B de bassora ou de behaviorístico?

13.04.24_Mouzar Benedito_B de bassora ou de behaviorísticoPor Mouzar Benedito.

“Atenção pessoar… Já vai saí a jardineira pra Parmitar, Santa Rita de Carda, Carda e POÇOS DE CALDAS.”

Era assim mesmo a pronúncia do locutor da rodoviária de Pouso Alegre, garantem muitas pessoas que passaram por lá nos tempos das jardineiras. L nas palavras pessoal, Palmital e Caldas virava R… E o s do final das palavras sumia. Era Carda, mesmo. Mas enchia a boca para pronunciar corretamente POÇOS DE CALDAS.

Lembro-me disso toda vez que ouço aquela voz de aeroporto informando sobre voos. E também quando alguém vai ditar alguma coisa que tenha letras, algum código. Por exemplo: CMG… Antes se falava C de casa, M de mesa e G de Gato, numa situação dessas, mas agora falam direto: casa, mesa, gato…

Um dia, há tempos, fiquei imaginando um locutor como o da rodoviária de Pouso Alegre de antigamente soletrando siglas ou palavras. Vamos supor BDL. Provavelmente, diria B de bassora (vassoura), D de doçante e L de leição pra presidente.

Imaginei, então como ficaria o alfabeto inteiro:

A de Arnesto
B de bassôra
C de Sebastião
D de doçante
E de eta nóis
F de Chico
G de jerimum
H de agachado
I de iscola
J de lajota
K de cavalo
L de leição
M de mó di quê?
N de Nossinhora Parcida!
O de hômi
P de bereba
Q de Quelemente
R de arrevortado
S de é esse aí
T de tenção, gente, presta tenção…
U de u qui é, u qui é…
V de vrido
W de Uosto (Washington) e Várti
X de chispa daí
Y de psilone mesmo, ara, que letra besta!
Z de zoio, zunha, zoreia e zuvido

Mas e se fosse o contrário, um cara que gosta de mostrar erudição? Suponhamos, PNF… Ele poderia dizer P de pugnacíssimo, N de neuroipofisário e F de frenicectômico.

Vamos imaginar mais, com o mesmo erudito, deixando de lado essas letras já citadas. Suponhamos ABCD. Seria talvez A de antipoliorcética, B de behaviorístico, C de cnidosporídeo e D de dacriocistostomia.

Continuamos com EGHI. Sugeriria a ele E de exopterigoto, G de ginglimostomatídeo, H de hexilresorcinol e I de ixociflose.

Seguindo o alfabeto, para JKLM, poderia ser J de jargonografia, K de kerkegaardianismo, L de lepdopterologista e M de megaquiróptero.

E vamos em frente… OQRS ficaria bem com O de oftalmoxistro, Q de quilooersted, R de recurvirrostrídeo e S de septenvirado.

Para TUV, ele poderia ser bem didático: T de teopnêustico, U de uzbesquistanês e V de vasovasostomia.

Para terminar, restam WXYZ, letras que merecem ser esclarecidas assim: W de wycliffista, X de xi-tsungulo, Y de yeatsiano e Z de zwinglianismo.

O que acham? Bem, quando começo a pensar besteiras, é difícil parar. Continuei então, por falar em besteira, imaginando alguém que “só pensa naquilo”. Como soletraria? Aí tive uma dificuldade, pois nas gírias relacionadas a isso não encontrei palavras iniciadas por K, W e Y, reintroduzidas (epa!) no nosso alfabeto. Mas pulando essas, vejam como soletraria o safado:

ABCDE poderia ser A de afogar o ganso, B de balançar a roseira, C de chamuscar o bombril, D de dar um tapa no beiço da cabeluda, e E de esfolar a piaca.

FGHI certamente seria F de fazer neném, G de guardar o santíssimo, H de honrar o baita e I de invadir a Tchetchênia.

JLMN seria soletrada como J de jogar as pedrinhas, L de lustrar o jequitibá. M de molhar o biscoito e N de noite do iguana.

OPQR… bom, vamos lá: O de orelhar uma moça, P de pôr a escrita em dia, Q de queimar incenso no altar de Vênus, e R de rala e rola.

STU dá umas leituras interessantes: S de suar juntos, T de trocar o óleo, e U de usar o playground.

Encerrando, VXZ não é fácil, mas dá para soletrar também: V de vestir a peruca no careca, X de xuxar a borracha e Z de zurzir os crocos.

Bom, vou para por aqui. Chega de sem-vergonhice.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

O sapo Gonzalo em: Viajante espacial

13.04.19_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em Viajante espacialPor Luiz Bernardo Pericás.

Muito tempo atrás, num brejo perdido em algum lugar da Argentina, o sapucho Gonzalo, ainda um caçotinho ingênuo e pueril, olhava todas as noites para o céu e sonhava com as estrelas. Naquela época, ele lia as edições amareladas da Amazing Stories, emprestadas por seu tio, que colecionava a revista desde o final da década de vinte; acompanhava regularmente as aventuras de Buck Rogers e Flash Gordon, em belos álbuns encadernados de quadrinhos desenhados em nanquim; e devorava todos os livros de Ray Bradbury que chegavam às livrarias. Alex Raymond e Stan Lee eram seus ídolos de então. Ele fantasiava com uma viagem espacial e imaginava como seriam os planetas e asteróides vistos de perto, a imensidão negra repleta de astros cintilantes, de cometas e poeira cósmica.

Alguns anos mais tarde, iria se encontrar frequentemente nos boliches boêmios da capital e das províncias com seu amigo de infância, o Eternauta, para sorver o vinho tinto de Mendoza que tanto apreciava e falar dos anseios e aflições da juventude. Os dois conversavam por horas sobre o colega Surfista Prateado, aquele trotamundos intergaláctico sempre, sempre solitário, que passava a vida cruzando o universo na sua longboard, vez ou outra se desviando, com agilidade, de meteoros e nebulosas… Por onde andaria naquele momento? Será que viria para a Terra em breve? Saudades do companheiro, que sumira de vista há uns bons anos…

Décadas atrás, o infinito parecia pronto a ser conquistado. Gonzalo se emocionou quando soube dos primeiros sapos no espaço. Isso foi em março de 1961, quando a União Soviética enviou alguns batráquios na Vostok 3A. Eram seus irmãos de sangue frio e pele esverdeada, uns anfíbios pequeninos e saltitantes como ele! Uns pioneiros!

Os russos, de fato, estavam à frente na corrida espacial. Afinal, foram os primeiros a colocar um satélite no espaço, o Sputnik 1, em outubro de 1957. E também os primeiros a lançar um cachorro do cosmódromo de Baikonur, em novembro daquele mesmo ano, numa cápsula presa num ICBM SS-6 convertido em foguete espacial, a célebre cadela Laika (que infelizmente não sobreviveu, para tristeza de todos os animalejos de nossa galáxia, como Gonzalo).

Outros bichos entrariam na história por sua bravura: macacos e ratos seriam alguns deles. Mas os camaradas caninos se destacariam! Em 1960, os cães Bars e Lisichka perderiam a vida tragicamente quando seu propulsor explodiu. Mas em seguida, no dia 19 de agosto, dois pulguentos heróicos, Belka e Strelka, finalmente conseguiriam chegar às alturas, no Sputnik 5, fazendo uma viagem orbital e retornando sãos e salvos para a URSS (hoje, Belka está taxidermizado e exibido numa redoma de vidro no Museu Memorial da Astronáutica em Moscou e Strelka, igualmente empalhado, continua passeando como sempre, em exposição itinerante por vários países). Verdadeiros desbravadores!

Mas os feitos soviéticos não parariam por aí. No dia 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin seria o primeiro homem no espaço (em torno de um mês depois dos sapos)! Aos 27 anos de idade, ele gritaria, no momento da decolagem da Vostok 1, que o levaria para a glória: “Poyekhali!” Sua aventura durou 108 minutos. Ao retornar, já na atmosfera, foi ejetado de sua cápsula, de paraquedas, tocando o solo pouco depois, perto da vila de Uzmoriye (ao lado do rio Volga), para a total surpresa de uma camponesa e sua filha, que viram aquele homem pequeno de roupa laranja e capacete branco, e acharam que era um extraterrestre! Gagarin teve de explicar que era apenas um cosmonauta russo que acabara de voltar à sua pátria. E pediu para que as duas o levassem o quanto antes a um telefone! Afinal de contas, tinha de avisar às autoridades onde estava!

A URSS continuava adiante. E em 16 de junho de 1963, os soviéticos mandariam na Vostok 6 a primeira mulher (e civil) ao espaço, Valentina Vladimirovna Tereshkova, de 26 anos de idade, trabalhadora de uma fábrica têxtil, que daria 48 voltas em torno do planeta durante dois dias, 23 horas e doze minutos (os norte-americanos só enviariam sua primeira astronauta ao espaço em 1983, ou seja, vinte anos mais tarde). Não custa lembrar que o primeiro homem a andar no espaço, Alexei Leonov (tripulante da Voskhod 2), em 18 de março de 1965, e que a primeira representante do sexo feminino a fazer o mesmo, Svetlana Savitskaya, em 25 de julho de 1984 (na missão Salyut 7), também eram soviéticos…  

É verdade que os Estados Unidos chegaram antes à lua, em 1969. Mas no ano seguinte, a URSS mandaria uma nave para lá, o projeto não-tripulado Lunokhod (o primeiro robô movido a controle remoto a percorrer a superfície de outro corpo celestial), que serviria como a experiência pioneira que inspiraria a atual missão dos Mars Rovers da NASA. Aparentemente nas duas visitas feitas ao satélite natural (iniciadas respectivamente em 1970 e 1973), os veículos Lunokhod 1 e 2 iriam desenhar, com as marcas de suas rodas, um “oito” no solo lunar, em homenagem ao dia internacional da mulher!

Ninguém segurava os russos naquela época. Nem hoje em dia. Afinal, apesar de todos os problemas econômicos e das camarilhas e máfias políticas que governam o país, a Rússia ainda é a principal nação a levar o homem ao espaço sideral. 

Tudo aquilo voltava à mente de Gonzalucho. Tempos de gente corajosa, inovadora, pioneira. Tempos em que se podia sonhar. E que agora estavam no passado remoto. Atualmente o que prevalece é o dinheiro, a alienação e o individualismo exarcebado. Gonzalo colocou as mãos atrás da nuca, esticou as pernas e, do terraço de um antigo edifício de tijolos vermelhos, no meio da cidade suja e barulhenta onde morava, ficou olhando, em silêncio, para as estrelas…

13.04.19_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em Viajante espacial2

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o ficcional Cansaço, a longa estação (por apenas R$13). Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). É organizador, com Lincoln Secco, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Pequenos crimes

13.04.19_Pequenos crimes_Roniwalter JatobáPor Roniwalter Jatobá.

[Nota do Editor: Esta crônica havia sido planejada para a sexta-feira 22 de março, mas, devido a  um  problema técnico do Blog, só vem a público hoje.]

Com as proximidades da Semana Santa, um sentimento de contrição me traz à memória muita maldade que cometi na vida. Qual menino criado na roça que nunca fez? Quando criança em Campo Formoso, no interior baiano, tinha dois prazeres. Um deles, cultural: ir às matinês do Cine Teatro Santo Antônio. O outro era fazer judiação em bichos de todo tipo.

Gatos, por exemplo. De índole arredia, os felinos fugiam da minha presença como o diabo da cruz. Para encurtar conversa, a traquinagem menos cruel era amarrar bombinha de São João em suas caudas e rolar de rir quando, cheios de miados, desciam a ladeira de casa em desabalada carreira.

No final do ano, imagine quem pedia à mãe para dar cachaça ao peru que ia fartar nossa fome na triste, quase sempre triste, ceia natalina? Dona Maria explicava que era para a ave ficar relaxada e, naturalmente, deixar a carne mais macia pós-morte. Ora, a gente sabia disso, mas o principal era ver o bicho ficando pouco a pouco embriagado, pernas trôpegas, desequilibrando-se no quintal de chão, tal roceiro bêbado no fim de feira.

Era um bom caçador. Certeiro no estilingue, não perdoava de bem-te-vi a beija-flor. Respeitava apenas urubus, pois os mais velhos diziam que o matador carregava para sempre sete anos de azar.

Nessa época, era um levado menino de doze anos. Depois da escola, passava o resto do dia de bodoque na mão para caçar passarinhos. Numa manhã de Sexta-feira da Paixão, caminhava sozinho pela casa vazia triste e silenciosa. De repente, encontro minha irmã mais velha que voltava da igreja.

– Vá rezar, menino – ela disse.

– Por quê?

– Hoje é Sexta-feira da Paixão.

– Mas eu quero é brincar…

– Brincar é pecado.

Tudo era pecado na Sexta-feira da Paixão, em minha casa. Na cozinha, o fogo morto. O peixe, o feijão, o arroz, tudo cozido em óleo de coco e feito na véspera. Na sala e no banheiro, panos negros cobriam os espelhos.

Caminho, então, em direção ao quintal, pensando. Devia ser por isso que os amigos estavam em casa. Só raras pessoas passavam na rua. Ali concluí que passear um pouco não poderia ser pecado. O pequeno rio Aipim, com seus contornos em corredeiras, me esperava lá embaixo.

Silêncio nas margens, apenas o rumo das águas velozes. Súbito, uma revoada de tizius desce do morro do cemitério e sobrevoa os campos de capins da beirada do rio.

Conhece um tiziu? É um pássaro miudinho. Tem 10 centímetros de comprimento, vive em várias regiões do Brasil. O macho é preto-azulado e a fêmea, pardo-olivácea, com listras amarelas no dorso e asas. Ao emitir seu canto (ti-ziu), tem o hábito de dar um salto para cima, de aproximadamente um metro de altura, retornando ao lugar onde está pousado.

– Ti-ziu.

Um deles, a uns três metros de distância, balançou-se numa haste de capim. Sem pensar muito, coloquei uma pedra redonda no estilingue. Fiz pontaria, mas lembrei de que era Sexta-feira da Paixão.

– Xô, passarinho – gritei.

– Ti-ziu – foi a resposta.

Gritei mais alto, bati os pés no chão e agitei os braços. Nada.

– Xô. Vá embora.

Novamente, ele deu o seu salto e ficou parado na mesma haste de capim. Então, pensei em jogar apenas uma pedrinha para espantá-lo dali. Preparei o estilingue e mirei o pé da haste de capim, dois palmos abaixo do tiziu.

Deu tudo errado. O coitadinho tombou, soltando três ou quatro penas, que ficaram suspensas no ar.

Fiquei petrificado, o coração batia forte, o medo. Olhei para o céu esperando a ira divina, mas lá só havia um amplo azul com nuvens brancas.

Em todo caso, por via das dúvidas, tratei de ocultar, sob folhas arrancadas às pressas, o pequeno cadáver.

Nesta Sexta-feira da Paixão de 2013, no suave silêncio da minha rua, sei que vou pensar em duas mortes: a de Jesus Cristo, quase dois mil anos atrás, e a do inocente tiziu, há anos marcado no fundo na minha memória.

Confesso ainda mais: quando vejo a alegria dos pássaros em São Paulo, me arrependo dos pequenos crimes cometidos, mas creio que o tempo perdoa pequenas loucuras da infância. Quase todas, talvez. Afinal, era março, ou abril, de antigamente.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A simples coragem da decisão: um tributo esquerdista a Margaret Thatcher, por Slavoj Žižek

13.04.18_Slavoj Zizek_A simples coragem da decisãoPor Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

Click here for the english version.

Nas últimas páginas de seu monumental Second World War, Winston Churchill reflete sobre o enigma de uma decisão militar: depois que os especialistas (analistas econômicos e militares, psicólogos, meteorologistas etc.) propõem sua análise múltipla, elaborada e refinada, alguém deve assumir a ação simples – e por isso a mais difícil – de transformar essa multiplicidade complexa, em que para cada pró há dois contras, em um simples “Sim” ou “Não” – devemos atacar, devemos continuar esperando… Esse gesto, que não pode nunca ser fundamentado em razões, é o gesto do Mestre. Cabe aos especialistas apresentarem a situação em sua complexidade, mas cabe ao Mestre simplificá-la em um ponto de decisão.

Essa figura do Mestre é necessária principalmente em situações de crise profunda. Aqui, a função do Mestre é representar a divisão autêntica – uma divisão entre os que querem se arrastar nos antigos parâmetros e os que têm consciência da mudança necessária. Essa divisão, e não as transigências oportunistas, é o único caminho para a verdadeira unidade. Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França na década de 1940. Até mesmo Jacques Duclos, segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu em uma conversa privada que, se naquele momento, houvesse eleições livres na França, Marshal Petain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em um ato histórico, se recusou a reconhecer a capitulação ante os alemães e continuou resistindo, ele afirmou que apenas ele falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não só em nome da “maioria dos franceses”!), e não o regime de Vichy; sua afirmação foi profundamente verdadeira ainda que “democraticamente” não tivesse legitimação nenhuma, mas fosse claramente oposta à opinião da maioria dos franceses…

E Margaret Thatcher, a “dama que não volta atrás”, foi um desses Mestres que se prende a uma decisão vista a princípio como louca, e gradualmente eleva sua loucura singular à norma aceita. Quando perguntaram a Margaret Thatcher sobre seu maior êxito, ela respondeu sem pestanejar: “O New Labour”. E ela estava certa: seu triunfo foi o fato de suas políticas econômicas básicas terem sido adotadas até mesmo por seus inimigos econômicos – o verdadeiro triunfo não é a vitória sobre o inimigo, ele ocorre quando o próprio inimigo começa a usar sua linguagem, de modo que suas ideias formem a base de todo o campo.

Então o que resta hoje do legado de Thatcher? A hegemonia neoliberal está claramente se desintegrando. Thatcher talvez tenha sido a única thatcherista verdadeira – ela acreditava nitidamente nas próprias ideias. O neoliberalismo atual, ao contrário, “imagina apenas acreditar em si mesmo e exige do mundo a mesma imaginação” (para citar Marx[1]). Em suma, o cinismo hoje está totalmente à mostra. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser (1942), de Ernst Lubitch: quando questionado sobre os campos de concentração alemães na Polônia ocupada, o oficial nazista responsável, apelidado de “Campo de Concentração Erhardt”, responde: “Nós concentramos, os poloneses acampam”. 

O mesmo não vale para a falência da Enrom em janeiro de 2002 (e para todos os colapsos financeiros que se seguiram), o que pode ser interpretado como um tipo de comentário irônico sobre a ideia de sociedade de risco? Milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e economias certamente estavam expostos ao risco, mas sem terem uma escolha verdadeira – o risco apareceu como destino cego. Por outro lado, quem percebeu efetivamente os riscos e teve a possibilidade de intervir na situação (os altos executivos) conseguiu minimizar os riscos lucrando com suas ações e opções antes da falência – então é verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas uns fazem as escolhas (os executivos de Wall Street) enquanto outros (o povo que paga hipoteca) correm os riscos…

Uma das consequências estranhas do colapso financeiro e das medidas tomadas para neutralizá-lo (grandes quantias de dinheiro para ajudar os bancos) foi o reaparecimento da obra de Ayn Rand, o mais perto que se pode chegar da ideóloga do capitalismo radical do lema “a ganância é boa” – as vendas de A revolta de Atlas, sua magnum opus, explodiram de novo. Segundo alguns relatos, já existem sinais da representação do cenário descrito em A revolta de Atlas – os próprios capitalistas criativos entrando em greve. O congressista republicano John Campbell disse: “Os empreendedores estão entrando em greve. Vejo, em um nível baixo, um tipo de protesto vindo das pessoas que cria empregos [...], que estão abandonando suas ambições porque percebem como serão punidas por causa delas”. É ridículo que essa reação deturpe totalmente a situação: grande parte das gigantescas quantias de dinheiro injetado vai justamente para os “titãs” randianos desregulados, que fracassaram em seu esquema “criativo” e assim provocaram o colapso. Os grandes gênios criativos não estão ajudando o povo comum e preguiçoso: são os contribuintes comuns que estão ajudando os “gênios criativos” fracassados.

O outro aspecto do legado de Thatcher visado pelos críticos da esquerda era sua forma “autoritária” de liderança, sua falta de sensibilidade para a coordenação democrática. Nesse aspecto, contudo, as coisas são mais complicadas do que parecem. Os protestos populares que acontecem atualmente em toda a Europa convergem numa série de demandas que, por sua própria espontaneidade e obviedade, formam um tipo de “obstáculo epistemológico” ao próprio confronto com a crise atual de nosso sistema político. Parece que estamos diante de uma versão popularizada da política deleuziana: o povo sabe o que quer, é capaz de descobrir e formular o que quer, mas só por meio do engajamento e da atividade continuada – então precisamos fazer funcionar a democracia participativa, não só a democracia representativa com seu ritual eleitoral que, a cada quatro anos, interrompe a passividade dos eleitores; precisamos da auto-organização da multidão, e não de um partido leninista centralizado com o Líder etc. etc.

A coisa mais difícil de ser renunciada é esse mito da auto-organização direta não representativa – que é a armadilha final, ou seja, a mais profunda ilusão a ser desfeita. Sim, em cada processo revolucionário existem momentos extáticos de solidariedade grupal, em que centenas de milhares se juntam e ocupam um lugar público, como a praça Tahrir há dois anos; sim, há momentos de participações coletivas intensas, em que as comunidades locais debatem e decidem, em que as pessoas vivem um tipo de estado de emergência permanente, assumindo o controle de tudo, sem nenhum Líder para guiá-las… mas esses estados não duram, e a “fadiga” nesse caso não é um simples fato psicológico, mas sim uma categoria da ontologia social.

A grande maioria – inclusive eu – quer ser passiva e simplesmente confiar em um aparelho estatal eficaz que garanta o andamento harmonioso de todo o edifício social, de modo que cada um possa realizar em paz o próprio trabalho. Walter Lippmann escreveu em seu Public Opinion (1922) que o rebanho dos cidadãos deve ser governado por “uma classe especializada cujos interesses ultrapassam o que é local” – essa classe de elite vai agir como uma máquina de conhecimento que contorna o defeito básico da democracia, o ideal impossível do “cidadão onicompetente”. É assim que funcionam nossas democracias – com o nosso consentimento: não há mistério no que disse Lippmann, trata-se de um fato óbvio; o mistério é que, sabendo disso, jogamos o jogo. Agimos como se estivéssemos livres e decidindo livremente, não só aceitando, mas também exigindo, em silêncio, que uma injunção invisível (inscrita na própria forma da nossa liberdade de expressão) nos diga o que fazer e pensar. “O povo sabe o que quer” – não, não sabe e não quer saber, o povo precisa de uma boa elite, e é por isso que o político correto não só defende os interesses do povo: é através dele que o povo descobre o que “realmente quer”.

Quanto à multidão molecular auto-organizadora contra a ordem hierárquica sustentada pela referência a um líder carismático, note-se a ironia do fato de que a Venezuela, um país tão elogiado por causa de suas tentativas de desenvolver modalidades de democracia direta (conselhos locais, cooperativas, operários comandando fábricas), também é um país cujo presidente foi Hugo Chávez, um líder forte e carismático, se é que existe um. É como se a regra freudiana da transferência também estivesse em ação aqui: para que os indivíduos “ultrapassem a si próprios”, para que escapem da passividade da política representativa e se engajem como agentes políticos diretos, a referência a um líder é necessária, um líder que lhes permita sair do atoleiro do pântano como barão de Münchhausen, um líder “suposto saber” o que quer o povo. É nesse sentido que Alain Badiou mostrou recentemente como as redes horizontais destroem o Mestre clássico, mas simultaneamente propaga novas formas de dominação muito mais fortes que ele. A tese de Badiou é que o sujeito precisa de um Mestre para se elevar além do “animal humano” e pôr em prática a fidelidade a um Evento-Verdade: 

“O mestre é aquele que ajuda o indivíduo a se tornar sujeito. Ou seja, se admitimos que o sujeito surge na tensão entre indivíduo e universalidade, então é óbvio que o indivíduo precisa de uma mediação, e portanto de uma autoridade, para progredir nesse caminho. É preciso renovar a posição do mestre – não é verdade que se consiga sem ele, mesmo e especialmente na perspectiva da emancipação.” [2]

E Badiou não teme contrapor o papel necessário do Mestre à nossa sensibilidade “democrática”: 

“Estou convencido de que é preciso reestabelecer a função capital dos líderes no processo comunista, qualquer que seja seu estágio. Dois episódios cruciais em que a liderança não bastou foram a Comuna de Paris (que não tinha um líder digno, exceto Dombrowski no domínio estritamente militar) e a Revolução Cultural Chinesa (Mao estava cansado e velho demais, e o “grupo da RCC” foi infectado pela ultraesquerda). Essa foi uma lição severa.

Essa função capital dos líderes não é compatível com a atmosfera “democrática” predominante, motivo que me faz estar engajado em uma luta feroz contra essa atmosfera (afinal, é preciso começar com a ideologia). Quando me dirijo a pessoas cujo jargão é lacaniano, digo “a figura do mestre”. Quando são militantes, digo “ditadura” (no sentido de Carl Schmitt). Quando são trabalhadores, digo “líder de um grupo” etc. É desse modo que sou rapidamente compreendido.” [3]

Devemos seguir sem medo sua sugestão: para efetivamente despertar os indivíduos de seu “sono democrático”, de sua confiança cega nas formas institucionalizadas da democracia representativa, não bastam os apelos à auto-organização direta: é preciso uma nova figura do Mestre. Recordemos os famosos versos de “A une raison” (A uma razão), de Arthur Rimbaud:

Um toque de teu dedo no tambor liberta todos os sons e começa a nova harmonia.
Um passo teu é a mobilização dos novos homens que se põem em marcha.
Se viras o rosto: o novo amor!
Se desviras o rosto, – o novo amor! [4]

Não há absolutamente nada “fascista” nesses versos – o paradoxo supremo da dinâmica política é que é preciso um Mestre para empurrar os indivíduos para fora do atoleiro de sua inércia e motivá-los para a luta autotranscendente emancipatória pela liberdade.

Precisamos hoje, nessa situação, de uma Thatcher da Esquerda: um Líder que repetiria o gesto de Thatcher na direção oposta, transformando todo o campo de pressupostos compartilhados hoje pela elite política de todas as principais orientações.


 [1] Crítica da filosofia do direito de Hegel, 1843 (tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus, São Paulo, Boitempo, 2010), p. 148

[2] Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco, “Appel aux psychanalystes. Entretien avec Eric Aeschimann”, Le Nouvel Observateur, 19 de abril de 2012.

[3] Comunicação pessoal, abril de 2013.

[4] Arthur Rimbaud, Prosa poética (trad. Ivo Barroso, Rio de Janeiro, Topbooks, 1998), p. 229.

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Slavoj Žižek esteve no Brasil para lançar seu maior e mais importante livro teórico: Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Confira, abaixo, o Booktrailer da obra:

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

The simple Courage of Decision: a Leftist Tribute to Thatcher, by Slavoj Žižek

13.04.18_Slavoj Zizek_THE SIMPLE COURAGE OF DECISIONBy Slavoj Žižek.

Para a versão em português do artigo, clique aqui.

In the very last pages of his monumental Second World War, Winston Churchill ponders on the enigma of a military decision: after the specialists (economic and military analysts, psychologists, meteorologists…) propose their multiple, elaborated and refined analysis, somebody must assume the simple and for that very reason most difficult act of transposing this complex multitude, where for every reason for there are two reasons against, into a simple “Yes” or “No” – we shall attack, we continue to wait… This gesture which can never be fully grounded in reasons, is that of a Master. It is for the experts to present the situation in its complexity, and it is for the Master to simplify it into a point of decision.

Such a figure of Master is needed especially in situations of deep crisis. The function of a Master is here to enact an authentic division – a division between those who want to drag on within the old parameters and those who are aware of the necessary change. Such a division, not the opportunistic compromises, is the only path to true unity. Let us take an example which surely is not problematic: France in 1940. Even Jacques Duclos, the second man of the French Communist Party, admitted in a private conversation that if, at that point in time, free elections were to be held in France, Marshal Petain would have won with 90% of the votes. When de Gaulle, in his historic act, refused to acknowledge the capitulation to Germans and continued to resist, he claimed that it is only he, not the Vichy regime, who speaks on behalf of the true France (on behalf of true France as such, not only on behalf of the “majority of the French”!), what he was saying was deeply true even if it was “democratically” not only without legitimization, but clearly opposed to the opinion of the majority of the French people…

And Margareth Thatcher, the “lady who is not for turning,” WAS such a Master sticking to her decision which was at first perceived as crazy, gradually elevating her singular madness into an accepted norm. When Thatcher was asked about her greatest achievement, she promptly answered: “The New Labor.” And she was right: her triumph was that even her political enemies adopted her basic economic policies – the true triumph is not the victory over the enemy, it occurs when the enemy itself starts to use your language, so that your ideas form the foundation of the entire field.

So what remains today of Thatcher’s legacy today? Neoliberal hegemony is clearly falling apart. Thatcher was perhaps the only true thatcherite – she clearly believed in her ideas. Today’s neoliberalism, on the contrary, “only imagines that it believes in itself and demands that the world should imagine the same thing” (to quote Marx). In short, today, cynicism is openly on display. Recall the cruel joke from Lubitch’s To Be Or Not to Be: when asked about the German concentration camps in the occupied Poland, the responsible Nazi officer “concentration camp Erhardt” snaps back: “We do the concentrating, and the Poles do the camping.” Does the same not hold for the Enron bankruptcy in January 2002 (as well as on all financial meltdowns that followed), which can be interpreted as a kind of ironic commentary on the notion of risk society? Thousands of employees who lost their jobs and savings were certainly exposed to a risk, but without any true choice – the risk appeared to them as a blind fate. Those, on the contrary, who effectively did have an insight into the risks as well as a possibility to intervene into the situation (the top managers), minimized their risks by cashing in their stocks and options before the bankruptcy – so it is true that we live in a society of risky choices, but ones (the Wall Street managers) do the choosing, while others (the common people paying mortgages) do the risking…

One of the weird consequences of the financial meltdown and the measures taken to counteract it (enormous sums of money to help banks) was the revival in the work of Ayn Rand, the closes one can come to the ideologist of the “greed is good” radical capitalism – the sales of her magnum opus Atlas Shrugged exploded again. According to some reports, there are already signs that the scenario described in Atlas Shrugged – the creative capitalists themselves going on strike – is enacted. John Campbell, a Republican congressman, said: “The achievers are going on strike. I’m seeing, at a small level, a kind of protest from the people who create jobs /…/ who are pulling back from their ambitions because they see how they’ll be punished for them.” The ridicule of this reaction is that it totally misreads the situation: most of the gigantic sums of bail-out money is going precisely to the Randian deregulated “titans” who failed in their “creative” schemes and thereby brought about the meltdown. It is not the great creative geniuses who are now helping lazy ordinary people, it is the ordinary taxpayers who are helping the failed “creative geniuses.”

The other aspect of Thatcher’s legacy targeted by her Leftist critics was her “authoritarian” form of leadership, her lack of the sense for democratic coordination. Here, however, things are more complex than it may appear. The ongoing popular protests around Europe converge in a series of demands which, in their very spontaneity and obviousness, form a kind of “epistemological obstacle” to the proper confrontation with the ongoing crisis of our political system. These effectively read as a popularized version of Deleuzian politics: people know what they want, they are able to discover and formulate this, but only through their own continuous engagement and activity, so we need active participatory democracy, not just representative democracy with its electoral ritual which every four years interrupts the voters’ passivity; we need the self-organization of the multitude, not a centralized Leninist Party with the Leader… etc.etc. It is this myth of non-representative direct self-organization which is the last trap, the deepest illusion that should fall, that is most difficult to renounce. Yes, there are, in every revolutionary process, ecstatic moments of group solidarity when thousands, hundreds of thousands, together occupy a public place, like on Tahrir square 2 years ago; yes, there are moments of intense collective participations where local communities debate and decide, when people live in a kind of permanent emergency state, taking things into their own hands, with no Leader guiding them… but such states don’t last, and “tiredness” is here not a simple psychological fact, it is a category of social ontology. The large majority – me included – WANTS to be passive and just rely on an efficient state apparatus to guarantee the smooth running of the entire social edifice, so that I can pursue my work in peace. Walter Lippmann wrote in his Public Opinion (1922) that the herd of citizens must be governed by “a specialized class whose interests reach beyond the locality” – this elite class is to act as a machinery of knowledge that circumvents the primary defect of democracy, the impossible ideal of the “omni-competent citizen”. This is how our democracies function – with our consent: there is no mystery in what Lippmann was saying, it is an obvious fact; the mystery is that, knowing it, we play the game. We act as if we are free and freely deciding, silently not only accepting but even demanding that an invisible injunction (inscribed into the very form of our free speech) tells us what to do and think. “People know what they want” – no, they don’t, and they don’t want to know it, they need a good elite, which is why a proper politician does not only advocate people’s interests, it is through him that they discover what they “really want.”

As to the molecular self-organizing multitude against the hierarchic order sustained by the reference to a charismatic Leader, note the irony of the fact that Venezuela, a country praised by many for its attempts to develop modes of direct democracy (local councils, cooperatives, workers running factories), is also a country whose president was Hugo Chavez, a strong charismatic Leader if there ever was one. It is as if the Freudian rule of transference is at work here also: in order for the individuals to “reach beyond themselves,” to break out of the passivity of representative politics and engage themselves as direct political agents, the reference to a Leader is necessary, a Leader who allows them to pull themselves out of the swamp like baron Munchhausen, a Leader who is “supposed to know” what they want. It is in this sense that Alain Badiou recently pointed out how horizontal networking undermines the classic Master, but it simultaneously breeds new forms of domination which are much stronger than the classic Master. Badiou’s thesis is that a subject needs a Master to elevate itself above the “human animal” and to practice fidelity to a Truth-Event:

“The master is the one who helps the individual to become subject. That is to say, if one admits that the subject emerges in the tension between the individual and the universality, then it is obvious that the individual needs a mediation, and thereby an authority, in order to progress on this path. One has to renew the position of the master – it is not true that one can do without it, even and especially in the perspective of emancipation.” [1]

And Badiou is not afraid to oppose the necessary role of the Master to our “democratic” sensitivity:

“I am convinced that one has to reestablish the capital function of leaders in the Communist process, whichever its stage. Two crucial episodes in which the leadership was insufficient were the Paris Commune (no worthy leader, with the exception of Dombrowski in the strictly military domain) and the Great Proletarian Cultural Revolution (Mao too old and tired, and the ‘group of the GPCR’ infected by ultra-Leftism). This was a severe lesson.

This capital function of leaders is not compatible with the predominant ‘democratic’ ambience, which is why I am engaged in a bitter struggle against this ambience (after all, one has to begin with ideology). When I am dealing with people whose jargon is Lacanian I say ‘a figure of Master.’ When they are militants I say ‘dictatorship’ (in the sense of Carl Schmitt). When they are workers I say ‘leader of a crowd,’ and so on. It is so that I am quickly understood.” [2]

And we should fearlessly follow his suggestion: in order to effectively awaken individuals from their dogmatic “democratic slumber,” from their blind reliance on institutionalized forms of representative democracy, appeals to direct self-organization are not enough, a new figure of the Master is needed. Recall the famous lines from Arthur Rimbaud’s “A une raison” (“To a Reason”):

“A tap of your finger on the drum releases all sounds and initiates the new harmony.

A step of yours is the conscription of the new men and their marching orders.
You look away: the new love!
You look back, — the new love!”

There is absolutely nothing inherently ”Fascist” in these lines – the supreme paradox of the political dynamics is that a Master is needed to pull individuals out of the quagmire of their inertia and motivate them towards self-transcending emancipatory struggle for freedom.

What we need today, in this situation, is a Thatcher of the Left: a leader who would repeat Thatcher’s gesture in the opposite direction, transforming the entire field of presuppositions shared by today’s political elite of all main orientations.


[1] Alain Badiou / Elisabeth Roudinesco, «Appel aux psychanalystes. Entretien avec Eric Aeschimann,» Le Nouvel Observateur, April 19 2012.

[2] Personal communication (April 2013).

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All of Slavoj Žižek’s books published in Brazil by Boitempo are avaiable in ebook form. If you’re interested, find out more in the links below:

Revolution at the Gates: Lenin – The 1917 Writings * ePub (Livraria Cultura |Gato Sabido)

The Parallax View * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Welcome to the Desert of the Real! * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

In defense of Lost Causes * ePub e PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

First as Tragedy, Then as Farce * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Living in the End Times * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

The Year of Dreaming Dangerously * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Also, there’s an article by Žižek on Boitempo’s Occupy: Protest Movements that Took the Streets (along with David Harvey, Mike Davis, Tariq Ali, Immanuel Wallerstein and others) * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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menos que nada_capa_altaSlavoj Žižek’s new book, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Historical Materialism has just been released in Brazil.

Slavoj Žižek was in Brazil to take part in an International Seminar on Marx, together with David Harvey, Michael Heinrich and many other renowned marxist thinkers!

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Boitempo Editorial is one of the most prestigious independent leftist publishers in Brazil: a publishing house of radical thinkers from the classics of Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski and Vladimir I.U. Lenin to György Lukács, István Mészáros, Slavoj Žižek, Alain Badiou, Giorgio Agamben, Perry Anderson, David Harvey, Mike Davis, Fredric Jameson and Tariq Ali. Among the Brazilian authors, Boitempo publishes some of the greatest leftist intellectuals of our time, such as Emir Sader, Leandro Konder, Franscisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Ricardo Antunes, Paulo Arantes and Vladimir Safatle. For Foreign Rights, visit our website or contact blog@boitempoeditorial.com.br.

Kim Jong-un

13.04.17_Lincoln Secco_Kim Jong-unPor Lincoln Secco.

A Coréia do Norte é um país. Esta verdade simples é inaceitável para a maior parte da imprensa mundial. É como se aquela nação não tivesse o direito de existir. Seria uma monarquia comunista, um país faminto e obsoleto ou uma ditadura sanguinária e terrorista.

Ainda que todas as coisas acima ditas fossem verdadeiras, nós acharíamos várias delas em outros países do mundo apoiados pelo “Ocidente”. Por isso, ninguém está interessado no povo da Coréia do Norte e muito menos em “libertá-lo”.

Depois de ocupada pelo Japão, a Coréia foi de fato libertada pelos aliados em 1945. A luta entre os comunistas e seus inimigos já mantinha o país dividido. Em 1950, depois da desocupação, iniciou-se a Guerra Civil. Os EUA invadiram o norte e capturaram a capital, Pyongyang, em outubro de 1950. Em apoio às tropas de Kim Il Sung, os chineses entraram secretamente na Coréia do Norte e iniciaram uma ofensiva. Depois de conquistarem Seul, os chineses sofreram a contra-ofensiva e recuaram até o famoso paralelo 38, que divide as duas Coréias. As lutas encarniçadas por posições no território coreano se prolongaram até julho de 1953.

A partir da implantação da Ditadura em 1961, a Coréia do Sul teve amplo progresso industrial. O norte, isolado (salvo pelo apoio chinês), teve que se manter com escassos recursos naturais. A ideologia Zuche, adotada pelo país, significa a perene busca da autonomia econômica e da soberania política. Mas o isolamento diplomático obrigou Kim Il Sung a destinar grande parte de seu orçamento para a defesa, visto que seu adversário não são as tropas sul-coreanas, mas o Exército dos EUA.

Sem as Forças Armadas descomunais que possui, a Coréia do Norte há muito teria sucumbido. E como qualquer país armado até os dentes, não se pode esperar que lá vigore a mais pura “democracia”. A propaganda difundida pela imprensa estadunidense e reproduzida no Brasil mostra o atual líder do país como o maior perigo à paz mundial. Adjetivos como louco, terrorista e lunático incrementam o medo das pessoas. Afinal, o “louco” é um jovem com armas nucleares!

Durante meio século, os sucessivos governos dos EUA desenvolveram artefatos nucleares. Os EUA foram o único país do mundo a agredir outro país com tais armas. Mas ninguém diz que há tresloucados com armas nucleares por lá. Nem mesmo na época da gang de Bush (aliás, continuador da dinastia de seu pai…), que ocupara antes a presidência. Como todos sabem, as eleições estadunidenses são indiretas e, mesmo assim, Bush  Junior ganhou-as mediante fraude.

Se Kim Jong-un ou qualquer outro líder é louco, não sabemos. O fato é que sua política de ameaças faz todo o sentido e reflete a razão de Estado de um país sitiado há mais de 50 anos. Abdicar da possibilidade da guerra seria render-se e desintegrar o sistema socialista vigente. Que inimigos de esquerda ou direita o queiram, é compreensível. Mas acreditar que um estadista abandonaria o poder sem lutar é uma ilusão. Se ameaçado por uma invasão, poderia sim apelar para uso de  qualquer armamento. E os generais dos EUA, que não ignoram as lições de Clausewitz, sabem que a guerra leva a uma escalada para os extremos.

Seria louvável que os governos fossem varridos e as comunidades dispusessem para si dos trilhões de dólares que já foram gastos no mundo todo com a violência dos Estados entre si ou contra seus cidadãos. Mas mudar a razão das guerras não está em discussão aqui. O que está em jogo é mais uma progressiva propaganda do governo dos EUA para destruir um país. Já vimos a mesma história mentirosa sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein.

Há de fato um grande perigo de desencadeamento de uma guerra com armas convencionais ou nucleares. Os loucos podem sempre provocá-la. Mas eles não estão em Pyongyang, e sim em Washington.

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Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011.  A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

As empregadas e a escravidão

13.04.16_Urariano Mota_As empregadas e a escravidãoPor Urariano Mota.*

Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu:  “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica – de gênio do futuro –, Joaquim Nabuco, sem pausa, continuou num encanto que esconde a crueldade:

“Ela [a escravidão] espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor…”.

Penso na primeira frase de Nabuco (a da escravidão como característica do Brasil) nesses dias em que o Congresso dá um primeiro passo para a superação da herança maldita. Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas,  da nova lei sobre a qual os jornais tanto têm falado como num aviso: “patroas, cuidado: domésticas agora têm direitos”. Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo. No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural… os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho. 

Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê. Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase: “a senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente”. A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”.          

O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas (como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões) creio que sobreviverá até mesmo à nova lei. É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda. É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história. Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem. É justo, não é? O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro. Não estranhem, porque não exagero. Não faz muito tempo, no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.    

Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em  democracia para todas as classes sociais. Menos para as empregadas, é claro. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”, dizia Nabuco.  

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

Rust in Peace

13.04.15_Ruy Braga_Rust in peacePor Ruy Braga.

A notícia da morte da ex-primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, não causou nenhuma comoção nacional. Ao contrário, milhares de cidadãos britânicos foram às ruas de Londres e Glasgow para celebrar abertamente o derrame cerebral que pôs um fim em sua já avançada senilidade. Pela internet, multiplicaram-se imagens de comemorações espontâneas ocorridas em bares e jogos de futebol cujo recado era um só: Thatcher não deixará saudades.

Um amigo que vive em Londres comparou o clima na manhã seguinte à morte da ex-primeira-ministra a uma hipotética vitória do Arsenal sobre o Barcelona na semifinal da Liga dos Campeões. Uma atmosfera de felicidade generalizada, apesar de contida. Morrissey, ex-vocalista da icônica banda The Smiths, fez questão de publicar um artigo no site The Daily Beast afirmando que Thatcher foi: “(…) Um terror sem um átomo de humanidade” e que devotava um intenso “ódio tanto às artes quanto aos pobres”.

Como alguém tão odiada governou uma democracia liberal por 11 anos, redefinindo a política internacional e influenciando regimes por todo o globo, em especial, na América Latina? Por um lado, Thatcher foi escolhida primeira-ministra em um período marcado pela crise do fordismo e por uma importante deterioração da posição competitiva do Reino Unido no mercado mundial. A autoconfiança popular na terra da Rainha estava em baixa e muitos passaram a culpar os supostos “privilégios” dos trabalhadores fordistas organizados em sindicatos pela situação econômica do país.

No final dos anos 1970, a “Dama de Ferro” chegou com uma agenda política balizada por duas prioridades: quebrar a espinha dorsal do movimento sindical britânico e privatizar o patrimônio público a fim de criar um novo ciclo de negócios capaz de restaurar a taxa de lucros. Assim, Thatcher atacou os direitos sociais, flexibilizou a legislação trabalhista e praticamente eliminou o direito de greve. Além disso, privatizou o setor siderúrgico e de telecomunicações, a indústria do petróleo, do gás, a indústria de aviação, a indústria automobilística e o sistema portuário.

No início da década de 1980, quando o aumento da mobilização das classes subalternas britânicas colocou em risco a continuidade do governo conservador, a ditadura argentina entrou em cena para salvar a primeira-ministra. A Guerra das Malvinas serviu para unificar o país em torno de sua liderança autoritária. Thatcher simplesmente agradeceu a oportunidade e conduziu o poderio militar britânico, infinitamente superior ao argentino, a uma rápida vitória.

(A este respeito, vale lembrar um fato que mostra o que foi a ex-primeira-ministra britânica: no dia 2 de Maio de 1982, a despeito de já estar de posse de uma proposta de paz enviada pelo governo argentino, a primeira-ministra autorizou o afundamento do cruzador General Belgrano, levando à morte 323 de seus 1.093 tripulantes.)

Dois anos mais tarde, fortalecida pela popularidade trazida com a vitória nas Malvinas, Thatcher mediu forças com o movimento sindical mineiro em uma das mais longas greves da história da Inglaterra. Após reprimir e destruir esse movimento, não havia mais forças políticas capazes de opor-lhe séria resistência. E a “Dama de Ferro” pôde se dedicar à consolidação de políticas de ajuste estrutural que ao fim e ao cabo transformaram, às custas da triplicação do desemprego e da duplicação da pobreza, o Reino Unido na segunda mais importante plataforma mundial de valorização financeira.

No entanto, em fins dos anos 1980, a popularidade do governo conservador viu-se seriamente abalada pela aprovação de um imposto regressivo chamado de “Poll Tax” que iria servir para financiar a participação britânica na primeira Guerra do Iraque. E no final de 1990, Thatcher foi substituída por John Major na função de primeira-ministra britânica.

Do ponto de vista econômico, a “Dama de Ferro” pilotou a transição de um modelo de desenvolvimento fordista apoiado sobre um regime fabril hegemônico para um pós-fordismo financeirizado baseado no despotismo-hegemônico. De uma situação na qual os trabalhadores costumavam receber concessões, transitou-se para uma na qual eles eram obrigados a fazer concessões. A reviravolta na estrutura social britânica foi tão profunda que o próprio Partido Trabalhista britânico curvou-se ao regime de acumulação financeirizado passando a se mover no interior do mesmo modo de regulação legado pelo thatcherismo.

A chamada “terceira via” nada mais fez do que sacramentar a conversão definitiva da social-democracia europeia à ortodoxia rentista. Conversão esta temperada por, é verdade, uma pequena dose de sensibilidade social. Entretanto, o abandono do ideário reformista não apenas sepultou a social-democracia como alternativa para os trabalhadores ingleses como coroou a transição para a “nova economia” de serviços financeiros. Ao longo dos anos 1990 e 2000, isto é, enquanto a expansão da mundialização financeira favoreceu o rentismo encastelado na City londrina, a hegemonia neoliberal manteve-se relativamente estável.

Todavia, o prolongamento da atual crise financeira e econômica europeia ameaça trazer de volta aquele fantasma que Thatcher pensara ter exorcizado em definitivo. Os tumultos ocorridos em agosto de 2011 no norte de Londres apontam nessa direção. E as comemorações populares e espontâneas pela morte da ex-primeira-ministra autorizam-nos a antever o, ainda tímido, sorriso do espectro. 

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Ruy Braga apresenta A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, em debate de lançamento com Franscisco de Oliveira, André Singer e Ricardo Musse:

Confira a versão integral do debate aqui.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Vitória apertada, mas vitória: sobre a eleição de Nicolás Maduro

13.04.15_Gilberto Maringoni_Vitória apertada, mas vitóriaPor Gilberto Maringoni.*

UM
O resultado: 50,66% para Nicolás Maduro e 49,07% para Henrique Capriles. Em números absolutos, 7.505.338 contra 7.270.403 de votos, diferença de 234.935 sufrágios. Mínima, mas real. 

Democracia é assim: quem tem mais votos leva, mesmo que seja 50% mais um.
Numa ditadura, isso não é possível. Ditaduras prescindem do outro lado e da oposição. Maduro venceu apertado, mas venceu. Na ponta do lápis, a questão está resolvida: o chavismo continua sem Chávez.

Mas o resultado tem de ser examinado além das planilhas. 

DOIS
O governo não estava preparado para essa diferença. Possivelmente Capriles – que cogitou não concorrer, logo após a morte de Chávez – também não.

Os chavistas avaliaram que dariam uma lavada na oposição, repetindo ou aumentando a diferença de 12% (56 a 44%) das eleições de outubro, quando Capriles enfrentou Chávez em sua última disputa.

Agora, o governo contava com o clima emocional disseminado no país, após a morte do Comandante, e os inegáveis avanços sociais de seu governo.

Pesavam contra a situação a persistência da inflação, da violência e a burocracia estatal a prejudicar o desenvolvimento dos serviços públicos. Não são problemas criados pelo chavismo, mas que continuaram nos últimos anos.

TRÊS
Havia certa tensão no ar nos jardins do palácio de Miraflores na noite quente deste domingo, em Caracas. As ruas estavam desertas e praticamente não havia bares ou restaurantes abertos. Cerca de duas mil pessoas aglomeraram-se à espera do resultado oficial do Conselho Nacional Eleitoral, que seria projetado em um telão.

Eram quase 23 h quando o órgão anunciou a totalização. 

O clima foi de espanto geral. A expectativa de um passeio não se concretizara.
Cinco minutos depois, um locutor anuncia a presença de Maduro. 

QUATRO
Maduro estava visivelmente na defensiva. Em 43 minutos, reafirmou varias marcas da campanha, denunciou planos desestabilizadores, exaltou Chávez, a Constituição e justificou o resultado eleitoral citando a vitória de George W. Bush em 2000. Lembrou que naquele processo – turvado por somas contraditórias em varias regiões da Flórida – a diferença fora também mínima. Chamou os presentes a cantar o hino nacional, voltou a denunciar a desestabilização, falou do socialismo, da democracia “protagônica”, alertou a oposição de que não deveria contestar a voz das urnas e tornou a falar de Chávez. 

Não parecia haver roteiro prévio. 

CINCO
Cotejando o resultado final com as pesquisas de dez dias atrás – as últimas que puderam ser divulgadas –, pode-se constatar que o candidato situacionista viu uma margem de até 12% de diferença apertar-se para 1%. Ou seja, Maduro estaria em queda e Capriles em ascensão. A derrota era um risco real para o governo, não considerada como hipótese séria em alguns de seus círculos.

SEIS
Henrique Capriles faz o que qualquer candidato em sua situação faria: esperneia. Pede recontagem dos votos e diz não reconhecer o resultado. Ficou por vários minutos na televisão, em coletiva com a equipe de campanha, a dizer que “o grande derrotado foi Maduro”, numa evidente forçação de barra.

Se Maduro não sair da defensiva, a argumentação de Capriles pode prosperar. A imprensa – venezuelana e internacional – aumentará o cerco, buscando deslegitimar o mandato do novo presidente. Não lhe dará folego algum.

SETE
As falas de Maduro na campanha – corretamente – se apoiaram no legado de Chávez e na história de seus mandatos, com especial destaque para o golpe de 2002. É importante, mas o presidente pouco comenta do futuro, dos planos, dos projetos. Tem seu farol apontado para trás, o que pode dificultar a criação de uma imagem própria para a população.

OITO
Em abril de 2002, três semanas após o golpe, vim pela primeira vez à Venezuela. No hotel em que me hospedei, perguntei a uma camareira como estava o país. Ela respondeu: “Quiseram quitar Chávez, pero no conseguiram. Chávez és nuestro y por iso no lo quierem”. A frase me espantou pela síntese. Os pobres queriam seu líder.

Corte. Onze anos depois, chego ao hotel onde estou hospedado na capital venezuelana. Pergunto ao rapaz que leva minha bagagem até o quarto em quem ele votaria. “Em Capriles, claro! Hay que cambiar”.

Entre os mais de sete milhões de votantes em Capriles, a maioria seguramente é constituída por pobres.

Olhando as planilhas de outubro passado, uma conclusão inicial pode ser feita (lembrando que Chávez teve 8.191.132 votos e Capriles 6.591.304).

Em seis meses, a oposição ganhou cerca de 680 mil votos, enquanto o governo perdeu ao redor de 700 mil. Pode ter havido uma migração de um lado para o outro.

Saber onde e por que isso aconteceu é vital para a continuidade e estabilização do governo Maduro.

NOVE
Os próximos dias e semanas serão um duro teste para o presidente Nicolás Maduro. Terá de enfrentar uma direita interessada em desestabilizá-lo e um cerco midiático avassalador. A situação obrigará também a uma reflexão e redefinição dos rumos e ritmos da ação governamental.

Por fim, há algo não pode ser colocado em xeque: Maduro ganhou.
Leva.
Democracia, como já dito, é assim.

* Artigo publicado originalmente no perfil do autor no Facebook, direto de Caracas.

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A edição 20 da revista Margem Esquerda: ensaios marxistas já está nas livrarias (em breve será lançada em ebook), com dossiê sobre a mídia contemporânea organizado por João Brant, incluindo artigo de Gilberto Maringoni (“A disputa pela regulação das comunicações na América Latina”).

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Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana (Editora Unesp, 2009) e Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910 (Devir, 2011). Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pela Boitempo Editorial na Coleção Marx Engels, como o Manifesto comunista.

Tremenda falta de assunto…

13.04.11_Izaías Almada_Tremenda falta de assuntoPor Izaías Almada.

Com uma direita boçal e uma esquerda anódina, o Brasil vai empurrando a crise e mantendo algumas conquistas sociais sobre o fio da navalha. Sabe-se que o exercício da política é um jogo delicado. Na maioria das vezes de cartas marcadas e com muitos jogadores viciados. Nem por isso, contudo, deve-se desprezá-la, mas – ao contrário – tentar ver o que é possível fazer para melhorar o país sempre que isso for possível. Mas o dia a dia é cruel e nele se misturam os interesses mais variados, prevalecendo a força da manipulação das ideias, o jogo ideológico das cadeiras, o dinheiro fácil sedimentando cada vez mais a hipocrisia, e a vaidade botando as manguinhas de fora em homens e mulheres que já foram mais sérios um dia.

Aliás, se a vaidade e a obsessão matassem, com certeza o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu discípulo José Serra já teriam ido dessa para a melhor há algum tempo… Que eles não se preocupem, entretanto – desejo-lhes vida longa. Ironicamente, FHC será o primeiro imortal nas letras que pediu para esquecerem tudo o que ele escreveu. E pensar que o país já produziu um Machado de Assis… A eleição do jornalista Amaury Ribeiro Jr. seria mais digna.

Nesses tempos bicudos, onde se vende muito gato por lebre, onde o título de “celebridade” é disputado a tapas por prostitutas inglesas, políticos e juristas emplumados e medíocres, padres pedófilos, jogadores de futebol publicitários e máfias do colarinho branco, europeias, sul e norte-americanas, onde o Oscar de melhor filme do ano é vencido por uma história que homenageia a CIA, penso que o melhor é divagar por outros assuntos e, quem sabe, lembrarmo-nos de algumas das verdadeiras celebridades, aquelas que merecem da humanidade alguns minutos de reflexão a sério.

Personalidades, quanto a mim, até merecedoras de um Prêmio Nobel da Paz, não tivesse essa própria honraria sido tão enxovalhada (se nos lembrarmos também de que Barak Obama é um de seus vencedores…).

Mas deixemos a intolerância, a ironia, a má vontade e a desconfiança de lado e acreditemos na boa vontade entre os homens aproveitando esse momento em que o mundo troca de papa, agora Francisco, que já deixou a presidente da Argentina embevecida com o seu beijo.

O valente soldado Bradley Manning abre com gala o desfile destas que são, de fato, verdadeiras celebridades. Mostrou para o mundo, em particular para os idiotas que repetem como papagaios os valores da “democracia norte-americana”, e não vêem como aquilo funciona entre a Califórnia e o Estado do Maine. Ou como é “exportada” para o resto do mundo. Para o Departamento de Estado norte-americano, a democracia não se conquista, se impõe (como no velho oeste mostrado no filme Django livre, do Tarantino). Com o uso da manipulação midiática ou pela força das armas: aqui sim, o cliente é livre para escolher. Pode-se iniciar o aprendizado em Miami, na Flórida, onde se encontra o maior número de mercenários ideológicos por metro quadrado. Todos a serviço das oligarquias de seus países de origem, do México à Patagônia.

Julian Assange [que lançou seu primeiro livro, Cypherpunks, pela Boitempo], outra grande personalidade que, por ser cidadão honesto e pronto a defender a humanidade dos belicistas e dos bárbaros modernos, cumpre pena de prisão domiciliar dentro da embaixada equatoriana em Londres. Viva a liberdade de expressão e a publicação das vergonhosas tramoias que se escondem em nome da democracia ocidental e cristã!

Hugo Chávez, com sua fisionomia que expressava – e bem – a mistura de duas raças (índios e negros) e que até o último minuto de vida enfrentou a barbárie que tem o seu ninho de répteis no hemisfério norte, branco e de olhos azuis. Esse homem tirou a sua querida Venezuela da miséria e da ignorância, enchendo-a de esperança e orgulho nacional, para desespero dos eternos exploradores e gigolôs do trabalho escravo e da mão de obra barata, bem como para os idiotas da subjetividade, tão disseminada entre “elites” caipiras que comem salame e arrotam caviar.

Rafael Correa, Evo Morales, Nelson Mandela aumentam aqui o pequeno rol de verdadeiras celebridades e que, por mais que façam o Departamento de Estado, a CIA, os quinta-colunas do jornalismo internacional, os analistas políticos e econômicos candidatos à boa vida neoliberal, não conseguem ser crucificados como gostariam os ventríloquos do moribundo neoliberalismo.

Feita essa divagação pela senda das verdadeiras e poucas celebridades do mundo contemporâneo, o que fica é uma tremenda falta de assunto, pois é cada vez mais difícil o diálogo com uma imprensa de mão única e que procura impor o seu ponto de vista através de um tacanho e oportunista conceito de liberdade de expressão. E agora com o apoio de uma parte necrosada do poder judiciário, celebridades menores ofuscadas pelo poder efêmero que julgam possuir.

O verdadeiro poder continua sendo o do povo, mas no Brasil poucos sabem disso. E os que sabem se dividem entre afoitos, puristas ou defensores de um pragmatismo que muitas vezes se confunde com a covardia. Pobre Brasil!

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.