Bill Ferrer rides again!

13.08.01_Mouzar Benedito_Bill Ferrer rides againPor Mouzar Benedito.

Como? Eu usando à toa uma frase em inglês que ficaria melhor em português, Bill Ferrer ataca novamente? 

Não sou eu. É o próprio Bill Ferrer, um detetive particular gringófilo, que, segundo consta, tem uma agência num prédio decadente na Baixada do Glicério, região central de São Paulo. 

Com seu auxiliar Vasconcellos, um pernambucano crítico e que odeia as gringuices do chefe, ele apura casos que a polícia não consegue ou não se interessa. Muitos desses casos são apurados com a ajuda de Creodete, prima de Vasconcellos, “gostosíssima”, segundo ele. Os métodos, como diz o próprio nome do livro, não são muito ortodoxos, e isso torna o livro mais interessante e até divertido.

Pois é, depois de uns anos fora de circulação, ele volta com quatro casos no volume O detector de mentiras e outras histórias.

O volume 1, Ferrer, Bill Ferrer – detetive heterodoxo, foi lançado pela Boitempo em 2002, com capa desenhada por Gilberto Maringoni, que disse sobre ele: “Esqueça Sam Spade ou Philip Marlowe. Esqueça um clima enevoado das grandes cidades norte-americanas dos anos 40, detetives durões e mulheres fatais. Você está em São Paulo e o clima é esfumaçado por conta da poluição atmosférica e da sujeira geral. O nome do nosso herói é Ferrer, Bill Ferrer, detetive. Ou, melhor, um virador metido a detetive, envolvido em tramas rocambolescas com armações de primeira, mulheres de segunda e bandidos de terceira”.

Em 2004, mais dois volumes foram lançados, pela Editora Limiar: Os tentáculos do polvo e outras histórias e Chuchu com machadadas e outras histórias.

Agora chegou a vez O detector de mentiras e outras histórias, também pela Limiar. Segundo o editor, Norian Segatto, “neste quarto volume da série de histórias de Bill Ferrer, o detetive mais heterodoxo da literatura nacional, os casos estão ainda mais complexos e bizarros: um contador misteriosamente assassinado em sua sala; policiais corruptos suspeitos de uma queima de arquivo; um empresário assassinado no bairro do Brás e a implacável busca de Vasconcellos (o ajudante faz-tudo de Bill Ferrer) para encontrar a escritora Saphira Mind e tirar-lhe satisfações. Tramas, enredos mirabolantes, bandidos charlatões, nonsense e a eterna irreverência de Mouzar Benedito colocam Bill Ferrer na galeria dos grandes detetives/personagens brasileiros”.

O lançamento será no dia 6 de agosto – a data da bomba de Hiroxima, acreditem, é mera coincidência – a partir das 19h.

Nele serão vendidos também os exemplares anteriores, para quem quiser a coleção toda.

O local do lançamento foi escolhido de acordo com os padrões de Bill Ferrer: um bar de espetinhos (que serve também porções de tira-gostos) que na hora do almoço funciona como restaurante de comida por quilo. É um salão amplo e acolhedor.

Está certo que o bairro foge do padrão Bill Ferrer: é na Vila Madalena, mas os preços são mais em conta do que os bares da região. E quem comprar um livro ganha uma lata de cerveja ou refrigerante.

E apresenta uma vantagem, em termos de facilidade pra chegar e pra ir embora: quase em frente tem um ponto onde pode-se pegar ônibus para a zona norte (Edu Chaves, passando pela rua Teodoro Sampaio, avenidas Doutor Arnaldo e Consolação, centro…), para o Itaim e Shopping Ibirapuera (via Faria Lima – inclusive a estação do metrô com esse nome), a uma quadra tem ônibus para a estação Vila Madalena do metrô e para a região da Lapa, e na esquina tem um grande ponto de táxi que funciona a noite toda. Então ninguém precisa se arriscar a ser pego pela Lei Seca.

Estarei lá autografando o livro para os amigos (só mesmo os amigos comparecem). A minha parceira Saphira Mind não apareceu nos demais lançamentos. Vamos ver desta vez…

Então compareçam e não tenham pressa, com certeza encontrarão lá bons papos, boas bebidas e bons petiscos. Claro, além dos livros que pelo menos os autores, suas famílias, os melhores amigos e os editores dizem que são ótimos.

bill ferrer está de volta

Lançamento de Ferrer, Bill Ferrer, v. 4 – O detector de mentiras e outras histórias, de Mouzar Benedito e Saphira Mind 

Postinho da Vila

6 de agosto, a partir das 19h

Rua Fradique Coutinho, 1332

Telefones 3031-6644 e 7832-6483

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

A cura

13.07.31_Mauro Iasi_A cura

Manifestantes da Marcha das Vadias realizam beijo gay no meio de peregrinos da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 27 de julho de 2013 (Fotografia: Mídia NINJA)

Por Mauro Iasi.

“Ó Crentes! não gabeis a vossa crença
 
Como única; também cremos, como vós;
 
Quem investiga não deixa que a herança
 
Lhes roubem, que é de todos – e de nós”
 
J. W. Goethe

A pesquisadora de neurociências da Universidade de Oxford, Kathleen Taylor, sugeriu em palestra recente que o fundamentalismo religioso pode ser tratado como doença mental. Como não conheço esta senhora e seus estudos, devemos (de forma prudente) supor que se trata de um infeliz comentário isolado. No entanto, como comentário é representativo da visão de mundo da autora.

A dita cientista afirmou que certas pessoas poderiam ser beneficiadas clinicamente de tratamento por serem portadores de uma crença que as leva a comportamentos radicais, e completa dizendo que, desta forma, “torna-se radical a uma ideologia de culto – nós podemos parar de ver isso como uma escolha pessoal resultado de puro livre-arbítrio e começar a tratá-lo como algum tipo de distúrbio mental”. Sua motivação seria, ainda segundo seu juízo, os evidentes danos que tais crenças trazem à “nossa sociedade”, pensando, por exemplo, como candidato “mais óbvio” o “fundamentalismo islâmico” (mas não apenas, a pesquisadora inclui práticas com potencial de cura o hábito de bater em crianças como algo natural).

Suas convicções não se reduzem ao estudo do cérebro, ela é autora de um livro sobre lavagem cerebral (Brainwashing: The Science of Thought Control) que procura os fundamentos da persuasão da Al Qaeda e sua eficiência em arregimentar adeptos.

Mesmo em tempos como os nossos, em que parecemos estar diante de um recrudescimento do pensamento religioso e de práticas sectárias, devemos rejeitar o caminho proposto por esta senhora. Primeiro pelo receio fundamentado que depois de curar a religiosidade radical de uns, esta suposta ciência se volte para buscar os caminhos que tentem curar nosso ateísmo, da mesma forma que busque um tratamento adequado ao comportamento radical (como quebrar vitrines em Ipanema e enfrentar a polícia ao invés de apenas se deixar espancar, como seria normal). Mas, de forma mais enfática, porque o caminho proposto nos parece ser, em poucas palavras, uma bobagem.

Já em 1929, o psicólogo soviético Lev S. Vigotski nos alertava, em seus manuscritos, que “a natureza psicológica da pessoa é o conjunto das relações sociais, transferidas para dentro e que se tornam funções da personalidade e formas de sua estrutura” e daí concluía que: “é ridículo procurar centros especiais para funções psicológicas superiores ou funções supremas do córtex”. Completa sua sentença argumentando que não se trata de “ligações internas orgânicas”, “não são estruturas naturais, mas construções” (VIGOTSKI, L. “Manuscrito de 1929”, in Educação e Sociedade, n. 71, p. 27, jul, 2000).

Freud, igualmente, ironizava aqueles que buscavam compreender processos psicológicos unicamente por suas fontes neurológicas afirmando que desta forma poderiam no máximo compreender onde ocorrem esses processos, mas não como.

Aparentemente na contra-mão desta linha, um determinado desenvolvimento da neurociência tem mapeado, com eficiência, o cérebro humano em áreas e logrado atribuir com certa precisão a localização de espaços “sentimentos” ou “comportamentos”, como a fome, o prazer sexual, o medo etc. Entre eles, uma área que parece estar vinculada à religiosidade. Ora, mesmo supondo tais avanços, estaríamos diante apenas das funções neurológicas que traduzem certos impulsos, mas nem de perto definiriam sua forma. Explico-me.

Norbert Elias, por exemplo, está convencido que não podemos falar em impulsos básicos em estado puro, pois todo impulso já é circunscrito em uma determinada cultura, ou (como o autor gosta de denominar) um momento civilizatório. Não sentimos “fome”, mas temos sempre fome de alguma coisa e em certas horas, e esta forma encobre o impulso de forma que é vã a tentativa de descascá-lo até chegar na fome em si. Seria estranho a um pitecantropo acordar no meio da noite em uma savana africana com vontade de comer brigadeiro ou um pedaço de pizza (espero que não haja cura nem para um, nem para outro).

Outro argumento que julgo importante vem da própria área da neurobiologia e de um de seus especialistas, o português Antônio Damásio, que critica impiedosamente a dualidade mecânica com que temos trabalhado a relação entre corpo e mente, assim como entre a emoção e a razão. Segundo o cientista lusitano – em sua obra O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano – tanto as emoções como a razão não dependeriam de um único centro cerebral, mas de uma complexa integração interna e externa (como se prova com os estudos de acidentes que alteram ou deslocam certas funções das áreas lesionadas para outras).

É possível que exista em nosso cérebro uma área responsável por um certo sentimento que milênios de civilização foram encobrindo com uma incrível multiplicidade de formas que chamamos religião, no entanto há entre este sentimento e o fenômeno religioso a mesma distância que separa o processo digestivo de uma boa refeição. A religião é um produto histórico do ser social, uma mediação de segunda ordem diria Lukács, isto é, uma mediação dos seres humanos entre si, um produto da cultura e não da natureza.

Freud falava de um sentimento “oceânico”, uma certa admiração e temor ao olharmos a imensidão e supor o que não vemos. Mas essa sensação que poderia ter primariamente a função de nos manter em alerta sobre potenciais ameaças pode ser acionada pela intuição de que um carnívoro nos espreita na selva densa, a possibilidade remota de existirem monstros embaixo de nossa cama ou, ainda, a mais improvável sensação de que aquele pensamento impuro pode me condenar a passar a eternidade vendo minha carne assar no fogo dos infernos.

A religião sobrevive no espaço da sombra, do não conhecido, das dúvidas essenciais sobre de onde viemos e para onde vamos. Sua função primordial é a construção de um sentimento de continuidade, daí a própria origem do termo em latim – religare – ligar as pontas soltas entre o passado, o presente e o futuro. Os seres humanos se sentem como joguetes ao sabor da aleatoriedade da natureza e procuram primeiro humanizá-la para poder chantageá-la, seduzi-la ou comprá-la com oferendas ou sacrifícios, só depois que, de maneira mais sofisticada, deslocam seu próprio ser em um Ser Supremo, uma Providência que por ser nosso criador tem para nós um plano.

Podemos sofrer as auguras da vida, mas seremos recompensados com uma salvação extra-mundana ou qualquer outro bem de salvação esperado, desde que respeitemos em nossa ação e pensamentos os limites estabelecidos, não causemos danos à propriedade, usemos nossos corpos de maneira aceitável (evitando orgasmos e produzindo mais valia, por exemplo). É eficiente, mas tem um efeito colateral. Como já nos esclareceu Feuerbach, os seres humanos antes de compreender o sol de sua existência em si mesmos o projetam para algo fora de si, se alienam. A religião é inseparável da alienação e do estranhamento que faz com que os produtos e as construções sociais da mente humana se voltem contra nós como força estranha que nos controla. Aristóteles dizia: os homens fazem os deuses a sua imagem e semelhança. Séculos de cristianismo inverteram a sentença: Deus fez os homens a sua imagem e semelhança. Não há cura clínica para a alienação.

Partilho com Marx seu otimismo ao acreditar (radicalmente) na possibilidade dos seres humanos superarem o estranhamento das relações reificadas e fetichizadas da ordem da mercadoria e do capital e estabelecer uma livre associação entre os produtores. No entanto, não sou tão otimista quanto ele no que diz respeito ao fenômeno religioso. O grande alemão estava convicto que o reflexo religioso podia desaparecer “quando as relações cotidianas da vida prática se apresentem diariamente para os próprios homens como relações transparentes e racionais que eles estabelecem entre si e com a natureza” (Marx, K. O Capital, livro I, p. 154, São Paulo, Boitempo, 2013). Lógico que isso implicaria uma série de mudanças nas condições materiais de existência que tornassem possível a livre associação entre os produtores, mas a própria emancipação política levada a termos pela revolução burguesa daria conta de parte deste processo, até pelo desenvolvimento da ciência.

Não parece haver dúvida que o desenvolvimento de uma sociabilidade que supere as bases do estranhamento diminui o espaço ocupado pelo comportamento religioso, mas arriscaria dizer que dificilmente o elimina como fenômeno social. Sempre haverá os espaços das sombras, o vazio da existência, o medo, a morte, ou ainda a mais simples sensação de fazer parte de algo maior que nós mesmos, que nos conecta, nos liga e permite nossa transcendência – como a religião ou a internet ou o compromisso político.

A doutora de Oxford argumentaria que não se trata de curar a religiosidade, mas de certa adesão fundamentalista e radical a uma crença. Mas aí a coisa fica pior ainda. Ela está em busca da cura da convicção (dos outros, não as dela). E se a ameaça que nos espreita não for um carnívoro assassino, e se o que pode nos matar não se esconde nas profundezas abissais dos oceanos para sair de repente e destruir uma Tóquio de isopor e papelão, ou um tsunami, ou um meteoro mirando a Terra, ou um deus vingativo e cruel e seu Armagedom? E se o que pode nos destruir for nós mesmos e a ridícula sociabilidade que construímos e que agora se volta contra nós como uma força estranha? Se em nossos estranhos cérebros amadurecer a convicção que é necessário destruir esta sociabilidade para garantir a nossa existência enquanto espécie e, coerentemente, rompermos a inércia e transformarmos esta certeza em ação, em práxis, em revolução?

Devo estar doente, me identifico muito mais com os jovens que nas ruas enfrentam a tropa de choque e se aquecem nas fogueiras da solidariedade que liga os que lutam, do que com peregrinos e seus kits coloridos sob o céu cinza (de chumbo, como já anunciou Benedetti) “com helicópteros e sem Deus”.

Lá em casa, escondido da chuva, escuto Silvio Rodriguez procurando por uma ovelha negra que se perdeu e canta: “Ahora es la maldición de mi rebaño, ahora es la incertidumbre de mis hijos, ahora es cuanto hay de triste en estos años (…) La mañana vendrá temprano, estaré para echarle mano, romperé con su malo ejemplo para el rebaño que manda dios, porque el pasto de mis ovejas lo siembro yo!”. Aí, precisamos encontrar rapidamente uma cura para a arte… estou doente de poesia!

Em tempos de Feliciano patrocinando a cura gay, da senhora Taylor preconizando a cura ao fundamentalismo religioso e o radicalismo, parece-me que por caminhos estranhos a forma da humanidade denuncia sua doença. Parece-me haver uma certa tendência contemporânea que estranhamente quer curar a humanidade… da humanidade.

Nosso caminho certamente é mais promissor, não se trata da humanidade, mas de uma certa forma particular da história humana submetida à mercadoria e ao capital que precisa ser superada, inclusive com suas formas caricaturais de religiosidade corporativa/comercial que lhe são tão adequadas. Rompê-la… com violência… preciso marcar uma hora com a Dra. Taylor… ou ir para a rua… e que Deus me perdoe… é, vou para a rua… foda-se!

Em tempo: os cientistas cubanos anunciam a vacina contra o câncer de pulmão. Tudo indica que todos poderão se beneficiar dela, tanto aqueles que acreditam em Deus, como os que não acreditam.

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Esta sexta-feira (2 de agosto) a Boitempo lança seu próximo livro de intervenção Cidades Rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com textos de Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa.

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Sobre as manifestações de junho, leia no Blog da Boitempo:

Problemas no Paraíso, por Slavoj Žižek

Levantes aqui, ali e em todo lugar, por Immanuel Wallerstein

A situação da cultura diante dos protestos de rua, por Roberto Schwarz

Por que a concentração monopólica da mídia é a negação do pluralismo, por Dênis de Moraes

A potência das manifestações de rua, por Ricardo Musse

A primavera brasileira: que flores florescerão? por Carlos Eduardo Martins

As manifestações, o discurso da paz e a doutrina de segurança nacional, por Edson Teles

O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação, por Marilena Chaui

A criação do mundo revisitada, de Izaías Almada

Tarifa zero e mobilização popularO futuro que passou, de Paulo Arantes

Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita e avançar a luta socialista, de Mauro Iasi

A classe média vai ao protesto A classe média vai ao protesto (II), por Pedro Rocha de Oliveira

A direita nos protestos, por Urariano Mota

A revolta do precariado, por Giovanni Alves

O sapo Gonzalo em: pôr fogo em tudoO sapo Gonzalo em: todos para as ruas, de Luiz Bernardo Pericás

A guerra dos panos e Técnicas para a fabricação de um novo engodo, quando o antigo pifa, por Silvia Viana

Fim da letargia, por Ricardo Antunes

Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura e Levantem as bandeiras, de Ruy Braga

Proposta concreta, por Vladimir Safatle

Anatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco

Esquerda e direita no espectro do pacto de silêncioMotivos econômicos para o transporte público gratuito, por João Alexandre Peschanski

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A guerra sem explosões da literatura

13.07.30_Urariano Mota_A guerra sem explosões da literaturaPor Urariano Mota.

Na última terça-feira, tive a honra de participar do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. O convite que recebi se deu em razão do meu romance O filho renegado de Deus. Na mesa, onde se encontravam o escritor João Silvério Trevisan e a ilustre mediadora Guiomar de Grammont, o tema da conversa foi “Escritor em ação: viver e escrever”. Divulgo a seguir a fala que improvisei por escrito para esse encontro. 

Entendo “Viver e escrever” como a vida que se reflete na literatura. Ou de modo mais  preciso: como a minha própria vida se reflete no que escrevo.   

Antes, um esclarecimento que devo fazer misturado a um pedido de desculpa.  Quando digo “falar da vida que se reflete no que escrevo”, isso não é um atestado de narciso, de vaidade ridícula, de supor a minha vida digna da literatura. Não, o meu cotidiano é banal, assim como a banalidade imensa que cerca todas as nossas vidas. Eu nunca fui à lua, não conheço Estocolmo, não sou filho de generais, de traficantes, nem descendo de ladrões riquíssimos ou de famílias quatrocentonas, nessa ordem. Aliás, na minha família a genealogia se perde, na medida em que não identifico sequer os meus avós. Por esse caminho de biografia magnífica, a minha vida não daria um romance, naquele sentido que o povo muitas vezes fala, “a minha vida daria uma novela”.

Como poderia falar de uma vida que não tem ação de rilhar os dentes, nem acontecimentos extraordinários nem amores glamorosos? A minha vida não daria um best-seller. Por isso, corrijo: best-seller, não, mas a minha vida – assim como a de toda gente – é digna da literatura. Dependendo do que se fizer do banal, da limonada dos limões recebidos, a vida de qualquer pessoa é digna da literatura. Ou melhor dizendo, a boa literatura é que é digna da vida de toda a gente.   

De passagem, esclareço o método particular de quem escreve literatura. O escritor de ficção, em vez de narrar ideias gerais, narra pessoas, personagens particulares. É da natureza do nosso gênero, é a nossa forma de trabalhar. Ainda que estejamos escrevendo sobre as coisas mais abstratas, algo como a Constituição Federal atualizada, ainda assim o escritor, o que tem gênese e característica da literatura, falará da Constituição Federal conforme a biografia sentida da própria vida. É como um louco ou doente sem remédio. Em muitos significados, ele é um funcionário permanente. O escritor me lembra um bancário que não conseguia sair do banco. Ia pra casa, o banco o acompanhava. Ia dormir, lá estava o banco.  Ia pro bar, e quando no calor da cerveja se discutia sobre a estratégia da França com a Linha Maginot depois da 1ª Guerra Mundial, o bancário concluía: “Entendo, eu também faço isso. Eu pego os livros de relatórios e empilho na minha frente, pra ninguém me perturbar. Essa Maginot é como lá no banco”.

Não é que o escritor seja um monstro biográfico, que possua um misterioso talento onde não cresçam e frutifiquem ideias. Pelo contrário, não se conhece um só bom autor que não possua uma concepção do mundo e dos seus desconcertos. Mas é que nele, no escritor, as ideias sofrem uma interpretação particular, que se mostram no que ele escreve. Nele não há lugar para a sobrevivência da tese, que é do ofício de todo ensaio científico ou acadêmico. Na literatura, os personagens não são bonecos de ideias gerais. São gente, de cara e dente, onde as ideias se batem, se violentam e mantêm o conflito. Como na vida fora da escrita.        

Nos livros, falo do que vi em minha juventude – tão perto de mim – como eu gostaria de crer. Neles falo da repressão da ditadura, de pessoas heroicas, covardes e loucas, ou em profundo desespero, que eu vi. Falo da minha infância em um subúrbio periférico do Recife, que tem o nome de Água Fria, que não se pronuncia em boa conversa, porque seria o mesmo que falar um palavrão. O melhor de mim está quando volto os olhos para esse mundo sem nome, de pessoas que desaparecem sem nome, cujo sepultamento é apenas um alternativa precária da carniça para os abutres. É para esse imortal escárnio que me volto. Essa gente, gentinha gentalha da minha genética é que me sustenta. Antes, durante suas vidas e depois.

A literatura é a terra da democracia. Ela permite a um filho do povo escrever e por isso ser recebido com tapete vermelho em qualquer palácio. E a honra será dos palácios. Essa democracia da literatura, esta literatura que me permitiu ser menos insignificante, é a minha terra e o meu destino. Eu não sei atirar, esmurrar, e assim não posso combater e matar a injustiça com as mãos cheias de bombas, balas e mísseis. Como não posso, escrevo. 

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Lançamento Boitempo: O capitalismo como religião, de Walter Benjamin

O capitalismo como religião, de Walter Benjamin (capa)

A Boitempo acaba de lançar O capitalismo como religião, livro inédito de ensaios do filósofo alemão Walter Benjamin (1892 – 1940). Com organização de Michael Löwy, um dos maiores estudiosos brasileiros de Benjamin (autor de Walter Benjamin: Aviso de incêndio), a obra integra a Coleção Marxismo e Literatura, coordenada por Leandro Konder e pelo próprio Löwy. A edição conta ainda com textos de Jeanne-Marie Gagnebin e Maria Rita Kehl.

A versão eletrônica (ebook) já está à venda nas livrarias Saraiva, Travessa e Google Play, dentre outras.

Confira abaixo o texto de quarta capa escrito por Jeanne-Marie Gagnebin:

Com este livro o leitor tem em mãos escritos de Walter Benjamin em sua maior parte desconhecidos não só do público brasileiro mas dos estudiosos e leitores do autor em geral. Com a liberação da obra de Benjamin para o domínio público, muitos ensaios surpreendentes vêm à tona, em particular os ditos de juventude, isto é, produzidos antes de seu primeiro contato com a teoria marxista, a partir da amizade com Asja Lācis e Bertolt Brecht.

Fiel à sua chave de interpretação, apresentada em numerosos livros, Michael Löwy escolheu textos que vão de 1912, quando Benjamin participa do movimento da “Jugendbewegung”, do qual se distancia no início da Primeira Guerra Mundial, até os anos mais decididamente militantes, no exílio, de 1933 a 1940. Segundo Löwy, trata-se de mostrar como Benjamin soube unir, na sua rejeição contundente ao capitalismo, impulsos oriundos tanto do romantismo alemão quanto do messianismo judaico e do marxismo libertário.

Vale ressaltar o ensaio que dá o título ao livro, “O capitalismo como religião”, de 1921, no qual Benjamin exerce uma crítica feroz ao capitalismo, promovido a religião universal da Schuld (isto é, tanto “dívida” quanto “culpa”), assimilando num gesto ousado as reflexões de Friedrich Nietzsche, Max Weber, Georg Simmel e do teórico anarquista Gustav Landauer. Tal texto pode ajudar a estabelecer uma distinção mais fina entre os conceitos de religião e teologia no pensamento de Benjamin.

Também deve ser mencionada a importância dos escritos ligados à redação da tese de livre-docência sobre a Origem do drama barroco alemão assim como de várias resenhas de Benjamin, que tentam questionar o presente por uma retomada crítica da tradição histórica e literária.

Chomsky vs. Žižek

13.07.29_Chomsky vs Zizek_João Alexandre PeschanskiPor João Alexandre Peschanski.

Trocam diatribes pela internet Noam Chomsky e Slavoj Žižek. Ainda com pouca repercussão no Brasil, a troca de farpas circula como um viral – em inglês e já em outros idiomas – por redes sociais, blogs e até a mídia convencional. Para os desavisados, estamos já no terceiro round e a iniciativa está com o filósofo esloveno.

Na primeira rodada, o linguista norte-americano, com dezenove títulos publicados (conquistados?) no Brasil, basicamente acusou Žižek de ser um charlatão. Em entrevista ao programa de rádio Veterans Unplugged, dos EUA, concedida em dezembro de 2012 (em inglês, aqui, a partir de 4:45), Chomsky disse:

Quando digo que não tenho interesse em teoria, o que quero dizer é que não me interessa quem faz pose — quem usa termos sofisticados cheios de sílabas e pretende ter uma teoria quando não tem teoria alguma. […] Não há teoria em nada disso [a filosofia de Lacan, Žižek e Derrida], não no sentido de que estão acostumadas as pessoas nas ciências e outros campos sérios. Tente encontrar em todo o trabalho que mencionou princípios a partir dos quais possa deduzir conclusões, proposições que se pode testar empiricamente, em que se vai além do nível que uma criança de doze anos pode entender em cinco minutos. Veja se consegue encontrar isso quando os termos sofisticados forem decodificados. Eu não consigo. Então não tenho interesse nesse tipo de pose. Žižek é um exemplo extremo disso. Não vejo o menor interesse no que diz.

A distinção entre aqueles que fazem “pose” (no original, posturing), com jargões rebuscados, e a teoria científica remete a uma crítica importante na esquerda. Foi elemento central num debate televisionado que opôs Chomsky e o filósofo francês Michel Foucault, em 1971 (disponível aqui). Está no severo diagnóstico de Perry Anderson, em seu clássico Considerações sobre o marxismo ocidental, sobre a esquerda europeia a partir da Segunda Guerra Mundial, que, segundo Anderson, iniciou uma nova configuração intelectual, divorciada da prática política e do entendimento do materialismo histórico como “ciência”. Levou ao surgimento do grupo do No-Bullshit Marxism [o marxismo sem abobrinhas, para ser educado], uma escola influenciada pela filosofia analítica que, importante nos anos 1980, propôs a pesquisa das preocupações clássicas do marxismo a partir dos métodos científicos ditos burgueses, rejeitando a dialética como fundamento próprio da investigação materialista histórica. Na fala de Chomsky, Žižek aparece então como um seguidor da tradição de esquerda continental – em referência à Europa menos a Inglaterra, analítica –, em sua linha de questionamentos ontológicos (Bem-vindo ao deserto do real!), de retomada da dialética (Menos que nada), sobre o ser como abstração, o Real não alcançável. Noto que Žižek está longe de reivindicar o pós-estruturalismo, pelo contrário. De todo modo, para Chomsky a filosofia do esloveno é charabia, à francesa – liberdade minha, na medida em que o inglês bull-shit já foi tomado –, especialmente porque o real é passível de ser observado e apreendido empírica e concretamente.

A segunda rodada, a resposta de Žižek, ocorreu em 12 de julho de 2013, numa mesa-redonda organizada pela Escola de Verão de Teoria Crítica de Londres, com a participação de Costas Douzinas, Stephen Frosh, Esther Leslie e Laura Mulvey, além do filósofo esloveno. No debate (disponível aqui, a partir de 1:30:18, em inglês), num salto a partir de uma discussão sobre mitologia grega, aliás tipo de salto característico das conexões rápidas e inesperadas de sua obra, Žižek afirma:

O que está havendo com a universidade, Chomsky etc.? Com todo o respeito que tenho por Chomsky, minha primeira colocação é que, apesar de sempre enfatizar que se tem de ser empírico, preciso, não um lacaniano maluco cheio de especulações etc., […] não há ninguém que eu conheça que tenha estado mais errado empiricamente [do que Chomsky]. Lembro quando ele defendeu a manifestação do Khmer Vermelho. E escreveu alguns textos dizendo: “Isso é propaganda ocidental. O Khmer Vermelho não é tão horrível”. Depois, quando teve de admitir que o Khmer Vermelho não era o pessoal mais bacana do universo, sua justificativa me chocou. Foi: “Com os dados de que dispunha no momento, eu tinha razão. Até aquele momento, não sabíamos o suficiente, então…”. Rejeito cabalmente esse tipo de raciocínio. Por exemplo, em relação ao stalinismo. A questão não é que se tem de saber, que se tem uma evidência fotográfica do gulag ou algo do gênero. Pelo amor de Deus, basta ouvir o discurso público do stalinismo, do Khmer Vermelho, para saber que há algo terrivelmente patológico aí. Por exemplo, o Khmer Vermelho: mesmo sem qualquer dado sobre suas prisões etc., não é de maneira perversa quase fascinante um regime que nos primeiros anos se comportou em relação a si mesmo como sendo ilegal? O regime não tinha nome. Era chamado Angka, uma organização – não Partido Comunista do Camboja, mas uma organização. Os líderes não tinham nomes. Se você perguntasse “Quem é meu líder?”, era decapitado sumariamente.
Minha segunda colocação sobre Chomsky [diz respeito] à consequência dessa atitude do empírico etc., o que é minha diferença fundamental com ele […], a sua ideia de que o cinismo das pessoas no poder é tão aberto que não precisamos de uma crítica da ideologia […]. Basta trazer os fatos às pessoas, do tipo “Essa empresa está se aproveitando da situação no Iraque” etc. e discordo fortemente disso. Primeiro, mais do que nunca a vida cotidiana é ideologia. Como se pode duvidar disso quando o Paul Krugman mesmo publicou um texto relativamente bom demonstrando que a ideia de austeridade nem é uma boa teoria econômica burguesa?! […] Segundo, os cínicos são aqueles que mais tendem a iludir-se. Os cínicos não enxergam as coisas como elas são etc. […]
Em relação à popularidade, fico um pouco incomodado com a ideia de que nossos sofismas são hegemônicos nas humanas. As pessoas estão malucas? Somos sempre marginais. O que é para mim a hegemonia acadêmica: é brutal. Quem consegue vagas nas universidades? Quem consegue financiamentos, fundações etc.? Somos totalmente marginais aqui. Olhe para mim: “Sei, você é uma estrela nos Estados Unidos”. Bem, eu gostaria de ser, pois gostaria do poder para usá-lo brutalmente. Mas estou longe disso. […] A vasta maioria dos acadêmicos é composta de cognitivistas e historiadores grisalhos… Não os vemos, mas são o poder. E por que estão preocupadas as pessoas no poder? Não dá para exagerar a paranoia esquerdista de que “podemos todos ser recuperados” etc. Não! Ainda acredito ingenuamente na eficiência do pensamento teórico. Não é tão simples quanto recuperar tudo. Há várias estratégias diferentes de conter-nos. Posso não ser inocente nisso, porque as pessoas gostam de dizer sobre mim: “Vá e escute-o, é um palhaço que diverte…”. É outra forma de dizer: “Não o leve a sério”.

Alguns aspectos em relação à resposta de Žižek, descontada a verve açoitadora: (1) para além da provocação em torno da obra de Chomsky – que diz respeitar e desrespeita –, revela a suposta falácia enunciativa do empiricismo. Assume a pose de quem pretende que a realidade seja cognoscível para mostrar que, segundo ele, esse conhecimento depende necessariamente das predisposições de quem faz o diagnóstico, da simbolização das evidências do real. De certo modo, defende sua filosofia, tachada de não teórica no sentido científico, exagerando a voz de quem o ataca e revelando-se mais empiricista do que aquele que “sempre [enfatiza] que se tem de ser empírico, preciso, não um lacaniano maluco cheio de especulações”. (2) O empiricismo tal qual postulado em sua forma absolutizada é visto por Žižek como uma rejeição da ideologia, que, na referência a Krugman, revela a possibilidade de realizar-se pela articulação política da ilusão aquilo que é teoricamente rejeitado nos próprios parâmetros estabelecidos pela teoria e que se manifesta como próprio sustentáculo da ilusão. (3) A autorreferência do trecho final serve para revelar a manifestação do outro lado: a brutalidade do empiricismo, hegemônico para Žižek, em relação àquilo que é marginal. O Žižek descrito, passível de ser brutal, portanto perigoso, é o objeto sublime dos empíricos absolutos, construído para justificar a contenção e a ridicularização do pensamento não hegemônico e com o qual se estrutura o parâmetro para se julgar a ciência. Seguindo a definição do psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, em “Žižek: um pensador e suas sombras” (disponível aqui), “a fantasia ideológica não se opõe à realidade, mas estrutura a própria realidade social. O problema reside em saber o que, em cada momento, precisa ser excluído da realidade para que a própria realidade se mostre consistente”.

Chomsky, na terceira rodada, tomou Žižek ao pé da letra e o rebateu de maneira científica. Publicou em 21 de julho, com o nome “Fantasias”, no site ZNet (disponível aqui, em inglês), uma longa resposta à provocação de Žižek, da qual extraí apenas alguns trechos:

Li com certo interesse [o comentário de Žižek a meu respeito], esperando aprender algo […] e encontrar erros que devessem ser corrigidos – tais erros existem em possivelmente tudo o que é impresso, mesmo monografias técnicas acadêmicas, bastando ler as resenhas nas publicações profissionais. Quando os encontro e sou informado sobre eles, corrijo-os.
Mas não aqui. Žižek não encontra nada, literalmente nada, que esteja errado empiricamente. Isso não me surpreende. Qualquer pessoa que alega encontrar erros empíricos e é minimamente sério apresenta pelo menos alguns elementos de evidência – alguma citação, referência, pelo menos algo. Mas não há nada aqui – o que também não me surpreende. Já li sobre o conceito de fato empírico e argumento lógico de Žižek.
Por exemplo, na edição de inverno de 2008 do periódico cultural alemão Lettre Internationale, Žižek me atribuiu um comentário racista sobre Obama, feito por Silvio Berlusconi. Eu o ignorei. […] Um editor da revista Harper’s, Sam Stark, se interessou e foi atrás da história. Na edição de janeiro de 2009, revelou o resultado de sua investigação. Žižek disse que baseava a atribuição a algo que tinha lido numa revista eslovena. Uma fonte maravilhosa, se é que existe. E, continuava, atribuir-me um comentário racista sobre Obama não é uma crítica, porque deveria ter feito esse comentário como “uma caracterização plenamente aceitável em nossa luta política e ideológica”. Deixo a quem quiser que decodifique essa frase. […]
[Em seu comentário sobre o Khmer Vermelho], Žižek está provavelmente se referindo a um trabalho em conjunto com Edward Herman nos anos 1970 (Political Economy of Human Rights) e uma década depois em Manufacturing Consent, em que revimos e respondemos às críticas às quais Žižek está aparentemente se referindo. Em PEHR, discutimos vários exemplos da distinção de Herman entre vítimas dignas e indignas. As vítimas dignas são aquelas cujo fim pode ser atribuído a um inimigo oficial, as indignas são as vítimas de nosso próprio Estado e seus crimes. Nossos dois principais exemplos foram o Camboja sob o Khmer Vermelho e a invasão do Timor Leste pela Indonésia, nos mesmos anos. […] As vítimas do Khmer Vermelho são “dignas”, pois seu fim pode ser atribuído a um inimigo. Os timorenses são “vítimas indignas”, porque somos responsáveis por seu fim: a invasão indonésia foi aprovada por Washington e apoiada mesmo nas piores atrocidades, identificadas como “genocidas” por uma investigação posterior da ONU, mas com ampla evidência naquele momento, como documentamos. Mostramos que os dois casos eram mentiras incríveis, numa escala que teria impressionado Stalin, mas em direções opostas: no caso do KV, fabricação de supostos crimes, condenações requentadas após serem rejeitadas etc. No caso do TL, diferentemente, no geral silêncio ou até negação.
Os dois casos não são, claro, idênticos. O caso do TL é incomparavelmente mais significante, pois as atrocidades poderiam ter sido facilmente encerradas, como finalmente foram em setembro de 1999, basicamente por uma indicação de Washington de que o jogo tinha acabado. Em comparação, ninguém tinha qualquer proposta sobre o que fazer para parar as atrocidades do KV. […]
Escrevemos que não temos como saber todos os fatos, mas sugerimos que os comentadores são confiáveis e que atentam para o registro documental e reconhecemos os observadores qualificados, em especial o Departamento de Estado dos EUA, sabidamente a fonte mais confiável. O capítulo, além disso, foi lido pela maioria dos principais acadêmicos do Camboja antes da publicação. A falta de erros não é uma grande surpresa. […]
Como o leitor pode determinar, Žižek não oferece a menor evidência para apoiar suas denúncias, apenas repete o que ouviu – ou talvez leu num jornal esloveno. Não menos interessante é o choque de Žižek sobre termos usado os dados que estavam disponíveis. Ele rejeita “cabalmente” esse procedimento. Não é preciso comentar tamanha irracionalidade. […] Uma questão permanece sobre por que esse tipo de performance é levado a sério, mas deixo isso de lado.

A resposta de Chomsky é uma defesa precisa do proceder científico: a elaboração teórica (a hipótese sobre os dois tipos de vítimas, tomando como variável explicativa a participação de Washington), o teste empírico a partir dos melhores dados disponíveis (não há dados perfeitos e a falta de dados perfeitos não tem de impossibilitar a descoberta e o teste de hipóteses, apenas tem de se levar em conta de maneira transparente as imperfeições do que foi observado como elemento para provar ou rejeitar a teoria proposta), a disponibilização do argumento à crítica. O proceder científico leva à rejeição do que Žižek diz sobre Chomsky, testado com base no que Chomsky acredita ser o melhor dado disponível, já que Žižek não cita suas fontes, tomando o enunciado do filósofo esloveno como teoria testável e testada. Conclusão: “Žižek não encontra nada” e, portanto, Žižek é uma teoria falsa, uma performance que surpreende por ser levada a sério.

A verborragia exagerada do filósofo esloveno e sua rejeição displicente de uma das principais linhas de investigação crítica das últimas décadas do século XX, em torno de Manufacturing Consent, incomodam, para bem e para mal. Incomodaram Chomsky, levando-o a pôr o foco de sua resposta na empiria – no valor de seu trabalho – e a não considerar elementos pertinentes e propositivos da crítica de Žižek, como os que citei acima. Isso deixa o debate em certo impasse, com uma fresta na interlocução. Criado o impasse, acentuam-se as marcações de campo, evidentes nos comentários, das personalidades da esquerda aos interessados no debate, perguntando de que lado se está, à espera da quarta rodada, “Chomsky vs. Žižek”.

É no alvoroço e na espetacularização que o debate se torna desinteressante, desapegado da prática política, bullshit, nem chomskyano nem žižekiano. E, assim, prefiro responder à mesma pergunta, sobre os lados, entoada em outro contexto – no título de uma música folk norte-americana, escrita por Florence Reece em 1931 e conhecida principalmente na versão de Pete Seeger, de 1967: Which Side Are You On? “Não há pessoas neutras aqui/ Ou se é mineiro/ Ou se é capataz da J. H. Blair [milícia organizada por uma mineradora que perseguiu a família de Reece]”.

P.S.: Em 25 de julho – um dia após o envio deste post para publicação –, Žižek postou uma resposta a Chomsky no blog da editora Verso (disponível aqui, em inglês).

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Cidades rebeldes capa Final.indd

Na esteira dos recentes embates urbanos que abalaram o país, a Boitempo prepara um novo livro de intervenção, Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, inspirado nos megaprotestos das últimas semanas. A obra, editada em parceria com o portal Carta Maior, segue a linha do livro Occupy – movimentos de protestos que tomaram as ruas, com o mesmo formato e preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book). Participam dessa coletânea autores nacionais e internacionais, como Slavoj Zizek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski, Carlos Vainer, Venício A. de Lima, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa.

Além de analisar a conjuntura política e social, o lançamento pretende contribuir com o debate iniciado pelo Movimento Passe Livre (MPL) – que também participará com um artigo –, ajudando a consolidar suas bases teóricas e práticas. Os principais temas abordados são o direito ao transporte público e à cidade, a violência nas manifestações, partidarismo, luta política e democracia. O livro também conta com ensaio fotográfico do coletivo Mídia NINJA e a previsão é de que chegue às livrarias no dia 2 de agosto.

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João Alexandre Peschanski é sociólogo, editor-adjunto da Boitempo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Valor intelectual | Roberto Schwarz sobre Chico de Oliveira

Roberto sobre Chico_corPor Roberto Schwarz.

Além de muito bons, os ensaios de Chico de Oliveira sobre a atualidade política são sempre inesperados. Isso porque refletem posições adiantadas, de que no fundo não temos o hábito, embora as aprovemos da boca para fora. A começar pelo seu caráter contundente, e nem por isso sectário, o que a muitos soa como um despropósito. Faz parte da fórmula dos artigos de Chico a exposição de todos os pontos de vista em conflito, sem desconhecer nenhum. Mas então, se não é sectário, para que a contundência? A busca da fórmula ardida não dificulta a negociação que depois terá de vir? Já aos que apreciam a caracterização virulenta o resumo objetivo dos interesses contrários parece supérfluo e cheira a tibieza e compromisso. Mas o paradoxo expositivo no caso não denota motivos confusos. Na verdade ele expressa adequadamente as convicções de Chico a respeito da forma atual da luta de classes, a qual sem prejuízo da intensidade não comporta a aniquilação de um dos campos.

Em várias ocasiões Chico acertou na análise quase sozinho, sustentando posições e argumentos contrários à voz corrente na esquerda. O valor desta espécie de independência intelectual merece ser sublinhado, ainda mais num meio gregário como o nosso. Aliás, o desgosto pela tradição brasileira de autoritarismo e baixaria está entre os fatores da clarividência de Chico. Assim, como não abria mão de levar em conta o que estava à vista de todos, o seu prognóstico sobre o governo Collor foi certeiro, antes ainda da formação do primeiro ministério[1]. Também a sua crítica ao plano Cruzado, publicada em plena temporada dos aplausos, foi confirmada pouco depois[2]. Nos dois casos Chico insistia numa tese que lhe é cara, segundo a qual a burguesia brasileira se aferra à iniciativa unilateral e prefere a desordem ao constrangimento da negociação social organizada. Ainda neste sentido, quando tudo leva a culpar o atraso de Alagoas pelos descalabros de Collor, Chico explica o “mandato destrutivo”  que este recebeu da classe dominante “moderna”, aterrorizada com a hipótese de um metalúrgico na presidência.

O marxismo aguça o senso de realidade de alguns, e embota o de outros. Chico evidentemente pertence com muito brilho ao primeiro grupo. Nunca a terminologia do período histórico anterior, nem da luta de classes, do capital ou do socialismo lhe serve para reduzir a certezas velhas as observações novas. Pelo contrário, a tônica de seu esforço está em conceber as redefinições impostas pelo processo em curso, que é preciso adivinhar e descrever. Assim, os meninos vendendo alho e flanela nos  semáforos não são a prova do atraso do país, mas de sua forma atroz de modernização. Algo análogo vale para as escleroses regionais, cuja explicação não está no imobilismo dos tradicionalistas, mas na incapacidade paulista para forjar uma hegemonia modernizadora aceitável em âmbito nacional. Chico é um mestre da dialética.

* Artigo-homenagem de 1992, escrito por ocasião do concurso de Francisco de Oliveira para professor titular da USP, e transcrito “sem prejuízo das ironias que o tempo acrescentou” como “adendo” ao “Prefácio com perguntas” de Roberto Schwarz em Crtítica à razão dualista / O ornitorrinco.


[1] Cf. Novos Estudos Cebrap,  n. 26.
[2]Folha de S. Paulo, 16 de março de 1986.

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Já estão disponíveis em versão eletrônica (ebook) os seguintes livros de Chico de Oliveira: Crítica à razão dualista / O ornitorrinco, Noiva da revolução: elegia para uma re(li)giãoHegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira (organizado em conjunto com Ruy Braga e Cibele Rizek) e A era da indeterminação (organizado em cojunto com Cibele Rizek).

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Roberto Schwarz  é crítico e membro do Comitê editorial da revista Margem esquerda: ensaios marxistas, editada pela Boitempo Editorial. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lançamento Boitempo: A corrupção da opinião pública

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Em meio a um efervescente campo disputa das manifestações de rua em que se problematiza cada vez mais o lugar da imprensa na pauta do debate público, a Boitempo lança, A corrupção da opinião pública: uma defesa republicana da liberdade de expressão, de Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim. Em boa hora, o livro apresenta um roteiro atualizado e didaticamente organizado do que de melhor tem sido produzido sobre o tema, colocando-se enfaticamente contra a instrumentalização política e teórica do princípio de liberdade de expressão para defender os interesses de um segmento social poderoso, que controla os meios de comunicação.

O diagnóstico é claro: há corrupção da opinião pública e grave interdição da liberdade de expressão como um direito de todos à fala pública. Em um quadro no qual o debate sobre a comunicação é a tal ponto escamoteado que se tem dificuldade em diferenciar a liberdade de expressão da liberdade da imprensa, é da mais alta importância o trabalho de reconstrução conceitual de A corrupção da opinião pública.

Leia abaixo a orelha do livro

Fruto de uma pesquisa de três anos, este livro visa contribuir na formulação de um novo paradigma e de uma nova perspectiva para a polêmica pública das relações entre democracia e liberdade de expressão. De modo coerente, ele pretende integrar em um mesmo argumento, a partir de um ponto de vista republicano reconstruído, a defesa da liberdade de expressão, a legitimidade e necessidade da regulação democrática e pluralista dos meios de comunicação e a reconstrução de um conceito de opinião pública democrática.

Em oposição ao conceito liberal típico de liberdade de expressão, entendido como direito privado afirmado negativamente contra as leis do Estado, mesmo aquelas democraticamente elaboradas, afirma-se que a liberdade de expressão não pode ser formulada analiticamente de modo unilateral e separada do próprio conceito de liberdade política. Este é concebido como aquele que vincula a possibilidade da autonomia do indivíduo ao princípio da soberania popular. A liberdade de expressão é concebida como o direito público de voz do cidadão, de falar e ser ouvido na democracia. Por isso, é instituidora da própria condição da liberdade pública e reivindica para existir instituições e leis que garantam as melhores condições de igualdade social, de gênero e de étnica.

O livro se contrapõe às razões liberais que advogam a desregulamentação, plena ou parcial, dos meios de comunicação nas democracias através do apelo a “um livre mercado de ideias”, em geral organizado por empresas privadas. Esse apelo, exacerbado no período de predomínio neoliberal da cultura política e da jurisprudência norte-americana, é fortemente polêmico nos EUA, além de ser atípico em relação às democracias europeias. O livro descreve o seu antagonismo ao caráter público e universal da liberdade de expressão.

Por fim, reconstrói-se o conceito de opinião pública democrática, fortemente desacreditado, em particular pelas teorias liberais elitistas. Em diálogo crítico com as teorias que trabalham com o conceito de esfera pública, procura-se estabelecer coerência entre os princípios normativos de um livre debate público com as condições institucionais, econômicas e sociais de simetria de poder de voz que o condicionam. A liberdade de expressão individual, então, é concebida em relação aos fundamentos da própria existência da opinião pública democrática.

Esses juízos, a partir dessa reconstrução conceitual, justificam e alimentam o diagnóstico que, em graus variados, as democracias contemporâneas, particularmente no Brasil, enfrentam graves impasses estruturais que privatizam o direito à voz e geram fenômenos sistemáticos de corrupção da opinião pública.

Sobre o livro

“A corrupção da opinião pública: uma defesa republicana da liberdade de expressão constitui uma tentativa pioneira de entender o debate sobre o papel central da mídia nas democracias – debate este que permanece interditado no Brasil – e apresentar um roteiro atualizado e didaticamente organizado do que de melhor tem sido produzido sobre o tema.

De imediato, este livro oferece ao leitor brasileiro uma inédita referência teórica e conceitual para que esse debate possa finalmente ser iniciado. Além disso, ajuda a compreender de maneira clara o porquê de, em nosso país, liberdade e liberdade de expressão constituírem conceitos em disputa e, ao mesmo tempo, princípios a serem defendidos em nome de uma democracia republicana.”

– Venício A. de Lima

Nossas palavras

CAPA_.inddPor Edyr Augusto.

Meu amigo lusitano Diniz está traduzindo para o francês meus dois primeiros romances, Os Éguas e Moscow, lançamentos Boitempo Editorial. Temos trocado e-mails muito interessantes, por conta de palavras e gírias comuns no meu Pará e absolutamente sem sentido para ele. Às vezes é bem difícil explicar, como na cena em que alguém empina papagaio e corta o adversário “no gasgo”. Não sei se no universo das pipas, lá fora, ocorrem os mesmos e magníficos embates que se verificam aqui, com linhas enceradas e manobras ousadas, “cortando e aparando” os adversários ou então, maior habilidade, “dar no gasgo”.

Outra situação em que personagens estão jogando uma “pelada” enquanto outros estão “na grade”. Quem está na grade, aguarda o desfecho da partida, para jogar contra o vencedor, certamente porque espera fora do campo, demarcado por uma grade. Vai explicar…

E aqueles dois bebedores eméritos que “bebem de testa” até altas horas? Por aqui, beber de testa é quase um embate para saber quem vai desistir primeiro, empilhando as grades de cerveja ao lado da mesa.

O tradutor de Hornet’s nest [Casa de caba], Richard Bartlett, comprou dicionários de palavrão e DVDs eróticos brasileiros, para melhor entender. Richard é sul africano, mas aprendeu português em Moçambique e agora mora em Londres.

Penso que é parte da nossa criatividade, de nosso potencial, o uso das gírias, de palavras bem locais, quase dialeto, que funcionam na melodia do nosso texto, uma qualidade da literatura brasileira. Sei que o governo está fazendo esforço no sentido de tradutores para lançamento no mercado europeu de vários autores. Agora na Feira do Livro em Frankfurt, o Brasil é homenageado e muitos escritores lá estarão.

Quanto a mim, uso pouco, aqui e ali, nossas palavras. Procuro ser econômico. Mesmo assim, vou respondendo aos e-mails. Ele me diz que enfim, está tudo pronto. Agora é aguardar a publicação. Quando souber o título para Os Éguas, aviso.

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Selva concreta, de Edyr Augusto já está disponível em versão eletrônica (ebook) por uma fração do preço do impresso nas livrarias AmazonGato Sabido e Travessa, entre outras.

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Edyr Augusto Proença é jornalista, radialista, redator publicitário, autor de teatro e de jingles. É autor de cinco livros de poesia: Navios dos cabeludos (1985), O rei do Congo (1988), Surfando na multudão (1992), Indêncio nos cabelis (1995) e Ávida vida (2011). Estreou em prosa na Boitempo Editorial, em 1988, com Os Éguas. Desde então, publicou os romances Moscow (2001),  Casa de caba (2004) e o mais recente Selva Concreta – obra que em 2007 ganhou edição em inglês pela britânica Aflame Books, com o título Hornets’ Nest –, além do livro de contos Um sol para cada um (2008).

Libertemos os ricos e a extrema riqueza!

13.07.25_Flávio Aguiar_Libertemos os ricos e a extrema riquezaPor Flávio Aguiar.

Passando os olhos pela superfície de nosso país, fiquei atônito com o número de iniquidades que ainda caracterizam nossa sociedade atrasada, cheia de nós e impasses! Conhecedor que sou da vida civilizada ao norte do nosso planeta, pensei ser meu dever apresentar um corpo de propostas para melhorar a vida em nossa terra e livrá-la dos entraves que ainda atravancam seu progresso rumo a ser uma das nações afinadas com o concerto das demais que já se refinaram conforme a música dos ideais civilizatórios que embalam nossas melhores aspirações!

Hoje em nossa sociedade emasculada de seus bons princípios, há governantes que se jactam de ter contribuído para libertar os mais pobres da extrema pobreza. Vã ilusão, vão ideal, colcha de retalhos eivada de equívocos! Não são os pobres aqueles a quem se deve ajudar a se libertarem de suas peias, pois eles não as têm! Se são pobres, é porque é da vontade de Deus, ou por sua natural vocação para a indolência e a busca do bem-estar através de subterfúgios, como a dependência do Estado e a sobrecarga de atribuições que caem, injustamente, sobre os ombros já carregados dos mais ricos!

Portanto, o que nos cabe, neste momento de decisões cruciais, é libertar os ricos dos pesados encargos que impedem que eles desenvolvam suas aptidões e com elas ajudem o desenvolvimento equilibrado e sustentável de nosso país.

Por exemplo, foquemos esta candente discussão, que hoje se trava, sobre fornecer médicos para todos, desejando-se até macular nossa ilustre classe hipocrática com a importação de médicos comunistas para atender unicamente os mais pobres e as regiões remotas do país. Não! Importemos médicos sim, mas para concentrá-los nas áreas mais nobres de nossas cidades e nas zonas rurais de grandes produtores, que engrandecem nosso PIB, este anão de hoje porque sua média tem de ser repartida com regiões onde predomina a vocação para o lazer de nossas classes pretensamente laborais, mas na verdade vagabundais!

Importemos médicos – aliás, unidades hospitalares inteiras –, da Suécia, da Finlândia, da Noruega, da Suíça, de Miami, para que atendam nossas classes sacrificadas pelos pesados impostos e taxas que caem sobre sua justa abastança. Quanto às periferias das grandes cidades e as regiões remotas do país, que se baixe um decreto proibindo que tenham mais médicos por habitantes do que o razoável, digamos, 0,001 médico por 100 mil habitantes. Só assim estas classes daninhas aprenderão o quanto elas custam para o erário público e para os melhores de vida através dos impostos, graças à sua teimosia de viver em barracos, palafitas, nas margens dos esgotos naturais que felizmente a natureza e a previdência poluidora de nossos laboriosos industriais mantêm, pois assim impedem gastos maiores com coisas inúteis, como a prevenção e estações de tratamento de dejetos que supostamente melhoram a saúde das pessoas.

Como se a saúde fosse uma coisa pública! Não é! Isto está comprovado pelos melhores filósofos da Academia de Wall Street. Pois vejam só: se a população de um país tem majoritariamente boa saúde, o seu PIB cai. Mas, ao contrário, se proliferam epidemias, pandemias, pósdemias, prédemias, etc., o seu PIB aumenta! Isto comprova que a doença deve ser um bem público, não a saúde! Saúde é para quem pode! Isso de que saúde é um bem público é uma farsa criada por um conhecido cripto-comunista, o Chanceler Otto von Bismarck, conhecido por sua caolha e míope visão política. Um títere nas mãos dos bolcheviques!

Nosso país tem uma alta carga de pigmentação dermatológica. Há até gente que se orgulha disto. Mas isto contribui para o aumento da riqueza nacional? É claro que não, pois é um bem – ou um mal – natural. É claro que não há racismo nem discriminação em nosso abençoado Brasil. Por isso mesmo, a pigmentação da pele deveria ser taxada! Ela é um bem natural. Mas apenas isto não resolveria o problema da igualdade. Assim, aquele que pudesse comprovar que sua pigmentação adviesse de horas e horas de banhos solares em spas especializados ou com raios ultra-violetas, contribuindo assim para a rotação das esferas econômicas, seria isento de tal imposto! Teríamos de criar – criar não, importar – pigmentômetros dos Estados Unidos para verificar inclusive se a pigmentação da pele de um cidadão é natural ou não, até mesmo para evitar que espertinhos conseguissem falsos atestados de pigmentação artificial para assim burlarem o rigor do fisco. O avanço em justiça social desta medida logo seria sentido: quanto mais pigmentação, mais taxação!

Outra injustiça clamorosa em nosso país está no sistema tributário. Para corrigir esta situação insuportável, introduziríamos o Imposto Devolutivo Progressivo. Como funciona isto? Vou dar um exemplo bem ilustrativo. Ao ir para outro país, nossos viajantes por vezes se surpreendem quando, ao dele sair, recebem a oportunidade de terem devolvido o imposto sobre serviços ou circulação de mercadorias. Mas nem todos têm o tempo e a oportunidade de obterem tal devolução. Assim, a nossa Receita Federal se encarregaria de ressarcir os viajantes que não obtivessem sua devolução integral! Mas onde está a justiça social nisto, perguntarão os mais sedentos de correção das injustiças em nossa terra? (Ainda mais neste momento em que levas de estreantes em viagens internacionais enchem como manadas as filas, transformadas em bretes, de nossos aeroportos) Ora, em duas variáveis. A primeira seria substituir a ridícula emissão de cartões da insuportável Bolsa-Família pela emissão de Cartões-Riqueza, com base em dados rigorosos da Receita Federal. Quanto mais alto o valor do Cartão Riqueza, mais alta a devolução obtida. Outra seria a oferta de brindes: quanto mais alto o valor das compras, mais brindes o requerente receberia. Por exemplo: o ápice seria o de algum abastado que comprasse, digamos, um carro carésimo. Além da devolução do imposto pago, ele receberia outro carro idêntico de brinde, que poderia, data venia, dar a seu filho, para que este não desenvolvesse uma síndrome de carência. Nada como a verdadeira justiça social e psicológica!

Falando em carros, proponho que outra clamorosa injustiça seja corrigida. Se há um atropelamento, e o atropelador é rico e o atropelado pobre, a opinião pública tende injustamente a se voltar contra o primeiro e a favor do segundo. Isto se deve aos comunistas que assolam a nossa imprensa, que deveriam ter seus dedos cortados para impedir que digitem suas torpes ideias! No caso de um atropelamento daquele tipo acima descrito, a apresentação do Cartão Riqueza emitido pela Receita por parte da vítima, isto é, o atropelador, provocaria imediatamente um exame de corpo de delito feito pelo IML – Instituto Mecânico Legal – no veículo. Constatado algum dano neste, o pobre atropelado deveria indenizar imediatamente o rico vitimado pela imprudência do primeiro. Se este estiver ainda em faixa reservada para pedestres, que deverão ser para o uso apenas dos portadores de Cartão Riqueza, sua indenização será agravada por Presunção Indevida de Direito. Agora, se o pobre cometer a esperteza ilícita de morrer, apenas para fugir ao pagamento de sua indenização, então sua família deverá dela se encarregar, através, por exemplo, da prestação de serviços gratuitos à família do rico atropelador, quando a mãe de família poderá trabalhar como doméstica, o filho como engraxate ou carregador de pacotes do supermercado, a filha como babá, etc., na mais alta contribuição para a formação moral dos apenados, que assim apreenderão que na vida, nem tudo pode ser adquirido pelo dinheiro. Para o resto, é claro, existe o Cartão-Riqueza!

Os casos omissos, isto é, se um rico for atropelado por um pobre – mesmo que este esteja a pé, serão resolvidos pelo nosso STR – Superior Tribunal da Riqueza. No caso de um rico atropelar outro rico, os pobres que estiverem nas proximidades pagarão as indenizações a ambos, uma pena por evidente omissão de riqueza.

Outras injustiças poderão ser corrigidas, usando-se a imaginação. Por exemplo, o Passe Livre no transporte público. Os meios de transporte – todos – serão reservados aos ricos. Cada família rica terá seu ônibus individual, com direito a dois andares, ascensor para o de cima, com ascensorista de paletó, gravata, e luvas brancas, entrada de serviço para o motorista, os atendentes do frigobar e o operador do ar condicionado. Os pobres andarão a pé, mas poderão, por exemplo, correr atrás dos ônibus dos ricos, fazendo assim um saudável cooper. O transporte público será subsidiado pela municipalidade, com apoio dos governos estadual e federal, mediante a cobrança de um imposto único, dirigido, naturalmente, a quem não dispor do seu Cartão-Riqueza.

Será abolido o Salário Mínimo, bem como todas as leis trabalhistas. Esta torpe invenção tem sido injustamente atribuída à Carta del Lavoro – de saudosa memória – quando todos sabem que esta não diz uma única letra a respeito deste flagelo que prejudica o bom desempenho de nossa economia. O Salário Mínimo, como se sabe, foi inventado por uma conspiração afrojudaicopalestinomaçônicapositivistacomunopetebopetistavarguistalulossindicalista, e deverá ser substituído pela Lei do Salário Máximo Possível, que se aplicará com todo o rigor dos números e cálculos baseados na emissão dos Cartões-Riqueza: 0,00001% da soma do valor total destes será reservada ao pagamento de salários e distribuído entre os assalariados, libertando o país das pressões inflacionárias decorrentes.

Com estas medidas e outras de igual jaez, o Brasil estará dando uma lição ao mundo, e integrando-se, no seu devido lugar, no concerto entre as nações!

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A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

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Confira um trecho da aula de Flávio Aguiar sobre o livro, no departamento de letras modernas da USP:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Teorias do totalitarismo e Guerra Fria

13.07.23_Emir Sader_Teorias do totalitarismo e Guerra FriaPor Emir Sader.

A palavra “totalitarismo” e suas distintas – mas sempre aparentadas – concepções são parte indissolúvel da “guerra fria”. Surgidas conforme proliferavam regimes ditatoriais na Europa – do fascismo na Itália ao nazismo na Alemanha, do franquismo na Espanha ao salazarismo em Portugal, entre outros –, se estenderam à União Soviética, no mecanismo essencial de igualar nazismo e comunismo, todos amalgamados sob o conceito de regimes totalitários.

Conceitualmente a categoria não se sustenta. Busca passar a ideia da existência de regimes não permeados por contradições, de tal maneira que fechariam-se todos os espaços sociais e políticos para conflitos. Era uma forma de exacerbar o vocabulário, diante de fenômenos para os quais o pensamento social ainda não tinha formas de compreensão.

O surgimento de regimes radicais de direita, com ativo apoio popular, surpreendia escolas de pensamento ancoradas na Revolução Francesa e nos movimentos populares que a sucederam – especialmente 1848 e a Comuna de 1871 –, em que a direita estava representada pelo velho regime, com pensamento conservador, de restauração e contra as ideias novas e radicais de democratização que surgiam. As bases sociais da direita eram oligárquicas, aristocráticas, enquanto os novos movimentos se apoiavam diretamente nas novas camadas populares, surgidas com a emergência do capitalismo, a expansão do comercio e o surgimento da industrialização.

Esses estereótipos foram surpreendidos com a aparição de regimes de direita com forte apoio popular. Ao não conseguirem dar conta da sua natureza, radicalizaram as palavras, chegando à ideia hiperbólica do totalitarismo.

Uma função essencial das teorias do totalitarismo foi a de identificar o nazismo e o comunismo como tipos similares de regimes, suposto essencial da Guerra Fria. Na concepção ocidental, o inimigo fundamental do mundo seria o totalitarismo. Primeiro se teria derrotado o totalitarismo nazista, em seguida o combate se daria contra o totalitarismo comunista (vencido este, a luta se voltou contra o totalitarismo islâmico).

O requinte dessa assimilação entre regimes de extrema direita e de extrema esquerda chegou ao calculo demográfico segundo o qual o nazismo e o comunismo teriam matado a mesma quantidade de milhões de pessoas.

O campo teórico proposto pelas teorias do totalitarismo teria, como desdobramento, a exaltação da “democracia”, no seu modelo liberal, como exemplo de liberdade – categoria à qual se opõe o totalitarismo.

As teorias do totalitarismo revelaram seu caráter estritamente ideológico, incapaz de dar conta dos fenômenos concretos, com o termino da URSS como resultado de suas próprias contradições internas – mesmo que aguçadas do exterior –, confirmando que não há sociedades sem espaços de contradições internas.

A incapacidade de compreender as formas de regimes ditatoriais com apoio de massas surgidos na Europa a partir da década de 1920 , como produto da própria crise do capitalismo – intensificada pela crise de 1929 – é que levou ao apelo às teorias do totalitarismo, que funcionaram como peças de propaganda do bloco imperialista durante a Guerra Fria.

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As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.