O Rei Roberto Carlos e sua especial história

13.11.05_Urariano Mota_A história especial de Roberto CarlosPor Urariano Mota.

Os argumentos dos compositores do Procure Saber contra as biografias sem autorização têm sido um desastre danoso de danação. Grandes artistas da música brasileira como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento e, por vizinhança da companhia, o Rei Roberto e Erasmo Carlos, quanto mais falam, mais afundam em areia movediça. Quanto mais se revolvem no pântano, na lama, mais se perdem nos últimos anos das suas vidas.

Os compositores da música popular não precisavam deste presente e desonroso capítulo. Mas Roberto Carlos, talvez em razão da sua majestade, cometeu em um domingo a mais expressiva decadência dos músicos. O Procure Saber pode agora dispensar Paula Lavigne para ser irrefletido, inculto e estúpido. Antes, a doce Paulinha, para Caetano, já havia falado em seu natural soft:

“Aqui no Brasil parece que só existe liberdade de expressão, o direito à privacidade não é respeitado… Nosso grupo é contra a comercialização de uma biografia não autorizada. Não é justo que só os biógrafos e seus editores lucrem com isso e nunca o biografado ou seus herdeiros. Usar o argumento da liberdade de expressão para comercializar a vida alheia é pura retórica”.

Salve, simpatia, poderíamos cantar. Mas descansem agora as opiniões e pernas de Paula Lavigne, pois um valor mais alto se alevanta. O Rei Roberto Carlos fala melhor em grossura, como nestes momentos da entrevista a Renata Vasconcellos, no Fantástico:

Roberto Carlos: O biógrafo também pesquisa uma história que está feita. Que está feita pelo biografado. Então ele na verdade ele não cria uma história. Ele faz um trabalho e narra aquela história que não é dele. Que é do biografado. E partir do que ele escreve, ele passa a ser dono da história. E isso não é certo.

Renata: Por uma questão também comercial?

Roberto Carlos: Por tudo…”

Amigos, é de causar surpresa, e surpresa muito ruim, descobrir a profunda ignorância de artistas da música popular sobre o próprio ofício, sobre a própria condição da arte. Criadores, até como um dever de casa, deveriam investigar mais as razões do seu modo de ser no mundo. Mas não. Na entrevista ao Fantástico, Roberto Carlos é de um primarismo absoluto ao declarar a crença de que a sua história já está feita. Ou, no caso das biografias, que a história dele já está feita por eles. Engano. Ele quis dizer – e não soube como – que os anos foram vividos por ele. O que já seria uma burrice, pois os que estivemos nesse mesmo tempo somos parte legítima para contá-la. Ou em frase mais clara: a história da vida de um homem, mesmo que de um pop star, de um semideus, será feita por quem contá-la. Elementar. A vida será contada a partir de fatos que foram vividos não apenas pelo biografado. Nesse particular sentido, a história de uma pessoa está sempre a ser recontada.

O fato, mesmo, é que ao lado da ignorância de Roberto Carlos se encontra algo mais palpável: é grana, é dinheiro, é moeda. Ele e os demais compositores querem faturar o restinho das suas vidas com os subprodutos, como se fosse uma utilização total de um boi, que eles creem ser subprodutos, espécie de aproveitamento de ossos de um açougue para a sopa. Ah, não, a venda dos ossos é minha. Ou para sair da metáfora de matadouro bovino: os compositores avançam sobre a venda de direitos da “sua” história para o cinema e a televisão.

E disse mais Roberto Carlos à repórter do Fantástico, entre pausas e sorrisos na máscara de maquiagem que envergonhada cobre os muitos anos no rosto:

Roberto Carlos: Eu estou escrevendo a minha história. E informando muito mais a essas pessoas sobre a minha vida, sobre as minhas coisas, muito mais do que qualquer outra fonte.

Renata: Quem escreveria a biografia do Roberto Carlos com as bênçãos do Rei?

Roberto Carlos: Eu. Detalhes que com certeza não vão estar em outras biografias… Também não sei se vai caber num livro só. Talvez dois ou três livros pra escrever toda a minha história.

Renata: A vida do Roberto não cabe num livro só.”

Ele próprio, Roberto Carlos, vai escrever a sua autobiografia! Isso é maravilhoso. Todos sabem que o Rei é incapaz de escrever um simples texto de 3 linhas, mais conhecido pelo nome de bilhete, mas será capaz de escrever uma longa autobiografia. E em vários volumes, porque a sua vida não cabe em um só livro. Meu Deus. O seu conhecimento de tempo dramático, de síntese, de montagem e seleção, de hierarquia de acontecimentos de uma vida, é zero. Por isso ele conclui, em um esforço de modéstia, que depois de 72 anos a sua vida pode dar 3 volumes. Imaginem se reunir os diários de todas as suas horas até hoje: o mundo se encherá de livros com os títulos Roberto Carlos I, Roberto Carlos II, Roberto Carlos III… infinito.

Para o Rei, o show já terminou. Mas disso ele ainda não tem informação, conhecimento ou consciência. Saudade de Paula Lavigne.

***

***

Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

***

Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

A rua e o poder: uma entrevista com Perry Anderson

15.11.04_Entrevista AliásJuliana Sayuri entrevista Perry Anderson.*

Mais uma vez, a voz das ruas. Ecos talvez das jornadas de junho, manifestações vibrantes voltaram a ocupar São Paulo. Dessa vez, na estrada federal: com multidões furiosas, caminhões incendiados e barricadas nos arredores da Rodovia Fernão Dias, zona norte, onde o estudante Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, morreu com um tiro disparado por um policial militar no domingo passado.

“As manifestações de junho marcaram o despertar político de uma nova geração. Mas outro levante popular, ainda maior, não pode ser descartado neste momento.” O alerta é do historiador britânico Perry Anderson, professor da Universidade da Califórnia, ex-editor da New Left Review, ensaísta e autor de Espectro: da direita à esquerda no mundo das ideias (Boitempo), entre outros.

Aos 75 anos, Perry Anderson vive entre Londres e Los Angeles, mas dedica um inspirado olhar à América Latina e ao Brasil. Cá esteve para participar do Fronteiras do Pensamento em outubro, em Porto Alegre. No primeiro encontro, a impressão: um gênio difícil, dir-se-ia. Um dos mais importantes teóricos marxistas contemporâneos, o intelectual não é fã de entrevistas, escolhe suas palavras meticulosamente, voz firme, óculos quadrados e anotações datilografadas a tiracolo.

O historiador também passou por Campinas e São Paulo, onde nos reencontramos para um café filosófico nos Jardins. “Não gosto de dar entrevistas, particularmente. Todo mundo dá entrevistas atualmente, é muito fácil. É a síndrome de Andy Warhol: todos serão famosos por 15 minutos. Por isso, penso que só se deve falar quando realmente tiver algo a dizer”, justifica. Nesta entrevista exclusiva ao Aliás, Perry Anderson comenta os rumos do Brasil e do mundo em tempos de explosivos protestos populares.

Domingo passado, um jovem foi morto por um PM na Vila Medeiros, zona norte de São Paulo, provocando protestos violentos que travaram a Fernão Dias. Dilma Rousseff criticou a violência contra jovens negros da periferia, ‘a manifestação mais forte da desigualdade no Brasil’, nas palavras da presidente. Como o sr. analisa o poder (ou a fragilidade) das manifestações nas ruas desde as jornadas de junho no País?

Três grandes conquistas vieram com os protestos de junho. Primeiro, as manifestações marcaram o despertar político de uma nova geração – principalmente, mas não exclusivamente, dos jovens, dos trabalhadores oprimidos. Segundo, ao forçar espetacularmente governantes a recuar no aumento das tarifas de transporte público em grandes cidades, eles fizeram surgir uma compreensão do empoderamento social (de dimensão potencialmente nacional) para setores até então passivos da população. Por último, e não menos importante, levantaram a questão da distribuição escandalosamente distorcida das despesas públicas no Brasil. O mérito para tudo isso vai para os movimentos de esquerda que alavancaram os protestos – o MPL principalmente –, cujo eco popular foi tão expressivo que mesmo forças de direita aderiram às manifestações, pautadas por seus próprios propósitos. Assim, a fragilidade dos protestos está nessa enorme disparidade: por um lado, o pequeno núcleo organizado que inspirou as revoltas de junho; por outro, a escala das multidões que tomaram parte nessas manifestações, sem liderança política ou infraestrutura duradoura. O futuro dependerá de até que ponto essa lacuna poderá ser fechada.

No artigo Lula’s Brazil, publicado na London Review of Books, o sr. destaca a especial ênfase do ex-presidente aos mais pobres. Além da inclusão com programas como o Bolsa Família, o Brasil viu uma forte onda de consumo com a ascensão de uma ‘nova classe média’. A questão toda é sobre poder aquisitivo? É possível proporcionar inclusão e justiça social de outras maneiras?

Certamente é possível – e milhões de brasileiros mostraram neste inverno que eles entendem totalmente como: através da criação de serviços públicos decentes e equitativos para os cidadãos comuns, sobretudo transporte urbano aceitável, assistência médica, habitação social e educação fundamental. A grande conquista do governo Lula foi a criação de empregos e a elevação do poder aquisitivo dos pobres. Esses foram ganhos dentro das relações do mercado. Mas sem avanços correspondentes nas esferas da vida em que as relações de mercadoria não deveriam ter lugar, o risco é realmente gerar uma sociedade de consumo em que, como nos Estados Unidos, aumentar a prosperidade não é, na verdade, empecilho para aumentar, ainda mais rapidamente, a desigualdade. No Brasil, que ainda continua perto do recorde mundial de má distribuição de renda, só uma reforma radical da estrutura tributária, da administração pública e do sistema político pode frear esse perigo. É necessário um Estado que esteja verdadeiramente sob o controle de seus cidadãos, que seja capaz de oferecer serviços honestos, justos e construtivos para eles.

Mas esse Estado é possível?

Estrategicamente, a chave para a reforma precisa ser uma transformação do sistema político, cuja involução para uma ordem decadente e ensimesmada, afastada da vida popular do país, é agora amplamente reconhecida. Os beneficiários desse sistema – principalmente no Congresso, mas também nos poderes das cidades e dos Estados – não vão aceitar, por vontade própria, nenhuma mudança séria nessa ordem. Só a pressão popular pode forçá-los a fazê-lo. A convocação para uma Assembleia Constituinte é absolutamente correta, mas não pode ser instituída por um apelo presidencial que dependa da aprovação de uma classe política para a qual uma reforma pareceria uma tentativa de suicídio. Em Brasília, o Congresso apenas se renderia à fúria das massas nas ruas e nas praças. Isso é aceitável? As manifestações de junho vieram como um choque para a ordem estabelecida. Outro levante popular, talvez ainda maior, não pode ser descartado neste momento. Mas, para render frutos, uma alternativa construtiva para o atual impasse deve se firmar na imaginação popular. Disso ainda há pouco sinal.

Se fosse escrever um novo artigo, talvez Dilma’s Brazil, como seria? Dilma difere muito de Lula?

Em estilo, naturalmente difere de Lula. Nesse quesito, o dom do ex-presidente é inimitável. Em substância, há poucas diferenças. O que mudou não é nem a natureza nem as ambições da administração, mas as condições em que os dois operam. O crescimento no governo Lula foi impulsionado pelos altos preços de commodities na primeira década do século, que deram ao Brasil um considerável aumento do lucro das exportações. Esse momento passou – e o crescimento caiu. O novo governo tentou contrariar a conjuntura menos favorável ao reduzir as taxas de juros e introduzir modestas medidas protecionistas para estimular a economia. Mas o investimento – baixo há décadas no Brasil, segundo os padrões internacionais – falhou e os preços dos serviços começaram a subir. Isso estreitou o espaço econômico para manobra do governo justamente no momento em que as demandas sociais começaram a explodir, especialmente entre setores jovens da população. Encurralado entre essas duas pressões, o projeto do PT, como moldado no governo Lula, periga se esgotar. É necessário um novo modelo. Se o projeto encontrará um segundo fôlego ainda é uma questão aberta.

Após décadas de neoliberalismo, vimos a ascensão de ‘novos’ governos na América Latina, ao mesmo tempo – Chávez na Venezuela, Kirchner na Argentina, Lula no Brasil. Nomes da esquerda também foram eleitos na Bolívia, Equador e Uruguai. Olhando para trás, as expectativas sobre esses ‘novos’ governos eram muito altas?

Não tenho certeza se concordo com esse retrato. Minha impressão é que a euforia exagerada sobre o grau de uma ruptura com o neoliberalismo no novo século não era tão comum – mesmo porque ficou claro para todos que as experiências sul-americanas que você mencionou estavam se movendo no contrafluxo, quer dizer, contra a tendência do mundo, pois América do Norte, Ásia e Europa estavam ainda alinhados ao neoliberalismo. Na América Latina, é justamente o movimento contrário – não a mais privatização, nem a maior desregulamentação, lidando ainda com uma desigualdade acentuada, mas com medidas de proteção nacional, preocupação com os pobres, defesa da esfera pública – que moldou o horizonte político do continente que, apesar de todas suas irregularidades, tornou-se um farol de esperança para os povos de outros lugares.

Na época, vimos o nascimento do Fórum Social Mundial, após os fortes protestos de Seattle. Nos últimos tempos, vimos o Occupy Wall Street, os indignados espanhóis e outros movimentos contra o capitalismo. A mensagem é similar: outro mundo é possível. Por que esses movimentos explodem, expõem as contradições do sistema capitalista e depois desaparecem?

Aliás, desaparecem? Explicações sobre os padrões dessas repentinas e imponentes explosões de protestos populares – que se iniciam e desaparecem rapidamente, ainda sem provocar muitas mudanças – precisam incluir três fatores principais. Obviamente, o primeiro é a ruptura da continuidade na cultura de esquerda com a vitória do capitalismo ocidental na Guerra Fria. O segundo é o declínio, no mundo inteiro, dos partidos como forma clássica de organização política, agravando essa ruptura de continuidade. E, certamente, o terceiro é o advento da internet, que permite uma comunicação e uma mobilização muito rápidas de muitos indivíduos de outra forma dispersos. Entretanto, precisamente por permitir esse sucesso tão rápido e relativamente tão fácil, nos momentos de crise, a internet acaba desencorajando o trabalho mais lento e mais difícil de criar movimentos políticos com estrutura e organização mais duradouras.

Como o sr. analisa a resposta do Brasil ao escândalo de espionagem americana?

O Brasil certamente se saiu melhor – e mais firmemente – que qualquer país europeu. Ao cancelar a visita oficial a Washington e criticar a espionagem americana no discurso nas Nações Unidas, Dilma Rousseff mostrou gestos de dignidade que nenhum outro líder foi capaz de mostrar. Mas esses gestos permanecem limitados. O grau contínuo de submissão do Brasil ao império americano pode ser visto, por exemplo, no fracasso do país ao (não) oferecer asilo a Edward Snowden, que revelou o esquema de espionagem e desde então está sendo perseguido pela índole vingativa característica de Barack Obama, cujo registro de punições domésticas ultrapassa o de George W. Bush. Podemos ter certeza de que Snowden teria encontrado um refúgio mais feliz no Brasil democrático que na Rússia autocrática. Não ter oferecido isso a Snowden é um motivo para desonra nacional.

Ainda assim, o governo do PT mostra mais independência na política internacional?

Certamente mais que os governos de José Sarney ou de Fernando Henrique Cardoso. Mas se formos justos, precisamos lembrar que nenhuma ação de Lula ou de Dilma, apesar de muitas terem sido positivas, foi tão destemida quanto a de um oligarca da República Velha, Artur Bernardes, que, em 1926, retirou o Brasil da Liga das Nações porque eles se recusaram a dar a qualquer país não europeu um assento permanente no conselho. Essa foi uma decisão de honra.

O sr. publicou um livro sobre a Índia – The Indian Ideology. A experiência desse país seria relevante para o Brasil?

Sim. Acredito que um estudo comparativo entre essas duas democracias – grandes países, mas ainda subdesenvolvidos em certa medida – seria de grande interesse. Deveria haver mais intercâmbio intelectual e político entre Brasil e Índia. Inclusive onde suas reformas sociais oferecem paralelos. É uma pena, pensei muitas vezes, que nunca tenha havido (até onde sei) uma troca de experiências entre seus respectivos programas para redução da pobreza: o Bolsa Família, no Brasil, e a Lei Nacional de Garantia de Emprego Rural, na Índia. Um, referente a uma transferência de dinheiro; outro, à disposição de trabalho. São os dois programas mais importantes nessa linha no mundo.

O sr. é considerado um especialista em história intelectual. Tem conselhos para estudantes nesse campo?

Nunca confunda julgamentos políticos e julgamentos intelectuais. A qualidade dos pensadores sérios nunca é uma simples função de seus pontos de vista ideológicos. Pensamentos – à direita, ao centro e à esquerda – devem ser tratados com cuidado analítico e respeito crítico iguais.

E atualmente qual é o papel dos intelectuais na sociedade?

Há uma ideia generalizada de que para ser um intelectual é preciso ser crítico da ordem estabelecida. Não é verdade. Desde o nascimento moderno do termo, possivelmente mais intelectuais têm sustentado os sistemas dominantes em suas sociedades. Assim, não há uma resposta única a sua questão. O papel dos intelectuais de direita é defender e ilustrar a ordem estabelecida. O papel dos intelectuais de centro é dar eufemismos e conformidade à ordem. O papel dos intelectuais da esquerda é atacá-la radicalmente. E nós precisamos de mais intelectuais assim.

* Publicado originalmente no suplemento Aliás do jornal
O Estado de S. Paulo
em 3 de novembro de 2013

***

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Paulo Arantes, Slavoj Žižek, Roberto Schwarz, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Ruy Braga, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Jorge Luiz Souto Maior, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

***

Perry Anderson é um historiador inglês nascido em 1938. Professor da UCLA, Estados Unidos, foi editor da New Left Review, a principal revista de esquerda do mundo anglófono. Ensaista político, Anderson é conhecido por seu trabalho em história intelectual, e filia-se à tradição do Marxismo Ocidental do pós-1956. É autor, entre outros, de Espectro e Afinidades seletivas, ambos publicados pela Boitempo.

O sensacional debate entre Žižek e o sapo Gonzalo

13.11.01_Luiz Bernardo Pericás_Debate Zizek GonzaloPor Luiz Bernardo Pericás.

A recente polêmica na internet envolvendo o filósofo esloveno Slavoj Žižek e o linguista norte-americano Noam Chomsky chegou a tal ponto de ebulição que o espetacular palhaço Carequinha, grande celebridade midiática da República do Repolho, decidiu, num impulso magistral e numa iniciativa sem precedentes, promover um debate definitivo entre os dois intelectuais. A troca de farpas, de fato, foi intensa, cada qual fazendo acusações sobre teorias pós-modernas, palavrório pseudo-científico e empirismo. Mas nunca houve, na prática, um embate tête-à-tête. Essa seria a oportunidade, pensava o genial Carequinha. Para isso, o clown ardiloso reservou o maior auditório da Universidade de São Priápico, o local mais adequado para a pugna do século.

Žižek já estava no país (como sempre), em mais uma tournée de divulgação, desta vez de seu livro de número 532, um volume mais fino que os anteriores (apenas 645 páginas), no qual discutia a relação de Hegel com os filmes de Walt Disney, o trânsito de Tóquio, a construção da Torre Eiffel, as manifestações na Praça Taksim, a democracia participativa na Bolívia, o retorno do fascismo e o capitalismo autocrático na atualidade. Obra surpreendente, de acordo com os resenhistas do New York Times e da revista Contigo. Chomsky, por sua vez, alegou falta de tempo (tinha diversas palestras agendadas no MIT e num Starbuck’s de Boston, ocupado por manifestantes contrários à cafeína), e não pôde vir ao “temerário” encontro.

Uma solução tinha de ser encontrada, já que a Rolha de S. Priápico, o maior periódico do país, havia anunciado o evento a semana inteira. Carequinha se lembrou, então, de alguém que poderia ser um excelente nome para entrar no lugar do professor que lecionava em Massachusetts. Iria chamar o polêmico e combativo militante argentino, o sapo Gonzalo, é claro!

Depois de um rápido telefonema, o batráquio pensou na proposta por alguns minutos e logo aceitou. Por seu lado, Žižek, após ter as garantias de que a mesa-redonda seria transmitida ao vivo pela TV Cultura, também concordou.

Tudo foi preparado e em pouco tempo, lá estavam os dois “contendores”, diante de um auditório lotado de estudantes, “blogueiros”, anarco-skatistas, blequebloques, beiçudos capiléticos e alguns radicais de nosso tempo. Até o cantor e campositor Caetano Veloso, mais conhecido por lamber as botas do coronel Antônio Carlos Magalhães, se encontrava no local, aproveitando uma folga entre dois shows que faria na cidade. Segurava com firmeza seu livro favorito, o clássico de Ray Bradbury Fahrenheit 451, enquanto aguardava o momento da discussão.

Žižek subiu ao palco e foi ovacionado pela audiência. Já nosso Gonzalucho ganhou uns aplausos tímidos, sem grande entusiasmo. Não tinha a mesma máquina de promoção do escalafobético europeu.

“Tudo bem”, pensou o anuro esverdeado.

Carequinha (colunista de jornal, comentarista televisivo e “filósofo” nas horas vagas), limpou as lentes de seus óculos de grau, coçou o bigode e o cavanhaque ruivos, e foi logo apresentando o barbudo grisalho. Pediu que ele começasse com algumas palavras introdutórias. Famous last words! A partir daquele momento, era como tivessem dado corda ao estranho ser balcânico. Em vez de fazer uma breve saudação, para que o debate pudesse começar, Žižek desatou a tagarelar como uma matraca! Durante meia hora, contou piadas sobre Stálin, Gisele Bündchen e o McDonald’s, para então “falar sério”, comentando sobre a relação direta dos super-heróis da Marvel Comics com os problemas políticos e econômicos da Guatemala. É claro que não podia deixar passar a oportunidade, e deu suas alfinetadas em Chomsky, que não estava lá.

“Esse Zizeque é muito porreta, minha nêga!”, disse Caetano (quase tendo um orgasmo) à barraqueira oficial dos artistas unidos pela censura, Paula Lavigne, sentada a seu lado. Ela não prestava atenção ao espetáculo, já que estava concentrada, preparando uma lista de pessoas que pretendia mandar em breve para um gulag no Acre. Riscava os nomes dos escritores que não gostava com uma caneta transbordando com o sangue que havia sugado do biógrafo do Roberto Carlos.

Gonzalo queria falar, mas não conseguia. Afinal, Žižek parecia uma metralhadora giratória. Em tremeliques constantes, não parava de passar a mão no nariz, na orelha e nos cabelos despenteados, beliscando a cada segundo a camiseta vermelha (com as caricaturas de Marx e Engels estampadas no peito), movendo os braços ininterruptamente, deixando a todos com a maior aflição. Mas ele nem ligava.

“Veja bem, colega…”, tentou interromper o mediador Carequinha, homem de grande envergadura moral e enorme credibilidade no mundo acadêmico. Mas o palestrante não permitiu, e manteve sua linha de pensamento.

Um jovem cabeludo, de improviso, se levantou e perguntou ao estrangeiro o que ele achava de Georg Lukács.

“Eu prefiro o George Lucas!”, gritou Zizinho.

“Mas, e História e consciência de classe, querido mestre…”

“Pois gosto mais de Guerra nas estrelas!”, vociferou. E então começou a discutir o mundo contemporâneo a partir da relação de Hans Solo, Chewbacca, Darth Vader e Luke Skywalker. Tudo fazia sentido, dizia ele. Ninguém entendia nada, mas a plateia achava ótimo.

Enquanto isso, o anuro dos Pampas, louco para fumar, já pensava em ir embora. Afinal, estava lá havia duas horas e ainda não tivera a oportunidade de abrir a boca sequer uma vez. Tinha vontade de dizer umas verdades ao colega, mas percebeu que seria totalmente inútil. O que o público queria era um show, e o filósofo cumpria bem essa função.

Sem sequer avisar, o velho jia resolveu sair. Ninguém percebeu. É, caro leitor, o debate emocionante entre Žižek e Gonzalo acabou não acontecendo, para a decepção dos fãs do dicó rioplatense. Do lado de fora, o sapo ainda passou por uma fila quilométrica de garotos aguardando por um autógrafo do performático conferencista de Liubliana, que seria rabiscado nos livros que haviam acabado de comprar e que nunca leriam. Gonzalo calmamente se afastou, e a voz histriônica do esloveno foi ficando cada vez mais distante. Agora, com um polpudo corona entre os lábios, deu uma baforada de tirar o folêgo. E concluiu que Chomsky, afinal de contas, é que devia mesmo estar certo…

***

Leia também Chomsky vs. Žižek, na coluna de João Alexandre Peschanski, no Blog da Boitempo.

***

Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o ficcional Cansaço, a longa estação (por apenas R$13). Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

***

Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Professor de história da USP, foi visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). É organizador, com Lincoln Secco, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil, que será lançada no segundo semestre de 2013. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Manifestação

USP EM GREVE

Não nos enganemos. Vivemos um momento excepcional na FFLCH, relacionado ao movimento mais amplo de reivindicação de democracia e eleições diretas para reitor, na USP; de contestação do autoritarismo dos governos da cidade e do estado de São Paulo; de crítica às políticas de fundo neoliberal sempre em curso no Brasil. É um momento de crise econômica e política grave, que não permite tergiversações e conciliações aparentes, ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de realizar as mudanças necessárias e há muito desejadas no quadro institucional existente. Diante desta grande oportunidade, impõe-se uma ação clara e decidida por parte dos que querem de fato superar o estado de coisas que a crise tornou inviável.  Os que somos favoráveis a tais mudanças, temos de apoiar todo esse movimento, certos de que eventuais excessos serão corrigidos no seu próprio curso. O que não se pode é desviar a atenção por considerações externas que o paralisem ou retardem, nem por julgamentos de tipo moralizante que acabam servindo aos interesses políticos conservadores. No âmbito da FFLCH, o movimento começou com a greve dos estudantes, mas deve alcançar todas as categorias, interessadas do mesmo modo na ampliação do espaço de discussão e de decisão. Para isso, declaramos apoio irrestrito ao corpo discente mobilizado, deixando de lado diferenças, nesse momento secundárias.

Docentes da Universidade de São Paulo

  1. Adma Muhana – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  2. Adrián Pablo Fanjul – Departamento de Letras Modernas
  3. Afrânio Mendes Catani – Faculdade de Educação
  4. Ana Fani Alessandri Carlos – Departamento de Geografia
  5. Ana Paula Pacheco – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada – USP
  6. Anderson Gonçalves – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  7. André Martin – Departamento de Geografia
  8. Annie Schmaltz Hsiou – FFCLRP – Ribeirão Preto
  9. Antônia Terra – Departamento de História
  10. Beatriz Daruj Gil – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  11. Carlos Zeron – Departamento de História
  12. Carmela Gross – Departamento de Artes Plásticas – ECA
  13. Cilaine Alves Cunha – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  14. Cleide Rodrigues – Departamento de Geografia
  15. Cristina Pietraroia – DLM – FFLCH – USP
  16. Daciberg Lima Goncalves – Instituto de Matemática e Estatística
  17. Edu Teruki Otsuka – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  18. Elizabeth Araújo Lima – Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional
  19. Ermínia Maricato – Profa. Pós Graduação FAUUSP – Profa. Visitante IE UNICAMP
  20. Everaldo de Oliveira Andrade – Departamento de História
  21. Francisco Alambert – Departamento de História
  22. Francisco (Chico) de Oliveira – Departamento de Sociologia
  23. Giliola Maggio – Departamento de Letras Modernas
  24. Glória Alves – Departamento de Geografia – USP
  25. Helder Garmes – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  26. Heloísa Fernandes – Departamento de Sociologia
  27. Henrique Carneiro- Departamento de História
  28. Homero Santiago – Departamento de Filosofia
  29. Homero Freitas de Andrade – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  30. Iumna Maria Simon – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  31. Ivan Struchiner – Departamento de Matemática (IME)
  32. Ivone Daré Rabello – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  33. Joaquim Alves de Aguiar – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  34. João Adolfo Hansen – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  35. Jorge Grespan – Departamento de História
  36. Jorge Luiz Souto Maior – Faculdade de Direito
  37. Leila Hernández – Departamento de História
  38. Leon Kossovitch – Departamento de Filosofia
  39. Ligia Chiappini – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada
  40. Lincoln Secco – Departamento de História
  41. Luiz Bernardo Pericás – Departamento de História
  42. Luiz R. Martins – Departamento de Artes Plásticas – ECA
  43. Luiz Roncari – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  44. Maite Celada – Departamento de Letras Modernas
  45. Manoel Fernandes de Sousa Neto – Departamento de Geografia
  46. Marcello Modesto – Departamento de Linguística
  47. Marcelo Ventura Freire – Escola de Artes, Ciências e Humanidades
  48. Marcos César P. Soares – Departamento de Letras Modernas
  49. Marcos Silva – Departamento de História
  50. Maria Elisa Cevasco – Departamento de Letras Modernas
  51. Maria Lucia Cacciola – Departamento de Filosofia
  52. Marta Maria Chagas de Carvalho – Faculdade de Educação- USP
  53. Maria de Fátima Bianchi – Departamento de Letras Orientais
  54. Maria Silvia Betti – Departamento de Letras Modernas
  55. Maria Victoria de Mesquita Benevides – Faculdade de Educação
  56. Marisa Grigoletto – Departamento de Letras Modernas
  57. Mauricio Cardoso – Departamento de História
  58. Mauro Zilbovicius – Escola Politécnica
  59. Neide Maia González – Departamento de Letras Modernas
  60. Osvaldo Coggiola – Departamento de História
  61. Otília Fiori Arantes – Departamento de Filosofia
  62. Pablo Ortellado – Escola de Artes, Ciências e Humanidades
  63. Patrícia Moran – CTR/ECA – USP
  64. Paula Marcelino – Departamento de Sociologia
  65. Paulo Arantes – Departamento de Filosofia
  66. Paulo A. da Silveira Filho – Departamento de Sociologia
  67. Primavera Borelli – Faculdade de Ciências Farmacêuticas
  68. Rejane Vecchia – Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  69. Renato de Silva Queiroz – Departamento de Antropologia
  70. Ricardo Musse – Departamento de Sociologia
  71. Rodrigo Ricupero – Departamento de História
  72. Rubens Machado Jr. – ECA
  73. Ruy Braga – Departamento de Sociologia
  74. Salete de Almeida Cara -Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
  75. Sean Purdy – Departamento de História
  76. Sueli Angelo Furlan – Departamento de Geografia
  77. Sylvia Bassetto – Departamento de História
  78. Valeria De Marcos – Departamento de Geografia
  79. Wagner Costa Ribeiro – Departamento de Geografia
  80. Waldir Belvidas – Departamento de Linguística
  81. Zilda Márcia Grícoli Iokoi – Departamento de História

Alunos de pós-graduação, egressos e formados pela USP

  1. Afonso R. Lacerda – Pós – Departamento de Letras Modernas
  2. Ailsson Floriano Pinheiro de Camargo – Aluno da Especialização em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho da USP
  3. Alessandro da Silva, mestrando em direito do trabalho na Faculdade de Direito da USP
  4. Aline Maciel – Pós – Departamento de História
  5. Alysson T. A. Oliveira – Departamento de Letras Modernas
  6. André Luiz Moura de Oliveira – formado em História pela USP 2012
  7. Associação de Pós Graduandos Helenira “Preta” Resende (APG-USP Capital)
  8. Atenágoras Souza Silva – Pós – Instituto de Física
  9. Azucena Citlalli Jaso Galván – Pós – Departamento de História
  10. Bebel Enge, Formado pela Faculdade de Direito, Turma de 1989
  11. Bruno Carvalho – Pós – Departamento de Filosofia
  12. Camila Massaro de Góes – Pós – Ciência Política
  13. Carlos Russo Jr. – Espaço Literário Marcel Proust (ex-aluno da USP, Faculdade de Medicina, campus de Ribeirão Preto, e Faculdade de Odontologia, Hospital Universitário)
  14. Carolina Gabriel de Paula – Pós – Departamento de Geografia
  15. Carolina von Zuben – formada em Letras – USP
  16. César Takemoto –  pós-graduando – Departamento de Teoria Literária
  17.  Christian Gilioti – Pós – Departamento de Filosofia
  18. Cristiane de Vasconcelos Lopes – Pós – Prolam
  19. Cristiane Maria de Paula, aluna graduação História – USP
  20. Cristiane Toledo Maria – Pós – Departamento de Letras Modernas
  21. Cristina Alvares Beskow – Pós – ECA
  22. Daniel Costa – graduando em História
  23. Deni Ireneu Alfaro Rubbo – Mestre em Sociologia pela USP
  24. Duanne de Oliveira Ribeiro – Aluno – Departamento de Filosofia
  25. Eduardo Luís Campos Lima – mestre em Estudos Linguísticos e Literários
    em Inglês/DLM/FFLCH/USP
  26. Eline Pereira de Souza – Pós (doutorado) – História Social
  27.  Eva Aparecida dos Santos- Pós- Departamento de História
  28. Fabio Alves dos Santos Dias – Pós – Departamento de Sociologia
  29. Fernanda Salgueiro – Pós – Departamento de História
  30. Fernanda Sousa Fiamoncini – Aluna de Letras – Alemão
  31. Fernanda Thomaz – Pós – Departamento de Geografia
  32. Fernando Rodrigues Frias Pós- Programa de Integração Brasil América Latina- Prolam – USP
  33. Francisco Pereira Costa – Doutorando em História Social -USP/UFAC e Membro do Grupo de Estudo Capital e Trabalho no Direito Social – FD/USP
  34. Francisco Silva Rosberg – Formado pela FFLCH
  35. Giovanna Maria Magalhães Souto Maior – Integrante do Grupo de Estudos Trabalho e Capital da Faculdade de Direito da USP
  36. Gustavo Seferian Scheffer Machado – Pós – Faculdade de Direito
  37. Gustavo Takashi Moraes Assano – Pós – Departamento de Filosofia
  38. Helder Rossi Santos Souza – Mestrando do programa de Filologia e Língua Portuguesa da FFLCH/USP – Coordenação da APG da USP Capital – Helenira “Preta” Rezende
  39. Inauê Taiguara M. de Almeida – graduando em Filosofia
  40. Ivan Ducatti – Doutor em História Social pela USP
  41. Jade Percassi – Formada em Ciências Sociais FFLCH, Doutoranda em Sociologia da Educação (FEUSP)
  42. José Rogério Beier – Pós – Departamento de História
  43. Juliana Andrade Oliveira – Pós – Departamento de Sociologia
  44. Juliana Moura Bueno – Formado em Ciências Sociais pela USP
  45. Júlio César Moreira – Graduado FFLCH
  46. Léa Tosold – Pós – Departamento de Ciência Política
  47. Leandro Paixão – graduando em Letras
  48. Lígia Barbosa Lima – Graduando em Letras
  49. Lígia Luchesi Jorge, Mestre em Estudos Judaicos FFLCH-USP
  50. Luciana Borges – Pós-Graduanda – Geografia Humana – USP
  51. Luis Almeida Tavares, Diretor da ASSIBGE-Sindicato Nacional, Dr. em Geografia Humana pelo Departamento de Geografia da FFLCH-USP.
  52. Luiz Gustavo Soares – Pós – Letras
  53. Márcia S. Hirata – Pós – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
  54. Márcia Bassetto Paes – FFLCH/Letras
  55. Maria Claudia Badan Ribeiro – ex-aluna e doutorada pelo Departamento de História – FFLCH/USP
  56. Maria Dea Conti Nunes – ex-aluna Departamento de Filosofia
  57. Matheus Cardoso da Silva – Pós- Departamento de História
  58. Maurício André Silva – Pós-Graduando e Educador MAE/USP
  59. Michel Amary Neto, graduando em Filosofia na USP
  60. Milena Mulatti Magri – Pós – Letras
  61. Nanci Espinosa – Pós – Departamento de História
  62. Pâmela Danitza Lozano Carvalho – Aluna de Letras
  63. Paulo de Carvalho Yamamoto – Integrante do Grupo de Estudos Trabalho e Capital da Faculdade de Direito da USP.
  64. Paulo Yasha Guedes – Pós – Departamento de Filosofia
  65. Rafael Pacheco Marinho – Graduando em Ciências Sociais
  66. Rafael Pereira (Mestrando/FEUSP)
  67. Rafael Moreira Dardaque Mucinhato – Pós – Departamento de Ciência Política
  68. Rafael Tubone Magdaleno – bacharelando em Direito na PUC-SP(4ºano) e Filosofia na USP.
  69. Renan Quinalha – Pós – Faculdade de Direito
  70. Rosemary Costhek Abílio – Formado pela USP
  71. Sergio Alves Souza – Doutor em História Social pela USP
  72. Thais Pavez – Pós – Departamento de Ciência Politica
  73. Thomas Dreux Miranda Fernandes – Pós-graduação – História
  74.  Tiago Machado de Jesus –Pós – História Social
  75. Tiago R Machado – Pós – Departamento de História
  76. Yuri Martins – Pós – Departamento de História

Funcionários da USP

  1. Alexandre Pariol Filho – Diretor do Sintusp
  2. Álvaro Simões – Conselheiro de Base do Sintusp
  3. Aníbal R Cavali – funcionário – Faculdade de Direito
  4. Claudionor Brandão – Funcionário demitido da USP – Dirigente do Sintusp
  5. Diana Assunção – Diretora do Sintusp
  6. Giovanna Usai – Funcionária da FFLCH/Letras
  7. Larissa Fostinone Locoselli – Centro Interdepartamental de Línguas da FFLCH
  8. Magno de Caravalho – Diretor do Sintusp
  9. Manoel dos Santos – Conselheiro de Base do Sintusp
  10. Mara Beatriz França Guimarães – SBD/FFLCH/USP
  11. Marcello Ferreira dos Santos (Pablito) – Diretor do Sintusp
  12. Marlene Petros Angelides – funcionário da FFLCH
  13. Neli Maria Paschoarelli Wada – Diretora do Sintusp
  14. Ony Rodrigues de Campos – Diretor do Sintusp
  15. Reinaldo Souza – funcionário da Faculdade de Educação
  16. Rosely de Sá Oliveira – Técnica Acadêmica
    Serviço de Apoio ao Ensino de Graduação – Comissão de Graduação
    FFLCH-USP
  17. Vanderlino F. Assunção – Conselheiro de Base do Sintusp
  18. Vitor Moretto – Conselheiro de Base do Sintusp
  19. Zelito Souza dos Santos -funcionário- CEPEUSP

Docentes de Outras Universidades

  1. Airton José Cavenaghi – Universidade Anhembi Morumbi – Laureate International Universities
  2. Alair Silveira – Ciência Política – Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
  3. Alexandre C. Varella, professor de História, Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA, mestre e doutor em História Social pela USP.
  4. Alvaro Bianchi — Departamento de Ciência Política –Unicamp
  5. Ana Amelia da Silva – Professora do Departamento de Sociologia da PUC-SP.
  6. Anderson Deo – Professor Departamento de Ciências Políticas e Econômicas – UNESP/Marília
  7. Angélica Lovatto – UNESP-Marília
  8. Antônio Bosi – Professor Departamento de História – Unioeste (Paraná)
  9. Antonio Carlos Mazzeo – Professor de Ciência Política – UNESP/Marília
  10. Antonio Rago Filho  –  Departamento de História  –  PUCSP
  11. Antonio Rodrigues Belon – Professor aposentado da UFMS
  12. Arlete Moysés Rodrigues – Professor Livre Docente – UNICAMP
  13. Beatriz Abramides – Professora da PUC-SP
  14. Betânia Dantas – Docente – Universidade Federal de São Paulo
  15. Bruno Antonio Picoli – Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS
  16. Bryan Pitts, Visiting Assistant Professor, Department of History, Duke University, USA.
  17. Caio Navarro de Toledo –  professor aposentado da Unicamp
  18. Carlos Estevão Ferreira Castelo – Centro de Ciências Jurídicas e sociais Aplicadas da UFAC – Universidade Federal de Acre
  19. Carlos Sanches – Professor Aposentado da UFMT – Presidente da ADUFMAT/UFMT
  20. Carlos Zacarias F. de Sena Júnior – Professor Departamento de História – UFBA
  21. Daniel Fernandez – Professor de História – Universidade do Vale do Paraíba –
    UNIVAP
  22. Danilo Enrico Martuscelli – Ciência Política – UFFS
  23. David Mandel – Departamento de Ciência Política –  Univ. du Quebec à Montreal
  24. Deise Mancebo – Professora Titular – UERJ
  25. Diorge Alceno Konrad – Professor do Departamento de História da UFSM – Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP
  26. Eduardo José Afonso – Departamento de História – FCL Campus de Assis – UNESP
  27. Eurelino Coelho – Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia
  28. Evandro de Carvalho Loboã – Docente – Faculdade Cáspar Líbero
  29. Faní Quitéria Nascimento Rehem – Departamento de Educação – Universidade Estadual de Feira de Santana
  30. Flávio Rocha de Oliveira – Professor do Curso de Relações Internacionais – UNIFESP
  31. Francesco Schettino – Facoltà di Economia – Università di Napoli “Federico II”
  32. Francisco Carlos Teixeira da Silva – Professor aposentado (UFRJ) – Docente do IUPERJ
  33. François Albera, Université de Lausanne (Suisse), directeur de recherche au Fonds national suisse de recherche scientifique
  34. Frederico José Falcão – Professor de História – UFRRJ
  35. Geraldo Blay Roizman – Arquitetura e Design – FMU
  36. Gianfranco Pala – Dipartimento di Economia Pubblica – Università degli Studi “La Sapienza” (Roma)
  37. Gilberto Calil (Unioeste)
  38. Gilberto Maringoni – Professor de Relações Internacionais – UFABC
  39. Glaucia Vieira Ramos Konrad – Professora Adjunta do Departamento de Documentação da UFSM
  40. Hector Benoit – Departamento de Filosofia – Unicamp
  41. Isabel Loureiro – Professora aposentada da UNESP
  42. Janete Luzia Leite – Professora Escola de Serviço Social – UFRJ
  43. Jean Menezes – Departamento de Ciência Política e Economia – Unesp Marília
  44. João Francisco Tidei Lima – Professor aposentado – UNESP-Assis
  45. John Kennedy Ferreira – IFSP – São Paulo
  46. Jorge Coli – Professor Titular – IFCH – Unicamp
  47. José Aparecido Rolon – Professor de História – UNIFESP
  48. José Arbex jr – Professor de Jornalismo – PUC-SP
  49. José Claudinei Lombardi (Zezo) – Professor Faculdade de Educação – Unicamp
  50. Katia Motta, docente do Colégio Pedro II, da rede Federal no Rio de Janeiro.
  51. Leonardo Santos, Prof. Adjunto – Universidade Federal da Fronteira Sul
  52. Leandro Galastri – Departamento de Ciências Humanas / Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG)
  53. Leandro Piazzon – IFSP – Campus Bragança Paulista
  54.  Lívia de Cássia Godoi Moraes – Departamento de Educação, Ciências Sociais e Políticas Públicas – UNESP Franca
  55. Lúcia Aparecida Valadares Sartório – Departamento de Teoria e Planejamento de Ensino – IE/UFRRJ
  56. Lucimara Benatti – UNILAGO/São José do Rio Preto-SP
  57. Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida – Professor do Departamento de Política – PUC-SP
  58. Luís Mauro Sampaio Magalhães – Docente Departamento de Ciências Ambientais – Instituto de Florestas – UFRRJ
  59. Luiz Eduardo Simões de Souza – Departamento de Economia – UFAL
  60. Luiz P. Motta – Docente da Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ)
  61. Luzia Margareth Rago – Departamento de História – Unicamp
  62. Marcos Del Roio – Ciências Políticas – UNESP – FFC
  63. Marcos Ferreira de Paula – Professor Departamento de Saúde, Educação e Sociedade – Unifesp
  64. Maria de Fatima Silva do Carmo Previdelli – professora UFJF (Departamento de Economia)
  65. Maria Lygia Quartim de Moraes   Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UNICAMP
  66. Maria Orlanda Pinassi – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP Araraquara
  67. Mario Maestri, historiador, prof. titular, PPGH da UPF.
  68. Maurício Vieira Martins – Professor Departamento de Sociologia – UFF
  69. Maurizio Donato – Facoltà di Giurisprudenza – Università di Teramo
  70. Mauro Luis Iasi – ESS UFRJ e PCB
  71. Meire Mathias – Departamento de Ciências Sociais (UEM)
  72. Michael Burawoy – Departamento de Sociologia – Universidade da Califórnia em Berkeley
  73. Michel Goulart da Silva – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense (IFC) – Diretor do SINASEFE – Seção Sindical IFC
  74. Milton Pinheiro – UNEB – Universidade do Estado da Bahia
  75. Murilo Leal Pereira Neto – Professor de História da Unifesp e Diretor Acadêmico do Campus Osasco (Escola Paulista de Política, Economia e Negócios)
  76. Olga Brites  –  Professora na graduação e na pós-graduação em História da PUC/SP
  77. Paulo Barsotti – FGV-SP
  78. Paulo Roberto Martins Berndt – Professor de Matemática – IFRS – Campus Feliz
  79. Patricia Tropia – Ciênica Política – Universidade Federal da Uberlândia
  80. Plinio de Arruda Sampaio Jr. – Instituto de Economia – Unicamp
  81. Priscila Correa – Departamento de Ciências Humanas – Universidade Estadual da Bahia
  82. Rafael Alcadipani – Professor Adjunto da FGV-EAESP
  83. Ricardo Antunes – Sociologia – Unicamp
  84. Ricardo Cesar Rocha da Costa – Professor de Sociologia – IFRJ
  85. Roberto della Santa – Departamento de Comunicação – UEL
  86. Roberto Leher, Faculdade de Educação, UFRJ
  87. Rodrigo Medina Zagni – Docente EPPEN – Universidade Federal de São Paulo /DIVERSITAS – USP
  88. Rosa Maria Marques – Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais – PUC-SP
  89. Sara Granemann – Professora – UFRJ
  90. Silvia Adoue – Professora Departamento de Espanhol – UNESP/Araraquara
  91. Silvia De Bernardinis – Mestre em História Econômica (USP) – Professora Instituto Cultural Itália-Brasil (ICIB)
  92. Silvia Viana – Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos – FGV
  93. Sofia Manzano – UESB – Universidade do Sudoeste da Bahia
  94. Uassyr de Siqueira/ UNIMEP
  95. Valério Arcary – Doutor em História Social pela USP – Professor do IFSP
  96. Vanderlei Elias Nery – Núcleo de Estudos e Ideologia e Lutas Sociais – NEIL – PUC-SP
  97. Victoria Weischtordt (Vicky) – Professora PUC-SP – Presidente da APROPUC
  98. Virgínia Fontes – Professora PPG História/UFF e EPSJV/Fiocruz

Alunos e Apoiadores de Outras Universidades

  1. Afonso d’Ecclesiis – Estudante de Economia – PUC/SP
  2. Alexander Vieiri – pós graduação do SENAC.
  3. Carlos Eduardo Boaretto Pereira – Bolsista Técnico – Universidade Estadual do Oeste do Paraná
  4. Carlos Russo Jr. – Espaço Literário Marcel Proust (ex-aluno da USP, Faculdade de Medicina, campus de Ribeirão Preto, e Faculdade de Odontologia, Hospital Universitário)
  5. Cintia Rufino Franco Shintate- Mestranda UFABC e professora de História da rede pública estadual paulista
  6. Clarisse Chiappini Castilhos, economista, Fundação de Economia e Estatística/RS
  7. Diogo Portugal Pudles – Bancário – CEF – São Paulo
  8. Flávio de Castro, sociólogo, Conselho Consultivo do blog marxismo21
  9. Guiomar Ferreira – professora
  10. Gustavo dos Santos Cintra Lima – Professor de Sociologia da Rede Estadual de Minas Gerais-Uberlândia/ Mestrando em Ciências Sociais-UFU
  11. Hugo Yuichi Kitanishi – jornalista (Londrina-PR)
  12. Ivana JinkingsDiretora Editorial – Editora Boitempo
  13. João Alexandre Monteiro Sato, sou estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas
  14. Michelangelo Marques Torres – Estudante de Doutorado IFCH Unicamp
  15. Natan Zeichner – Fulbright-Hayes Scholar, Doctoral Program, Department of History – New York University
  16. Neila Soares da Silva – Pós-Graduação – Programa de Doutorado em Ciências Sociais – Unicamp.
  17. Pedro H. Raidan – Estudante de Ciências Sociais, UFMG
  18. Renata Gonçalves – UNIFESP – BS
  19. Régis Michel, universitaire, Paris
  20. Rodolfo Anselmo L. da Rosa – Estudante de jornalismo da PUCRS
  21. Sergio Domingues – Pós – Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana – UERJ
  22. Silvana Soares de Assis – Professora de História – Rede Pública Estadual Paulista
  23.  Vinicius Lopes de Oliveira – Professor da rede Estadual de Ensino de São Paulo

…e todos os que quiserem acrescentar seu nome.
(Adesões: sean.purdy1966@gmail.com)

***

Leia também As ciências sociais contra os direitos sociais: o que é isso FFLCH?, de Jorge Luiz Souto Maior, e as intervenções de Osvaldo Coggiola, Lincoln Secco, e outros manifestos sobre a situação da USP aqui.

Avós das ruas

13.10.31_avos das ruasPor Izaías Almada.

Há alguns anos era comum se ouvir de alguns especialistas sobre coisa nenhuma aqui no Brasil que política e futebol não se misturavam. Que nos digam as ditaduras brasileiras e argentinas dos anos 60 e 70, para ficar em dois exemplos próximos e emblemáticos…

Transformado num mercado de negócios dos mais gananciosos e estranhos, onde mafiosos russos, milionários árabes, bancos lavadores de dinheiros, sonegadores de impostos, empresários inescrupulosos, alguns já vivendo em paraísos fiscais, jornalistas corruptos, celebridades de pés de barro, emissoras de televisão, empreiteiros, advogados de porta de cadeia, lobistas e políticos profissionais de duvidosa formação moral deitam e rolam, o futebol tem cada vez mais a ver com política e poder.

O ano que vem está aí para desmentir os “especialistas” de antanho. Copa do Mundo e eleições majoritárias no país, agora com “nova oposição” (rs, rs, rs…) vão dar o que falar e embaralhar cada vez mais a cabeça dos sociólogos, filósofos, historiadores, políticos profissionais com alguma decência, esportistas, eleitores, torcedores, jornalistas, manifestantes de rua, humoristas, blogueiros e comentaristas de blogues, Datenas e Ratinhos, CQCs, partidos de esquerda, de centro e de direita, deputados e senadores, associações médicas, ativistas e black blocs, motoristas de taxi, atrizes globais, garis e petroleiros, encanadores e banqueiros, filósofos, príncipes e poetas, classe média paulista, carnavalescos, corretores de imóveis, baristas, passeadores e protetores de cães, nessa imensa salada russa, onde todos falam e ninguém ouve ninguém…

Por falar em especialistas e nos lembrarmos acima da relação futebol e política durante as ditaduras brasileira e argentina, tenho tentado ler algumas das análises feitas sobre o nosso último mês de junho, chamado o mês do “clamor das ruas”, onde muita gente quis e quer acreditar que o país, necessitado de mudanças, foi para as ruas protestar “contra tudo que está aí”… Embora não se saiba exatamente que “tudo” é esse que se tem que ser contra e nem quem organizou as “manifestações espontâneas” de junho, se foi a esquerda radical e mal (in)formada ou a direita encurralada e que pretende botar as manguinhas de fora em 2014, o certo é que o resultado dos “grandes protestos de junho”, para além do recuo no preço das passagens de ônibus urbanos, foi mesmo o vandalismo das depredações, dos ônibus queimados, da interrupção do trânsito até à invasão de laboratórios para salvar cachorrinhos do “choque elétrico”. Tudo salpicado pela eterna repressão de uma polícia que não aprende a combater distúrbios no Brasil, além da pancadaria generalizada…

Fico me perguntando, ingênuo que sou em política, por qual razão passou a se cobrar do atual governo (entenda-se o período Lula/Dilma) que ele resolva em “24 horas” graves mazelas que se formaram, adensaram e proliferaram nos últimos 500 anos? Mazelas sociais e gravíssimos problemas praticados em todos os níveis pelos governos anteriores a esse, em maior ou menor escala, consoante obediência às instruções e determinações do FMI, do Banco Mundial e da Casa Branca com seu manual de “democracia do cassetete”?

A voz das ruas… A voz das ruas… De tanto ouvir a expressão “para lá e para cá”, como dizia uma tia minha – esta especialista em massas de pães de queijo e bolos de fubá – a sonoridade lembrou-me das avós das ruas e das praças de Buenos Aires. Um movimento feito com o coração sangrando de centenas e centenas de mães e avós que perderam seus parentes queridos num dos mais impiedosos e selvagens genocídios do mundo contemporâneo. Mães e depois avós, avós da Plaza de Mayo, protesto inesquecível do coração ferido da América Latina. E que já levou generais e ex-presidentes argentinos, torturadores confessos, aos bancos dos réus e até à prisão perpétua. Essas, sim, poderão ser chamadas de “A voz das ruas”. E por aqui? O que têm a dizer as nossas inúmeras Comissões da Verdade?

Contudo, já estamos no limiar de 2014, ano em que o país mostrará ao mundo a verdadeira relação entre política e futebol, com o mês de junho – quem sabe? – se destacando novamente com os grandes protestos que não levam a lugar nenhum, mas que, com toda certeza, tentarão conturbar a paz dos estádios em plena Copa do Mundo…

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor deTeatro de Arena(Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

As ciências sociais contra os direitos sociais: O que é isso FFLCH?

USP EM GREVEPor Jorge Luiz Souto Maior.

Que a greve causa transtornos ninguém há de negar. Que a greve quebra a normalidade, também é fato. E, por consequência, que haja resistência à greve, sobretudo daqueles que, direta ou indiretamente, são atingidos por ela, é compreensível. Aliás, há de se reconhecer que mesmo os grevistas, que se sacrificam na greve, pois precisam se organizar e se submeter aos ataques daqueles que são alvo imediato da greve, os quais se valem, inclusive, de estruturas repressivas para tanto, não vislumbram a greve como um objetivo de vida, reconhecendo-a, unicamente, como um instrumento necessário para a luta.

Agora, que professores ligados às ciências sociais e humanas se reúnam para organizar um Manifesto contra a greve, aí temos uma novidade que vale a pena examinar, na medida em que é de conhecimento geral que o estágio atual da sociedade, no que se refere à criação de direitos sociais e à ampliação das possibilidades de atuação democrática, resulta de inúmeras greves, que, em outros tempos, já chegaram a gerar o sacrifício de muitas vidas.

É impossível não reconhecer no instituto da greve, que, por meio da própria experiência, adquiriu o status de um direito fundamental, ligado à livre manifestação, e do qual advêm o direito à associação e o direito à sindicalização, o mais importante instrumento de modificação da realidade social em prol daqueles que se situam em posição de inferioridade ou vulnerabilidade no arranjo sócio-econômico do mundo capitalista, isso quando não se organizam para uma ação política de natureza revolucionária, sendo certo que a própria greve, de índole reivindicatória, pode se constituir um embrião desta última luta.

Os valores que permeiam a sociedade atual são fruto de greves e de mobilizações sociais históricas como o trabalhismo, o feminismo, o pacifismo, os movimentos contra o racismo e contra a discriminação religiosa, e, mais presentemente, pela preservação ambiental, incluindo a luta pelos direitos dos animais.

Não se pode olvidar que todos esses movimentos foram rechaçados pelas estruturas de poder, voltadas à preservação do “status quo”, mas que mesmo assim, como resultado do embate, proporcionaram a construção de uma nova realidade, tendo assumido papel extremamente relevante para tanto as atentas e profundas análises de historiadores e sociólogos, que souberam superar a racionalidade reacionária, advinda, sobretudo, da ciência jurídica.

A questão intrigante é que o papel de resistência aos avanços sociais sempre foi reservado ao Direito e um Manifesto recentemente assinado por mais de 150 professores da FFLCH-USP parece pretender uma inversão neste posicionamento histórico.

O fato é que várias decisões judiciais começam a acatar de forma mais efetiva e ampla o conceito do direito de greve, como se verificou, por exemplo, nos processos ns. 114.01.2011.011948-2 (1ª. Vara da Fazenda Pública de Campinas); 00515348420125020000 (Seção de Dissídios Coletivos do TRT2); e 1005270-72.2013.8.26.0053 (12ª. Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo).

De tais decisões extraem-se valores como o reconhecimento da legitimidade das greves de estudantes, dos métodos de luta, incluindo a ocupação, e do conteúdo político das reivindicações, decisões estas, aliás, proferidas sob o amparo de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, na qual se consagrou a noção constitucional de que a greve é destinada aos trabalhadores em geral, sem distinções, e que a estes “compete decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dela defender”, sendo fixado também o pressuposto de que mesmo a lei não pode restringir a greve, cabendo à lei, isto sim, protegê-la. Esta decisão consignou de forma cristalina que estão “constitucionalmente admissíveis todos os tipos de greve: greves reivindicatórias, greves de solidariedade, greves políticas, greves de protesto” (Mandado de Injunção 712, Min. Relator Eros Roberto Grau).

Trilhando o caminho dessa decisão, recentemente, o Min. Luiz Fux, também do STF, impôs novo avanço à compreensão do direito de greve, reformando decisão do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) no que tange ao corte de ponto dos professores da rede estadual em greve. Em sua decisão, argumentou o Ministro:

“A decisão reclamada, autorizativa do governo fluminense a cortar o ponto e efetuar os descontos dos profissionais da educação estadual, desestimula e desencoraja, ainda que de forma oblíqua, a livre manifestação do direito de greve pelos servidores, verdadeira garantia fundamental” (Reclamação 16.535).

Além disso, a Justiça do Trabalho, em decisões reiteradas de primeiro e segundo graus, tem ampliado o sentido do direito de greve como sendo um “direito de causar prejuízo”, extraindo a situação de “normalidade”, com inclusão do direito ao piquete, conforme decisões proferidas na 4ª. Vara do Trabalho de Londrina (processo n. 10086-2013-663-09-00-4), no Tribunal Regional do Trabalho da 17ª. Região (processo n. 0921-2006-009-17-00-0), na Vara do Trabalho de Eunápolis/BA (processo n. 0000306-71-20130-5-05-0511), todas sob o amparo de outra recente decisão do Supremo Tribunal Federal, esta da lavra do Min. Dias Toffoli (Reclamação n. 16.337), que assegurou a competência da Justiça do Trabalho para tratar de questões que envolvem o direito de greve, nos termos da Súmula Vinculante n. 23, do STF, integrando o piquete a tal conceito.

Bem se vê, portanto, que o aludido Manifesto busca atrair para as ciências sociais o papel reacionário que historicamente se atribuía às ciências jurídicas.

É evidente que as decisões acima não refletem, ainda, o pensamento único, ou mesmo majoritário, no âmbito do Judiciário, sobre essas questões, mas, certamente, pode-se traçar uma linha evolutiva no sentido da ampliação do conceito do direito de greve, garantindo-lhe uma posição privilegiada na relação com os demais direitos, sobretudo os de índole liberal, notadamente o direito de ir e vir, que não pode, como nenhum outro, ser valorado em abstrato e sem inserção no contexto dos demais direitos sociais.

O desafio atual da ciência jurídica está, exatamente, no questionamento acerca da persistência do direito individual de trabalhar quando uma greve, na qualidade de autêntico direito coletivo, é deflagrada, ainda mais considerando os termos da própria Lei n. 7.783/89 (que é bastante restritiva do direito de greve, diga-se de passagem) que estabelece, em seu art. 9º., que a continuação dos serviços deve ser definida mediante acordo entre o sindicato patronal ou o empregador diretamente com o sindicato ou a comissão de negociação, mesmo no que se refere aos “serviços cuja paralisação resultem em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento”. Ou seja, para a lei, a tentativa do empregador de manter-se funcionando normalmente, sem negociar com os trabalhadores em greve, valendo-se das posições individualizadas dos ditos “fura-greves”, representa ato ilícito, que afronta o direito de greve.

A decisão de trabalhar, ou não, no período de greve não pertence a cada trabalhador, individualmente considerado. Daí porque, também, apresenta-se como legítima toda forma, pacífica (ou seja, que não chega à agressão física), de impedir que o trabalho, para além das necessidades inadiáveis, continue sendo executado, seja por vontade individual de um trabalhador (ou vários), seja pela contratação, por parte do empregador, de empregados para a execução dos serviços, não se admitindo até mesmo que empregados de outras categorias, como terceirizados, por exemplo, supram as eventuais necessidades de mera produção dos empregadores no período.

Assim, piquetes e até ocupações pacíficas no local de trabalho se justificam para que se faça prevalecer, em concreto, o legítimo e efetivo exercício do direito de greve, na medida em que se veja ameaçado por atos ilícitos do empregador que, valendo-se de pressão aberta ou velada com relação aos grevistas e sugerindo premiações aos que não aderirem à greve, tenta destruir a greve sem se dispor ao necessário diálogo com os trabalhadores, sendo certo que o diálogo somente adquire nível de equilíbrio quando os que se situam em posição de inferioridade buscam a ação coletiva.

Qualquer tipo de ameaça ao grevista ou promessa de prêmio ou promoção aos não grevistas constitui ato anti-sindical, tal como definido na Convenção 98 da OIT (ratificada pelo Brasil, em 1952), que justifica, até, a apresentação de queixa junto ao Comitê de Liberdade Sindical da referida Organização.

Essa é a tensão atual vivenciada pelo Direito com relação à greve e o que menos se precisa neste instante, pensando na evolução dos arranjos sociais, é que o saber das ciências sociais venha a público levantar bandeiras reacionárias, que, mesmo sob a retórica de se firmar a favor do direito de greve, opõe-se ao piquete e aniquila a greve como meio de luta.

A oposição menos ainda se justifica no contexto histórico da USP, onde as recentes lutas de estudantes, servidores e professores, desde 2007, foram bastante exitosas e serviram, inclusive, como importante paradigma para a própria reformulação da ciência jurídica em torno do direito de greve, transpondo os muros da Universidade. A injustificada resistência despreza, também, o quanto as mobilizações, no acúmulo das experiências, favoreceram a produção do conhecimento em torno das questões políticas, sociais, econômicas e acadêmicas que envolvem a estrutura da Universidade e sua relação com a sociedade em geral e a ordem jurídico-democrática, experiências estas que, inclusive, possibilitaram o desenvolvimento de consciência crítica e efetivo exercício da ética, da solidariedade e da organização coletiva. Mais importante, ainda, as lutas permitiram a compreensão sobre a ligação dos interesses entre estudantes e trabalhadores, com inclusão dos antes invisíveis trabalhadores terceirizados.

É interessante perceber a contradição do Manifesto, que se baseia na lógica da individualidade, mas que, ao mesmo tempo, se socorre da ação coletiva, buscando a legitimação do argumento pelo número de assinaturas, mas fazendo-o sem respeito a qualquer esfera institucionalizada de deliberação coletiva, desprezando, pois, a via pública da ação política, ao mesmo tempo em que se auto-proclama representante de corrente majoritária, ainda que não apresente embasamento técnico científico para tal afirmação.

Em suma, no atual estágio da luta pela consagração do Direito Constitucional de greve, como preceito fundamental, o que se espera é que a resistência não venha da ciência social, vez que das estruturas de poder, considerando os interesses de parte do segmento econômico e do próprio governo, as gritas já são, historicamente, muito fortes.

Por fim, há de considerar, no caso concreto da luta da USP, que no momento em que se está tentando derrubar as estruturas arcaicas e autoritárias da Universidade, atraindo uma racionalidade democrática e ao mesmo tempo sensível às questões sociais, e esta luta não começou ontem e não tem sido nada fácil, perpassando gerações, apresenta-se, no mínimo, como valor bastante mesquinho a vontade de manter a “normalidade”…

Como já preconizado por José Martí, “Si no luchas, ten al menos la decencia de respetar a quienes si lo hacen”!

São Paulo, 29 de outubro de 2013.

***

Leia também as intervenções de Osvaldo Coggiola, Lincoln Secco, e o próprio manifesto aludido por Jorge Luiz Souto Maior, além de um contra-manifesto sobre a situação da USP aqui.

***

Jorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos conhecidos como as “Jornadas de Junho”, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Ruy Braga, Carlos Vainer, entre outros.

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

***

Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Cultura Inútil: O Conde d’Eu e a cabeça de porco

13.10.29_Mouzar Benedito_Cultura InútilPor Mouzar Benedito.

O Conde d’Eu, casado com a Princesa Isabel, era tido como pessoa nada agradável, tratava muito mal as pessoas, nenhum “subordinado” gostava dele. E sovina. Ele era dono de um dos maiores cortiços do Rio de Janeiro, e no portal da entrada desse cortiço havia uma cabeça de porco de ferro. Morar no “cabeça de porco”, inicialmente, era morar naquele cortiço. Depois a expressão virou sinônimo de cortiço de maneira geral, usado até hoje no Rio.

* * *

Em 5 de março de 1961, jogando pelo Santos, Pelé marcou contra o Fluminense o gol que seria considerado o mais bonito da história do Maracanã, depois de driblar quase que o time adversário inteiro. O evento mereceu uma placa comemorativa e passou a ser chamado de “Gol de Placa”.

* * *

O sistema métrico decimal começou a ser usado na França, em 1862. No Brasil, ele foi adotado em 26 de junho de 1862. Antes disso (e até hoje em alguns lugares), usava-se medidas como o palmo, jarda, légua, alqueire… Alguns países insistem em usar jardas, polegadas, pés, milhas, e pesos como onça e libra, volumes como o galão, a medição da temperatura pela escala Fahrenheit (em que 32 graus equivale a zero grau centígrado, do sistema decimal, e 212º F equivalem a 100º C). Como foi escolhido o tamanho do metro? Ele foi definido como 1/10.000.000 da distância entre o equador e o polo.

* * *

Mark Twain dizia que a couve-flor é um repolho que foi para a universidade.

* * *

O genocídio que os colonizadores espanhóis promoveram na América (não só eles: aqui tivemos os portugueses, no norte os ingleses…) tem um exemplo impressionante: o das Bahamas. O arquipélago com 700 ilhas ao norte de Cuba, com uma área de 1.864 km2, foi visitado por Colombo na sua primeira viagem, em 1492, e logo começaram a levar seus moradores para trabalhar como escravos nas minas do Haiti. Deixaram quase zerada a população dessas ilhas: até 1508 tiraram 40 mil delas.

* * *

O Amapá, disputado pelo Brasil e pela França, tornou-se definitivamente brasileiro em 1900, fruto da argumentação do Barão do Rio Branco na arbitragem feita pela Suíça.

* * *

Macunaima (pronuncia-se macunáima, e não macunaíma, como teve o nome adaptado no romance de Mário de Andrade) é, para os povos indígenas de Roraima (também pronuncia-se Roráima, e não Rorãima, como pensa muita gente), o criador do mundo. Nas lendas indígenas, era brincalhão e gozador, mas não perdoava os inimigos: transformava-os em pedras.

* * *

Os camponeses franceses não tinham sapatos, usavam tamancos. Durante um período, para se vingar dos grandes proprietários de terra que os exploravam, pisavam nas plantas recém-nascidas nas propriedades deles. Tamanco em francês é sabot, e isso era chamado de sabotage, que virou sabotagem em português, e também resultou no verbo sabotar. Nas lutas operárias do século XIX, qualquer danificação intencional de alguma coisa, com propósitos políticos ou sindicais, passou a se chamar sabotagem.

* * *

Nos livros de História, estudamos que a primeira capital brasileira foi Salvador, depois a capital mudou para o Rio de Janeiro e finalmente para Brasília. Em relação aos estados, ficamos sabendo que Olinda foi a primeira capital pernambucana, antes de Recife, e que Ouro Preto precedeu Belo Horizonte, em Minas Gerais. Mas antes de Ouro Preto, Mariana foi capital mineira. E em outros estados? Muita gente nem imagina que Oeiras foi capital piauiense antes de Teresina, Barcelos foi a primeira capital do Amazonas, a cidade de Goiás foi capital antes de Goiânia, Niterói foi capital do estado do Rio de Janeiro (com a unificação dos estados do Rio e da Guanabara, a capital foi para a cidade do Rio de Janeiro), antes de Aracaju, São Cristóvão era capital de Sergipe e em Mato Grosso a capital, antes de Cuiabá, era Vila Bela da Santíssima Trindade.

* * *

Levi Hutchins tinha 26 anos em 1787 e já era fabricante de relógios numa cidade da Pensilvânia (EUA). Ele se levantava religiosamente às 4h da manhã, mas às vezes dormia um pouco mais e passava o dia injuriado por isso. Mas como acordar na hora que queria? Inventou o despertador.

* * *

Daniela Mercury, famosa cantora baiana, assumiu um amor homossexual no ano 2013. Tem gente que pensa que lesbianismo é coisa relativamente recente. Não é. Basta lembrar de Safo, poetisa grega que viveu por volta do ano 600 a.C. Algumas famosas que eram lésbicas: as escritoras Virgínia Woolf, inglesa (1882-1941), Madame de Stäel, francesa (1766-1817) e Gertrude Stein, estadunidense (1874-1946). E também a Rainha Cristina, da Suécia (1626-1689).

* * *

“Mãos ao alto!” é uma expressão muito comum em filmes de bangue-bangue, mas a atitude de levantar as mãos como sinal de rendição, exibindo-as sem armas, é muito antiga. Há inscrições de séculos antes de Cristo mostrando vencidos de mãos levantadas, como gesto de submissão.

* * *

Depois da derrota do exército de Napoleão Bonaparte, na Rússia – em que o inverno foi fator determinante e a fome também (no clima gelado, em que a população russa se refugiou longe, levando os alimentos) –, pensando em evitar que seu exército fosse novamente derrotado por falta de comida, Napoleão resolveu premiar quem inventasse um meio de conservar alimentos por longo tempo, e surgiram os alimentos enlatados. Isso foi uma revolução enorme. Depois, sem possibilidade de receber açúcar das Américas, durante a guerra com os ingleses que dominavam os mares, o prêmio era para quem descobrisse uma técnica de produção de açúcar sem que fosse da cana, planta que só dá em clima tropical, e surgiu o açúcar de beterraba. Um sucessor dele, Napoleão III, repetiu um feito assim: em 1869, às vésperas da guerra Franco-Prussiana, havia escassez de manteiga e ele decidiu premiar quem produzisse algo capaz de substituir a manteiga e pudesse ser conservado em navios. Um tal de Hyppolite Mewge-Mouries, então, inventou a margarina. A margarina primeiro se tornou popular na Europa e, com a escassez de manteiga nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra, ganhou mercado lá também.

* * *

O ditado “De boas intenções, o inferno está cheio” é um pouco mais amplo em espanhol: “De buenas intenciones está el infierno lleno, y de malas, infierno y medio”.

* * *

Depois da Independência do Brasil, os brasileiros, na grande maioria, continuaram na mesma situação de penúria, a economia e o poder local em vários lugares continuava com os portugueses. Quando Dom Pedro I voltou para Portugal, surgiram movimentos de lusitanos querendo-o de volta. Em Cuiabá, eles eram chamados de “restauradores”. Sentiam-se ainda os mandões. Em 31 de maio de 1834 estourou na cidade uma revolta chamada “Rusgas de Cuiabá”, uma verdadeira explosão popular contra tudo que fosse português. Houve invasões de moradias e de casas comerciais, chacinas, queima de cadáveres, incêndios e violação de mulheres. Mais de cem pessoas foram mortas, na revolta que durou até 5 de junho.

* * *

A primeira troupe negra dos Estados Unidos a se apresentar em Paris foi a La Revue Nègre, em 1925. Apesar de ter grandes nomes no grupo, quem se destacou foi Josephine Baker, que tinha 18 anos de idade. Filha de uma lavadeira, ela lançava murmúrios nos entremeios das músicas que cantava com voz de soprano. E dançava maravilhosamente. Os franceses se apaixonaram por ela.

* * *

No Egito antigo, a cebola não era um “tempero”, mas sim o alimento básico dos escravos.

* * *

A altura da pirâmide de Quéops é de 148,2 metros. A distância entre a Terra e o Sol é de 148,2 milhões de quilômetros. Coincidência?

* * *

Provérbios persas: “Na hora de dormir, um leito de algodão vale mais do que um de pérolas”; “A morte só vem na hora certa para o nosso vizinho” e “Não se deve exigir perfeição da natureza humana, pois jamais as rosas florescem em pântanos”.

* * *

Uma bailarina italiana, linda e sensual, provocou furor no Rio de Janeiro, em 1851. O nome dela era Marietta Baderna, e seus fãs exaltados passaram a ser chamados inicialmente de badernas, e depois de baderneiros. Foi assim que baderna virou sinônimo de bagunça, confusão. Viva a Marietta! Viva a baderna!

***

Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV e VI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Cercas, muros e silêncios

13.10.29_Dunker_Pilar[Andrés Boerzi, Ese maldito Pozo. Imagem a partir de exposição fotográfica sobre um dos Centros Clandestinos de Detenção da ditadura militar argentina conhecido como “el Pozo de Banfield”]

Por Christian Ingo Lenz Dunker.*

Kwame Anthony Apiah, um dos renovadores do pensamento liberal contemporâneo, em sua recente conferência em São Paulo, apontou que o modo como “sabemos” de certas situações que envolvem vergonha, humilhação e desonra nos levam a efeitos sistêmicos corrosivos em termos de sentimentos morais. São aquelas pequenas ou grandes situações em relação às quais sabemos que algo está errado, mas não sabemos suficientemente de modo a produzir uma reação transformativa. O filósofo de origem anglo-ganesa lembra que quase 1% da população americana encontra-se encarcerada, sujeita a abuso sexual e desrespeito continuado. Guantánamo, uma prisão americana “fora da lei” em território cubano, não é apenas uma anomalia política ou um impasse jurídico, mas também uma espécie de bomba de retardo e dispersão moral. “Saber” que isso ocorre entre “nós” nos torna moralmente piores, mesmo que tentemos nos convencer de que não há nada a fazer. Obviamente tudo depende do que significa “saber” e “nós”. Saber da existência de atrocidades nos faz recuar a extensão de “nós”, como se automaticamente tivéssemos que nos defender atribuindo a origem e responsabilidade da tragédia a “eles”. Esta estratégia pode ser chamada de cercamento, pois isola e determina o mal-estar em uma área exterior, visível e controlada, comprimindo e protegendo o “nós” em um território interior.

O livro Poder e desaparecimento (Boitempo, 2013), de Pilar Calveiro, sobre as experiências de desaparecimento de pessoas, vivida pelos argentinos durante o regime militar, também aborda esta patologia do “saber”. A população argentina sabia da existência dos campos de concentração. Filhos, parentes e conhecidos subitamente “sumiam”, mas o fenômeno estava sujeito a uma estranha nuvem de imobilização e desamparo. Neste caso não é o tamanho do “nós” que diminui, mas é a extensão do “saber” que fica retida por uma espécie de muro de mal-estar atrás do qual tudo o mais é invisível. Como se o que não podemos ver, não pudéssemos também saber.

Daniela Arbex, autora de Holocausto brasileiro (Geração Editorial, 2012) também aborda o problema do “saber” sem saber, ao investigar a colônia psiquiátrica de Barbacena. Ali, milhares de doentes mentais, errantes, pobres e inimigos políticos do Estado foram “desaparecidos”. Mais de 60 mil mortes ocorridas em meio a maus tratos, eletrochoques e descaso testemunham o que o italiano Franco Basaglia, idealizador da reforma psiquiátrica, chamou de “campo de concentração à brasileira”. Neste caso temos as duas estratégias combinadas: a extensão indeterminada do “eles”, delimita o acervo de nossos adversários morais, que cercamos do lado de fora; e os muros, não nos deixam saber sobre os rastros de memória daqueles que desaparecem.

Reencontramos aqui as duas patologias sociais descritas por Hegel em inícios do século 19, quando a literatura romântica começa a ocupar o espaço das narrativas religiosas na formação de nossos sentimentos morais: a solidão, que associamos ao cerco e o isolamento que decorre dos muros. No primeiro caso nossa defesa será a impotência (“o que podemos fazer diante disso, uma vez que somos tão poucos ou tão fracos”). No segundo caso nosso recuo apela para nossa distância com relação à responsabilidade (“isso diz respeito ao poder público e ao Estado, que “sabe” e tem a devida competência para agir”). A confluência entre muros e cercas é naturalmente o silêncio, por meio do qual nos recolhemos à nossa pequenez individual (o menor “nós” que pode haver) e ao sentimento de que no fundo não sabemos direito o que está acontecendo por trás dos muros. E quando a equizoidia dos cercos se casa com a paranoia dos muros isso nos leva ao silêncio melancólico.

* Publicado originalmente em 24.10.2013 na revista Mente e cérebro.

***

Pilar Calveiro no Brasil

Durante esta semana, Pilar Calveiro estará no Brasil para debater Poder e desaparecimento com Paulo Arantes, Janaína Teles e Maria Helena Capelato. Ao todo, ela participa de três atividades gratuitas e abertas ao público na Alesp, na USP e na PUC do Rio de Janeiro. Saiba mais aqui.

***

Leia também “Esquecimento, memória e desaparecimento do poder desaparecedor“, de Marcus Orione, sobre Poder e desaparecimento, no Blog da Boitempo.

***

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Carta Aberta em defesa do patrimônio público na EACH – USP Zona Leste

13.10.28_Souto Maior_Carta Aberta_EACHPor Jorge Luiz Souto Maior.

O que é um patrimônio público? Como explica Mônica Nicida Garcia, “o patrimônio público abrange não só os bens materiais e imateriais pertencentes às entidades da administração pública (os bens públicos referidos pelo Código Civil, como imóveis, os móveis, o erário, a imagem, etc.), mas também aqueles bens materiais e imateriais que pertencem a todos, de uma maneira geral, como o patrimônio cultural, o patrimônio ambiental e o patrimônio moral”*, sendo que por bens imateriais entende-se o conjunto e direitos que a todos pertencem numa perspectiva transindividual.

É preciso que se compreenda, portanto, que não apenas bens físicos integram o nosso patrimônio. Integram-lhe, sobretudo, os direitos sociais, os direitos culturais, os direitos ambientais, e há que se preservar o direito à luta pela construção e pela efetivação desses direitos, garantido, principalmente, o direito à liberdade de expressão.

Fato é que quando alguém, de forma deliberada e com propósito de obter vantagem pessoal, desrespeita direitos fundamentais dos cidadãos, principalmente quando o autor é do próprio Estado, mesmo que por inércia ou omissão, está, na verdade, dilapidando um patrimônio público e não há porque não qualificar seu ato como o autêntico ato de vandalismo, vez que impede a efetivação do projeto de uma sociedade justa regrada pelo Direito. Essa agressão a direitos, que não se revela enquanto tal e que, portanto, não é severamente reprimida, atraindo a sensação de impunidade, gera em todas as pessoas a falta de percepção da existência de um projeto Constitucional de sociedade, provocando incertezas, insegurança, desesperança, descrença, quando não repulsa e revoltas, das quais advêm as violências que vitimam o patrimônio físico, como forma desesperada de expressão.

É crucial que se perceba a violência que um arranjo social desigual pratica principalmente com relação aos cidadãos que dependem das prestações do Estado para viverem com dignidade. Vide a precariedade dos serviços públicos no ensino, na saúde, no transporte e na previdência, estendendo-se às relações de trabalho.

Dentro desse contexto, e, claro, visualizando-se, concretamente, a situação de cada caso, é importante que não se cometam inversões valorativas, que acabam servindo para impedir a visualização de onde, de fato, provém, originalmente, a violência.

Vejamos, pois, o caso da EACH. Por mais que os professores e estudantes da unidade tentem explicar para a grande mídia o que, de fato, se passou, insiste-se na publicação da notícia de que a USP-zona leste foi instalada em local onde havia terreno contaminado.

O caso não é bem esse. Ainda, que o terreno onde a zona leste foi instalada, em 2005, era proveniente de aterro sanitário, sujeito, pois, a gás metano, e isso já constituísse, em si, um grande problema, o pior estava por vir.

O problema maior se deu quando, em janeiro de 2011, caminhões começaram a despejar terras e entulhos de construção civil em área da unidade, numa operação que durou até outubro do mesmo ano, atingindo uma área de 5,8 hectares. A terra e os entulhos foram despejados sobre uma grande área que depois de receber grama foi destinada, em parte, ao lazer.

Importante destacar que o aterramento foi feito sem que houvesse qualquer necessidade estrutural. Muito pelo contrário, as terras e entulhos acabaram elevando em cerca de um metro, para além do nível normal, um enorme espaço situado ao lado prédio central, que, não sendo suficiente, foram alocados em área de preservação ambiental, sendo precedido de corte de árvores e de todos os efeitos ecológicos que uma devastação provoca. Oportuno lembrar que, de fato, a USP-Leste está, toda ela, instalada em área de preservação, ligada ao Parque Ecológico do Tietê.

Nesse meio-tempo, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAE) emite notificação ao então diretor da unidade, advertindo quanto à possibilidade de que a terra fosse contaminada. Valter dos Santos Rodrigues, diretor do Parque Ecológico do Tietê, faz vários pedidos para que o aterramento fosse interrompido e chega a emitir nota oficial neste sentido, em maio/11, mas o único efeito foi a sua destituição do cargo duas semanas depois.

Acabado o aterro, que, vale repetir, não teve qualquer motivação estrutural, as pessoas voltam a frequentar o espaço que, como dito, servia, em parte, ao lazer e, com isso, são expostas a contato direto com a terra que lá foi colocada, sem que tivessem conhecimento da situação, a qual era, ao contrário, de pleno conhecimento da tanto da Administração da EACH quanto da Administração central da Universidade.

O fato ganha notoriedade quando, em setembro deste ano (2013), a SEF (Superintendência do Espaço Físico da USP), afixa placas no Campus da EACH, alertando para os riscos de dano à saúde decorrente do contato com as terras levadas para o local em 2011.

No dia 10/09, professores e alunos entram em greve e em reunião aberta da Congregação, realizada em 11/09, é aprovada a destituição do diretor da unidade.

O diretor não renuncia. A direção da Universidade não o destitui. Realizam-se reuniões com os administradores da USP e nada se resolve, sendo que em uma delas, realizada em 23/09, advém a informação de que a retirada das terras do local poderia custar até 40 milhões à Universidade.

A situação, assim, chega a um impasse e perde-se a perspectiva de uma solução efetiva para o caso. Neste contexto, em 02 de outubro, estudantes ocupam o prédio da Administração da Unidade (EACH), sendo conveniente lembrar que muitos desses estudantes são alunos, na graduação, de cursos como “gestão ambiental” e “gestão de políticas públicas”, e, na pós-graduação, estão integrados a programas como o de “mudança social e participação política”.

O que se pretende com a greve e a ocupação, enfim, é muito simples: defender a própria vida e alertar a população para o fato grave do cometimento de um crime ambiental no âmbito de uma universidade pública, fato que gerou e tem gerado sério risco de dano à saúde de milhares de pessoas que estudam e trabalham na universidade e também a pessoas que moram na região.

Neste momento, não se pode indagar quanto vai custar para que o problema seja resolvido e não se pode, ademais, pensar em paliativos, pois vidas estão em risco.

Ora, se a Administração da Universidade se valeu da via judicial para garantir a integridade do patrimônio físico, pedindo a reintegração de posse do prédio que estava ocupado e o Judiciário atendeu o pedido, levando até o local a autoridade do ordenamento jurídico, para o fim de retirar com força policial os estudantes do prédio da direção da EACH, há de se proceder, então, com rigor, ao menos igual, de modo a atender a necessidade urgente de preservar as vidas que correm risco no local. Desse modo, deve ser efetivada a imediata retirada das terras que para lá foram levadas, sendo que o custo para tanto sequer pode ser considerado, afinal o governo do Estado de São Paulo não falou em custo quando fez cumprir, com operações policiais faraônicas, as ordens judiciais de reintegração da reitoria da USPe do Pinheirinho, no ano passado, e da direção da EACH, neste ano (esta última bem mais em conta, é verdade)…

Diz-se que o argumento supra é alarmante e que, de fato, não há urgência, pois medidas estão sendo tomadas para regularizar a situação. O problema, no entanto, não se resolve com palavras. O fato é que não se sabe a origem, ou mais propriamente, as origens das terras. As terras e suas origens podem estar misturadas no aterro de forma plenamente aleatória e as medições que se fizerem no local deveriam ser feitas, portanto, a cada metro quadrado e respeitando, ainda, a profundidade do aterro, o que pode gerar custo maior que a retirada da terra, além da insegurança em poder concluir, com rigor científico, que o risco inexiste, sobretudo por conta de que parte do aterro é constituído de entulhos e estes impermeabilizaram o solo, evitando a evaporação do gás metano que já havia, originariamente, no local, potencializando o risco de explosão.

Independente desse debate há uma irregularidade que lhe antecede e que não pode ser evitada sob nenhum pretexto. É que, segundo consta, ninguém sabe de onde vieram as terras. Como assim, ninguém sabe? Claro que alguém sabe e é claro que os Administradores, da unidade e da Reitoria, têm responsabilidade objetiva quanto a isso, até porque ao que se sabe não houve processo licitatório ou procedimento formal de doação.

É urgente, pois, para que a ordem jurídica destinada à proteção do patrimônio público seja plenamente efetivada, que os responsáveis se vejam compelidos a esclarecer: de onde vieram as terras? Quem e quanto se pagou por elas? Que negócios a ida das terras e entulhos para a EACH envolveram?

Não se pode considerar que o fato de se ter efetivado a reintegração de posse da direção da unidade, em respeito a uma decisão judicial, tenha encerrado o assunto em torno da preservação do patrimônio público na EACH. O fato da direção da Universidade ter agido de forma parcial sobre o assunto demonstra bem a sua falta de compreensão em torno do que, concretamente, representa o patrimônio público, assim como deixa transparecer que não pretende esclarecer os fatos. Só que é seu dever fazê-lo, já que a publicidade é requisito fundamental da administração pública (artigo 37, CF), sendo certo, ainda, que, nos termos do artigo 225, da Constituição Federal, impõe-se aos poderes públicos assegurar a saúde dos cidadãos e preservar as futuras gerações, mediante a proteção do patrimônio ambiental, que, dado o seu caráter transindividual e indivisível, apresenta-se como autêntico patrimônio público.

Enfim, a presente carta aberta destina-se a requerer aos Administradores da Universidade de São Paulo e da EACH que se pronunciem a respeito, respondendo as perguntas acima formuladas.

São Paulo, 21 de outubro de 2013.


* Procuradora Regional da República, mestre em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP, autora do livro Responsabilidade do agente público (Fórum, 2004) – In: Dicionário de direitos humanos.

***

Jorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com o qual colabora com o texto “A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais”. Trata-se do primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos conhecidos como as “Jornadas de Junho”, com textos de autores nacionais e internacionais como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Ruy Braga, Carlos Vainer, entre outros.

Cidades Rebeldes_JornadasConfira a cobertura das manifestações de junho no Blog da Boitempo, com vídeos e textos de Mauro Iasi, Ruy Braga, Roberto Schwarz, Paulo Arantes, Ricardo Musse, Giovanni Alves, Silvia Viana, Slavoj Žižek, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Carlos Eduardo Martins, Lincoln Secco, Dênis de Moraes, Marilena Chaui e Edson Teles, entre outros!

***

Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Esquecimento, memória e desaparecimento do poder desaparecedor

Poder e desaparecimento Capa Final.inddPor Marcus Orione.

Partindo de suas experiências enquanto militante política sobrevivente de um campo de concentração da ditadura argentina, Pilar Calveiro tece, em Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina, impressionante tese de que qualquer poder busca não apenas controlar, mas, acima de tudo, fazer desaparecer aquele que considera disfuncional. Na situação vivida pela autora, o disfuncional seria qualquer ator político, que buscasse a transformação da sociedade Argentina em descompasso com o projeto conservador de nação projetado pelas Forças Armadas, auto-intitulado “Processo de Reorganização Nacional”.

Esse “poder desaparecedor”, expressão adotada pelo livro, se organiza a partir de uma burocracia interna que, no caso específico da ditadura argentina, se estrutura no entorno dos campos de concentração e de desaparecimento. Tais campos eram os locais para onde foram levados aqueles que os militares alcunhavam como prisioneiros de uma guerra na qual o principal objetivo era salvaguardar os valores morais mais elevados da sociedade argentina, ligados à preservação de instituições sagradas como a família, a propriedade e a religião. Quem ousasse afrontar tais valores era visto como inimigo, um disfuncional, e deveria desaparecer – no mais das vezes com a extinção física, que atingiu 30 mil pessoas.

Essa extinção dos detidos-desaparecidos era organizada e detalhada no seio do aparelho estatal, sendo as tarefas divididas, de forma a se promover suposta diluição das responsabilidades – em especial na mente das pessoas que a executavam. Estruturada de forma que todos os participantes desse elo se sentissem menos culpados e menos desumanizados num processo de lenta desumanização de outros seres humanos – que, violentamente capturados, sofriam uma série de torturas até o seu extermínio de forma brutal (em geral, os sequestrados eram, depois de dopados, jogados ao mar de aviões, nos chamados voos da morte).

Expressiva parte desses executantes, em relatórios posteriores, diziam que apenas cumpriam ordens legais e desempenhavam as suas funções, tendo, inclusive, no governo Alfonsín sido beneficiados com o perdão pela Lei da Obediência Devida – julgada inconstitucional pela Suprema Corte argentina em 2005. Tais relatos, aliás, nos faz lembrar os relativos aos campos de concentração e extermínio nazistas, detalhados por Hannah Arendt em sua obra Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal.

Assim, todos os agentes estatais (os bandos, os grupos de inteligência, os guardas e os desaparecedores de cadáveres), de forma burocrática – que chegava ao requinte de contar com memorandos e ofícios autorizando as capturas ou futuras execuções –, cumpriam seu papel nessa tenebrosa forma de divisão social do trabalho, constituindo o que foi denominado na obra de “serviço público criminoso”.

De tudo, resta a memória – que, como lembra a autora em entrevista concedida à imprensa argentina, nunca é “absolutamente individual”.

E restar a memória não é pouco, já que essa é um dos principais instrumentos para o desaparecimento do poder desaparecedor.

Resta a memória consubstanciada na versão de um sobrevivente, que nunca saberá a razão pela qual sobreviveu em meio a tanta morte – carregando um pouco da culpa por estar vivo e não morto como os outros milhares.

Resta a memória que guarda uma sobrevivência desprovida de qualquer lógica, mas que carrega consigo a missão de resgatar os fatos que o acometeram assim como aos que desapareceram e não podem mais narrar. O que, aliás, remete a Agamben, que, em  O que resta de Auschwitz? (também da coleção Estado de Sítio, Boitempo), discute esse dilema segundo o qual quem poderia dar um testemunho integral é justamente quem não voltou para contar a história, restando ao sobrevivente esse difícil, mas inescapável, dever da narração.

Enfim, resta a memória, que nunca é “absolutamente individual”.

Resgatadas das trevas, vozes surgem fortes, altissonantes. Clamando por serem ouvidas. Para que os responsáveis por tamanha afronta à humanidade, não quedem impunes. Para que nada, tão violento, acometa novamente os seres humanos. Para que o poder desaparecedor não se sinta confortável em fazer desaparecer, nas situações em que ainda se encontra presente na sociedade moderna, o que entende por disfuncional, diferente.

Não há poder sem resistência é o discurso que permeia o livro. O poder que pretende fazer desaparecer pessoas, simplesmente por não se acomodarem aos limites que estabelece, deve ser resistido. Afinal, como menciona a autora, o julgamento dos comandantes das brutalidades cometidas pela ditadura argentina retirou daqueles que se consideravam deuses (e assim também o eram considerados pela sociedade) a aura de onipotência. Esses mesmos julgamentos como exercício de memória coletiva, a partir dos quais ninguém pode mais dizer que os fatos não ocorreram, evitando, ainda, que sejam olvidados. Como lembra Pilar, no final de sua obra, anistia e amnésia possuem a mesma raiz, a-mnes-is, ou seja, esquecimento. E o esquecimento é o que mais deseja o poder que faz desaparecer o diferente, já que assim permanece impune diante extinção que promoveu e, mais, se afirma como fonte que busca se eternizar no controle.

A partir do instante em que o Brasil dá indícios de que pretende estabelecer o seu ambiente democrático – longe das confissões obtidas mediante tortura nas delegacias, das chacinas de grupos paramilitares nas periferias, da necessidade de alijar o diferente, o disfuncional –, fica a lição dada por Poder e desaparecimento.

Como lembra Renan Quinalha, em sua obra Justiça de transição – contornos do conceito, ainda que não se possa estabelecer uma relação de causalidade imediata e exclusiva entre os atos da ditadura e a violência institucionalizada do Estado nos tempos atuais, “impossível seria, também, dissociar as limitações dos processos democráticos dessas sociedades (que viveram a experiência das ditaduras) em relação às experiências de autoritarismo recentemente vividas, como se esses fatores fossem independentes entre si”.  

Assim, o nosso ingresso de forma definitiva na democracia impõe, necessariamente, o esclarecimento de todas as atrocidades que aqui foram cometidas nos anos sombrios do regime ditatorial. O resgate de nossa memória sobre os fatos como arma contra o poder desaparecedor. E isso não será possível sem, por exemplo, uma investida corajosa da Comissão Nacional da Verdade ou sem a revisão de uma leitura da anistia que a estende aos agentes de estado que praticaram crimes contra a humanidade. Caso contrário, o poder desaparecedor assombrará para sempre o Brasil.

Como lembra Pilar Calveiro, “se a ilusão da sociedade está em sua capacidade de fazer desaparecer o disfuncional, não menos ilusória é a sociedade civil supor que o poder desaparecedor desapareça através de uma mágica inexistente”.

Enfim, como nação, devemos lutar constantemente para fazer desaparecer o poder desaparecedor, e isto não se dará por magia. Esse certamente é o mais valioso legado dessa excepcional obra de Calveiro.

* Versão ampliada de artigo publicado no jornal
Le monde diplomatique de agosto de 2013
.

***

Pilar Calveiro no Brasil

Durante esta semana, Pilar Calveiro estará no Brasil para debater Poder e desaparecimento com Paulo Arantes, Janaína Teles e Maria Helena Capelato. Ao todo, ela participa de três atividades gratuitas e abertas ao público na Alesp, na USP e na PUC do Rio de Janeiro. Saiba mais aqui.

***

Marcus Orione é livre-docente e Professor da pós-graduação na área de concentração em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Colabora com a edição 21 da revista Margem Esquerda do segundo semestre de 2013 com uma leitura marxista da redução da maioridade penal.