As armas da crítica

Por Emir Sader.

A afirmação de Marx de que “Os filósofos, até aqui, interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transforma-lo”, reservava à teoria a função de captar os nervos articuladores da realidade, como condição de seu poder de transformá-la. Ao dizer que “Quando a teoria penetra nas massas, se transforma em força material”, expressava a mesma ideia, do ponto de vista da capacidade de construção de força política a partir do potencial teórico de compreensão e de transformação revolucionária da realidade.

O projeto de uma antologia do pensamento da esquerda – acalentada há tanto tempo por nós, os seus organizadores, Ivana Jinkings e eu – publica agora o seu primeiro volume, com os clássicos do marxismo [As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, v. 1]. Clássicos no sentido não apenas de fundadores da teoria crítica contemporânea da realidade, mas também no sentido de que suas visões nascem e renascem constantemente da realidade concreta, reafirmando sua atualidade.

As profundas transformações que o mundo está sofrendo nestas últimas décadas, ao substituir um mundo bipolar por um mundo unipolar, sob hegemonia imperial norte-americana, prometeu enterrar as alternativas ao capitalismo. Não tinha outro sentido as ideias do “fim da história”, do “pensamento único” e do “Consenso de Washington”. Estaríamos condenados aos horizontes da democracia liberal e da economia de mercado.

No entanto, justo nesse novo período histórico, o capitalismo mostra suas vísceras da forma mais brutal, envolto numa crise profunda e prolongada, da qual não consegue sair senão intensificando os mecanismos que geraram a crise. A hegemonia do capital financeiro impõe soluções neoliberais à crise neoliberal, joga álcool no fogo da crise e a propaga e intensifica.

Reafirmam-se assim as contradições como o motor fundamental que move a história. As condições subjetivas do socialismo podem ter sofrido grandes retrocessos, mas as condições objetivas geram sempre as possibilidades do seu renascimento, das entranhas do próprio capitalismo.

Quando quisemos organizar estes três volumes – o dos clássicos, o dos marxistas ocidentais e o dos contemporâneos – pretendíamos colocar à disposição de todos os que se inquietam com as injustiças, as desordens, as violências no mundo contemporâneo, de todos os que pretendem lutar por um outro mundo possível, por mundo centrado na solidariedade e no humanismo, na emancipação humana, armas teóricas fundamentais para essa luta permanente.

A seleção não foi fácil, justamente porque a esquerda produziu uma quantidade incontável de autores e de teorias, que povoaram os grandes debates e os maiores projetos transformadores do mundo no mais de século e meio desde que foi publicado o Manifesto Comunista e desde que os trabalhadores se colocaram o projeto de construção de uma sociedade fundada no trabalho e não no capital.

Neste primeiro volume nos detivemos nos fundadores do marxismo, naqueles que aliaram indissoluvelmente a teoria e a prática revolucionárias, renovando radicalmente uma e outra e a sua conjunção. Marx e Engels, evidentemente, como aqueles que lançaram ao mundo as primeiras teses da transformação revolucionária do capitalismo no socialismo, que apontaram as condições em que se funda aquele e como suas contradições tornam possíveis as alternativas revolucionárias na história contemporânea.

Lenin, Trotski, Rosa Luxemburgo e Gramsci representam seus continuadores mais diretos, que igualmente articularam a teoria e a prática revolucionárias nas condições concretas do seu tempo e dos seus países. Pretendemos unir textos de interpretação teórica e de aplicação prática dessas visões em alguns poucos textos de cada um, que são, ao mesmo tempo, um convite para a leitura mais sistemática de suas obras.

A publicação destes autores – e dos outros que os seguirão – não tem o sentido de canonizar suas palavras, como ocorreu em outros tempos, sem fertilidade para reinterpretar as realidades concretas, sempre novas e heterodoxas. Mas se fazem sob a ótica da afirmação de Lukács – que abrirá o segundo volume da série -, de que “O único ortodoxo no marxismo é o método”. Isto é, que o maior instrumento de interpretação e de transformação da realidade é a dialética, a forma de captar a dinâmica sempre renovada da realidade na ótica das contradições incessantes que a animam e que permitem aos homens, a partir das condições concretas que enfrentam, transformar o mundo conforme suas necessidades e seus ideais.

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A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana é o primeiro livro de Emir Sader pela Boitempo a ganhar versão eletrônica (ebook), já à venda por apenas R$20 na Gato Sabido, Livraria da Travessa e iba, dentre outras.

As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, será lançado em ebook na próxima segunda-feira, 13 de agosto.

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Uma resposta para “As armas da crítica

  1. Luiz Otavio Amaral

    Caro Prof. Emir

    Esses três volumes do pensamento da esquerda já estão a venda ? Onde podemos comprar? Qual a editora e qual o cronograma de lançamento dos dois?

    Luiz

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