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O resgate do soldado Ivã

14.06.16_Mike Davis_O resgate do soldado Ivã[Стоять на смерть, foto de Emmanuel Yevzerikhin, tirada na Bielorrússia em 1944, durante a Operação Bagration]

Por Mike Davis.*

A batalha decisiva pela libertação da Europa começou há 70 anos, em junho, quando um exército soviético de guerrilhas emergiu das florestas e charcos da Bielorrússia, para lançar ataque surpresa contra a retaguarda da poderosa Wehrmacht.

As brigadas do Exército Vermelho e combatentes da Resistência, entre os quais muitos judeus e foragidos de campos de concentração, plantaram 40 mil cargas de demolição. Devastaram as estradas de ferro, vitais para a conexão entre o Centro do Exército Alemão e suas bases na Polônia e no leste da Prússia.

Três dias depois, dia 22 de junho de 1944, no terceiro aniversário da invasão de Hitler contra a União Soviética, o marechal Zhukov deu a ordem para o assalto principal contra as linhas alemãs. 26 mil armas pesadas pulverizaram as posições avançadas dos alemães. Os gritos dos foguetes Katyusha foram seguidos pelo rugido de 4 mil tanques e pelos gritos de combate (em mais de 40 línguas) dos 1,6 milhão de soldados soviéticos. Assim começou a Operação Bagration, assalto contra um front alemão de mais de 600 quilômetros.

Esse “grande terremoto militar”, como o designou o historiador John Erickson, só parou nos arredores de Varsóvia, com Hitler deslocando as reservas de elite da Europa ocidental para tentar conter a maré vermelha no leste. Resultado disso, tropas norte-americanas e britânicas que combatiam na Normandia não tiveram de enfrentar as divisões Panzer mais bem equipadas.

O QUE NÃO SE DIZ

Mas o que os norte-americanos algum dia souberam sobre a Operação Bagration? Junho de 1944 significa a Praia de Omaha, não o Rio Dvina a ser ultrapassado. A ofensiva soviética do verão foi várias vezes maior que a Invasão da Normandia (Operação Overlord),tanto na escala das forças envolvidas quando no preço direto que custou aos alemães.

No final do verão, o Exército Vermelho chegara já às portas de Varsóvia e às trilhas entre os Cárpatos que levam à Europa Central. Tanques soviéticos já haviam tomado em movimento de pinça o Centro do Exército Alemão e o destruíram. Só na Bielorrússia, os alemães perderiam mais de 300 mil homens. Outro gigantesco exército alemão fora cercado e seria aniquilado ao longo da costa do Báltico. E estava aberta a estrada para Berlim. Graças ao soldado Ivã.

Não se trata de não ver os valentes que morreram no deserto do norte da África ou nas florestas geladas em torno de Bastogne. Trata-se, isso sim, de lembrar que 70% da Wehrmacht estão sepultados, não em campos franceses, mas nas estepes da Rússia. Na luta contra o nazismo, morreram cerca de 40 ‘Ivãs’ para cada ‘soldado Ryan’.

27 MILHÕES DE MORTOS

Hoje os especialistas estimam que 27 milhões de soldados e cidadãos soviéticos morreram na 2ª Guerra Mundial. Estranhamente porém, o soldado soviético comum – o mecânico de tratores de Samara, o ator de Orel, o mineiro de Donetsk, a menina do ginásio de Leningrado – é invisível na atual celebração e remitologização da ‘grande geração’.

É como se o “novo século norte-americano” não consiga jamais nascer sem, antes, exorcizar o papel central que os soviéticos tiveram na vitória epocal contra o fascismo, que marcou o século 20.

Verdade é que muitos norte-americanos são chocantemente ignorantes de grande parte da verdade sobre combates e mortos na 2a. Guerra Mundial. E até os raros que compreendem alguma coisa do gigantesco sacrifício dos soviéticos para derrotar o nazismo na Europa tendem a vê-lo em termos de estereótipos ‘jornalísticos’: o Exército Vermelho não passaria de horda bárbara movida pela besta fera do vingancismo e do nacionalismo russo. Combatentes civilizados, que defendiam ideais civilizados de liberdade e democracia, para os norte-americanos, só GI Joe e Tommy…

Por isso precisamente é ainda mais importante lembrar que – apesar de Stalin, do NKVD e do massacre de uma geração de líderes bolcheviques – o Exército Vermelho sempre preservou elementos poderosos da fraternidade revolucionária. Aos olhos dos russos, e dos muitos que o Exército Vermelho livrou das garras dos nazistas, aquele ainda é o maior exército de libertação da história do mundo. Importante saber que o Exército Vermelho de 1944 ainda era exército soviético.

O EXÉRCITO VERMELHO

Entre os generais soviéticos que lideraram a tomada do rio Dvina havia um judeu (Chernyakovskii), um armênio (Bagramyan) e um polonês. Diferente das forças britânicas e dos EUA – divididas por classes e racialmente segregadas –, o comando do Exército Vermelho era escada aberta, embora difícil de escalar, de oportunidades.

Quem ainda tenha dúvidas da paixão revolucionária e da humanidade que unia todos no Exército Vermelho, deve consultar as extraordinárias memórias de Primo Levi (É isto um homem?) e KS Karol (Entre Dois Mundos). Ambos odiaram o stalinismo e amaram o/a soldado/a soviético/a comum, e viam nele/nela as sementes da renovação do socialismo.

Assim sendo, depois da recente [em 2004]  degradação, por  George Bush, da memória do Dia D, reduzido a cena explícita de apoio aos crimes dos EUA no Iraque e no Afeganistão, tomei a decisão de fazer, eu mesmo, minha comemoração privada.

Relembro então, em primeiro lugar, meu Tio Bill, caixeiro viajante de Columbus – e é difícil ver aquela alma gentil como guerreiro adolescente GI na Normandia. E em seguida – como tenho certeza de que meu Tio Bill teria aprovado – relembro também seu camarada soldado Ivã.

O camarada Ivã dirigiu seu tanque até o portão de Auschwitz; foi quem abriu caminho até o bunker de Hitler. A coragem e a tenacidade do camarada Ivã derrotaram a Wehrmacht, e nada tiveram a ver com os erros do tempo de guerra e os crimes de Stálin. O mundo tem dois heróis: meu Tio Bill e seu camarada Ivã, soviético. É obsceno homenagear o primeiro sem também homenagear o segundo.

* Publicado em inglês no The Guardian em 11 de junho de 2014. A tradução é de Sergio Caldieri, para a Tribuna da Internet .

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Dos livros de Mike Davis publicados pela Boitempo, Planeta favela (R$ 22,00 aqui), Cidade de quartzo (R$ 32,00 aqui), Occupy (R$ 5,00 aqui) e Cidades rebeldes (R$ 5,00 aqui) já estão à venda em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do impresso.

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Planeta favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de quartzo. O autor também colabora com o livro de intervenção Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 

O belo da cidade | Mike Davis sobre megaeventos

14.05.27_Mike Davis_O belo da cidade_2Por Mike Davis.*

No Terceiro Mundo urbano, os pobres temem os eventos internacionais de alto nível – conferências, visitas de dignitários, eventos esportivos, concursos de beleza e festivais internacionais –, que levam as autoridades a iniciar cruzadas de limpeza da cidade: os favelados sabem que são a “sujeira” ou a “praga” que seus governos preferem que o mundo não veja. Durante a comemoração da Independência nigeriana em 1960, por exemplo, um dos primeiros atos do novo governo foi murar a estrada até o aeroporto para que a princesa Alexandra, representante da rainha Elizabeth, não visse as favelas de Lagos1. Hoje, é mais provável que os governos melhorem a paisagem demolindo as favelas e despejando da cidade os seus moradores.

Os manilenhos têm horror especial a tais “campanhas de embelezamento”. Durante o domínio de Imelda Marcos no governo da cidade, os favelados foram sucessivamente expulsos da rota dos desfiles do Concurso de Miss Universo, em 1974, da visita do presidente Gerald Ford, em 1975, e da reunião do FMI-Banco Mundial, em 1976.2 No total, 160 mil invasores foram removidos para fora do campo de visão da mídia, muitos deles abandonados nos arredores de Manila, a 30 quilômetros ou mais dos seus antigos lares.3 O subsequente “Poder Popular” de Corazón Aquino foi ainda mais impiedoso: cerca de 600 mil invasores foram despejados durante o mandato de Aquino, em geral sem locais de reassentamento.4

Apesar das promessas de campanha de preservar a moradia dos pobres urbanos, o sucessor de Aquino, Joseph Estrada, continuou os despejos em massa: 22 mil barracos foram destruídos, somente na primeira metade de 1999.5 Então, durante os preparativos para a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), as equipes de demolição atacaram, em novembro de 1999, a favela de Dabu-Dabu, em Pasay. Quando 2 mil moradores formaram uma parede humana, veio uma força de elite armada com fuzis M16 que matou quatro pessoas e feriu vinte. As casas e seu conteúdo foram completamente incendiados, e os habitantes miseráveis de Dabu-Dabu reassentados num lugar às margens de um esgoto, onde seus filhos logo foram vítimas de doenças gastrintestinais fatais.6

Como presidente em um trono construído por fuzileiros navais norte-americanos em 1965, Juan Balaguer, da República Dominicana, ficou famoso como “o Grande Expulsor”. Quando voltou ao poder em 1986, o idoso autocrata decidiu reconstruir Santo Domingo como preparação para o quinto centenário da descoberta do Novo Mundo por Colombo e para a visita do papa. Com o apoio de governos e fundações da Europa, iniciou uma série de projetos monumentais sem precedentes na história dominicana: o Farol Colombo, a Plaza de Armas e um arquipélago de novos loteamentos de classe média. Além de se monumentalizar, Balaguer também pretendia haussmannizar os núcleos tradicionais de resistência urbana. Seu principal alvo foi a imensa área de baixa renda de Sabana Perdida, na cidade alta a nordeste do centro da cidade. “O plano”, escrevem pesquisadores que trabalhavam em Sabana Perdida, “era livrar-se de elementos incômodos dos barrios operários da cidade alta, empurrando-os para os arredores. A lembrança das revoltas de 1965 e dos distúrbios de 1984 indicou que seria mais sábio eliminar esse centro de oposição e protesto político”.7

Depois de enormes protestos da coordenadora de direitos do barrio, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos da ONU, a cidade alta foi salva, mas realizaram-se demolições extensas, que várias vezes envolveram o Exército, no centro, sudoeste e sudeste de Santo Domingo. Entre 1986 e 1992, quarenta barrios foram arrasados, e 180 mil moradores removidos. Num importante relatório sobre a demolição dos bairros, Edmundo Morel e Manuel Mejía descreveram a campanha de terror do governo contra os pobres.

“As casas eram demolidas enquanto os habitantes ainda estavam dentro delas, ou quando os donos estavam fora; tropas de choque paramilitares costumavam intimidar e aterrorizar as pessoas e obrigá-las a abandonar seus lares; bens domésticos eram vandalizados ou roubados; as ordens de despejo só eram entregues no mesmo dia em que a família seria removida; pessoas eram sequestradas; grávidas e crianças eram submetidas a violência física; os serviços públicos dos barrios eram cortados, numa tática de pressão; as famílias eram insultadas e ameaçadas; e a polícia agia como juiz.”8

Os modernos Jogos Olímpicos têm uma história especialmente sinistra, mas pouco conhecida. Durante os preparativos para os Jogos de 1936, os nazistas expurgaram impiedosamente os sem-teto e favelados de áreas de Berlim que talvez pudessem ser avistadas pelos visitantes internacionais. Embora os Jogos subsequentes, inclusive os da Cidade do México, de Atenas e Barcelona, tenham sido acompanhados por renovação urbana e despejos, os jogos de Seul, em 1988, foram realmente sem precedentes na escala da perseguição oficial aos pobres, quer fossem donos de sua própria casa, invasores ou locatários: cerca de 720 mil pessoas foram removidas em Seul e Incheon, levando uma ONG católica a afirmar que a Coréia do Sul rivalizava com a África do Sul como “o país no qual o despejo à força é mais violento e desumano”.9

Beijing seguiu o precedente de Seul em seus preparativos para os Jogos de 2008: “350 mil pessoas serão reassentadas para abrir espaço apenas para a construção de estádios”.10 A Human Rights Watch chamou a atenção para a ampla concordância oculta entre incorporadores e planejadores oficiais, que manipulam a excitação patriótica inerente aos Jogos Olímpicos para justificar os despejos em massa e a ocupação egoísta de terrenos no coração de Beijing11. Anne-Marie Broudehoux, em seu célebre livro The Making and Selling of Post-Mao Beijing [A criação e venda da Beijing pós-Mao] (2004), afirma que, no capitalismo de Estado da China, a preferência atual é esconder a pobreza por detrás de fachadas do “tipo Potemkin” e não reduzi-la substancialmente.

Ela previa que o planejamento dos Jogos Olímpicos repetiria a experiência traumática (e, para o operariado, sombriamente irônica) da comemoração do quinquagésimo aniversário da Revolução Chinesa.

Durante mais de dois anos, os pequineses sofreram a desorganização causada pelas diversas campanhas de embelezamento iniciadas para camuflar as feridas sociais e físicas da cidade. Centenas de casas foram demolidas, milhares de pessoas despejadas, e bilhões de iuanes dos contribuintes foram gastos para construir uma fachada de ordem e progresso. Para garantir que as cerimônias cuidadosamente planejadas se realizassem com perfeição, a capital foi levada a uma paralisação enquanto durou a semana de festividades. Os moradores de Pequim receberam ordens de ficar em casa e acompanhar a festa pela televisão, como fizeram na cerimônia de abertura dos Jogos Asiáticos.12

No entanto, o programa mais orwelliano de “embelezamento urbano” da Ásia em tempos recentes foi, sem dúvida, a preparação de “1996, Ano de visita a Mianmá”, realizada em Yangon e Mandalay pela ditadura militar da Birmânia [Mianmá], sustentada pela heroína. Um milhão e meio de moradores –inacreditáveis 16% do total da população urbana – foram removidos dos seus lares (frequentemente, por incêndios provocados pelo Estado) entre 1989 e 1994 e enviados para cabanas de bambu e palha construídas a toda a pressa na periferia urbana, agora rebatizada com o horripilante nome de “Novos Campos”. Ninguém tinha idéia de quando chegaria a sua vez, e até mesmos os mortos foram removidos dos cemitérios. Em seu livro Karaoke Fascism [Fascismo de karaokê], Monique Skidmore descreve cenas violentas ocorridas em Yangon e Mandalay, que fazem lembrar o famoso despovoamento de Phnom Penh, por Pol Pot. “Quarteirões inteiros da cidade desaparecem em questão de dias, a população é carregada em caminhões e realojada à força nos novos povoados que o governo criou em campos de arroz fora das principais cidades.”

Os bairros urbanos foram substituídos por projetos como o novo Campo de Golfe de Yangon, destinado a turistas ocidentais e empresários japoneses. “Os generais removeram uma comunidade que estava no local havia quarenta anos. Aqueles que resistiram foram presos ou levados à força para um povoado a 24 quilômetros de distância.”13

Skidmore argumenta que esse deslocamento espacial constante tornou-se a base da “política de medo” do regime. Com a troca de nome, a reconstrução e a remoção de marcos conhecidos e a forte presença do Exército com seu arsenal, o conselho militar impõe uma nova configuração espacial a Yangon [...], suprimindo bairros potencialmente democráticos, demolindo as partes pobres da cidade e criando novos centros urbanos que imortalizam o princípio do autoritarismo.

Em vez dos bairros tradicionais e dos prédios históricos, a lavagem do dinheiro das drogas financia arranha-céus de vidro e concreto (“narcoarquitetura”), hotéis para turistas com moeda forte e extravagantes condomínios-pagodes. Yangon tornou-se um pesadelo que combina uma “terra mágica budista para turistas”, um quartel gigantesco e um cemitério: é uma “paisagem que glorifica o controle e a visão autoritária dos seus líderes”.14

* Do livro Planeta favela (Boitempo, 2006), de Mike Davis.

Notas

[1] Ben Omiyi, The City of Lagos: Ten Short Essays (Nova York, Vantage Press, 1995), p. 48.
[2] Erhard Berner, “Poverty Alleviation and the Eviction of the Poorest”, International Journal of Urban and Regional Research, v. 24, n. 3, set. 2000, p. 559.

[3] Drakakis-Smith, Third World Cities, p. 28.
[4] Berner, Defending a Place, p. 188.
[5] Task Force Detainees of the Philippines (TFDP-AMRSP), “Urban Poor, Demolition and the Right to Adequate Housing”, artigo para discussão, Manila, 2000.
[6] Helen Basili, “Demolition – the Scourge of the Urban Poor”, Transitions (boletim do Service for the Treatment and Rehabilitation of Torture and Trauma Survivors), n. 6, maio 2000.
[7] Morel e Mejía, “The Dominican Republic”, p. 85.
[8] Ibidem, p. 95-7.
[9] Catholic Institute for International Relations, Disposable People: Forced Evictions in South Korea (Londres, Catholic Institute for International Relations,1988), p. 56.
[10] Asian Coalition for Housing Rights, Housing by People in Asia (boletim), 15/10/2003, p. 12.
[11] Ver Human Rights Watch, relatório atual, e “Demolished: Forced Evictions and the Tenants’ Rights Movement in China”, disponível em hrw.org/reports/2004/china.
[12] Anne-Marie Broudehoux, The Making and Selling of Post-Mao Beijing (Nova York, Columbia University Press, 2004), p. 162.
[13] Skidmore, Karaoke Fascism, p. 88. Ver também o arquivo sobre a Birmânia (Burma), disponível em <www.idpproject.org>.
[14] Skidmore, Karaoke Fascism, p. 84-5, 89, 159-60.

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BRASIL EM JOGO500

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Convite

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Dos livros de Mike Davis publicados pela Boitempo, Planeta favela (R$ 22,00 aqui), Cidade de quartzo (R$ 32,00 aqui), Occupy (R$ 5,00 aqui) e Cidades rebeldes (R$ 5,00 aqui) já estão à venda em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do impresso.

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Ecologia do medo, Holocaustos coloniaisO monstro bate à nossa porta (Record), Planeta favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de quartzo, os três últimos pela Boitempo Editorial

Chega de chiclete: texto de Mike Davis sobre o movimento Occupy Wall Street

Cena de "They live" (John Carpenter/1988)

Mike Davis, historiador e economista, autor de Planeta Favela (Boitempo, 2006), Apologia dos bárbaros: ensaios sobre o império (Boitempo, 2008) e Cidade de Quartzo: escavando o futuro em Los Angeles (Boitempo, 2009) nos enviou texto exclusivo sobre o movimento Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), que segue abaixo em tradução de Rogério Bettoni. Ao fim do texto, o original em inglês.

Na semana passada publicamos o discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento, confira clicando aqui.

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Quem poderia prever que o Occupy Wall Street e sua proliferação ao estilo de uma planta selvagem aconteceriam em cidades grandes e pequenas? John Carpenter previu. Há quase 25 anos (1988), o mestre do terror (Halloween, A coisa) escreveu e dirigiu They Live [“Eles vivem”, no Brasil], retratando a Era Reagan como uma catastrófica invasão alienígena. O filme continua sendo seu tour de force. Aliás, quem poderia esquecer das primeiras cenas brilhantes em que uma grande periferia terceiro-mundista é mostrada ao longo de uma autoestrada e refletida pelos arranha-céus espelhados de Bunker Hill, em Los Angeles? Ou da maneira como Carpenter retrata banqueiros milionários e ricos midiocratas dominando a pulverizada classe trabalhadora dos Estados Unidos, que vive em barracas numa encosta cheia de entulhos e implora por trabalhos casuais?

Partindo dessa igualdade negativa entre falta de moradia e desesperança, e graças aos óculos escuros mágicos encontrados pelo enigmático “Nada” (interpretado por Kurt Russell), o proletariado finalmente alcança a unidade inter-racial, não se deixa enganar pelas fraudes subliminares do capitalismo e fica furioso, extremamente furioso. Sim, eu sei, estou adiantando as coisas. O movimento “Occupy the World” ainda procura seus óculos mágicos (programa, demandas, estratégia e assim por diante), e sua fúria permanece baixa, em estado gandhiano.

Mas, como previu Carpenter, arrancar um número suficiente de cidadãos norte-americanos de suas casas e/ou carreiras (ou pelo menos atormentar dezenas de milhões com essa possibilidade) para promover algo novo e de grandes proporções é um movimento lento e cambaleante em direção ao Goldman Sachs. E, ao contrário do “Partido do Chá” [Tea party], até agora não há fios de marionete. Um dos fatos mais importantes sobre a revolta atual é simplesmente que ela ocupou as ruas e criou uma identificação espiritual com os desabrigados.

Para ser bem franco, a minha geração, educada no movimento dos direitos civis, teria pensado em primeiro ocupar os prédios e esperar que a polícia colocasse todos porta afora na base de cacetadas. (Hoje, os policiais preferem spray de pimenta e “técnicas não letais”.) Em 1965, quando eu tinha dezoito anos e participava da equipe nacional dos Estudantes para uma Sociedade Democrática, planejei uma ocupação do Chase Manhattan Bank, “parceiro do apartheid” por conta de seu papel central no financiamento da África do Sul depois do massacre de manifestantes pacíficos. Foi o primeiro protesto em Wall Street em uma geração, e 41 pessoas foram arrastadas de lá pela polícia.

Ainda acho que tomar o comando dos arranha-céus é uma ideia esplêndida, mas para um estágio mais avançado da luta. Até o momento, a genialidade do Occupy Wall Street é o fato de ter liberado alguns dos imóveis mais caros do mundo e transformado uma praça privada em um espaço público magnético e catalisador de protestos.

Nossa ocupação há 46 anos foi uma incursão de guerrilheiros; a de agora é uma Wall Street sob o cerco dos liliputianos. Também é o triunfo do princípio supostamente arcaico do cara a cara, da organização dialógica. As mídias sociais são importantes, é claro, mas não onipotentes. O sucesso da auto-organização dos ativistas – a cristalização da vontade política a partir do livre debate – continua sendo melhor nos fóruns urbanos da realidade. Dito de outra forma, a maior parte das nossas conversas na internet equivale ao padre sendo ensinado a celebrar a missa; até mesmo megasites como o MoveOn.com são voltados para um grupo que já sabe do que é dito, ou pelo menos para seu provável grupo demográfico.

As ocupações também são para-raios, acima de tudo, para as menosprezadas e alienadas tropas dos Democratas, mas, além disso, elas parecem estar derrubando barreiras de geração, proporcionando as bases comuns, por exemplo, para que os professores de meia-idade, ameaçados e que trabalham na educação básica, troquem ideias com jovens graduados e empobrecidos.

De maneira ainda mais radical, os acampamentos tornaram-se lugares simbólicos para reparar as divisões dentro da coalizão do New Deal impostas nos anos do governo Nixon. Como observa Jon Wiener em seu impecável blog, http://www.TheNation.com, “operários e hippies – juntos, finalmente”. Evidentemente. Quem não se comoveria quando o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka – que trouxe mineiros de carvão para Wall Street em 1989 durante uma greve cruel, mas bem-sucedida, contra a Pittston Coal Company –, convocou homens e mulheres cheios de energia para “montar guarda” no Zucotti Park, apesar do esperado ataque da polícia de Nova York? Ainda que velhos radicais como eu sejam propensos a declarar como messias qualquer recém-nascido, essa criança tem o sinal do arco-íris.

Acredito que estamos vivenciando o renascimento das qualidades que definiram de modo tão marcante as pessoas comuns da geração de meus pais (migrantes e grevistas da Crise de 1929): uma compaixão generosa e espontânea, uma solidariedade baseada em uma ética perigosamente igualitária: Pare e dê carona a uma família. Jamais fure uma greve trabalhista, mesmo se sua família não puder pagar o aluguel. Compartilhe seu último cigarro com um estranho. Roube leite quando não houver para seus filhos e dê metade para as crianças do vizinho (isso foi o que minha própria mãe fez repetidas vezes em 1936). Ouça atentamente aos sagazes e serenos que perderam tudo, menos a dignidade. Cultive a generosidade do “nós”. O que quero dizer, suponho, é que me sinto extremamente impactado por aqueles que se juntaram para defender as ocupações apesar de diferenças significativas de idade, classe social e raça. E, da mesma maneira, adoro as crianças corajosas que estão prontas para encarar o próximo inverno e passar frio nas ruas, bem como seus irmãos e irmãs desabrigados.

Mas voltemos à estratégia: qual o próximo elo na corrente (no sentido de Lenin) que precisa ser apreendido? Até que ponto é imperativo para as plantas selvagens formar uma convenção, assumir demandas programáticas e, dessa forma, colocarem a si próprias no leilão das eleições de 2012? Obama e os Democratas certamente, e talvez desesperadamente, precisarão de energia e autenticidade. Mas é improvável que os “ocupacionistas” se coloquem à venda, ou seu extraordinário processo de auto-organização. Pessoalmente, tendo para uma posição anarquista e seus imperativos óbvios.

Primeiro, exponham a dor de 99%, levem Wall Street a julgamento. Tragam Harrisburg, Laredo, Riverside, Camden, Flint, Gallup e Hooly Springs para o centro financeiro de Nova York. Confrontem os predadores com suas vítimas. Um tribunal nacional sobre o genocídio econômico.

Segundo, continuem a democratizar e ocupar produtivamente o espaço público (isto é, reivindicar os bens comuns). O veterano historiador e ativista Mark Naison, do Bronx, propôs um plano arrojado para transformar os espaços degradados e abandonados de Nova York em recursos de sobrevivência (jardins, áreas de acampamento, playgrounds) para desabrigados e desempregados. Os manifestantes do Occupy em todo o país agora sabem como é ser desabrigado e não poder dormir em parques ou numa barraca. Mais uma razão para arrebentar as amarras e escalar os muros que separam o espaço não usado das necessidades humanas urgentes.

Terceiro, fiquem atentos à verdadeira recompensa. A grande questão não é subir os impostos dos ricos ou realizar uma melhor regulamentação dos bancos. Trata-se de uma democracia econômica – o direito das pessoas comuns de tomar macrodecisões sobre investimento social, taxas de juros, fluxo de capital, criação de empregos, aquecimento global e afins. Se o debate não for sobre o poder econômico, ele é irrelevante.

Quarto, o movimento deve sobreviver ao inverno para combater o poder na próxima primavera. As ruas são frias em janeiro. Bloomberg e todos os outros prefeitos e autoridades locais estão contando com um inverno rigoroso para acabar com os protestos. Por isso é muito importante reforçar as ocupações durante as férias de Natal. Vistam seus casacos.

Por fim, precisamos nos acalmar – o itinerário do protesto atual é totalmente imprevisível. Mas se alguém erguer um para-raios, não podemos nos surpreender caso caia um relâmpago.

Banqueiros entrevistados recentemente no The New York Times parecem considerar os protestos do Occupy pouco mais que um incômodo baseado, segundo eles, numa compreensão rudimentar do setor financeiro. Eles deveriam ser mais humildes. Na verdade, deveriam tremer diante da imagem da carreta de munições. Quatro milhões e meio de empregos na área industrial foram perdidos nos Estados Unidos desde 2000, e uma geração inteira de recém-graduados encara agora a mais alta mobilidade descendente na história do país. Desde 1987, afro-americanos perderam mais da metade de seu patrimônio líquido; os latinos, inacreditáveis dois terços. Arruinar com o sonho americano e com as pessoas comuns será extremamente prejudicial para vocês. Ou, como Nada explica aos agressores imprudentes no excelente filme de Carpenter: “Vim aqui para mascar chiclete e quebrar tudo… e meus chicletes acabaram.”

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Confira abaixo o texto original em inglês:

No more Bubblegum, by Mike Davis

Who could have envisioned Occupy Wall Street and its sudden wildflower like profusion in cities large and small?

John Carpenter did. Almost a quarter of a century ago (1988), the master of date-night terror (HalloweenThe Thing, etc.) wrote and directed They Live — depicting the Age of Reagan as a catastrophic alien invasion. It remains his subversive tour de force.

Indeed, who can ever forget the brilliant early scenes of the huge third-world shantytown reflected across the Hollywood Freeway by the sinister mirror-glass of Bunker Hill’s corporate skyscrapers?

Or Carpenter’s portrayal of billionaire bankers and evil mediacrats ruling over a pulverized American working class living in tents on a rubble-strewn hillside and begging for casual jobs?

From this negative equality of homelessness and despair, and thanks to the magic dark glasses found by the enigmatic “Nada” (played by Kurt Russell), the proletariat finally achieves interracial unity, sees through the subliminal deceptions of capitalism, and gets angry. Very angry.

Yes, I know, I’m reading ahead. The Occupy the World movement is still looking for its magic glasses (program, demands, strategy, and so on) and its anger remains on Gandhian low-heat.

But, as Carpenter foresaw, force enough Americans out of their homes and/or careers (or at least torment tens of millions with the possibility) and something new and huge will begin to slouch toward Goldman Sachs. And unlike the “Tea Party,” so far it has no puppet strings.

One of the most important facts about the current uprising is simply that it has occupied the street and created an existential identification with the homeless.

Quite frankly, my generation, trained in the civil rights movement, would have thought first of sitting in the buildings and waiting for the police to drag and club us out the door. (Today, pepper spray and “pain compliance techniques” are preferred by the cops.)

In 1965, when I was just 18 and on the national staff of Students for a Democratic Society, I planned a sit-in at the Chase Manhattan Bank, “a partner in Apartheid” for its key role in financing South Africa after the massacre of peaceful demonstrators. It was the first protest on Wall Street in a generation

I still think that taking over the skyscrapers is a splendid idea, but for a later stage in the struggle. The genius of Occupy Wall Street, for now, is that it has temporarily liberated some of the most expensive real estate in the world and turned a privatized square into a magnetic public space and catalyst for protest.

Our sit-in 46 years ago was a guerrilla raid; this is Wall Street under siege by the Lilliputians. It’s also the triumph of the supposedly archaic principle of face-to-face, dialogic organizing. Social media is important, sure, but not omnipotent. Activist self-organization — the crystallization of political will from free discussion — still thrives best in an actual urban fora.

Put another way, most of our internet conversations are preaching to the choir; even the mega-sites like MoveOn.com are tuned to the channel of the already converted, or at least their probable demographic.

The occupations likewise are lightning rods, first and above all, for the scorned, alienated ranks of progressive Democrats, but, in addition, they appear to be breaking down generational barriers, providing the missing common ground, for instance, for imperiled middle-age school teachers to compare notes with pauperized young college graduates.

More radically, the encampments have become symbolic sites for healing the divisions within the New Deal coalition inflicted during the Nixon years. As Jon Wiener observes in his always smart blog at http://www.TheNation.com, “hard hats and hippies — together at last.”

Indeed. Who could not be moved when AFL-CIO president Richard Trumka — who had brought his coalminers to Wall Street in 1989 during their bitter, but ultimately successful strike against Pittston Coal Company — called upon his broad-shouldered women and men to “stand guard” over Zucotta Park in the face of an expected attack by the NYPD?

Although old radicals like me are too apt to declare each new baby the messiah, this child has the rainbow sign. I believe that we’re seeing the rebirth of the quality that so markedly defined the ordinary people of my parents’ generation (migrants and strikers of the Great Depression): a broad, spontaneous compassion and solidarity based on a dangerously egalitarian ethic:

Stop and give a hitch-hiking family a ride. Never cross a picket line, even when your family can’t pay the rent. Share your last cigarette with a stranger. Steal milk when your kids have none and then give half to the little kids next door (this is what my own mother did repeatedly in 1936). Listen carefully to the quiet profound people who have lost everything but their dignity. Cultivate the generosity of the “we.’”

What I mean to say, I suppose, is that I’m most impressed by those folks who’ve rallied to defend the occupations despite often significant differences in age, social class, and race. But equally, I adore the gutsy kids who are ready to face the coming winter on freezing streets, just like their homeless sisters and brothers.

But — back to strategy — what’s the next link in the chain (in Lenin’s sense) that needs to be grasped? How imperative is it for the wildflowers to hold a convention, adopt programmatic demands, and thereby put themselves up for bid on the auction block of the 2012 elections? Obama and the Democrats will certainly and perhaps desperately need their energy and authenticity.

But the occupationistas are unlikely to put themselves or their extraordinary self-organizing process up for sale. Personally I lean toward the anarchist position and its obvious imperatives.

First, expose the pain of the 99 per cent, put Wall Street on trial. Bring Harrisburg, Laredo, Riverside, Camden, Flint, Gallup, and Holly Springs to downtown New York. Confront the predators with their victims. A national tribunal on economic mass murder.

Second, continue to democratize and productively occupy public space (i.e. reclaim the Commons). The veteran Bronx activist-historian Mark Naison has proposed a bold plan for converting the derelict and abandoned spaces of New York into survival resources (gardens, campsites, playgrounds) for the unsheltered and unemployed. The Occupy protestors across the country now know what it’s like to be homeless and banned from sleeping in parks or under a tent. All the more reason to break the locks and scale the fences that separate unused space from urgent human needs.

Third, keep our eyes on the real prize. The great issue is not raising taxes on the rich or achieving a better regulation of banks. It’s economic democracy — the right of ordinary people to make macro-decisions about social investment, interest rates, capital flows, job creation, global warming, and the like. If the debate isn’t about economic power, it’s irrelevant.

Fourth, the movement must survive the winter in order to fight the power in the next spring. It’s cold on the street in January. Bloomberg and every other mayor and local ruler is counting on a hard winter to deplete the protests. Thus it’s all important to reinforce the occupations over the long Christmas break. Put on your overcoat.

Finally, we must calm down — the itinerary of the current protest is totally unpredictable. But if one erects a lightning rod, we shouldn’t be surprised if lightning eventually strikes.

Bankers, recently interviewed in The New York Times, seem to find the Occupy protests little more than a nuisance based, they claim, on an unsophisticated understanding of the financial sector.

They should be more humble. Indeed, they should probably tremble before the image of the tumbril

Four-and-one-half million manufacturing jobs have been lost in the United Sates since 2000 and an entire generation of college graduates now face the highest downward mobility in American history. Since 1987, African Americans have lost more than half of their net worth; Latinos, an incredible two-thirds.

Wreck the American dream and the common people will put some serious hurt on you. Or as Nada explains to his unwary assailants in Carpenter’s great film:

“I have come here to chew bubblegum and kick ass… and I’m all out of bubblegum.”

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Dos livros de Mike Davis publicados pela Boitempo, Planeta favela já está à venda em ebook. Compre clicando aqui.

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Ecologia do medo, Holocaustos coloniaisO monstro bate à nossa porta (Record), Planeta Favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de Quartzo, os três últimos pela Boitempo Editorial