As águas do rio começaram a correr: mas, para onde?

13.06.20_Ronaldo Gaspar_As águas do rio começaram a correr_mas para onde

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Por Ronaldo Gaspar.

Quando a mobilização popular rompe as comportas do imobilismo e da repressão, o rio das mudanças políticas – e, quiçá, econômicas – corre seu curso. Nos últimos dias, isso aconteceu por aqui, embora ainda não saibamos a direção dessas águas… Um sentimento perpassa essas manifestações que iniciaram tendo como mote o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo: o de que há alguma coisa apodrecida em nossa precária democracia burguesa, tão eivada de instituições impermeáveis às demandas populares e governantes que atuam de maneira autocrática e inebriados pela mentalidade militar – e, nisto, Alckmin tem sido exemplar.

Mas não é só isso! Como substrato socioeconômico das misérias políticas nacionais, há uma sociedade profundamente desigual e injusta, na qual dezenas de milhões ainda vivem em habitações lúgubres e bairros depauperados, embarcam em transportes públicos sufocantes, desconfortáveis e lentos, transitam morosamente em seus automóveis – muitas vezes, precários e inseguros – por ruas escuras, feias e esburacadas, padecem ou morrem nas filas de postos de saúde e hospitais, entre outros males terríveis. Isso, porém, não significa que ultimamente o país só tenha piorado; ao contrário, os índices econômicos e sociais – ainda muito ruins – são inequivocamente melhores do que no infausto período da ditadura militar (por isso, acreditar que o imobilismo popular e sindical dos últimos anos resulta somente do nefasto papel de lideranças pelegas é tão idealista quanto atribuí-lo ao “espírito do tempo”).

Inclusive, de maneira contraditória e compreensível, a própria melhoria das condições de vida, por mais limitada que tenha sido, constitui um dos combustíveis da mobilização popular – pois quem melhorou de vida, mesmo que pouco, não quer degringolar ladeira abaixo novamente. Seja como for, muitos são os motivos dessa melhoria vivenciada no período – a própria inércia econômica é um deles. Outro, um produto tardio das mobilizações dos anos 1980: a ascensão ao poder político central de um partido de origem operária e popular (PT) – simbolizado por sua liderança máxima: um ex-metalúrgico e dirigente sindical. Um partido que, no entanto, somente efetuou essa ascensão depois que – e talvez porque – abandonou, há muito tempo, as marcas principais dessa origem – a composição social de seus quadros e militantes – e, de modo sintomático, não apenas jamais esposou amplamente as ideias emancipatórias que melhor correspondem a ela – as do marxismo – como, pior, abraçou as teses principais do ideário político hegemônico das classes dominantes – o neoliberalismo. E, no poder, sustentou o apoio das camadas populares mais empobrecidas por meio de mínimas concessões econômicas.

Mas, mesmo tendo ocorrido sob a égide do ideário neoliberal, a ascensão desse partido e sua liderança ao cargo máximo da república foi um importante acontecimento simbólico num país de passado colonial e escravocrata e de industrialização hipertardia. Um país no qual as classes dominantes velhas e novas sempre se articularam (e, agora envelhecidas, continuam a se articular) para impedir a emersão de forças renovadoras do trabalho, e cujo ingresso das massas populares nos processos políticos sempre foi recebido com profunda desconfiança e impiedosa repressão. Eis o motivo porque, embora nunca tenham sido ameaça às classes dominantes – sob muitos aspectos, ao contrário, contribuíram bastante para seu enriquecimento –, os governos petistas – com o aumento do salário mínimo e suas políticas compensatórias de baixíssimo custo – jamais tenham gozado do mesmo prestígio que tiveram os governos constituídos sob a direção dos partidos endógenos àquelas classes. Para muitos de seus membros, assim como da pequena burguesia, esses governos ainda carregam algo de odioso, alguma coisa que, mesmo dissolvida em outros odores, traz ínfimos resquícios de “povo” (por exemplo, não há dúvida que a fúria e a devoção condenatória da grande imprensa aos “mensaleiros” se enraízam muito mais nessa vaga lembrança de suas origens do que nos ilícitos que estes cometeram).

Em razão disso, o curso de nossa história armou um medonho paradoxo político: no momento em que o capitalismo global e, em âmbito nacional, seu mais recente ciclo de crescimento econômico fazem água por todos os lados, a máxima representação política (Dilma) – responsabilizada pelo naufrágio econômico, inflação etc. – e a imediata (Haddad) – responsabilizada pelo impasse-estopim dos atuais protestos – não são, para muitos, expressões da política de direita, mas (pasmem!) de esquerda – ou melhor, de uma suposta esquerda. Enquanto que, de fato, a esquerda – ainda perdida em meio aos acontecimentos do século XX e aos seus dilemas teóricos e práticos – é bastante inexpressiva politicamente – no Brasil e no mundo – e, assim, incapaz de mobilizar e orientar as massas populares em prol de políticas efetivamente transformadoras da ordem social (e, diga-se, quaisquer outras são meros paliativos).

Num contexto em que, como possibilidade efetiva, as grandes e necessárias transformações socioeconômicas não estão no horizonte ideológico e político das massas populares, o conservadorismo – entre outros exemplos, expresso no apartidarismo, patriotismo e na abordagem moralista da política – que permeia certas posições no interior do Movimento Passe Livre – ainda ideológica e politicamente nebuloso – restringe o rol de possibilidades das reivindicações e, assim, torna difícil delinear o curso de seu desenvolvimento. Não é improvável, inclusive, que ocorra seu desgaste e esvaziamento com o atendimento da reivindicação inicialmente motivadora (retirada dos R$ 0,20 de aumento). Se isso ocorrer, fica a lição da eficácia das mobilizações para o atendimento de demandas populares. E isto já é uma conquista! De qualquer modo, como a história dos homens não é um fenômeno natural, o curso dos acontecimentos não está definido de antemão por qualquer lei inexpugnável – embora, é claro, o movimento também esteja sujeito a condicionamentos sociopolíticos e culturais –, e, por isso, o próprio processo de esclarecimento e identificação das possibilidades de ação é, ao mesmo tempo, contribuição para sua orientação. Ou seja, a tentativa de previsão é, aqui, tentativa de construção de um futuro que, em parte por causa do próprio movimento, se abre num leque de possibilidades. E, nesse sentido, pode-se dizer que, enquanto ficar circunscrita às disputas por querelas financeiras e tributárias entre instâncias governamentais – redução da tarifa por meio de subsídios, renúncia fiscal etc. –, as manifestações tenderão a manter sua coesão (nesse caso, o maior risco é que os atos esparsos de violência catalisem alguma divisão ou desilusão).

No entanto, se as medidas para resolução do problema extrapolarem as instâncias governamentais e começarem a ganhar contornos maiores e, em termos econômicos, profundos, demandando aumento de impostos, diminuição dos lucros empresariais ou, quiçá, estatização do sistema (ou parte dele), a tendência é que o apoio difuso se dissolva e os interesses classistas emerjam ao primeiro plano. Pois, embora uma demanda dos trabalhadores esteja na origem do movimento e seja o cerne das reivindicações, ela parece ter sido ultrapassada e envolvida numa pletora de demandas pluriclassistas (repúdio à violência policial e à corrupção, liberdade de expressão, contra a PEC 37 etc.). Com isso, o aprofundamento das – e/ou surgimento de novas – reivindicações, cuja resolução afete interesses econômicos consolidados da burguesia, fará com que a situação ganhe novos contornos políticos, exigindo posicionamentos ante questões econômicas de grande relevo, promovendo assim a cisão da pequena-burguesia e a dissolução do movimento em sua forma atual.

Pensando, então, na evolução classista do movimento – ou seja, na evolução e no delineamento do movimento como movimento do trabalho –, é necessário que as reivindicações ultrapassem a exigência de anulação do aumento e visem a uma drástica redução das tarifas – e, até mesmo, à gratuidade (portanto, estatização) – com profunda melhoria dos transportes públicos. Eis uma tarefa imediata e uma bandeira plausível para os partidos da esquerda revolucionária. Neste momento, muito mais importante do que conquistar militantes para cada partido específico é o incentivo à construção classista do movimento. Nas circunstâncias vigentes, nem mesmo a ideia de socialismo deve ascender ao primeiro plano da propaganda política. Trata-se de orientar a luta dos trabalhadores para suas demandas imediatas, concretas; somente depois se deve ostentar o ideário geral do socialismo (por conseguinte, a propaganda ostensiva do partido, a discussão com o trabalhador e a possível adesão deste são questões a serem tratadas num momento posterior).

O referido aprofundamento das reivindicações não apenas teria ressonância em todos os serviços prestados pelo estado como, principalmente, tocaria em questões centrais da sobrevivência cotidiana dos trabalhadores. Para que isso ocorra, porém, urge a necessidade de um redirecionamento das propagandas e ações políticas com vistas à incorporação dos trabalhadores e dos jovens pobres das periferias das cidades brasileiras – que, de um lado, nutrem desprezo pela polícia (eis o mote da repressão) e, de outro, sofrem com a precariedade dos serviços e padecem com perspectivas existenciais escassas –, os quais poderiam ser os maiores beneficiários de uma política pública desta natureza – por ora, gratuidade dos transportes.

E isso porque, em primeiro lugar, poderiam circular livremente por todos os cantos da cidade e, com isso, frequentar lugares e se apropriar de espaços que, até agora, são quase exclusivos de membros das classes dominantes e da pequena-burguesia do município. Em segundo, porque, de fato, não seriam eles nem seus pais que pagariam a conta dessa drástica mudança. Esta é uma alternativa que somente pode ocorrer com o aumento da organização e da participação dos trabalhadores, sendo que seus possíveis resultados podem transitar de certo aprofundamento da democracia das instituições políticas e melhoria das condições de vida das massas populares até o fortalecimento das lutas pelo socialismo. Sendo que esta possibilidade, a transmutação das lutas econômicas e políticas específicas em luta pelo socialismo, somente pode emergir dolorosamente, a médio/longo prazo, em razão das dificuldades, ou mesmo impossibilidades, de resolução daqueles problemas no atual contexto de profunda crise do modo de produção capitalista. Portanto, ela demanda complexas transformações no cenário nacional e internacional, tanto nos complexos objetivos (economia, correlação de forças) quanto nos subjetivos (autocrítica, programa de transição etc.).

Outra é que, não ocorrendo isso, pode haver a dissolução das reivindicações de corte classista num vago movimento pela melhoria dos serviços públicos, mobilidade urbana e, ainda, contra a corrupção e impostos excessivos – liderado pela difusa classe média sob a orientação de um pernicioso ideário patriótico. Neste caso, as contradições entre as classes sociais expressas no estado seriam sublimadas pelos conflitos entre os pagadores de impostos e o prestador de serviços – o estado e suas diversas instâncias. O principal problema dessa alternativa/possibilidade é que, sob os influxos da luta de classes (e, portanto, da correlação de forças entre elas), ela poderia ocorrer tanto sob o predomínio, no âmbito político, de um regime democrático burguês quanto de um fascista. Lembremos o quanto os fascistas faziam (e fazem) críticas ácidas à sociedade burguesa, bem como contribuíram com – e incentivaram – mobilizações populares, embora, por sua natureza social e política, o tenham feito não com fins à crítica teórica e prática radical, mas como “apologia indireta” à própria ordem criticada.

No caso atual, as confusões ideológicas (PT/esquerda, PT/socialismo) contribuem para jogar água no moinho da reação, sobretudo quando a esquerda revolucionária ainda chafurda em seus dilemas teóricos e se mantém quase invisível em sua extrema fragmentação política (e, por erros táticos, ainda se torna objeto de repúdio durante as mobilizações). E, nesse sentido, tenho receio dessa névoa patriótica que permeia as mobilizações dos últimos dias. Torço para que ela se dissipe e os interesses da classe trabalhadora aflorem ao primeiro plano da luta política. Isso, porém, depende de todos nós, sobretudo da esquerda revolucionária!

Enfim, ao contrário de muitos, não considero que esses sejam dias para serem lembrados (como se eles já estivessem no passado), mas dias que abrem novas possibilidades para a construção do nosso futuro e das gerações vindouras. Por conseguinte, mais importante do que serem lembrados, é o modo como serão, e isto depende fundamentalmente daquilo que fizermos com as possibilidades abertas por eles.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

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Ronaldo Gaspar é doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Membro do Conselho Consultivo da revista semestral Margem Esquerda e do Conselho Editorial e Parecerista da revista Verinotio, atualmente atua como Professor Adjunto da Universidade Federal de Alfenas (Unifal).

Levantem as bandeiras!

13.06.20_Levantem as bandeiras_Ruy BragaPor Ruy Braga.

Desafinando o coro dos contentes, a juventude brasileira foi às ruas. Em todo o país, massivas manifestações esparramaram-se pelas praças e avenidas das capitais. Aquilo que há apenas uma semana parecia impossível tornou-se trivial: a juventude deseja se reapropriar do espaço urbano que foi ardilosamente espoliado pelo conluio entre incorporadoras, construtoras, empresas de transporte e poder público.

Os jovens querem inventar outra metrópole e começam a vencer. Um lugar generoso onde as diferenças sejam acolhidas, os serviços públicos funcionem para as amplas maiorias e o espaço urbano não seja propriedade de uns poucos. A imagem de 100 mil pessoas caminhando por entre os prédios envidraçados dos bancos e das corporações na Faria Lima em direção à região da Berrini traduz cristalinamente esse desejo.  

Essa juventude sabe que os partidos, notoriamente o PSDB e o PT, além de seus satélites, não estão à altura desse anseio. Afinal, há décadas eles são parte de uma mesma trama que a cada eleição negocia milhões de reais de financiamento por inúmeras “maracutaias” com construtoras e empresas de ônibus. Daí a formação desse sentimento antipartidário alimentado por um instinto plebeu igualitarista compreensivelmente resistente ao pesado e desigual jogo político parlamentar.   

Trata-se de um instinto progressista que merece ser elaborado e tornado coerente pelas forças coletivas que têm animado os atuais protestos. No entanto, em meio à usual confusão que acontece quando milhares decidem agir simultaneamente, não poucos buscaram instrumentalizar esse instinto a fim de intimidar militantes do PSTU, do PSOL e do PCB. Notoriamente, alguns jovens mascarados avançaram sobre as bandeiras dos ativistas de esquerda. Isso é inadmissível.

Em primeiro lugar, pois se trata do direito elementar de manifestar publicamente opções políticas. Aqueles que enfrentam a polícia em defesa do direito à cidade não podem cercear o direito político dos que estão lutando justamente ao seu lado nas ruas. Este é o caminho que historicamente os setores mais reacionários da sociedade brasileira escolheram. O PCB passou a maior parte de sua longa existência na ilegalidade. Após o golpe de 1964, os militares substituíram todos os partidos da república populista por um único que foi dividido em duas alas, a do “sim” (MDB) e a do “sim senhor” (Arena). Em nome de um nacionalismo tosco, amordaçaram a democracia em benefício das multinacionais.

No entanto, o mais grave é que esse comportamento divide e fragiliza os protestos. Para os neófitos em passeatas, o atual movimento surgiu do vácuo. É um desatino. Alguém de fato acredita que em mais de uma dúzia de capitais centenas de milhares de jovens tenham decidido ir às ruas sem que nada existisse antes? Por exemplo, sem que o Movimento Passe Livre de São Paulo tivesse levado balas de borracha da polícia militar em várias ocasiões até que outros jovens chocados com esse tipo de repressão autoritária decidissem apoiá-lo.

Aliás, o que é o Movimento Passe Livre, senão um amálgama de bravos ativistas dos movimentos popular e estudantil, muitos deles com anos de experiência em partidos políticos de esquerda? Na realidade, existem partidos e partidos e muitos dos que hoje defendem o apartidarismo, atacando os agrupamentos identificados com a oposição de esquerda aos governos municipal, estadual e federal, esquecem-se de que votaram majoritariamente tanto no PSDB, quanto no PT.

Neste momento de avanço do movimento de massas, é necessário reconhecer que as lutas pela redução das tarifas do transporte urbano são, de fato, apartidárias. No entanto, não podemos tolerar a violência daqueles que, protegidos por máscaras, querem baixar à força as bandeiras da esquerda. Os ativistas do PSTU, do PSOL e do PCB estão nas ruas há muito tempo e seguramente não irão se furtar à responsabilidade de continuar defendendo a democracia socialista. 

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Leia também Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura, de Ruy Braga, Proposta concreta, por Vladimir SafatleAnatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco, e Motivos econômicos para o transporte público gratuito, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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RiquezaII_debate e noite de autógrafos_com logos_630p

Ruy Braga participará de debate de lançamento de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II, com o coordenador da obra, Ricardo Antunes, na próxima sexta-feira, 21 de junho, às 16h na Sala 8 do Prédio de Ciências Sociais da FFLCH/USP. Após o debate, haverá noite de autógrafos com os autores do livro na Livraria Cortez.

Confira os detalhes e confirme presença na página do evento no Facebook!

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Confira abaixo debate entre Ruy Braga e André Singer sobre A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, em evento de lançamento com Franscisco de Oliveira e Ricardo Musse:

Confira a versão integral do debate no canal da Boitempo no YouTube.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Lançamento Boitempo: Até o último homem, de Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira (orgs.)

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Em um momento em que vem à tona a crescente militarização da vida social, por um lado, e avança, a duros “golpes de vista”, por outro, a integração via espetáculo, a Boitempo lança Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, organizado por Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira. Analisando o processo de “legitimação” das UPPs em um quadro pautado por megaeventos, valorização imobiliária e formação de milícias, o livro revela um modelo de gestão de desmoronamento da sociedade brasileira e suas contradições mais agudas no Rio de Janeiro.

Trata-se do 17º título da coleção “Estado de sítio”, coordenada por Paulo Arantes. O prefácio é de Marildo Menengat e a orelha, de Adriana Facina. Confira o sumário completo e mais informações sobe a publicação aqui.

Leia o texto de orelha, assinado por Adriana Facina

Unidade de Porrada em Preto. É assim que movimentos sociais e lideranças faveladas mais combativas têm se referido às UPPs. As Unidades de Polícia Pacificadora são, na prática, ocupações territoriais armadas. Essas ocupações, nem é preciso dizer, acontecem em favelas. Nelas moram os pretos e pobres, condenados sem julgamento por sua condição de classe e por sua cor.

Um dos argumentos dos que apoiam as UPPs é o da redução da letalidade. Afinal, faz diferença na vida do morador da favela não ver mais o caveirão atirando em todas as direções. Afinal, faz diferença saber que seus entes queridos voltarão para casa vivos. Afinal, a situação anterior era pior. Afinal.

No mundo real, UPP significa não ter mais o baile funk, diversão barata, acessível para a juventude favelada. UPP quer dizer também que você precisa “estar bem na fita” com a autoridade policial para poder realizar eventos culturais, públicos ou privados. UPP também pode querer dizer que, se você reclamar seus direitos, pode ser preso por “desacato a autoridade”.

Mas o corpo está vivo. E estará a salvo. Pronto para cumprir rotinas exaustivas de trabalho precarizado. Firme para honrar os novos compromissos financeiros que a bandeira da legalização traz para as favelas. Íntegro para assinar contrato com a NET, abrir conta no Santander e pagar o crediário das Casas Bahia. O corpo vivo pode também bater tambor ou tocar violino, dependendo das ONGs que se oferecerem para complementar pela cultura a pacificação das armas. Pulsando no ritmo dos megaeventos, da especulação imobiliária, da cidade-negócio.

Também chamam de UPP, Unidades de Poesia Preta, as resistências que, com arte e criatividade, recusam a paz sem voz e reinventam uma história que está longe do fim. Quem viver verá.

Proposta concreta

WIRECENTERPor Vladimir Safatle.*

Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o “direito de se manifestar”. Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfurecida de porcos.

Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de “grupelhos protorrevolucionários”. Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o “direito de ir e vir”. Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.

* Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo em 18 de junho de 2013.

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Leia também Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura, de Ruy Braga, Anatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco, e Motivos econômicos para o transporte público gratuito, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O que resta da ditadura: a exceção brasileira, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Žižek (posfácio de Vladimir Safatle) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, coletânea de artigos com textos de David Harvey, Edson Teles, Emir Sader, Giovanni Alves, Henrique Carneiro, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Žižek, Tariq Ali e Vladimir Safatle * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido | Livraria da Travessa | Livraria Saraiva)

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e co-organizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Atualmente, mantem coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo e coluna mensal na Revista CULT. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior.

De bar em bar XXV: Um bar de rico e um de pobre que não existem mais

13.06.18_Mouzar Benedito_De bar em bar XXV_Um bar de rico e um de pobre que não existem maisPor Mouzar Benedito.

Minhas lembranças botequeiras me remetem a dois bares. Primeiro um frequentado por rico – numa época, para mim, de “descobrimento” de São Paulo.

A Augusta era a “rua dos playboys”. Rapazes ricos (ou que se faziam passar por ricos) circulavam de carro, às vezes de capota aberta, paquerando as mocinhas que circulavam a pé e que iam lá para fazer programas com rapazes que tinham carro. Era uma coisa estranha, mas existia isso. Muitas meninas pareciam ter tesão por carro. Tanto que era comum o paquerador tipo escroto chegar nelas rodando a chave do carro.

No caso da Augusta, a paquera era à noite e geralmente da avenida Paulista para baixo, em direção aos Jardins. Da Paulista para o centro, a Augusta era menos badalada.

Durante o dia, a Augusta era a rua das butiques caras. Passear na Augusta pela primeira vez foi meio decepcionante para mim, pois eu vinha de uma cidade pequena em que o centro era muito bem cuidado, com calçadas bem conservadas, e achava que a rua mais famosa como “chique” de São Paulo devia ser assim, mas ela era cheia de calçadas quebradas e nem era tão bonita.

Eu não frequentava a rua Augusta nem seus bares, mas aos domingos às vezes ia ao Cine Paulista (que virou Cinesesc) ou a um dos cinemas do Conjunto Nacional, na esquina com a Paulista (cines Astor, hoje Cine Livraria Cultura. Mais tarde, tive uma namorada, já perto do final da década de 1970, que frequentava o Longchamps, que ficava a uns dois quarteirões da Paulista em direção ao centro. Era um bar decorado com cenas de cavalos galopando, que tinha como especialidade sanduíches diferentes. Achei até um lugar interessante, cheio de menininhas bonitinhas, e gozava dizendo que o que a burguesia fazia melhor era filha. Enfim, fui lá algumas vezes. Bebia chope e paquerava um pouco.

Pelo que soube, o bar resistiu bastante tempo, mas com outro tipo de clientela. Virou bar de adultos, e depois foi decaindo pela má qualidade do atendimento. Segundo um dos últimos frequentadores, Jô Amado, o Longchamps tinha o pior garçom do mundo. Tão ruim que as pessoas desistiam de esperar o garçom se animar a atendê-las, mesmo não havendo mais nenhum cliente. Mas o grupo do Jô era tão teimoso que esperava, e o garçom acabou percebendo que eles não iam embora sem tomar umas e outras, e passou a atendê-lo rapidinho. Mas só esse grupo, mais ninguém.

Agora um frequentado por pobres, numa época de militância política.

Íamos muito lá, nos tempos em que a praça da Sé era muito usada para comícios, seja nos Primeiros de Maio, depois na luta pela anistia e depois pelas eleições diretas.

Não me lembro o nome, não existe mais. Hoje, no local, há uma casa de ervas medicinais. Fica na ruazinha que sobe à direita da catedral da Sé, esquina com a praça João Mendes. Os atrativos eram a cerveja gelada, a cachaça simples e barata (não havia nenhuma marca de boa qualidade) e a proximidade das manifestações da praça da Sé. Era um barzinho simples.

O que me lembro mais dele é das reuniões etílico-políticas durante os comícios pelas eleições diretas. A praça ficava cheia, o palanque era montado em frente à escadaria da igreja, e a tal ruazinha ao lado da catedral ficava vazia. Era por lá que entravam os políticos, músicos e outras “personalidades” que subiriam ao palanque, a maior parte para discursar. A gente vaiava boa parte deles. E não me arrependo.

Os políticos que a gente vaiava, sabíamos, não eram a favor das eleições diretas naquele momento coisa nenhuma. Participavam porque apareceriam mal aos seus eleitores se se omitissem, mas não só torciam contra as diretas como, em alguns casos, trabalhavam nos bastidores contra elas, até mesmo convencendo a votar contra o projeto de eleições diretas parlamentares governistas que tendiam a votar a favor delas, pois – como diziam ser o caso de Tancredo Neves – havia um temor de certos “democratas” de que, com as eleições diretas, Leonel Brizola fosse eleito presidente. Assim, enquanto bebíamos no bar, observávamos quem ia chegando para se dirigir ao palanque e vaiávamos quem tínhamos certeza que estava lá só pra se exibir, fazendo veementes discursos pelas eleições diretas, sem nenhuma sinceridade, descendo do palanque e falando com sua turma que o projeto não poderia ser aprovado de jeito nenhum.

Vaiamos muita gente que se passava por boa. E com certeza, pelo que fizeram depois esses políticos, eles mereceram. Os não mortos, continuam merecendo.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura

13.06.17_Ruy Braga_Entre a fadiga e a revoltaPor Ruy Braga.

Johannesburg, 7 de fevereiro de 2013.

O público aparentava ficar cada vez mais cético enquanto eu seguia apresentando dados e imagens a respeito das revoltas operária em Jirau, Belo Monte, Suape… O debate confirmou minhas expectativas: “Se, como você está alegando, a situação econômica e política no Brasil promove a inquietação social, como explicar a popularidade de Lula e de Dilma?” Repliquei afirmando que o quadro era complexo, pois, apesar das péssimas condições laborais, do aumento no número de acidentes de trabalho, da elevação da taxa de terceirização das empresas e da nítida retomada da atividade grevista a partir de, ao menos, 2008, o mercado de trabalho continuava aquecido e, malgrado o inédito patamar do endividamento, as famílias trabalhadoras permaneciam consumindo bens duráveis. Além disso, os trabalhadores brasileiros simplesmente não identificavam alternativas políticas críveis ao PT e seus aliados. A hipótese da volta do PSDB ao governo federal, por exemplo, estava descartada, tendo em vista a desastrada experiência com o desemprego de massas a partir de meados da década de 1990.  

Por se tratar do mês de fevereiro, o clima em Johannesburg estava naturalmente quente, porém estranhamente seco. Estiagem digna do semiárido baiano. Condição climática que parece ter influenciado as perguntas do público. Não posso exatamente dizer que tenha angariado muitas simpatias… Alguns meses antes, meu amigo e camarada Edward Webster havia decidido organizar um evento chamado Lessons from the Brazilian Experience: A Labour Perspective [Lições da experiência brasileira: a perspectiva do trabalho], na sede do Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) a fim de debater a recente experiência política brasileira de relação entre os trabalhadores, sindicatos e governo federal, e pediu-me para falar sobre a “hegemonia lulista”. Entre os participantes do encontro, além de especialistas acadêmicos em Brasil e em África do Sul, como Gay Seidman e Giorgio Romano Schutte, por exemplo, estariam líderes sindicais da central que, no passado, notabilizou-se mundialmente por sua aguerrida luta antiapartheid.

De fato, lá estava Zwelinzima Vavi, o carismático secretário-geral do Cosatu e um dos mais entusiasmados apoiadores daquilo que os documentos da central passaram a chamar de “Lula Moment”. Trata-se de uma política cujo objetivo consiste em pressionar o governo sul-africano para que este se aproxime do modelo brasileiro: aumento de gastos sociais, queda de desigualdades entre aqueles que vivem dos rendimentos do trabalho, elevação do consumo de massas etc. O entusiasmo sul-africano com nosso regime hegemônico foi reforçado pela participação de Lula no último congresso do Cosatu, ocorrido em 2011. Tudo somado, a hegemonia lulista surgiu aos olhos de uma central sindical às voltas com sérios questionamentos a respeito de sua própria relação com o governo do Congresso Nacional Africano (ANC) como um modelo a ser seguido.

Ao me convidar para o seminário na “Cosatu House”, Edward desejava apenas temperar o debate sindical sul-africano com visões críticas sobre o cenário político brasileiro. Aliás, diga-se de passagem, poderíamos igualmente aprender muito com o estudo detalhado da experiência pós-apartheid. Para aqueles que quiserem saber mais sobre o que está acontecendo na África do Sul, sugiro a leitura do livro de Peter Alexander, Thapelo Lekgowa, Botsang Mmope, Luke Sinwell e Bongani Xezwi, Marikana: A View From the Mountain and a Case to Answer (Johannesburg, Jacana, 2013). A despeito das intenções de Edward, é dispensável dizer que meus alertas sobre a iminente fadiga da hegemonia lulista não foram lá muito bem acolhidos pela direção da central.

São Paulo, 13 de junho de 2013.

Passaram-se apenas quatro meses desde minha última visita à Jo’burg. O clima paulistano está naturalmente frio, mas estranhamente úmido. A popularidade de Dilma segue firme na casa dos 50 pontos. No entanto, apresentou a primeira variação negativa saliente: 8 pontos. Em poucos dias, a presidente seria vaiada três vezes na abertura da Copa das Confederações. O Movimento Passe Livre (MPL) na cidade de São Paulo organizou sua quarta manifestação contra o aumento das tarifas do transporte municipal. Todos acompanharam o desfecho do ato da última quinta-feira. Um cenário de guerra onde apenas um dos lados estava armado. A brutal repressão da Polícia Militar aos manifestantes respondeu aos apelos do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT), além de inúmeras lideranças políticas da cidade, entre elas, todos os vereadores do PT e do PCdoB, pelo restabelecimento imediato da “ordem” em São Paulo. Eles têm o sangue de mais de uma centena de manifestantes feridos nas mãos.

Os protestos em São Paulo são apenas a ponta do iceberg. Aqueles que têm acompanhado as mobilizações da juventude trabalhadora em diferentes cidades contra os aumentos abusivos do transporte público sabem bem que se trata de uma revolta nacional. Apenas este ano, tivemos inúmeros atos em Natal, Goiânia, Rio e São Paulo. No ano passado, manifestações ocorreram em Florianópolis e Porto Alegre. E o movimento tende a crescer, espalhando-se por grandes capitais como Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza. Evidentemente, a difusão dos protestos não se alimenta exclusivamente de reajustes das tarifas de ônibus. A meu ver, o grave problema do transporte público catalisou uma angústia social muito mais profunda e enraizada nos alicerces do atual modelo de desenvolvimento.

Afinal, nos últimos dez anos, milhões de jovens trabalhadores foram absorvidos pelo mercado formal de trabalho. E, de fato, mais de 60% dos empregos criados durante os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff foram ocupados por jovens entre 18 e 24 anos. No entanto, 94% desses empregos pagam até R$ 1.000,00 por mês. Ao mesmo tempo, o governo federal aumentou notavelmente os gastos sociais, mas diminuiu os investimentos em saúde e educação. Torrou fábulas de dinheiro nos novos estádios da Copa, mas subinvestiu recursos em mobilidade urbana. Ao priorizar o financiamento do carro particular, o governo federal estimulou os lucros – e a tributação – em detrimento dos direitos da cidadania. E a ficha começou a cair…

A crescente revolta da juventude contra esse modelo tem alimentado os atuais protestos. Por que a tarifa do ônibus? Fácil: os reajustes dos preços dos alimentos, dos aluguéis e dos serviços, por exemplo, acontecem de forma fragmentada, diluindo-se ao longo dos meses. Além disso, o “culpado” é anônimo: o processo inflacionário. No caso de uma tarifa regulada politicamente como a passagem do ônibus, além do aumento acontecer de uma única vez, atingindo todos ao mesmo tempo, conhecemos bem o responsável: ele tem nome e sobrenome, despacha no Edifício Matarazzo e foi eleito recentemente. Daí a indignação voltar-se contra o prefeito petista e, por força do acordo em torno da nova tarifa, o governador tucano.

É difícil antecipar os próximos acontecimentos. A despeito dos corretos esforços do MPL de combinar demandas por diferentes direitos, os ritmos da experiência social da classe trabalhadora com o modo de regulação lulista permanecem discordantes. A crise econômica desacelerou o ritmo das contratações, mas as demissões em massa ainda não aconteceram. A inflação começa a dar sinais de desaceleração e o governo ainda controla a maioria dos movimentos sociais do país, em especial, o movimento sindical, por meio de cargos, de corrupção, de dinheiro e de inúmeros privilégios. No entanto, a aposta do regime hegemônico na desmobilização começa a ser severamente questionada. Em Jo’burg vá lá. Mas, em Sampa, existe alguma dúvida a respeito de se estamos ou não vivendo um momento de fadiga do atual modelo de desenvolvimento que inaugura uma nova conjuntura? 

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RiquezaII_debate e noite de autógrafos_com logos_630p

Ruy Braga participará de debate de lançamento de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II, com o coordenador da obra, Ricardo Antunes, na próxima sexta-feira, 21 de junho, às 16h na Sala 8 do Prédio de Ciências Sociais da FFLCH/USP. Após o debate, haverá noite de autógrafos com os autores do livro na Livraria Cortez.

Confira os detalhes e confirme presença na página do evento no Facebook!

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Confira abaixo debate entre Ruy Braga e André Singer sobre A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, em evento de lançamento com Franscisco de Oliveira e Ricardo Musse:

Confira a versão integral do debate no canal da Boitempo no YouTube.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

A Guerra Civil na França

13.06.17_Lincoln Secco_A Guerra Civil na FrançaPor Lincoln Secco.

Comecemos com uma estadia prazerosa em Paris…

Conta-se que a Condessa Virginia Oldoini, amante do Imperador Napoleão III, foi a um baile a fantasia no Ministério das Relações Exteriores dissimulada como uma Rainha de Copas. Ao vê-la naquele vestido adornado com um grande coração abaixo da cintura, a Imperatriz Eugênia não se conteve: “O seu coração está um pouco abaixo, Madame”. Era quase um baile sem fantasia.

Depois do golpe de Napoleão III, a política passou do teatro à orgia e só o imperador tinha os deveres fastidiosos da representação. É claro que apenas na manhã seguinte.

A política de 1848 era a fraseologia dos políticos democráticos. A Comuna de Paris em 1871 é finalmente a política sans phrase (sem a fraseologia). Por isso, o livro A Guerra Civil na França recentemente publicado pela Boitempo não é uma propaganda, um panfleto e nem uma “história”. É uma mensagem ao “partido” internacional. E mais do que uma mensagem, é um elogio. Uma forma em desuso e que era invocada para os reis. Como o Imperador é um farsante apanhado em roupas de baixo, o único elogio possível é a uma classe.

No II Império a burguesia não podia mais governar e o proletariado ainda não podia. Assim, os burgueses não precisavam mais de palavras ou roupas solenes. Eles se permitiam surpreender em orgias de corrupção enquanto seu Imperador representava o Estado. Numa orgia, como se sabe, a roupa é a primeira coisa que se abandona.

Antes de Napoleão III, contudo, a conversão hipócrita das duas facções do Partido da Ordem numa corrente republicana só foi possível depois das ameaças da insurreição operária de junho de 1848, diz Marx. Assim, “as classes dominantes sentem instintivamente que o reino anônimo da República parlamentar pode se converter numa sociedade por ações de suas facções conflituosas”.

Os termos da economia política não são casuais. Assim como o capital acionário apaga a relação imediata entre propriedade e controle dos meios de produção, a “democracia” dissolve a ligação direta entre poder político e controle do aparato repressivo. Todavia, tal liame existe, embora invisível. Ou visível demais, o que é quase a mesma coisa, pois a forma monstruosa de aparição enevoa os olhos. Daí porque a crise começa à saída da bolsa de valores, mas sua nudez só se mostra na entrada do baile sem fantasia do II Império.

A Comuna não substitui a orgia burguesa pela representação proletária. Ela elimina a própria representação ao acabar com o pagamento da orgia dos representantes. A Comuna é a “forma política” da emancipação do produtor. Quando este governa suprime-se a dissociação entre a exploração econômica “sans phrase” e a dominação política com “phrase”. As medidas da Comuna não são invenções cerebrinas. São concretas: planificação comum, cooperativismo, fim do trabalho noturno dos padeiros e do exército permanente, entrega das fábricas fechadas a associações operárias etc. O que importa não é o que muitos communards dizem, mas o que fazem. A Comuna não tem princípios universais, nem líderes. Sua linguagem não é irônica, mas direta.

Mas, para criar o novo, a Comuna não dispõe de seres humanos novos. Ela precisa caminhar tendo, de um lado, os blanquistas (reconhecidos pela honestidade e coragem) e, de outro, os proudhonianos (“meros faladores”). Mas o que importa é que ambos os grupos deixam de lado seus princípios e realizam a obra coletiva da Comuna. Para suprimir a política, a Revolução usa os seus “políticos”. As representações tradicionais do operariado são os primeiros instrumentos que eles têm à mão no início. A crítica da política sem Proudhon e Blanqui seria apenas as armas da crítica sem a crítica das armas. Mas a Comuna age com eles, sem eles ou contra eles, se preciso.

Uma vez derrotada a Comuna, no entanto, a República de falsidades substitui o falso império. A frase volta ao poder político porque a ameaça da República Social foi afastada pela segunda vez e com ela o próprio títere Napoleão III pode ser lançado fora com um piparote sem que seja preciso invocar outro depois da obra de unificação burguesa feita pelo próprio imperador. Agora, uma lista de crimes da Comuna é tipificada nas leis, ainda que o “vandalismo” dos communards, como Marx acentua, era só uma generosa autodefesa perante a opressão sangrenta de uma burguesia acuada em Versalhes sob proteção de Bismarck.

A cronologia da Guerra Franco–Prussiana por si só demonstrava a ilegitimidade da “democracia”. A 28 de janeiro de 1871 ocorre o armistício. A 8 de fevereiro realizam-se eleições para a Assembleia Nacional e a 16 de fevereiro a Assembleia elege o carrasco Adolphe Thiers como chefe executivo. Ou seja, a eleição é a superfície do exército prussiano. A verdade velada de todo o sufrágio universal é que ele só se efetiva sob a espada de tropas invasoras, já que o Exército permanente é sempre concebido contra o seu próprio povo.

A violência que deu a luz àquela “democracia” não era uma casualidade. É a forma condensada das relações burguesas. O salário, a disciplina, a hierarquia e a maquinaria se desenvolveram antes nos exércitos do que nas fábricas.

O Estado aparece como “sociedade anônima das frações burguesas coligadas” (Marx) na mesma medida em que o dinheiro perde seu lastro, o capital se torna “fictício” e as forças armadas e policiais se autonomizam. É assim que o Governo de plantão, depois da festa, lamenta os excessos enquanto “republicanos puros” prometem “a mais rigorosa apuração da violência”. De ambos os lados, é claro. 

 

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Leia também Anatomia do Movimento Passe Livre, também escrita por Lincoln Secco, e Motivos econômicos para o transporte público gratuito, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011.  A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

O sapo Gonzalo em: Planet of the Apes

13.06.14_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em Planet of the ApesPor Luiz Bernardo Pericás.

O sapo Gonzalo entrou naquele estabelecimento com a única e exclusiva intenção de tirar fotocópias de uns poucos documentos pessoais. Imaginou que seria algo rápido e simples, mas o pobre pernudo se esqueceu que vivia… na República do Repolho, o império da burocracia e da incompetência!

Quando se dirigiu ao atendente, o jovem “profissional” do outro lado do balcão retrucou que o sapolino teria de entrar na fila e aguardar. O batráquio argentino não sabia exatamente de qual risca se tratava, já que havia umas três, que davam volta no salão.

“Aquela ali”, indicou o funcionário sardento, sem muita paciência.

“Está bem…”, pensou o jia, lá com seus botões.

Depois de alguns minutos, chegou a sua vez. Recebeu um papelzinho numerado, que deveria ser carimbado por outro empregado antes de fazer seu pedido. Gonzalucho começava a se irritar, mas tentou manter a calma.

Foi para o alinhamento seguinte, e meia hora mais tarde, recebia o timbre de outro rapazote, que pediu para que ele seguisse, agora, para a carreira mais comprida de todas: ficou tanto tempo em pé na andaina que teve medo de se tornar uma múmia enquanto aguardava… Teias de aranha começavam a crescer em suas axilas; e um bolor esverdeado despontou de suas narinas dilatadas…  

Os minutos passaram como em câmera lenta… despacio… despacio… mas finalmente nosso “herói” estava diante da bancada, para enfim tirar seu xerox tão almejado. A recepcionista, com um tapa-olho cruzando a face, mirou para o velhusco saltitante dos pampas e disse que estava no horário do almoço: teriam de fechar as portas e só retornariam depois da sesta! Gonzalo tremeu inteiro de ódio! Ao perceber isso, a mulher deu uma piscadinha singela e disse que iria “quebrar o seu galho”.

“Só porque é você!”, completou a gorducha caolha, fingindo intimidade com alguém que nunca vira antes na vida.

Entregou a papelada do anfíbio verdoso a seu assistente e solicitou que ele levasse tudo para ser fotocopiado. O menino, sem pressa alguma, encaminhou o material para um homem pálido, sentado no fundo da loja. O sujeito (que carregava uma tênia de cinquenta metros no estômago) olhou para cada uma daquelas páginas envelhecidas, sem demonstrar grande interesse, e as passou, em seguida, para um estagiário adolescente. Este, então, com as folhas amassadas entre os dedos, ficou parado como uma estátua de gesso diante da máquina de xerox, sem saber o que fazer. É verdade que ele só deveria apertar “um” botão, e deixar que elas fossem replicadas automaticamente. Mas aquele procedimento parecia difícil demais para o jovencito. Tentava entender a lógica daquele aparelho, a mecânica da engenhoca, a forma que deveria proceder para realizar tão “árdua” tarefa. Mas estava difícil… E ali ficou… e ficou… e o tempo rolou lentamente como as águas escuras do rio Mississippi. Gonzalo quase desistia de tudo…

O dono do comércio, percebendo a dificuldade do trainee, se dirigiu a ele, mostrou em detalhes como proceder e apontou para a peça que deveria ser acionada. Mesmo assim, depois de três tentativas, o moleque desistiu. E o próprio patrão decidiu, pessoalmente, tirar os fotóstatos. É claro que o fato de estar com as mãos gordurosas, sujas de quetchup (resultado de um sanduíche asqueroso que acabara de comer havia pouco), não importava. Pegou com certa rispidez os papéis (que já apresentavam pequenos rasgos nas laterais), e os colocou um a um no artefato. Os documentos, com manchas vermelhas do molho de tomate, começaram a ser xerocados. O equipamento velho rangia, espocava, tremelicava: parecia prestes a se desarranjar a qualquer momento. O resultado foi uma lástima… um lixo. Mas o trabalho estava feito.

O homem devolveu o material para o auxiliar, que o entregou ao indivíduo que lhe havia levado tudo desde o início. Este por sua vez, depois de confabular com o verme anelado em seu ventre, retornou a documentação para outra atendente. E Gonzalo vendo tudo, atônito.

“O senhor agora pode pegar suas cópias no guichê número oito”, disse amavelmente uma moça do outro lado do balcão, segurando o maço, a alguns centímetros de distância do anuro. Ela mesma poderia ter passado tudo a Gonzalo. Mas não… Enquanto dava a informação, conversava simultaneamente ao telefone com o namorado, um policial militar estrábico que acabara de voltar de mais uma noite de chacinas com seu grupo de extermínio.

A saga do bufonídeo parecia não terminar, mas após algumas horas, finalmente recuperou a documentação. Um serviço de quinta, sem dúvida.

“É só pagar lá no caixa”, falou a filha do gerente (que, bastante contrariada, só fazia um bico ali por insistência do pai).    

Gonzalo, zonzo e cansadíssimo com aquela “aventura”, se arrastou pesadamente até uma senhora corcunda, que carregava um par de gigantescas próteses de silicone industrial no tórax avantajado. Ela o recebeu com um sorriso cavalar no rosto.

“Aí está o dinheiro”, falou o hermano rioplatense, entregando a bufunfa à peituda gibosa.

“Meu querido, não tenho troco. Em vez de moedas, vou te dar umas balinhas…”, respondeu a mulher na frente da registradora.

Não era possível! Gonzalo saiu da loja soltando fumaça pela ventas.

No dia seguinte, o sapucho se deu conta de que precisava reproduzir outra papelagem. Um suplício! Aquilo era pior que tortura chinesa! Não queria voltar àquela loja, mas era a única que realizava o serviço em seu bairro.

Um tanto a contragosto, se encaminhou para lá. Mas quando entrou no recinto… silêncio. Nenhuma alma por perto. A impressão é que o lugar estava completamente vazio…

Ao se aproximar do balcão, entretanto, um funcionário subitamente apareceu, e sem fazer uma pergunta sequer, pegou seus documentos e fotocopiou tudo, a jato. Devolveu o material a Gonzalo logo em seguida: um trabalho excelente, impecável, sensacional. “Coisa de Primeiro Mundo!”, como diriam as donas de casa endinheiradas da classe média altíssima da capital.

Gonzalucho estava admirado com a qualidade do atendimento, tão diferente do dia anterior. Pensava até em dar uma gorjeta polpuda ao rapaz, por seu esmero, celeridade e eficiência. Mas então… o local, subitamente, virou um caos: algazarra total! Quatro brutamontes anabolizados do jardim zoológico municipal entraram furiosos na loja e pularam em cima do prestativo atendente. Era como se um furacão acabasse de passar, arrebentando tudo! 

Só aí Gonzalo se deu conta do que se tratava. Na verdade, aquele ótimo profissional era um chimpanzé entediado, que escapara de sua jaula durante a madrugada, percorrera quilômetros de ruas e avenidas da metrópole poluída e fora se esconder justamente naquela birosca, para tirar uma soneca, após horas e horas jogando sinuca com distintos malandros, taxistas e cafetões nos botecos mais sujos da cidade. Agora era finalmente recapturado pelas autoridades… com toda a devida truculência, é claro.

Os empregados e clientes da casa, por sua vez, escondidos atrás do tampo de madeira, amedrontados com o símio peludo, só reapareceram após a confusão. Depois que o macaco foi agarrado e levado embora num caminhão da prefeitura, a multidão de aspones voltou ao suposto “trabalho” de sempre.

É, caro leitor… O sapo Gonzalo percebeu que na República do Repolho, país onde morava havia alguns anos, um chimpanzé é mais inteligente, profissional e sério do que muita gente… 

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o ficcional Cansaço, a longa estação (por apenas R$13). Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). É organizador, com Lincoln Secco, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Anatomia do Movimento Passe Livre

13.06.12_Lincoln Secco_Anatomia do Movimento Passe LivrePor Lincoln Secco.*

As recentes manifestações de junho do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo surpreenderam os donos do poder. Como a justiça da causa não podia ser questionada, as armas da crítica voltaram-se contra a crítica das armas. E sendo assim, perderam.

Ainda que as armas não fossem armas. Pneus incendiados, lixeiras como barricadas e milhares de pessoas concentradas ainda não podem ameaçar nenhum grupo estabelecido no andar de cima. Mas podem desmoralizá-lo. Diante disso a “crítica” dirigiu-se à turba, à baderna, ao “trânsito”, aos arruaceiros e aos jovens filhos de papai.

Sem resultados, os críticos descobriram os partidos. Assim, pelos jornais “sabemos” que certos partidos de “extrema esquerda” dirigiam sorrateiramente o MPL. Nada mais falso. O MPL se organiza horizontalmente, ao lado, acima (por vezes, abaixo) dos partidos políticos. Não é, portanto, uma frente de partidos. Decerto há nele militantes de partidos. Nada mais esperado e justificado. Os partidos de esquerda, revolucionários ou não, vivem sempre a expectativa de montar o cavalo já em disparada.

Eis que a grande imprensa lembrou o vandalismo. “Vândalos!”, berravam apresentadores transtornados nos telejornais sensacionalistas. Em movimentos assim, é natural que haja ações erradas, revoltas incontidas e gritos de ódio. A população que se movimenta não o faz segundo a etiqueta de parlamentares de terno, gravata, seguranças e jantares caros.

Uma ou outra vidraça se quebra porque, ao contrário dos militares que batem, atiram balas de borracha e lançam bombas de gás lacrimogêneo, os militantes das ruas ainda não se acostumaram a mirar com precisão. Eles não dispõem de dinheiro, da polícia e das leis ao seu lado. Mas segundo a contabilidade prática do movimento as lixeiras incendiadas e os prejuízos ao tráfego poderão ser descontados tranquilamente dos bilhões desviados dos cofres públicos nas licitações duvidosas de obras que visam melhorar exatamente o tráfego.

Mas alto lá, proclama um prefeito. O custo do passe livre o inviabiliza! É certo que poderíamos fazer outra conta. A tarifa zero, proposta hoje por vários partidos piratas europeus, foi pela primeira vez lançada pela própria prefeitura da cidade de São Paulo e pelo atual partido do Governo. O Partido dos Trabalhadores propôs durante a gestão de Luiza Erundina que a tarifa fosse paga por um imposto urbano progressivo. Sem apoio na época de um movimento social organizado, foi fácil para a Câmara Municipal recusar.

Hoje, desconheço os cálculos políticos que os governos fazem para se opor ao passe livre. Sei que os contábeis estão errados. E, provavelmente, os eleitorais também. Uma medida de tal impacto talvez pudesse se tornar o maior “programa social” de um partido. A economia com os gastos de cobrança e com a diminuição de automóveis nas ruas compensaria mesmo a chamada classe média.

Além disso, a população poderia se deslocar por vários serviços de saúde e educação desafogando os equipamentos públicos mais procurados. E nem precisaríamos citar os ganhos para os que frequentariam as escolas, bibliotecas, parques, praças, museus etc.

Confusos, finalmente os “críticos” dizem que se trata de um movimento comunista, anarquista, trotskista, punk, sindical, baderneiro… Mas sabemos que a finalidade do MPL não se define previamente. Apesar da evidência do motivo imediato (a livre locomoção urbana de todas as pessoas) e de ideais necessariamente vagos sobre outra sociedade, ele se define apenas como um grupo que luta. Luta por nós.

* Publicado originalmente no portal Viomundo.

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Leia também “Motivos econômicos para o transporte público gratuito”, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011.  A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

Livrarias: os novos “não lugares”?

13.06.12_Emir Sader_Livrarias_nossos não lugaresPor Emir Sader.

O conceito de não lugar foi criado por antropólogos contemporâneos para caracterizar espaços sem identidade própria, conforme a globalização torna idênticos hotéis, shopping centers, aeroportos. São espaços sem tempo nem espaço, desterritorializados. As cadeias de hotéis se encarregam de fazer com que as pessoas acordem em um hotel, sem consciência do país em que estão. Da mesma forma se chega ao aeroporto de um país e tarda muito até que exista algo que identifique o país de chegada. Os shopping centers, então, são espaços feitos para que cada um se desligue da sua cidade e se sinta articulado pelo mercado global e suas marcas.

Eu estive, em pouco tempo, em vários países e pude me dar conta que as livrarias – em particular as das redes, que vão se tornando a grande maioria das livrarias, mas também muitas outras – apresentam fisionomias cada vez mais desprovidas de identidade própria. Abstendo-se dos idiomas em que estão publicados os livros, fica parecendo que estamos numa livraria de rede no Brasil.

No Rio, em São Paulo, em Buenos Aires, em Madri, em Washington, em Santiago do Chile, as vitrines e as mesas das livrarias estão dominadas pelo mesmo livro – Inferno, de Don Brown. É como se, num estalo, leitores de todo o mundo pegassem o gosto pelos mesmos livros. Dan Brown agora, como foi com O código Da Vinci, com os “tons de cinza” e seguirá assim.

A Feira de Frankfurt, considerada pela grande mídia a mais importante do mundo, tem essa importância porque em 5 dos 7 dias que dura, fica fechada ao público, só circulando agentes e representantes de editoras e redes comerciais, definindo quais serão os “Da Vincis”, os “tons de cinza” e os “Infernos” dos próximo anos.

Tudo em detrimento da diversidade, da literatura e do pensamento específico de cada país, de cada região e de cada continente. As grandes editoras globalizadas importam autores de alguns países e os internacionalizam, particularmente os de ficção. As interpretações sobre nossos países feitas pelos autores locais, ainda mais do pensamento crítico, não lhes interessa. Eles importam alguns autores daqui, como Vargas Llosa, FHC, para devolver-nos como visões que eles têm de nós, escrita por gente nascida aqui, mas colonizada intelectualmente.

Dai a importância das editoras alternativas e das vias alternativas de difusão, em que a internet tem um papel fundamental. A combinação entre a publicação do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil – Lula e Dilma, pela Boitempo e a FLACSO Brasil, ao lado da sua difusão gratuita e integral pela internet, é uma modalidade nova, em que uma não prejudica a outra. A primeira edição de 3 mil exemplares do livro se esgotou nas três primeiras semanas, ao mesmo tempo que foram baixados mais de 400 mil e-books pela internet, em cerca de 30 países de todos os continentes. Essa uma das vias de contornar a monopolização do mercado editorial e das redes globalizadas de livrarias.

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Baixe aqui o e-book gratuito de 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil – Lula e Dilma, organizado por Emir Sader. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro com Marilena Chauí, Marcio Pochmann, Emir Sader e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva:

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As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.