Depois do colapso da modernização

Sobre o artigo Depois da formação. Cultura e política da nova modernização”, de Marcos Nobre (Revista Piauí, n.74, nov./2012).

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Por Fabio Mascaro Querido.


“O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro marcado entre as gerações precedentes e a nossa”.
Walter Benjamin 

Em um artigo recente, publicado na revista Piauí (n.74, novembro/2012), intitulado “Depois da ‘formação’. Cultura e política da nova modernização”, Marcos Nobre (professor de filosofia da UNICAMP) afirma a necessidade do abandono, por parte da reflexão crítica sobre o “novo padrão de modernização” no Brasil, do outrora imponente paradigma da formação, que, desde os pioneiros Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido, e Formação econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, lançou novas bases – não mais ancoradas em uma compreensão mecânica da antítese entre “arcaico” e “moderno” – para os debates sobre o complexo processo de desenvolvimento modernizador do país. Segundo o autor, sobretudo após o golpe de 64, com a constatação de que o moderno e o arcaico combinavam-se muito bem sob o controle político dos militares, o paradigma da formação, ao passar por um momento de “autocrítica”, “reflexivo”, afirmou-se hegemonicamente no campo do “nacional-desenvolvimentismo democrático”.

Desde então, já não se tratava mais de apostar numa “positividade” imanente ao processo de modernização, como se este, num país “atrasado” como éramos, impulsionasse por si só o desenvolvimento da democracia e da justiça social. Bem ao contrário. A questão era exatamente entender as singularidades do avanço inegável de uma modernização que, ao invés de “superar” os elementos arcaicos presentes na formação social brasileira (que, na linguagem de um Florestan Fernandes ainda marcado pela disjuntiva weberiana, constituíam os “obstáculos estruturais ao desenvolvimento de uma ordem social competitiva”), integrava-os dialeticamente, digamos assim, transformando-os em elementos “internos” à própria lógica de acumulação capitalista num país da periferia do sistema.

Foi Francisco de Oliveira, com seu Economia brasileira: crítica à razão dualista (ensaio de 1972, mas publicado em livro apenas em 1981, como indica Nobre), quem demonstrou com toda ênfase esta reciprocidade necessária entre moderno e arcaico, revelando, ao mesmo tempo, o caráter ideológico do pensamento daqueles para os quais (como a CEPAL, o ISEB ou o PCB) a lógica dualista havia se transformado em modelo interpretativo. Para Marcos Nobre, caberia a Roberto Schwarz, em seu ensaio “As idéias fora do lugar” (1973), ampliar o quadro de visão do movimento ideológico identificado por Francisco de Oliveira: agora, não só o moderno e o arcaico se interpõem, mas o moderno, ele próprio, serve de legitimação ideológica para o atraso. Nesse sentido, como diz Nobre, “o moderno sanciona uma forma de dominação na qual sua promessa de realização é uma quimera e, no limite, deboche”.

Mas é exatamente neste momento “reflexivo” que, segundo Nobre, o “paradigma da formação” perde força, coincidindo com as transformações estruturais (no âmbito da assim chamada “terceira revolução industrial”) do capitalismo que tornavam inviável a continuidade de qualquer projeto nacional-desenvolvimentista. Deste ponto de vista, o subsequente processo de redemocratização, a partir da segunda metade da década de 1980, tão-somente confirmou a débâcle dos diversos “projetos de país”, catapultados pelo esgotamento do nacional-desenvolvimentismo. Ademais, com o Plano Real, o desmonte das instituições nacional-desenvolvimentistas ajustou-se à “flexibilidade” necessária para a participação não-conflituosa nas “novas condições mundiais”. Paradoxalmente, é o “paradigma da formação” – com sua utopia modernizadora – que se transformava agora numa espécie de “idéia fora do lugar”, deslocada num contexto de “abertura” global.

Ora, o diagnóstico proposto por Marcos Nobre é interessante, e isso por várias razões. Entre outras coisas, porque reforça a necessidade de (auto) reflexão crítica por parte daqueles que, de alguma forma, mobilizaram aspectos do paradigma da formação para entender o processo de modernização no país. De fato, não é mais possível pensar a formação e o desenvolvimento do Brasil em termos de “construção-nacional-interrompida” ou de modernidade incompleta, sobretudo num país onde as “insuficiências” do padrão moderno de acumulação capitalista sempre foram regra geral, e não mera exceção, como diria Chico de Oliveira, parafraseando Walter Benjamin. Por isso mesmo, nas palavras de Marcos Nobre, “no momento em que as condições para a produção de um sucedâneo do nacional-desenvolvimentismo estão inteiramente ausentes, a continuidade da defesa (implícita ou explícita) do paradigma da ‘formação’ cumpre uma função primordialmente ideológica – e retrógrada”. Tanto quanto sua necessária contrapartida “neomoderna”, para não dizer “neoliberal”, que vigorou a partir de meado dos anos 90 e interrompeu de vez a possibilidade de completude da construção nacional “moderna”.

Todavia, à diferença do que sugere Nobre, muitos dos próceres do paradigma da formação foram, eles mesmos, pioneiros na demarcação do esgotamento anunciado de todo e qualquer projeto nacional-desenvolvimentista. O que Marcos Nobre denomina “obras tardias de impacto” do paradigma da formação, como os trabalhos de Paulo Arantes[1] ou O ornitorrinco (2003), de Francisco de Oliveira[2], constituem, na verdade, diagnósticos de época entre cujas consequências maiores encontra-se exatamente a sustentação da necessidade de refletir em novos termos o percurso modernizador do país, agora num momento no qual tal modernidade demonstrou-se maleável a todo tipo de articulação regressiva. Se a “crítica à razão dualista”, malgrado sua desconstrução teórico-política do nacional-desenvolvimentismo, ainda alimentava alguma esperança nos caminhos abertos pela aceleração da modernização no contexto dos avanços da segunda revolução industrial, e, portanto, era tributária, em certa medida, do que Nobre chama “paradigma da formação”, o artigo O ornitorrinco (2003) significa um momento verdadeiramente atualizador deste processo, no qual o esgotamento da modernização obriga a passar a limpo os tentáculos da tradição à luz do presente. Como diz Roberto Schwarz em seu mais recente livro (Martinha versus Lucrecia. Companhia das Letras, 2012), “para desconcerto geral da esquerda, a modernização agora se tornava excludente e reiterava a marginalização e a desagregação social em grande escala” (p.178).

Não se trata mais, então, de um puro e simples resgate do paradigma da formação e de suas expectativas correspondentes. Ao contrário, tratava-se da sua “dissolução”, por assim dizer, na crítica daquilo que o Brasil moderno se tornou e continuará a ser no âmbito do quadro global da acumulação capitalista agora ancorada num “novo imperialismo” não menos destrutivo. A (auto) crítica do paradigma da formação fora, sim, realizada, mas o problema é que ela não se comprometeu com o que, para Marcos Nobre, constituiria as consequências desejáveis do seu abandono, a saber: o “destravamento da inteligência e da crítica” com vistas à utilização da inédita margem de manobra que dispomos no atual estágio da modernização (capitalista, bem entendido).

Para Paulo Arantes, por exemplo, o esgotamento do “paradigma da formação” significa, acima de tudo, a expressão de um movimento mais profundo de esgotamento do paradigma de modernização capitalista que, desde seus primórdios, condicionou as formas de desenvolvimento no Brasil, país que sempre foi uma espécie de laboratório do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo global, e cuja modernidade idiossincrática vem se tornando, hoje, um modelo da fratura social do capitalismo contemporâneo.[3] Ademais, também para Paulo Arantes, ou para Chico de Oliveira, “um processo de ‘formação’ se encerrou – ainda que não tenha se completado da maneira como esperava o paradigma”, segundo diz Nobre. Em sua opinião, “de certa maneira, não somos a realização nem do sonho nem do pesadelo do projeto ‘nacional-desenvolvimentista’, mas uma combinação de ambos”. Ora, esse não é outro senão, em linhas gerais, o diagnóstico, por exemplo, de Chico de Oliveira em O ornitorrinco, entre cujas consequências está a afirmação da impossibilidade, hoje, sob o risco de um anacronismo fora do tempo, de pensar a sociedade brasileira em termos de construção-nacional-interrompida, e tampouco como uma versão exoticamente tropical de “modernização”, que nos isentaria dos conflitos inerentes à divisão internacional do trabalho.

Aliás, ao vincular o desenvolvimento nacional aos avanços e retrocessos do processo de reprodução global do capitalismo, as tentativas de compreender o Brasil como momento determinado do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, desde Mário Pedrosa, passando pelas “teorias da dependência”, até alguns teóricos do “paradigma da formação”, já haviam antecipado muitos aspectos do impasse presente, destacando a impossibilidade estrutural de um desenvolvimento capitalista-moderno autônomo no país, dado o déficit democrático de uma burguesia periférica constituída às margens dos centros decisórios do sistema (“subdesenvolvimento ou socialismo?” questionará Fernando Henrique Cardoso ainda na década de 1960, excluindo do horizonte do possível a possibilidade de um desenvolvimento capitalista independente no país). O “progresso” já estava em marcha, e a condição de subdesenvolvimento era já o próprio futuro no presente, reincorporando em novas formas aspectos aparentemente insuperáveis do passado.

Não por acaso, a compreensão deste “novo padrão de modernização” (M. Nobre), no qual estão ausentes as possibilidades que emergiram na etapa nacional-desenvolvimentista da modernização, mais confirma do que renega certos aspectos dos diagnósticos das versões dialéticas do “paradigma da formação”. A começar pela idéia de que, inseridos organicamente no processo de reprodução ampliada do capital global, não poderíamos ascender senão a esta combinação aparentemente paradoxal (desde que pensada sob a lógica formal) do mais moderno com o mais arcaico, do mais moderno para o capital e, quase sempre, do mais “arcaico” no tratamento das classes subalternas.

Um dos problemas maiores do argumento de Marcos Nobre é que, ao sustentar a necessidade de renúncia ao “paradigma de formação”, ele parece sugerir a necessidade de um abandono subsequente de toda análise do Brasil à luz dos seus vínculos com o sistema capitalista global e, portanto, à luz do seu posicionamento na rede complexa dos conflitos de classe em seu imbricamento internacional. Isso porque, em sua opinião, “a subordinação já não se organiza mais primordialmente em termos de nação, países ou Estados”, e a outrora nítida relação entre centro e periferia perdeu muito de sua clarividência em tempos da denominada “globalização”.

Forçando o argumento, é como se, para Nobre – num contexto de “crise das receitas tradicionais de modernização” –, não tivéssemos mais alternativas a não ser “aceitar” positivamente, ao modo habermasiano, a modernidade que enfim somos, postura que implicaria, necessariamente, o abandono dos antigos esquemas do desenvolvimento da “formação” e de suas expectativas correspondentes, assim como da confrontação teórica da formação social singular do país com as formas de reprodução global do sistema em sua totalidade. Tais mudanças de rumo, ou melhor, de conteúdo e de abordagem, seriam uma condição fundamental para o desvio e superação deste paradigma agora “caduco” – sobretudo porque continua a insistir na possibilidade de outra forma de resolução dos dilemas da (pós) modernidade. Como diz o autor ao final do ensaio, “iniciar uma nova etapa significa reconhecer que não mudou apenas o caminho. Mudou a pedra”. Aí está a questão, de fato.

Inexiste, porém, na argumentação de Marcos Nobre, a possibilidade de que a superação deste paradigma possa se realizar por meio não exatamente da manutenção, mas da atualização da negatividade crítica que, como ele próprio reconhece, balizou a reflexão de parcela importante dos expoentes intelectuais de tal “paradigma”. E se muitos destes intelectuais buscam, hoje, novas referências teóricas, seja em Žižek , ou em Agambem (como ironiza Nobre), trata-se precisamente de uma tentativa de encontrar recursos para a compreensão de uma modernidade contemporânea que, exatamente (e não apesar de) por ser plenamente moderna, reproduz em novas escalas as desigualdades e conflitos sociais de classe imanentes ao seu funcionamento. Se buscam tais referências, talvez seja porque, para estes “moribundos” da melhor tradição dialética local, uma “vitória” de Habermas significaria, no limite, a vitória de uma modernidade capitalista institucionalmente estabelecida, mas que continua a fazer do “cortejo triunfal” de uns o pressuposto da infelicidade de outros. Se o “subdesenvolvimento” enquanto tal não existe mais, diluído que foi no corpus estranho do “ornitorrinco” que nos tornamos, suas calamidades não apenas seguem existindo, como vem redobrando vida e servindo de medida para a crescente pauperização social em muitos países do centro do sistema.

É sempre bem-vindo qualquer esforço de atualização da reflexão crítica do país. O problema incide, a bem dizer, sobre as formas do diagnóstico e, mais importante ainda, sobre as conclusões e os prognósticos que emergem do balanço crítico proposto. Que fazer diante deste esgotamento histórico de tamanha envergadura? No Brasil, não são senão movimentos sociais como o MST, com todos os seus eventuais limites, muitos advindos de sua base social heterogênea, que desafiam as diferentes temporalidades históricas que se mesclam e que dão o tom da modernidade realmente existente no Brasil, com sua combinação insossa do mais moderno do agro-negócio com o mais arcaico manifestado nos resquícios de escravidão que ainda hoje afligem os mais vulneráveis. Não há mais qualquer nostalgia da “nação” incompleta: esta é a nação possível no espectro do circuito global de reprodução capitalista.

São problemas de “formação”, sem dúvida, mas são também, e antes de tudo, como sabemos hoje, problemas do desenvolvimento desigual e (mal) combinado do capitalismo. Não se pode, portanto, falar de modernização, e tampouco de superação do paradigma da formação, sem falar de capitalismo e de sua atual “periferização do mundo”.

Fabio Mascaro Querido é doutorando em Sociologia, UNICAMP.


[1] Paulo Arantes. “A fratura brasileira do mundo”. In: Zero à Esquerda. São Paulo: Conrad, 2004. Cf. também, Extinção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. Disponível em ebook aqui.

[3] Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo”, op.cit.

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Sampa, 459 anos

13.02.01_Sampa 459 anos_Roniwalter JatobáPor Roniwalter Jatobá.

De aldeamento indígena em 25 de janeiro de 1554, São Paulo chegou aos 459 anos na condição de maior metrópole da América do Sul.

Todas as cidades do mundo comemoram seus aniversários. É uma data aceita oficialmente como sendo o dia em que se iniciou a cidade, a data de fundação. Todavia, essas datas são meramente simbólicas. Acredito que não possuem um significado maior no total processo histórico. Os Campos de Piratininga, nome pelo qual era conhecida a região hoje ocupada pela cidade de São Paulo, já eram habitados pelos primeiros brasileiros, os índios. Os chamados guaianazes e tupiniquins.

– Quem inventou essa data de 25 de janeiro foram os padres e os brancos europeus – um amigo comentou outro dia.

Tem razão. A história sempre foi contada pelos vencedores. Por isso, tenho um sonho antigo. Trata-se da preparação de um livro, onde seriam reunidos os relatos dos que vieram de fora, com a sua inicial impressão da metrópole. Centenas de migrantes em torno de um projeto único: a revelação da primeira vez que viram São Paulo.

Uma vez perguntei a dois operários da construção civil se lembravam da chegada em São Paulo. O mais novo, gaiato, deu uma risada:

– Cheguei dormindo no ônibus e não me lembro de nada.

O segundo, mais velho, recordava tudo. Qual a hora, o dia, o mês e a roupa que usava. Como num filme recordou minuciosamente a condução para chegar à casa de um parente que o acolheria, no bairro da Brasilândia, o movimento estranho de tantos carros nas ruas, a primeira noite maldormida.

– O sol da tarde era mais vermelho, as luzes das lâmpadas mais brancas, o coração parecia pequeno de tanto medo – anotou em sua memória.

O poeta Arnaldo Xavier (1948-2004) deixou escritas suas recordações: era fim de outubro, 1969. Vista ao longe da rodovia Anhanguera, a cidade estava encoberta por uma neblina reluzente e nervosa, a garoa? As silhuetas compostas pelos prédios configuravam São Paulo, como a boca de um gigante, cujos dentes ameaçavam morder rubras nuvens dispersas ante os primeiros e tímidos raios de “um sol de quase dezembro”.

– Lá estava São Paulo, gigante deitado sobre o planalto de Piratininga, molhando os pés enfumaçados ora em Cananéia, ora em Itanhaém, ora em Ilhabela – ele lembra. – Diante daquele primeiro olhar, a enorme boca foi pouco a pouco se traduzindo em ruas, avenidas, pontes e viadutos. Ali estava, flácido e sujo, o rio Tietê, expondo as fraturas de seu destino de locomotiva e de promessa de dias melhores.

Sempre recordo a primeira vez que vi São Paulo. Era Carnaval de 1970. Domingo. Chovia. A antiga rodoviária, na área central, coloriu os olhos. Depois, o trem no Brás. O Tietê. As estações que passavam e, ao lado, fábricas e moradias. Mais adiante, o fascínio pelos arredores de São Miguel, o bairro crescendo em volta da Nitroquímica. O ônibus urbano que me deixa numa travessa da antiga São Paulo-Rio.

A casa na travessa da Rua Tenente Délia, o sofá marrom tomando toda a metade da miúda sala. Uma cortina verde separando a sala dos mundos dos quartos pequenos. A cozinha apertada, o fogão pequeno. Sim, tudo tão novo, tão diferente. Nos dias seguintes, a busca do emprego de fábrica em fábrica. Muitas cidades numa só – multicidades. Zona Leste: Itaim Paulista, São Miguel, Ermelino, Penha, Tatuapé.

Depois, fui desvendando os labirintos de São Paulo, da Capela do Socorro à Lapa, da Vila Maria aos Jardins. Escrevi livros, criei filhos e plantei árvores. São, portanto, mais de quatro décadas de vida em comum com a metrópole. Enfim, um casamento que deu certo. 

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É hoje o lançamento de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange!

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Crônicas de Berlim (22): O dia em que o mundo virou de cabeça pra baixo

Tag von Potsdam, Adolf Hitler, Paul v. HindenburgPor Flavio Aguiar.

Hoje, 30 de janeiro de 2013, faz 80 anos que Hitler foi chamado para formar o governo e exercer o cargo de chanceler – como se chama o ou a primeiro(a) ministro(a) aqui.

Até hoje me pergunto o que passava pela cabeça do Marechal Hindenburg, então presidente da Alemanha, ao cometer tal gesto, que viria a ser um dos maiores estrupícios da humanidade. Porque é fácil explicar Hitler com base nele mesmo. O duro é pensar nas pessoas que estavam ao redor. O que pensavam? Não me refiro a facínoras como Goebbels, Göring, Himmler et caterva. Me refiro aos demais, que pensaram demais ou de menos. Demais: Hitler era uma segurança contra o avanço comunista. De menos: ele seria passageiro, terminaria sendo ejetado do posto que ambicionava. Afinal, para aristocracia alemã, que ainda respirava o ar do fanado Império, ou para a classe política ascendente, ele era um mero “parvenu”, um “novo rico” do sistema eleitoral alemão…

Mas neste ano de 2013 comemoram-se vários aniversários em final 0. Ainda quanto ao nazismo, vai fazer também 80 anos que o Reichstag pegou fogo (27/2) e a culpa foi jogada sobre os comunistas. Em 22 de março daquele ano o governo nazista abriu seu primeiro campo de concentração, o de Dachau, perto de Munique. Não era um campo de extermínio de judeus. Era para os adversários políticos do nazismo, que lá eram torturados e assassinados, meio de acordo com a vontade dos carcereiros de plantão. Em 10 de maio do mesmo ano (1933) houve a macabra queima de livros na hoje Bebelplatz.

Avancemos dez anos: em 2 de fevereiro de 1943 terminava a Batalha de Stalingrado, segundo muitos a mais decisiva da Segunda Guerra, com a derrota e a rendição do 6º Exército alemão. Hitler deu – praticamente – ordens ao comandante, Friedrich von Paulus, para que se matasse, no que não foi obedecido, prova de que o 3º Reich de fato já se desfazia.

Avancemos mais ainda, mudando de registro. Dez anos depois, em 1953, em 5 de março, morria Josef Stalin, o ex-camarada Koba, e subia Nikita Kruschev, cujo nome até hoje me complico para escrever, Kruschev, Kruschov, Khruschohv, enfim, Nikita para os íntimos. Em 16 e 17 de junho daquele ano houve uma grande revolta dos trabalhadores de Berlim Oriental, protestando contra más condições e aumento das horas de trabalho, sem reajuste. O governo chamou os tanques soviéticos, e o resultado foi a morte de 153 manifestantes. Foi a primeira grande revolta popular contra a ocupação soviética na Europa do Leste, que seria seguida pelo levante húngaro de 1956. Consta que por causa dessa repressão violenta aos trabalhadores alemães o camarada Nikita defenestrou da direção do Partido Laurentiy Beria, um dos remanescentes da era Stalin, que terminaria fuzilado em dezembro daquele ano. A União Soviética dava a outra volta do parafuso.

Avancemos mais um pouco (depois voltaremos): em 1963 (junho), morria João XXIII. Seu sucessor, mais morno, Paulo VI, abriria o caminho (passando pela misteriosa morte de João Paulo I) para o longo reinado de João Paulo II, o apóstolo do fim do comunismo, e que abriu caminho para o apagado mas rígido Bento XVI. Já em novembro o assassinato de John Kennedy estarrecia o mundo – estupefação que dura até hoje, porque a explicação oficial não convenceu.

Ainda haveria muito o que falar. Allende, 1973, por exemplo. 1983, os Estados Unidos invadem Granada. O rivalíssimo Grêmio de Porto Alegre vence a Copa Toyota no Japão e se acha campeão do mundo… 1993: o primeiro ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque, então recém inaugurado, prenuncia o de 11 de setembro de 2001. 2003: Lula toma posse como presidente em Brasília, para alegria de muitos e choro e ranger de dentes também de muitos.

Mas me fixo, agora, numa nota estritamente pessoal. Em 1953, em dia que não lembro, Getúlio Vargas fez sua última visita – em vida – a Porto Alegre. Desfilou em carro aberto e eu, com estes olhos que a terra um dia há de beijar, encarapitado sobre os ombros de meu pai, na Praça da Matriz, em meio a uma multidão incalculável, o vi passar, acenando para o povaréu…

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Falta só 1 dia para o lançamento de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange! O livro já está em pré-venda, com desconto, nas livrarias SaraivaCultura e Travessa.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A mercantilização da internet e das redes sociais

13.01.30_A mercantilização da internetPor Dênis de Moraes.*

 Em memória de Valério Cruz Brittos (1964-2012),
que partiu tão cedo demais.

No atual estágio do capitalismo, um dos eixos essenciais para a conservação da hegemonia econômica e mercadológica é a capacidade de acumulação financeira numa economia de interconexões eletrônicas. As chamadas “forças do mercado” atrelam sua vocação expansiva a apropriações do sistema tecnológico, em contínua integração de fluxos de altíssima velocidade, a um custo decrescente, e tendo por escopo a comercialização generalizada. Como se não bastasse sua ressonância nas máquinas midiáticas globais, a lógica do lucro que preside a expansão da forma-mercadoria a todos os campos de atividades se irradia por redes infoeletrônicas de alcance planetário.

A internet é um dos alvos mais cobiçados pelas corporações, que expandem seus tentáculos no ciberespaço em múltiplas direções: comércio eletrônico, publicidade e serviços pagos, exposições de marcas, patrocínios, jogos, produção de conteúdos audiovisuais e monitoramento de redes sociais para identificar tendências de consumo e comportamento, entre outros focos. Tudo isso à luz de sofisticadas estratégias e técnicas de comercialização, publicidade, marketing, criação e veiculação, cujo foco primordial – assumido mas jamais declarado – é a mercantilização dos espaços virtuais. Tais investidas reforçam a influência da ideologia do modo de produção capitalista nas linhas conformadoras do imaginário social, notadamente as que remetem ao consumismo.

O crescimento exponencial do número de pessoas conectadas está na base da corrida comercial para Facebook, Twitter, Youtube, Hi5, My Space, Daily Motion, etc., que congregam interesses afins e estimulam padrões de sociabilidade à distância, além de favorecer permutas de materiais audiovisuais (filmes, vídeos, músicas, fotos, jogos). Algumas dessas redes já estão entre as marcas mais supervalorizadas do mundo, o que ajuda a entender os vínculos com corporações: Facebook pertence à News; Orkut e YouTube, à Google; My Space, à Microsoft. Para adequar-se à economia multimídia globalizada, o gerenciamento das redes inclui alianças e parcerias com gigantes de informação e entretenimento (News, Time Warner, Viacom, Disney, Vivendi), tanto em conteúdos e eventos compartilhados quanto em campanhas publicitárias ou promocionais que exigem plataformas de grande visibilidade na Web e extensos cadastros de consumidores potenciais.

As atividades online e os históricos de navegação contribuem para expor os internautas a uma torrente de anúncios e pressões de consumo. A publicidade alastra-se pelas redes sociais. Dificilmente conseguimos acessar vídeos no YouTube disponibilizados pela indústria do entretenimento sem esbarrar, primeiro, em peças ou chamadas publicitárias. O mesmo sucede no Facebook, a cada dia mais empanturrado de anúncios, banners, patrocínios e campanhas, compulsoriamente inseridos na coluna lateral direita das páginas.

O rastreamento de usuários, com finalidades mercadológicas, se vale tanto de diretórios de buscas, que podem localizar interesses dos consumidores em determinados produtos ou serviços pagos, quanto do expediente de se clicar em banners ou anúncios online, acionando um sistema de acompanhamento e mensuração do nível de atenção às mensagens. Pelo menos 260 de 500 corporações pesquisadas pelo consultor de e-branding Dan Schawbel monitoram hábitos e preferências de consumo através de análises de acessos a sites, downloads de vídeos e músicas e rss feeds (avisos por e-mail de atualizações das páginas preferidas e reunidas em uma única tela). (1) A utilização de dados fornecidos pelos próprios usuários, de maneira voluntária e inconsciente, revela-se crucial para conectar, de maneira mais rápida e eficaz, anunciantes a consumidores. Informações pessoais, nomes de amigos, localização geográfica, gostos e preferências de consumo são facilmente obtidos em perfis, fotos e interações.

No segundo semestre de 2012, informações sobre 900 milhões de adeptos do Facebook começaram a servir para comparar comportamentos dentro da rede social com os hábitos de consumo fora do ambiente online. A empresa de “mineração de dados” Datalogix faz pesquisas sobre os produtos que as pessoas compram em lojas físicas e cruza as informações obtidas com os perfis na rede social. O objetivo é simples: provar o grau de influência dos anúncios e atrair a atenção da publicidade para o negócio que movimenta mais de US$ 3,7 bilhões por ano. De acordo com informe divulgado pelo Facebook, em 70% dos casos, cada US$ 1 gasto em publicidade na página gera US$ 3 de lucro nas vendas. (2)

A explosão de acessos desencadeada, em boa parte, pela popularização de smartphones, comprova a influência desse tipo de mídia nos hábitos de navegação e de consumo. De acordo com pesquisa realizada nos Estados Unidos pelas consultorias Nielsen e NM Incite, o tempo total gasto em redes sociais, em 2012, aumentou 37%, em comparação ao ano anterior. Os dados revelaram ainda que internautas utilizam até 30% do tempo online em sites como Facebook, Twitter, YouTube, LinkedIn, Instagram e Pinterest, chegando a passar 121 bilhões de segundos por mês conectados a eles. Nos Estados Unidos, 44% dos que possuem tablets e 38% dos que têm smartphones usam seus dispositivos para acessá-los enquanto assistem TV. (3)

Para se diferenciar dos sites convencionais, as redes sociais reúnem, dentro de um mesmo espaço virtual, diversas funcionalidades, que mantêm os usuários entretidos e conectados por mais tempo. O especialista em mídia digital Celso Fortes, analisa que, em uma situação extrema, muitas pessoas não sairão mais da rede social para quase nada. “Se ele conseguir pagar as contas, comprar produtos, ler as novidades dos amigos, trocar mensagens, não vai precisar sair das mídias sociais. E o anunciante vai gostar muito disso”. (4) A proposta também agrada investidores, patrocinadores e políticos, que oferecem ao internauta, de forma simultânea e sutil, uma série de aplicativos, produtos e serviços, aproximando-os, assim, de pessoas, marcas e eventos.  É caso do Twitter (200 milhões de usuários ativos por mês), que se tornou uma eficiente ferramenta de divulgação de grandes eventos. Durante os Jogos Olímpicos de Londres, por exemplo, 150 milhões de tweets mencionaram o megaevento.

A circulação de páginas empresariais dentro do Facebook vem atraindo anunciantes globais. A Coca-Cola lançou uma página para o refrigerante Sprite com o jogo “Sprite Sips”, que permite ao internauta interagir com um pequeno personagem animado. À medida que seus amigos entram na rede, automaticamente aparecem pequenos alertas de textos. Sprite passa a ser “experimentado” por outros integrantes do grupo.

Os milhões de cadastrados no Facebook também podem participar das páginas de marcas, acrescentando avaliações, fotos e sugestões, assim como já fazem nas páginas de seus amigos. A próxima etapa é monitorar hábitos culturais (compra de entradas de cinema, download de músicas on line etc.), o que valerá alertas automáticos de textos para que seus amigos tomem conhecimento e, eventualmente, decidam fazer o mesmo e recomendem a outras pessoas. (5)

Sem falar que os administradores se apressam em disponibilizar páginas em diversos idiomas e com conteúdos regionais, intensificando adesões e agregando anunciantes e patrocínios. O conteúdo para os portais é produzido por equipes locais, da mesma forma que as parcerias comerciais são firmadas com empresas de cada país.(6)

Não por acaso, The Economist batizou de “santo graal” do mundo virtual a interação entre marcas e usuários nos ambientes de compartilhamento de redes sociais. O diferencial expressivo é que as redes oferecem outras possibilidades exploratórias dos recursos multimídias. Não se trata de uma interpretação particular sobre a apropriação mercantil das redes; são as próprias corporações que se incumbem de alardear o novo Eldorado para transações lucrativas. É o que se lê na página de Facebook em espanhol: “Ter visibilidade e presença na Internet envolve muitos fatores. Ter um lugar no Facebook te oferece uma vantagem extra sobre teus competidores, porque, além de te permitir levar grande quantidade de tráfego até tuas páginas na Web, estarás em contato com clientes, provedores e pessoas interessadas em fazer negócios contigo.”

Da mesma forma ocorre com o Twitter, que deixou de ser simplesmente um ambiente de sociabilidade para transformar-se em ferramenta virtual para novos modelos de negócios e marketing corporativo, favorecendo, com conexões instantâneas entre empresas do mercado financeiro, acionistas, investidores e especuladores. O lema do Twitter reproduz a obsessão de encurtar, comprimir, controlar, explorar e condicionar o tempo e as circunstâncias de vida: “Compartilhar e descobrir o que está acontecendo agora mesmo, em qualquer parte do mundo”. Em 140 caracteres por post e sem limites na quantidade de atualizações. Nada há de casual entre o boom de publicidade e acordos comerciais conseguidos pelo Twitter, obviamente motivados por seu espantoso crescimento de mais de seis milhões de adesões por mês. (7) Hi5 é ainda mais enfático ao expor em sua página as vantagens a clientes corporativos, especialmente para seduzir consumidores jovens, que constituem a maioria dos usuários: “Mediante a combinação de inovadoras opções criativas com as potentes técnicas de marketing viral, Hi5 é a maneira mais criativa com as potentes técnicas de marketing viral, Hi5 é a maneira mais eficaz para penetrar no mercado mundial da juventude, ao mesmo tempo em que reforça sua identidade de marca única”.

Pelo exposto, o termo “redes sociais” é impreciso e insuficiente para definir o que acontece atualmente no ecossistema virtual. Devemos reconhecer e sublinhar as aberturas, funcionalidades e perspectivas introduzidas pela internet, desde os serviços públicos online às novas dinâmicas de informação, difusão, expressão cultural, experimentação estética, sociabilidade, interação, intercâmbio, pesquisa, identidade, ativismo político, trabalho, metodologias educativas e práticas colaborativas. Mas não podemos ceder à celebração do mundo virtual como suprema relíquia, desprovida de contradições e disputas em sua utilização no meio social. Cabe também analisar o outro lado da moeda: a sua ocupação indiscriminada a soldo da financeirização da vida e da reificação das relações humanas.

Daí a necessidade de jogarmos um facho de luz sobre a complexidade e as contradições de tais ambientes. Significa desvelar e avaliar criticamente a avalanche mercantil que, livre de qualquer forma democrática de regulação por interesse público, social e coletivo, vem facilitando enormemente a apropriação da rede mundial de computadores por incisivas ações empresariais em busca de rentabilidade, lucratividade e dividendos competitivos.

* Amplio e desenvolvo neste texto questões abordadas em meu livro Mutaciones de lo visible: comunicación y procesos culturales en la era digital (Buenos Aires, Paidós, 2010). Agradeço a colaboração de Lívia Assad de Moraes na pesquisa.

Notas

(1)  Dan Schawbel, “E-branding becomes mandatory for surviving the digital age”, Brandchannel, 30 de junho de 2008, disponível aqui. Pesquisa da consultoria Deloitte revelou que, em 2012, 70% das empresas brasileiras estavam presentes nas mídias sociais. Destas, 83% confirmaram que a participação nas redes tinha como objetivo a divulgação de seus produtos e serviços. Ver Luiza Xavier, “Empresas ‘curtem’ perfis dos consumidores nas redes sociais”, O Globo, 24 de setembro de 2012.

(2)  Geoffrey A. Fowler, “Facebook tenta lucrar vendendo dados de usuário”, The Wall Street Journal/Valor Econômico, 3 de outubro de 2012.

(3)  Carlos Alberto Teixeira, “Com as redes sociais, mudança foi radical no uso da internet”, O Globo, 31 de dezembro de 2012.

(4)  Celso Fortes citado por Carlos Alberto Teixeira, “Com as redes sociais, mudança foi radical no uso da internet”, O Globo, 31 de dezembro de 2012.

(5)  The Economist, 13 de novembro de 2007.

(6)  Últimas Notícias, 26 de abril de 2007, disponível aqui

(7)  O estudo sobre o crescimento do número de usuários do Twitter está disponível em: aqui.

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Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO, Argentina, 2005). Atualmente, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Foi contemplado em 2010 com o Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro. Autor de mais de 25 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba. Pela Boitempo, publicou Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (2013) e O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Que dia mesmo é hoje?

ou Abaixo os calendários!, Pra quê calendário? ou, melhor ainda, Por um mundo sem calendários.

13.01.29_Mouzar Benedito_Calendarios.jpgPor Mouzar Benedito.

Muita gente me disse esta semana que o ano de 2013 ainda não começou. Primeiro de janeiro é uma data simbólica, mas o Brasil só engrena num novo ano um pouco depois. Para uns, é uma semana, para outros, o ano começa com o fim das férias, e para muitos e muitos o ano começa no Brasil só depois do Carnaval.

Há quem ache que esta história do ano novo ser depois do Carnaval começou na Bahia, com as festas que se iniciam em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, se estendem por dezembro, depois janeiro, passando por muitas festas, como a da Lapinha e a do Bonfim, e só encerram com o Carnaval, que aliás é meio espichado. Foi-se o tempo em que o Carnaval terminava na terça-feira.

Mas isso do baiano ser festeiro é só meia verdade. Pelo menos hoje em dia, baiano trabalha muito.

De qualquer jeito, podemos dizer que o ano novo em primeiro de janeiro é uma formalidade. Se considerarmos a volta do país funcionar, a data varia.

Mas isso não devia ser encarado como algo errado, a escolha do primeiro de janeiro é mesmo uma formalidade iniciada na Europa e espalhada no mundo. Para muitos povos, o início de um novo ano começa em datas diferentes, e em boa parte deles a data é móvel, se baseia no calendário lunar ou outro qualquer.

E mesmo a contagem dos anos é diferente, o 2013 é uma contagem cristã, a partir do suposto nascimento de Jesus Cristo.

Vejamos os judeus… Para eles, o Ano Novo, a que chamam Rosh Hashaná ― expressão que significa “cabeça do ano” ― é uma data móvel. O próximo ano novo deles vai ser em 5 de setembro, quando começará, para os judeus, o ano 5774.

Para os chineses, que também têm uma data móvel para o ano novo, em 10 de fevereiro começará o ano 4711, e ano da cobra, pois eles homenageiam cada ano dando a ele a representação de um animal. São 12 os animais que teriam atendido a um chamado pelo Buda, para uma reunião. Gozado é que o dragão é um desses animais. Pela seqüência, os animais que dão nomes aos anos são o rato, o búfalo (ou boi), tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco.

Para os povos islâmicos, o ano 1435 ano se iniciará em 14 de novembro. Eles contam os anos a partir da Hégira, nome que se dá à fuga de Maomé de Meca para Medina, no ano 622 da era cristã.

Bom… Até séculos podem começar fora da data oficial. Para alguns historiadores, o século XX, por exemplo, começou de fato com a Primeira Guerra Mundial, em 1914. E ouço muita gente falando também que o século XXI começou de fato em 11 de setembro de 2001, data do atentado contra as torres gêmeas de Nova York.

Mas bom mesmo é gente tão despreocupada que não conta os anos e nem mesmo os dias. Não estou falando dos nossos índios, mas de um povoado que já foi muito importante em Minas Gerais. Chama-se Desemboque, fica no município de Sacramento, teve uma população grande enquanto se explorava ouro, e é considerado um centro de formação da cultura mineira. Com o fim do ouro, foi-se esvaziando. Hoje restam algumas dezenas de casas e uma população minúscula.

Certamente, hoje contam os dias e os anos lá, mas não foi sempre assim.

Na década de 1960 ouvi um ator contar uma história, de que estava com esgotamento nervoso, nome que se dava na época ao que hoje chama-se estresse, e queria um lugar bem calmo pra descansar.

Foi então levado por um amigo, que acho que era o Lima Duarte, que nasceu lá, para passar um tempinho no Desemboque.

Um dia, de manhã, o cara perguntou ao amigo se era quarta ou quinta-feira, e o amigo não sabia. Bateu a curiosidade e perguntaram pro pessoal que os recebia, mas eles também não sabiam. Perguntaram ao vizinho, que nem ligava pra isso. Foram de casa em casa, ninguém sabia que dia da semana era.

Com aquela ânsia de querer saber que dia era, coisa de quem dá importância a datas, o que não acontecia lá, acabaram contratando um cavaleiro para ir à cidade só para perguntar em que dia da semana estavam e voltasse.

Ô, lugar que era bom de se viver!

Mas pensando bem, em Minas continua tendo gente com o espírito do Desemboque. Lembro-me do meu primo Nicolau, jornalista que trabalhava numa emissora de TV em Varginha, e sua família morava em Cabo Verde (não o país, há uma cidade mineira com esse nome).

Uma vez, já faz mais de uma década, fui passar o Carnaval na minha terra e dei uma parada em Cabo Verde. O Nicolau estava lá. Perguntei pra ele:

– Ô, Nicolau, te deram folga no Carnaval? Nessa época uma equipe reduzida de televisão, como a sua, não dá folga pra ninguém.

– Pedi demissão – respondeu calmamente.

Sabendo das dificuldades para jornalista arrumar emprego na região, ainda mais para alguém especializado em jornalismo televisivo, quis saber que projetos ele tinha.

Mais calmamente ainda, naquela sexta-feira modorrenta do início de fevereiro, ele respondeu:

– Vou descansar esse restinho de ano. 

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

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“Este livro não é um manifesto. Não há tempo para isso. Este livro é um alerta.” Julian Assange, na introdução de Cypherpunks.

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O comunista Oscar Niemeyer

13.01.23_niemeyer_joao alexandre peschanskiPor João Alexandre Peschanski.

No início de agosto, lá em 2005, veio a confirmação: Oscar Niemeyer me concederia uma entrevista no fim do mês. À época, trabalhava no semanal Brasil de Fato, pelo qual, me informava por telefone um dos funcionários do escritório do arquiteto, Niemeyer tinha grande simpatia. A ideia da entrevista era de um amigo, liderança do MST no Rio de Janeiro, e eu, talvez porque não estivesse muito confiante de que daria certo, havia topado. Niemeyer colaborou em várias oportunidades com o MST e, por isso, contava-me seu funcionário pelo telefone, estava entusiasmado. E eu, com menos de cinco anos de formado, aterrorizado!

Pensei: Não se entrevista o Niemeyer como se pega uma aspa de um político ou militante sobre a reforma agrária, os rumos da economia. Fui estudar. Fichei livros de arquitetura, conversei com arquitetos, vasculhei a arquitetura moderna e seus críticos, li as repercussões das construções modernistas nos mais variados campos científicos, da sociologia à saúde pública. Quando tomei o ônibus para o Rio, acompanhava-me meia dúzia de livros, que revisei cuidadosamente.

Quando cheguei, trinta minutos antes do combinado, em frente ao escritório do Niemeyer, no último andar de um pitoresco prédio na orla de Copacabana, revisava num papelzinho a ordem das perguntas que pretendia fazer, últimos retoques de um roteiro de entrevista que preparara por quase um mês. Subi. Esperei, já no escritório, a chegada do dirigente do MST e da Taís Peyneau, a fotógrafa. Nas paredes, aparentemente feitos à mão desenhos e rascunhos do arquiteto. A vista em ziguezague do mar, das janelas projetadas por Niemeyer. Funcionários, serenos, ocupados, debruçados sobre croquis e plantas. Assim que chegaram todos, fomos a uma sala privativa, prateleiras cheias de livros, alguns quadros e retratos.

“Vocês aceitam uma água de coco?” Todo de branco, misturando-se a meus olhos com as paredes do apartamento; era do Niemeyer a primeira pergunta. Estava sentado, com um boné do MST sobre o colo, que esfregava com os dedos. Pôs a mão no meu rosto; “Bem-vindo”. Sentia no meu bolso o papelzinho com as perguntas sobre Brasília, a sede do Partido Comunista Francês, o Memorial da América Latina. Lembrei do experiente jornalista José Arbex Jr., meu professor na faculdade, que um dia me confessara não saber o que perguntar ao Niemeyer, para uma entrevista coletiva organizada pela Caros Amigos.

Niemeyer conversou uns minutos com o dirigente do MST. A Taís fotografava: as mãos, um rascunho sobre a mesa, os livros, o arquiteto. Era minha vez. Mas… Foi Niemeyer quem falou: “Não vamos começar com a arquitetura. Falar de arquitetura é uma merda. Vamos falar de política. Você sabe, sou comunista”. E, por mais que minha inocência me tenha levado a fazer algumas perguntas sobre arquitetura, já quase no fim da entrevista, falamos de política.

           

* * *

A entrevista está na íntegra aqui; segue uma pequena seleção das ideias desse militante comunista. Niemeyer faleceu em 5 de dezembro de 2012, no Rio de Janeiro, aos 104 anos.

BF - Apesar da queda do muro de Berlim, da dissolução da União Soviética e, agora, da crise do PT, o senhor continua a ser comunista. De onde encontra motivação?

Oscar Niemeyer - Deste mundo de pobres que nos cerca e até hoje espera por uma vida melhor.

BF - O comunismo é a solução?

Oscar Niemeyer - O comunismo resolve o problema da vida. Faz com que a vida seja mais justa. E isso é fundamental. Mas o ser humano, este continua desprotegido, entregue à sorte que o destino lhe impõe.

BF – O senhor concilia arquitetura e comunismo, que parecem distantes…

Oscar Niemeyer - A vida é mais importante do que a arquitetura. A arquitetura não muda nada, mas a vida pode mudar a arquitetura.

BF – Na arquitetura, o senhor está trabalhando em algum projeto que traduza sua visão atual do Brasil e do mundo?

Oscar Niemeyer - Se eu fosse jovem, em vez de fazer arquitetura, gostaria de estar na rua protestando contra este mundo de merda em que vivemos. Mas, se isso não é possível, limito-me a reclamar o mundo mais justo que desejamos, com os homens iguais, de mãos dadas, vivendo dignamente esta vida curta e sem perspectivas que o destino lhes impõe.

BF – A arquitetura não tem função social?

Oscar Niemeyer - Deveria ter. Mas, quando ela é bonita e diferente, proporciona pelo menos aos pobres e ricos um momento de surpresa e admiração. Mas quanto lero-lero! Na verdade, o que nós queremos é a revolução.

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João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A síndrome Safatle/Dutra (II)

13.01.24_Izaías Almada_A síndrome SafatleDutra_IIPor Izaías Almada.

Ao afirmar que os condenados do mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para manter tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável”

Vladimir Safatle em artigo na Folha de São Paulo

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 “… todos os que o conhecem nunca tiveram um minuto de dúvida quanto à sua integridade de caráter e quanto à limpidez de sua trajetória de vida. Entre eles estou eu, admirador que sempre o considerou um militante exemplo pela sua dignidade, a coragem e a lucidez…”

Prof. Antonio Candido, em carta ao deputado José Genoíno

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Com a contextualização em relação ao título desses meus artigos feita no primeiro deles atempadamente pela amiga Conceição Lemes – do Viomundo – volto ao assunto sobre as opiniões do professor Vladimir Safatle e do ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Vamos em frente.

Em 1997 tive o privilégio de coordenar, junto com os jornalistas Granville Ponce e Alípio Freire, o livro de memórias de prisioneiros políticos Tiradentes: um presídio da ditadura. Privilégio acrescido com a honra de ter como apresentador da obra o professor Antonio Candido de Mello e Souza, um de nossos mais brilhantes intelectuais. No seu prefácio, o professor Antonio Candido destaca o seguinte trecho dos organizadores à página 16, referindo-se aos memorialistas:

“Ninguém é vítima ao aderir a uma causa (a opção pela luta armada) de livre e espontânea vontade, mesmo considerando a possibilidade de uma ou de outra falha no recrutamento de um militante. É curioso notar, inclusive, que de todos os textos que recebemos, não há nenhum em que o autor faça qualquer alusão a uma eventual condição de vítima daquele processo de luta política. E só não comete erros quem não ousa”.

De certa maneira, a autocrítica daquele processo de ousada luta política foi feita por muitos que após e experiência da luta armada se incorporaram à criação do Partido dos Trabalhadores, que teve o professor Antonio Candido como um de seus fundadores. Autocrítica que pressupunha a crença em valores democráticos ainda por conquistar. Entre eles estavam José Genoíno e José Dirceu.

Vencida a ditadura em alguns dos seus aspectos mais sensíveis e visíveis, como a liberdade de reunião e a volta dos sindicatos, das organizações estudantis, o fim da censura à imprensa, a retorno do ‘habeas corpus’, o direito de ir e vir, o cessar das mortes e desaparecimentos de opositores ao regime, parte representativa da esquerda e não só, organizou e fundou o PT. E partidos políticos, ao que se sabe, se organizam para chegar ao poder político, como é óbvio, e se possível chegar ao mais alto cargo governamental republicano, o que foi conseguido em 2002 com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Refém de uma economia de mercado atrelada aos interesses rentistas e corporativos, nacionais e internacionais, bem como de um quadro político partidário anômalo, fisiológico e bastante conservador, o PT – como qualquer outro partido de esquerda progressista e democrático – apesar das seguidas vitórias eleitorais viu-se jogado às feras numa arena onde a platéia dividia-se entre a esperança e o medo. Diariamente, desde então, jornais, rádios, televisões, revistas semanais vêm tentando colocar o PT, seus militantes e seus eleitores no “seu devido lugar”. A Casa Grande mostrava e continua a mostrar as garras através dos seus porta-vozes.

Visto pelas lentes da dialética pode-se dizer que para os seus eleitores, o PT trouxe a esperança; para os adversários, em particular os mais conservadores, o medo, o receio. Quem não se lembra da campanha contra Lula em 1989? Do ponto de vista interno, entretanto, há o natural medo de não se corresponder à imensa responsabilidade de governar o país consoante às expectativas criadas e, na contramão desse medo, a esperança dos adversários pelo fracasso nesse sentido. E governar não é ir para um baile de debutantes ou praticar boas ações para ganhar o reino dos céus. Essa, quando muito, será a visão edulcorada de um medievalismo tardio, de uma cultura acadêmica afrancesada, de tempos inquisitoriais ou de exacerbado e ingênuo recato quase religioso diante do poder econômico dominante.

Passados poucos mais de 40 anos, nos quais muito se fez para o estabelecimento de um pensamento único no mundo, após a queda do socialismo real na Europa, proclamando-se para isso até o fim da História, os vários discursos neoliberais vão tendo vencidas as suas datas de garantia de uso, a última delas em 2008, já com algumas trombetas de alarme soando na Europa, nos EUA e no Japão para dias futuros.

Também após esses 40 anos é possível encontrar a sensibilidade e a solidariedade, entre centenas de milhares de brasileiros, de um professor Antonio Candido, por exemplo, que atento ao que se passa à sua volta, escreve a carta que escreveu ao deputado José Genoíno Neto, de cabeça erguida, ao contrário de outros que abandonaram, senão a luta, os caminhos escolhidos pelo PT.

Também durante esses 40 anos, novas gerações de brasileiros se formaram e se prepararam para as mais diversas atividades no campo do saber e do fazer. E cada geração, mesmo bebendo nos clássicos a sua formação e especialização, e amparada pelo conhecimento já comprovado e contínuo pelas ciências exatas ou humanas, sabemos que será sempre influenciada pelo confronto das idéias no seu dia a dia, por novas descobertas e avanços da humanidade. Ou por teorias ainda carentes de comprovação, quando estas não são lançadas apenas como estratégia de espalhar a dúvida e a confusão. Nesse confronto, nessa batalha de idéias, será preciso algum discernimento e, se necessário, saber remar contra a maré, quando for o caso.

Para os mais novos haverá sempre a tentação de reinventar a roda ao assumir a realidade do dia a dia como sendo a expressão de toda e qualquer realidade. Pedir a um partido que faça autocrítica das suas ações no atual contexto da política brasileira é direito que assiste a qualquer cidadão. Até porque, as condenações de uma ação penal ainda não concluída, é bom lembrar, não o foram em “última instância”, mas em ÚNICA INSTÂNCIA. Contudo, é preciso distinguir, no caso do PT, se tal avaliação provém de uma reflexão histórica consistente de quem vive o jogo político por dentro ou é fruto de um desejo subjetivo de escaramuças intelectuais obtidas em salas acadêmicas e redações midiáticas. Ou como diria o grande filósofo Millor Fernandes: “Certas coisas só são amargas, se a gente as engole”.

Voltarei ao tema.

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Leia também A síndrome Safatle/Dutra (I), a última coluna de Izaías Almada.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Intelectuais e processos políticos

Brasil Final.inddPor Emir Sader.

O pensamento social latino-americano tem uma longa tradição, que cruzou praticamente todo o século passado, enganchado com os principais movimentos de transformação politica do século.

Historiadores marxistas escreveram, pela primeira vez, a história de nossos países e do continente, centrados nas formas que assumia o capitalismo aqui e não simplesmente como apêndice da história europeia. Economistas desvendaram as formas de inserção subordinadas de nossas sociedades como periferia do desenvolvimento do capitalismo europeu e norte-americano. Entre tantas outras contribuições, pensadores latino-americanos construíram um pensamento de vanguarda, que apontou as contradições, os dilemas, as perspectivas de nossos países ao longo de grande parte do século passado.

As transformações radicais pelas quais o mundo passou nas últimas décadas do século passado afetaram as condições da produção teórica, os próprios temas abordados prioritariamente e as correntes de pensamento predominantes. Em primeiro lugar, o fim do campo socialista fez com que alguns achassem que é necessário se resignar ao capitalismo e buscaram a melhor forma de se adequar a esse sistema.

Paralelamente, o liberalismo avançou e consolidou posições hegemônicas, em suas varias vertentes, tanto a econômica, quanto a política. Ao mesmo tempo – e não de forma acidental – aumentou o fechamento dos intelectuais acadêmicos dentro dos muros das universidades, com refúgio em temas fragmentários e sem transcendência politica na sua vida profissional.

Por outro lado, a mercantilização que o neoliberalismo promove em todos os poros da sociedade, produziu a mídia como espaço fundamental de formação da opinião pública, com seus “intelectuais” midiáticos, ao mesmo tempo que a partidarização da mídia fez com que deixasse de ser um lugar de debate de opiniões contraditórias.

A produção intelectual foi profundamente afetada por todos esses efeitos. Como resultado político mais geral, a intelectualidade hoje, no momento em que o Brasil e a América Latina vivem um momento de virada – prenhe de contradições e complexidades –, talvez não esteja à altura desse momento histórico. Não têm sido vanguarda desses processos mas, com raras exceções, têm estado marginados deles ou atrás dos problemas que esses novos processos latino-americanos enfrentam.

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A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana é o primeiro livro de Emir Sader pela Boitempo a ganhar versão eletrônica (ebook), já à venda por apenas R$20 na Gato Sabido, Livraria da Travessa e iba, dentre outras.

As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Poesia vs. Histórias em quadrinhos?

13.01.22_Urariano Mota_Poesia X Histórias em quadrinhos_capaPor Urariano Mota.

A notícia cujo título estampava “ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda”, na Folha de São Paulo, me faz agora pegar um afluente ou um desvio. Antes, vale a pena recuperar o texto da boa-nova.

“Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a ‘linguagem coloquial’.

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico Daily Telegraph, mostram que a atividade do cérebro ‘dispara’ quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia “é mais útil que os livros de autoajuda”, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

Para essa nova, espero que, a pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, não adaptem os clássicos a versões de quadrinhos ou a leituras mais simplificadas. Porque aí o cérebro estaciona. Entendam, por favor, se eu puder atingir a clareza.

Nem de longe me refiro ao poder pedagógico, estimulante, que têm os quadrinhos, o que chamam hoje de HQ. Aliás, o gibi da nossa infância. Eu me refiro às adaptações dos clássicos aos quadrinhos. A uma, por exemplo, adaptação de Os lusíadas, ou de Guerra e paz a quadrinhos. Uma hipótese terrível a nível de pesadelo. Uma adaptação do gênero empobrece o que em si é fonte viva de conhecimento e de inteligência: a leitura a partir do texto, que é infinitamente superior em gozo à sua simplificação. E não se espantem por favor do que pode parecer uma afirmação sectária: adaptar a literatura a outras formas é simplificá-la. É a pior das traduções, pelo que ela perde de alumbramento e significados. Em outra ponta de versão, pense-se no cinema, pense-se no fracasso (como sensibilidade e descoberta do mundo) de Guerra e paz nas telas. Ou do ridículo que foi Em busca do tempo perdido nas telas, que geraria, por si, um outro artigo, ou ensaio, se eu pudesse.

Entendam. Nada contra o papel dos quadrinhos até como ferramenta de aprendizagem da leitura. De viva experiência, lembro que na infância aprendi a ler para ler aquelas figurinhas e o que elas falavam. Mas não posso nem devo aceitar que em nome de facilidades se aceitem coisas como “os alunos percebem que uma mesma mensagem pode ser transmitida de diferentes maneiras e que não há uma mais nobre que a outra”, como tenho lido aqui e ali. Essa indiferente tradutibilidade, uma palavra feia, é falsa, diria até, danosa. Todos podemos dar versões, aproximações, mas é perigosa a crença de que Shakespeare no palco é o mesmo Shakespeare em HQ, por exemplo. Quem assim acredita age como o personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:

– Entendeu?

E o repórter respondia:

– Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 

E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:

– Entendeu?

E o repórter, finalmente satisfeito:

– Sim, agora, sim.

E o grande Einstein desalentado:

– É, mas já agora não é a Teoria da Relatividade. 

As HQs e o cinema apenas deixam a impressão de que se conhece um clássico a partir da sua versão. (Em alguns casos, autênticas aversões.) Mas notem. É curioso como todos compreendemos que uma pintura ou uma obra musical não se substituem por uma narração em prosa. Substituir Vivaldi, por exemplo, por um livro que refletisse Vivaldi. Ou até as imagens, na tela, que substituam a visão do quadro mesmo, como me senti em relação às gravuras de Goya, quando mergulhei numa arrebentação íntima, com aquelas suas gravuras sobre a guerra. Isso compreendemos. No entanto, a maioria aceita que uma narração venha a ser substituída por uma HQ ou um filme. Não é tragicômico? As HQs e o cinema são expressões de arte autônoma, que podem (e devem) dialogar com outras expressões. Mas daí não se tire a conclusão de que podemos conhecer um romance por sua recriação em meios tão limitados. Esta é a palavra, limitados. O que na expressão literária é um oceano de sentidos, nas demais vemos piscinas, piscininhas, que nos dão a ilusão de que “o mar pode ser visto nesta porção de água”.    

Para ser mais claro, enfim, pense-se nas obras recontadas, como o Dom Quixote, que mais de uma boa intenção achou por bem recontar em livrinho não faz muito tempo. Todo jovem, toda criança que ler esse resumo pensará que conhece o Dom Quixote. Se assim é de um texto oceânico para um textinho de riacho, riacho temporário, já se vê, imagine-se A divina comédia em HQ (já se fez)…

Por último e por fim. De Goethe, no livro Poesia e verdade, guardei: “Como distinguir o que eu pusera de minha vida e de meus sofrimentos nessa composição, se jovem e despercebido eu vivera se não no mistério, pelo menos na obscuridade?”. Assim o fundamental poeta refletiu sobre a recepção do Werther na Europa. Fico a imaginar como seria pôr essa luminosidade em um balãozinho.

13.01.22_Urariano Mota_Poesia X Histórias em quadrinhos_detalhe

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.