A atualidade do Manifesto comunista

13.05.03_Ricardo Musse_A atualidade do Manifesto comunista_3Por Ricardo Musse.

No Manifesto do partido comunista, Marx e Engels apresentam, pela primeira vez, o mundo burguês como uma unidade contraditória entre fatores dinâmicos e invariância estática. O paradoxo de uma sociedade que não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção e, com eles, o conjunto das relações sociais é próprio do mundo moderno. Enquanto os antigos modos de produção assentavam-se, à maneira de uma tradição, na manutenção e conservação de relações fixas e cristalizadas, a sociedade burguesa se reproduz, mantendo-se idêntica, apenas ao preço de uma contínua transformação que, acarretando a obsolescência e uma incontrolável destruição de toda estrutura de produção existente em um determinado momento, subverte de forma incessante inclusive o cenário histórico e político.

Por razões conjunturais, Marx e Engels privilegiaram, nesse entrelaçamento, o aspecto dinâmico, a constância da transitoriedade, materializado na frase-emblema: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Muito do interesse e parte da recepção do Manifesto explicam-se por essa ênfase. Em períodos de estabilização e consolidação do capital, seja entre 1850 e 1870 ou no quase meio século que se estende de 1950 a 1989, o marxismo volta-se para a compreensão da estática imanente à dinâmica social, concebendo a sociedade como uma segunda natureza e debruçando-se sobre o sempre-igual de fenômenos como o fetichismo da mercadoria. Hoje, no entanto, quando o engessamento do capitalismo (provocado por uma conjunção especial de fatores: conflito entre blocos e guerra fria, estabelecimento nos países centrais de um Estado do bem-estar social, predomínio incontestável da hegemonia norte-americana) parece ter chegado ao fim, muito do que se diz no Manifesto volta a ter uma inesperada atualidade.

Isso não significa que a análise e a crítica do fetichismo da mercadoria e da “naturalização” da vida social deva ceder lugar a um retorno puro e simples às formas antiquadas de “luta de classe”. Muito pelo contrário, a ausência dessa crítica é que impede a superação de um padrão de contestação que se apresenta como movimentos internos do mundo moderno, isto é, como determinações inerentes à sociedade burguesa.[1] Mas, por outro lado, se é verdade – à luz da história dos últimos 150 anos – que as tentativas de emancipação do proletariado, seja na vertente dita “revolucionária”, seja nos quadros do “reformismo” ou ainda do anti-imperialismo terceiro-mundista, consagradas em conquistas efetivas do poder estatal, não foram além de variações do “socialismo de Estado” deixando intocada a premissa principal do capitalismo, a generalização da forma-mercadoria, nada assegura que a classe trabalhadora esteja condenada ontologicamente, de antemão, a repetir novamente essa trajetória. Se as formas históricas próprias desses ultrapassados movimentos de contestação ainda sobrevivem em meio à sua agonia e ao caos presente, salientado pela falta de perspectivas práticas, disso tampouco se pode inferir que o proletariado, em seu sentido amplo, tal como definido no Manifesto, seja uma carta fora do baralho na luta pela emancipação.

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O texto do Manifesto constitui-se pela combinação, quase sempre inextricável, de uma exposição concisa que se propõe a apresentar abertamente, “opondo-se à lenda do espectro”, a teoria do comunismo com o detalhamento de uma plataforma política do proletariado para uma revolução que Marx e Engels julgavam iminente e que de fato se desencadeou pouco menos de um mês após sua redação.

Essa conjunção de doutrina e programa, a simbiose entre conceito e história, a unidade de teoria e prática realiza, novamente pela primeira vez (impossível não destacar repetidamente o caráter inaugurador do texto), o projeto mais ambicioso da filosofia do idealismo alemão, enunciado por Fichte como a junção entre o a priori, o desdobramento lógico, e o a posteriori, a experiência do mundo real e que Hegel, na Fenomenologia do espírito – conforme a voz corrente na filosofia da época, dos jovens-hegelianos a Schopenhauer – apenas conseguira alcançar, retrospectivamente, para as formas do passado.

Mas não é só no terreno da filosofia, ao efetivar a exigência, reiterada no debate intelectual da década de 1840, de dar conta do presente histórico, que o Manifesto apresenta inovações. Além de contribuições no campo da sociologia (a teoria das classes sociais) e da economia (embora aqui ainda esteja ausente um ponto central do arcabouço – a teoria marxista do valor), o Manifesto inaugura ainda, de acordo com a opinião insuspeita de Schumpeter, a interpretação econômica da história e a teoria moderna da política.

O gesto inaugural ou a introdução de avanços em disciplinas aparentemente tão díspares – que dificilmente poderá, por conta da superespecialização hoje vigente no trabalho intelectual, ser repetido por um outro livro – explica-se facilmente por um círculo virtuoso. Marx renovou a história porque conhecia bem economia, revolucionou a política porque conhecia a história como poucos, reinterpretou criticamente a economia graças aos seus conhecimentos de política e de história etc.

Não se pode dizer o mesmo, porém, do processo de disseminação que tornou o marxismo um fenômeno mundial a partir da última década do século XIX. Como a divulgação se fez prioritariamente pela via da esquematização, a difusão acarretou o empobrecimento tanto do conteúdo quanto do método. Não foi só o retalhamento do legado de Marx e Engels em partes e disciplinas estanques por obra do anseio enciclopédico da época e pela posterior incorporação, em separado, de algumas descobertas do marxismo pelo mundo acadêmico burguês. O próprio Engels, apenas cinco anos depois da morte de Marx, acrescentou ao Manifesto, na edição inglesa de 1888 e, depois na edição alemã, uma série de notas explicativas, presentes em todas as edições e traduções posteriores, que dissociam conceito e história. A primeira nota, por exemplo, adendo ao título da primeira parte – “Burgueses e proletários” – define logicamente estas duas classes por sua posição em relação à propriedade dos meios de produção. Já o texto do Manifesto expõe esses conceitos por meio de uma síntese da história moderna que destaca o processo de formação de cada classe e a conexão entre elas, o antagonismo que as envolve numa luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta.

A súmula do mundo moderno, pequeno esboço de história universal, que o Manifesto apresenta em poucas páginas, dotada de um impressionante poder de compreensão e síntese, constitui a primeira aplicação e exposição pública da concepção materialista que Marx e Engels haviam desenvolvido num manuscrito, A ideologia alemã, até 1932 abandonado a “crítica roedora dos ratos”. O Manifesto além de retomar, sob a forma de drásticos resumos, passagens inteiras desse manuscrito, concretiza a ideia, ali apenas enunciada, de uma história que não separa nem distingue os aspectos econômicos, sociais ou políticos.

Essa teoria da história se propõe a combater o ponto de vista de um “assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano” pela observação das relações materiais. Seu fio condutor foi posteriormente condensado por Marx nos seguintes termos: “na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes…” (Prefácio a Contribuição à crítica da economia política).

O travamento no desenvolvimento das forças produtivas (a ausência de crescimento), a contradição entre relações sociais existentes manifestam-se sob a forma de crises. As relações burguesas tornaram-se estreitas demais para conter a riqueza colossal que a própria burguesia despertou no seio do trabalho social por meio da exploração do mercado mundial. As medidas protelatórias, segundo Marx e Engels, apenas preparam crises mais gerais e violentas.

A partir desse cenário o Manifesto fez uma dupla aposta. Primeiro, sustentou a hipótese, que se revelou verdadeira, de que a crise levaria a uma revolução social que varreria do mapa europeu os velhos regimes. Equivocou-se, porém, na previsão de que o desenvolvimento do capitalismo avançara a ponto de tornar possível uma vitória definitiva do proletariado. Em 1850, Marx e Engels reconhecem, no último artigo de As lutas de classes na França, que a perspectiva de uma continuação do processo revolucionário estava inviabilizada pela retomada, após a crise de 1847, da prosperidade industrial.

O desfecho das revoluções de 1848 – na França marcado pelo golpe de Estado de Luís Bonaparte em dezembro de 1851 –, que levou Marx a se exilar na Inglaterra e a se dedicar, por longos anos, apenas à redação de O capital, modificou profundamente a visão de Marx e Engels acerca do papel da burguesia. Sua capacidade em se acomodar, quando preciso, com setores da aristocracia fundiária e com a burocracia monárquica, desfizeram a impressão, amplificada pelo Manifesto, de que se tratava de uma classe eminentemente revolucionária, apta a “criar o mundo à sua imagem e semelhança”. Desde então, a burguesia passa a ser vista como uma classe contrarrevolucionária, trazendo para o primeiro plano seu conflito com o proletariado.

Muito se criticou a teoria de classes do Manifesto, o substrato da famosa afirmação que abre o livro, “a história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes”, principalmente a simplificação dos antagonismos em dois grandes campos inimigos: burguesia e proletariado. Quando se atém, porém, ao núcleo da determinação do conceito de proletário, à condição de homens que são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, sujeitos às vicissitudes da concorrência e às flutuações do mercado, como negar, ainda hoje, a veracidade e a pertinência dessa teoria?

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Os problemas do Manifesto e, por extensão, do próprio marxismo surgem na determinação da consciência de classe, e portanto, no delineamento da atuação política do proletariado. O processo de formação da classe proletária que o Manifesto descreve, das lutas isoladas a organização em associações permanentes e em coalizões anti-burguesas, a conversão das lutas locais em uma luta política nacional, é impecável. Porém, a expectativa de Marx e Engels de que o incremento de dois fatores dissonantes – o empobrecimento do proletariado por causa da concorrência entre os proletários por trabalho e o aumento do seu poder social por conta da concentração industrial – conduzisse à revolução proletária não se mostrou factível.

Poderes e capacidades estatais diferenciadas conduziram, por meio de um complexo processo de inovação e restruturação permanentes, a substanciais diferenças espaciais.[2] Nos países centrais do capitalismo, ao longo destes 150 anos, o poder social do proletariado foi significativamente ampliado, como se pode constatar pelo estado de bem estar social ali construído. Já na periferia e na semiperiferia, a crescente penúria das massas proletarizadas possibilitou que organizações que reivindicavam a herança marxista conquistassem o poder estatal como plataforma para programas de industrialização.

Após 1968-1973, no entanto, esses dois fatores dissonantes, que sempre correram paralelos – criando o contrassenso de um forte poder social proletário avesso ao marxismo e de estados e organizações alheios aos interesses do proletariado formalmente marxistas – aproximam-se cumprindo, talvez pela primeira vez, o prognóstico do Manifesto. Enquanto surgem no núcleo orgânico amplas camadas proletárias sujeitas ao empobrecimento (principalmente entre a força de trabalho feminina ou imigrante), intensificam-se nas regiões periféricas e semiperiféricas do Leste Asiático, do Leste Europeu, da América Latina e mesmo da África Austral o poder social da classe trabalhadora.

Na medida em que a retomada do mercado mundial tende cada vez mais a conjugar as premissas que o Manifesto colocou como indispensáveis para a revolução socialista, acarretando uma crescente perda de legitimidade da burguesia, as organizações marxistas tradicionais, paradoxalmente, passam a constituir hoje o último entrave para um revivescimento mundial da luta proletária.

Quem examina o Manifesto procurando um caminho para essa retomada, certamente não vai encontrar lá respostas prontas ou um repertório doutrinário de programas. Mas se pode aprender muito com o seu caráter aberto. Ele, em lugar de esmiuçar uma teoria sistemática do partido, com regras e critérios de estruturação e funcionamento, toma o conceito de partido, que agrega no nome Manifesto do partido comunista, como uma extensão da classe determinando, na fórmula de Claudín não “o partido do proletariado, mas o proletariado como partido”. Em vez de uma definição peremptória do modelo de uma sociedade socialista, oferece poucas, breves e vagas indicações (destacando, porém, que a revolução social também significa, nos termos de 1968, “mudar a vida”) à espera de que o desaparecimento do antagonismo entre as classes, do fetichismo da mercadoria e do predomínio do interesse monetário, por si sós, ajude a delinear os contornos de uma forma social mais justa.


Notas:

[1]Cf., por exemplo, Immanuel Wallerstein. O capitalismo histórico (São Paulo, Brasiliense, 1985) ou Robert Kurz. Os últimos combates (Petrópolis, Vozes, 1997).

[2] Para o que segue cf. Giovanni Arrighi “Século Marxista, Século Americano”. Em: A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis, Vozes, 1997.

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Manifesto comunista é o primeiro título da coleção Marx e Engels da Boitempo e já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso nas livrarias Travessa, Saraiva e Gato Sabido.

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No dia 8/5, José Paulo Netto, ministrará a aula “A relevância e atualidade do Manifesto Comunista” no IV Curso Livre Marx-EngelsAs aulas sobre o Manifesto comunista na primeira e terceira edição do curso foram ministradas, respectivamente, por Francisco de Oliveira e Osvlado Coggiola:


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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

A Igreja e seus achaques

13.05.02_A Igreja e seus achaques_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Li estarrecido a notícia sobre a excomunhão de um padre em Bauru, no interior de São Paulo, por ter ele defendido homossexuais e condenado as atitudes retrógradas da Igreja Católica em relação a sexo. Diz o juiz instrutor do caso que a decisão de excomungá-lo não teve por base o apoio aos gays, mas sim a sua recusa em obedecer às autoridades da Igreja.

Seja como for, o caso entra para o passivo da Igreja, que terá de prestar contas perante o Criador no dia do Juízo Final ou outra circunstância parecida.

Porque não dá para deixar de sublinhar o rigor desta medida cavernosa diante da indulgência com que a hierarquia católica tratou, até agora, os casos de pedofilia e de outras barbaridades cometidas nas barbas, não do Profeta, mas dos Santos Papas, se eles as tivessem, como alguns já tiveram bem antigamente.

Esquece a hierarquia da Igreja a palavra do próprio Cristo, através do evangelista: “Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos.” (Lucas, 17, 1-2).

Fico imaginando o que aconteceria se o meu livro A Bíblia segundo Beliel caísse nas mãos de um juiz destes. Certamente eu e o Beliel iríamos para o beleléu.

Decididamente a Igreja está precisando de um choque de gestão. Conseguirá dá-lo o Papa Francisco I? Não sei. Recentemente ele apontou uma espécie de Conselho Episcopal, composto por cardeais dos cinco continentes, como uma espécie de grupo auxiliar para auxiliá-lo na administração (faxina, eu diria) da Igreja.

Haverá remédio para a Santa Madre? Bom, é verdade que, apesar das cruzadas da direita vaticana e opusdêica contra, por exemplo, a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base, estas continuam e, por debaixo dos panos eclesiásticos passam bem, obrigado. Estão, é verdade, numa espécie de clandestinidade obsequiosa. Mas não desapareceram.

É difícil coisas desaparecerem na Igreja. Certa vez meu querido (e infelizmente ido) amigo Eder Sader me contou um episódio, sobre um encontro que ele assistiu na sede do Cebrap, com sociólogos, antropólogos, teólogos, religiosos, etc. sobre os destinos da Santa Madre. Disse-me ele que um dos presentes defendia a tese de que o acontecia com as CEBs no Brasil e na América Latina era o que havia de mais importante para definir os destinos da Igreja no próximo milênio. “Flávio”, me disse ele, arregalando os olhos como fazia nessas ocasiões, “eles pensam em milênios!”…

É verdade, penso até hoje. O tempo eclesiástico é de outra dimensão, assim como o do Criador, de certo modo, é o da eternidade. Esta é uma outra razão para meu pensamento que pode ser herético, mas não é desrespeitoso. Exatamente por ser seu tempo o da eternidade, é que o Criador teve que se dedicar a tirar do tudo (ou do nada, para alguns) a Criação, e dentro dela o ser humano. É porque na eternidade não há prazer. Esta é uma das razões por que, por exemplo, o Zeus grego ficava procurando as humanas gostosas, ao invés de ficar apenas com a insípida Hera. Era para ver se ele conseguia pelo menos vislumbrar o que era o prazer, porque o prazer só é prazer porque acaba. O prazer é umbilicalmente ligado à sensação de finitude.

E esta é uma das dimensões do gigantesco erro em que a Santa Madre incorre ao defender coisas como a castidade, a querer proibir o direito ao aborto (não que eu seja indiscriminadamente a favor do aborto, mas sou sim contra a sua criminalização), ao atacar a opção das pessoas do mesmo sexo que se amam, etc. Porque isto parte de uma ideia de negação do prazer, que é uma das dimensões que, através da Criação, o Criador (ou o Big Bang, para os íntimos da religião científica) ou seja lá quem for ou que nome se lhe atribua, entregou, como dádiva, aos seres que a povoam, desde as amebas até o ser pensante que julgamos ser.  

Durma-se com uma excomunhão dessas! Ou com as duas – a do padre de Bauru e a do prazer.

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A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

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Confira o Booktrailer do livro abaixo:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Esse cara é Roberto Carlos

13.04.30_Urariano Mota_Esse cara é o Roberto CarlosPor Urariano Mota.

Esta semana, no ônibus, me veio de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? E outras perguntas semelhantes: qual canção, quais canções, que compositor seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril? E não sei se por acaso, ou se por felicidade do acaso, no rádio do ônibus começou a tocar:

“Meu amor está tão longe de mim
Meu bem não seja tão ruim
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor

Diga que você não me esqueceu
E que o seu coração ainda é meu
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor

O beijo que você me deu
Eu guardo até hoje o calor
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor”

Essa canção me fez lembrar, como num estalo, que Roberto Carlos foi o compositor mais representativo daqueles anos. Não sei se conseguirei me fazer entender.

Quando falamos em música e 1964, a associação imediata aos anos de ditadura é sempre a dos grandes compositores que, contra o golpe militar, se viram metidos num embate. Então nos lembramos de imediato de Chico Buarque, de Geraldo Vandré. Fica mal com Deus quem assim não se lembrar. Mas a associação imediata é sempre a da superfície. O imediato sempre vem ao que estamos acostumados por tradição, por uso, e até por força da lei do menor esforço. Lembrar de fato é mergulhar, reviver, viver, entrar de volta na pele daqueles anos. Quando assim mergulhamos, quando voltamos a ser aquele rapazinho magriço em 1965

“Meu amor está tão longe de mim
Meu bem não seja tão ruim
Escreva uma carta, meu amor
E diga alguma coisa, por favor …”

Essa voz suave que nos chega abre espaço para uma segunda voz, que nos sopra “o diabo não tem chifres”. Entendam. Sabemos, claro, que a lembrança mais funda de uma época vem misturada a pó, a disfarces. A lembrança mais funda pode não ser a época objetiva. Mas o que será mesmo a realidade objetiva sem a apreensão dela por um homem? Quero dizer, o que há mesmo de objetivo na beleza de um rio sem olhos que o vejam? Dizem-nos “se os teus olhos se fecharem, o rio continuará lá, independente dos teus olhos. Isto é objetivo”. Ao que respondemos, para que mesmo serve esse rio objetivo sem olhos que bebam a sua beleza? Água em si não é bela. É líquido, fórmula química, fria natureza. Então voltamos. A gente sabe que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com todos os rádios, em todos os lugares, tocando

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem e eu estou a lhe esperar
só tenho você no meu pensamento
e a sua ausência é todo meu tormento
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno

De que vale a minha boa vida de play boy
se entro no meu carro e a solidão me dói
onde quer que eu ande, tudo é tão triste
não me interessa o que de mais existe
quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
quero até morrer do que viver assim
só quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno.”

A gente sabe. Então vêm perguntas dos resistentes velhinhos do fã-clube do Rei: “Fazer sucesso naqueles anos da ditadura é o mesmo que ser o compositor da ditadura? Por acaso a música do Rei saía da boca dos generais? Roberto Carlos tem culpa de ter sido um sucesso estrondoso em 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73…?”. Por esse critério, reconhecemos, arrastaríamos todos os grandes sucessos desses anos, e diríamos que seus autores foram e são por isso culpados. Então entendam, por favor, que o sucesso não é o critério – embora, forçoso é dizer, possa oferecer uma pista daqueles anos. Para melhor compreensão, nos aproximemos de 1965.

Quando Roberto Carlos cantou em todos os rádios do Brasil, ele veio dentro de um projeto, de um programa que arrebentou em 65. “Em 1965, estreou ao lado de Erasmo e Wanderlea o programa Jovem Guarda, que daria nome ao movimento”, dizem as notas. O Jovem Guarda se opunha ao O Fino da Bossa, com Elis Regina. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha guarda do samba e os compositores de esquerda, de convicções socialistas, o Jovem Guarda

“Eu vou contar pra todos a história de um rapaz
que tinha há muito tempo a fama de ser mau
seu nome era temido sabia atirar bem
seu gênio violento jamais gostou de alguém

E ninguém jamais viveu pra dizer
que o contrariou sem depois morrer
nos duelos nem piscava,
no gatilho ele era o tal
todos que o desafiavam
tinham o seu final…”

ou

“Quem não acreditar
venha ver a multidão
que com ela quer dançar
ela adivinha que eu
estou sofrendo
também querendo
com ela dançar…”

“O Rei, o Rei não tem culpa…”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa…”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não tem culpa de fazer o medíocre, que falava aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, certamente, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal há em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? Certo, Roberto Carlos não tem culpa de não compor algo como

“Tristeza não tem fim,
felicidade, sim.

A felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar
voa tão leve, mas tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar…”

Certo, compreendemos, ninguém é louco de pedir ao Rei o impossível. Certo, concordamos que ele não tem culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles, de macaquear em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool. Toucas, acordes “jovens”, vestuário, um arrebentar de norte a sul do Brasil, que mal há? Claro que não há mal. Mas…

Meus amigos, chega de rodeios. Tentemos atingir a raiz, o específico. Vamos adiante, pois começaremos por dizer: em relação à música popular, o que caracterizou a ditadura militar no Brasil foi o veto, a censura absoluta a qualquer alusão política nas letras. O veto, o corte, o mutilar a canção por qualquer insinuação política foi ampliado até a mais leve crítica a qualquer aspecto social ou físico da paisagem brasileira. Tinham passagem pelo apertado funil, ou melhor, eram bem-vindas as canções mais ufanistas como

“As praias do Brasil ensolaradas,
o chão onde o país se elevou,
a mão de Deus abençoou
mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O céu do meu Brasil tem mais estrelas,
o sol do meu país mais esplendor.
A mão de Deus abençoou,
em terras brasileiras vou plantar amor.

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil.
eu te amo, meu Brasil, eu te amo!
Ninguém segura a juventude do Brasil…” (Don e Ravel)

É sintomático em Roberto Carlos a passagem de cantor da juventude, da jovem guarda, para cantor “romântico”. Essa passagem se dá na medida em que os jovens de todo o mundo deixam de ser apenas um mercado de calças Lee e Coca-Cola, e passam a explodir em protestos contra a guerra do Vietnã, até mesmo em festivais de rock, como em Woodstock. Ou, se quiserem numa versão mais brasileira, o Rei Roberto se torna um senhor “romântico” na medida mesma em que as botas militares pisam com mais força a vida brasileira. Ora, nesses angustiantes anos o que compõe o jovem, o ex-jovem, que um dia desejou que tudo mais fosse para o inferno? – Os títulos dizem bem: Eu te amo, te amo, eu te amo, As canções que você fez pra mim, As flores do jardim da nossa casa, e, claro, para que não me vejam má vontade, Sua Estupidez:

“Meu bem, meu bem,
você tem que acreditar em mim
ninguém pode destruir assim
um grande amor …”

É claro, já se vê que a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se dá pelo envelhecimento do seu público. Ora, de 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5 correm sangue e enfurecimento da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo. Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é “Vista a roupa, meu bem” (e vamos nos casar). Ora. Se fizéssemos um gráfico, se projetássemos curvas de repressão política e de “romantismo” de Roberto Carlos, veríamos que o ápice das duas curvas é seu ponto de encontro. O que é uma coincidência, quero dizer, os dois pontos coincidem.

O namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância. Não sei se me explico bem. O Rei Roberto não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição. O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam. Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que realçavam o mundo ordenado pelo regime. Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibia-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que faz o nosso Rei? O Rei irrompe com uma canção que é um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, o Rei ora:

“Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui
olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando
olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando
como essa nuvem branca, essa gente não sabe aonde vai
quem poderá dizer o caminho certo é Você, meu Pai

Toda essa multidão tem no peito amor e procura a paz
e apesar de tudo a esperança não se desfaz
olhando a flor que nasce no chão daquele que tem amor
olho pro céu e sinto crescer a fé no meu Salvador….”

Isso foi em 1971. Depois, o Rei Roberto, em sua experiência internacional, manteve a velha coerência. Olhem as gracias que ele rendeu ao ditador Pinochet aqui:

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Em 2004, a Boitempo Editorial publicou uma análise social e ao mesmo tempo emotiva da obra e trajetória de Roberto Carlos – Como dois e dois são cinco: Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa), de Pedro Alexandre Sanches. Disponível nas livrarias e, em breve, em ebook!

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

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A Boitempo realiza uma promoção especial em comemoração ao Dia Internacional do Trabalhador de 29 de abril a 1º de maio de 2013, na compra feita diretamente com a editora, de livros da coleção Mundo do Trabalho, que poderão ser adquiridos com 40% de desconto.

Com coordenação de Ricardo Antunes, a coleção Mundo do Trabalho reúne estudos sobre o trabalho e sua centralidade, análises do sindicalismo, questões de gênero e o impacto das transformações trazidas pela globalização. São leituras essenciais para a reflexão acerca do mundo do trabalho, abordando seu passado, presente e formulando perspectivas para o futuro.

O contato para a compra dos livros com desconto deve ser feito para o e-mail vendas01@boitempoeditorial.com.br, com o assunto “Promoção Mundo do Trabalho”. O pedido deve conter o endereço completo (com CEP) para cadastro como cliente e cálculo do frete (para pedidos abaixo de R$ 150,00 líquido), além do número do RG e CPF. Nas compras acima de R$150,00 o frete será grátis para todo o país. O pagamento será feito por meio de depósito em conta corrente a ser posteriormente informada. Interessados em pagar com cartão de crédito devem entrar em contato por telefone (11 3875-7285) e procurar por Thiago Freitas no horário das 9h às 18h. A promoção está sujeita à disponibilidade dos livros em estoque. Caso o título solicitado esteja em falta, o comprador será informado antes da conclusão do pedido.

Somente e-mails com os dados completos serão respondidos.

Relação dos livros com desconto:

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição, de István Mészáros – R$61,20

Estrutura social e formas de consciência I: a determinação social do método, de István Mészáros – R$29,40

Estrutrura social e formas de consciência II: a dialética da estrutura e da história, de István Mészáros – R$33,60

O desafio e o fardo do tempo histórico, de István Mészáros – R$34,80

A crise estrutural do capital, de István Mészáros – R$15,00

A educação para além do capital, de István Mészáros – R$15,00

Filosofia, ideologia e ciência social, de István Mészáros – R$24,60

O poder da ideologia, de István Mészáros – R$48,00

O continente do labor, de Ricardo Antunes – R$21,00

Infoproletários: degradação real do trabalho virtual, de Ricardo Antunes e Ruy Braga (orgs.) – R$26,40

Trabalho e dialética: Hegel, Marx e a teoria social do devir, de Jesus Ranieri – R$20,40

Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório, de Giovanni Alves – R$21,60

A máquina automotiva em suas partes: um estudo das estratégias do capital na indústria de autopeças, de Geraldo Augusto Pinto – R$22,80

O emprego no desenvolvimento da nação, de Marcio Pochmann – R$22,80

Mais trabalho!, de Sadi Dal Rosso – R$19,20

Forças do trabalho: movimentos de trabalhadores e globalização desde 1870, de Beverly J. Silver – R$24,00

Linhas de montagem: o industrialismo nacional-desenvolvimentista e a sindicalização dos trabalhadores, de Antonio Luigi Negro – R$27,00

A década neoliberal e a crise dos sindicatos no Brasil, de Adalberto Moreira Cardoso – R$24,60

Retorno à condição operária: investigação em fábricas da Peugeot na França, de Stéphane Beaud e Michel Pialoux – R$39,00

A desmedida do capital, de Danièle Linhart – R$21,60

O roubo da fala: origens da ideologia do trabalhismo no Brasil, de Adalberto Paranhos – R$20,40

Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira, de Marcio Pochmann – por R$ 19,20

A obra de Sartre: busca da liberdade e desafio da história, de István Mészáros – R$ 32,40

A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, de Ruy Braga – R$ 23,40

Da grande noite a alternativa, de Alain Bihir – por R$ 25,20

Nova divisão sexual do trabalho, de Helena Hirata – R$ 27,60

O emprego na globalização, de Marcio Pochmann – R$ 19,80

O século XXI: socialismo ou barbárie?, de István Mészáros – R$ 19,20

Shopping Center: a catedral das mercadorias, de Valquíria Padilha – R$ 21,00

Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência

13.04.25_Mauro Iasi_Senso comum e conservadorismoPor Mauro Iasi.

Um dos mitos da estratégia democrática popular é o acumulo de forças. A ideia geral é que por não haver condição de rupturas revolucionárias, nem correlação de forças por mudanças estruturais no sentido do socialismo, a democratização da sociedade e as reformas graduais iriam criando as bases políticas para o desenvolvimento gradual de uma consciência socialista de massa.

No 5o Encontro Nacional do PT em 1987, o problema é colocado da seguinte maneira: certos companheiros não distinguem entre as ações ligadas ao acumulo de forças daquelas voltadas diretamente à conquista do poder, não entendendo, segundo o juízo dos formuladores, a diferença entre o “momento atual, (…) em que as grandes massas da população ainda não se convenceram de que é preciso acabar com o domínio político da burguesia, e o momento em que a situação se inverte e se torna possível colocar na ordem do dia a conquista imediata do poder”.

O resultado desta incompreensão seria que os “pretensamente revolucionários” não seriam entendidos pela população e pelos trabalhadores contribuindo, assim, de fato para a “desorganização das lutas” ficando condenados a “pequenos grupos conscientes e vanguardistas”.

Bem, o centro deste argumento que contrapõe os pretensos revolucionários aos verdadeiros seria que estes últimos teriam a capacidade de dialogar com a consciência imediata das massas e dos trabalhadores criando a mediação necessária para elevá-la à compreensão da necessidade da conquista do poder.

Nada como uma década depois da outra para julgarmos as pretensões anunciadas. A prova da validade ou não de tal formulação deve ser buscada na seguinte pergunta: após dez anos de governo petista os trabalhadores estão hoje (considerando como ponto de referencia 1987 e o 5o Encontro do PT) mais organizados e se desenvolveu uma consciência de classe que coloca de forma mais evidente a necessidade de conquista do poder “acabando com o domínio político da burguesia”?

Comecemos pela expressão maior dessa estratégia e seu líder incontentável: Luis Inácio Lula da Silva. Como operário ele expressava no início de sua trajetória política os elementos evidentes do senso comum, nos termos gramscianos, ou de uma consciência reificada nos termos de Lukács. Em seu discurso de posse no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975, dizia que vivíamos em um momento “negro” para o destino dos indivíduos e da humanidade, porque tínhamos “de um lado” o homem “esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia marxista, tolhido nos seus mais comezinhos ideais de liberdade”, e de outro lado, tínhamos o homem “escravizado pelo poder econômico explorado por outros homens” (Discurso de Lula na posse do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e Diadema, 1975).

As mudanças na consciência dos trabalhadores não vêm da autodescoberta ou do esclarecimento, são o resultado de sua inserção na luta de classes. As lutas operárias do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 colocariam novos elementos à consciência deste operário em construção.

Em seu discurso na 1a Convenção Nacional do PT em 1981, Lula já diria: “O PT não poderá, jamais, representar os interesses do capital”.  Em outra parte do mesmo discurso o líder em formação afirmaria:

“Nós, do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os trabalhadores que tomaram a iniciativa histórica de propor a criação do PT já sabiam disso muito antes de terem sequer a ideia da necessidade de um partido (…). Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso sentimos na própria carne e queremos, com todas as forças, uma sociedade (…) sem exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista”
(Discurso de Lula na 1a Convenção Nacional do PT, 1981).

Os trabalhadores, no momento de fusão que os constituía em classe contra o capital, expressavam a difícil passagem da consciência reificada à consciência em si, apontando já neste momento os germes de uma consciência para si, ou seja, mais que a consciência de uma classe da ordem do capital, mas uma classe portadora da possibilidade de uma nova forma societária para além da sociedade burguesa.

As lutas operárias, assim como o retomar de um conjunto muito amplo de lutas sociais, tornaram possível um salto organizativo que resultou na formação de um partido e, depois, de uma central sindical, da mesma forma que se alastra pela sociedade a retomada de associações, movimentos sociais e lutas das mais diversas.

Façamos um corte e pulemos para uma entrevista em que Lula recebe o repórter do programa norte americano 60 minutes por ocasião do final de seu segundo mandato como presidente.

Nesta entrevista o repórter norte americano pergunta ao ex-presidente:

“Havia empresários, no Brasil e no exterior, muito preocupados com sua posse, que pensavam que era um socialista e que daria uma virada completamente à esquerda. Agora estas pessoas são seus maiores apoiadores. Como isso aconteceu?”

E Lula responde:

Veja, eu de vez em quando brinco que um torneiro mecânico com tendências socialistas se tornou presidente do Brasil para fazer o capitalismo funcionar.  Porque éramos uma sociedade capitalista sem capital. E se você olhar para os balanços dos bancos neste ano (final do segundo mandato de Lula) verá que nunca antes os Bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil como eles ganharam no meu governo. E as grandes montadoras nunca venderam tantos carros como no meu governo. Mas os trabalhadores também fizeram dinheiro.

O repórter um tanto surpreso pergunta: “Como você consegui fazer isso?”. E Lula responde: “Eu descobri uma coisa fantástica. O sucesso do político é fazer o que é óbvio. É o que todo mundo sabe que precisa ser feito, mas que alguns insistem em fazer diferente”.

Notem bem, Lula expressava entre 1975 e 1987 o movimento da consciência de classe que passava de uma determinação da alienação à consciência de classe em si. Da mesma forma fica manifesto na consciência de sua liderança mais expressiva o caminho de volta à reificação.

O problema é que a consciência expressa na liderança é representativa do resultado político da estratégia por ele implementada no conjunto da classe e em sua consciência. Como a consciência em seu movimento é síntese de fatores subjetivos e objetivos, a ação política da classe conformada por uma estratégia incide diretamente sobre a classe e sua formação enquanto classe.

Em sua análise sobre a social-democracia, Adan Przeworski (Capitalismo e Social-democracia, São Paulo: Cia das Letras, 1989) afirma que:

“A classe molda o comportamento dos indivíduos tão-somente se os que são operários forem organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como operários, e sim como “as massas”, o “povo”, “consumidores”, “contribuintes”, ou simplesmente “cidadãos”, os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe.” (Przeworski, 1989:42).

O mito do acumulo de forças só se sustenta renovando-se ao infinito, isto é, nunca estamos prontos, nunca há a correlação de forças favorável, nunca o nível de consciência das massas e dos trabalhadores chega à necessidade da conquista do poder. O problema é que agindo desta forma criam-se as condições para que de fato nunca estejam dadas as condições.

No entanto, a questão é ainda mais séria. Os defensores do acumulo de forças acreditam piamente que os patamares de consciência não regridem, isto é, a consciência de classe desenvolvida nos anos oitenta e noventa ficaria ali no ponto onde chegou e iria se tornando massiva em consequência do andamento positivo das ditas reformas. Nesta leitura, se ainda não temos uma consciência revolucionária, que já coloca a necessidade da conquista do poder, teríamos a generalização gradual de uma consciência em si, digamos democrática, disposta a manter o patamar das conquistas e reagir quando estes estão ameaçados.

Não é o que verificamos. A consciência expressa na liderança revela que o conjunto da classe retoma um patamar que Sartre denominava de serialidade e ao qual corresponde a consciência reificada. Esta é a consciência da imediaticidade, da ultrageneralização, do preconceito, da perda do capacidade de vislumbrar, ainda que potencialmente,  a totalidade.

Presos a esta forma de consciência, os trabalhadores não agem como uma classe nos limites da ordem do capital em luta contra suas manifestações mais aparentes e, pior, eles a naturalizam e se comportam como agentes de sua reprodução e perpetuação desta ordem.

O senso comum reflete este movimento e é no cotidiano que ele se manifesta. Se podíamos falar de um senso comum progressista, ou tendencialmente de esquerda, no contexto de intensificação da luta de classes na crise da autocracia burguesa e no processo de democratização, hoje no quadro de uma democracia de cooptação consolidada temos um senso comum que tende a ser conservador e, por vezes, reacionário.

Permitam-se um exemplo caseiro, mas creio que significativo. Lincoln Secco escreveu um texto sobre a situação da Coréia do Norte em nosso blog (Kim Jong-un 17/04/2013). Um comentador simplesmente respondeu com um direto “vai morar lá”, mas deixemos este de lado. Destaco dois comentários mais substanciosos e que revelam uma forma de compreensão do mundo atual e seus dilemas:

“Olha, até pouco tempo tinha raiva dos EUA pela sua indústria cultural, sua arrogância, sua intromissão em assuntos de outras nações, etc. Entretanto, depois de conhecer o país e seu povo, mudei completamente minha concepção. Os caras são os “caras” porque trabalham duro, estudam bastante e são muito educados e politizados. O fazem mundo afora é conhecido na natureza como a lei do mais forte. Queria eu morar num país que dita as regras aos outros e ninguém tira farinha. Além disso, em pleno século XXI, os norte coreanos são tratados como um rebanho e não como cidadãos livres. Abaixo o apoio ao totalitarismo, como ocorre por lá!!!”

Um outro, mais duro, afirma:

“kkkkkkkkkkkkkkkkk . País sitiado? por quem? Paranoicos, malucos mesmo, todos eles, o “estadista mirim”, o “professor” que assina esta bobagem. Veja bem, a lição de história pode até ser boa, talvez o que o trai sejam as convicções políticas… o tempo passou e eles não perceberam… O Presidente dos Estados Unidos, já é Obama, viu pessoal…Ameaça do Ocidente? Para quem? Despertem deste “sono” louco, sejam felizes, ou não, mas, deixem de loucura! Vivemos num mundo diferente do das “cartilhas” que vocês estudam!!!”.

Não vou entrar no mérito, não guardo nenhuma simpatia pela forma política norte coreana, mas em seu núcleo central o texto do companheiro Lincoln, apenas afirma que existe um espaço de soberania dos Estados nacionais e que estes tem direito de se defender, o que o leva a constatação que não são eles que provocam e atacam, mas ao contrário, estão sendo provocados por “exercícios militares” que partem dos EUA. Como explicar tal reação?

Não vai aqui nenhuma consideração aos comentadores, eles tem direito de expressar sua opinião, concordemos ou não. Um blog tem de tudo e tais comentários o deixam ainda mais interessante. O que nos preocupa é que ele revela, e isto é uma virtude, um elemento do senso comum que indica uma preocupante guinada conservadora, mesmo em relação a valores mais elementares, e isso em um leitor de um blog de uma editora com uma linha claramente de esquerda em um pais que está há dez anos “acumulando forças”.

Podemos ver este fenômeno como um resquício ou uma exceção em um senso comum que tende a ser mais progressista. Infelizmente eu acredito que não. A forma do senso comum é resultado de toda a história da formação social, sua resultante cultural, a permanência das relações sociais de produção burguesas, mas também do processo político mais recente que como toda práxis pode superar ou reforçar o existente. No caso reforçou.

Lembrando ainda Przeworski, sabemos que a chamada organização das massas precisa ser compreendida de forma mais profunda. Não há uma relação direta entre organização e ação, é possível organizar para apassivar. Diz o autor:

“Os líderes tornam-se representantes. Massas representadas por lideres – eis o modo de organização da classe trabalhadora no seio das instituições capitalistas. Dessa maneira, a participação desmobiliza as massas” (Przeworski, 1989: 27).

É triste.


***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Boletim Boitempo: Imprensa e poder

Boletim Cabeceira

De 23 a 30 de abril de 2013

Destaque

O capital
Livro I

Karl Marx

Em breve em e-book.

Um livro capital.
Por João Paulo Cunha, Lucilia Delgado, Hugo Cerqueira e Frederico Rick.
O Estado de Minas – Capa – Pensar – 20 de abril de 2013.

“Vencidas as 900 páginas do primeiro volume, o leitor certamente entenderá melhor o mundo em que vive. Mas o maior mérito do livro, independentemente da radiografia do modo de produção capitalista, talvez seja abrir os olhos para o pensamento marxista. Não no sentido de convencer as pessoas a se filiarem às hostes da esquerda, mas de alargar seu espírito para os demônios que habitam o cotidiano das relações alienadas e consumistas de nosso tempo. Muitos vão se surpreender com Marx. Um pensador que falava tanto da exploração do trabalho porque apostava que o melhor do homem era a poesia; que não perde tempo em apontar a sociedade perfeita (sua atenção era para a imperfeição do que via à sua volta); que se afundou nos estudos de economia exatamente para reduzir sua importância na vida da sociedade; que via no socialismo a continuidade da tradição de liberdade e conquista dos direitos civis. O próprio Marx, certa vez, afirmou que não era marxista. O que o livro oferece ainda ao leitor é a abertura à posteridade criada por ele. Boa parte do pensamento social, cultural e político contemporâneo só é plenamente compreensível a partir da leitura de Marx e, entre suas obras, sobretudo de O capital.” [Leia mais]

Leitores brasileiros com nova tradução d’O capital.
Por Lejeune Mirhan.
Revista Sociologia – Resenha – abril de 2013.

“Esta tradução tem a maior novidade, de meu ponto de vista, do que todas as outras e mesmo em toda a literatura marxista existente no Brasil. O conceito central na obra de Marx, que sempre o conhecemos por “mais valia” vem agora traduzido por “mais valor”. Tem muito mais sentido. Até porque o centro do pensamento econômico de Marx, que vai explicar como o capital vai crescer a partir do trabalho produtivo, só tem sentido com a exploração do trabalho e da parcela de valor agregado pelos proletários e trabalhadores produtivos que vai trazer a riqueza para os capitalistas e a classe burguesa. É muito mais fácil de compreender, palatável a tradução para Mais Valor. Recomendo não só a leitura dessa magnífica obra de economia, mas também de política, filosofia e sociologia. Parabéns à Boitempo por essa nova tradução.” [Leia mais]

Saiba mais sobre o livro


Para entender O capital
Livro I

David Harvey

Em breve em e-book.
Boletim

O capital, por David Harvey. Por Renato Pompeu.
Caros Amigos – Entrevista – Abril de 2013.

“O geógrafo britânico David Harvey lançou no Brasil Para entender ‘O capital’ em que reúne e expande uma série de aulas on-line que obtiveram muita repercussão. Na entrevista, o geógrafo fala do novo livro e do que representa a obra de Marx para as novas gerações.” [Leia a entrevista completa]

Saiba mais sobre o livro

Lançamentos

Mídia, poder e contrapoder
da concentração monopolítica à democratização da comunicação

Dênis de Moraes (org.)

Em breve em e-book.

Imprensa e poder. Por Redação.
O Estado de Minas – Divirta-se – Orelha – 20 de abril de 2013.

“Tema sempre polêmico, a relação entre imprensa e política ganha em breve obra escrita a seis mãos: Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação, lançado pela Boitempo Editorial. Organizado por Dênis de Moraes, com ensaios de Ignacio Ramonet e Pascual Serrano, o livro reúne sete textos que fazem uma reflexão crítica sobre o poder mundial da mídia, a cultura tecnológica, a comunicação globalizada, o jornalismo contra-hegemônico em rede, as políticas públicas de direito à comunicação e a democratização da informação na América Latina.”

Saiba mais sobre o livro


Bazar da dívida externa brasileira
Rabah Benakouche

Em breve em e-book.

Boitempo

A dívida política. Por Nildo Viana.
Revista Sociologia – Antenado – Livros – abril de 2013.

“Rabah Benakouche, em seu livro Bazar da dívida externa brasileira, desvenda a política de endividamento existente no Brasil, de 1947 até 2007, em todas as suas fases: a do endividamento implícito, de 1947 até 1967; a da política explícita, de 1968 até final dos anos 1970; a da política informal, a partir de 1981. A novidade da abordagem é que o autor discute a questão da dívida externa não apenas pela ótica tradicional dos economistas, focalizando apenas o balanço de pagamentos e as aparências das trocas mercantis, mas insere a questão política e geopolítica para explicar o processo de endividamento. Assim, embora se possa discordar de algumas de suas teses, Benakouche retoma suas contribuições para se pensar o regime de acumulação e a sociedade brasileira, num instigante trabalho multidisciplinar, que abarca a História, a Economia, a Sociologia e outras ciências humanas.”

Saiba mais sobre o livro


Cypherpunks
liberdade e o futuro da internet

Julian Assange et al

Disponível em e-book na Saraiva, na Kobo e na Amazon (R$ 15,00)

Julian Assange resgata movimento dos anos 80 em seu livro CypherpunksPor Eduardo Fernandes.
Gizmodo – UOL – 22 de abril de 2013.

“A parte mais interessante de Cypherpunks são os capítulos em que Assange e convidados analisam como o cenário político e tecnológico mudou desde os primórdios do movimento. Em 30 anos, o problema da circulação de informações e da privacidade é completamente outro: os primeiros cypherpunks, Eric Hughes, John Gilmore e Tim May (do The Crypto Anarchist Manifesto) eram geeks que viam outros geeks se comunicando via Usenet. Assange vive num momento em que até carros trazem computadores embutidos e conectados à internet: ‘As comunicações, no próprio núcleo das nossas vidas privadas, movem-se cada vez mais pela internet. Assim, de fato, nossas vidas privadas entraram numa zona militarizada. É como ter um soldado debaixo da cama. É a militarização da vida civil.’” [Leia mais]

Saiba mais sobre o livro

A política do precariado
do populismo à hegemonia lulista

Ruy Braga

Disponível em e-book aqui (R$ 20,00).


Sem garantias. Por Jussara Goyano.

Revista Sociologia – Entrevista – Abril de 2013.

“’Em minha opinião, o precariado é, em primeiro lugar, aquele setor da classe trabalhadora permanentemente pressionado pelo aumento da exploração econômica e pela ameaça da exclusão social’, diz o autor, sobre a verdadeira inquietação gerada no mundo do trabalho. Isto posto (no livro, a argumentação que nos traz até aqui é extensa), Braga mostra a frouxidão de linhas teóricas que vêm tratando o tema, à medida que estas, ao ignorar tal inquietação, não traduziriam, do ponto de vista sociológico, a realidade das populações. No tocante ao contexto brasileiro, seus estudos analisam desde a industrialização fordista até a atual hegemonia lulista para verificar, além das condições dos trabalhadores, a práxis política dos mesmos, sua mobilização em prol de mais direitos, sobretudo trabalhistas. O novo livro é, assim, bastante abrangente e útil na compreensão de fenômenos que ocorrem tanto no Brasil quanto nas sociedades europeia e norte-americana.” [Leia a entrevisto completa]

Mais informações sobre o livro

Na imprensa

Caparaó
a primeira guerrilha contra a ditadura

José Caldas da Costa

Em breve em e-book.

Boitempo
Guerrilha do Caparaó: em busca de resposta. Por José Caldas Costa.
Século Diário – 21 de abril de 2013.

Afinal, por que ousaram lutar os militares que se embrenharam na inóspita Serra do Caparaó nos anos 60? Era agosto de 1997. Uma fria noite de lua cheia. Saí de Vitória com minha mulher e os três filhos com o carro lotado de agasalhos, donativos para a população carente de Dores do Rio Preto, talvez a cidade mais fria do Espírito Santo, ali a cinco quilômetros da divisa com Minas Gerais, a 250 km de Vitória. Uma região, até hoje, de escassos investimentos públicos e baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Um grupo de pessoas, lideradas por Leilson, pastor batista, esperava-nos para uma aventura pela qual eu aguardava desde criança. Apesar de criado aos pés da Serra do Caparaó, em Alegre, onde, a rigor, localizava-se o Pico da Bandeira até a emancipação de Ibitirama, em 1990, nunca havia subido a famosa montanha, para uns considerada sagrada.” [Leia mais]

Mais informações sobre o livro

O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Karl Marx

Disponível em ebook aqui (R$ 18,00)

Boitempo

Boitempo
Marx e o 18 Brumário de Luís Bonaparte. Por Augusto C. Buonicore.
Portal Grabois – 17 de abril de 2012.

“Marx, ao contrário de toda a historiografia liberal, tenta demonstrar que a luta de classes é que ‘criou na França as circunstâncias e as condições que permitiram a um personagem medíocre e grotesco representar o papel de herói’. [Ele] fez uma apresentação primorosa da essência da Constituição republicano-burguesa, aprovada em 21 de novembro de 1848. Uma análise que, por sinal, serve para compreendermos todas as demais Constituições liberal-burguesas. A Constituição remete constantemente a futuras leis orgânicas que devem precisar reservas e regulamentar o uso de liberdades ilimitadas de modo que não se choquem entre si, nem com a segurança pública.” [Leia mais]

Mais informações sobre o livro

Eventos

[clique na imagem para visualizar o cartaz completo]

Inscrições abertas para o IV Curso Livre Marx-Engels, com aulas de José Paulo Netto, Jorge Grespan, Alysson Mascaro e outros
grandes especialistas

As inscrições começaram nesta segunda-feira, 22, e só serão encerradas quando as mil vagas esgotarem.

Terceira etapa acontece em maio e conclui o projeto Marx: a criação destruidora com apresentação temática e cronológica do pensamento crítico de Karl Marx e Friedrich Engels

Desde segunda-feira, dia 22 de abril, estão abertas as inscrições para o IV Curso Livre Marx-Engels, terceira e última etapa do projeto nacional “MARX: a criação destruidora”, que promoveu debates e conferências em seis cidades brasileiras nos últimos meses. As inscrições custam R$ 10,00 para o curso todo e podem ser feitas nas bilheterias das unidades SESC na cidade de São Paulo ou pela internet (instruções aqui). As inscrições serão encerradas quando as vagas esgotarem.

A Boitempo Editorial e o SESC realizam o curso em São Paulo, entre os dias 07 e 15 de maio, com curadoria de José Paulo Netto (UFRJ), um dos maiores especialistas em Marx. As aulas do IV Curso Livre Marx-Engels serão ministradas por alguns dos principais nomes do marxismo brasileiro, entre os quais: Antonio Rago (PUC-SP), Osvaldo Coggiola (USP), Ricardo Antunes (Unicamp), Mario Duayer (UERJ), Jorge Grespan (USP) e Ruy Braga (USP). Diferentemente dos cursos anteriores, que tiveram aulas organizadas por livros, essa edição contará com uma apresentação temática e cronológica do pensamento crítico de Karl Marx e Friedrich Engels. 

Alysson Leandro Mascaro (USP/Mackenzie) lançará o já aclamado livro Estado e forma política, pela Boitempo, após a apresentação de sua aula “A crítica do Estado e direito: forma política e forma jurídica”, no dia 07 de maio, às 15h30.

Acompanhe o site do projeto: http://marxcriacaodestruidora.com.br

Confira a programação completa do evento aqui.

Confira as gravações do I e III Curso Livre Marx-Engels aqui.

Serviço

IV Curso Livre Marx-Engels
07 a 15 de maio de 2013 | 180 minutos (cada aula)
Sesc Pinheiros | Teatro Paulo Autran | Rua Paes Leme, 195 | 11 3095.9400
Inscrições: R$ 10,00 (a partir de 22/04) 
Mais informações pelo site: http://marxcriacaodestruidora.com.br


[clique na imagem para visualizar o cartaz completo]

Lançamento de Estado e forma política,
de Alysson Mascaro

No dia 18 de maio ocorre o debate de lançamento seguido de sessão de autógrafos de Estado e forma política, o já aclamado livro do jurista e filósodo do direito Alysson Leandro Mascaro. A obra modifica o estudo do direito e da ciência política. A opinião é de Slavoj Žižek, convidado a escrever o texto de capa: “É simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas”.

Saiba mais sobre o livro aqui.

Confira o cartaz completo do evento aqui.

Serviço

Debate de lançamento e sessão de autógrafos de
Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro
18 de maio | 10h30 | Auditório Azul
Sindicato dos bancários de São Paulo, Osasco e região
Rua São Bento | 413 | Centro | São Paulo | SP
Próximo da estação São Bento do metrô


Histórias da guerrilha do Caparaó

Nesta quinta, a partir das 19h, o escritor e jornalista José Caldas da Costa participa de um debate-papo sobre seu livro Caparaó – A primeira guerrilha contra a ditadura.

O livro narra as motivações dos ex-militares, cuja luta contra seus antigos comandantes assume o simbolismo de um embate entre subalternos e chefes. Descreve as articulações internacionais, o envolvimento do governo de Cuba, que treinou parte dos guerrilheiros, e a preparação da resistência. Relata também o dia-a-dia dos combatentes, seus projetos, e o que passaram na prisão, onde um deles veio a morrer em circunstâncias misteriosas.

Saiba mais sobre o livro aqui.

Serviço

Histórias da guerrilha do Caparaó
Debate-papo com José Caldas da Costa
Quinta-feira | 25/4 | 19h | Auditório da Biblioteca Pública do Espírito Santo
Avenida João Batista Parra, 165 | Praia do Suá | Vitória | ES
(27) 3137 9349 | Aberto ao público


Ciclo de aulas/debates:
Imperialismo, América Latina e Brasil

Desde o início do mês, vem ocorrendo o ciclo de aulas/debates Imperialismo, América Latina e Brasil. Com encontros semanais, evento se propõe a abordar o tema de diversas perspectivas, conforme a programação abaixo. Promovido pelo Centro Ángel Rama (FFLCH/USP), o ciclo conta com a presença de nomes como Francisco de Oliveira, Osvaldo Coggiola, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros.

A atividade é gratuita e aberta aos interessados, sem necessidade de inscrição. Serão emitidos certificados aos participantes que tiverem no mínimo 85% de presença nas aulas.

Programação

Econômica
Plínio de Arruda Sampaio Jr. (Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp)
11 de abril, das 17h às 21h, no Anfiteatro de História da FFLCH

América Latina
Osvaldo Coggiola (Departamento de História da FFLCH)
19 de abril, das 19h30 às 22h, no Anfiteatro de História da FFLCH

Agrária
Plínio de Arruda Sampaio (Formado em direito pela USP, foi promotor público, deputado constituinte e presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária) 
24 de abril, das 19h30 às 22h, no Anfiteatro de História da FFLCH

Direito
Jorge Luiz Souto Maior (Departamento de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito – FD – da USP)
6 de maio, das 18h às 22h, no Anfiteatro de História da FFLCH

Geopolítica
Leonel Itaussu de Almeida Mello (Departamento de Política da FFLCH)
15 de maio, das 17h às 21h, no Anfiteatro de História da FFLCH

Política
Francisco de Oliveira (Departamento de Sociologia da FFLCH)
21 de maio, das 17h às 21h, no Anfiteatro de Geografia da FFLCH

Sindical
Claudionor Brandão (Liderança sindical e funcionário demitido da USP) 
30 de maio, das 17 às 21h, no Anfiteatro de Geografia da FFLCH

Educacional
Francisco Miraglia (Prof. do Departamento de Matemática da USP) 4 de junho, das 17 às 21h, no Anfiteatro de História da FFLCH

Serviço

Imperialismo, América Latina e Brasil
Ciclo de aulas/debates
11/4 a 4/6 | das 17h às 22h | FFLCH | USP
Anfiteatros de História e Geografia
Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 | Cidade Universitária
São Paulo | SP | carama@usp.br | (11) 3091-4879


XVII Feira Pan-Amazônica do Livro 
presta homenagem à Raimundo Jinkings

A 17ª edição da Feira Pan-Amazônica do Livro acontece de 26 de abril a 5 de maio, em Belém. Com o slogan “Um país que se chama Pará”, a ideia é exaltar o estado. Várias atividades culturais e literárias estão programadas para acontecer em torno das homenagens ao escritor Ruy Barata e ao dirigente comunista Raimundo Jinkings. O maior encontro literário da Região Norte acontece mais uma vez no Hangar – Convenções e Feiras da Amazônia. As exposições ficarão concentradas nos pavilhões 1 e 2, enquanto as atividades acadêmicas, como mesas redondas, oficinas, debates e seminários, serão realizadas nos auditórios do primeiro andar. A Boitempo estará presente no evento com livros à venda no estande da livraria Expressão Popular.

Serviço

XVII Feira Pan-Amazônica do Livro
26 de abril a 5 de maio| Hangar – Convenções e Feiras da Amazônia
Av. Dr. Freitas s/n – Marco – Belém – Pará


II Seminário Nacional do ICP

Entre os dias 15 e 18 de maio ocorre o II Seminário Nacional do Instituto Caio Prado Jr. Com conferência de abertura de José Paulo Netto, o evento comporta seis mesas, organizadas em torno do tema Lutas de classes e perspectiva crítica. O seminário conta com a participação de nomes como Ricardo Musse, Ruy Braga, Osvaldo Coggiola, Antonio Carlos Mazzeo, Mauro Iasi, Celso Frederico, Sofia Manzano, Miguel Vedda, Paulo Barsotti, entre outros.

Confira a programação completa aqui.

Serviço

II Seminário Nacional do ICP
Lutas de classes e perspectiva crítica
De 15 a 18 de maio | Das 9h30 às 18h30 | Auditório de Geografia
FFLCH | USP | Cidade Universitária
Avenida Prof. Lineu Prestes | 338 | São Paulo | SP

Blog da Boitempo


Confira as colunas do Blog da Boitempo

Urariano Mota – As empregadas e a escravidão
Lincoln Secco – Kim Jong-un
Slavoj Zizek – The simple courage of decision: a leftist tribute to Thatcher
Slavoj Zizek – A simples coragem da decisão: 
um tributo esquerdista a Margaret Thatcher
Roniwalter Jatobá – Pequenos crimes
Luiz Bernardo Pericás – O sapo Gonzalo em: Viajante Espacial
Mouzar Benedito – B de bassora ou de behaviorístico?

Mauro Iasi – Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência – Hoje!


Para adquirir os livros da Boitempo envie um e-mail para vendas@boitempoeditorial.com.br
Se deseja receber este informativo por e-mail, escreva para comunicacao@boitempoeditorial.com.br

B de bassora ou de behaviorístico?

13.04.24_Mouzar Benedito_B de bassora ou de behaviorísticoPor Mouzar Benedito.

“Atenção pessoar… Já vai saí a jardineira pra Parmitar, Santa Rita de Carda, Carda e POÇOS DE CALDAS.”

Era assim mesmo a pronúncia do locutor da rodoviária de Pouso Alegre, garantem muitas pessoas que passaram por lá nos tempos das jardineiras. L nas palavras pessoal, Palmital e Caldas virava R… E o s do final das palavras sumia. Era Carda, mesmo. Mas enchia a boca para pronunciar corretamente POÇOS DE CALDAS.

Lembro-me disso toda vez que ouço aquela voz de aeroporto informando sobre voos. E também quando alguém vai ditar alguma coisa que tenha letras, algum código. Por exemplo: CMG… Antes se falava C de casa, M de mesa e G de Gato, numa situação dessas, mas agora falam direto: casa, mesa, gato…

Um dia, há tempos, fiquei imaginando um locutor como o da rodoviária de Pouso Alegre de antigamente soletrando siglas ou palavras. Vamos supor BDL. Provavelmente, diria B de bassora (vassoura), D de doçante e L de leição pra presidente.

Imaginei, então como ficaria o alfabeto inteiro:

A de Arnesto
B de bassôra
C de Sebastião
D de doçante
E de eta nóis
F de Chico
G de jerimum
H de agachado
I de iscola
J de lajota
K de cavalo
L de leição
M de mó di quê?
N de Nossinhora Parcida!
O de hômi
P de bereba
Q de Quelemente
R de arrevortado
S de é esse aí
T de tenção, gente, presta tenção…
U de u qui é, u qui é…
V de vrido
W de Uosto (Washington) e Várti
X de chispa daí
Y de psilone mesmo, ara, que letra besta!
Z de zoio, zunha, zoreia e zuvido

Mas e se fosse o contrário, um cara que gosta de mostrar erudição? Suponhamos, PNF… Ele poderia dizer P de pugnacíssimo, N de neuroipofisário e F de frenicectômico.

Vamos imaginar mais, com o mesmo erudito, deixando de lado essas letras já citadas. Suponhamos ABCD. Seria talvez A de antipoliorcética, B de behaviorístico, C de cnidosporídeo e D de dacriocistostomia.

Continuamos com EGHI. Sugeriria a ele E de exopterigoto, G de ginglimostomatídeo, H de hexilresorcinol e I de ixociflose.

Seguindo o alfabeto, para JKLM, poderia ser J de jargonografia, K de kerkegaardianismo, L de lepdopterologista e M de megaquiróptero.

E vamos em frente… OQRS ficaria bem com O de oftalmoxistro, Q de quilooersted, R de recurvirrostrídeo e S de septenvirado.

Para TUV, ele poderia ser bem didático: T de teopnêustico, U de uzbesquistanês e V de vasovasostomia.

Para terminar, restam WXYZ, letras que merecem ser esclarecidas assim: W de wycliffista, X de xi-tsungulo, Y de yeatsiano e Z de zwinglianismo.

O que acham? Bem, quando começo a pensar besteiras, é difícil parar. Continuei então, por falar em besteira, imaginando alguém que “só pensa naquilo”. Como soletraria? Aí tive uma dificuldade, pois nas gírias relacionadas a isso não encontrei palavras iniciadas por K, W e Y, reintroduzidas (epa!) no nosso alfabeto. Mas pulando essas, vejam como soletraria o safado:

ABCDE poderia ser A de afogar o ganso, B de balançar a roseira, C de chamuscar o bombril, D de dar um tapa no beiço da cabeluda, e E de esfolar a piaca.

FGHI certamente seria F de fazer neném, G de guardar o santíssimo, H de honrar o baita e I de invadir a Tchetchênia.

JLMN seria soletrada como J de jogar as pedrinhas, L de lustrar o jequitibá. M de molhar o biscoito e N de noite do iguana.

OPQR… bom, vamos lá: O de orelhar uma moça, P de pôr a escrita em dia, Q de queimar incenso no altar de Vênus, e R de rala e rola.

STU dá umas leituras interessantes: S de suar juntos, T de trocar o óleo, e U de usar o playground.

Encerrando, VXZ não é fácil, mas dá para soletrar também: V de vestir a peruca no careca, X de xuxar a borracha e Z de zurzir os crocos.

Bom, vou para por aqui. Chega de sem-vergonhice.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

O sapo Gonzalo em: Viajante espacial

13.04.19_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em Viajante espacialPor Luiz Bernardo Pericás.

Muito tempo atrás, num brejo perdido em algum lugar da Argentina, o sapucho Gonzalo, ainda um caçotinho ingênuo e pueril, olhava todas as noites para o céu e sonhava com as estrelas. Naquela época, ele lia as edições amareladas da Amazing Stories, emprestadas por seu tio, que colecionava a revista desde o final da década de vinte; acompanhava regularmente as aventuras de Buck Rogers e Flash Gordon, em belos álbuns encadernados de quadrinhos desenhados em nanquim; e devorava todos os livros de Ray Bradbury que chegavam às livrarias. Alex Raymond e Stan Lee eram seus ídolos de então. Ele fantasiava com uma viagem espacial e imaginava como seriam os planetas e asteróides vistos de perto, a imensidão negra repleta de astros cintilantes, de cometas e poeira cósmica.

Alguns anos mais tarde, iria se encontrar frequentemente nos boliches boêmios da capital e das províncias com seu amigo de infância, o Eternauta, para sorver o vinho tinto de Mendoza que tanto apreciava e falar dos anseios e aflições da juventude. Os dois conversavam por horas sobre o colega Surfista Prateado, aquele trotamundos intergaláctico sempre, sempre solitário, que passava a vida cruzando o universo na sua longboard, vez ou outra se desviando, com agilidade, de meteoros e nebulosas… Por onde andaria naquele momento? Será que viria para a Terra em breve? Saudades do companheiro, que sumira de vista há uns bons anos…

Décadas atrás, o infinito parecia pronto a ser conquistado. Gonzalo se emocionou quando soube dos primeiros sapos no espaço. Isso foi em março de 1961, quando a União Soviética enviou alguns batráquios na Vostok 3A. Eram seus irmãos de sangue frio e pele esverdeada, uns anfíbios pequeninos e saltitantes como ele! Uns pioneiros!

Os russos, de fato, estavam à frente na corrida espacial. Afinal, foram os primeiros a colocar um satélite no espaço, o Sputnik 1, em outubro de 1957. E também os primeiros a lançar um cachorro do cosmódromo de Baikonur, em novembro daquele mesmo ano, numa cápsula presa num ICBM SS-6 convertido em foguete espacial, a célebre cadela Laika (que infelizmente não sobreviveu, para tristeza de todos os animalejos de nossa galáxia, como Gonzalo).

Outros bichos entrariam na história por sua bravura: macacos e ratos seriam alguns deles. Mas os camaradas caninos se destacariam! Em 1960, os cães Bars e Lisichka perderiam a vida tragicamente quando seu propulsor explodiu. Mas em seguida, no dia 19 de agosto, dois pulguentos heróicos, Belka e Strelka, finalmente conseguiriam chegar às alturas, no Sputnik 5, fazendo uma viagem orbital e retornando sãos e salvos para a URSS (hoje, Belka está taxidermizado e exibido numa redoma de vidro no Museu Memorial da Astronáutica em Moscou e Strelka, igualmente empalhado, continua passeando como sempre, em exposição itinerante por vários países). Verdadeiros desbravadores!

Mas os feitos soviéticos não parariam por aí. No dia 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin seria o primeiro homem no espaço (em torno de um mês depois dos sapos)! Aos 27 anos de idade, ele gritaria, no momento da decolagem da Vostok 1, que o levaria para a glória: “Poyekhali!” Sua aventura durou 108 minutos. Ao retornar, já na atmosfera, foi ejetado de sua cápsula, de paraquedas, tocando o solo pouco depois, perto da vila de Uzmoriye (ao lado do rio Volga), para a total surpresa de uma camponesa e sua filha, que viram aquele homem pequeno de roupa laranja e capacete branco, e acharam que era um extraterrestre! Gagarin teve de explicar que era apenas um cosmonauta russo que acabara de voltar à sua pátria. E pediu para que as duas o levassem o quanto antes a um telefone! Afinal de contas, tinha de avisar às autoridades onde estava!

A URSS continuava adiante. E em 16 de junho de 1963, os soviéticos mandariam na Vostok 6 a primeira mulher (e civil) ao espaço, Valentina Vladimirovna Tereshkova, de 26 anos de idade, trabalhadora de uma fábrica têxtil, que daria 48 voltas em torno do planeta durante dois dias, 23 horas e doze minutos (os norte-americanos só enviariam sua primeira astronauta ao espaço em 1983, ou seja, vinte anos mais tarde). Não custa lembrar que o primeiro homem a andar no espaço, Alexei Leonov (tripulante da Voskhod 2), em 18 de março de 1965, e que a primeira representante do sexo feminino a fazer o mesmo, Svetlana Savitskaya, em 25 de julho de 1984 (na missão Salyut 7), também eram soviéticos…  

É verdade que os Estados Unidos chegaram antes à lua, em 1969. Mas no ano seguinte, a URSS mandaria uma nave para lá, o projeto não-tripulado Lunokhod (o primeiro robô movido a controle remoto a percorrer a superfície de outro corpo celestial), que serviria como a experiência pioneira que inspiraria a atual missão dos Mars Rovers da NASA. Aparentemente nas duas visitas feitas ao satélite natural (iniciadas respectivamente em 1970 e 1973), os veículos Lunokhod 1 e 2 iriam desenhar, com as marcas de suas rodas, um “oito” no solo lunar, em homenagem ao dia internacional da mulher!

Ninguém segurava os russos naquela época. Nem hoje em dia. Afinal, apesar de todos os problemas econômicos e das camarilhas e máfias políticas que governam o país, a Rússia ainda é a principal nação a levar o homem ao espaço sideral. 

Tudo aquilo voltava à mente de Gonzalucho. Tempos de gente corajosa, inovadora, pioneira. Tempos em que se podia sonhar. E que agora estavam no passado remoto. Atualmente o que prevalece é o dinheiro, a alienação e o individualismo exarcebado. Gonzalo colocou as mãos atrás da nuca, esticou as pernas e, do terraço de um antigo edifício de tijolos vermelhos, no meio da cidade suja e barulhenta onde morava, ficou olhando, em silêncio, para as estrelas…

13.04.19_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em Viajante espacial2

***

Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o ficcional Cansaço, a longa estação (por apenas R$13). Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). É organizador, com Lincoln Secco, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Pequenos crimes

13.04.19_Pequenos crimes_Roniwalter JatobáPor Roniwalter Jatobá.

[Nota do Editor: Esta crônica havia sido planejada para a sexta-feira 22 de março, mas, devido a  um  problema técnico do Blog, só vem a público hoje.]

Com as proximidades da Semana Santa, um sentimento de contrição me traz à memória muita maldade que cometi na vida. Qual menino criado na roça que nunca fez? Quando criança em Campo Formoso, no interior baiano, tinha dois prazeres. Um deles, cultural: ir às matinês do Cine Teatro Santo Antônio. O outro era fazer judiação em bichos de todo tipo.

Gatos, por exemplo. De índole arredia, os felinos fugiam da minha presença como o diabo da cruz. Para encurtar conversa, a traquinagem menos cruel era amarrar bombinha de São João em suas caudas e rolar de rir quando, cheios de miados, desciam a ladeira de casa em desabalada carreira.

No final do ano, imagine quem pedia à mãe para dar cachaça ao peru que ia fartar nossa fome na triste, quase sempre triste, ceia natalina? Dona Maria explicava que era para a ave ficar relaxada e, naturalmente, deixar a carne mais macia pós-morte. Ora, a gente sabia disso, mas o principal era ver o bicho ficando pouco a pouco embriagado, pernas trôpegas, desequilibrando-se no quintal de chão, tal roceiro bêbado no fim de feira.

Era um bom caçador. Certeiro no estilingue, não perdoava de bem-te-vi a beija-flor. Respeitava apenas urubus, pois os mais velhos diziam que o matador carregava para sempre sete anos de azar.

Nessa época, era um levado menino de doze anos. Depois da escola, passava o resto do dia de bodoque na mão para caçar passarinhos. Numa manhã de Sexta-feira da Paixão, caminhava sozinho pela casa vazia triste e silenciosa. De repente, encontro minha irmã mais velha que voltava da igreja.

– Vá rezar, menino – ela disse.

– Por quê?

– Hoje é Sexta-feira da Paixão.

– Mas eu quero é brincar…

– Brincar é pecado.

Tudo era pecado na Sexta-feira da Paixão, em minha casa. Na cozinha, o fogo morto. O peixe, o feijão, o arroz, tudo cozido em óleo de coco e feito na véspera. Na sala e no banheiro, panos negros cobriam os espelhos.

Caminho, então, em direção ao quintal, pensando. Devia ser por isso que os amigos estavam em casa. Só raras pessoas passavam na rua. Ali concluí que passear um pouco não poderia ser pecado. O pequeno rio Aipim, com seus contornos em corredeiras, me esperava lá embaixo.

Silêncio nas margens, apenas o rumo das águas velozes. Súbito, uma revoada de tizius desce do morro do cemitério e sobrevoa os campos de capins da beirada do rio.

Conhece um tiziu? É um pássaro miudinho. Tem 10 centímetros de comprimento, vive em várias regiões do Brasil. O macho é preto-azulado e a fêmea, pardo-olivácea, com listras amarelas no dorso e asas. Ao emitir seu canto (ti-ziu), tem o hábito de dar um salto para cima, de aproximadamente um metro de altura, retornando ao lugar onde está pousado.

– Ti-ziu.

Um deles, a uns três metros de distância, balançou-se numa haste de capim. Sem pensar muito, coloquei uma pedra redonda no estilingue. Fiz pontaria, mas lembrei de que era Sexta-feira da Paixão.

– Xô, passarinho – gritei.

– Ti-ziu – foi a resposta.

Gritei mais alto, bati os pés no chão e agitei os braços. Nada.

– Xô. Vá embora.

Novamente, ele deu o seu salto e ficou parado na mesma haste de capim. Então, pensei em jogar apenas uma pedrinha para espantá-lo dali. Preparei o estilingue e mirei o pé da haste de capim, dois palmos abaixo do tiziu.

Deu tudo errado. O coitadinho tombou, soltando três ou quatro penas, que ficaram suspensas no ar.

Fiquei petrificado, o coração batia forte, o medo. Olhei para o céu esperando a ira divina, mas lá só havia um amplo azul com nuvens brancas.

Em todo caso, por via das dúvidas, tratei de ocultar, sob folhas arrancadas às pressas, o pequeno cadáver.

Nesta Sexta-feira da Paixão de 2013, no suave silêncio da minha rua, sei que vou pensar em duas mortes: a de Jesus Cristo, quase dois mil anos atrás, e a do inocente tiziu, há anos marcado no fundo na minha memória.

Confesso ainda mais: quando vejo a alegria dos pássaros em São Paulo, me arrependo dos pequenos crimes cometidos, mas creio que o tempo perdoa pequenas loucuras da infância. Quase todas, talvez. Afinal, era março, ou abril, de antigamente.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

A simples coragem da decisão: um tributo esquerdista a Margaret Thatcher, por Slavoj Žižek

13.04.18_Slavoj Zizek_A simples coragem da decisãoPor Slavoj Žižek.

Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.

Click here for the english version.

Nas últimas páginas de seu monumental Second World War, Winston Churchill reflete sobre o enigma de uma decisão militar: depois que os especialistas (analistas econômicos e militares, psicólogos, meteorologistas etc.) propõem sua análise múltipla, elaborada e refinada, alguém deve assumir a ação simples – e por isso a mais difícil – de transformar essa multiplicidade complexa, em que para cada pró há dois contras, em um simples “Sim” ou “Não” – devemos atacar, devemos continuar esperando… Esse gesto, que não pode nunca ser fundamentado em razões, é o gesto do Mestre. Cabe aos especialistas apresentarem a situação em sua complexidade, mas cabe ao Mestre simplificá-la em um ponto de decisão.

Essa figura do Mestre é necessária principalmente em situações de crise profunda. Aqui, a função do Mestre é representar a divisão autêntica – uma divisão entre os que querem se arrastar nos antigos parâmetros e os que têm consciência da mudança necessária. Essa divisão, e não as transigências oportunistas, é o único caminho para a verdadeira unidade. Tomemos um exemplo que certamente não é problemático: a França na década de 1940. Até mesmo Jacques Duclos, segundo homem do Partido Comunista Francês, admitiu em uma conversa privada que, se naquele momento, houvesse eleições livres na França, Marshal Petain teria ganhado com 90% dos votos. Quando De Gaulle, em um ato histórico, se recusou a reconhecer a capitulação ante os alemães e continuou resistindo, ele afirmou que apenas ele falava em nome da verdadeira França (em nome da verdadeira França como tal, não só em nome da “maioria dos franceses”!), e não o regime de Vichy; sua afirmação foi profundamente verdadeira ainda que “democraticamente” não tivesse legitimação nenhuma, mas fosse claramente oposta à opinião da maioria dos franceses…

E Margaret Thatcher, a “dama que não volta atrás”, foi um desses Mestres que se prende a uma decisão vista a princípio como louca, e gradualmente eleva sua loucura singular à norma aceita. Quando perguntaram a Margaret Thatcher sobre seu maior êxito, ela respondeu sem pestanejar: “O New Labour”. E ela estava certa: seu triunfo foi o fato de suas políticas econômicas básicas terem sido adotadas até mesmo por seus inimigos econômicos – o verdadeiro triunfo não é a vitória sobre o inimigo, ele ocorre quando o próprio inimigo começa a usar sua linguagem, de modo que suas ideias formem a base de todo o campo.

Então o que resta hoje do legado de Thatcher? A hegemonia neoliberal está claramente se desintegrando. Thatcher talvez tenha sido a única thatcherista verdadeira – ela acreditava nitidamente nas próprias ideias. O neoliberalismo atual, ao contrário, “imagina apenas acreditar em si mesmo e exige do mundo a mesma imaginação” (para citar Marx[1]). Em suma, o cinismo hoje está totalmente à mostra. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser (1942), de Ernst Lubitch: quando questionado sobre os campos de concentração alemães na Polônia ocupada, o oficial nazista responsável, apelidado de “Campo de Concentração Erhardt”, responde: “Nós concentramos, os poloneses acampam”. 

O mesmo não vale para a falência da Enrom em janeiro de 2002 (e para todos os colapsos financeiros que se seguiram), o que pode ser interpretado como um tipo de comentário irônico sobre a ideia de sociedade de risco? Milhares de trabalhadores que perderam seus empregos e economias certamente estavam expostos ao risco, mas sem terem uma escolha verdadeira – o risco apareceu como destino cego. Por outro lado, quem percebeu efetivamente os riscos e teve a possibilidade de intervir na situação (os altos executivos) conseguiu minimizar os riscos lucrando com suas ações e opções antes da falência – então é verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas uns fazem as escolhas (os executivos de Wall Street) enquanto outros (o povo que paga hipoteca) correm os riscos…

Uma das consequências estranhas do colapso financeiro e das medidas tomadas para neutralizá-lo (grandes quantias de dinheiro para ajudar os bancos) foi o reaparecimento da obra de Ayn Rand, o mais perto que se pode chegar da ideóloga do capitalismo radical do lema “a ganância é boa” – as vendas de A revolta de Atlas, sua magnum opus, explodiram de novo. Segundo alguns relatos, já existem sinais da representação do cenário descrito em A revolta de Atlas – os próprios capitalistas criativos entrando em greve. O congressista republicano John Campbell disse: “Os empreendedores estão entrando em greve. Vejo, em um nível baixo, um tipo de protesto vindo das pessoas que cria empregos [...], que estão abandonando suas ambições porque percebem como serão punidas por causa delas”. É ridículo que essa reação deturpe totalmente a situação: grande parte das gigantescas quantias de dinheiro injetado vai justamente para os “titãs” randianos desregulados, que fracassaram em seu esquema “criativo” e assim provocaram o colapso. Os grandes gênios criativos não estão ajudando o povo comum e preguiçoso: são os contribuintes comuns que estão ajudando os “gênios criativos” fracassados.

O outro aspecto do legado de Thatcher visado pelos críticos da esquerda era sua forma “autoritária” de liderança, sua falta de sensibilidade para a coordenação democrática. Nesse aspecto, contudo, as coisas são mais complicadas do que parecem. Os protestos populares que acontecem atualmente em toda a Europa convergem numa série de demandas que, por sua própria espontaneidade e obviedade, formam um tipo de “obstáculo epistemológico” ao próprio confronto com a crise atual de nosso sistema político. Parece que estamos diante de uma versão popularizada da política deleuziana: o povo sabe o que quer, é capaz de descobrir e formular o que quer, mas só por meio do engajamento e da atividade continuada – então precisamos fazer funcionar a democracia participativa, não só a democracia representativa com seu ritual eleitoral que, a cada quatro anos, interrompe a passividade dos eleitores; precisamos da auto-organização da multidão, e não de um partido leninista centralizado com o Líder etc. etc.

A coisa mais difícil de ser renunciada é esse mito da auto-organização direta não representativa – que é a armadilha final, ou seja, a mais profunda ilusão a ser desfeita. Sim, em cada processo revolucionário existem momentos extáticos de solidariedade grupal, em que centenas de milhares se juntam e ocupam um lugar público, como a praça Tahrir há dois anos; sim, há momentos de participações coletivas intensas, em que as comunidades locais debatem e decidem, em que as pessoas vivem um tipo de estado de emergência permanente, assumindo o controle de tudo, sem nenhum Líder para guiá-las… mas esses estados não duram, e a “fadiga” nesse caso não é um simples fato psicológico, mas sim uma categoria da ontologia social.

A grande maioria – inclusive eu – quer ser passiva e simplesmente confiar em um aparelho estatal eficaz que garanta o andamento harmonioso de todo o edifício social, de modo que cada um possa realizar em paz o próprio trabalho. Walter Lippmann escreveu em seu Public Opinion (1922) que o rebanho dos cidadãos deve ser governado por “uma classe especializada cujos interesses ultrapassam o que é local” – essa classe de elite vai agir como uma máquina de conhecimento que contorna o defeito básico da democracia, o ideal impossível do “cidadão onicompetente”. É assim que funcionam nossas democracias – com o nosso consentimento: não há mistério no que disse Lippmann, trata-se de um fato óbvio; o mistério é que, sabendo disso, jogamos o jogo. Agimos como se estivéssemos livres e decidindo livremente, não só aceitando, mas também exigindo, em silêncio, que uma injunção invisível (inscrita na própria forma da nossa liberdade de expressão) nos diga o que fazer e pensar. “O povo sabe o que quer” – não, não sabe e não quer saber, o povo precisa de uma boa elite, e é por isso que o político correto não só defende os interesses do povo: é através dele que o povo descobre o que “realmente quer”.

Quanto à multidão molecular auto-organizadora contra a ordem hierárquica sustentada pela referência a um líder carismático, note-se a ironia do fato de que a Venezuela, um país tão elogiado por causa de suas tentativas de desenvolver modalidades de democracia direta (conselhos locais, cooperativas, operários comandando fábricas), também é um país cujo presidente foi Hugo Chávez, um líder forte e carismático, se é que existe um. É como se a regra freudiana da transferência também estivesse em ação aqui: para que os indivíduos “ultrapassem a si próprios”, para que escapem da passividade da política representativa e se engajem como agentes políticos diretos, a referência a um líder é necessária, um líder que lhes permita sair do atoleiro do pântano como barão de Münchhausen, um líder “suposto saber” o que quer o povo. É nesse sentido que Alain Badiou mostrou recentemente como as redes horizontais destroem o Mestre clássico, mas simultaneamente propaga novas formas de dominação muito mais fortes que ele. A tese de Badiou é que o sujeito precisa de um Mestre para se elevar além do “animal humano” e pôr em prática a fidelidade a um Evento-Verdade: 

“O mestre é aquele que ajuda o indivíduo a se tornar sujeito. Ou seja, se admitimos que o sujeito surge na tensão entre indivíduo e universalidade, então é óbvio que o indivíduo precisa de uma mediação, e portanto de uma autoridade, para progredir nesse caminho. É preciso renovar a posição do mestre – não é verdade que se consiga sem ele, mesmo e especialmente na perspectiva da emancipação.” [2]

E Badiou não teme contrapor o papel necessário do Mestre à nossa sensibilidade “democrática”: 

“Estou convencido de que é preciso reestabelecer a função capital dos líderes no processo comunista, qualquer que seja seu estágio. Dois episódios cruciais em que a liderança não bastou foram a Comuna de Paris (que não tinha um líder digno, exceto Dombrowski no domínio estritamente militar) e a Revolução Cultural Chinesa (Mao estava cansado e velho demais, e o “grupo da RCC” foi infectado pela ultraesquerda). Essa foi uma lição severa.

Essa função capital dos líderes não é compatível com a atmosfera “democrática” predominante, motivo que me faz estar engajado em uma luta feroz contra essa atmosfera (afinal, é preciso começar com a ideologia). Quando me dirijo a pessoas cujo jargão é lacaniano, digo “a figura do mestre”. Quando são militantes, digo “ditadura” (no sentido de Carl Schmitt). Quando são trabalhadores, digo “líder de um grupo” etc. É desse modo que sou rapidamente compreendido.” [3]

Devemos seguir sem medo sua sugestão: para efetivamente despertar os indivíduos de seu “sono democrático”, de sua confiança cega nas formas institucionalizadas da democracia representativa, não bastam os apelos à auto-organização direta: é preciso uma nova figura do Mestre. Recordemos os famosos versos de “A une raison” (A uma razão), de Arthur Rimbaud:

Um toque de teu dedo no tambor liberta todos os sons e começa a nova harmonia.
Um passo teu é a mobilização dos novos homens que se põem em marcha.
Se viras o rosto: o novo amor!
Se desviras o rosto, – o novo amor! [4]

Não há absolutamente nada “fascista” nesses versos – o paradoxo supremo da dinâmica política é que é preciso um Mestre para empurrar os indivíduos para fora do atoleiro de sua inércia e motivá-los para a luta autotranscendente emancipatória pela liberdade.

Precisamos hoje, nessa situação, de uma Thatcher da Esquerda: um Líder que repetiria o gesto de Thatcher na direção oposta, transformando todo o campo de pressupostos compartilhados hoje pela elite política de todas as principais orientações.


 [1] Crítica da filosofia do direito de Hegel, 1843 (tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus, São Paulo, Boitempo, 2010), p. 148

[2] Alain Badiou e Elisabeth Roudinesco, “Appel aux psychanalystes. Entretien avec Eric Aeschimann”, Le Nouvel Observateur, 19 de abril de 2012.

[3] Comunicação pessoal, abril de 2013.

[4] Arthur Rimbaud, Prosa poética (trad. Ivo Barroso, Rio de Janeiro, Topbooks, 1998), p. 229.

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Slavoj Žižek esteve no Brasil para lançar seu maior e mais importante livro teórico: Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Confira, abaixo, o Booktrailer da obra:

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Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Vivendo no fim dos tempos * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Livraria Cultura | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.