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A formação da barbárie e a barbárie da formação: a lógica por trás do treinamento da PM

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Praças da PM criticam formação focada na servidão aos oficiais, vivida em um ambiente em que abusos físicos, psicológicos e disciplinares fazem parte da rotina. [Foto: Clarice Castro/ GERJ, “formatura de soldados da PM carioca em 17.01.2014]

Por Ciro Barros.*

“Bora, bora, você é um bicho. Você é um jumento, seu gordo!”. O ex-soldado Darlan Menezes Abrantes imita a fala dos oficiais que o instruíam na academia quando ingressou na Polícia Militar do Ceará, em fevereiro de 2001. “Às vezes, era hora do almoço e os superiores ficavam no meu ouvido gritando que eu era um monstro, um parasita. Parecia que tava adestrando um cachorro. O soldado é treinado pra ter medo de oficial e só. O treinamento era só mexer com o emocional, era pro cara sair do quartel igual a um pitbull, doido pra morder as pessoas. Como é que eu vou servir a sociedade desse jeito? É ridículo. O policial tem que treinar o raciocínio rápido, a capacidade de tomar decisões. Hoje se treina um policial parece que está treinando um cachorro pra uma rinha de rua”, reflete.

Darlan lembra sem saudade dos sete meses passados no extinto Curso de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PM cearense. “Sempre que um professor faltava, éramos obrigados a fazer faxina em todo o quartel. E o pior: quem reclamava podia ficar preso o fim de semana todo. A hierarquia fica acima de tudo no militarismo. O treinamento era só aquela coisa da ordem unida [exercícios militares de formação de marcha, de parada ou reunião dos membros da tropa], ficar o dia inteiro marchando debaixo do sol quente. Lá dentro é um sistema feudal, você tem os oficiais que podem tudo e os soldados que abaixam a cabeça e pronto, acabou. Você é treinado só pra ter medo de oficial, só isso. O soldado que vê o oficial, mesmo de folga, se treme de medo”,  diz.

Enquanto era policial, Darlan estudava Teologia no Seminário Teológico Batista do Ceará e Filosofia na UECE (Universidade Estadual do Ceará). O ex-soldado conta que passou a questionar algumas ordens e instruções enquanto frequentava a academia e logo ganhou um apelido: “Mazela”, uma gíria mais comum no nordeste do Brasil para uma pessoa mole, preguiçosa. Pouco a pouco se espalhava entre a tropa a ideia de que os questionamentos do “Mazela” eram fruto de uma pura preguiça com relação aos exercícios militares.

“Fiquei com essa fama no quartel”, afirma. “É uma lavagem cerebral. O militarismo é uma espécie de religião que cria fanáticos. Ordem unida, leis militares, os regimentos e tal, aqueles gritos de guerra. Essas coisinhas bestas que os policiais vão aprendendo, como arrumar direito a farda. Você pode ser preso se não tiver com um gorro ou chapéu na cabeça. Essas coisas que só atrapalham a vida dos policiais. Às vezes eu pegava um ônibus superlotado, chegava com a farda amassada e ficava sexta, sábado e domingo preso. Você imagina? Por causa de uma besteira dessas? Isso é ridículo”, exclama. “E isso é antes e depois do treinamento: se você for hoje na cavalaria da PM de Fortaleza você vai ver policial capinando, pegando bosta de cavalo, varrendo chão, lavando carro de coronel, abrindo porta para os semideuses [oficiais]. Eu nunca concordei com isso e fiquei com fama de preguiçoso”, diz.

O assédio moral é a regra na formação do PM em cursos de curta duração que tem como preocupação principal imprimir a cultura militar no futuro soldado; com pouco aprendizado teórico em temas como direito penal, constitucional e direitos humanos; além da sujeição a regulamentos disciplinares rígidos. É o que constatou a pesquisa “Opinião dos Policiais Brasileiros sobre Reformas e Modernização da Segurança Pública” publicada em 2014 pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas (CPJA), da Escola de Direito da FGV de São Paulo, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Veja o infográfico abaixo). Foram ouvidos mais de 21 mil profissionais de segurança pública (entre policiais civis, militares, rodoviários federais, agentes da polícia científica, peritos criminais e bombeiros) de todas as unidades da federação, mais da metade deles policiais militares, sobretudo praças (policiais de patentes mais baixas). Destes, 82,7% afirmaram ter formação máxima de um ano antes de exercer a função, 38,8% afirmaram que já foram vítima de tortura física ou psicológica no treinamento ou fora dele e 64,4% disseram ter sido humilhados ou desrespeitados por superiores hierárquicos. 98,2% de todos os profissionais (incluindo profissionais de outras áreas) que responderam a pesquisa afirmaram que a formação e o treinamento deficientes são fatores muito importantes para entender a dificuldade do trabalho policial.

Clique aqui para ver o infográfico ampliado

Apesar dos números alarmantes, o tema ainda é pouco discutido dentro das corporação e fora dela. Em vários estados, os regimentos internos das polícias militares proíbem expressamente que os policiais se manifestem a respeito da própria profissão. Eles também dizem ter pouco espaço para denunciar as violações sofridas por eles no dia a dia – a estrutura fechada e hierárquica do militarismo dá pouca brechas para denúncias ou críticas dos policiais com relação à própria formação, principalmente fora dos quartéis. Mesmo que essas denúncias se refiram ao descumprimento de direitos humanos primordiais.

“MORTO POR “SUGA”

Paulo Aparecido dos Santos. Foto: Reprodução Jornal Extra

A ênfase excessiva na preparação física nos cursos de formação já resultou até em mortes. O caso mais recente talvez tenha sido o do ex-recruta da PM Paulo Aparecido dos Santos, de 27 anos, morto em novembro de 2013 após uma sessão de treinamentos no CFAP (Centro de Aperfeiçoamento de Praças da Polícia Militar) do Rio de Janeiro.Paulo morreu após uma “suga”, gíria dos policiais cariocas para as sessões de treinamentos físicos que levam os recrutas até o esgotamento físico.

Durante a sessão, segundo os relatos de outros recrutas ouvidos pelo repórter Rafael Soares do jornal Extra, quem não conseguia acompanhar o ritmo da sessão de treinamentos físicos era obrigado a sentar no asfalto quente – naquele dia fez mais de 40 graus no bairro de Sulacap, zona oeste do Rio, onde está localizado o CFAP – ou submetido a choques térmicos com água gelada.

No mesmo dia em que Paulo morreu, outros 32 alunos precisaram de atendimento médico – 18 com queimaduras nas nádegas ou nas mãos. Oito oficiais foram denunciados pelo Ministério Público pela morte de Paulo. O caso ainda tramita na Justiça Militar.

Em 2012, três batalhões de Curitiba foram denunciados por excessos relacionados à formação dos recrutas. O roteiro é o mesmo: verdadeiras sessões de tortura física e psicológica, castigos, punições rigorosas. Há até uma acusação de assédio sexual (segundo a denúncia, um cabo teria beijado uma recruta à força).

LIÇÃO DE TORTURA

A institucionalização de violações de direitos humanos dentro da PM na formação e treinamentos dos seus integrantes reflete-se diretamente na maneira como reagem no cotidiano com a população. Um relato exemplar está no relatório final da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, em que o sociólogo e ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares, afirmou em depoimento concedido no dia 28 de novembro de 2013: “O BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais, pelotão de elite da PM fluminense] oferecia, até 2006, aulas de tortura, 2006! Aulas de tortura! Não estou me referindo, portanto, apenas às veleidades ideológicas (…), nós estamos falando de procedimentos institucionais”, afirmou.

Foi a essa realidade que o então recruta Rodrigo Nogueira Batista, egresso da Marinha, foi apresentado ao participar das Operações Verão nas Praias dois meses depois de ingressar na PM, descritas por ele como uma espécie de estágio que os recrutas fazem com policiais mais antigos nas praias nobres da capital fluminense – Ipanema, Copacabana, Barra da Tijuca, Botafogo, Recreio.

“A minha turma partiu pro estágio com dois meses de CFAP, dois meses dentro do CFAP tendo meio expediente e depois rua. Lá fomos nós de cassetete, shortinho e camisa da Polícia Militar, isso pra população ver aquele monte de recruta passando para poder dar o que eles chamam de ‘sensação de segurança pra população’”, relembra. “Eles colocam o policial antigo armado e dois ou três ‘bolas-de-ferro’, como eles chamam os recrutas, justamente por dificultar a movimentação do policial antigo. A gente chegava e o antigo ficava angustiado com a nossa presença porque queria pegar dinheiro do flanelinha, do cara que vende mate, da padaria e quando ele ia no português comer alguma coisa tinha que dividir com os “bolas-de-ferro”’, lembra. Na rua: “a barbárie imperava: pivete roubando, maconheiro… Tudo que tu imaginar. Quando caía na mão era só porrada, porrada, porrada, gás de pimenta, muito gás de pimenta. Foi ali que eu tive contato com as técnicas de tortura que a Polícia Militar procede aí em várias ocasiões”, afirma.

“Você vê agora o caso do Amarildo”, comenta. “Aqueles policiais que participaram do caso Amarildo, pelo menos de acordo com o que o inquérito está investigando, estão fazendo as mesmas práticas que eu já fazia, que o meu recrutamento já fazia, que outros fizeram bem antes de mim e que já vem de muitos anos. Vem de uma cultura”, analisa.

O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante entrevista a Agência Pública, fala de seu livro "Como nascem os monstruos". Foto Bel Pedrosa. Rio 23.06.15

O ex-soldado da PM, Rodrigo Nogueira, preso em Bangu 6 desde 2009, durante entrevista a Agência Pública, fala de seu livro “Como nascem os monstros”. Foto Bel Pedrosa. Rio 23.06.15

A Agência Pública entrevistou Rodrigo em Bangu 6, o presídio destinado a ex-policiais, bombeiros, milicianos, agentes penitenciários dentro do complexo penitenciário carioca. Condenado a 30 anos de reclusão, somando-se as penas recebidas na esfera civil e militar, ele falou com a Pública numa salinha apertada dentro da penitenciária. Rodrigo é autor de Como nascem os monstros (Editora Topbooks), um catatau de mais de 600 páginas onde descreve o que considera o processo de “perversão” a que são submetidos os jovens na corporação e que o teria levado a ser condenado por crimes como tentativa de homicídio triplamente qualificado, furto, extorsão e atentado violento ao pudor (ele nega ter cometido os crimes pelos quais foi condenado, mas afirma que não é inocente e que já cometeu outras arbitrariedades quando PM).

“Por exemplo, um pivete roubou uma coisa de um turista e correu. O policial corre atrás do pivete e pega o pivete. Quando ele consegue chegar no pivete, ele já jogou o que ele roubou fora, e ele é menor de idade, não pode ser encaminhado para a delegacia. Porra, mas o policial sabe que ele roubou. Aí entra o revanchismo, a hora da vingança. Primeiro lugarzinho separado que tiver (cabine, atrás de um prédio, dentro dos postos do guarda-vidas) é a hora da válvula de escape”, resume. E como é orientado o recruta antes de ir para rua? “Uma das instruções que os oficiais davam antes do efetivo sair pro policiamento era: ‘olha, vocês podem fazer o que vocês quiserem, pega o pivete, bate, quebra o cassetete, dá porrada no flanelinha. Só não deixa ninguém filmar e nem tirar foto. O resto é com a gente. Cuidado em quem vocês vão bater, cuidado com o que vocês vão fazer e tchau e benção’”, relata. “O camarada começa a ver um pivete levando choque, spray de pimenta no ânus, no escroto, dentro da boca e não sente pena nenhuma. Pelo contrário, ele ri, acha engraçado. E tem um motivo: se nesse momento que o mais antigo pegou o pivete e começa a fazer isso, se você ficar sentido, comovido por aquela prática, pode ter certeza que vai virar comédia no batalhão, vai ser tido como fraco. Vai ser tido como inapto para o serviço policial”, afirma.

Segundo ele, quem demonstra “fraqueza” ou “covardia” num momento como esse começa lentamente a ser destacado e afastado das funções de “linha de frente” da corporação. “Se você é duro, você vai trabalhar na patrulha, no GAT [Grupamento de Ações Táticas], na Patamo [Patrulhamento Tático Móvel]… Agora você que é mais sensato, que não vai se permitir determinadas coisas, não tem condições de você trabalhar nos serviços mais importantes. Não tem como o camarada sentar no GAT se não estiver disposto a matar ninguém. Não tem como. E não é matar só o cara que tá com a arma na mão ali, é matar alguém porque a guarnição chega a essa conclusão: ‘Não, aquele cara ali a gente tem que matar’. Aí é cerol mesmo”, garante.

Essa disposição pra matar na “linha de frente” relatada por Rodrigo se traduz em casos reais ocorridos com as PMs. Em um áudio revelado pelo repórter Luís Adorno, da Ponte,  o 1º tenente da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite da PM paulista) Guilherme Derrite afirma: “A polícia tá como sempre, né, querendo reduzir a letalidade policial. Então os tenentes, principalmente os oficiais, mas também cabos e soldados que nos últimos cinco anos se envolveram em três ocorrências ou mais que tenham resultado em evento morte do criminoso estão sendo movimentados. Até eu que to fora da rua há dois anos me encaixo nessa lista. Porque pro camarada trabalhar cinco anos na rua e não ter ma… três ocorrências, na minha opinião, é vergonhoso né?”

(Leia a entrevista completa com o ex-policial Rodrigo aqui).

SIM SENHOR, NÃO SENHOR

A cultura de violência nasce com a desumanização do próprio PM já na formação, relatam os entrevistados. “O soldado da polícia militar não tem direito nenhum. A gente tem que dormir em alojamentos sujos, caindo aos pedaços. Cada um tinha que trazer a sua rede pra dormir no alojamento. Os colegas casados que fizeram o treinamento passaram muita dificuldades porque passamos três meses sem receber salário. O soldado só tem direito de dizer sim senhor e não senhor e de marchar o tempo todo”, resume o ex-soldado Darlan Menezes Abrantes. “Como uma polícia antidemocrática vai cuidar de uma sociedade democrática?”, pergunta.

Autor de um livro intitulado “Militarismo: um sistema arcaico de segurança pública” (Editora Premius), Darlan foi expulso da polícia cearense em janeiro de 2014, após 13 anos de PM. O que causou a expulsão, segundo ele, foi o livro. “Eu fui pra algumas universidades aqui de Fortaleza distribuir o livro e fiquei do lado de fora da Academia [Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará (AESP-CE)] na hora do almoço. Aí os alunos vinham, pegavam o livro e levavam pra dentro. Durante uma das aulas, alguns alunos perguntaram para uma professora porque aqui no Brasil tinha polícia militar se na maioria dos países do mundo ela não era militarizada. Os alunos falaram que tinham visto no meu livro. Aí, pronto. Começaram a investigar a minha vida, abriram um IPM [Inquérito Policial Militar], eu fui interrogado e eu fiquei impedido de trabalhar na rua”, conta.

FotoDarlan

No capítulo 11 do livro de Darlan, há algumas frases anônimas ditas por seus colegas a respeito da PM.  “Os oficiais são uns sanguessugas”, diz uma das frases; “a PM é a polícia mais covarde que existe, pois só prende pobre”, afirma outra. “No meu interrogatório, eles queriam que eu dissesse o nome de cada policial que falou as frases, pra cada policial ser punido. A minha advogada alegou sigilo da fonte, igual vocês jornalistas têm. Em outra sessão, nessa época que eu tava respondendo o processo, eu tentei argumentar com um capitão. ‘Não, capitão, é meu direito escrever o livro’. Ele ironicamente pegou uma folha de papel em branco e jogou na minha frente, dizendo: ‘Aqui, os seus direitos’”, diz.

A PM cearense alegou que a expulsão se baseava em vários artigos do Código Disciplinar e do Código Penal Militar e que a conduta do ex-soldado iam de encontro ao pudor e decoro da classe. Em São Paulo e no Ceará, é proibido ao policial “publicar, divulgar ou contribuir para a divulgação irrestrita de fatos, documentos ou assuntos administrativos ou técnicos de natureza policial, militar ou judiciária que possam concorrer para o desprestígio da Corporação Militar”. Darlan denunciou sua expulsão ao Ministério Público do Ceará e entrou com uma ação de reintegração na Justiça ainda não julgada. Procurada pela Agência Pública, a PM cearense não quis explicar o motivo da expulsão de Darlan nem comentar as declarações dele.

REGULAMENTOS “OBSOLETOS E ANTIDEMOCRÁTICOS”

“Imagina um professor que não pode falar de educação ou um médico que não pode falar de saúde. Em muitos estados, o policial não pode falar de segurança pública”, afirma o sociólogo Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. Ele é autor de um estudo que analisou os “manuais de conduta” dos PMs com o objetivo de comparar os códigos e legislações disciplinares das corporações de segurança pública no Brasil.

“Os regulamentos disciplinares da PM são obsoletos, antidemocráticos, muitos deles pré-constitucionais”, define o sociólogo. “Eles foram criados para garantir a hierarquia e a disciplina dentro da corporação e a imagem da corporação, não foram feitos para proteger nem a população e nem o policial”, afirma o professor. “A maior parte da formação na PM é para o policial aprender normas, tanto as leis quanto as normas internas da corporação, e correr pra cima e pra baixo pra ficar em forma. A educação física não é dada com um propósito de saúde do trabalho, ela também está nessa lógica da disciplina. O que alguns especialistas e membros da polícia dizem que, implicitamente, esses artigos abusivos foram derrubados com a Constituição. O fato é que o diploma legal continua vigente”, diz.

Segundo seu estudo, ao menos 10 unidades da federação possuem regulamentos anteriores à Constituição, inspirados no Regulamento Disciplinar do Exército (RDE). Alguns estados até adotam diretamente o RDE como regulamento nas polícias militares. Isso foi determinado a partir de um decreto da ditadura, o Decreto-Lei 667, de 2 de julho de 1969. O artigo 18 do decreto estabelece que: “As Polícias Militares serão regidas por Regulamento Disciplinar redigido à semelhança do Regulamento Disciplinar do Exército e adaptado às condições especiais de cada Corporação”.

“Nos regulamentos que nós analisamos, nós vimos casos extremos neste estudo, como regulamentos que estipulam que, se um policial em posição superior bater num policial de nível inferior para obrigar a cumprir uma ordem, então não tem problema, é uma coisa normal. Esse é um dos casos mais extremos”, afirma Ignacio Cano. Ele cita outros abusos, decorrentes do excesso de regulação. “Há todo um moralismo especial sobre o policial que regula até a vida privada dele. Ele não pode fazer coisas que a maioria dos mortais fazem: se embebedar, contar uma mentira, contrair dívidas. Ele pode ser punido por essas coisas. Isso cria uma visão de super-homem moral que não existe, isso sujeita os policiais a riscos permanentes de punição por condutas que a maioria dos brasileiros fazem”, explica.

Há vários exemplos dessa regulação da vida privada dos policiais. No Espírito Santo, segundo o regulamento, é proibido aos policiais “manter relacionamento íntimo não recomendável ou socialmente reprovável, com superiores, pares, subordinados ou civis”. No Amazonas, é vedado ao policial “falar, habitualmente, língua estrangeira, em estacionamento ou organização policial militar, exceto quando o cargo ocupado pelo policial militar o exigir”. Em nove estados, constitui uma transgressão disciplinar o policial “contrair dívidas ou assumir compromissos superiores às suas possibilidades, comprometendo o bom nome da classe”.

A hierarquia é o valor supremo nos manuais das PMs. Os regulamentos disciplinares das polícias de Alagoas e Mato Grosso proíbem: “sentar-se a praça, em público, à mesa em que estiver oficial ou vice-versa, salvo em solenidades, festividades, ou reuniões sociais”. Em outros sete estados, é uma transgressão disciplinar o policial que está sentado deixar de oferecer seu lugar a um superior. Só nove estados classificam as transgressões tipificadas nas categorias comuns (Leve, Média, Grave e Gravíssima); nos demais fica a cargo do superior estipular a gravidade da transgressão.

“Os direitos humanos dos policiais são lesados frequentemente com esses regulamentos. E aí nós queremos que eles respeitem os direitos humanos dos cidadãos quando eles como seres humanos e trabalhadores não tem os seus direitos respeitados”, observa Cano. “Quando você trata o policial de uma forma autoritária e arbitrária, o que você está promovendo é que ele trate o cidadão da mesma forma. Ele tende a descontar no cidadão a repressão que ele sofre no quartel. Ele tende a ser autoritário, arbitrário, impositivo. Ele não tem diálogo no quartel, por que ele vai dar espaço pra isso com o cidadão? Ele tende a esperar do cidadão a mesma moral que a dele”, argumenta o sociólogo.

Principal nome à frente do site Rede Democrática PM BM, o primeiro sargento da PMDF Roner Gama é um exemplo da restrição da corporação à liberdade de expressão de seus integrantes. “Essa carga negativa da ditadura se reflete em procedimentos internos punitivos que existe ainda hoje. O policial, por exemplo, não pode manifestar na rede social sobre certos aspectos internos da corporação sob o risco de responder. Eu mesmo estou respondendo a diversos inquéritos e sindicâncias por me expressar ali naquele site. Hoje mesmo eu vou na Corregedoria responder por um comentário que alguém fez no site. É uma coisa chata, constrangedora. A PM é a única instituição do país em que o agente não pode questionar o seu superior. Um servidor público não pode questionar procedimentos internos? É algo fora do contexto que vivemos. É totalmente absurdo”, afirma.

Com mais de 20 anos de experiência dentro das academias de polícia brasileiras e latinoamericanas, a antropóloga e professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz, afirma: “No Brasil, nós temos uma lógica aristocrática pautada em privilégios que perverte o sentido da hierarquia e da disciplina. É um abuso de poder continuado, como acontece com regulamentos disciplinares caducos e inconstitucionais”, analisa.

“Os próprios policiais dizem nas ruas e nas minhas pesquisas que a motivação deles é a punição. Isso reflete ambientes de pouca cidadania, transparência, de poucos reconhecimentos dos direitos constitucionais de um dos principais atores da democracia. O policial é quem faz valer a Constituição na esquina, não é o Rex que late e abana o rabo. Ele não tem que cortar grama do superior hierárquico, virar motorista da esposa do coronel, servir cafezinho, ceder lugar na fila do cinema pro superior. Essa cultura faz com que o policial se sinta inseguro na rua justamente por uma insegurança institucional e um policial inseguro é pior do que um policial mal pago. Ele se vê o tempo todo com medo de ser punido. Os policiais sempre dizem: ‘se eu faço demais eu sou punido, se eu faço de menos eu sou punido, se eu não faço, eu sou punido’. Faltam parâmetros de aferição qualificada para o trabalho policial e isso ainda depende de nós instituirmos um processo formativo profissional pras polícias”, analisa.

“Polícia não se improvisa. Um policial experiente custa muito caro à sociedade, ele não pode ser substituído porque morreu ou porque se acidentou”, conclui a antropóloga.

“EU JÁ CAÍ NO CHÃO PARAPLÉGICO”

Em 1989, Saul Humberto Martins, hoje beirando os 50 anos, sonhava em entrar na Polícia Militar do Distrito Federal. Ele diz que achava a profissão bonita, que via muitas coisas ruins nas ruas e achava que podia contribuir como policial. Saul entrou na corporação por concurso, tornou-se cabo da PM e trabalhou como policial por 18 anos até ser atingido por um tiro acidental durante uma instrução, em abril de 2008, que o fez ficar paraplégico.

“Aquele dia estava tendo um curso de Radiopatrulhamento que tinha começado. Eu não fazia parte do curso, tava em outra área, mas me pediram pra dar um apoio. E eu fui”, relembra. No curso, voltado a policiais com mais de dez anos de polícia, Saul deveria simular que era um criminoso e, em várias situações, tentar tomar a arma das mãos de outro policial. Ele então tirou o colete balístico que usava para ter mais mobilidade e para representar o papel de “meliante”.

Antes do treinamento, todos os participantes eram orientados a descarregar suas armas. Porém, durante a instrução, um soldado participante do curso disse que estava com dor de cabeça e quis deixar o quartel para ir à farmácia. Ele saiu do local,carregou a arma e colocou na cintura e foi de viatura comprar remédio. Quando retornou, o soldado esqueceu da arma carregada. “Assim que ele chegou, um oficial entrou na parte de trás do carro e falou pro soldado: ‘vamo que agora é a vez de vocês fazerem a abordagem’. Eles entraram no local da instrução, que era um local fechado. Quando eles entraram, o oficial orientou: ‘aborda aquele pessoal lá’”, afirma. Na simulação, Saul foi orientado a reagir à abordagem. Quando ele reagiu, o soldado que tinha saído disparou a arma carregada.

Saul_Abordagem

Imagem do treinamento de abordagem que deixou Saul Humberto Martins paraplégico

“O tiro pegou na minha omoplata, perfurou o pulmão, a coluna e se alojou na minha medula. Eu já cai no chão paraplégico”, diz. O episódio de Saul foi filmado e pode ser visto aqui (as imagens são muito fortes). Saul ficou um mês internado no Hospital Regional de Taguatinga. A corregedoria da PM do Distrito Federal condenou o oficial instrutor do curso e o soldado que disparou a arma a nove meses de prisão (convertidos em serviços comunitários), mas seguem na corporação. Saul, que hoje é pastor evangélico, ainda pleiteia sua indenização na Justiça.

“Quem tava dando a instrução no dia do meu acidente não era instrutor. Simplesmente porque ele era oficial ele tava lá dando a instrução, mas ele não tinha preparo pra dar aquela instrução. Depois do meu acidente houve vários outros casos. Teve um colega meu que não foi bem orientado numa instrução de tiro, ele disparou, a cápsula bateu no olho dele e ele saiu de lá cego. Teve outro que levou um tiro no joelho e teve que amputar a perna. Teve o caso do sargento Silva Barros que morreu lá no Guará, que recebeu um tiro dentro do Quarto Batalhão de Polícia Militar. Teve até um instrutor do Bope que morreu também.”, relembra. “Nós precisamos de instrutores mais bem preparados. Temos bons instrutores, mas o problema é que eles querem colocar os oficiais piás na instrução só porque são oficiais. Tem muito sargento bom de instrução que não pode virar instrutor, porque eles querem ter esse privilégio. Puramente pela hierarquia”, reflete.

Sobre o treinamento em si, Saul critica o foco excessivo nos treinamentos de ordem unida. “O cara fica dentro da academia e 50% do curso é pra aprender militarismo. Precisamos de um treinamento mais técnico e profissional. O policial tem que ter mais treinamento de tiro, pra ele saber atirar, não pra matar ninguém, mas pra saber atirar quando for necessário”, opina.

A Agência Pública tentou contato com alguns dos policiais acidentados no Distrito Federal, mas eles se recusaram a falar. Em nota, a PMDF afirmou que “faz treinamentos constantes com o objetivo de cada vez mais aprimorar e atualizar o seu pessoal, e esses treinamentos são realizados com armamento de fogo para simular reais situações de perigo e ação dos policiais. Todas as medidas de cuidado são tomadas, mas infelizmente acidentes acontecem, não só aqui, mas em qualquer lugar do mundo, e além do mais, a PMDF tem um dos menores índices de acidentes que causem graves lesões ou até mesmo a morte de nossos policiais”, conclui a nota.

CULTURA DA DITADURA

Treinamento físico no CFAP do Rio de Janeiro

Treinamento físico no CFAP do Rio de Janeiro

“Nosso sistema de segurança pública traz ainda muita coisa da época da ditadura, inclusive a formação”, afirma o cabo da PM de Santa Catarina Elisandro Lotin, presidente da Anaspra (Associação Nacional de Praças da Polícia Militar). “Nós já fizemos inúmeras denúncias [sobre os cursos de formação]. Recentemente, aqui em Santa Catarina tinha uma academia de polícia com 200 mulheres e elas foram obrigadas a ficar em posição de apoio e fazer flexões no asfalto quente às três horas da tarde, várias delas ficaram com queimaduras nas mãos. Aí você vai chegar nelas e dizer pra elas defenderem a sociedade?”, questiona.

Vanderlei Ribeiro, presidente da Aspra (Associação de Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro) desde 2008, atribui o “amadorismo” da formação à “cultura” da PM.  “Nós somos mal formados, mal preparados e induzidos a erro pela cultura militarista que existe nas polícias militares de todo o Brasil. A formação impõe desde o início um comportamento autoritário que vai se refletir na população. A cultura militar é perversa, ela não prepara o PM para compreender que ele tem um compromisso social com a sociedade. A escola de polícia não tem qualificação nenhuma e não prepara ninguém pra atuar na rua. A formação é agressiva, não respeita os direitos humanos, é arrogante, autoritária e o policial só sabe agir da mesma forma quando sai da academia”, avalia.

Para o sargento Leonel Lucas, membro da Brigada Militar do Rio Grande do Sul e presidente da ABAMF (Associação Beneficente Antônio Mendes Filho, entidade dos praças da Brigada gaúcha) não só o treinamento dos praças precisa melhorar. “Infelizmente, nós temos ainda alguns capitães Nascimento dando instrução nos cursos de formação dos praças. É por isso que eu acho que a primeira coisa que tem que ser mudada é a formação acadêmica dos oficiais superiores, quando a gente mudar a cabeça de quem tá nos formando lá em cima e os oficiais superiores começarem a receber uma formação mais humanista, isso vai se refletir pra quem está nas patentes mais baixas.”

ACADEMIA NÃO FORMA PARA DIREITOS HUMANOS

Autor de uma tese de mestrado em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o tenente-coronel Adilson Paes de Souza – 30 anos de serviço, hoje na reserva – analisou o peso da disciplina de Direitos Humanos no currículo da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, escola de oficiais da PM paulista.

Segundo a dissertação de Adilson, só em 1994 a disciplina de Direitos Humanos apareceu no currículo do Barro Branco e, desde a sua inclusão, a disciplina nunca passou dos 2% do total de horas-aula oferecido nos cursos de formação. Em 2013, último ano coberto pela pesquisa de Adilson, a disciplina de Direitos Humanos representou só 1,4% do total de horas-aula do curso (90 horas aula em um total de mais de 6 mil horas de curso); hoje é ainda menor, foi reduzida para 41 horas-aula.

Adilson critica também o conteúdo geral dos cursos de formação. “Não é dada sequer uma pincelada do quadro social que nós vivemos de desigualdade, pobreza, exclusão. É nessa realidade que o policial vai trabalhar. Quando se fala da questão racial, o policial tem que entender o mecanismo histórico que produz a desigualdade racial até mesmo para que ele não reproduza de maneira inconsciente essas mesmas opressões no dia a dia. E essa é a queixa feita sobre a Polícia Militar na periferia: o viés extremamente racista”, exemplifica.

Para a antropóloga Jacqueline Muniz, da UFF, a partir do final dos anos 1980 algumas academias se abriram para outras áreas de forma positiva o que inspirou a criação da Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (Renaesp), em 2003, que repassa recursos para cursos de especialização para as polícias em universidades de todo o país. “Qualificando os gestores e operadores de segurança pública e pesquisadores foi possível dar um salto de qualidade na elaboração de diagnósticos e iniciativas que subsidiassem políticas públicas”, destaca. Ela também considera importante a criação da Matriz Curricular do Ministério da Justiça (um documento de referência às polícias militares e civis brasileiras para a elaboração das grades curriculares de cada estado), e a criação do Fundo Nacional de Segurança Pública, com recursos vinculados ao planejamento das atividades. “Antes do Fundo a tradição era só de compra de armamento, viatura e munição. Então o policial ganhava um armamento novo, mas desconhecia completamente o que é a logística policial e o diálogo entre os armamentos para fazer uso gradual, qualificado e comedido da força.”

Os avanços, porém, estão restritos a alguns estados, observa Jaqueline Muniz. “Ainda não produzimos uma espécie de ‘esperanto’, de linguagem comum entre as polícias que favoreça a transparência, a profissionalização, a integração e o controle social sobre as práticas de ensino na polícia”, conclui.

A mudança não é fácil como experimentou na prática César Barreira, professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Ceará e coordenador do LEV (Laboratório de Estudos da Violência). Em 2011 o sociólogo implantou a Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará, com uma proposta de formação integrada de todos os profissionais de segurança pública – à exceção dos agentes penitenciários. “Eu avalio essa experiência como muito positiva. Houve uma mistura do ambiente policial com o acadêmico, a parte técnica era dada pelos especialistas em segurança pública e a parte humanística era ensinada por professores doutores”, exemplifica. Ele usa os verbos no passado porque  um ano e três meses depois do início da experiência, ele foi exonerado pelo secretário de Segurança Pública e Defesa Social, coronel Francisco Bezerra. “Claramente essa minha proposta não foi muito bem recebida por todos. Os soldados, os policiais da Polícia Civil e a Polícia Forense receberam bem, parte dos oficiais da PM é que não receberam. Não sei se essas ideias vão continuar porque você sabe que um sociólogo à frente de uma academia de polícia é diferente de um tenente-coronel”, finaliza.

Outra tentativa é o Instituto Superior de Ciências Policiais (ISCP), uma instituição de ensino superior credenciada no MEC, criada pela Polícia Militar do Distrito Federal que oferece dois cursos de graduação (bacharelado em Ciências Policiais e tecnólogo em Segurança Pública) e cursos de pós-graduação lato sensu. “A ideia é oferecer um curso amplo para formar profissionais de gestão em segurança pública. Aqui no Brasil é o primeiro instituto desse tipo. No Chile, pra você ter uma ideia, existe um instituto semelhante desde 1939”, diz o coronel Sousa Lima, coordenador do Departamento de Educação da PMDF e reitor do ISCP. “Também temos uma pró-reitoria de pesquisa para fornecer apoio acadêmico à realidade do policial. Quem vai estudar qual o melhor equipamento pro policial não se aposentar com problemas na coluna? Quem vai estudar que arma o policial usa pra fazer menos dano? Quem vai estudar que munição ele vai estudar? A gente resolveu estudar a gente mesmo porque ninguém tá preocupado com a polícia”, alfineta.

DESMILITARIZAR É PRECISO?

Uma questão divide opiniões de policiais e especialistas em segurança pública: é possível oferecer uma formação mais humana e eficiente aos policiais militares sem mexer na natureza militar da PM? Em quase todas as entrevistas feitas para esta reportagem, o tema da desmilitarização das polícias apareceu reanimado pela PEC 51/2013 de autoria do senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

Opinião: o que dizem os PMs (Clique aqui para ver o infográfico ampliado)

Opinião: o que dizem os PMs (Clique aqui para ver o infográfico ampliado)

A antropóloga Jacqueline Muniz acha que sim. “A estrutura militar em si não limita o efeito do processo formativo para os policiais, o que impede o policial aplicar o que ele aprendeu é o abuso de poder. Há polícias de inspiração militar, como a Gendarmarie, da França, os Carabineri, da Itália, e a Guarda Civil Espanhola que foram democratizadas, têm grau elevado de formação e os direitos e deveres dos policiais são garantidos como cidadãos plenos. E essas polícias são muito bem avaliadas por suas sociedades e têm, inclusive, baixo índice de violência, corrupção e violação”, afirma. O cabo Elisandro Lotin, presidente da Anaspra, vai na mesma linha. “Você pode ter uma polícia militar desde que a atuação dela na rua seja focada na dignidade da pessoa humana, cidadania, desde que desvincule de toda aquela lógica que o Exército ainda insiste em ter de controle das polícias militares: do armamento até a formação, o número de efetivo. A partir dessa desvinculação [do Exército], que não significa desmilitarização, nós podemos ter uma matriz nacional de atuação das polícias militares no Brasil focados em dignidade da pessoa humana, em direitos trabalhistas para os profissionais de segurança pública, códigos de ética e conduta adequados à democracia”, defende.

Já Vanderlei Ribeiro, presidente da associação de praças carioca, discorda. “A estrutura militarista é incompatível com o policiamento ostensivo. Militarismo é pro Exército. Primeiro você tem que mexer na estrutura pra depois você falar em alterar a formação. Não tem outro caminho. Você pode pegar o melhor especialista do país para dar aula para os policiais, só que o que ele vai fazer na rua vai ser diferente do que ele aprendeu lá porque a cultura enraizada não permite outro tipo de comportamento. Aqui no Rio de Janeiro teve vários convênios com ONGs, vários professores universitários foram dar aula lá nos cursos e não mudou em nada porque a questão toda é mi-li-tar. Não adianta o camarada ter aula de sociologia se ele vai chegar na rua e vai matar, se ele é treinado nesse conceito militarista”, avalia. “Não adianta você fazer aula de direitos humanos se a polícia é militar. Quando você vai pra rua o que predomina é a ideia militar, é a lógica militar”, opina o ex-soldado Darlan Menezes Abrantes.

“Nas entrevistas com os policiais para a minha dissertação, uma fala me chamou a atenção. Eles diziam: ‘Nós entramos em serviço e ao entrar em serviço nós entramos em território inimigo. No território inimigo, eu mato ou eu morro. Não me peça para interceder pela vida do inimigo.’ Estudando depois sobre essa fala, eu fui estudar a Doutrina de Segurança Nacional e ela necessita de um inimigo para se fazer presente. Na ditadura, o inimigo era quem? Quem contestava a ditadura. Terminou a redemocratização e essa ideia persiste, hoje o inimigo é quem enfrenta a polícia, quem pratica um delito ou quem vive em determinadas áreas. O discurso de muitas autoridades é o discurso da guerra, de retomar o território do inimigo, de ocupar o morro e devolver para o Estado. É o discurso da Doutrina de Segurança Nacional. Na ponta da linha, o recado chega assim: ‘Lá tem um inimigo, então o aniquile’. Talvez isso explique a letalidade da polícia”, conclui o tenente-coronel Adilson Paes de Souza.

“Quando você vê um soldado policiando, algo já está errado. Ou o camarada é soldado, ou policial. O soldado tem uma premissa que é o quê? Matar o inimigo. Isso aí é o principal.O soldado é formado para eliminar o inimigo e o policial não, pelo menos não deveria”, afirma o ex-soldado da PM Rodrigo Nogueira Batista. “Essa confusão de atribuições entre soldado e policial, elas não se resolvem de maneira fácil. As coisas continuam acontecendo aos olhos  de todo mundo e ninguém faz nada.  Por exemplo, aquele pessoal que tava voltando de uma festa dentro do HB20 branco e que foram perseguidos por uma patrulha. Não teve um estalinho, uma bombinha, nada que viesse do HB20 pra patrulha e o cara deu 15 tiros de fuzil no carro. Isso só pode acontecer na cabeça de um soldado, na cabeça de um policial não aconteceria nunca. Um policial iria correr atrás, cercar. Mas ele não ia dar tiro em quem não tá dando tiro nele. Só na cabeça do soldado, que acha que tá na guerra e acha que se não atirar primeiro vai levar tiro. O cara foi lá, deu a sirene e o carro acelerou pra fugir da polícia. ‘Ah, é bandido, vou dar tiro’. Podia ser alguém bêbado, podia estar todo mundo fazendo uma suruba dentro do carro, podia ter uma cachaça no carro e o cara estar com medo de ser pego, o cara podia não ter habilitação, o cara podia ser surdo… São milhões de coisas, mas o cara não para pra analisar essas coisas porque ele não foi condicionado pra pensar, a contextualizar o tipo de serviço que ele tá fazendo. Ele foi treinado pra quê? Acelerou, correu, bala!”, analisa o ex-PM, hoje na prisão.

* Reportagem de Ciro Barros, da Agência Pública, publicada originalmente com o título “Treinados para rinha de rua” em 20.07.2015, e recuperada especialmente para o dossiê “Violência policial: uso e abuso“, do Blog da Boitempo.

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Confira o dossiê especial “Violência policial: uso e abuso“, no Blog da Boitempo, com artigos, reflexões, resenhas e vídeos de Ruy Braga, Slavoj Žižek, Antonio Candido, Jorge Luiz Souto Maior, Edson Teles, Mauro Iasi, Christian Dunker, Gabriel Feltran, Maurilio Lima Botelho, Marcos Barreira, José de Jesus Filho, Guaracy Mingardi, Maria Orlanda Pinassi, David Harvey, Vera Malaguti Batista, Laurindo dias Minhoto e Loïc Wacquant, entre outros.

Žižek indica 6 livros para entender Hegel

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Slavoj Žižek desenvolve em Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (Boitempo, 2013) a expressão mais sistemática de sua filosofia ao propôr uma inusitada “repetição” do grande filósofo idealista alemão à luz dos atuais impasses do capitalismo global. Perguntado a respeito de quais livros sobre Hegel foram os mais influentes em seus estudos, o esloveno respondeu com a seguinte lista (sem ordem de importância):

L’ envers de la dialectique: Hegel à la lumière de Nietzsche [O avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche], de Gerard Lebrun

The Persistence of Subjectivity: On the Kantian Aftermath, de Robert Pippin

Hegel Variations: On the Phenomenology of the Spirit, de Fredric Jameson

Mourning Sickness: Hegel and the French Revolution, de Rebecca Comay

The Future of Hegel: Plasticity, Temporality and Dialectic, de Catherine Malabou

In the Spirit of Hegel, de Robert C. Solomon

Quais livros vocês diriam que estão faltando? Que autores e comentadores foram os mais importantes nos seus estudos sobre Hegel, Marx e filosofia alemã?

Já viu o booktrailer de Menos que nada?

E a entrevista de Žižek sobre o livro na Univesp TV:

Žižek passou pelo Roda Viva quando veio lançar o livro aqui no Brasil: (reparem na camiseta que ele escolheu usar no dia!)

Pra encerrar: a aula de Rodnei Nascimento sobre Menos que nada, no Curso de introdção à obra de Slavoj Žižek”, da Boitempo:

Curso completo: A psicopatologia do Brasil entre muros, coordenado por Christian Dunker

curso christian

O psicanalista Christian Dunker foi o curador de um módulo do Café Filosófico da CPFL Cultura baseado inteiramente em sua obra Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015). Ao todo foram quatro encontros, com alguns dos principais pensadores da psicanálise no Brasil hoje. Confira!

O módulo se inicia com uma conferência de abertura do próprio Christian Dunker, que mapeia as três noções de “mal-estar”, “sofrimento” e “sintoma”, que balizam o curso, e introduz o ousado gesto de colocar o Brasil no divã. Nas suas palavras, “para entender o brasil, é preciso imaginá-lo como um agente que sofre, vive às voltas com o mal-estar e é capaz de produzir sintomas. um desses sintomas é a nossa vida em condomínio, uma representação da psicopatologia de um país entre muros: os muros dos diagnósticos da escola, da justiça, das avaliações nas empresas, do trabalho em forma de projetos.” Em seguida, o psicanalista Nelson da Silva Jr. discutirá as noções chave de “sintoma social” e “racionalidade diagnóstica” na historicização de Dunker do sofrimento psíquico no Brasil e as formas de articular ele. Essa abordagem o permite decifrar a dimensão política como fundamental para compreender esta dinâmica. Na sequência, a psicanalista Maria Lívia Tourinho Moretto discute os contornos do nosso sofrimento social à brasileira no interior de uma cultura global do sucesso e questiona a máxima da sociedade contemporânea: “é preciso ser feliz”? Por fim, o filósofo Vladimir Safatle encerra o módulo com um raio-x da “lógica do condomínio”, dispositivo que, na tese de Dunker, seria a matriz fundamental de articulação dos afetos no Brasil contemporâneo. Confira a gravação integral das quatro conferências abaixo!

1. O Brasil no divã: “mal-estar, sofrimento e sintoma”
Com Christian Dunker
Neste primeiro encontro Dunker apresenta as três noções de “mal-estar”, “sofrimento” e “sintoma” no contexto da expansão do uso de diagnósticos clínicos e sociais para definir nossas formas de vida: da dimensão filosófica e existência da angústia que se apresenta no “mal-estar”, passando pelas condições narrativas pelas quais o “sofrimento” se exprime e é reconhecido socialmente, até a ideia de “sintoma” como algo que atrapalha mas também porta uma verdade que ainda não pode ser reconhecida pelo sujeito.

2. Sintoma social e racionalidade diagnóstica
Com Nelson da Silva Jr.
A conversa se dedica a esclarecer os diferentes sentidos da expressão “sintoma social”, que pode encontrada, com significados radicalmente diversos, tanto nos discursos higienistas, quanto nos marxistas, nos gerenciais e nos psicanalíticos. Ao longo da conferência, o psicanalista Nelson da Silva Jr demonstra como estabelecimento de fronteiras, e o exame da racionalidade diagnóstica presente em cada um desses usos exige a explicitação de sua compreensão do que é a vida social em seu princípio, isto é, seu posicionamento político.

3. O sofrimento na nossa cultura do sucesso
Com Maria Lívia Moretto
Neste último encontro, a psicanalista e professora da USP Maria Lívia Tourinho Moretto discute os contornos do nosso sofrimento social à brasileira no interior de uma cultura global do sucesso e questiona a máxima da sociedade contemporânea: “é preciso ser feliz”?

4. A lógica do condomínio
Com Vladimir Safatle
Nesta terceira conversa, o filósofo Vladimir Safatle demonstra como a lógica do condomínio impõe-se enquanto modelo de produção social de afetos. Ele defende que ela só pode ser compreendida no interior da elevação do medo a afeto social fundamental (seguindo com isto uma tradição que remonta a Hobbes), e encerra comentando como tal articulação pode nos dizer muito sobre as formas de sofrimento social em terras nacionais.

* * *

Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros
por Christian Dunker

prefácio
Vladimir Safatle
orelha
José Luiz Aidar Prado (Leia aqui).

* * *

Para descontrair: Christian Dunker desempacota seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma, na edição de estréia do “conversas de estoque” na Boitempo. Entre pilhas e “muros” de livros, o autor discute como a “lógica do condomínio” baliza nossas formas de sofrer e sublinha o papel da cultura em criar narrativas para articularmos e darmos outros sentido ao sofrimento e, enfim, “inventar novas formas de sofrer” – uma tarefa que Dunker coloca como sendo urgente para o Brasil de hoje.

 

Para ampliar a discussão: Não deixe de conferir o debate de lançamento de Mal-estar, sofrimento e sintoma, com Christian Dunker, Paulo Arantes, Maria Rita Kehl e Vladimir Safatle, intitulado “Segregação e ódio no Brasil partido”. Realizado no centro de São Paulo, numa Quadra dos Bancários apinhada de interessados, o evento teve a mediação do jornalista Antonio Martins e discutiu as interfaces possíveis entre psicanálise e política para pensar os impasses do Brasil entre muros.

Relembre algumas entrevistas de Antonio Abujamra com autores da Boitempo no Provocações

abujamra

Luiz Bernardo Pericás

Arlene Clemesha

Emir Sader

Nelson de Oliveira

Roberto Mangabeira Unger
Renato Janine Ribeiro

Vladimir Safatle

Leonardo Sakamoto

Paulo Barsotti

Mino Carta

Juca Kfouri

Luis Carlos Bresser-Pereira

Laerte Coutinho

Jean Wyllys

Heródoto Barbeiro

Sócrates

Boitempo indica leituras de fim de ano!

Recomendações de leitura 2014Dois mil e crazy, dois mil e catarse, 2014… que ano! A Boitempo preparou uma série de indicações de livros para ler ou presentear os queridos.

Confira abaixo sugestões de nossos funcionários, colaboradores e autores:

A Atualidade da Atualidade da Depressão
Para esta época natalina, repleta de balanços, balancetes e demasiados ajustes de contas com o destino e o mundo, recomendo o livro de Maria Rita Kehl, O tempo e o cão – a atualidade das depressões, que ganhou o prêmio Jabuti de 2010. Para este tempo de distanciamento da pressão e de espera do recomeço, às vezes maníaco do ano-novo, nada melhor que este tempo reencontrado das depressões produtivas e improdutivas. O trabalho da Maria Rita, recém-egressa do brilhante trabalho junto à Comissão Nacional da Verdade, reúne os três movimentos para pensarmos uma psicopatologia crítica, ou seja, uma forte incursão pelas modalidades históricas que construíram nossa atual experiência depressiva do mundo desde sua separação da melancolia, um diálogo transversal com os saberes que universalizam a depressão para a além de sua dimensão patológica, desde a filosofia até a literatura e as artes, terminando pelo retorno ao relato clínico e sua hipótese concernente à experiência do tempo, na fantasia e na posição subjetiva do deprimido.
Discutindo com Alain Ehrenberg, que mostrou porque a depressão é a forma prevalente de mal-estar no enquadramento social do neoliberalismo, e continuando a tradição de crítica da subjetividade inaugurada por Adorno e Benjamin, Maria Rita confirma que há uma psicanálise que consegue dizer mais além de seus próprios muros. Esta analítica do tempo consegue mostrar em ato que a clínica psicanalítica nada mais é do que crítica social feita por outros meios:

“Para este tempo achado, que o sujeito toma para si como momento oportuno (Kairós), o analisando só se torna disponível depois de desprender da posição fantasmática que fazia de seu tempo um movimento de eterno retorno às formas de servidão infantil.”

Boa leitura, para apreciar com moderação, para sorver com cuidado, longe das urgências universitárias.
Christian Dunker, autor

Como vou ministrar um curso de introdução à sociologia clássica no próximo semestre, sinto a necessidade de me atualizar e nada mais recomendável do que o novo livro de Michael Löwy, A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. Como tive a oportunidade de receber Michael na USP no ano de 2012, ocasião em que ele ministrou aulas sobre os temas deste livro, estou familiarizado com o resgate empreendido pelo autor das surpreendentes “afinidades eletivas” anti-capitalistas existentes entre Weber e Marx. Trata-se de uma perspectiva inovadora, principalmente, em relação a Weber, e bastante audaciosa em se tratando de teoria sociológica. Além disso, o livro permite avançar sobre autores, tais como G. Lukács e W. Benjamin, por exemplo, que foram muito influenciados por Weber e cuja contribuição para a reconstrução do marxismo no século XX é verdadeiramente inestimável.
Ruy Braga, autor

Marxismo e Direito: um estudo sobre Pachukanis, de Márcio Bilharinho Naves, desde seu lançamento em 2000 foi um divisor de águas na teoria marxista sobre o direito. Antes de tal obra, muitos ainda trilhavam a ilusão de que reformas jurídicas fossem o meio de, quantitativamente, se chegar ao socialismo. Mas Naves vai às minúcias do pensamento pachukaniano para demonstrar a especificidade do direito no capitalismo. A forma jurídica é espelho da forma mercadoria. O direito, mais ou menos ou diferente, é sempre capitalismo. Já Engels e Kautsky, no primoroso O socialismo jurídico, assim também apontavam no século XIX. Tais reflexões são balizas que fundamentam minhas próprias reflexões, como em Estado e forma política.
Alysson Mascaro, autor
 

Minha indicação não será de um lançamento (embora tenhamos excelentes este ano!), mas de um livro que julgo fundamental, não apenas pelo tema tratado (uma educação revolucionária), mas por ser uma obra acessível, introdutória ao pensamento – por vezes complexo – do grande filósofo húngaro István Mészáros: A educação para além do capital. Nesse pequeno livro, Mészáros afirma que a educação não é um negócio, é criação. Que educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida. O autor ensina que pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. Que educar é – citando Gramsci – colocar fim à separação entre Homo faber e Homo sapiens; é resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias. E recorda que transformar essas ideias e princípios em práticas concretas é uma tarefa a exigir ações que vão muito além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos fóruns acadêmicos. Que a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo. Reflete sobre algumas questões de primeira ordem, tais como: Qual o papel da educação na construção de um outro mundo possível? Como construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias?
Pequeno em tamanho, é um livro imenso em esperança e determinação. Nele, o pensador marxista condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideia de que não existe alternativa à globalização capitalista. Em Mészáros, educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital.

Ivana Jinkings, editora

Recomendar livros da Boitempo é fácil! Fazer isso em poucos caracteres é que torna a missão quase impossível! Pra economizar letrinhas, vou me focar nos três lançamentos de estreia do selo Barricada, de HQs, que veio para mostrar que a literatura se renova sempre, em formato e conteúdo. Cânone gráfico, a maravilhosa série, organizada por Russ Kick, da qual acabamos de publicar o primeiro volume, que transporta para a linguagem dos quadrinhos e das ilustrações algumas das mais incríveis histórias escritas desde o começo dos séculos, como o Mahabharata, As mil e uma noites, peças de Eurípides e Aristófanes, romances de cavalaria, sonetos shakesperianos, textos de Benjamin Franklin e muito mais, culminando, neste volume, em As ligações perigosas (só pra dar água na boca, o volume seguinte vai de Kublai Khan a O retrato de Dorian Gray), tudo isso transformado em quadrinhos por gente como Will Eisner, Robert Crumb, Peter Kuper e outros artistas extremamente talentosos. Pra quem gosta de quadrinhos e literatura, mas sabendo que se trata de uma obra em si mesma, não de nenhuma releitura caça-níqueis chatinha. Da alemã Franziska Becker, o álbum Último aviso, com charges selecionadas dessa feminista sagaz e brilhante, capaz de rir de si mesma, do mundo e, pior, de nós leitores, que fechamos o livro com uma imprecisa sensação de que em algum momento já fizemos alguma daquelas coisas ridiculamente humanas. E, por fim, nosso brasileiro, Claun: a saga dos bate-bolas, quadrinho que conta a história dos grupos de foliões mascarados que tomam as ruas do Rio de Janeiro durante o carnaval desde o início do século XX, colorindo a periferia da cidade e fazendo barulho, provocando tumulto e agitando o imaginário dos cariocas – afinal, o carnaval do Rio não se resume às caríssimas celebridades cuidadosamente embrulhadas em anúncios de marcas de cerveja, ele também é contestação, é a época em que, fantasiados, todos podem ser heróis por três dias. A criação e o roteiro são do cineasta Felipe Bragança, a arte é de Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo Bragança. Divirtam-se!
Bibiana Leme, editora-adjunta

Depois de um ano tão denso do ponto de vista político, social e humano, nada melhor do que recuperar o fôlego tirando uns dias para refletir sobre tudo o que se deu e sobre tudo o que está aí. Bons livros costumam ser os melhores companheiros nessa jornada. E como o tempo é artigo raro mesmo nas férias, recomendo duas leituras breves, pequenos frascos que contêm grandes perfumes, e outra, um pouco mais ampla, de peso histórico.
O ódio à democracia, do filósofo francês Jacques Rancière, numa cuidadosa tradução de Mariana Echalar, pode nos ajudar a entender de onde vem, por exemplo, a absurda grita, em pleno 2014, pela volta do regime militar no Brasil. Em pouco mais de 100 páginas, o autor recua até a Antiguidade clássica e dialoga com pensadores de diferentes épocas para colocar em perspectiva o mal-estar que a palavra democracia vem causando ao longo dos séculos. “Ela não se fundamenta em nenhuma natureza das coisas e não é garantida por nenhuma forma institucional. Não é trazida por nenhuma necessidade histórica e não traz nenhuma. Está entregue apenas à constância de seus próprios atos. A coisa tem por que suscitar medo e, portanto, ódio, entre os que estão acostumados a exercer o magistério do pensamento. Mas, entre os que sabem partilhar com qualquer um o poder igual da inteligência, pode suscitar, ao contrário, coragem e, portanto, felicidade.”
Dando continuidade a essa reflexão, mas num registro um pouco diferente, o economista Marcio Pochmann limpa todo o ranço do senso comum, à direita e também à (pseudo) esquerda, no debate sobre a questão da inclusão social no Brasil do século XXI. Nas quase 150 páginas de O mito da grande classe média, ele nos faz enxergar quanta balela e quanto preconceito há no discurso que quer, a todo custo, enquadrar numa nova classe média a ascensão e o fortalecimento das classes trabalhadoras. Leia com cuidado, especialmente se sua ceia de Natal e de Réveillon estiver rodeada por cozinheiras, empregadas domésticas e babás trabalhando até altas madrugadas em pleno feriado.
E para entender onde tudo isso começou, Trabalhadores, uni-vos!, organizado pelo cientista político italiano Marcello Musto e traduzido por Rubens Enderle (que em 2014 ganhou o Jabuti pela tradução de O capital, Livro I, de Marx), traz os textos originais da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional, que acaba de completar 150 anos. É uma antologia emocionante, da mensagem inaugural – onde se encontra a famosa frase que dá título à obra  – às discussões sobre temas como o trabalho, os sindicatos, as greves, a educação, a Comuna de Paris etc. Tudo demasiadamente atual, como destaca o organizador do volume numa introdução que, além de ser um delicioso banho de história, é um chamado à cidadania. Numa edição caprichada, com uma série de imagens, é, no mínimo, um belo presente de Natal.
Com esses três companheiros de jornada, depois de refletir sobre tudo o que se deu e sobre tudo o que está aí, você certamente vai enxergar com outros olhos tudo o que ainda está por vir. Feliz 2015!
Isabella Marcatti, editora-adjunta

Leitura de férias tem de ser sinônimo de aventura! Por isso recomendo um dos livros mais dinâmicos e emocionantes do nosso catálogo: México insurgente, do jornalista e militante comunista estadunidense John Reed. Livro de cabeceira de Che Guevara, México insurgente foi reeditado por nós em 2010, em comemoração aos 100 anos da Revolução Mexicana. Além de ter alçado seu autor ao status de celebridade, é considerado o mais importante depoimento desse episódio crucial da história da América Latina.
Enviado em 1913 ao México como correspondente de guerra – ironicamente, pela Metropolitan Magazine, uma sofisticada revista nova-iorquina que mais tarde o afastaria por “esquerdismo” –, Reed passou quatro meses ao lado das tropas de Pancho Villa. Carinhosamente chamado de meester por seus compañeros de armas, o jornalista testemunhou de perto não apenas as sangrentas batalhas, mas também o dia a dia daqueles revolucionários, vivenciando junto seus costumes, festividades, amores, dores e alegrias.
Do mesmo autor, temos também Eu vi um novo mundo nascer, preciosa seleção de relatos, depoimentos e artigos jornalísticos, muitos publicados pelos extintos (e saudosos) veículos de esquerda dos Estados Unidos, como The Masses e Liberator.
Thaisa Burani, assistente editorial

Eu recomendo para as férias a leitura do Cânone gráfico, v.1. Achei muito interessante a ideia de republicar clássicos em quadrinhos. Essa coletânea é ótima para conhecer um pouquinho da literatura de várias partes do mundo. Gostei bastante do que li até agora e adorei as imagens. Não costumo ler quadrinhos, por isso está sendo uma experiência diferente para mim.
Livia Campos, produção gráfica

Em 2012, numa de suas históricas conferências, David Harvey observou quão irrestrita é a criatividade do capitalismo. Não existem limitações para a imaginação deste sistema, que não precisa se preocupar com qualquer princípio ou valor além da perpétua busca pela geração de lucro. Para Harvey, uma das principais causas da dissolução da URSS foi a limitação da criatividade com a qual o socialismo disputava o imaginário social em tempos de guerra fria – a esquerda tem, portanto, o dever de elaborar em novos termos seus discursos e suas bandeiras. Este é o argumento central do artigo “Marxismo e fantasia” (publicado na Margem Esquerda 23) e também a base da militância estética de China Miéville – um dos maiores nomes da ficção científica e do pensamento marxista da atualidade, que temos o prazer de começar a publicar no Brasil este ano. A esquerda precisa abraçar o pensamento fantástico (do que mais são feitas as utopias, os ‘outros mundos possíveis’ e a própria crítica negativa?), superar os vícios culturais elitistas de nossa sociedade e exercitar o pensamento para além dos caminhos que estão dados. Confesso estar apaixonado por essas armas da crítica defendidas por Harvey e Miéville, razão pela minha recomendação não poderia ser outra: A cidade & a cidade, romance de Miéville que pratica ficcionalmente a crítica dos processos urbanos contemporâneos pela qual Harvey se tornou tamanha referência.
Kim Doria, divulgação e eventos

Li recentemente Tempos difíceis, de Charles Dickens, e me encantei. A história parece falar de tempos idos, mas é atualíssima: a exploração, a degradação do meio ambiente, os políticos que parecem viver em outro mundo, as bizarrices que se cometem em nome do status… Dickens é sempre envolvente, mas largar desse livro não é uma tarefa fácil.
Mariana Echalar, tradutora

Eu recomendo a leitura do trabalho de Ludmila Costhek Abílio em Sem maquiagem, que parte de um estudo sério e aprofundado sobre o cotidiano das revendedoras de cosméticos, leva à reflexão não apenas sobre os novos mecanismos de opressão do proletariado contemporâneo, mas também lança um olhar atento para as mulheres dentro desse novo contexto. Pesquisa sensível, é voltada ao trabalho das revendedoras de cosméticos, sem, no entanto, ser um trabalho de gênero, uma vez que fomenta a visibilidade de contextos trabalhistas que, sob a égide do progresso, são naturalizados como “formas alternativas de trabalho”, sem problematização dos mecanismos que os movem. Também amo o Profanações do Agambem. Bom, na verdade, Boitempo é amor <3
Luciana Lima, revisora

Minha recomendação para este fim de ano é Último aviso, da cartunista alemã Franziska Becker. Franziska tem uma forma muito própria de apresentar situações cotidianas, com as quais todos nós nos identificamos, sempre com humor e um olhar ácido bastante divertido e provocador. Por isso, Último aviso combina bem com esta época do ano: é uma leitura deliciosa que, ao mesmo tempo, nos convida a refletir sobre questões de gênero, consumo, política e vários outros temas. Além disso, trata-se do primeiro título do selo Barricada, ótima iniciativa da Boitempo neste 2014 que chega ao fim. E que venham mais novidades em 2015!
Mariana Tavares, revisora

Eleições 2014: roteiro de leitura da Boitempo

14.09.29_democracia e eleições brasileiras_roteiro de leituras da boitempo

Faltando duas semanas para as eleições de 2014, a Boitempo apresenta uma lista de 15 leituras para aprofundar algumas das questões – e, quem sabe, formular novas – deste debate eleitoral. Mais do que qualificar a escolha do voto (ou de sua ausência), que este ano elegerá presidente, governadores, senadores, deputados federais, estaduais ou distritais (no caso do DF), o período eleitoral também fornece sismógrafos sociais importantes para compreender o Brasil contemporâneo de forma mais ampla. Esta lista faz parte do Especial Eleições 2014, que conta com artigos, manifestos, vídeos e entrevistas de nossos colunistas.

1. O primeiro livro é da fornada nova da Boitempo, e chega às livrarias ainda este mês: Sem maquiagem: um milhão de revendedoras de cosméticos, de Ludmila Costhek Abílio
A ascensão de Marina Silva nas pesquisas eleitorais levantou bastante a figura de Guilherme Leal, um dos principais financiadores da sua campanha, candidato a vice-presidente de Marina nas eleições de 2010 e importante acionista da Natura. Talvez o nexo mais candente entre os dois, no entanto, se dê no âmbito da flexibilização do trabalho, cuja aprofundação legal está prevista no programa de governo da candidata do PSB, e que as indústrias brasileiras de cosméticos elevaram a um novo patamar global. Investigando a utilização do trabalho informal de 1,1 milhão revendedoras, este livro fornece uma das mais inovadoras reflexões sobre como “se maquia” o mundo do trabalho hoje, e mostra como “o que parece ‘perfumaria’ na realidade são evidências dos desafios políticos dos trabalhadores e da teoria em face das constituições contemporâneas da exploração.” Fruto de estudo orientado por Paulo Arantes, o livro integra a coleção Mundo do Trabalho, coordenada por Ricardo Antunes, na Boitempo.

2. Outro lançamento deste mês é O ódio à democracia, de Jacques Rancière
Em tempos de ascensão conservadora e crescente sentimento anti-político, Rancière sustenta que a democracia não é um Estado acabado, nem um estado acabado das coisas; que ela vive constante e conflitiva expansão; que não se reduz ao desenho das instituições, ou à governabilidade, ou ao jogo dos partidos, mas é algo que vem de baixo, desdenhado desde os gregos como o empenho insolente dos pobres em invadir o espaço que era de seus melhores, de seus superiores. Este irreverente ensaio faz um giro pela história da crítica à democracia para situá-la no cerne político do momento atual, procurando esclarecer o que há de novo e revelador no sentimento antidemocrático.

3. O mito da grande classe média, de Marcio Pochmann
Depois de seu aclamado Nova classe média?, livro que reconfigurou o debate contemporâneo sobre a mudança na estratificação social brasileira, Pochmann retraça a gênese da classe média assalariada brasileira desde a industrialização iniciada com JK, até os dias de hoje. Atento sobretudo à dimensão ideológica da absorção da nomenclatura em regime político e econômico neoliberal, o livro é leitura obrigatória para compreender a história e os rumos das classes sociais brasileiras. Fartamente embasado em dados, trata-se de um “livro de análise contra o senso comum, uma obra de combate político”, nas palavras de Marilena Chaui, no prefácio.

4. 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, organizado por Emir Sader
Em um momento chave de reavaliação dos dois mandatos do Partido dos Trabalhadores no Governo Federal, não poderia faltar este balanço interno feito por intelectuais militantes do PT, como Marilena Chaui, Luiz Gonzaga Belluzzo, Marcio Pochmann, Venício A. de Lima, dos avanços, desafios e impasses nas diversas áreas da política federal. A versão eletrônica do livro está disponível para download gratuito aqui.

5. Crítica à razão dualista / O ornitorrinco, de Francisco de Oliveira
Sempre atual, este clássico de interpretação do Brasil demonstra a perversa dialética pela qual convivem o moderno e o arcaico na sociedade brasileira. Nesta edição, a obra clássica de 1973 vem acrescida do ensaio “O ornitorrinco”, de 2003, que atualiza o diagnóstico dos impasses do desenvolvimento brasileiro e a deriva desse percurso truncado, desembocando no aparente paradoxo de que o governo de Lula teria realizado o programa de FHC, radicalizando-o.

6. Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira, de Francisco de Oliveira, Ruy Braga e Cibele Rizek (orgs.)
Uma análise detida do “enigma lulista”, o curioso fenômeno em que, virando Gramsci de ponta cabeça, parte “dos de baixo” dirige o Estado por intermédio do programa “dos de cima”. Atualizando o diagnóstico de interpretação do Brasil, Francisco de Oliveira vê nisso a realização da “direção moral” da sociedade brasileira alçada na resistência à ditadura com a funcionalização da desigualdade em questão administrativa, por um lado, e por outro a despolitização da classe trabalhadora.

7. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, de Ruy Braga
Em um trabalho de intensa acumulação crítica, Ruy Braga trabalha de perto com as análises de Francisco de Oliveira, André Singer e Jessé Souza, entre outros, sobre a era Lula, na tarefa de decifrar a relação entre o proletariado precarizado e a hegemonia lulista. Escrito pouco antes das manifestações de junho de 2013, esta leitura inovadora da história social do Brasil já apontava para o fato de a hegemonia lulista encontrar-se assentada em um terreno historicamente movediço.

8. Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil
Em um debate eleitoral marcado pela disputa da narrativa das ditas “jornadas de junho”, em que todo candidato parece tomar para si a “voz das ruas”, vale a pena voltar-se para o livro de intervenção, publicado em agosto de 2013, na aurora das manifestações. As 18 análises deste livro recolocam as contradições e reflexões em torno do movimento, em um momento em que “junho de 2013” parece ter se transformado hoje em chavão midiático. 

9. Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?
O legado dos megaeventos esportivos, aposta do governo Lula e desafio para os governos subsequentes, são um ponto chave do debate sobre políticas públicas e capitalismo contemporâneo. Os 11 artigos que compõem a coletânea abrangem o espectro da esquerda dos movimentos sociais à política institucional e enfocam os megaeventos em sentido amplo como intervenções urbanas, políticas, midiáticas, institucionais e culturais. Nas palavras de Juca Kfouri, “ter um olhar crítico sobre os megaeventos no Brasil não é patriótico, nem antipatriótico. É apenas o necessário olhar crítico.”

10. Violência, de Slavoj Žižek
O refluxo midiático das manifestações de ruas deflagradas em 2013 viu surgir na opinião pública um enorme consenso em torno da violência – principalmente com a entrada em cena da figura dos black blocs. Sublinhando a própria distinção entre violência e paz como ideologia, o filósofo esloveno oferece “reflexões laterais” sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa (mas não menos truculenta) de nosso sistema político e econômico.

11. O novo tempo do mundo, de Paulo Arantes
No livro mais ambicioso de um dos provocadores mais incômodos de nossa esquerda, Paulo Arantes desenha o mapa possível de nosso tempo: uma era de perpétua emergência, em que esquerda e direita confluem na gestão de programas de urgência. A análise diagnostica o colapso da modernidade da gênese do capitalismo no encontro com o novo mundo às ruas contraditórias de Junho.

12. Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro
Considerada uma das mais avançadas reflexões sobre o Estado produzida no Brasil, o livro modifica o estudo da teoria do Estado e da ciência política e é, nas palavras de Slavoj Žižek, “simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas”. Um manual da teoria do Estado e do direito em regime capitalista, que não hesita em compreender a forma política como derivação da forma mercadoria.

13. A corrupção da opinião pública, de Ana Paola Amorim e Juarez Guimarães
Com o debate político cada vez mais pautado pela grande mídia, este livro desbravador desmancha didaticamente a identificação entre liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Os autores desmascaram a verdadeira corrupção da opinião pública na tão evitada regulação econômica da mídia e demonstram como, sempre posta em simples e exclusiva oposição à censura estatal, a liberdade de expressão aparece como um fim em si mesmo e, nesse processo de autonomização, se esvazia de seu conteúdo democrático.

14. Bazar da dívida externa brasileira, de Rabah Benakouche
Analisando a implementação da política de endividamento que fez parte constitutiva da história do país no período 1947-2007, o livro demonstra por que a dívida externa brasileira acabou sendo também um grande negócio. Seu fim, em fevereiro de 2008, foi um fato histórico inédito e a análise histórica e econômica de Benakouche é pioneira em desvendar os sentidos e os significados das redes de conexão entre juros, spread, prazos, interesses, estratégias, decisões… e decisores.

15. O que resta da ditadura: a exceção brasileira, Vladimir Safatle e Edson Teles (orgs.)
As eleições de 2014 marcam 50 anos do golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil, bem como o final de um mandato de uma ex-guerrilheira e a entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Em uma série de artigos, o livro esquadrinha a violência legada pelo regime militar na estrutura jurídica, nas práticas políticas, na literatura, na instituições e, principalmente, na cultura de esquecimento e negação. Dando sequência aos estudos, a coletânea
Ditadura: o que resta da transição, organizada por Milton Pinheiro, foca menos no problema da impunidade e mais na questão da centralidade do caráter de classe da ditadura militar para compreender suas origens e seu legado.

16. Dois futuros lançamentos, de lambuja: A montanha que devemos conquistar: reflexões sobre o Estado, de István Mészáros, e a nova Margem Esquerda
Vem aí, ainda esse ano, o novo livro do filósofo húngaro István Mészáros, uma reflexão fundamental sobre os desafios do marxismo perante a questão do Estado
. A próxima edição da revista semestral da Boitempo conta com um dossiê temático sobre o desenvolvimentismo no Brasil, ontem e hoje, com artigos especiais de Bresser Pereira, Luiz Filgueiras, Marcio Pochmann e Rodrigo Castelo.

Tem algum outro livro da Boitempo que você gostaria de ver nesta lista? Compartilhe suas leituras para estas eleições no espaço dedicado aos comentários, logo abaixo, e confira outras sugestões de livros para este período eleitoral aqui.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

Pelo fim do massacre em Gaza

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“Nós, editores, escritores, professores e artistas, exigimos o imediato fim do massacre em Gaza. O mundo não pode assistir em silêncio ao extermínio do povo palestino; defendemos que nossos governantes rompam relações diplomáticas e comerciais com Israel, tal como foi feito com a África do Sul do apartheid.”

Saiba como aderir à petição “Governo de Israel: queremos o fim do massacre em Gaza“, assinada, entre outros, por David Harvey, Mike Davis, Slavoj Žižek, Noam Chomsky, Frei Betto, Chico de Oliveira, Antonino Infranca, Domenico Losurdo, Emir Sader, Erminia Maricato, Istvan Mészáros, Leandro Konder, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Vladimir Safatle, Miguel Urbano Rodrigues, Ricardo Antunes e Ruy Braga. [assine aqui]

ARTIGOS NO BLOG DA BOITEMPO
[clique nos links ao final de cada trecho para ler o texto completo]

“O que os judeus e os palestinos têm em comum é o fato de uma existência diaspórica fazer parte de suas vidas, parte de sua própria identidade. E se ambos se unissem na base deste aspecto – não na base de ocuparem, possuírem ou dividirem o mesmo território, mas na de manterem-no partilhado, aberto como refúgio aos condenados à errância? E se Jerusalém se transformasse não no lugar de um ou do outro, mas no lugar dos sem-lugar?”

— Slavoj Žižek, “O circulo de giz de Jerusalém”.

“O plano de Israel não é apenas manter a terra e povoá-la com colonos armados assassinos que, protegidos pelo exército, levam a destruição aos pomares, às crianças em idade escolar e aos lares palestinos; o projeto israelense é fazer regredir a sociedade palestina, tornar a vida impossível para a população local, com o objetivo de obrigar os palestinos a sair, a desistir de sua terra de alguma forma ou a fazer algo insano, como explodir a si mesmos.”

Edward Said, “A ocupação é a atrocidade”.

“Caminhamos neste momento em Gaza para o maior genocídio do século 21. E há os que insistem no cínico argumento do direito à autodefesa de Israel. A hipocrisia chega ao máximo quando acusa os críticos do terrorismo israelense de antissemitas. É uma inversão de valores. Ou melhor, é a história contada pelos vencedores. É possível que Benjamin Netanyahu, comandante do massacre em Gaza, ainda receba o Prêmio Nobel da Paz. E que os palestinos, após desaparecerem do mapa, passem para a história como um povo bárbaro e terrorista.”

— Guilherme Boulos, “A Palestina apagada do mapa“.

ATO CONTRA O MASSACRE EM GAZA
Liberdade aos presos políticos no Brasil
[página do evento]

chega

Com coordenação de Osvaldo Coggiola, ocorre na segunda-feira, dia 11 de agosto, às 19h, o “ato contra o massacre em Gaza” no departamento de História da USP. Em regime de greve, falam, no ato, representantes estudantis, funcionários e docentes de várias faculdades da USP, além de representantes de diversos partidos de esquerda, movimentos sociais e institutos culturais: Arlene Clemesha (Docente USP), Guilherme Boulos (MTST),  Magno de Carvalho (Sintusp), Dirceu Travesso (CSP-Conlutas), Fabiana Marchetti (DCE-USP), Lincoln Secco (Docente USP), Mauro Iasi (PCB), Sean Purdy (Docente USP), Chico Miraglia (Docente USP), Gilberto Maringoni (PSOL), Valter Pomar (PT), Valério Arcary (PSTU), Jamil Haddad (PCdoB), Soraya Misleh (Instituto de Cultura Árabe), Jorge Luiz Souto Maior (Docente USP e Juiz do Trabalho), Osvaldo Coggiola (Docente, USP).

SUGESTÕES DE LEITURA
[lista completa]

Cultura e política
Edward W. Said

Nesta coletânea organizada por Emir Sader, Said imprime uma visão universalista em suas análises sobre a questão palestina, inserindo-a no conjunto das grandes lutas pelo reconhecimento de todos os povos a afirmar sua identidade e ter sua expressão política.

Freud e os não-europeus
Edward W. Said

Último livro de Said, intelectual palestino e um dos maiores militantes pela paz na região, trata-se de um livro polêmico, que com grande humanismo e erudição questiona as versões e ficções que estão nas raízes dos fundamentalismos.

Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil
Arlene Clemesha

As delicadas relações desde o surgimento do marxismo até o período entreguerras no século XX, época em que o regime nazista preparava o holocausto; o antissemitismo não é uma ideologia exclusivamente de direita.

O universalismo europeu: a retórica do poder
Immanuel Wallerstein

A retórica das potências dominantes para justificar seu império é o tema deste livro: Como os poderosos criam narrativas e conceitos que justificam ataques com interesses econômicos e geopolíticos contra outros países?

Sobre a questão judaica
Karl Marx

Reflexões sobre as condições dos judeus alemães em meados do século XIX e estabelece propostas para a solução de suas questões concretas. Mais do que a análise de uma conjuntura específica, esta obra traduz a passagem definitiva ao materialismo histórico.

Violência, seis reflexões laterais
Slavoj Žižek

Em breves e provocativos ensaios, Žižek lança novas bases para a reflexão acerca do fenômeno moderno da violência e da sua irrupção aparentemente irracional, afirmando-se como um dos mais eruditos, incendiários (e baderneiros) pensadores radicais de nosso tempo.

“Todos desejamos a paz, é óbvio. Porém, um fato que não podemos esquecer é que são os vencedores, os detentores do poder, por definição os maiores interessados na “paz”. Para eles, essa palavra significa: “Mantemos nosso poder”. Nesse sentido, é claro que Israel está sinceramente interessado em paz na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Mas um tipo de paz em que, em 30 ou 40 anos, não haja mais palestinos na região, totalmente assimilados por uma maioria israelense. Este é o problema para mim: “anseios de paz” onde o que existe, de fato, é violência. Claro que sou contra o terrorismo palestino que mata mulheres e crianças israelenses. Mas é preciso ter em mente que, ainda que nenhum protesto ou atentado terrorista ocorra na Faixa de Gaza, uma violência diária prossegue ali. Por que só vemos a violência quando algo muda? E ela é invisível no que permanece?”

— Slavoj Žižek, em entrevista sobre o livro Violência, seis reflexões laterais a Ivan Marsiglia, no jornal O Estado de São Paulo, “Ela está no meio de nós.

Evidências do real

13.09.11_Evidênicas do realPor Slavoj Žižek.

O ensinamento de Mao está correto: em sua forma mais radical, uma revolução possui caráter cultural. É triste que hoje tenhamos de retomar esse ensinamento a partir das decisões do grupo neoconservador postado em torno de Bush.

O livro Evidências do real de Susan Willis, entretanto, resgata o papel crítico dos estudos culturais. Sua análise do 11 de Setembro como um fenômeno cultural não trata de um aspecto menos importante do que as dimensões políticas ou militares – pelo contrário, põe em foco o núcleo do conflito existente. Este livro se torna uma referência indispensável a todos os que se preocupam em saber o que está acontecendo no mundo de hoje. Ignorá-lo significa querer manter-se em ignorância abençoada – a seu próprio risco.

***

“Uma obra prima de nosso tempo”

Por Daniel Puglia.*

“A velha glória” é o primeiro ensaio de Evidências do real, de Susan Willis. Nele podemos ler: enfeitando os carros com bandeiras, “nós, os norte-americanos, [mostramos saber] que a guerra contra o terrorismo é o código para a preservação de nossas rodovias interestaduais, nossos carros, nossos bairros de classe média e toda a rede petroquímica que nos alimenta e veste” (p.24). Nessa pequena passagem estão imbricados três procedimentos que parecem nortear o livro como um todo: a busca incessante do oculto revelado pelo aparente, o estabelecimento de correlações inusitadas e, por fim, um tom de ironia comedida – da calmaria antes da catástrofe. Assim, o patriotismo representado na bandeira é escovado a contrapelo e o estandarte nacional surge como o fetiche da religião do comprar e vender, o lábaro que marca um povo no pasto dos shopping centers. E a guerra adquire novas feições não apenas contra o terrorismo, mas, sobretudo, contra a perspectiva aterrorizante de serem destruídas as possibilidades de consumo.

O desfile mundial do pavilhão estadunidense encena o caráter a um só tempo lúgubre e festivo, aparvalhado e mesquinho, de um modo de vida que encobre o sofrimento humano real sob o manto do prazer mercável. Evidentemente nossa autora não se coloca contra os avanços da ciência e da tecnologia mas, com razão, parece não ter muita paciência para os problemas da classe média norte-americana, afinal, bombas e granadas made in America garantem o horizonte apalermado de uma eterna infância cevada por cartões de crédito.

O caráter contagioso e virtualmente ubíquo da mercadoria adquire nova entonação com o ensaio “Nós somos o antraz”. Após o 11 de Setembro, o temor de um novo ataque adquiriu contornos de realidade quando correspondências com antraz pareciam ser outra ameaça ao sonho americano. No entanto, embora algumas cartas contivessem esporos, milhares continham apenas açúcar ou talco, e esses falsos alarmes são particularmente significativos. Escolas, fábricas e repartições públicas eram fechadas; a normalidade do cotidiano, interrompida.

“Talvez os perpetradores estivessem fartos da cultura do ‘Tenha um bom dia’  e quisessem expressar o lado negro, oculto e inconfesso de uma sociedade que gosta de exibir a face sorridente do consumo” (p.34). A possibilidade de atrapalhar o curso usual dos acontecimentos acrescenta um novo matiz ao patriotismo aparentemente hegemônico. Como escreve Willis, ainda enquanto as bandeiras eram agitadas de modo entusiástico, um rumor e uma dúvida davam expressão aos descontentamentos cotidianos.

Mas a crítica latente sinalizada nas ameaças de antraz tem ainda outro grau de contundência. Um mês depois das homenagens aos mortos nas Torres Gêmeas, um atirador passa a alvejar pessoas em Washington. O significado disso é o assunto do ensaio “Tudo que vai, volta”. A vida transformada num cassino, a existência submetida ao caos do livre mercado, tem na loteria de morte sua materialização extrema. Essa mesma vida, protegida na fantasia palpável do consumo, sofre um severo golpe quando a violência rotineiramente praticada externamente, em países distantes, ou internamente, nos bairros mais pobres, atinge pessoas dos subúrbios afluentes. Ocorre que, se a exploração do trabalho alheio não é um dado natural e se os paraísos da bonança têm de ser mantidos também pelo uso da força, então o atirador de Washington não é uma figura anômala, mas sim um efeito bumerangue, o feitiço contra o feiticeiro: “… a utilização da força criminosa é a verdade mais fundamental de nossa nação” (p.60). Na lógica espetacular da cultura e do comportamento psicossocial, Willis deslinda interdependências materiais precisas, em que o esforço de guerra é a corrente subterrânea da militarizada democracia estadunidense. “Se há uma verdade final transmitida pelo atirador, trata-se de nossa prontidão de abrir guerra contra os civis” (p.66).

A existência de um governo paralelo, instalado em abrigos nas montanhas ao redor de Washington, e a realização de exercícios militares que simulam uma invasão por exércitos inimigos: eis algumas das evidências recolhidas no ensaio “Somente o Sombra sabe”. O fetiche pela bandeira nacional pode ter o efeito sufocante de uma atmosfera impregnada por antraz. Por seu turno, os alvos potenciais de um atirador vivem a incerteza de saber quem governa suas vidas. Nesse sentido, os escritórios governamentais abaixo da superfície casam perfeitamente com os negócios escusos praticados na Casa Branca. Mas, talvez para que a população não tenha dúvidas, temos a simulação na Carolina do Norte: “… segundo informações militares, dez das áreas centrais do estado – todas rurais e carentes em maior ou menor grau – fazem parte de um cenário imaginário, fazendo a vez de uma nação tomada por um governo repressor” (p.81). Ou seja, a ficção bélica se encarrega de dirimir desconfianças: a nação realmente está à mercê de um governo repressor, tramando nas sombras, atacando à luz do dia.

“O maior show da Terra” é o ensaio que se detém sobre três ousadias: um rapaz que se jogou nas cataratas do Niágara apenas com a roupa do corpo e sobreviveu; outro que despachou a si mesmo, num caixote, no compartimento de cargas de um aeroporto; e, por fim, um ilusionista norte-americano que jejuou durante 44 dias suspenso em uma caixa de vidro sobre o Tâmisa. Willis escreve:

“Não temos como reconhecer nossos realizadores de proezas como evidências do real, figuras que tocam os mais profundos nervos da História para dar visibilidade àquilo que reprimimos. Por não conseguir ler a verdade na metáfora, não conseguimos viver historicamente” (p.102).

No arremate do texto, a autora lembra que o privilégio e a riqueza permitem que os Estados Unidos produzam tais proezas, enquanto os  problemas reais parecem estar relegados a outros mundos.

Em “¿Quién es más macho?”, ensaio que encerra o livro, as fotografias das torturas cometidas por soldados estadunidenses na prisão iraquiana de Abu Ghraib são o fio condutor de um inquérito: o desvelar do inconsciente da economia política  capitalista. Para efetivar o saque no país invadido são mobilizados os milhares de jovens norte-americanos que têm limitadas perspectivas de emprego e que aprendem a aniquilar enquanto são aniquilados, tanto física quanto psiquicamente.

Assim, nas fotografias perturbadoras “jovens e viçosas garotas norte-americanas que facilmente passariam por funcionárias da Disney aparecem sorrindo e fazendo o sinal de positivo com o polegar junto a uma pilha de prisioneiros nus” (p.106).

Recorrendo ao vasto arsenal da psicopatologia de sociedades lastreadas na espoliação, indo da Ku Klux Klan, passando pelos seriados policiais televisivos e chegando aos fantasmas da heterossexualidade mal resolvida, “¿Quién es más macho?” constitui uma verdadeira peça de acusação contra o empreendedorismo viril, uma das formas espectrais do mercado. Nesta aparição moderna, o domínio sobre o outro, a supremacia competitiva e o ápice do vencedor se transformam todos numa imagem ideal a ser alcançada – imagem esta que recalca, sob o encanto abjeto da pornografia da guerra cotidiana, a mesmice a que estão reduzidas quaisquer individualidades.

Na introdução a seu livro, Willis escreve que os ensaios “foram escritos com uma linguagem que procura capturar a dicção norte-americana”. De fato, o leitor poderá apreciar a era pós-11 de Setembro em seis textos formadores de um caleidoscópio que, ao ser lido e relido, emite a familiar estranheza do som do futuro.

A paradoxal naturalidade desse som, preservada na tradução brasileira, talvez seja também a crônica de uma crise anunciada. Uma crise que, agora mais nítida, realça a urgência das palavras de Slavoj Žižek para essa obra-prima de nosso tempo.

* Publicado originalmente no volume 28 da revista Crítica Marxista.

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Evidências do real: os estados unidos pós-11 de setembro, de Susan Willis, está em promoção por R$ 13,97 na Flanarte (Saldão Boitempo), e disponível também nas livrarias CulturaTravessa, entre outras.

Sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, recomendamos também a leitura de Bem-vindo ao deserto do real!, de Slavoj Žižek, Estado de exceção, de Giorgio Agamben, e Espectro, de Perry Anderson, todos disponíveis em versão eletrônica (ebook) nas livrarias Travessa, Cultura, SaraivaAmazon, entre outras.

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Daniel Puglia é professor do Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo, com doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela mesma instituição. 

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Livro analisa a literatura infantojuvenil produzida durante a Abertura Política

“Versão revista, atualizada e rebatizada da monografia de graduação em Sociologia e Política defendida na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) em dezembro de 2005, Transgressão e adaptação: discurso de cidadania e literatura infantojuvenil na Abertura Política (Editora Ixtlan, 2013, 96 p., R$ 24,00) é o mais recente livro do sociólogo Daniel Rodrigues Aurélio. A obra analisa a estética e o discurso transgressores contidos nas histórias infantis e juvenis produzidas durante a ditadura civil-militar no Brasil e sua posterior adaptação como literatura paradidática no período de Abertura Política no país.

Autores como Ziraldo, Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ana Maria Machado aproveitaram-se das brechas no sistema de censura para escrever histórias que tematizavam questões como liberdade de expressão, respeito às diferenças e democracia. Por outro lado, conforme o mercado editorial no segmento de didáticos e paradidáticos consolidava-se, esses mesmos escritores tornaram-se canônicos, constituíram um campo, contribuindo assim para estruturar todo um mercado no setor, composto por instâncias de legitimação que serviam como referência para volumosas compras governamentais e de escolas privadas.

Sobre o autor

Daniel Rodrigues Aurélio é graduado em Sociologia e Política e pós-graduado em Globalização e Cultura e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP. Atualmente é mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e pesquisador do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC/PUC-SP). Editor da revista Conhecimento Prático Filosofia, é autor dos livros Dossiê Getúlio Vargas e da trilogia A extraordinária história do Brasil, entre outros.

Mais informações no blog do autor: http://www.danielraurelio.blogspot.com. Contato para entrevistas: danielraurelio@gmail.com
Transgressão e adaptação é vendido com exclusividade no site da editora Ixtlan (www.livrariaixtlan.com.br).”

Antonio Candido indica 10 livros para conhecer o Brasil

13.05.17_Antonio Candido_10 livros para conhecer o BrasilPor Antonio Candido.*

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”. 

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc. 

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

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Antonio Candido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

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