estudos culturais e o multiculturalismo são importantes para chamar a atenção sobre as diferenças, sobre as identidades, para não deixar subsumir coisas diversas no mar de uma universalidade abstrata. Gramsci sabia, de resto, que a universalidade concreta se alimenta da diversidade e da pluralidade. Mas falta frequentemente nos chamados estudos culturais, no multiculturalismo e também nos estudos feministas e ecológicos uma visão universal, uma busca da totalidade, que me parecem estar presentes no marxismo e, particularmente, no marxismo de Gramsci. O reconhecimento das diferenças não pode se opor à afirmação da totalidade, dos valores universais.

Você tem dito que, mesmo correndo o risco de ser considerado um “animal em extinção”, reafirma a sua convicção no marxismo. É difícil ser um marxista assumido?

Talvez seja mais difícil agora do que nos anos 60. Naquela época, ser marxista era uma coisa quase natural. Pelo menos metade dos intelectuais brasileiros (e não só brasileiros) ou era marxista, ou simpatizava com o marxismo. De qualquer modo, em contraste com outros países, o marxismo brasileiro resistiu melhor nas últimas décadas. E resistiu por um fenômeno peculiar: o crescimento de um partido de esquerda, o PT, nesse período da história brasileira. Enquanto na Europa observa-se um refluxo dos partidos comunistas e socialdemocratas nos anos 80 e 90, no Brasil, ao contrário, tivemos o surgimento e a expansão de um partido de esquerda que, embora não se declare marxista, é certamente influenciado pelo marxismo e contém em seu interior vários marxistas. Pelo menos, foi assim até muito recentemente. Se nos anos 60 a predominância do marxismo em nossa intelectualidade era bem mais forte, hoje as posições marxistas ocupam um espaço razoável na cultura brasileira.

De qualquer modo, é importante notar que ser marxista não é repetir o que Marx diz. Ele disse muita coisa que, evidentemente, está superada e outras que eram erradas já no tempo dele. Ser marxista é ser fiel ao método de Marx, ou seja, à capacidade que tal método revelou de entender a dinâmica contraditória do real e as linhas de tendência da sociedade moderna. Portanto, para ser marxista é preciso ser um animal em mutação. Tenho insistido – chocando inclusive alguns marxistas mais ortodoxos – que a essência do método de Marx é o revisionismo. Durante anos, o revisionismo foi considerado um dos inimigos principais do verdadeiro marxismo. O exemplo era Bernstein, que, realmente, propôs uma revisão que significava o abandono do marxismo. Por isso, todo revisionista tornou-se um traidor. Apesar disso, penso que faz parte da essência do marxismo se renovar e se revisar sempre. Não há verdadeiro marxista que não seja revisionista. É o caso, por exemplo, de Lenin, que revisou várias teses marxianas, como, entre outras, a de que a revolução socialista começaria nos países mais avançados. Uma das características do método marxista consiste precisamente em afirmar que a realidade é histórica, que ela está sempre em mutação – e, por isso, quem é verdadeiramente marxista está sempre revisando os seus conceitos para dar conta deste real sempre mutável.

Ainda é possível escapar à barbárie capitalista?

Certamente ainda é possível. O quadro atual, como tenho dito, nos é bastante desfavorável. Desde que comecei a pensar a política, já lá se vão mais de 40 anos, nunca a conjuntura foi tão desfavorável à esquerda quanto nesse último período. Mas já houve outras épocas históricas, antes destes meus 40 anos de militância e reflexão, em que as coisas foram ainda piores. Imagine o que sentia uma pessoa de esquerda quando quase toda a Europa estava ocupada pelas tropas nazistas, as quais, entre outros avanços, chegaram a até 40 quilômetros de Moscou. Houve então momentos profundamente negativos, em que a barbárie (em sua forma cruamente nazista) parecia ter triunfado. Mas o fato é que o nazismo foi derrotado em pouco mais de cinco anos. Há esperanças, portanto, de superarmos mais uma vez a barbárie. Mas, para isso, é preciso que lutemos contra ela, tal como os povos lutaram contra o nazismo. A vitória contra a barbárie não será resultado de uma fatalidade histórica. Ao contrário: a barbárie é o que nos espera, ou o que já nos atinge, se cruzarmos passivamente os braços. A alternativa com que nos defrontamos continua a ser o dilema formulado por Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie. Cabe-nos reinventar aquele socialismo que, adequado ao século XXI, nos livrará da barbárie em que estamos cada vez mais envolvidos.

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De Rousseau a Gramsci: ensaios de teoria política, o último livro de Carlos Nelson Coutinho já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira uma prévia do livro aqui.

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Dênis de Moraes dedicou a edição definitiva de O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos a Carlos Nelson Coutinho, que prefaciou o livro. Confira, abaixo, a homenagem feita a Carlito no debate de lançamento da biografia:

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Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO, Argentina, 2005). Atualmente, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Foi contemplado em 2010 com o Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro. Autor de mais de 25 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba. Pela Boitempo, publicou Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (2013) e O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Eremias Delizoicov, presente

13.10.09_Urariano Mota_EremiasPor Urariano Mota.

Na sexta-feira passada, recebi um convite para uma homenagem a Eremias Delizoicov. O convite me chegou por email de Renan Quinalha, assessor da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, com estas palavras:

“Escrevo porque faremos uma audiência pública da Comissão da Verdade na antiga Escola Técnica Federal de São Paulo e lemos um belo relato que você fez sobre a amizade entre vocês chamado ‘Vesti azul’.

Na audiência pública, marcada para o dia 16 de outubro a partir das 19h no auditório da Escola, estarão presentes familiares do Eremias (mãe e irmão) além de antigos professores e companheiros de militância. Sua presença engrandeceria demais a homenagem que desejamos prestar à memória de Eremias e de sua família. Conseguimos até mesmo que a Escola, nessa oportunidade, conceda à família de Eremias um certificado simbólico de conclusão de curso…”.

Em primeiro lugar, devo esclarecer que esse convite é uma honra desmedida, pois jamais poderia imaginar que um texto sobre o heroico Eremias pudesse reverberar cinco anos depois. Em segundo lugar, esclareço que apesar de não comparecer à justa homenagem ao bravo socialista, à cerimônia eu vou com o melhor que posso. Ou seja, com a minha forma preferida, que nem precisa da minha insignificante pessoa. Por isso, recupero aqui o texto que escrevi há cinco anos.

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Vesti azul
Urariano Mota

Quando vem o primeiro de abril, sempre me lembro do que chamavam a revolução de 31 de março. A história oficial sempre antecipou em um dia o golpe de 64 para evitar o ridículo. E aqui e ali volta para mim o terror daqueles anos na forma de pessoas e canções. Lembro, por exemplo, de Eremias Delizoicov, a quem conheci na Escola Técnica Federal de São Paulo. O menino que eu vira em 1968 não anunciava o cadáver de 18 anos, perfurado de balas, o rosto irreconhecível porque uma só ferida, os cabelos tão úmidos, tão grossos por coágulos de sangue, que davam a impressão de flutuar no chão seco. Nada havia naquele cadáver que lembrasse o jovem que eu conhecera. Eremias não era aqueles olhos apertados, a boca aberta à procura de ar, a lembrar um afogamento.

“Vesti azul, minha sorte então mudou. Vesti azul, minha sorte então mudou…”, não, não pensem que enlouqueci. Há uma coerência entre essas canções despretensiosas, alegres, leves, e os cadáveres dos terroristas na ditadura militar. Não pensem jamais que vicejam hinos do Drácula em épocas sombrias, de repressão. Pelo contrário.

Na Escola Técnica Federal de São Paulo, Eremias Delizoicov foi a minha salvação no meio daqueles meninos burgueses, lembro. A Escola Técnica daqueles anos possuía alunos da elite econômica do Brasil. Certo dia, percebi que um jovem gordo, que se vestia com blusões de couro tão natural como uma segunda pele, era filho do dono da Aços Villares. E eu então me encolhi mais em minha camisa de algodão, nos 10 graus do inverno paulistano. A conversa daqueles alunos toda era sobre carros, motos, motores, esportes.

Onde um amigo, uma alma, um leitor, um irmão que entendesse e falasse sobre Platão, Descartes, os grandes inventos da humanidade, a música de Chopin? Quando me perguntavam sobre máquinas, potências de motores, eu lhes respondia que mais me preocupava O Discurso do Método. Um ridículo imenso caía então sobre o nordestino que não possuía nem bicicleta.

“Pensam que a pobreza é lixo, e que rapaz pobre não tem coração”. Não, não pensem que enlouqueço ao lembrar essas canções melosas, adocicadas, daqueles férreos anos. “Estava na tristeza que dava dó, vivia amargamente e andava só”, lembro, tão nitidamente quanto lembro a diferença, o contraste dessa canção com a vida que não poderia brotar, de um mundo reprimido naqueles anos. “Que azul é a cor do céu, e do seu olhar também… Vesti azul, minha sorte então mudou”, cantava Simonal. Por não ter camisa azul, eu procurava o azul do espírito. Uma coisinha estúpida, a procurar uma alternativa que não fosse pular fora da vida.

Ao escrever agora, não resisto ao impulso de desejar o impossível, que fôssemos mais maduros em 1968. Se não maduros, pelo menos profetas, leitores do futuro, videntes.

A morte torna as pessoas mais razoáveis e transparentes à humanidade. Se não todas as mortes, pelo menos algumas dão um vulto a essas pessoas que antes não víamos. Eremias morreu como um herói, permitam-nos dizer. O aparelho onde estava caíra. Fora entregue por um outro jovem preso, que não suportara as torturas. Cercado por forças do Exército, Eremias sozinho resistiu. Resistiu à bala, sem nenhuma esperança. A distância nos permite dizer que ele, naquele tiroteio cerrado, chamava a atenção dos demais companheiros fora. Que a casa não era mais segura, para ninguém. Outra hipótese que nos ocorre é a de ele saber que não havia mais saída, se caísse vivo. A saber, não haveria mais saída de continuar vivo, sem delatar.

Talvez ele tenha querido evitar, no fim e enfim, ser uma coisinha estúpida, a balançar nervoso numa câmara de tortura. Algo estúpido, tão estúpido quanto um “Vesti azul” de primeiro de abril.

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Saiba mais sobre o caso de Eremias Delizoikov (27/3/1951 – 16/10/1969), “morto com nome de vivo”, e outros mortos e desaparecidos da ditadura militar em Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Visita ao impensável: Auschwitz-Birkenau

13.10.03_Flávio Aguiar_Auschwitz[O sinistro portão de entrada em Auschwitz, com o dístico “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta), com o B invertido.]

Por Flávio Aguiar.

Na semana passada, fomos Zinka e eu a Cracóvia, considerada “a cidade mais bela da Polônia”. A cidade não deixa de merecer esta consideração – embora, até o momento, se já a única que eu conheça neste país. Ela combina o estilo que tem algo de antigo, característico de cidades do antigo Leste europeu, com bairros de traçado medieval ao lado de praças esfuziantes em estilo mediterrâneo. Muito interessante, muito bonito. Um dos pontos altos da cidade é o antigo bairro judeu, hoje transformado – ainda com suas sinagogas, algumas transformadas em museus e memoriais, num bairro boêmio, aliás, “O” bairro boêmio da cidade.

Pois foi a partir deste bairro, onde ficamos, que empreendemos nossa visita ao impensável: os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau. Esperamos ali a van que nos conduziria lá.

A van nos conduz primeiro através de Cracóvia. Depois passamos à zona rural, numa viagem que dura aproximadamente uma hora e meia.

Daí chegamos à entrada do primeiro campo, o chamado Auschwitz I. A primeira surpresa é o enorme número de visitantes que vêm aos milhares por dia para conhecer os campos de concentração .

A visita começa. Passamos sob o portão de entrada, onde se lê a frase hoje irônica, antigamente sarcástica, “Arbeit macht frei” – “O trabalho liberta”. Uma curiosidade: o B da palavra Arbeit está invertido. Até hoje se discute se isto foi um protesto dos prisioneiros que tiveram de fazer a peça de metal, ou se isto aconteceu por serem eles analfabetos.

Aos poucos o guia vai esclarecendo a história sinistra de Auschwitz .

Seu nome era uma adaptação germânica do nome polonês da cidade próxima: Oswiecim. Auschwitz era na verdade um complexo de três campos, construídos em momentos diferentes, e que eram o centro de uma rede de outros 45 campos de concentração nazistas.

Auschwitz I foi construído em 1940, inicialmente para prisioneiros poloneses. Auschwitz II, também conhecido como Birkenau, foi construído em 1941. O terceiro campo do complexo foi construído depois.

O primeiro objetivo do campo era o de concentrar trabalhadores forçados, no esforço de guerra. Mas logo, sobretudo a partir de 1942, ele se tornou também um campo de extermínio. Calcula-se que 1 milhão e 100 mil prisioneiros morreram nestes campos. 90% destes eram judeus. Mas também foram assassinados ali ciganos, poloneses, soldados soviéticos, dissidentes de várias nacionalidades, inclusive alemães. Um grande número de prisioneiros também eram vitimados pelas doenças, a desnutrição, o trabalho esgotante, as execuções e nos chamados experimentos médicos, perpetrados, inclusive, por Josef Mengele, que viria a morrer em Bertioga, no litoral de S. Paulo.

Auschwitz foi escolhido como o principal campo de extermínio por sua localização central em relação a outros campos dispersos pela Europa ocupada.

A maioria dos prisioneiros morreu nas câmaras de gás, sobretudo em Auschwitz II, ou Birkenau. Os prisioneiros chegavam nos trens, através do portão principal, e eram separados em dois grupos: os que iam para os trabalhos forçados, a minoria, e os que seguiam diretamente para as câmaras de gás. Abandonavam os seus pertences, tiravam a roupa, achando que iam tomar um banho. Fechados nas câmaras, ao invés de água, os dutos jogavam gás Zyklon B, obtido através de um pesticida. A morte sobrevinha em poucos minutos. Depois,os corpos eram levados aos fornos crematórios. Ainda restam, em Auschwitz I, uma câmara de gás de dimensões pequenas, e alguns dos fornos crematórios .

A visita abala e emociona. Aos poucos vamos vendo salas com cabelos humanos – um dos únicos lugares onde é proibido fazer imagens. Depois vêm os óculos, as malas, os sapatos , os sapatinhos de criança, pratos, canecas , até próteses, as fotos dos prisioneiros, os lugares de execução, a sala de julgamento, única em que ainda há um retrato de Adolf Hitler.

Ao final da guerra, os nazistas evacuaram o campo. Antes de sair, tentaram destruir tudo o que pudessem, para ocultar os vestígios do genocídio. Quando as tropas do Exército Vermelho chegaram ao campo, encontraram menos de 10 mil sobreviventes.

Se você for empreender esta viagem, prepare-se. É impossível não se emocionar nem deixar de se emocionar. É uma visita à maldade humana que, como a estupidez, não tem limites.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.