Normalização da tortura? Não, obrigado!

13.02.07_Slavoj Zizek_Normalização da tortura2Por Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido pela Carta Maior, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

For the english version, click here.

Aqui está como, em uma carta ao jornal LA Times, a cineasta Kathryn Bigelow justificou a representação, no filme A hora mais escura, de métodos de tortura usados pelos agentes do governo norte-americano para capturar e matar Osama Bin Laden:

“Aqueles de nós que trabalham com arte sabem que representação não é aprovação, elogio. Se o fosse, nenhum artista estaria apto a pintar atos desumanos, nenhum autor poderia escrever sobre eles, e nenhum diretor de cinema poderia se aprofundar em assuntos espinhosos de nosso tempo”, escreveu ela ao jornal.

Sério? Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra o ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo. Imagine um documentário que nos apresente o Holocausto de um jeito desinteressado e tranquilo, como uma enorme operação logística-industrial, focando nos problemas técnicos envolvidos (transporte, descarte de corpos, prevenção do pânico entre os prisioneiros que seriam postos nas salas de gás). Tal filme traria também consigo uma fascinação profundamente imoral com o assunto, ou estaria baseado numa neutralidade obscena em seu modo para gerar consternação e horror nos espectadores. Onde Bigelow se encaixa aqui?

Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe – “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns. Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas). Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é a normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito. A consciência de que esta sensação ruim sofrida pelo torturador é o principal custo humano da tortura deixa claro de que não se trata de uma propaganda conservadora barata: a complexidade psicológica é representada para que liberais possam se divertir com o filme sem se sentirem culpados. É por isso que A hora mais escura é bem pior que 24 Horas, em que Jack Bauer, pelo menos, sofre um colapso mental no final da série.

O próprio debate sobre o afogamento simulado ser ou não tortura deve ser descartado como um explícito irracionalismo: por que, se não causa dor ou medo de morrer, este afogamento faz suspeitos terroristas resistentes falarem? A recolocação da palavra “tortura” no campo da “técnica aprimorada de interrogação” é a extensão da lógica politicamente correta: exatamente da mesma forma que “alejado” torna-se “deficiente físico”, “tortura” se torna “técnica aprimorada de interrogação” (e, por que não, “estupro” pode tornar-se “técnica aprimorada de sedução”). O ponto crucial é que a tortura – violência brutal praticada pelo Estado – torna-se publicamente aceitável no momento em que a linguagem pública passa pelo prisma do “politicamente correto” para proteger as vítimas da violência simbólica. Esses fenômenos são dois lados da mesma moeda.

A defesa mais obscena feita do filme é a alegação de que Bigelow rejeita o moralismo barato, e de maneira sóbria apresenta a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questões difíceis e que, assim, nos fazem pensar (alguns críticos afirmam, ainda, que a diretora “desconstrói” clichês femininos pois Maya não mostra sentimentalismo, ela é dura e dedicada em sua tarefa… como um homem). Mas, com a tortura, alguém pode não “pensar”. Um paralelo com o estupro se faz aqui necessário por si mesmo: e se um filme mostrasse um estupro brutal neste mesmo jeito “neutro”, alegando que devemos evitar o moralismo barato e começarmos a pensar sobre o estupro em toda sua complexidade? Em nossas entranhas, fica a mensagem de que existe algo terrivelmente errado nisto. Eu gostaria de viver numa sociedade onde o estupro seja simplesmente inaceitável e que aquele que o relativize seja visto como um babaca excêntrico, não em uma sociedade onde alguém precise argumentar contra isto. O mesmo serve para tortura: um sinal de progresso ético está no fato da tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação.

Então o que dizer a respeito do argumento “realista”: tortura sempre existiu, então não é melhor falar sobre isto publicamente? Este é, exatamente, o problema. Se a tortura sempre esteve aí, por que aqueles que estão no poder agora nos contam abertamente? Só há uma resposta: para normalizar, diminuir nossos padrões éticos.

Tortura salva vidas? Talvez, mas com certeza perdem-se almas – e a justificativa mais absurda é dizer que um verdadeiro herói está pronto para renunciar sua alma para salvar as vidas desta ou deste compatriota. A normalização da tortura vista em A hora mais escura é um sinal do vácuo moral de que estamos gradualmente nos aproximando. Se há alguma dúvida sobre isto, tente imaginar um grande filme de Hollywood representando a tortura de um jeito similar vinte anos atrás. É impensável.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capaPROVISORIA_alta

A Boitempo está para lançar o novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico. Esta é uma versão provisória da capa do livro, que chega às livrarias ainda este mês!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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Normalization of torture? No, thanks!

13.02.07_Slavoj Zizek_Normalization of tortureBy Slavoj Žižek.

Originally published in The Guardian with a different title.
This version of the article was directly sent to us by the author.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

Here is how, in a letter to Los Angeles Times, Kathryn Bigelow justified Zero Dark Thirty‘s depicting of the torture methods used by government agents to catch and kill Osama bin Laden:

“Those of us who work in the arts know that depiction is not endorsement. If it was, no artist would be able to paint inhumane practices, no author could write about them, and no filmmaker could delve into the thorny subjects of our time.”

Really? Without acting like abstract moralist idealists, and being fully aware of the unpredictable urgencies of fighting terrorist attacks, should we not at least add that torturing a human being is in itself something so profoundly shattering that to depict it neutrally – i.e., to neutralize this shattering dimension – already is a kind of endorsement?

More precisely, the catch is: how is torture depicted? Since the topic is so sensitive, any kind of actual neutrality in film’s texture is here a fake – a certain stance towards the topic is always discernible. Imagine a documentary on holocaust depicting it in a cool disinterested way as a big industrial-logistic operation, dealing with the technical problems (transport, disposal of the bodies, preventing panic among the prisoners to be gassed…) – such a film would either embody a perverse and deeply immoral fascination with its topic, or it would count on the very obscene neutrality of its style to engender dismay and horror in spectators. Where is Bigelow here?

Definitely and with no shadow of a doubt on the side of normalization of torture. When Maya, the film’s heroine, first witnesses boarding, she is a little bit shocked, but she quickly learns the game – later in the film she coldly blackmails a high-level Arab prisoner with “if you don’t talk to us, we will deliver you to Israel.” Her fanatical pursuit of bin Laden helps to neutralize any ordinary moral qualms. Much more ominous is her partner, a young bearded CIA agent who masters perfectly the art of passing glibly from torture to friendliness after the victim is broken (lightning his cigarette and sharing jokes). There is something deeply disturbing in how, later in the film, he smoothly changes from bearded torturer in jeans to a well-dressed Washington bureaucrat. This is normalization at its purest and most efficient – a little bit of uneasiness, more about hurt sensitivity than about ethics, but the job has to be done. This awareness of the hurt sensitivity as the (main) human cost of torture makes it sure that the film is not a cheap Rightist propaganda: the psychological complexity is properly depicted, so that well-meaning liberals can enjoy the film without feeling guilty. This is why Zero Dark Thirty is much worse than 24 where at least Jack Bauer breaks down at the series’ finale.

The debate about water boarding being torture or not should be dropped as an obvious nonsense: why, if not by causing pain and fear of death, does boarding make hardened terrorist-suspects talk? As to the replacement of the word “torture” by “enhanced interrogation technique,” one should note that we are dealing here with an extension of the Politically Correct logic: in exactly the same way that “disabled” becomes “physically challenged,” “torture” becomes “enhanced interrogation technique” (and, why not, “rape” could become “enhanced seduction technique”). The crucial point is that torture – brutal violence practiced by state – was made publicly acceptable at the very moment when public language was rendered Politically Correct in order to protect victims from symbolic violence. These two phenomena are the two sides of the same coin.

The most obscene defense of the film is the claim that Bigelow rejects cheap moralism and soberly presents the reality of anti-terrorist struggle, raising difficult questions and thus compelling us to think (plus, some critics add, she “deconstructs” feminine clichés – Maya displays no sexual interests or sentimentality, she is tough and dedicated to her task like men). Our answer should be that, precisely apropos topic like torture, one should not “think.” A parallel with rape imposes itself here: what if a film were to show a brutal rape in the same neutral way, claiming that one should avoid cheap moralism and start to think about rape in all its complexity? Our guts tell us that there is something terribly wrong here: I would like to live in a society where rape is simply considered unacceptable, so that anyone who argues for it appears an eccentric idiot, not in a society where one has to argue against it – and the same goes for torture: a sign of ethical progress is the fact that torture is “dogmatically” rejected as repulsive, without any need for argumentation.

So what about the “realist” argument: torture was always going on, if anything even more in the (near) past, so is it not better to at least talk publicly about it? This, exactly, is the problem: if torture was always going on, why are those in power now telling us openly about it? There is only one answer: to normalize it, i.e., to lower our ethical standards.

Torture saves lives? Maybe, but for sure it loses souls – and its most obscene justification is to claim that a true hero is ready to forsake his/her soul to save lives of his/her countrymen. The normalization of torture in Zero Dark Thirty is a sign of the moral vacuum we are gradually approaching. If there is any doubt about this, just try to imagine a major Hollywood film depicting torture in a similar way 20 or 30 years ago – unthinkable.

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All of Slavoj Žižek’s books published in Brazil by Boitempo are avaiable in ebook form. If you’re interested, find out more in the links below:

Revolution at the Gates: Lenin – The 1917 Writings * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

The Parallax View * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Welcome to the Desert of the Real! * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

In defense of Lost Causes * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

First as Tragedy, Then as Farce * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Living in the End Times * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

The Year of Dreaming Dangerously * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Also, there’s an article by Žižek on Boitempo’s Occupy: Protest Movements that Took the Streets (along with David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Immanuel Wallerstein and others) * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capaPROVISORIA_altaSlavoj Žižek’s new book, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Historical Materialism is to be released this month in Brazil. This is an unfinished preview of the book’s cover.

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Boitempo Editorial is one of the most prestigious independent leftist publishers in Brazil: a publishing house of radical thinkers from the classics of Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski and Vladimir I.U. Lenin to György Lukács, István Mészáros, Slavoj Žižek, Alain Badiou, Giorgio Agamben, Perry Anderson, David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson and Tariq Ali. Among the Brazilian authors, Boitempo publishes some of the greatest leftist intellectuals of our time, such as Emir Sader, Leandro Konder, Franscisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Ricardo Antunes, Paulo Arantes and Vladimir Safatle. For Foreign Rights, visit our website or contact blog@boitempoeditorial.com.br.

Apresentação de José Paulo Netto à Ontologia de Lukács

12.02.07_Apresentação Lukács

Leia abaixo a apresentação de José Paulo Netto para o primeiro volume de Para uma ontologia do ser social, de György Lukács.

O livro está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na AmazonAppleTravessaGato Sabido e iba.

Os outros ebooks de Lukács publicados pela Boitempo (Prolegômenos para uma ontologia do ser socialO romance histórico e Lenin) também podem ser encontrados na Gato Sabido e Travessa!

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1.

Comecemos por uma nota pessoal.

A 28 de abril de 1963 falecia Gertrud Bortstierb Lukács, que Lukács conhecera em 1906, com quem travara estreitas relações em 1917 e que, em 1919, tomara como companheira. A significação de Gertrud na vida de Lukács foi absolutamente excepcional[1] – e sua morte foi para ele um duro golpe.

No verão daquele ano, o filósofo redigiu, em trabalho a que se entregou catarticamente, um ensaio sobre uma peça de Lessing (Minna von Barnhelm, de 1767) em que, sem nenhuma alusão direta à companheira, prestava-lhe um tributo comovedor: na personagem do ilustrado alemão, Lukács de fato via Gertrud – sábia, a sua “sabedoria” não está “acima da vida”, “não é uma superioridade teórica”; “é o simples impulso intacto de um autêntico ser humano que quer uma vida com sentido, só realizável na comunidade e no amor. É, pois, o impulso a ver homens concretos em sua concreta humanidade”. Em Minna – e, para Lukács, em Gertrud – “encarnou-se, do modo mais simples, o humanamente melhor da Ilustração germânica”[2].

Mas a grande homenagem explícita à companheira, na imediata sequência da sua morte, Lukács prestava-a – exatas quatro décadas depois de dedicar-lhe o seu livro mais célebre[3] – no pórtico da sua Estética: afirma ali que pretendia oferecer a Gertrud, “como modesta tentativa de agradecer mais de quarenta anos de comunidade de vida e pensamento, de trabalho e luta”, “as obras em que penso reunir os principais resultados da minha evolução filosófica, da minha ética e da minha estética”. E lamenta só poder fazê-lo à sua memória[4].

Pois bem: esta Ontologia… que o leitor de língua portuguesa tem hoje em mãos é parte do legado que Lukács dedicou à sua companheira.


2.12.02.07_Apresentação Lukács_Gertrude

O primeiro livro que Lukács ofereceu a Gertrud – História e consciência de classe – veio à luz naquela que foi, muito provavelmente, a década mais produtiva da história do marxismo na primeira metade do século XX, a década que se seguiu à Revolução de Outubro. Ali se encontra a sementeira de originais ensaios de Bloch, do próprio Lukács e do que de melhor produziu Korsch[5], as raízes do pensamento maduro de Gramsci e as bases do que de criativo (pense-se, a título de exemplo, em Marcuse, Lefebvre e, noutro registro, em L. Kofler) haveria de sobreviver à longa noite inaugurada pelo stalinismo. Já o livro que dedicou à memória de Gertrud na abertura dos anos 1960 – a Estética – conheceu a publicidade ao cabo de três decênios de paralisia teórica no campo da tradição teórico-política fundada por Marx e Engels, decênios em que a vulgata “marxista-leninista” congelara a reflexão e a investigação no chamado campo socialista e aviltara boa parte do pensamento comunista no Ocidente.

Poucos como Lukács experimentaram o peso da era stalinista e, sob ela, exercitaram a resistência possível – no seu caso, com ônus expressivos em sua vida e em sua obra. Por isso, já septuagenário, também como poucos visualizou nos desdobramentos da crítica “oficial” ao stalinismo, iniciada, em 1956, no XX Congresso do PCUS (cujos limites reconheceu e criticou, progressiva e cada vez mais radicalmente), a possibilidade, e sobretudo a incontornável urgência, de um movimento teórico que levasse ao que várias vezes designou como renascimento do marxismo.

As condições objetivas em que Lukács se encontrava, desde o final da década de 1950, lhe eram propícias para impulsionar esse movimento. A “normalização” operada por Kadar na Hungria, depois da rebelião de outubro de 1956, incluiu a alternativa de seu retorno (do desterro na Romênia) a Budapeste, mesmo com restrições à sua atividade política; o regime húngaro viu-se compelido a suportá-lo e ele gradualmente rompeu o círculo de silêncio com o qual as autoridades governamentais procuravam isolá-lo (bem como cessou a campanha caluniosa que contra ele empreendia J. Szigéti, apoiado por B. Fogarasi). A pouco e pouco – não tendo sido menor, aqui, o papel mediador exercido por G. Aczél, um dos responsáveis pela política cultural húngara do período –, Lukács reinseriu-se inteiramente na cena pública, e para tanto também contribuiu a ressonância que sua obra, naqueles anos, começara a encontrar no Ocidente[6]. Esse processo culminou em 1967, com sua reintegração ao Partido Comunista.

Assim, na entrada dos anos 1960, pode-se verificar que Lukács, desfrutando de uma espécie de otium cum dignitade, contava, malgrado a deterioração paulatina de sua saúde (curso natural na vida de quem nasceu a 13 de abril de 1885), com uma situação objetiva bastante favorável para empreender a tarefa que se impunha e com a qual se comprometeu com ardor juvenil: ativar o/participar do renascimento do marxismo[7].

Ademais, sua convicção de que havia a possibilidade concreta para um tal renascimento não derivava de qualquer aspiração puramente subjetiva – possuía suportes efetivos. De uma parte, em vários países do “campo socialista” já eram visíveis sinais de um ressurgimento da cultura marxista, que logo se explicitariam (por exemplo, na Polônia, com os novos trabalhos de A. Schaff e, na Tchecoslováquia, com as investigações de K. Kosik etc.). De outra parte, no mundo capitalista, vitalizando-se o movimento operário na Europa Ocidental e aprofundando-se a luta antiimperialista nas periferias, o recurso à herança marxista e novas contribuições (boa parte delas críticas) a seu acervo expressavam-se com força[8].

Lukács tinha como pressuposto, para que tal renascimento se operasse com êxito, a elaboração de uma crítica (radical e contemporânea) da dinâmica econômica do capitalismo atual – não poucas vezes, mencionou a premência de construir um O capital do século XX (aparentemente, ele não acompanhava o trabalho de marxistas ocidentais no trato do capitalismo pós-1945, pois chegou a observar nos anos 1960, decerto equivocadamente, que a última análise econômico-política relevante fora a de Lenin, redigida em 1916 e publicada no ano seguinte, O imperialismo…). Mas tinha também a consciência de que, se essa tarefa lhe escapava, ela não poderia travar seu próprio esforço no plano teórico-filosófico. E se a Estética fora planejada para enfrentar, especial mas não exclusivamente, o complexo filosófico – referido à arte – do materialismo dialético/materialismo histórico nas suas primeira e terceira partes [9], e se sua primeira parte foi concluída (em 1960) antes de Lukács explicitar a ideia do renascimento do marxismo, ela é indiscutivelmente um componente – o componente inicial – constitutivo desse projeto. Assim, a Estética está envolvida no projeto – tal como posteriormente formulado – e, por isso mesmo, a dedicatória a Gertrud cabe não só à Estética, mas ao conjunto que ele resumiu como “as obras em que penso reunir os principais resultados da minha evolução filosófica, da minha ética e da minha estética”: a Ontologia… seria a introdução à Ética.

Com efeito, considerando como exemplar o universalismo filosófico da estética de Hegel e sua modalidade histórico-sistemática de sintetizar a reflexão sobre o fenômeno artístico[10], Lukács rompe decididamente com alguns componentes essenciais da vulgata “marxista-leninista”[11]. Não é esta a oportunidade para debater a Estética; aqui, basta assinalar o tratamento peculiar que Lukács dá à categoria de reflexo (particularmente quando trata da mímese operada pela música) para sugerir a imensa distância entre suas concepções e a dogmatização própria do “marxismo-leninismo”; ou, como outro indicador, é suficiente referir a teoria da vida cotidiana que se esboça na obra; ou, no mesmo sentido, sua conceptualização da categoria da particularidade; ou, enfim, no cuidado da obra de arte como ente-para-si. Essencialmente, a Estética rompe com a esclerose do marxismo no seu trato rigoroso, direcionado por uma metodologia histórico-sistemática, da estética a partir de uma impostação ontológica – impostação que, realmente, subjaz ao pensamento de Lukács desde os anos 1930[12].

Ora, para Lukács, um dos fundamentos da paralisia teórica do marxismo residia justamente na liquidação da inspiração ontológica de Marx – não por acaso, em algum lugar ele observou que muito do pensamento staliniano e stalinista expressava uma invasão neopositivista na tradição marxista. Combater as refrações do neopositivismo (e de seu corolário, o epistemologismo), substantivamente uma negação da ontologia, era enfrentar abertamente aquela paralisia. A Estética, de modo concreto e específico, configura sistematicamente esse enfrentamento. Nessa exata medida, ela é uma pedra angular do renascimento do marxismo.

Mas curiosamente, na Estética, a parca referência explícita à ontologia é essencialmente negativa – em especial, na remissão a Heidegger. E embora seja mais frequente o recurso de Lukács a Hartmann – sempre com respeito, corroborando algumas de suas observações, mas sempre ressaltando os limites de seu “idealismo” – , ele não valoriza expressa e formalmente a ontologia[13] (é essencial notar que, na obra, a crítica contundente ao idealismo faz-se em termos muito diversos daqueles a que a reduziu a vulgata “marxista-leninista”; para não entrar na discussão a que aqui só se alude, o Lenin que subjaz à Estética não é o de Materialismo e empiriocriticismo, mas o dos Cadernos sobre a dialética de Hegel). É só depois de publicada a Estética, quando Lukács explicita a ideia do renascimento do marxismo, que sua recorrência à ontologia torna-se praticamente contínua[14].

Com toda a evidência, Lukács compreendia que o renascimento em questão desbordava a análise econômico-política e a elaboração teórico-filosófica. Sua lucidez colocava também, em seu âmbito, a problematização em profundidade da política – mais precisamente: da prática política – que acompanhou, como nó problemático e interagente de causalidades e consequências, a paralisia do marxismo. Se pouco pôde contribuir para aquela análise (embora indicasse fenômenos de que ela deveria cuidar – por exemplo, a capacidade manipuladora do movimento contemporâneo do capital), também em relação àquela última problematização seu contributo não foi extenso, ainda que significativo (cf. as suas muitas entrevistas “políticas” dos anos 1960 e, em especial, “O processo de democratização” e o “Testamento político” [15]).

De fato, o aporte essencial de Lukács ao renascimento do marxismo operou-se no plano teórico-filosófico – com a Estética e a Ontologia…

3.12.02.07_Apresentação Lukács_livros

Já há uma larga bibliografia que remete à Ontologia[16], bem como larga é a documentação que permite situá-la na complexa biografia intelectual de Lukács[17]. Esta apresentação deve limitar-se, pois, a umas poucas palavras indispensáveis.

Mencionando, na dedicatória já referida a Gertrud, “os principais resultados da minha evolução filosófica, da minha ética e da minha estética”, Lukács apontava exatamente para o que foram seus pontos de partida – as searas que lavrou na juventude: o pensamento do último Lukács centra-se nos núcleos temáticos essenciais que imantaram a reflexão do jovem Lukács. Não se trata, porém e absolutamente, de um retorno; o pensador dos anos 1960 não regressa meramente aos campos epistêmico-filosóficos de seu passado. Há continuidade temática com o jovem Lukács– mantêm-se as “principais linhas esquemáticas de uma ideia sintetizadora fundamental” de que falou Mészáros em texto seminal sobre a obra lukácsiana[18]; mas a estruturação e a articulação teóricas da estética e da ética do último Lukács são evidentemente outras: quase meio século de experiência marxista determinou uma profunda reelaboração categorial nos dois âmbitos. Ademais, o gume da crítica lukácsiana, dirigido agora contra os vetores da paralisia do marxismo (basicamente, a negação ontológica operada pelo neopositivismo), requer um tratamento específico. Concluída a Estética, Lukács volta-se para a Ética: seu objetivo é conferir-lhe o cuidado histórico-sistemático que metodologicamente matrizou a obra terminada em 1960 e publicada em 1963.

Ao avançar para a construção da sua Ética, Lukács foi levado a reconhecer que haveria de fundá-la expressamente – pretendendo uma formulação histórico-sistemática efetivamente materialista e dialética rigorosamente fiel à inspiração de Marx – na especificidade do ser social. Havia, portanto, de estabelecer, em primeiro lugar, a determinação histórico-concreta do modo de ser e de reproduzir-se do ser social. Vale dizer: sem uma teoria do ser (uma ontologia) social, a ética seria insustentável (enquanto uma ética materialista e dialética). Assim, na investigação que conduzia para a elaboração da Ética, Lukács viu-se obrigado a preparar uma “introdução” a ela – “introdução” que apresentaria justamente os seus fundamentos ontológicos. Dessa forma, nasceu a Ontologia…: o filósofo dedicou-se tão intensivamente à “introdução”, com aquele ardor juvenil atrás referido, que esta se constituiu numa obra autônoma (e a Ética nunca foi escrita, embora até o fim de seus dias Lukács pretendesse redigi-la).

Se o indicativo da construção da Ética é subsequente à conclusão da Estética (1960), os trabalhos para sua elaboração não começam de imediato. Mas, uma vez iniciados, vão resultar na Ontologia…, que tem sua redação terminada provavelmente em finais de 1968. A “introdução” não se alongou excessivamente, tornando-se a Ontologia… por motivos idiossincráticos. Ela adquiriu sua peculiar magnitude em função de duas razões principais: de uma parte, e a mais importante, não fora conferido à ontologia, até então, na tradição marxista, nenhum tratamento específico e histórico-sistemático (e, insista-se, materialista e dialético)[19] – donde a necessidade, para Lukács, de uma exaustiva e abrangente investigação, que implicou originais desenvolvimentos teóricos a partir de tematizações marxianas (ou seja, de indicações, pistas e formulações do próprio Marx, desdobradas sobre uma análise imanente da textualidade marxiana); de outra, porque oferecia a Lukács o terreno para uma crítica radical ao neopositivismo – mesmo que a crítica também se dirija às concepções tradicional-idealistas e irracionalistas da ontologia contemporânea (v.g., Heidegger)[20].

Redigida em alemão [Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins], a primeira edição integral da obra saiu em húngaro em 1976. No mesmo ano publicou-se em italiano a sua primeira parte [Per l´ontologia dell´essere sociale], com a segunda vindo à luz nesse idioma em 1981. Em alemão, a edição integral é de 1984.

Como o leitor constatará na presente edição, depois de estabelecer a crítica do neopositivismo e do existencialismo, Lukács detém-se sobre a contribuição de Hartmann – que valoriza, ao mesmo tempo que aponta seus problemas –, avança para a análise e a problematização da ontologia hegeliana e só então resgata o que designa por “princípios ontológicos fundamentais de Marx”, segmento em que realiza uma notável interpretação da impostação ontológica que vertebra a obra marxiana. Só então – na segunda parte[21] – volta-se para o tratamento dos “complexos de problemas mais importantes”, com a elaboração sistemática dos “complexos” do trabalho, da reprodução social, do ideal e da ideologia e, enfim, do estranhamento. É precisamente no tratamento dos “complexos” que ressalta a originalidade do pensamento do último Lukács, originalidade que não faz tabula rasa da obra marxiana, antes toma-a como fundamento das novas determinações que estabelece e/ou descobre – seja, por exemplo, no cuidado com a relação trabalho/práxis ou com a relação “sujeito-objeto” no trabalho, seja na abordagem criadora da reprodução social, seja na profunda renovação do enfoque da ideologia.

Mas toda a documentação disponível revela que Lukács não se deu por satisfeito com a arquitetura da Ontologia…. Muito especialmente, a ele desagradou a forma expositiva, em que o tratamento histórico não se articula adequadamente ao tratamento teórico-sistemático. Mas também se lhe afiguraram insuficientes algumas ênfases e mesmo desenvolvimentos no cuidado com os “complexos de problemas”. Por isso, ele empenhou-se em redigir uma nova versão da obra, em esforço que o consumiu até os seus últimos dias – porém, concluído o texto, tudo indica em princípios de 1971, ele não pôde revisá-lo (recorde-se que Lukács faleceu a 4 de junho daquele ano). Este novo texto, Prolegomena zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins. Prinzipienfragen einer heute möglich gewordenen Ontologie [Prolegômenos para uma ontologia do ser social. Questões de princípio para uma ontologia hoje tornada possível], só foi publicado em 1984 (em alemão; posteriormente, em 1990, saiu a edição italiana).

Como se pode constatar no exame dos Prolegômenos…[22], o fato de ser o derradeiro escrito de Lukács, que nem sequer (como já se observou) o reviu, faz dele um texto com claras insuficiências formais. Mas elas não impedem a compreensão das reflexões que, ausentes na Ontologia…, agora são formuladas por Lukács, nem a apreensão de novas ênfases conferidas a núcleos tratados na obra anterior – que, em nenhuma altura do texto (mal) concluído em 1971, tem passagens infirmadas[23]. Trata-se, efetivamente, de obras complementares; o título Prolegômenos… não é casual: mesmo redigidos depois da Ontologia…, são como que uma introdução a ela.

4.12.02.07_Apresentação Lukács_Lukács

Cuidemos de resumir – mesmo que introduzindo umas poucas notações ausentes nas páginas anteriores – o essencial pertinente a esta rápida apresentação.

Em 1960, Lukács concluiu a redação da Estética (que seria publicada em 1963), embasada na direção ontológica em que seu pensamento se desenvolvia desde o início dos anos 1930, mesmo que desde então a designação ontologia não fosse empregada por ele senão de modo crítico-negativo. A conclusão da Estética (mais precisamente: apenas da primeira das três partes que deveriam constituí-la na integralidade) faz-se em condições sociopolíticas que já permitem uma análise crescentemente aprofundada da paralisia teórica – intimamente relacionada ao modus operandi da era stalinista – que afetou a tradição marxista a partir de finais dos anos 1920 e, simultaneamente, que também permitem projetar alternativas para a superação dessa paralisia. Lukács pode conjugar, então, a síntese que pretendia oferecer de sua evolução teórica (estética e, mais inclusivamente, filosófica) com uma contribuição diretamente relacionada à possibilidade de um renascimento do marxismo – o processo emergente de ruptura com a dogmática do “marxismo-leninismo”. Assim, ao publicar a Estética, projeta uma Ética, retomando, sobre bases materialistas e dialéticas, suas preocupações de juventude (ou, caso se queira, de seu período pré-marxista).

Nas investigações para calçar teórico-filosoficamente a Ética projetada, que o ocupam no curso dos anos 1960, a direção ontológica de seu pensamento, subjacente à Estética, ganha exponencial centralidade: a ontologia se lhe põe como fundamento necessário e explícito, sem o qual torna-se inviável uma crítica sólida de um dos pilares da dogmática (a contaminação neopositivista). Cumpre-lhe, pois, uma tarefa hercúlea: extrair de Marx e elaborar a partir da obra marxiana uma ontologia. Os materiais que deveriam constituir uma “introdução” à Ética adquirem, assim, o estatuto de fundacionais de uma nova ontologia. Publicados, são-no como a Ontologia… e os Prolegômenos…

Cabe salientar: trata-se mesmo de uma nova ontologia em um duplo sentido – nova no interior da tradição marxista, que até então não a sistematizara, e nova em contraste com a tradição filosófica, no interior da qual se articulou sobre a base dos mais diversos idealismos e/ou no marco de sistemas irracionalistas (no caso das vertentes neopositivistas, ela foi liquidada). Mas a substantiva originalidade da ontologia que o último Lukács elabora, como toda autêntica originalidade, é tanto ruptura como continuidade com a tradição filosófica – ela não ignora as melhores criações desta última (v.g., Aristóteles e Hegel), e o é igualmente em face da produção lukácsiana posterior a 1930 (basta lembrar o monumental ensaio sobre o jovem Hegel, concluído em 1938 e publicado dez anos depois[24]).

 A contribuição de Lukács, com a Ontologia… (e seus Prolegômenos…), não foi ainda suficientemente analisada. Certamente que não passa sem problemas[25], nem é, também certamente, a solução para o renascimento do marxismo. Mas em relação a ela se pode afirmar, com inteira segurança, que: 1º) abre um novo horizonte teórico-filosófico para o desenvolvimento do marxismo; 2º) não haverá nenhum renascimento do marxismo se ela for ignorada.

5.12.02.07_Apresentação Lukács_Estudio

Se iniciamos esta brevíssima apresentação com uma nota de caráter pessoal, seja-nos permitido concluí-la com outra.

Carlos Nelson Coutinho, que faleceu há pouco (20 de setembro, aos 69 anos de idade[26]), foi, como todos sabem, o principal teórico brasileiro a representar, entre nós, o pensamento de Lukács – divulgou-o em traduções e coletâneas e dele se valeu, criativamente, em sua crítica literária e filosófica. No caso da Ontologia…, foi Carlos Nelson o primeiro a empenhar-se por sua publicação no Brasil, traduzindo – em 1979 – dois de seus capítulos para um empreendimento editorial (pioneiro e inconcluso) de Raul Mateos Castell[27].

Evoco agora, dias depois de sua morte, o encontro “físico” de Carlos Nelson com a obra.

Numa madrugada dos primeiros dias de dezembro de 1976, sob neve, vagávamos (amargados pela solidão do exílio e bem calibrados por algumas garrafas de vinho) por ruelas do centro histórico de Bolonha, cidade em que Carlos Nelson viveu os meses iniciais de seu desterro. De repente, e sem o querer, demos de cara com as vitrinas de uma das livrarias Rinascita – e estava ali, exposto como último lançamento da editora comunista italiana Riuniti, o volume I da Ontologia (Per l’ontologia dell’essere sociale I) sobre a qual tanto especulávamos naqueles anos.

Por longos minutos, ficamos estáticos os dois, em silêncio reverencial – compreende-se: éramos ainda relativamente jovens e estávamos quase bêbados… E Carlos Nelson, mal equilibrando-se em sua alta estatura, quebrou a nossa mudez: “J. Paulo [era como me chamava], se tiver só este exemplar, é meu. É meu… eu vi primeiro que você. Vamos ficar aqui até a livraria abrir”. Inútil discutir quem viu primeiro, como inútil seria ficar horas plantados à porta de uma livraria que só abriria às 10 da manhã. Fomos para casa (na Via Gaudenzi, 7), mas a simples visão da Ontologia… não nos deixou dormir.

Às 10 horas menos um quarto, estávamos, dois sonolentos vitimados por uma carraspana homérica, à porta da Rinascita. Fomos os primeiros a entrar, trêfegos, e, ante o olhar surpreso dos vendedores, agarramos, avidamente, cada um o seu exemplar, como se fosse o único, embora houvesse ali uma verdadeira montanha ontológica…

No tempo seguinte, em verdade nos anos seguintes – largos anos –, a Ontologia…, em nosso permanente diálogo, foi objeto de longas cartas, intermináveis conversas e várias discrepâncias. Carlos Nelson nunca conseguiu, mas jamais desistiu de convencer-me da compatibilidade/complementaridade entre Lukács e Gramsci[28].

Apesar de ser homem de pouco sonhar, Carlos Nelson alimentou pela vida um grande sonho editorial: ver publicado em português o essencial de Lukács e de Gramsci. Quanto a Gramsci, ele tornou real parte desse desejo[29]. Com esta edição da Ontologia…, que ele não pôde ver, a Boitempo Editorial realiza a outra parte do sonho do amigo que perdi.

Recreio dos Bandeirantes, outubro de 2012

Publicado originalmente como apresentação da primeira edição brasileira de  Para uma ontologia do ser social I, de György Lukács (Boitempo, 2012).

***

Notas

[1] “Desde que encontrei G[ertrud], ser aprovado por ela se tornou o problema central da minha vida” – anotou Lukács no “roteiro” para Pensamento vivido: autobiografia em diálogo (São Paulo/Viçosa, Ad Hominem/Editora da UFV, 1999), p. 160.

[2] G. Lukács, “Minna von Barnhelm”, in Goethe und seine Zeit (Neuwied/Berlim, Luchterhand, 1964). Nesse texto, “Lukács utilizou a comédia de Lessing para expressar seus pensamentos mais íntimos sobre Gertrud e o amor. O ensaio de Lukács, como tributo ao amor, deve ser colocado entre os maiores já escritos”, Arpad Kadarkay, Georg Lukács (Valencia, Alfons el Magnànim, 1994), p. 749.

[3] Recorde-se que História e consciência de classe, publicado em 1923, foi dedicado a Gertrud.

[4] Literalmente: Die Werke, in denen ich die wesentlichsten Ergebnisse meiner Entwicklung zusammenzufassen gedenke, meine Ethik und meine Ästhetik, deren erster, selbständiger Teil hier vorliegt, sollten als bescheidener Versuch einer Danksagung für mehr als vierzig Jahre Gemeinschaft an Leben und Denken, an Arbeit und Kampf Gertrud Bortstieber Lukács, gestorben am 28. April 1963, gewidmet sein. Jetzt kann ich sie nur ihrem Andenken widmen, G. Lukács, Ästhetik Teil I. Die Eigenart des Ästhetischen (Newied, H. Luchterhand, 1963), p.5.

[5] Veja-se K. Korsch, Marxismo e filosofia (Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2008).

[6] Na França, em 1960, a edição (não autorizada) de História e consciência de classe repercutiu profundamente. Na Itália, seus escritos obtiveram grande audiência. Na Alemanha (então “Ocidental”), em 1962, a Luchterhand anunciou a publicação de suas obras completas – a Werke, de início prevista para quinze volumes. Pouco depois, a Grijalbo (Barcelona) deu a partida no projeto (mais tarde interrompido) de também editar sua obra completa, originalmente programada para 26 volumes.

[7] O entusiasmo com que Lukács viveu esse período de sua vida é atestado por inúmeros depoimentos. Leandro Konder, por exemplo, que o visitou em finais dos anos 1960, surpreendeu-se com um ancião que trabalhava diariamente por oito horas, recebia afavelmente os visitantes que o procuravam e mantinha ativa correspondência internacional.

[8] É expressiva desse clima ideocultural a afirmação sartriana de 1965 segundo a qual “o marxismo, como quadro formal de todo pensamento filosófico de hoje, é insuperável”, Jean-Paul Sartre, carta a Garaudy, reproduzida em Roger Garaudy, Perspectivas do homem (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965), p. 113.

[9] Recorde-se que o plano original da Estética contemplava três partes. Só a primeira (intitulada A peculiaridade do estético [Die Eigenart des Ästhetischen]) foi publicada – por isso, a obra é, às vezes, referida como Estética I.

[10] Cf. G. Lukács, Ästhetic. Teil I. Die Eigenart des Ästhetischen. 1. Halbband (Neuwied, Luchterhand, 1963), p. 14.

[11] Em escritos anteriores de Lukács, muito dessa ruptura comparecia in nuce, dadas as condições sociopolíticas sob as quais ele trabalhava. Na Estética I, desaparecidos os constrangimentos sociopolíticos, aqueles discretos componentes afloram abertamente.

[12] Aludo a essa impostação em “Georg Lukács: um exílio na pós-modernidade”, inserido em Maria Orlanda Pinassi e Sérgio Lessa (orgs.), Lukács e a atualidade do marxismo (São Paulo, Boitempo, 2002).

[13] Carlos Nelson Coutinho tematiza rapidamente, em seu ensaio “Lukács, a ontologia e a política” (inserido em Ricardo Antunes e Walquíria L. Rêgo (orgs.), Lukács; um Galileu no século XX, São Paulo, Boitempo, 1996), a opção posterior de Lukács pelo emprego positivo do termo “ontologia”.

[14] Numa utilização que deixou incomodados alguns estudiosos próximos a Lukács. Veja-se, por exemplo, em Hans Heinz Holz et al., Conversando com Lukács (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969), passagens do seu diálogo com Holz e Leo Kofler – respectivamente às p. 15s e 75s.

[15] Ambos contidos em G. Lukács, Socialismo e democratização: escritos políticos 1956-1971 (Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2008).

[16] Não cabe aqui listar as inúmeras contribuições, históricas e/ou críticas, à Ontologia… Dentre os autores que a tematizaram, recorde-se, entre muitos, os nomes de István Eörsi, Alberto Scarponi, Csaba Varga, Paul Browne, Costanzo Preve, Fariborz Shafai, Antonino Infranca, Werner Jung, Ernest Joos, Vittoria Franco, Andre Tosel, Tibor Szabó, além das conhecidas (e extremamente problemáticas) censuras publicitadas, na segunda metade dos anos 1970, pelo grupo chefiado por Agnes Heller (a própria, Ferenc Feher, György Markus e Mihály Vajda: cf. Ferenc Feher et al., “Annotazione sull´Ontologia per il compagno Lukács”, Aut-Aut, n. 157-8, 1977). Algumas contribuições de autores estrangeiros estão acessíveis em português – por exemplo, o belo ensaio de Guido Oldrini, “Em busca das raízes da ontologia (marxista) de Lukács”, em Maria Orlanda Pinassi e Sérgio Lessa (orgs.), Lukács e a atualidade do marxismo, cit. De autores brasileiros que se ocuparam da Ontologia…, realce-se, entre vários, os nomes de Carlos Nelson Coutinho, José Chasin, Sérgio Lessa, Ricardo Antunes, Ester Vaisman e, mais recentemente, Celso Frederico, Mario Duayer, João L. Medeiros e Vitor B. Sartori. Cumpre observar que, em muitas entrevistas de meados e fins dos anos 1960, Lukács comentou a elaboração da Ontologia… – veja-se, por exemplo, Hans Heinz Holz et al., Conversando com Lukács, cit.

[17] Também não é este o espaço para arrolar a documentação pertinente à biobibliografia de Lukács, na qual é importante recorrer ao já citado Pensamento vivido e em que se contam, entre tantos, os diferenciados contributos de Lucien Goldmann, István Mészáros, G. H. R. Parkinson, Peter Ludz, Laura Boella, Marzio Vacatello, José Ignácio López-Soria, Mary Gluck, Andrew Arato e Paul Breines, Frank Benseler, István Hermann, György I. Mezei, Elio Matassi, Guido Oldrini, Arpad Kadarkay e do brasileiro Carlos Eduardo Jordão Machado. Da bibliografia acessível em português, pode-se consultar, entre outros, o ensaio de Fredric Jameson,“Em defesa de G. Lukács”, contido em seu livro Marxismo e forma (São Paulo, Hucitec, 1985) e, ainda, Michael Löwy, A evolução política de Lukács: 1909-1929 (São Paulo, Cortez, 1998) e Nicolas Tertulian, Georg Lukács: etapas do seu pensamento estético (São Paulo, Editora UNESP, 2008). O trato da política pelo filósofo húngaro é abordado na introdução de José Paulo Netto (“Sobre Lukács e a política”) a G. Lukács, Socialismo e democratização: escritos políticos 1956-1971, cit. Quanto a outros materiais pertinentes produzidos no Brasil, cf., por exemplo, Leandro Konder, Lukács (Porto Alegre, L&PM, 1980, Coleção Fontes do Pensamento Político); José Paulo Netto, Lukács (São Paulo, Ática, 1981, Coleção Grandes Cientistas Sociais); e textos coligidos em Ricardo Antunes e Walquíria L. Rêgo (orgs.), Lukács: um Galileu no século XX, cit.; a título introdutório, vale recorrer a José Paulo Netto, Lukács, o guerreiro sem repouso (São Paulo, Brasiliense, 1983) e Celso Frederico, Lukács, um clássico do século XX (São Paulo, Moderna, 1997). Uma síntese biobibliográfica de Lukács está disponível em G. Lukács, O jovem Marx e outros escritos de filosofia (Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2007).

[18] István Mészáros, Lukács’ concept of dialectic (Londres, Merlin, 1972), p. 17.

[19] Os belos textos sobre ontologia de Ernst Bloch, que Lukács conhecia, estão longe de um tal tratamento.

[20] Desenvolvendo e inovando no trato do moderno irracionalismo, explorado por Lukács (1954) em Die Zerstörung der Vernunft [A destruição da razão].

[21] A ser lançada pela Boitempo em 2013.

[22] O livro foi publicado, com este título, pela Boitempo, em 2010. O prefácio de Ester Vaisman e Ronaldo Vielmi Fortes é rico em informações sobre a relação entre ele e a Ontologia…, bem como é relevante o posfácio de Nicolas Tertulian.

[23] Com o que fica factualmente contestada a versão – que partiu de Agnes Heller e seu grupo – segundo a qual Lukács teria se dedicado a “refazer” a Ontologia… em função das críticas que a “escola de Budapeste” levantou quando conheceu o manuscrito, críticas sumariadas no documento citado na nota 16.

[24] G. Lukács, Der junge Hegel und die Probleme der kapitalistischen Gesellschaft [O jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista] (Berlim, Aufbau, 1954).

[25] Vários deles observados pelos autores nomeados na nota 16.

[26] Sobre Carlos Nelson, cf. o indispensável volume de ensaios organizado por Marcelo Braz, Carlos Nelson Coutinho: maxista convicto e confesso (São Paulo, Expressão Popular, 2012).

[27] Cf. G. Lukács, Ontologia do ser social: os princípios ontológicos fundamentais de Marx e Ontologia do ser social. A falsa e a verdadeira ontologia de Hegel (São Paulo, Ciências Humanas, 1979). Pouco depois, páginas da Ontologia… (excerto do capítulo sobre Marx, citado, numa primeira versão da tradução de Carlos Nelson) foram republicadas na antologia (citada na nota 17) que preparei para a editora Ática.

[28] Como se constata no ensaio “Lukács e Gramsci: apontamentos preliminares para uma análise comparativa”, parte de seu último livro publicado: De Rousseau a Gramsci (São Paulo, Boitempo, 2011).

[29] Entre 1999 e 2005, a editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro) publicou, em edição por ele organizada, os seis volumes dos Cadernos do cárcere, dois dos Escritos políticos e dois das Cartas do cárcere.

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José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Graduado em Serviço Social e Letras neolatinas (UFJF), possui mestrado em Teoria literária (USP) e doutorado em Serviço Social (PUC-SP) com a tese Autocracia burguesa e Serviço Social, orientada por Octavio Ianni. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é autor entre outros de Lukács: o guerreiro sem repouso (Brasiliense, 1983) e de Realismo e anti-realismo na literatura brasileira Vol.1 (Paz e terra, 1974), escrito em coautoria com Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Gilvan P. Ribeiro e Luiz Sérgio N. Henriques . Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

O ódio contra Manning, Assange e o WikiLeaks

13.02.06_Emir Sader_O ódio contra Manning Assange e WikiLeaksPor Emir Sader.

Entre os tantos aspectos que Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, livro do Assange que a Boitempo acaba de lançar, um vale a pena ser destacado: o tema do segredo diplomático na políticas das grandes potências.

Atribui-se ao soldado Manning a responsabilidade de ter divulgado as senhas que permitiram a divulgação espetacular de documentos secretos de tantos Estados, que revelam a cara real da política desses países. O próprio fato dele ser tratado como “criminoso de guerra”, por ter supostamente entregue segredos de Estado aos inimigos, dá ideia de como os EUA consideram o caso de WikiLeaks e como o segredo é essencial à sua política.

As revelações propiciadas pelo WikiLeaks desmascaram uma série enorme de políticas e afirmações de governantes e de Estados, que mal camuflam o sentido real de suas políticas. Os governantes e seus ideólogos dizem que não seria possível qualquer política de Estado sem segredo, com transparência, com revelação das intenções reais por trás de cada ato de governo.

Na realidade, o espaço entre intenção e gesto é um abismo que, se revelado, como no caso dos papéis de WikiLeaks, decifra o significado das políticas e a natureza dos governos que os colocam em prática. A forma como tratam  Manning, Assange e o WikiLeaks confirma a gravidade da revelação de documentos até ali considerados secretos.

Os segredos diplomáticos são similares aos segredos bancários e o segredo em torno dos movimentos de capitais nos chamados “paraísos fiscais”. São as caixas pretas do imperialismo e do capitalismo.

O WikiLeaks divulgou, entre outros, 75 mil diários militares sobre a guerra no Afeganistão, com a comprovação de centenas de assassinatos indiscriminados de civis pelos EUA. Logo em seguida foram publicados 400 mil relatos secretos sobre a ocupação do Iraque, com provas das torturas constantes sobre os prisioneiros.

Vieram depois mais de 250 mil comunicados diplomáticos – advindos de 274 embaixadas – que permitem a visão do modo de funcionamento efetivo das relações internacionais e de como os líderes das grandes potências se comportam nos bastidores.

Um relato descreve a execução sumária de dezesseis civis, incluindo quatro mulheres e cinco crianças, e as tentativas de bloquear os processos contra os militares norte-americanos responsáveis pelos massacres.

Foram também publicados 700 arquivos sobre prisioneiros de Guantánamo, revelando inclusive detalhes dos interrogatórios.

Daí o ódio contra Manning, Assange e o WikiLeaks.

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Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange, criador e editor-chefe do WikiLeaks, conta com introdução de Natália Viana, orelha de Pablo Ortellado e prefácio de Assange escrito exclusivamente para a edição brasileira. A versão eletrônica (ebook) é vendida pela metade do preço da versão impressa. Baixe uma amostra gratuita e confira links para a compra clicando aqui.

Confira o “teaser” do livro abaixo:

Confira a pagina de Cypherpunks no Blog não deixe de curtir a página de Cypherpunks no Facebook!

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A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana é o primeiro livro de Emir Sader pela Boitempo a ganhar versão eletrônica (ebook), já à venda por apenas R$20 na Gato Sabido, Livraria da Travessa e iba, dentre outras.

As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Boletim Boitempo: A guerra de Assange

Boletim CabeceiraDe 5 a 19 de fevereiro de 2013.

Destaque

Cypherpunks
Liberdade e o futuro da internet

Julian Assange et al

Já em pré-venda nas livrarias Saraiva, Cultura e Travessa | Previsto para 1º de fevereiro de 2013!


Julian Assange fala sobre livro que aborda futuro da internet.
Por redação.

GloboNews – Milenio – 4 de fevereiro de 2013.

Entrevista especial com Julian Assange sobre Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. Confira a gravação completa abaixo:

Segundo Assange, CIA usou redes sociais para buscar dados da equipe do WikiLeaks. Por redação.
O Estado de S. Paulo – Online – 4 de fevereiro de 2013.

Confira os trechos da entrevista concedida ao Estado por Julian assange sobre Cyperpunks: liberdade e o futuro da internet abaixo:

‘É bom que os governos tenham medo das pessoas’.
Por Jamil Chade.
O Estado de S. Paulo – Internacional – 2 de fevereiro de 2013.

“Há sete meses refugiado na Embaixada do Equador em Londres, ativista fala ao ‘Estado’ sobre internet e liberdade de expressão A internet se transformou no maior instrumento de vigilância já criado e a liberdade que ela representa está ameaçada. A avaliação é de Julian Assange, criador do WikiLeaks, que há sete meses vive na Embaixada do Equador em Londres – Quito lhe concedeu asilo, mas os britânicos não lhe deram salvo-conduto para que vá ao aeroporto e deixe o país. Assange seria extraditado para a Suécia, onde é acusado de crimes sexuais. O australiano recebeu a reportagem do Estado para falar sobre seu livro Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, que está sendo lançado no Brasil pela Boitempo Editorial. A seguir, os principais trechos da conversa.” [Leia mais]

Mensagem de um ativista digital. Por Julian Assange.
Folha de S.Paulo – Tec – 4 de fevereiro de 2013.

“Lançado nesta segunda-feira (4) no Brasil, o livro Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet (ed. Boitempo, R$ 29, 168 págs.) é o resultado de um debate entre o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e três colegas ativistas. Na obra, eles acusam grandes empresas e governos de invadirem a privacidade digital dos cidadãos e interceptarem suas comunicações. O artigo abaixo foi escrito especialmente para o prefácio da edição brasileira de “Cypherpunks“. A Folha publica o texto com exclusividade. Assange, que divulgou documentos secretos dos EUA no site WikiLeaks, está refugiado na Embaixada do Equador em Londres desde junho passado – à época, a Justiça britânica decidiu que ele fosse deportado para a Suécia, onde é acusado de estupro.” [Leia mais]

A guerra de Assange. Por Gianni Carta.
Carta Capital – Entrevista – Mundo – 6 de fevereiro de 2013.

O temor bastante compreensível do fundador do WikiLeaks seria uma segunda extradição, esta da Suécia para os Estados Unidos, onde querem julgá-lo por espionagem, e, no caso, ele poderia ser condenado à pena de morte. O crime de Assange foi ter divulgado documentos militares e diplomáticos através de sua plataforma digital WikiLeaks em parceria com diários de renome como o The New York Times. Vidas e mais vidas teriam sido colocadas em risco, alegam, embora sem provas, os detratores de Assange. Em abril, meses antes de publicar os comprometedores documentos secretos em meados e no fim de 2010, o WikiLeaks havia adquirido a fama ao divulgar um vídeo no mínimo constrangedor para os EUA. Nele vemos soldados norte-americanos em ação no Iraque atirando de um helicóptero sobre 12 civis desarmados.” [Leia mais]

A cruzada de Assange contra a internet. Por Redação.
ISTOÉ – Comportamento – 18 de janeiro de 2013.

“Foragido de uma prisão domiciliar e atualmente em asilo político, o ciberativista australiano Julian Assange acompanha no conforto da Embaixada do Equador, em Londres, mais uma polêmica na sua trajetória de fatos bombásticos: a repercussão de seu primeiro livro, Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet (Boitempo Editorial), que acaba de ser lançado no Brasil. Entre as inúmeras denúncias ao poder velado de governos e corporações no uso das ferramentas digitais, Assange não se vale de meias palavras: “A internet é uma ameaça à civilização humana”, escreve. A publicação é uma conversa entre o fundador do WikiLeaks (o site que tornou públicos documentos secretos da administração de vários países) e outros três defensores dos direitos de anonimato na rede. O assunto dominante é a vigilância sobre toda ação online, como se uma guerra estivesse em curso. Episódios usados para comprovar a tese não faltam.” [Leia mais]

Um chamado à luta criptográfica. Por Julian Assange.
Info – Comportamento – 18 de janeiro de 2013.

“O livro é um compilado de conversas com os colegas de ativismo Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann. Assange, 41 anos, mantém a língua afiada e defende mais privacidade para os usuários e transparência para os governos na rede. Desde junho de 2012, Assange está refugiado na embaixada do Equador em Londres, tentando evitar a extradição para a Suécia, onde enfrenta acusações de agressão sexual. INFO teve acesso ao livro com exclusividade. Leia, abaixo, o capítulo de introdução, em que Julian Assange mostra por que, na sua opinião, a internet é uma ameaça para a humanidade.” [Leia mais]

Vilão de Star Trek será Assange em filme sobre WikiLeaks.
Por Tiago Mali.
Revista Galileu – 30 de janeiro de 2013.

‘Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos’ é a expressão de ordem usada pelo australiano para apresentar o movimento que dá nome ao livro. Desde a década de 1990, os cypherpunks defendem o emprego da criptografia como agente de mudanças políticas, uma espécie de proteção contra a vigilância total do Estado. Soa um tanto paranoico, não? Após ler a obra, não soa mais. Assange detalha a ideia pintando um quadro assustador, porém ricamente embasado, sobre os mecanismos de controle da internet (são mais de uma centena de referências em notas de rodapé para justificar as afirmações). Neste quadro, estão empresas que vendem sistemas de vigilância capazes de interceptar e gravar todas as comunicações da população de um país – a Líbia de Gaddafi comprou um desses – e casos documentados de espionagem em massa de cidadãos por agências do governo americano.” [Leia mais]

Especial: a apresentação do livro Julian Assange. Por Natalia Viana.
Outras palavras – 02 de fevereiro de 2013.

Na obra, Assange, ao lado dos companheiros de armas – e eficientes desenvolvedores de códigos digitais – Jérémie Zimmermann, Jacob Appelbaum e Andy Müller Maguhn, disseca temas essenciais que estão definindo, hoje, os principais embates sobre como deve ser o futuro da internet. A rede mundial de computadores apresenta, como muitas tecnologias, uma variedade de usos possíveis. É, como a energia elétrica, a semente de uma gama infinita de possibilidades, e semente poderosa: seu potencial ainda está sendo descoberto ao mesmo tempo que seu rumo vai sendo definido pelo caminhar tecnológico e pelo caminhar político.” [Leia mais]

Assange lança livro sobre guerra invisível pelo controle da internet e futuro da sociedade.
Por Redação.
Portal Imprensa – 30 de janeiro de 2013.

Os autores se questionam, entre outras coisas, se alguns sites não são “a maior máquina de vigilância já inventada” para seguir os passos “de nossa localização, contatos e vidas”. “Se for um usuário comum, o Google sabe com quem fala, quem conhece, o que busca. Provavelmente sabe sua orientação sexual, sua religião e filosofia, sabe quem é sua mãe e talvez mais de você que você mesmo. Google sabe quando está conectado e quando não”, disse Jeremie Zimmermann, coautor de Cypherpunks.” [Leia mais]

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Confira o booktrailer do livro abaixo:

Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. Da redação.

Você S/A – Dica de leitura – 15 de janeiro de 2013.

“As contradições da internet expostas por Julian Assange, criador do site WikiLeaks, que divulga informações oficiais sigilosas.”

Mais informações sobre o livrona polônia

A nova toupeira

Os caminhos da esquerda latino-americana

Emir Sader

Disponível em ebook aqui (R$ 20,00)
Boitempo

Esquerda e populismo. Por redação
O Estado de S. Paulo – Internacional – 2 de fevereiro de 2013.

“Vai sair na Polônia, pela editora Le Monde Diplomatique, ainda este ano, A nova toupeira, livro em que Emir Sader trata da esquerda latino-americana. A editora também manifestou interesse em lançar lá A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, do professor de sociologia da USP Ruy Braga. Os dois títulos saíram aqui pela Boitempo.”

 

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Futuros lançamentos

Até o último homem
visões cariocas da administração armada da vida social

Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.)

Previsto para a segunda quinzena de Abril.

Os descontentes do porto. Por Claudia Antunes
Revista Piauí – Questões de política urbana –  15 de janeiro de 2013.

“No livro Até o último homem, que será lançado em abril pela editora Boitempo, há um capítulo, ‘Complexo dos relatos’, com entrevistas de líderes comunitários que surgiram na época na cidade. A maioria era filiada ao PT ou ao PDT brizolista. Os anos 90, traficantes e milícias de policiais assumiram o controle da maioria das associações de favelas, e a mobilização murchou. O autor do texto, Pedro Rocha de Oliveira, professor de filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora, apontou mais explicações para esse esvaziamento. Entre elas, a desindustrialização de bairros populares e a “burocratização” do PT. ‘Os núcleos de base vão se tornando pouco importantes para o partido, e o movimento social vai ficando sem pai. ada do que o PSOL fizer agora vai criar da noite para o dia o que existia’, disse ele, a um rapaz magro, que vestia bermuda e usava rabo de cavalo, em entrevista no jardim do Museu da República, o antigo palácio presidencial no Catete, próximo ao Centro do Rio.”[Leia mais]

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Mídia, poder e contra-poder
da concentração monopólica à democratização da informação

Dênis de Moraes, Pascual Serrano e Ignacio Ramonet

Previsto para o primeiro semestre de 2013.

“O Brasil é a vanguarda do atraso da América latina”. Por Najla Passos
Mídia com democracia – Entrevista –  29 de janeiro de 2012.

“Considerado um dos mais lúcidos observadores dos fenômenos da comunicação de massa no Brasil, o professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Dênis de Moraes, tem se dedicado a estudar como os governos de origens populares da América Latina enfrentam o monopólio midiático, com legislações e políticas públicas mais democráticas e inclusivas. Ele tem pesquisado, também, o potencial da rede mundial de computadores como nova arena de embates pela hegemonia política e cultural.  Nesta entrevista à MídiaComDemocracia, (…) [ele] critica o imobilismo dos sucessivos governos brasileiros frente à necessidade de se democratizar a comunicação, o que coloca o país em descompasso com seus vizinhos latinoamericanos. E condena, em especial, a falta de políticas consequentes de inclusão digital e de fortalecimento da internet como ferramenta já indispensável à pluralidade de vozes sociais.” [Leia mais]

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Lançamento

Rituais de sofrimento

Silvia Viana

Disponível em ebook aqui (R$ 20,00)

Boitempo

Um show de sofrimento. Por Paloma Rodrigues.
Carta Capital – Cultura – 30 de janeiro de 2013.

“Em 2007, quando começava as pesquisas para seu mestrado, a pesquisadora percebeu que Big Brother se encaixava, de alguma forma, em sua linha de pesquisa sobre ideologia e indústria cultural. ‘Talvez pelo fato de eu nunca ter assistido antes, aquilo tenha me chocado mais. Eu senti que era uma mudança na forma de organização da indústria cultural’, conta Viana em entrevista à CartaCapital. Segundo ela, os brothers são espécies de ‘trabalhadores informais’ do mercado. Fazem de tudo para se manter vivos em um ambiente inóspito e hostil. Batalham, portanto, “para não serem demitidos por déficit de ‘empreendedorismo entretenedor‘, escreve ela em um capítulo denominado ‘As regras’. São as regras do jogo e quem entra lá sabe disso.” [Leia mais]

Provas de fogo. Por redação.
Portal Band – 26 de janeiro de 2013.

“Eles são capazes de tudo. Choram, riem, brigam, ofendem, ameaçam e até se machucam em busca de prêmios e cargos importantes dentro do jogo. E tem sido assim há 13 anos no Big Brother Brasil, um verdadeiro ‘ritual de sofrimento’, como define socióloga a Silvia Viana em seu novo livro.
Ao longo de três meses anuais a disputa entre anônimos passa a ser comentada em cada canto, por onde quer que se vá. Mas, nos discursos, importa muito mais a queda que a salvação. Por esse motivo é que a cada edição os participantes são colocados diante de situações mais árduas, comprovando, segundo a escritora, que o princípio violento do programa funciona, muitas vezes, como uma propaganda.” [Leia mais]

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Rituais de sofrimento analisa a mecânica perversa dos reality shows.
Por Manuel da Costa Pinto.
Folha de S.Paulo – Revista sãopaulo – 27 de janeiro de 2013.

Rituais de sofrimento, da socióloga Silvia Viana, oferece um olhar perturbador sobre os reality shows justamente por não ver no “BBB” (e em similares como “A Fazenda” ou “O Aprendiz”) uma aberração, mas uma extensão do capitalismo avançado e seu “sequestro do tempo privado pela produção”.
Na contramão da ideia de que os “realities” suprem um manancial de fantasias eróticas, ela diz: “O mote do espetáculo (…) é a concorrência, não o voyeurismo. Portanto, aquilo a que assistimos não é algo obsceno, isto é, fora da cena simbólica; o que se vê é essa mesma cena: um pega pra capar. É esse o fundamento que atrai o nosso olhar, pois é o fundamento de nossa reprodução social.” Nas rinhas de BBBs, encontramos a contrapartida perversa da espiral do consumo e da flexibilização neoliberal do trabalho: se o consumidor trabalha ao consumir (afinal, pagar uma conta pela internet é trabalhar para o banco, com ilusão de liberdade e autossuficiência), nos “realities” temos a própria vida transformada em mercadoria -com a malhação e a escolha da roupa se prestando menos à frivolidade sem recalques do que à “via-crúcis” de quem trabalha de graça para a emissora (aí incluídos aqueles que votam nos processos de “eliminação”).” [Leia mais]

Provas de fogo. Por Verena Paranhos.
Jornal A Tarde (BA) – 22 de janeiro de 2013.

“Quando o assunto é reality show, não importa o prêmio, pode ser um milhão de reais ou uma repaginada no visual, os participantes estão dispostos a tudo para continuarem na disputa. Ficar horas em pé com o braço erguido, ser trancafiado em um quarto branco, cuidar de animais são apenas alguns exemplos de provas criadas por diretores criativos e cruéis. Para a socióloga Silvia Viana, essas são apenas algumas marcas da concorrência, principal elemento que aproxima estes programas da vida real. “Os reality shows não representam a forma produtiva, eles levama cabo os mesmos rituais de sofrimento. A eliminação, a seleção, as provas, a mudança constante de regras são rituais que acontecem tanto nos programas de TV quanto na sociedade contemporânea”, afirma Silvia, autora de Rituais de Sofrimento (Boitempo, R$ 37).” [Leia mais]

“Mesmo que achem esses programas péssimos”. Da redação.
Sindicato dos bancários Conquista e Região – 23 de janeiro de 2013.

“Os reality shows estão presentes na TV brasileira há mais de uma década. “Sucessos” no país, programas como o BBB seguem uma lógica que expõe a figura humana a diversas situações, muitas vezes animalescas e indignas. A doutora em sociologia, Silvia Viana, que lançará o livro “Rituais de Sofrimento”, fala sobre este fenômeno.
O que os confinamentos e as provas de resistência “proporcionados” por esse formato podem revelar sobre o público que o consome?O que leva uma massa de milhões detelespectadores a acompanhar freneticamente outras pessoas “presas” por dinheiro? Haveria algo além do voyeurismo? 
Costuma-se pensar que o público, e também os participantes, possuem algum tipo de perversão: são sádicos ou masoquistas ou exibicionistas ou voyeuristas. Não acho que seja isso. Penso que a participação é um imperativo em nossa sociedade: para não perecermos socialmente, precisamos aparecer, estar no mundo, nos mostrar ativos, topar quaisquer desafios (por mais disparatados que sejam), saber de tudo o que está acontecendo etc. O problema da participação é que ela não apresenta um porquê social: participamos (assistindo, votando, ou sendo trancafiados mesmo) só por participar. E essa é a mágica ideológica do capitalismo contemporâneo: trabalhamos para não sermos demitidos, para não deixarmos de trabalhar. Participamos apenas para não estarmos por fora, por participar. Isso fica claro quando questionamos aqueles que acompanham esses programas a respeito de sua qualidade. A maioria não precisa de muita reflexão para afirmar que aquilo não passa de lixo. O problema é que, mesmo sabendo que aquilo não acrescenta em nada na vida, as pessoas fazem. Nossa ilusão está nesse fazer compulsivo e sem sentido, por isso uso o termo “rituais” para me referir aos programas.”[Leia mais]

Saiba mais sobre o livroNa imprensa

O ano em que sonhamos perigosamente

Slavoj Žižek

Disponível em ebook aqui (R$ 16,00)

O ano em que sonhamos perigosamente. Por Marcia Denser.
Congresso em foco – 1 de janeiro de 2012.

“Servindo como uma espécie de Manual para a Mobilização Emancipatória que, segundo o autor, se coloca pela primeira vez em nível planetário, aqui é o velho Lenin da pergunta “o que fazer?”, o filósofo invocado, combinando-se marxismo e psicanálise na linha de Marcuse e Erich Fromm, tudo pra decifrar a “circulação autopropulsora do capital”, que hoje prescinde não só dos trabalhadores como até da burguesia. Hoje farei um breve apanhado do primeiro ensaio “Da Dominação à Exploração e à Revolta”, no qual Žižek, dialogando com Fredric Jameson (As sementes do tempo, S.Paulo, Ática, 1997), outro dos meus críticos preferidos, aborda questões chave como trabalho, não-trabalho, desemprego crônico, suas ironias e paradoxos, e as várias formas de exclusão e exploração. ” [Leia mais]

Mais informações sobre o livro

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O velho Graça
uma biografia de Graciliano Ramos 

Dênis de Moraes

Disponível em ebook aqui (R$ 26,00)

O Brasil de Graciliano Ramos. Por Sheila Jacob.
Revista Samuel – Cultura – 2 de fevereiro de 2013.

“Protagonista de uma trajetória intensa e dramática, o homem Graciliano Ramos permaneceu, durante muito tempo, desconhecido de seus leitores e da opinião pública em geral. Apesar da consagração de sua obra, pouco se sabia da vida do autor de Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. Procurando suprir essa lacuna, o jornalista Dênis de Moraes, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), passou dois anos envolvido com uma intensa pesquisa em acervos. Também fez uma série de entrevistas com pessoas que conviveram com ele. Este rico trabalho de investigação resultou na biografia O velho Graça, lançada em 1992, ano de centenário do escritor. Recentemente, 20 anos depois, a Boitempo Editorial reeditou esse importante material, que mostra, ao longo de suas cerca de 350 páginas, como as preocupações e o exemplo de Graciliano Ramos continuam mais atuais do que nunca.” [Leia mais]

Mais informações sobre o livro

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Confira as colunas e a programação do Blog

Dênis de Moraes – A mercantilização da internet e das redes sociais
Flávio Aguiar – Crônicas de Berlim (22): O dia em que o mundo virou de cabeça para baixo
Roniwalter Jatobá – Sampa, 459 anos
Espaço do leitor: Fabio Mascaro Querido – Depois do colapso da modernidade
Urariano Mota – Alfredo Bosi e o vazio da culutra

(06/02) Coluna do Emir Sader
(07/02) José Paulo Neto – A ontologia de Lukács
(08/02) Coluna do Luiz Bernardo Pericás

Eventos

Lançamento e noite de autógrafos: Rituais de sofrimento

A Boitempo Editorial convida a todos para a noite de autógrafos do livro Rituais de sofrimento, de Silvia Viana. O evento acontece quarta-feira, dia 6 de fevereiro, em São Paulo a partir das 19h no Espaço Serralheria (Lapa).

Na compra de um livro, ganhe um vale chope!

Confira a página oficial do evento aqui.

Serviço

Rituais de sofrimento | lançamento e noite de autógrafos com Silvia Viana
06/02 | quarta-feira | 19h | Espaço serralheria 
Rua Guaicurus, 857 | Lapa | São Paulo | SP
escapeserralheria.org

(11) 2592-3923 / 6794-0124 / 8272-5978

Boitempo no YouTube

No limiar do silêncio e da letra no BandNews

A psicanalista Maria Lucia Homem esteve no programa “Quinta da leitura”, no canal Band News, para falar sobre seu livro No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector.

Saiba mais sobre o livro aqui.

Confira no canal da Boitempo no YouTube, mais de 140 vídeos aqui.

Cypherpunksbanner_assange_blog

Conheça a página de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet

Já está no ar a página dedicada a Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, primeiro livro de Julian Assange (o idealizador e editor-chefe do WikiLeaks) publicado no Brasil pela Boitempo em 2013.

O portal interativo agrega notícias, vídeos e links sobre o movimento cypherpunk, o Wikileaks e Julian Assange, contribuindo para o debate sobre os rumos da internet.

Confira a página oficial Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet aqui.

Saiba mais sobre o livro aqui.


Para adquirir os livros da Boitempo envie um e-mail para vendas@boitempoeditorial.com.br
Se deseja receber este informativo semanal por e-mail, escreva para comunicacao@boitempoeditorial.com.br

Alfredo Bosi e o vazio da cultura

13.02.05_Urariano Mota_Alfredo Bosi e o vazio da culturaPor Urariano Mota.

De modo geral, e particular também, nos textos de cultura na imprensa há um grande logro. Eles não cumprem o que anunciam no título, nem cumprem, quando realizam algum nexo, algo que nos informe, que nos pague o tempo perdido em percorrer suas páginas. Sim, claro, isto é uma característica geral de todas as seções da imprensa, das capas que nos enganam aos programas de televisão. Mas o logro e o malogro das notícias culturais têm um quê de específico, uma especialização nesse logro geral.

Em seus melhores momentos, os textos de cultura conseguem um voyeurismo, uma indiscrição da vida privada dos famosos. “Isso também é cultura”, dizem os editores, sem atentar para o significado particular dado à palavra, confundida com os exames nos laboratórios de análises clínicas. Em seus piores momentos, nem entre os resultados da matéria dos laboratórios tal cultura é digna de aparecer. Falta-lhe um quê de justeza, de adequação, de confiança e crédito no papel que estampam.

Desse pecado não padece o último número da revista Carta Capital, cuja capa é “O vazio da cultura”. Aberta por um texto de Mino Carta, que correu mundo na web, dela destaco a entrevista de Alfredo Bosi a Rosane Pavam. Copio do grande crítico e homem público algumas linhas para os comentários livres a seguir.  

“Ao lado de uma entrega às pressões da indústria cultural há nas artes plásticas, na arquitetura e, sobretudo, na música um número considerável de artistas que fazem pesquisa séria e criam obras de valor”.

Sem dúvida. Cabe observar que artistas geniais, de valor fecundo e fecundante, estão fora da indústria cultural, ou por voluntário exílio, se assim podemos chamar de voluntários os artistas que por natureza são anti-indústria, portadores de um combate feroz contra a ideologia do capital, ou estão fora das telinhas e páginas nacionais em razão de se encontrarem à margem do centro, e o centro no Brasil cultural significa Rio-São Paulo. Para dar nomes aos que conheço, lembro rápido: Abelardo da Hora, maior escultor brasileiro, mas os brasileiros não sabem; Rodolfo Mesquita, um desenhista de traços que ferem, dono de uma rebeldia indigerível no circuito; Ismael Caldas, pintor dos pintores, cujas pinturas são quadros de reflexões, que não se esgotam nunca; Guita Charifker, aquarelista madura, imensa, cujas composições fazem a gente sonhar em paz…. Isso para ficar nas artes plásticas, na imediata lembrança. Mais: bem que mereceria uma análise do quanto a expulsão do olimpo do Brasil se dá por região geográfica, profunda ignorância estética e ideologia política. Mas vamos a outro ponto da entrevista:

“… É claro que a poesia de protesto ou de sátira política é a mais ostensiva, mas há outras modalidades menos enfáticas e igualmente resistentes. Hoje, o poeta crescido na pós-modernidade vive uma condição peculiar, sem horizonte existencial ou político que lhe dê estímulos para lutar. Em lugar da forte e densa negatividade dialética de um Brecht ou de um Drummond, de um João Cabral e de um Ferreira Gullar, o poeta tende a cair em um niilismo cinzento, sinal da sua paralisia como homem público. Predominam as expressões de humor e melancolia”.

Na verdade, a ideologia – no sentido que lhe dá Alfredo Bosi – sofreu ou ganhou um deslocamento, das rodas de intelectuais para os encontros de brasileiros postos à margem de políticas públicas. Isso me vem à lembrança por saber da poesia marginal do Recife, de uma criação e contundência que o Brasil nem imagina existir, assim como a poesia dos saraus na periferia daí mesmo de São Paulo. O que dizer desses novos criadores, eles perderam a razão de luta? Mas no passo acima creio que um dos nossos maiores críticos se refere à poesia maior, dita de extração culta, como em Drummond, principalmente em A rosa do povo, como em João Cabral, que não encontra seguidores que os negue pela superação. Se assim é, ainda assim. Há criadores cultos, de grande poesia, que o Brasil não conhece e por isso imagina viver em um vazio cultural. Para falar do que sei (perdoem o ato falho, pois deveria falar somente do que sei), lembro Alberto da Cunha Melo, que Alfredo Bosi cultiva e consagrou em avaliação crítica. Lembro Nei Duclós, lá mesmo no Sul (lá, porque escrevo a partir da periferia), que faz grande poesia em prosa e verso. Mas continuemos até outro ponto. Diante da pergunta, boa pergunta de Rosane Pavam:

“É injusto ou incorreto esperar da literatura brasileira um nível de excelência obtido no passado por meio de seus grandes escritores, como Graciliano Ramos, ou, antes dele, Machado de Assis?”.

Assim responde Alfredo Bosi:

“Se é verdadeira a afirmação de Goethe ‘O belo é raro’, poderemos dizer o mesmo das grandes obras de ficção, como as criadas por Machado de Assis e Graciliano Ramos. Raras, mas possíveis em qualquer tempo. Mas não será ocioso lembrar que os dois romancistas mencionados foram autodidatas. Hoje, certamente os meios de instrução superior são muito mais acessíveis aos jovens de talento. Fiquemos à espera de criadores do mesmo nível. Há boas promessas. Quem viver verá”.

Grande Bosi. Ótimo. No passo acima, o crítico fala com a experiência de mundo e com a maturidade filosófica, por saber que o real é inesgotável. Ele sabe que a vida não para, não se repete, nem mesmo nos reflexos. Quem pensa que o mundo da cultura acabou, assim pensa a partir dos textos das revistas brasileiras. Mas a imprensa muito longe se encontra da terra criadora do Brasil. Quem quiser saber o novo do Brasil, há de alcançá-lo por meios marginais, pela web, por exemplo, porque a criação está fora do circuito. O lugar insubstituível da literatura, como o lugar da reflexão sobre o destino humano, está fora do circuito de modo absoluto.

Para ficar no que julgo ser a expulsão mais eloquente das páginas e da telinha, escrevo que o lugar insubstituível da literatura, como o lugar da reflexão sobre o destino humano, na grande imprensa é que está fechado. Daí vem um vazio de onde não se ouve nem um gemido. Para a mídia, a criação está morta. É impossível, tornou-se quimera acordar um dia e ler nas páginas de qualquer jornal ou revista do Brasil, em um cantinho no chão da folha, algo como estas linhas de Manuel Bandeira:

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da
noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e
fiquei pensando…
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres
que amei.

Ou mesmo como, para encerrar, o que uma vez falou Alberto da Cunha Melo, ao declarar o bem maior e mais duradouro que um diamante, e por isso mesmo sem preço e sem mercado:

“O PRESENTE
O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estás com ele na multidão
e não o escondes dos mutilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não veem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
não pode ser devolvido”.

***

Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

***

Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Lançamento Boitempo: Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet, de Julian Assange

Capa Cypherpunks

A Boitempo acaba de lançar Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange, criador e editor-chefe do WikiLeaks. O livro conta com introdução de Natália Viana e prefácio de Assange escrito exclusivamente para a edição brasileira.

A versão eletrônica (ebook) é vendida pela metade do preço da versão impressa. Baixe uma amostra gratuita e confira links para a compra clicando aqui.

Leia abaixo a orelha do livro escrita por Pablo Ortellado:

Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet não é um alerta para o futuro, é um alerta para o presente. Neste livro, o fundador do WikiLeaks Julian Assange discute com três proeminentes ativistas do mundo digital – Jacob Appelbaum, desenvolvedor do software de criptografia TOR, Andy Müller-Maguhn, porta-voz do grupo hacker Chaos Computer Club, e Jérémie Zimmermann, ativista da ONG La Quadrature du Net – os perigos de um mundo onde os dados privados dos cidadãos são sistematicamente coletados e requisitados para vigilância governamental, colocando em grave risco as liberdades civis e políticas.

Empresas como Google e Facebook monitoram todas as atividades dos seus usuários – páginas visitadas, padrões de relacionamentos sociais, palavras-chaves de buscas e muito mais – para melhorar a eficácia da publicidade dirigida. O crescimento desse mercado criou bancos de dados muito amplos e precisos que têm sido requisitados regularmente pelos governos, para combater o crime, mas também para controlar a dissidência política. O barateamento das tecnologias de armazenamento de dados também tem estimulado órgãos de inteligência a fazer monitoramento massivo das comunicações dos cidadãos, algumas vezes com expressa autorização do legislativo e do judiciário. Dessa forma, empresas e governos dos países liberais dispõem hoje de mais dados e informações sobre a vida privada dos seus cidadãos do que o governo da ex-Alemanha Oriental possuía nos anos dourados da Stasi.

Cypherpunks é um alerta para esse processo que já está em curso, embora seja invisível para a maioria das pessoas. Para combatê-lo, os autores deste livro defendem o esclarecimento da população, um maior controle público das instituições de vigilância e estratégias técnicas, baseadas em criptografia, para contornar a espionagem de empresas e governos. Além disso, exigem que em contrapartida à proteção dos dados pessoais seja dada maior visibilidade às atividades governamentais. Trata-se de retomar a máxima hacker que, frente à assimetria entre governos e indivíduos, exige privacidade para os cidadãos e completa transparência para o Estado. O livro busca mostrar esses fenômenos que estão tão encobertos quanto são urgentes e sua leitura deve ser o ponto de partida para um programa de ação.

Saiba mais sobre o livro clicando aqui
E não deixe de curtir a página de Cypherpunks no Facebook!

Transparencia para os poderosos privacidade para os fracos_quadrado

Baixe amostra do ebook de “Cypherpunks”, de Julian Assange!

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Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet é o primeiro livro de Julian Assange,  editor chefe e visionário por trás do Wikileaks, a ser publicado no Brasil com o selo da Boitempo. O livro já está nas livrarias em versão impressa e eletrônica (ebook).

Confira abaixo links para download gratuito de uma amostra do ebook:

ePub (para ler em seu computador, smartphone, tablet e eReaders)

mobi (para ler em seu Kindle)

PDF (para ler em seu computador, tablet, smartphone e eReaders)

O ebook de Cypherpunks está à venda por R$15 nas livrarias Saraiva, Cultura/Kobo, Amazon, AppleGooglePlay, Gato Sabido, iba e Travessa, entre outros!

Saiba mais sobre o livro clicando aqui
E não deixe de curtir a página de Cypherpunks no Facebook!

Depois do colapso da modernização

Sobre o artigo Depois da formação. Cultura e política da nova modernização”, de Marcos Nobre (Revista Piauí, n.74, nov./2012).

13.02.04_Fabio Mascaro Querido_Depois do colapso da modernidadeBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Fabio Mascaro Querido.


“O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro marcado entre as gerações precedentes e a nossa”.
Walter Benjamin 

Em um artigo recente, publicado na revista Piauí (n.74, novembro/2012), intitulado “Depois da ‘formação’. Cultura e política da nova modernização”, Marcos Nobre (professor de filosofia da UNICAMP) afirma a necessidade do abandono, por parte da reflexão crítica sobre o “novo padrão de modernização” no Brasil, do outrora imponente paradigma da formação, que, desde os pioneiros Formação da literatura brasileira (1959), de Antonio Candido, e Formação econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, lançou novas bases – não mais ancoradas em uma compreensão mecânica da antítese entre “arcaico” e “moderno” – para os debates sobre o complexo processo de desenvolvimento modernizador do país. Segundo o autor, sobretudo após o golpe de 64, com a constatação de que o moderno e o arcaico combinavam-se muito bem sob o controle político dos militares, o paradigma da formação, ao passar por um momento de “autocrítica”, “reflexivo”, afirmou-se hegemonicamente no campo do “nacional-desenvolvimentismo democrático”.

Desde então, já não se tratava mais de apostar numa “positividade” imanente ao processo de modernização, como se este, num país “atrasado” como éramos, impulsionasse por si só o desenvolvimento da democracia e da justiça social. Bem ao contrário. A questão era exatamente entender as singularidades do avanço inegável de uma modernização que, ao invés de “superar” os elementos arcaicos presentes na formação social brasileira (que, na linguagem de um Florestan Fernandes ainda marcado pela disjuntiva weberiana, constituíam os “obstáculos estruturais ao desenvolvimento de uma ordem social competitiva”), integrava-os dialeticamente, digamos assim, transformando-os em elementos “internos” à própria lógica de acumulação capitalista num país da periferia do sistema.

Foi Francisco de Oliveira, com seu Economia brasileira: crítica à razão dualista (ensaio de 1972, mas publicado em livro apenas em 1981, como indica Nobre), quem demonstrou com toda ênfase esta reciprocidade necessária entre moderno e arcaico, revelando, ao mesmo tempo, o caráter ideológico do pensamento daqueles para os quais (como a CEPAL, o ISEB ou o PCB) a lógica dualista havia se transformado em modelo interpretativo. Para Marcos Nobre, caberia a Roberto Schwarz, em seu ensaio “As idéias fora do lugar” (1973), ampliar o quadro de visão do movimento ideológico identificado por Francisco de Oliveira: agora, não só o moderno e o arcaico se interpõem, mas o moderno, ele próprio, serve de legitimação ideológica para o atraso. Nesse sentido, como diz Nobre, “o moderno sanciona uma forma de dominação na qual sua promessa de realização é uma quimera e, no limite, deboche”.

Mas é exatamente neste momento “reflexivo” que, segundo Nobre, o “paradigma da formação” perde força, coincidindo com as transformações estruturais (no âmbito da assim chamada “terceira revolução industrial”) do capitalismo que tornavam inviável a continuidade de qualquer projeto nacional-desenvolvimentista. Deste ponto de vista, o subsequente processo de redemocratização, a partir da segunda metade da década de 1980, tão-somente confirmou a débâcle dos diversos “projetos de país”, catapultados pelo esgotamento do nacional-desenvolvimentismo. Ademais, com o Plano Real, o desmonte das instituições nacional-desenvolvimentistas ajustou-se à “flexibilidade” necessária para a participação não-conflituosa nas “novas condições mundiais”. Paradoxalmente, é o “paradigma da formação” – com sua utopia modernizadora – que se transformava agora numa espécie de “idéia fora do lugar”, deslocada num contexto de “abertura” global.

Ora, o diagnóstico proposto por Marcos Nobre é interessante, e isso por várias razões. Entre outras coisas, porque reforça a necessidade de (auto) reflexão crítica por parte daqueles que, de alguma forma, mobilizaram aspectos do paradigma da formação para entender o processo de modernização no país. De fato, não é mais possível pensar a formação e o desenvolvimento do Brasil em termos de “construção-nacional-interrompida” ou de modernidade incompleta, sobretudo num país onde as “insuficiências” do padrão moderno de acumulação capitalista sempre foram regra geral, e não mera exceção, como diria Chico de Oliveira, parafraseando Walter Benjamin. Por isso mesmo, nas palavras de Marcos Nobre, “no momento em que as condições para a produção de um sucedâneo do nacional-desenvolvimentismo estão inteiramente ausentes, a continuidade da defesa (implícita ou explícita) do paradigma da ‘formação’ cumpre uma função primordialmente ideológica – e retrógrada”. Tanto quanto sua necessária contrapartida “neomoderna”, para não dizer “neoliberal”, que vigorou a partir de meado dos anos 90 e interrompeu de vez a possibilidade de completude da construção nacional “moderna”.

Todavia, à diferença do que sugere Nobre, muitos dos próceres do paradigma da formação foram, eles mesmos, pioneiros na demarcação do esgotamento anunciado de todo e qualquer projeto nacional-desenvolvimentista. O que Marcos Nobre denomina “obras tardias de impacto” do paradigma da formação, como os trabalhos de Paulo Arantes[1] ou O ornitorrinco (2003), de Francisco de Oliveira[2], constituem, na verdade, diagnósticos de época entre cujas consequências maiores encontra-se exatamente a sustentação da necessidade de refletir em novos termos o percurso modernizador do país, agora num momento no qual tal modernidade demonstrou-se maleável a todo tipo de articulação regressiva. Se a “crítica à razão dualista”, malgrado sua desconstrução teórico-política do nacional-desenvolvimentismo, ainda alimentava alguma esperança nos caminhos abertos pela aceleração da modernização no contexto dos avanços da segunda revolução industrial, e, portanto, era tributária, em certa medida, do que Nobre chama “paradigma da formação”, o artigo O ornitorrinco (2003) significa um momento verdadeiramente atualizador deste processo, no qual o esgotamento da modernização obriga a passar a limpo os tentáculos da tradição à luz do presente. Como diz Roberto Schwarz em seu mais recente livro (Martinha versus Lucrecia. Companhia das Letras, 2012), “para desconcerto geral da esquerda, a modernização agora se tornava excludente e reiterava a marginalização e a desagregação social em grande escala” (p.178).

Não se trata mais, então, de um puro e simples resgate do paradigma da formação e de suas expectativas correspondentes. Ao contrário, tratava-se da sua “dissolução”, por assim dizer, na crítica daquilo que o Brasil moderno se tornou e continuará a ser no âmbito do quadro global da acumulação capitalista agora ancorada num “novo imperialismo” não menos destrutivo. A (auto) crítica do paradigma da formação fora, sim, realizada, mas o problema é que ela não se comprometeu com o que, para Marcos Nobre, constituiria as consequências desejáveis do seu abandono, a saber: o “destravamento da inteligência e da crítica” com vistas à utilização da inédita margem de manobra que dispomos no atual estágio da modernização (capitalista, bem entendido).

Para Paulo Arantes, por exemplo, o esgotamento do “paradigma da formação” significa, acima de tudo, a expressão de um movimento mais profundo de esgotamento do paradigma de modernização capitalista que, desde seus primórdios, condicionou as formas de desenvolvimento no Brasil, país que sempre foi uma espécie de laboratório do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo global, e cuja modernidade idiossincrática vem se tornando, hoje, um modelo da fratura social do capitalismo contemporâneo.[3] Ademais, também para Paulo Arantes, ou para Chico de Oliveira, “um processo de ‘formação’ se encerrou – ainda que não tenha se completado da maneira como esperava o paradigma”, segundo diz Nobre. Em sua opinião, “de certa maneira, não somos a realização nem do sonho nem do pesadelo do projeto ‘nacional-desenvolvimentista’, mas uma combinação de ambos”. Ora, esse não é outro senão, em linhas gerais, o diagnóstico, por exemplo, de Chico de Oliveira em O ornitorrinco, entre cujas consequências está a afirmação da impossibilidade, hoje, sob o risco de um anacronismo fora do tempo, de pensar a sociedade brasileira em termos de construção-nacional-interrompida, e tampouco como uma versão exoticamente tropical de “modernização”, que nos isentaria dos conflitos inerentes à divisão internacional do trabalho.

Aliás, ao vincular o desenvolvimento nacional aos avanços e retrocessos do processo de reprodução global do capitalismo, as tentativas de compreender o Brasil como momento determinado do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, desde Mário Pedrosa, passando pelas “teorias da dependência”, até alguns teóricos do “paradigma da formação”, já haviam antecipado muitos aspectos do impasse presente, destacando a impossibilidade estrutural de um desenvolvimento capitalista-moderno autônomo no país, dado o déficit democrático de uma burguesia periférica constituída às margens dos centros decisórios do sistema (“subdesenvolvimento ou socialismo?” questionará Fernando Henrique Cardoso ainda na década de 1960, excluindo do horizonte do possível a possibilidade de um desenvolvimento capitalista independente no país). O “progresso” já estava em marcha, e a condição de subdesenvolvimento era já o próprio futuro no presente, reincorporando em novas formas aspectos aparentemente insuperáveis do passado.

Não por acaso, a compreensão deste “novo padrão de modernização” (M. Nobre), no qual estão ausentes as possibilidades que emergiram na etapa nacional-desenvolvimentista da modernização, mais confirma do que renega certos aspectos dos diagnósticos das versões dialéticas do “paradigma da formação”. A começar pela idéia de que, inseridos organicamente no processo de reprodução ampliada do capital global, não poderíamos ascender senão a esta combinação aparentemente paradoxal (desde que pensada sob a lógica formal) do mais moderno com o mais arcaico, do mais moderno para o capital e, quase sempre, do mais “arcaico” no tratamento das classes subalternas.

Um dos problemas maiores do argumento de Marcos Nobre é que, ao sustentar a necessidade de renúncia ao “paradigma de formação”, ele parece sugerir a necessidade de um abandono subsequente de toda análise do Brasil à luz dos seus vínculos com o sistema capitalista global e, portanto, à luz do seu posicionamento na rede complexa dos conflitos de classe em seu imbricamento internacional. Isso porque, em sua opinião, “a subordinação já não se organiza mais primordialmente em termos de nação, países ou Estados”, e a outrora nítida relação entre centro e periferia perdeu muito de sua clarividência em tempos da denominada “globalização”.

Forçando o argumento, é como se, para Nobre – num contexto de “crise das receitas tradicionais de modernização” –, não tivéssemos mais alternativas a não ser “aceitar” positivamente, ao modo habermasiano, a modernidade que enfim somos, postura que implicaria, necessariamente, o abandono dos antigos esquemas do desenvolvimento da “formação” e de suas expectativas correspondentes, assim como da confrontação teórica da formação social singular do país com as formas de reprodução global do sistema em sua totalidade. Tais mudanças de rumo, ou melhor, de conteúdo e de abordagem, seriam uma condição fundamental para o desvio e superação deste paradigma agora “caduco” – sobretudo porque continua a insistir na possibilidade de outra forma de resolução dos dilemas da (pós) modernidade. Como diz o autor ao final do ensaio, “iniciar uma nova etapa significa reconhecer que não mudou apenas o caminho. Mudou a pedra”. Aí está a questão, de fato.

Inexiste, porém, na argumentação de Marcos Nobre, a possibilidade de que a superação deste paradigma possa se realizar por meio não exatamente da manutenção, mas da atualização da negatividade crítica que, como ele próprio reconhece, balizou a reflexão de parcela importante dos expoentes intelectuais de tal “paradigma”. E se muitos destes intelectuais buscam, hoje, novas referências teóricas, seja em Žižek , ou em Agambem (como ironiza Nobre), trata-se precisamente de uma tentativa de encontrar recursos para a compreensão de uma modernidade contemporânea que, exatamente (e não apesar de) por ser plenamente moderna, reproduz em novas escalas as desigualdades e conflitos sociais de classe imanentes ao seu funcionamento. Se buscam tais referências, talvez seja porque, para estes “moribundos” da melhor tradição dialética local, uma “vitória” de Habermas significaria, no limite, a vitória de uma modernidade capitalista institucionalmente estabelecida, mas que continua a fazer do “cortejo triunfal” de uns o pressuposto da infelicidade de outros. Se o “subdesenvolvimento” enquanto tal não existe mais, diluído que foi no corpus estranho do “ornitorrinco” que nos tornamos, suas calamidades não apenas seguem existindo, como vem redobrando vida e servindo de medida para a crescente pauperização social em muitos países do centro do sistema.

É sempre bem-vindo qualquer esforço de atualização da reflexão crítica do país. O problema incide, a bem dizer, sobre as formas do diagnóstico e, mais importante ainda, sobre as conclusões e os prognósticos que emergem do balanço crítico proposto. Que fazer diante deste esgotamento histórico de tamanha envergadura? No Brasil, não são senão movimentos sociais como o MST, com todos os seus eventuais limites, muitos advindos de sua base social heterogênea, que desafiam as diferentes temporalidades históricas que se mesclam e que dão o tom da modernidade realmente existente no Brasil, com sua combinação insossa do mais moderno do agro-negócio com o mais arcaico manifestado nos resquícios de escravidão que ainda hoje afligem os mais vulneráveis. Não há mais qualquer nostalgia da “nação” incompleta: esta é a nação possível no espectro do circuito global de reprodução capitalista.

São problemas de “formação”, sem dúvida, mas são também, e antes de tudo, como sabemos hoje, problemas do desenvolvimento desigual e (mal) combinado do capitalismo. Não se pode, portanto, falar de modernização, e tampouco de superação do paradigma da formação, sem falar de capitalismo e de sua atual “periferização do mundo”.

Fabio Mascaro Querido é doutorando em Sociologia, UNICAMP.


[1] Paulo Arantes. “A fratura brasileira do mundo”. In: Zero à Esquerda. São Paulo: Conrad, 2004. Cf. também, Extinção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. Disponível em ebook aqui.

[3] Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo”, op.cit.

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Sampa, 459 anos

13.02.01_Sampa 459 anos_Roniwalter JatobáPor Roniwalter Jatobá.

De aldeamento indígena em 25 de janeiro de 1554, São Paulo chegou aos 459 anos na condição de maior metrópole da América do Sul.

Todas as cidades do mundo comemoram seus aniversários. É uma data aceita oficialmente como sendo o dia em que se iniciou a cidade, a data de fundação. Todavia, essas datas são meramente simbólicas. Acredito que não possuem um significado maior no total processo histórico. Os Campos de Piratininga, nome pelo qual era conhecida a região hoje ocupada pela cidade de São Paulo, já eram habitados pelos primeiros brasileiros, os índios. Os chamados guaianazes e tupiniquins.

– Quem inventou essa data de 25 de janeiro foram os padres e os brancos europeus – um amigo comentou outro dia.

Tem razão. A história sempre foi contada pelos vencedores. Por isso, tenho um sonho antigo. Trata-se da preparação de um livro, onde seriam reunidos os relatos dos que vieram de fora, com a sua inicial impressão da metrópole. Centenas de migrantes em torno de um projeto único: a revelação da primeira vez que viram São Paulo.

Uma vez perguntei a dois operários da construção civil se lembravam da chegada em São Paulo. O mais novo, gaiato, deu uma risada:

– Cheguei dormindo no ônibus e não me lembro de nada.

O segundo, mais velho, recordava tudo. Qual a hora, o dia, o mês e a roupa que usava. Como num filme recordou minuciosamente a condução para chegar à casa de um parente que o acolheria, no bairro da Brasilândia, o movimento estranho de tantos carros nas ruas, a primeira noite maldormida.

– O sol da tarde era mais vermelho, as luzes das lâmpadas mais brancas, o coração parecia pequeno de tanto medo – anotou em sua memória.

O poeta Arnaldo Xavier (1948-2004) deixou escritas suas recordações: era fim de outubro, 1969. Vista ao longe da rodovia Anhanguera, a cidade estava encoberta por uma neblina reluzente e nervosa, a garoa? As silhuetas compostas pelos prédios configuravam São Paulo, como a boca de um gigante, cujos dentes ameaçavam morder rubras nuvens dispersas ante os primeiros e tímidos raios de “um sol de quase dezembro”.

– Lá estava São Paulo, gigante deitado sobre o planalto de Piratininga, molhando os pés enfumaçados ora em Cananéia, ora em Itanhaém, ora em Ilhabela – ele lembra. – Diante daquele primeiro olhar, a enorme boca foi pouco a pouco se traduzindo em ruas, avenidas, pontes e viadutos. Ali estava, flácido e sujo, o rio Tietê, expondo as fraturas de seu destino de locomotiva e de promessa de dias melhores.

Sempre recordo a primeira vez que vi São Paulo. Era Carnaval de 1970. Domingo. Chovia. A antiga rodoviária, na área central, coloriu os olhos. Depois, o trem no Brás. O Tietê. As estações que passavam e, ao lado, fábricas e moradias. Mais adiante, o fascínio pelos arredores de São Miguel, o bairro crescendo em volta da Nitroquímica. O ônibus urbano que me deixa numa travessa da antiga São Paulo-Rio.

A casa na travessa da Rua Tenente Délia, o sofá marrom tomando toda a metade da miúda sala. Uma cortina verde separando a sala dos mundos dos quartos pequenos. A cozinha apertada, o fogão pequeno. Sim, tudo tão novo, tão diferente. Nos dias seguintes, a busca do emprego de fábrica em fábrica. Muitas cidades numa só – multicidades. Zona Leste: Itaim Paulista, São Miguel, Ermelino, Penha, Tatuapé.

Depois, fui desvendando os labirintos de São Paulo, da Capela do Socorro à Lapa, da Vila Maria aos Jardins. Escrevi livros, criei filhos e plantei árvores. São, portanto, mais de quatro décadas de vida em comum com a metrópole. Enfim, um casamento que deu certo. 

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É hoje o lançamento de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange!

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.