Vem aí! Žižek no SESC Pinheiros

Apostila_14x21_SÃO PAULO.inddAtividades abertas ao público com Žižek no SESC Pinheiros:
exibição de filme + conferência + sessão de autógrafos

A conferência do filósofo esloveno Slavoj Žižek será transmitida no telão da praça do Sesc Pinheiros e sessão de autógrafos será aberta ao público. No caso de ausências, as vagas remanescentes serão preenchidas no início da conferência.

Nesta sexta-feira, 08/03, às 20h, acontece a aguardada conferência do filósofo esloveno Slavoj Žižek no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros. A atividade também será transmitida por telão, aberto ao público, na praça do Sesc Pinheiros. Todas as pessoas presentes no local poderão participar da sessão de autógrafos após a conferência, que também será aberta ao público. No caso de ocorrerem ausências, as vagas da conferência serão preenchidas logo no início do evento, com os interessados presentes.

A primeira etapa do projeto MARX: a criação destruidora, que contempla o Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek e a conferência do filósofo esloveno, também conta com a exibição do documentário longa-metragem ŽIŽEK! (71 min, dir. Astra Taylor, 2005) que será aberta ao público. A atividade é gratuita e acontece na sexta-feira, dia 08/03, às 14h. Os interessados devem retirar o ingresso com uma hora de antecedência na bilheteria do Sesc Pinheiros. A exibição do filme, assim como todas as etapas presenciais do evento, com exceção do curso de introdução à obra de Žižek, acontece no Teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros (com capacidade para 1000 pessoas).

Serviço

Slavoj Žižek em São Paulo

Conferência “De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise”, com Slavoj Žižek
Dia 08/03 | sexta-feira | às 20h
SESC Pinheiros | Teatro Paulo Autran| Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo/SP
Atividade para inscritos. Ausências serão preenchidas no início do evento com interessados presentes.

Conferência no telão + autógrafos
Dia 08/03 | sexta-feira | às 20h
SESC Pinheiros | Praça do Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo/SP
Atividades gratuitas e abertas ao público.

ŽIŽEK! (documentário, legendado, 71 minutos, Estados Unidos da América)
Direção: Astra Taylor
Dia 08/03 | sexta-feira | às 14h
SESC Pinheiros | Teatro Paulo Autran | Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo/SP
Classificação: 12 anos
Grátis – Retirada de ingresso na bilheteria do Sesc Pinheiros, uma hora antes do filme começar

Irmão Sol, irmã Lua (Parte I)

13.03.07_Izaías Almada_Irmão Sol Irma LuaPor Izaías Almada.

Contar histórias sobre os homens e alguns dos seus pecadilhos não será com certeza o melhor dos meus ofícios. O mais comum, nessa insidiosa matéria, é dar-se o contrário.

Andam por aí muitos a deitar falação a meu respeito. As piores até. Paciência! Quanto a isso, e descontado o natural exagero com que por vezes procuram me apresentar, já estou mais do que acostumado. No entanto, como vereis, julgo que no presente caso ninguém mais vos poderia contar com tanta propriedade o que aqui se vai narrar. E por uma razão muito simples: é que os fatos, tal qual se passaram com os seus intervenientes, tiveram origem numa disputa que começou a milhares e milhares de anos. E que a bem da verdade ainda não teve o seu final resolvido. Se é que um dia o terá.

São fatos até certo ponto banais, não fosse a circunstância de terem os dois protagonistas escolher viver uma vida completamente oposta àquilo que o futuro lhes reservou. E o futuro, como devereis saber, nem sempre a Deus pertence…

Frederico e Júlia. Júlia e Frederico. Meus dois queridos personagens. Corre o ano de 1876 na Vila de Sabará. Por onde quer que se pegue, a história desses dois amantes valerá apenas pelo dia de hoje. Nem mais, nem menos. O que veio antes, mesmo ontem, o que virá depois, amanhã, não pertence mais aos domínios desse relato.

Pois muito bem. Feita essa pequena e necessária introdução, cumpre-me dizer que apesar dos religiosos, pontuais e furtivos encontros marcados para todas as quartas-feiras, Júlia e Frederico – amantes apaixonadíssimos – ainda conseguem gastar parte do seu precioso e arriscado tempo em questiúnculas sobre pecados e sentimentos de culpa. É até provável que essas pequenas questões tenham lá a sua razão de ser. Eu agiria de outra maneira. Devo confessar, contudo, e não será minha intenção esconder-vos esse pormenor, que sou parte interessadíssima na história ou nas suas eventuais consequências, mesmo não tendo em nenhum momento tomado qualquer atitude que induzisse o jovem casal ao que alguns de vocês, atentos leitores, chamarão de uma vida em pecado ou coisa semelhante… Mas como tudo nessa vida parece ainda estar ligado à síndrome da maçã e do pecado original (e aí, sim, a História teve a delicadeza de registrar o meu protagonismo), digo que não me furtei à tentação de baralhar um bocadinho o espírito desses dois amantes…

Para Júlia e Frederico, o prazer e o pecado são indissociáveis, são duas faces da mesma moeda. Foi assim que aprenderam. Em casa, na escola, nos claustros e nas missas dominicais. E é assim que têm convivido, para o bem e para o mal. Não fosse isso e não fossem também as duas pessoas maravilhosas que são, talvez nenhum de nós desse demasiada importância ao assunto. E eu, com toda a certeza, não perderia o meu tempo a importunar-vos, meus queridos leitores…

Hoje não será para esses dois amantes uma quarta-feira como outra qualquer. Assim decidiram de sua própria vontade. E uma vez por eles decidido, não haverá qualquer possibilidade de arrependimento, pois aí entro eu, é claro! O mínimo que tenho a fazer nessa história, para além de contá-la, é preservar, digamos, a minha mística, a minha reputação. Se a escolha que Júlia e Frederico fizeram em relação a sua vida afetiva foi uma escolha voluntária, ou se foi apenas uma provocação a terceiros, isso não me diz respeito. Não estou aqui para tratar de questões morais ou problemas de consciência… Nem para acusar, nem para defender. Cuido apenas de preservar dentro da narrativa, se me concederem o benefício da dúvida, aquilo que para mim é o seu lado mais aliciante.

Discretos, encontraram-se há vinte minutos. Júlia e Frederico. Frederico e Júlia. Ambíguos. Apaixonados. Ardentes. Vejo-os ainda nos seus primeiros momentos na busca cuidadosa das palavras e dos gestos, na atenção carinhosa com que despertam os sentimentos e os desejos um do outro. De certa maneira, o sexo os condena, mas também os redime. Na melhor e na pior das hipóteses não temem o fogo eterno. Estão vivendo a derradeira e talvez única oportunidade de resolver o angustiante dilema em que se envolveram.

Esses encontros em que o sentimento de culpa é mais intenso, e, sobretudo para evitar novos constrangimentos, costumam iniciar em recatado silêncio o seu ato de amor, deixando a cada um dos sentidos a responsabilidade de seguirem a sua própria trajetória, livre de qualquer amarra e preconceito. Desejos queimando a pele. Eu, na confortável condição de observador e, por que não dizer, beneficiário final desse puro e santo ato de amor, procurei para mim o melhor lugar do espetáculo, para com isso poder também melhor descrevê-lo…

No livre jogo dos sentidos entre os amantes, a visão assegurou como sempre – na plenitude de sua função imediata e primordial – o privilégio de assumir o comando do ritual libidinoso para logo em seguida ceder sua vez ao ansioso tato. Movido pelo desejo da prospecção em áreas mais sensíveis, o tato obedeceu sem qualquer indecisão a toda uma sequência de carinhos, apalpadelas e pequenas violações, indo – em pouco tempo – do recato e carinho do primeiro toque a ousadias mais recônditas, a certas buscas e penetrações que, passando por línguas, dedos e mãos, acabaram por completar-se no ocultar de punhos e antebraços. Loucuras. Muitas delas já descritas por seus fanáticos antepassados medievais. O paladar e o olfato seguiram com naturalidade dentro do ritual lascivo, indo ambos os sentidos buscar, numa espécie de gula e de luxúria intermináveis, os músculos intumescidos e latejantes de seus donos com cheiros e humores próprios. E por último, o gozo pleno da audição, manifestando-se em gritos, urros e alguns sons menos definidos, mas que poderão muito bem indicar e avaliar o alto grau de dores e prazeres provocados em cada um dos parceiros. Completava-se assim, em delírio, o jogo inicial dos sentidos.

(continua…)

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Mais vagas para a conferência de Žižek em São Paulo

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Atenção! Conseguimos mais vagas para a conferência de Slavoj Žižek no projeto Marx: a criação destruidora, que acontecerá no dia 08/03, sexta-feira, no Sesc Pinheiros, às 20h.

Interessados em participar devem mandar e-mail para marx@boitempoeditorial.com.br com NOME COMPLETO E NÚMERO DO TELEFONE (FIXO E/OU CELULAR).

A produção do evento entrará em contato até a manhã de quinta-feira, 07/03, para instruir os interessados.

As novas vagas serão preenchidas por ordem de chegada do e-mail, seguida de sua confirmação.

Equipe Boitempo 

Chávez, leitor de Mészáros

13.03.06_Emir Sader_Chávez, leitor de Mészáros

Hugo Chávez entrega a István Mészáros o prêmio “Libertador al Pensamiento Crítico”

Por Emir Sader.

Hugo Chávez sempre disse que sua leitura fundamental nos anos de prisão foi Para além do capital, de seu amigo István Mészáros. O livro lhe foi levado por Jorge Giordani, que depois se transformaria no principal ministro da área econômica de Chávez, posto que mantém até hoje.

A penúltima vez em que pude estar com Hugo Chávez foi por ocasião do Fórum de São Paulo, durante a campanha eleitoral do ano passado. No ato de encerramento, no Teatro Tereza Carreño, Chávez tinha um exemplar do livro de Mészáros consigo e propôs a um idoso venezuelano, que havia recém conseguido se alfabetizar, que um dia lesse Para além do capital.

A inquietação intelectual de Hugo Chávez sempre foi impressionante. Diante da guinada conservadora de grande parte da intelectualidade venezuelana – a maior universidade do pais, a UCV, é controlada pela direita –, quando me perguntavam sobre o mais importante intelectual da Venezuela, eu dizia: Hugo Chávez.

Em qualquer conversa com ele, ele se interessava imediatamente sobre o que a gente estava dizendo, pedia leituras e outras indicações. No seu programa Alô Presidente, ele comentava que estava lendo autores como Gramsci, Rosa Luxemburgo, além de, sempre, Marx, Engels, Lenin, Trotski. Leituras que ele fazia nos constantes voos que realizava.

Eram inquietações teóricas sempre vinculadas à realidade concreta da Venezuela e da América Latina. Ele era capaz de passar de raciocínios teóricos abstratos a problemas imediatos que seu pais enfrentava. Com a perda de Hugo Chávez perdemos um dirigente de origem popular – sua fisionomia é muito popular no país – e uma cabeça inquieta, criadora, como poucas.

Sem contar da simpatia esfuziante com que ele conquistou a todos nós. Desde o começo do seu governo, desde suas primeiras vindas ao Brasil, para o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, até sua ultima visita, quando assinou com a Dilma um acordo de intercambio aeronáutico entre os dois países.

Mesmo já nos seus últimos meses de vida, nunca se viu nenhum sinal de sofrimento no seu rosto. Sua vitalidade era impressionante, foi das pessoas mais vitais que conheci. Uma perda destas é incalculável, por mais que o que ele tenha deixado já permite dizer que seu legado é irreversível.

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Emir Sader entrevistou István Mészáros junto com Ricardo Antunes, Carlos Nelson Coutinho, Luiz Gonzaga Beluzo, Maria Orlanda Pinasi, Haroldo Ceravolo Cereza e Heródoto Barbeiro no Roda Viva, quando o filósofo esteve no Brasil em 2002.

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Para além do capital: rumo a uma teoria da transição, de István Mészáros já está disponível em versão eletrônica (ebook) por menos da metade do preço do livro impresso na Gato Sabido.

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As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Slavoj Žižek sobre Hugo Chávez

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“Todos amam as favelas e os marginalizados, mas poucos querem vê-los mobilizados politicamente. Hugo Chávez entendia isso, agiu nesse sentido desde o começo e, por este motivo, deve ser lembrado.”

Slavoj Žižek, direto de Porto Alegre, onde acontece a primeira conferência do filósofo esloveno no Brasil.

http://marxcriacaodestruidora.com.br/

Bira, o cidadão que a vontade criou

13.03.05_Urariano Mota_Bira_O cidadão que a vontade criouPor Urariano Mota.*

Quando surgiram as primeiras notícias, a maioria das pessoas não acreditou. Um morador de rua, um mendigo, passar no concurso do Banco do Brasil?! Seria o mesmo que acreditar em contos da carochinha. No entanto, Ubirajara Gomes da Silva existe, é de carne e osso, mais ossos que carne, pelo menos até passar no concurso. Com 1,74 m de altura, chegou a pesar algo em torno de 50 quilos.

Ele é um jovem de 27 anos, mulato, com um olhar zen, uma postura zen, uma fala zen, difícil às vezes de se ouvir. Tem o segundo grau, que conseguiu em exames do supletivo. Mas é diplomado em matéria de sofrer. Filho de uma garçonete com um ex-policial, que não o reconheceu como filho. Sobre essas coisas, digamos, menos materiais, sobre isso ele não gosta de falar. Dói mais que a fome.

– Essa prova que eu fiz agora foi até no Dia dos Pais, 12 de agosto, ele diz.

– Você já chorou muito?

– Já. Já chorei tanto, que eu não tenho mais lágrimas.

– Por que?

– Falta de mãe, de família. De pai. (Longo silêncio.)

Então Bira saiu de casa para ser criado pela avó. E passou a levar surras. Então ele fugiu para as ruas, aos 15 anos. Quando tinha 17, soube que sua mãe falecera, soube apenas, mas não pôde ir ao velório. Nos 12 anos em que morou nas ruas, dos 15 aos 27 de idade, conta que certa vez ficou 30 dias sem alimento.

– Como é que alguém consegue passar 30 dias sem comer? pergunto. 

– Passando… Eu passei 30 dias sem comer, mas tomando água, comendo muito pouco, 30 dias sem me alimentar. Eu vivia dormindo, era muito sonolento, minha pressão caía, e o pessoal falava, “ele só quer dormir. É a vida que ele quer”. O pessoal me chamava de preguiçoso, de doido…

– E você se acostumou a passar fome?

– Me acostumei assim, não é? Não é que eu me acostumei. Me acostumei porque não tinha. Mas não me acostumei de achar aquilo uma coisa legal… me acostumei por causa de não ter mesmo, de não ter de onde ganhar.

– Como é que você conseguia comer?

– É interessante esse negócio de comida, porque eu pegava 1 real, todos os dias, ia lá no Mercado da Madalena e comprava uma fatia pequenininha de bolo de rolo e um copo de coca. Isso pela manhã.  À tarde, normalmente eu não comia.

– E como é que você conseguia estudar com fome?

– Eu me alimentava muito de glicose, de coisas doces. Café muito doce. Não sei se você sabe, não é?, quando você come glicose, alguma coisa doce, ajuda assim a raciocinar. Por exemplo, tem muita gente que quando vai fazer prova, leva uma barrinha de chocolate.

Esse quadro seria desculpa para toda a falta de ação, para todas as desculpas de aceitar um estado miserável. Para quem nunca foi ao limite, para quem vive dentro de condições mais confortáveis, o agir desse rapaz é algo absurdo, inverossímil. Talvez o mais simples seria dizer que ele teve e tem um norte, um objetivo. Ainda que não fosse para onde queria por meio de carro, bicicleta ou ônibus. Andarilho, Bira já chegou a caminhar 27 quilômetros, a pé, com fome, para fazer uma prova de concurso. Suas pernas eram veículo, a vontade era motor.

Quem reduz uma pessoa à sua vida orgânica, tem todo o direito de se escandalizar. Alguma coisa não bate, os incrédulos dizem. Por isso, em obediência ao senso comum, pergunto:  

– Você estudou pro concurso do Banco do Brasil como?

– Três dias antes.

– Mas o que você vinha estudando antes?

– Português, matemática. Assim, eu fui com a bagagem que eu tinha. Eu não estudei muito não.

– E como é que você estudava português e matemática?

– Eu faço assim, ó. Eu até brinco. Eu não sou exemplo de estudo não. Porque eu sou um cara que eu pego assim: 10 regras de matemática, boto lá e fico estudando. Aí jogo 10 regras de português…. uma coisa que não tem nada a ver. Quando eu estou achando uma coisa muito chata, ou está muito difícil, eu pego, pulo pra outra coisa.

– E onde você pega essas 10 regras de português?

– Tem um programa, um site muito bom chamado “Só Português”, tem outro, “Só Matemática”. Tem os testes do PCI, Concursos, que são muito bons. Ali tem testes, provas, aí eu saio fazendo.

Então a gente sai de uma dificuldade e entra em outra. Programa, site, como assim? Como pode um sem-teto, um cara que não tem o que comer, acessar o maravilhoso mundo da web? A isso o senhor Bira responde:

– Se eu pegasse 5 reais, eu me perguntava: o que eu vou fazer com estes 5? Se eu ia tomar café, os documentos que eu ia precisar tirar. Por exemplo, eu ia tomar café, que custa 1 real, e sobravam 4. Ia entrar na Internet, que eu ia precisar, já virou mania. Às vezes eu tenho acesso algumas horas lá no Cebrae, que é gratuito. Quando eu não podia, eu ia nesses lugares gratuitos. Quando eu pagava internet, eu ficava sem almoço, ou sem tirar uma carteira de estudante…

Assim esclarecido, sabedor de que a vontade é a sua ferramenta, voltamos:

– Seu amigo Carlos Eduardo chama a atenção para o fato de que entre 19.000 candidatos no Recife, apenas 171 não levaram ponto de corte em Conhecimento Bancário. E como é que você sabia Conhecimento Bancário sem ter apostila?

– Eu gosto muito de ler sobre banco, a parte de economia dos jornais, assim, eu procurava saber algumas coisas, tipo commodities, taxa selic, esse negócio, ouro…

– Tudo a ver com a sua realidade …

– Não, nada a ver. Obrigado pela ironia.

Peço-lhe desculpa. Bira é zen, mas responde pronto. Assim como se diz, no meio do povo, que “a dor ensina a parir”, ele pensa rápido e reage. Quando não tinha casa, ele se abrigava na porta de uma farmácia, de madrugada, encolhido em um batente de porta de 1 metro de comprimento. E porque a dor é mestra eficiente, ele procurou conhecimento com os instrumentos que a sua necessidade criou. Ele não tem gramática – formal, em livro -, mas fala com boa sintaxe, léxico e prosódia. Não tem livro didático de matemática, mas não errou uma só questão de juros na prova. Ele, que era o próprio “não tem”, o que fez? Criou a sua didática, a sua gramática, a sua matemática, assim como um faminto acha o caminho do pão. 

– Eu deixei de estudar em escola em 1995, quando saí de casa. Em 2001 voltei para a sala de aula.

Pra comer, sabemos. Voltou para a sala de aula para ter direito à merenda da noite. Mas na hora procuramos saber o método que usou para o Concurso.

– Matemática, como todo conhecimento, é uma construção. Como você pode pegar aqui e ali? No concurso do Banco do Brasil houve questões de juros compostos.  

– Ah, juros eu sei bem. Tanto que eu não errei uma só questão de juros.

– E como é que você fez isso sem livro?

– Ah, é porque livro… eu lhe digo, eu sou autodidata e sou aquele cara que aprende fazendo… tem até uma expressão, como é chamada? Aprende fazendo.

– Mas fazendo a partir de que exemplos, a partir de que didática?

– Depende. Eu pergunto… Eu conheço um cara que está fazendo engenharia. Ele se aborreceu comigo, porque ele estava tentando me ensinar um problema, e eu fiz os cálculos sem fazer cálculos. Mentalmente. Ele ficou com muita raiva. Quase quebra a cadeira na minha cabeça. Ele me disse: “Eu faço engenharia esse tempo todinho, eu passo duas folhas para dar um resultado zero. Você pega e faz de cabeça?”. 

Natural. Quem não tem, faz da própria cabeça um algoritmo e um caderno. O seu improvisado professor disso não sabia. E até conhecer Bira, eu também não. Estamos todos envenenados pelos métodos formais, e julgamos que a mente se pauta pela ordem do ABC. Se o homem é o ser que cria, Ubirajara Gomes da Silva é filho desse homem. Ele, que vem sendo apontado como a exceção, é apenas um ser como qualquer um de nós, quando não se curva.

– Quem é você?

– Sou um cara teimoso, persistente…. na medida do possível, sagaz, eu acho. A gente tenta, tenta, tenta, têm objetivo.

– Se você tivesse de enviar uma palavra para as pessoas que se encontram em uma situação difícil, na rua, o que você diria?

– Lutem.

Dizer mais o quê? Ubirajara Gomes da Silva é um homem.

*Texto publicado originalmente na Carta Capital em julho de 2008 com o título “Ubirajara calcula”.

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

“Quando não escrevo estou morta.” O traço de autoria em Clarice Lispector

13.03.04_Dunker_No limiarPor Christian Ingo Lenz Dunker.*

Às vezes enterramos nossos conceitos antes da hora, por medo de enfrentar seus limites. Isso vale para as noções de autor e de narrador, absorvidas gradativamente pela supremacia do personagem. Autoria maldita, inabordável metodologicamente como noção crítico-literária, impensável psicanaliticamente como expressão de auto-coerência, impraticável para um mundo em crescente escritura de si mesmo.

O livro de Maria Lucia Homem, No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector comemora os 92 anos de nascimento da autora de A Paixão de G.H. recuperando o tema da autoria para além a psicobiografia. A tese é muito interessante, pois consegue se desfazer de noções preguiçosas como a de estilo ou de marca textual, preservando a autoria sem a biografia. Pelo menos não é a biografia, como narrativa-mestre, a dominar todas suas evaginações ocasionais chamadas em seu conjunto de “obra”, que estão em questão neste caso.

Nenhum outro autor brasileiro teria levado tão a sério um dos desafios da desmontagem da forma-romance, na sua versão de contradição entre vida e obra, quanto Clarice. Desafio central para a psicanálise, uma vez que é esta forma que enquadra tanto as expressões diagnósticas quanto metapsicológicas de Freud. Uma psicanálise para além ou para aquém do romance: talvez tenha sido isso que Lacan foi buscar nos trágicos gregos. Outro universo sem autoria.  

Maria Lucia aborda este problema em Água viva, romance onírico, quase sem ação, para-romance em primeira pessoa, na qual a figura típica do nascimento é colocada em paralelo com a construção do próprio texto. Suspensão do ordenamento gramatical, voltas que beiram o barroco, tentando capturar no tempo que flui o instante-já, no qual isso (it), seria apanhado pela palavra. O preço desta declarada procura é a dissolução e o esvaziamento da unidade eu-narrador-autor. Suas cenas de constituição, morte-vida, eu-outro, reflexividade e saber de si, tornam-se pretextos para esta “estética do desvio”, ou seja,  para o nascer e renascer da palavra e do silencio. Ao repetir o impossível de dizer, sonhando com a potência da música e da pintura, “o melhor está nas entrelinhas …”. 

Em A hora da estrela a estratégia é diferente, mas a moral é a mesma. Desta vez é o personagem que se esvazia. Macabéa, sertaneja sem destino, paciente que não tinha nada, diz sim para a vida (seu primeiro namoro) no instante já depois do qual é atropelada pela estrela, que tanto queria se tornar. Este “desconhecimento profundo da realidade de si” parece ser o preço a pagar, na quota do personagem, para que entre em cena a polifonia do narrador-personagem, do autor e até mesmo do leitor.

Finalmente, em Um sopro de vida o problema da autoria alcança seu grau máximo, com a própria transferência do acabamento da obra para a secretária de Clarice, e com a criação de uma criatura-personagem, Ângela Pralini, que dialoga abertamente com a autora, como sua extensão.

Em sua última fase, Clarice nos deixa ver que o autor não precisa mais se aprisionar como senhor de seu texto, mas pode exercer uma função, exercida no momento mesmo do gesto da escrita.” (p.180)

A crise da subjetividade que dá origem à constituição do sujeito literário contemporâneo é refeita, passo a passo, por Maria Lucia, neste trabalho que restitui a psicanálise na crítica clariceana. Mais além da abordagem biográfica e mais aquém da decifração hermenêutica, há ainda espaço para a questão da autoria como traço do sujeito. Trabalho inteligente e sensível, à altura do texto que aborda, é uma obra necessária para aqueles que ainda acreditam que a literatura tem algo a dizer sobre a formação do psicanalista, e para aqueles que acreditam que a literatura pode nos ensinar algo sobre a arte de ser outro. 

* Publicado originalmente no n.242 da revista Mente e cérebro.

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Confira também o texto de Vladimir Safatle sobre No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector aqui.

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No limiar do silêncio e da letra_capa_site_altaNo limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector, de Maria Lucia Homem, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso na Gato Sabido e na Travessa.  Orelha de Vladimir Safatle, prefácio de Yudith Rosenbaum e posfácio de Joel Birman.

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Na quarta-feira, dia 6/3, Christian Dunker ministrará a segunda aula do Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek: Žižek e a psicanálise. O evento faz parte do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que traz, entre outros, o filósofo esloveno ao Brasil.

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Lançamento Boitempo: Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, de Slavoj Žižek

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Acaba de chegar às livrarias Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, o maior e mais importante livro teórico de Slavoj Žižek!

Na semana que vem haverá uma sessão de autógrafos com o filósofo esloveno na livraria Saraiva do Shopping Paulista (SP). Mais detalhes sobre a vinda de Žižek ao Brasil ao final deste post!

O livro já está à venda na SaraivaLivraria Cultura e Livraria da Travessa

Leia abaixo a orelha do livro:

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo ainda guarda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. 

Slavoj Žižek, um dos filósofos mais ambiciosos da atualidade, defende neste livro que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, Gilles Deleuze, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia. 

Sobre o livro 

Slavoj Žižek finalmente escreveu a declaração definitiva de sua filosofia. Se alguém está realmente interessado em compreender seu pensamento como um todo, vendo como as diversas partes se encaixam, Menos que nada é a resposta possível. – Adam Kotsko 

Žižek consegue tanto solapar os argumentos pós-modernistas em sua dependência de uma recusa a Hegel quanto endossar as objeções à totalidade que são chave nesses argumentos. – Steven Connor 

Em Menos que nada, Žižek permanece resoluto em sua posição de que o “capitalismo não pode ser reformado”, de que não há nada passível de redenção ou de salvação no seu presente ou passado. – Matthew Cole 

Tudo sobre este livro gira em torno de questões de tamanho – literal e metafórico, possível e sublime, fantasmático e mundano. Menos que nadaé a ferramenta sarcasticamente intitulada por Žižek para seu “megalivro sobre Hegel”. – Peter Osborne

Žižek no Brasil

Žižek estará no Brasil para uma série de conferências que integram o Seminário Internacional Marx: a criação destruidora – um mega evento que passa por seis cidades brasileiras e reúne pensadores como David Harvey, Michael Heinrich, Roberto Schwarz, José Arthur Giannotti, Franscisco de Oliveira, Jorge Grespan, Ruy Braga e José Paulo Netto entre outros. Confira a programação completa aqui.

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Autógrafos de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético
com Slavoj Žižek

Sábado | 9/3 | 16h | Livraria Saraiva | Shopping Paulista
Rua Treze de Maio, 1947 | Bela Vista | São Paulo | SP

Europa: entre a adrenalina e a anestesia


Italy Vote In General ElectionPor Flávio Aguiar.

A recente eleição italiana lembrou de modo abrupto como o continente europeu tem vivido nos últimos anos, graças aos seus “planos de austeridade”: em saltos vertiginosos entre doses cavalares de anestesia e de adrenalina.

Às vezes, conforme o país, predomina o mergulho no anestésico, como na Alemanha, ou o pico de adrenalina, como na Grécia.

A retórica da “austeridade” é o anestésico: discurso fácil, repetitivo ad nauseam, de metáforas vulgares e baixo nível de inteligência. Baseia-se na similitude enganosa entre o mundo privado e o público. Um país deve ser administrado como o lar, só se gasta metade do que se ganha, ou até dois terços. O resto poupa-se para o futuro. Só que na esfera pública dominada por este anestésico não se poupa para o futuro, mas para alicerçar o combalido sistema financeiro. Porque sem ele não se rolam as dívidas públicas. Ou seja, na prática poupa-se para se endividar, num círculo vicioso e viciado.

Mas de quando em quando deve-se prestar barretadas à democracia, esta cônjuge indesejada que está virando rapidamente a “outra”, no casamento entre governos e banca financeira. Daí, às vezes, o bolo desanda, porque as doses de anestésico revelam-se insuficientes quando a dor é demais. É verdade que também se recorre a periódicas injeções de medo, convencendo que a dor é necessária, porque senão a dor será maior ainda. Ainda assim, estas injeções também se provam insuficientes, porque a permanência da dor invalida a combinação entre anestésico e temor.

Daí acontecem “catástrofes”, como a eleição italiana.

Então o mundo anestesiado acorda, com doses poderosas de adrenalina: no mundo dos donos da hegemonia anestésica, as bolsas despencam, os rankings do tipo Moody’s e Standard and Poor’s (que nome!) caem, os spreads e o preço da rolagem das dívidas vão para a estratosfera, os ministros das finanças vituperam o povo que acordou como um bando de irresponsáveis, e por aí vai a saraivada das adrenalinas.

É provável e possível que os anestésicos retornem. Até porque uma parte da adrenalina afinal desperta na população se dispersa em pílulas de placebo inútil, do tipo Beppe Grillo, ou em tóxicos alucinatórios, do tipo Sílvio Berlusconi. Em todo caso, tanto o placebo quanto o tóxico são sintomas de que indignação não falta.

O que faltam são alternativas. Faz parte do mundo do anestésico o convencimento de que não há alternativas ao seu remédio que, no fundo, consiste em ir aplicando a morfina viciada e viciante enquanto a equipe médica comprime com os pés o tubo que alimenta o paciente com oxigênio. Mantidos num estado de letargia induzida, os pacientes conseguem apenas sonhar pesadelos e se agitar de vez em quando, em movimentos espasmódicos e pouco concatenados. Ou então, no caso daqueles pacientes que detém uma quota maior de oxigênio, impera a pouca movimentação, na crença de que se não se mexerem muito preservarão essa situação de desigualdade na distribuição de ar em seu favor. Creem estes, inclusive, que sua “felicidade” se deve ao fato de que sabem se comportar bem, poupando oxigênio, enquanto os outros, os que agora se agitam nos pesadelos, estão sendo devidamente castigados por terem desperdiçado suas quotas, e assim passam a aprender as regras do bom comportamento.

Aos poucos, porém, as alternativas vão se deixando vislumbrar. Já não impera a absoluta concordância com as regras anestésicas, como no caso da França. A Islândia é uma preciosa exceção, também. Mas a França ainda está enredada na herança do anestésico, ainda que agitado, do “efeito Sarkozy”. E a Islândia, em comparação com o gigantesco continente europeu, tem a dimensão de um pequeno besouro, fácil de não se ver, e portanto de não se falar a respeito.

O problema está ao sul e do outro lado do Atlântico, onde há um imenso besourão chamado Brasil. Este besourão, que avoa, mas que, de acordo com as leis da Física (pelo menos a dos anestesistas) não deveria voar, é difícil de passar desapercebido.

Por isso, seria melhor para todo esse mundo que um tucano o engolisse dentro de algum tempo.

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Flávio Aguiar está no Brasil e participa de dois eventos de lançamento de seu mais novo livro A Bíblia segundo Beliel: como de fato tudo aconteceu e vai acontecer. Em Porto Alegre o debate ocorre amanhã e contará com a presença do tradutor e escritor Paulo Neves, em São Paulo o debate ocorre no dia 12/3 e conta com a presença de José Roberto Torero, que assina a orelha do livro.
Confira o cartaz completo abaixo:

2013.03_A Bíblia segundo Beliel_finalFlyer Porto Alegre | Flyer São Paulo

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Por que os fundamentalistas de livre mercado acreditam que 2013 será o melhor ano de todos

Como já fizeram os comunistas, os capitalistas de hoje colocam a culpa dos fracassos no uso “impuro” do sistema

13.02.27_Slavoj Zizek_Fundamentalistas livre mercadoPor Slavoj Žižek.*

Tradução: Rogério Bettoni

For the english version, click here.

A edição de natal da revista britânica The Spectator publicou um editorial chamado “Por que 2012 foi o melhor ano de todos?” (disponível aqui, em inglês). O texto criticava a ideia de que vivemos em “um mundo perigoso e cruel, em que as coisas estão ruins e ainda pioram”. Eis o parágrafo de abertura: “Talvez não pareça, mas 2012 foi o ano mais formidável na história mundial. Essa afirmação soa algo extravagante, mas pode ser corroborada pelos fatos. Nunca houve menos fome, menos doenças ou mais prosperidade. O ocidente permanece em um marasmo econômico, mas a maioria dos países em desenvolvimento está progredindo e as pessoas estão saindo da pobreza a uma velocidade jamais registrada. Felizmente o número de mortos pela guerra ou por doenças naturais também está baixo. Estamos vivendo na idade do ouro.”

Essa mesma ideia tem sido fomentada de modo sistemático em uma série de bestsellers, que vai de Rational Optimist, de Matt Ridley, a Better Angels of Our Nature, de Steven Pinker. Também há uma versão mais prática que se costuma ouvir na mídia, principalmente nos países fora da Europa: crise, que crise? Vejamos os chamados países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China –, ou países como Polônia, Coreia do Sul, Singapura, Peru, até mesmo vários Estados da África subsaariana: todos estão progredindo. Os perdedores são a Europa Ocidental e, até certo ponto, os Estados Unidos – então não estamos lidando com uma crise global, mas simplesmente com a mudança do progresso, que se afasta do Ocidente. Um símbolo poderoso dessa mudança não seria o fato de que, recentemente, muita gente de Portugal, país em crise profunda, está voltando para Moçambique e Angola, ex-colônias de Portugal, mas dessa vez como imigrantes econômicos, e não como colonizadores?

Até mesmo com respeito aos direitos humanos: a situação na China e na Rússia não é melhor agora do que há 50 anos? Descrever a crise existente como um fenômeno global, como dizem, é uma típica visão eurocentrista advinda dos esquerdistas que geralmente se orgulham de seu antieurocentrismo. Nossa “crise global”, na verdade, é um mero abalo local em uma história mais ampla do progresso geral.

Mas é preciso conter nossa alegria. A pergunta que deve ser feita é: se a Europa, sozinha, está em declínio gradual, o que está substituindo sua hegemonia? A resposta é: “o capitalismo de valores asiáticos” – o que, obviamente, não tem nada a ver com o povo asiático e tudo a ver com a tendência nítida e atual do capitalismo contemporâneo em limitar ou até mesmo suspender a democracia.

Essa tendência não contradiz de modo nenhum o tão celebrado progresso da humanidade – ela é sua característica imanente. Todos os pensadores radicais, de Marx aos conservadores inteligentes, eram obcecados por esta questão: qual é o preço do progresso? Marx era fascinado pelo capitalismo, pela produtividade sem precedentes que ele desencadeava; mas Marx também frisava que esse sucesso engendra antagonismos. Devemos fazer o mesmo hoje: ter em vista a face obscura do capitalismo global que fomenta revoltas. 

As pessoas se rebelam não quando as coisas estão realmente ruins, mas quando suas expectativas são frustradas. A Revolução Francesa ocorreu apenas quando o rei e os nobres começaram a perder o poder; a revolta anticomunista de 1956 na Hungria eclodiu depois que Imre Nagy já era primeiro-ministro há dois anos, depois de debates (relativamente) livres entre os intelectuais; as pessoas se rebelaram no Egito em 2011 porque houve certo progresso econômico sob o governo de Mubarak, dando origem a uma classe de jovens instruídos que participavam da cultura digital universal. E é por isso que o pânico dos comunistas chineses faz sentido: porque, no geral, as pessoas hoje estão vivendo melhor do que há quarenta anos – os antagonismos sociais (entre os novos ricos e o resto) explodem e as expectativas são muito mais elevadas.

Eis o problema com o desenvolvimento e o progresso: são sempre desiguais, dão origem a novas instabilidades e antagonismos, geram novas expectativas que não podem ser correspondidas. No Egito, pouco antes da Primavera Árabe, a maioria vivia um pouco melhor do que antes, mas os padrões pelos quais mediam sua (in)satisfação eram muito mais altos.

Para não perder o elo entre progresso e instabilidade, é preciso realçar sempre como aquilo que, à primeira vista, parece ser a realização incompleta de um projeto social na verdade sinaliza sua limitação imanente. Existe uma história (apócrifa, talvez) sobre o economista keynesiano de esquerda John  Galbraith: antes de uma viagem à URSS no final da década de 1950, ele escreveu para seu amigo anticomunista Sidney Hook: “Não se preocupe, não me deixarei seduzir pelos soviéticos nem voltarei para casa dizendo que eles têm socialismo!”. Hook respondeu imediatamente: “Mas é isso que me preocupa – que você volte dizendo que a URSS não é socialista!”. O que Hook temia era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado com a construção de uma sociedade socialista, isso não invalida a ideia em si, mas significa apenas que não a executamos apropriadamente. Essa mesma ingenuidade não é detectada nos fundamentalistas de mercado da atualidade?

Durante um recente debate televisivo na França, quando o filósofo e economista francês Guy Sorman afirmou que a democracia e o capitalismo necessariamente andam juntos, não pude me negar fazer esta óbvia pergunta: “Mas e a China?”, ao que ele me repreendeu: “Na China não há capitalismo!” Para o pós-capitalista fanático Sorman, um país não é verdadeiramente capitalista se não for democrático, exatamente da mesma maneira que, para os comunistas democráticos, o stalinismo simplesmente não era uma forma autêntica de comunismo.

É assim que os atuais apologistas do mercado, em um sequestro ideológico sem precedentes, explicam a crise de 2008: não foi o fracasso do livre mercado que a provocou, mas sim a excessiva regulação estatal; o fato de que nossa economia de mercado não foi um verdadeiro Estado de bem-estar social, mas esteve, em vez disso, nas garras desse Estado. Quando rejeitamos as falhas do capitalismo de mercado como infortúnios acidentais, acabamos em um “progress(ism)o” que encara a solução como um uso mais “autêntico” e puro de uma noção, tentando assim apagar o fogo com gasolina.

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Novo livro de Slavoj Žižek, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, a partir deste fim de semana nas livrarias!

Sobre Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, de Slavoj Žižek

A filosofia ocidental tem se desenvolvido à sombra de Hegel, de cuja influência cada novo pensador tenta, em vão, escapar. Seu idealismo absoluto tornou-se, assim, uma espécie de bicho-papão, obscurecendo o fato de ele ser o filósofo dominante da histórica transição à modernidade – período com o qual nosso tempo guarda ainda espantosas semelhanças. Hoje, à medida que o capitalismo global se autodestrói, iniciamos uma nova transição. Neste livro Žižek defende que é imperativo não apenas voltar a Hegel, mas repetir e exceder seus triunfos, superar suas limitações e ser ainda mais hegeliano que o mestre em si. Tal abordagem permite que o autor, sempre à luz da metapsicologia de Jacques Lacan – o único verdadeiro rival de Hegel aos olhos de Žižek–, diagnostique nossa condição atual e trave um diálogo crítico com as principais vertentes do pensamento contemporâneo – Martin Heidegger, Alain Badiou, o realismo especulativo, a física quântica e as ciências cognitivas. Obra-prima de Žižek, Menos que nada retoma o legado hegeliano e apresenta um desenvolvimento sistemático de sua filosofia.

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Slavoj Žižek vem ao Brasil em março para apresentar uma série de conferências entituladas De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise. O filósofo passará por cinco cidades brasileiras, como parte de um seminário internacional que trará, entre outros, David Harvey e Michael Heinrich. Confira a programação completa e mais informações no site oficial Marx: a criação destruidora

Slavoj Žižek no Brasil
Conferência
De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise
Porto Alegre 5/3 | São Paulo 9/3 | Brasília 12/3 | Recife 15/3
Autógrafos
Autógrafos de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético
Sábado | 9/3 | 16h | Livraria Saraiva | Shopping Paulista
Rua Treze de Maio, 1947 | Bela Vista | São Paulo | SP

A conferência de Slavoj Žižek em São Paulo será transmitida via internet gratuitamente pelo site do evento. No mesmo dia, às 14h, haverá exibição do documentário Žižek!, de Astra Taylor, também gratuita!

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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