Caminhos do sonho

Por Roniwalter Jatobá.

Durante muitos anos, tive dúvida sobre em qual direção corriam as águas poluídas do Tietê. Acostumado desde a infância com cursos d’água de acentuados desníveis, o rio de São Paulo por muito tempo enganou meus olhos com sua morta mansidão ao cruzar trechos da metrópole. Fui descobrir o rumo certo quando pesquisei sua história e a peculiaridade de ser um dos poucos rios no mundo a seguir caminhos que não levam ao mar, mas ao sertão. Ou “à terra dos homens”, como queria o escritor Mário de Andrade.

Quando vivi em São Miguel Paulista, no começo dos anos 70, cheguei a pescar no Tietê. Às vezes, fisgava um ou outro peixe. Passatempo domingueiro, apenas. Os pescados retirados da sujeira, aparentemente normais, eram impregnados do cheiro de gás e poluição. Naquele tempo, já pareciam diferentes, pois só algumas espécies mais resistentes ainda teimavam em navegar em suas águas.

Anos depois, por um longo período, tive pesadelos com o rio antigamente chamado pelos índios tupi-guarani de verdadeiro: (T)i = água e etê: verdadeiro. Tudo começou após ter visto, numa tarde de domingo, bombeiros içarem um cadáver na altura do que hoje denominam Jardim Pantanal. Era o corpo disforme de um nordestino. Vizinhos dele me contaram que, acuado pelo desemprego e assolado pela loucura, pulou em suas águas como estivesse se banhando no açude de sua aldeia.

Por algum tempo, como já disse, tive pesadelos – e ainda os tenho. A história tem sempre o Tietê como tema e as mesmas variações de coreografia. De repente, ando por uma cidade desconhecida e suja. Começa a chover forte aguaceiro de verão. Logo, um rio de tonalidade escura cresce de volume, inicialmente invadindo asfaltadas marginais. Carros impedidos nas pistas, motoristas ilhados. Depois, o líquido imundo vai penetrando nas casas próximas ao seu leito, avançando, derrubando moradias como tentáculos de um polvo gigante. As águas invasoras entram na casas, destruindo tudo. À frente, corpos boiam semi-encobertos pelas águas.

Outro dia, por telefone, toco no assunto com o poeta Ruy Espinheira Filho, e ele fica abismado com o sonho tão paulistano.

– Talvez seja uma lembrança de vida muito forte em São Paulo – diz.

– Certamente – respondo, e me vem à mente a figura do migrante afogado no passado e, hoje, o descaso dos governantes com o Tietê e outros rios.

Quanto ao sonho, ele fala de sua própria experiência.

– Também já tive muitos pesadelos. Lembro bem: às vezes, do fundo do escuro, grandes e viscosas serpentes surgiam para me enlaçar. Outras noites eram aranhas, peludas e repugnantes, que vinham passear sobre meu peito, provocando um gelado suor de medo e náusea. Sem falar nos grandes animais ferozes que estavam sempre ameaçando cravar seus chifres, garras e dentes no meu corpo que se contorcia sobre o leito.

Imagino o terror noturno que afligia o amigo. Impávido, ele continua:

– Felizmente, quando tudo parecia perdido, eu acordava. Os bichos, abandonados pela magia do sono, retornavam às lúgubres cavernas da noite, onde ficavam aguardando o chamado para outro pesadelo. Então, salvo mais uma vez, sentava na cama e fitava, com os olhos esbugalhados, as paredes cinzentas do quarto.

Devo confessar, fascinava-me seu fantástico relato.

– Acabei, com o tempo, me acostumando com tudo isso. Passei a encarar os pesadelos com naturalidade, de uma forma serena, chegando mesmo a controlá-los, ou quase. Aprendi a conservar acesa, mesmo no mais profundo sono, uma pequena chama de consciência. Assim, quando os monstros se aproximavam, a pequena chama crescia em seu brilho e eu despertava.

– E aí? – queria saber mais.

– Também desenvolvi outros truques – continuou Ruy. – Sem ser preciso sair do sono, conseguia transformar os animais ferozes ou repelentes em pássaros cândidos ou borboletas coloridas.

Desligo o telefone e penso que aí estava o remédio ou a poção mágica para domar pesadelos. Fico tão convencido da artimanha mental do amigo que, já num próximo pesadelo, comecei a praticar a lição. No silêncio ou quase silêncio do meu apartamento, treinei para transformar, nos sonhos, o Tietê num rio de águas limpas e serenas ou os pernilongos do rio Pinheiros em suaves beija-flores. Tudo tem ido às mil maravilhas. O difícil, mesmo, é quando encaro o dia-a-dia normal – e real.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

Uma resposta para Caminhos do sonho

  1. Sem comentários um grande escritor tem suas qualidades.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s