Hora de abandonar a herança maldita: O governo Dilma e as greves no Serviço Público

Por Carlos Eduardo Martins.

O governo Dilma vem enfrentando uma onda de greves dos servidores público federais que coloca em questão as políticas fiscal e monetária herdadas do governo Fernando Henrique Cardoso. Estas foram suavizadas durante o governo Lula, nos momentos mais agudos de crise, como em 2010, mas nunca efetivamente abandonadas. Tais políticas se baseiam na restrição à demanda através de corte de gastos públicos e geração de expressivos superávits primários, integralmente absorvidos por altas despesas em juros como estratégia de controle inflacionário. As despesas com juros são significativamente maiores que o superávit primário e por isto a dívida bruta do governo federal tem se elevado, em particular a interna, apesar da queda drástica da dívida pública externa, regulada pelos juros internacionais, hoje negativos em termos reais.

A greve envolve aproximadamente metade dos servidores ativos civis do governo federal e seu caso mais notório e expressivo é a dos docentes que alcançou 95% das universidades federais do país e também maioria esmagadora dos colégios de aplicação, obtendo amplo apoio dos estudantes e atingindo mais de um milhão de alunos apenas no ensino superior. Apesar desses drásticos efeitos sociais, o governo apenas apresentou sua primeira proposta aos sindicatos 56 dias após a deflagração da greve. Ofereceu aumentos a serem pagos em três parcelas até 2015 que traziam um impacto orçamentário de R$ 3,9 bilhões e partiam dos salários de 2010, último ano de reajuste dos docentes. Posteriormente, o governo ofereceu R$ 4,2 bilhões, muito distantes dos R$ 10 bilhões solicitado pelo ANDES, principal entidade sindical docente do ensino superior. O governo tampouco atendeu suficientemente às exigências para a reestruturação da carreira e, inclusive, a degradou: vinculou a promoção a critérios de produtividade determinados externamente pelo MEC, violando a autonomia universitária que se pretende resgatar, e ao aumento do tempo de sala de aula para 12 horas, em afronta à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Em sua segunda proposta, o governo remeteu a definição dos parâmetros de produtividade a grupo de trabalho a ser constituído pelo MEC, condicionando a participação nele das entidades sindicais à aceitação dos seus termos.

Os termos do processo de negociação com os movimentos sociais incluem o recurso a certa dose de violência por parte do governo  – corte de ponto sem que a justiça decretasse a ilegalidade da greve, ameaça de improbidade administrativa aos dirigentes que não o imponham, decreto de substituição de servidores federais por estaduais etc. – e evidencia o desinteresse em considerar suas reivindicações. O discurso governamental afirma que as demandas dos servidores públicos em seu conjunto seriam inviáveis, pois somariam R$ 93 bilhões, ou aproximadamente 2% do PIB.

Como avaliar esta ação do governo Dilma? Estaria defendendo o Estado brasileiro de um movimento corporativo, com interesses particularistas em confronto com as necessidades das grandes maiorias da sociedade brasileira? Justificar-se-ia pela defesa dos investimentos contra pressões salariais que ameaçariam liquidá-los?

Trabalho recente publicado no IPEA [Comunicado 110:  Ocupação no setor público brasileiro: tendências recentes e questões em aberto] mostra que o governo Fernando Henrique Cardoso produziu uma enorme devastação do emprego no setor público, reduzindo-o e precarizando-o: em 1993 havia 680 mil servidores ativos na administração federal e em 2002 apenas 550 mil. A expansão dos concursos públicos a partir de 2005 não permitiu sequer restabelecer os níveis de 1992: em 2010 estes servidores somavam aproximadamente 630 mil. Tampouco o aumento do ritmo de contratação permitiu manter a exígua parcela que representavam no conjunto do emprego da população brasileira: em 2003 correspondiam a apenas 2,5% dos trabalhadores e em 2010 a 2,2%. A empresa privada, onde é notavelmente pior a remuneração, aumentou no período sua participação de 64,4% a 69,6% do total de empregos. A massa salarial na administração pública federal permaneceu modesta e constante: em 2002 representou 5% do PIB, em 2010 apenas 4%, correspondendo a 20% da arrecadação do governo federal neste intervalo. Isto apesar da elevação qualidade do emprego – os estatutários saltaram de 78% dos servidores em 1995 a 83,5% em 2002 e 90% em 2010 – e do aumento do nível de escolaridade médio do servidor federal.

Estes indicadores mostram que é muito difícil imaginar uma pressão desestabilizadora nas contas públicas oriundas destes trabalhadores e seu movimento sindical. Os 2% do PIB que hipoteticamente reivindicam sequer produzirão déficit público primário, mesmo se ignorarmos o multiplicador keynesiano que alimenta a expansão da economia real e da arrecadação pública.

A impossibilidade de negociação está ancorada nas políticas públicas adotadas pelo governo Dilma Rousseff e em particular em sua equivocada estratégia anti-inflacionária, que sacrifica a expansão da demanda, o crescimento econômico e mantém a financeirização da economia. A recente redução na taxa de juros real praticada não a situou abaixo das taxas de crescimento econômico: a dívida pública federal saltou de 51,3% a 54,1% entre janeiro de 2011 e maio de 2012; em março de 2012 registrou-se recorde mensal no pagamento de juros, R$ 18 bilhões, e em maio de 2012 pagou-se R$ 230 bilhões, somados os 12 meses anteriores, mais que os 200 bilhões em janeiro de 2011, quando o novo governo assumiu.

Em 2011, juros e amortizações representavam 45,7% do orçamento executado do governo federal, enquanto saúde respondia por 5%, educação por 3%, ciência e tecnologia por 0,3% e cultura por 0,04%. Apesar da promessa da Presidenta em baixar os juros a 2% em nível real é bastante provável que a taxa de juros possa sofrer futura elevação quando retomar-se o crescimento da economia, em função do enfoque anti-cíclico que maneja o governo. Foi o que o governo fez no primeiro ano para desacelerar o crescimento da economia.

A pressão colossal que os juros e amortizações exercem sobre o orçamento governamental impede que o Estado atue como gerador de emprego, massa salarial e investimento. O resultado é a mediocridade de nossas taxas médias de crescimento do PIB e de investimento, o avanço da desindustrialização e manutenção indefinida do programa de renda mínimo como principal fonte de política social, negligenciando a educação e o emprego como instrumentos sustentáveis e estruturais de redução de desigualdade, pois exigem investimentos muito mais significativos para desempenharem este papel.

A política anti-inflacionária governamental é equivocada e inadequada, em particular para a conjuntura internacional em que vivemos. Desde 1994, a economia mundial vivencia um período de expansão acelerado que se expressa em novas ondas de inovação tecnológica que barateiam e desvalorizam fortemente as mercadorias. São exatamente os países capazes de alavancá-las os que exibem taxas de inflação mais baixas. O Brasil exibe desde 1994 taxas de inflação muito superiores que as da China que investiu entre 30% a 50% do PIB e reduziu drasticamente sua pobreza, ou os países da Europa Ocidental e os Estados Unidos. Nossa inflação, aliás, sempre foi historicamente muito superior a dos países que registram os maiores mercados internos do mundo e orientam seus recursos para atendê-los. Não faz nenhum sentido vincular a política inflacionária a um enfoque estagnacionista como o de corte de demanda, em particular, do setor público.

A legitimidade do governo Dilma para combater eventuais desvios corporativos do sindicalismo do setor público torna-se profundamente comprometida com a orientação de grande parte dos recursos federais para atender aos especuladores do Estado brasileiro. Perde força a capacidade de impor constrangimentos aos servidores públicos a partir do discurso de que suas demandas salariais sacrificariam investimentos públicos e sociais. A elevação de 133% do soldo presidencial e dos ministros de Estado, praticada neste governo, e a informação de que a Ministra do Planejamento e Orçamento Miriam Belchior aufere proventos de mais de R$ 40 mil mensais não respaldam o discurso de austeridade junto ao funcionalismo público. Entre os servidores públicos federais, o salário médio é de 11 salários mínimos para homens e 12 para mulheres, mas há forte dispersão entre as categorias e os docentes estão entre as piores remuneradas. A proposta do governo aumenta ainda mais as disparidades no interior da carreira no ensino superior conferindo elevação salarial desproporcional em favor dos professores titulares, onde estão apenas 5% dos docentes.

A universidade brasileira necessita de profunda revisão. Não é possível que nos acomodemos com o fato de 75% das matriculas do ensino superior estar nas universidades privadas, relação das mais desiguais no mundo. Este índice que era favorável às universidades públicas, inverteu-se nos governos militares e no governo FHC saltou de 58% para 69%. No governo Lula não se conseguiu impedir sua progressão, apesar de iniciativas como a abertura de novas universidades públicas ou contratação de professores estatutários por concurso público. Continuamos, entretanto, a financiar pesadamente as universidades privadas via Prouni e outras iniciativas. Dilma acaba de assinar decreto onde cria o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento das Instituições de Ensino Superior (Proies). Este iniciativa cancela a dívida de R$ 17 bilhões das universidades privadas com o Governo Federal em troca de bolsas que ofereçam aos seus alunos nos próximos 15 anos. Trata-se de um apoio muito mais generoso que o oferecido às universidades públicas e que coloca em discussão o tipo de universidade na qual queremos formar nossos alunos. Qual é a proposta de ensino superior brasileiro deste governo? A de formar alunos a partir da articulação entre ensino e pesquisa para a cidadania e desenvolver um sistema de ciência e inovação capaz de projetar o Brasil como um país soberano no cenário internacional; ou a de formá-los para um mercado de trabalho com baixas exigências tecnológicas, em instituições que priorizem o baixo custo do investimento e a dissociação do ensino e pesquisa, dentro do contexto da dependência tecnológica internacional?

A reestruturação do ensino superior exige também o resgate da autonomia universitária e a redefinição do conceito de produtividade. O achatamento salarial dos docentes levou a que se buscasse complementação salarial mediante a competição por bolsas em agências de fomento à pesquisa. Estas impõem critérios de pontuação elitizados e aristocráticos que desviam o esforço da produção universitária da cidadania, das grandes massas e da extensão, favorecendo corporativismo acadêmico e um público extremamente restrito. Escrever um artigo a cada 3 anos num periódico estrangeiro em língua estrangeira, muitas vezes só acessível ao leitor mediante pagamento na internet, pode ser decisivo para uma carreira universitária se este for classificado como A-1, mas orientar monografias de graduação, participar de debates em TVs e rádios comunitárias, publicar com regularidade em revistas ou portais de amplo acesso não têm peso nenhum para as agências reguladoras da produtividade. Estranha equação. Talvez seja ela que explique o fato de a maior universidade federal do país não ter uma rede de TV ou de rádio para seus cientistas se dirigirem à população, ou o fato de alguns de seus institutos terem abolido a monografia de graduação, liberando seus docentes para dedicarem-se a orientações de dissertações, teses e artigos que lhes dão pontos de produtividade. Trata-se de um forte processo de privatização do ensino superior público que reflete de certa forma o controle que as grandes oligarquias do país ainda exercem sobre o Estado brasileiro.

A eleição do PT para o comando do Estado brasileiro a partir de 2002 representa uma importante inflexão na história política do país. Nele estão depositadas as esperanças da população brasileira para que se afirme de maneira substantiva e sustentável a condição republicana de nosso Estado. Qualquer projeto de mudança da realidade brasileira em direção à igualdade e promoção dos nossos povos dependerá ainda por vários anos, muito provavelmente, de sua liderança. Mas para exercê-la este Partido deve abdicar da Guerra Fria que trava com as oligarquias brasileiras e confrontar de maneira mais contundente os seus interesses. Como sabemos, a Guerra Fria significou uma confrontação limitada dentro de um projeto de coexistência pacífica entre a direita e a esquerda internacional, que se esgotou depois de anos. Terminou com a vitória das forças do grande capital que, por sua sede de expansão ilimitada, nunca abandonou o projeto de desalojar seu oponente. 

Desprivatizar o Estado brasileiro e enfrentar o tema da desigualdade exige ir muito além de um programa de renda mínima, ainda que este tenha relevância e um papel importante a cumprir. Os dados sobre a redução da desigualdade no país são tímidos depois de 10 anos desta política. Estes devem ainda ser confrontados com a notória insuficiência das estatísticas para mapear os ingressos de origem financeira e rendas de propriedade, que na PNAD respondem por apenas 3% do total declarado. Informações recentes que apontam a presença de 1/3 do PIB brasileiro em paraísos fiscais e os brasileiros como os seus 4º maiores investidores evidenciam a necessidade de cautela no tratamento deste tema.

O PT e seus principais representantes deverão escolher seu caminho nesta década: ou derrubam o muro da Guerra Fria que preserva as oligarquias e impede o estabelecimento de políticas que ultrapassem o combate à extrema pobreza e atendem às demandas de formação massiva de um proletariado qualificado e com ingresso familiar per capita ao menos proporcional ao salário mínimo necessário do Dieese – situação por debaixo da qual se encontravam aproximadamente 60% da população brasileira em 2009 –; ou arriscam-se a esgotar sua liderança, abrindo o espaço para na pior das hipóteses, num momento de crise e desgaste, a direita reassumir seu lugar na direção do Estado brasileiro.

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O livro mais recente de Carlos Eduardo Martins, Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (Boitempo, 2011) está à venda em versão eletrônica (ebook), pela metade do preço do livro impresso, na Gato Sabido.

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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor adjunto e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pesquisador da Cátedra e Rede Unesco/UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável (Reggen). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

4 Respostas para “Hora de abandonar a herança maldita: O governo Dilma e as greves no Serviço Público

  1. Geraldo Pontes

    Prezado colega, é um prazer ler seu texto rigoroso, mas discordo, no momento, de alguns princípios que desencadearam as greves do momento na universidade brasileira – a das federais e a da UERJ, onde leciono. E discordo de alguns argumentos seus, que me parecem se contradizer. Como já disse, seu texto é respeitável, pelas muito boas informações da parte da autoridade acadêmica que você é no assunto. Mas vejo parcialidade na relação de certas coisas e acho que há uma mistura entre a sua visão de a greve ter razão para resolver tudo contra o que protesta, diante das ponderações em questão, pelo fato de a articulação que você faz ter a ver com o tratamento do governo aos grevistas, pelo gov. estar não somente embasado no conservadorismo político, como tb ser anticonstitucional, não mostrar qual a eficácia da greve – por sinal, me desculpe, mas não há unanimidade entre estudantes nas universidades públicas; inúmeros cursos, nas áreas tecnológicas, biomédicas, admin., direito, economia e vários outros não pararam. Nós das humanidades em geral é que sempre paramos / somos parados. Inclusive em sua instituição, que é a maior e historicamente mais produtiva em pesquisa entre as federais do país.
    Também não atenta para quais misturas se faz, na condução da greve, de políticas partidárias de oposição, de ideologias as mais diversas, transformando o discurso dos comandos de greve em limbos e desmobilizando vários docentes e estudantes. Será que estou falando apenas da realidade da UERJ: É possível. Mas voltando a seu texto, a respeito da diminuição do quantitativo de estudantes de IES públicas para as privadas, há que se pensar, entre outras coisas, se não é por que muitos alunos querem começar a estudar e não começar a fazer greve. Há um recente depoimento de um aluno calouro, que está assumidamente em greve, em que ele diz saber da importância do movimento para a carreira dos professores e para o bem da universidade, mas declara que perdeu vários colegas – o depoimento foi feito recentemente a alguma mídia que não consigo mais localizar; como sabemos, a imprensa aqui não é como na Venezuela, e ataca sempre o governo. Você fala desse aumento da busca pela universidade privada como se tivesse havido desinteresse do estudante, mas atenta, você mesmo, para que não houve diminuição do poder público, pós FHC, em criar vagas novas e universidades novas no país, além de institutos federais de tecnologia, os antigos CEFET. Enquanto isso, FHC deu status de universidade a várias instituições privadas. O ministro José Renato quase privatizou o ensino pelo quanto sucateou as federais: foi um descalabro que se vem recuperando. Esta não é uma realidade das gestões do PT. Não sou petista de carteirinha, nunca me aproximei de partidos políticos, nem pretendo fazê-lo: já tenho uma grande luta em minha carreira e instituição.
    Mas ninguém me convence de que o aluno de classe média não vai para a univ. pública porque o governo não lhe dá laboratórios e modernizações as mais variadas para ele ter condições de estudo: mandam-se filhos para a univ. pública por falta de recursos, por um lado, e, pelo lado mais positivo, porque ainda se acredita que o docente e a estrutura da univ. pública prepara melhor seus filhos – claro, vamos por isso nos lembrar de que não devemos deixar a peteca cair, e, por isso, lutar. Não nos esqueçamos de que o conservadorismo também é e sempre foi a linguagem principal da classe média brasileira, que manda seus filhos para a universidade – e por isso não quer greve e faz seu filho desistir da univ. pública tb. – linguagem que cabe à universidade desfazer, se ele tiver esse público para conscientizar. Não fosse conservadora a classe média, assim como todo o espectro da classe baixa, que sempre sonhou com subir na vida para ter inserção e ascensão social, e não teríamos tido o amplo consentimento social àquela ditadura desmanteladora (para se pensar as heranças atuais), além de assassina, etc (para se pensar outros problemas de natureza das relações sociais e da justiça brasileira). Em contrapartida a isso tudo, a universidade pública, e nisso a UERJ (e a UEBA, se não me engano), foi precursora, há quase 10 anos, implanta o acesso por cotas aos deserdados sociais que tira com isso vagas da classe média, vagas que, não nos esqueçamos, a ela sempre foram destinadas (a quase totalidade das vagas da universidade pública), o que faz com que seus filhos procurem mais instituições privadas. E passará a ser uma realidade das federais. Há também uma pequena melhoria financeira da classe baixa que já consegue, sem poder ter tido acesso por cotas das públicas, entrar nas particulares. E enquanto isso, temos uma universidade pública de melhor qualidade que as quase literalmente privadas, com vagas para uma boa parte da população, mas não temos saúde pública para a classe média, que vai para os planos de saúde, e tampouco para a classe baixa, para o lumpen e mesmo abaixo disso tudo. E lembremos de algo que eu ouvia já de meus professores grevistas nos idos de 1984, 1986, na UERJ e na UFRJ, onde fiz duas habilitações em Letras: os salários variavam de 300 a mil dólares, por força da inflação, na época da economia indexada, e na média dos doutores de hoje passa de dois mil dólares e chegará a quase nove, no topo em três anos. Há mais estudantes em univ. privadas depois de uns trinta anos (1970 – 2003) de desmantelamento da univ. brasileira? Pensemos também em termos demográficos em função complementar a sua competente argumentação político-financeira: éramos 90 milhões em ação, 42 anos atrás, e agora somos quase 200.
    A greve é político-partidária, porque infelizmente o PT assumiu o poder graças a alianças ruins. Mas só assim retirou o PSDB que desmantelou a universidade. Em 2010, quando na UERJ discutiam-se os critérios para a ascensão para a categoria de associado, consultávamos tabelas em que já se tinha uma pauta de reivindicação que apontava para um salário de 18 mil para um titular e de 16 a 17 para os associados, provavelmente 14 a 15 para um adjunto etc. Essa tabela foi mantida na espera por quê? Para evitar a perda das eleições pelo PT, já que com o PSDB seria pior? Em 2011 não saiu e o ANDES fez acordo com o governo pelos 4% de aumento por quê? Por que ano eleitoral? A greve é político-partidária, porque infelizmente o PT assumiu o poder graças a alianças ruins.
    Ainda assim se tem pressa. Recentemente em entrevista à TV brasileira, e sempre à cadeia que tem recursos para manter antenas fora do país, Immanuel Wallerstein, cientista social norte-americano, que o colega certamente conhece, dizia que o atual sistema financeiro está minando o planeta, acabará por se autodestruir, e que movimentos sociais como o ocupy wall street (sei lá se se escreve assim) entre muitos outros são um sinal de que a participação da sociedade civil é fundamental nisso. Mas que não se sabe em que vai dar: o fato de não se saber que rumo tomar também é algo muito claro para ele. Quem sabe estamos mais próximos a Vandré que a Wallerstein: “Vem, vamos embora, que esperar…”
    Enquanto assisto a isso tudo que hoje se reivindica aqui, na França, a que sou academicamente ligado e de que tenho uma meia formação profissional, vê-se amplos setores da sociedade pelo que se vê nas “manifs”, – conforme declaram na tv francesa – saem às ruas caindo de pau em qualquer aumento de imposto (0,5% que seja), de contribuição para a saúde pública, que é de altíssima qualidade, da educação pública, igualmente excelente. Isso derrubou Sarkozy. Mas lá, o prof. do status do nosso titular (mesmo dando máximas 6h/aula semanais), ganha 6 mil euros, conforme um colega com quem troco figurinhas – pouco menos de 15 mil reais hoje. O cara está no topo, e o custo de vida deles é mais elevado, bem o sabemos, apesar de contarem com grandes vantagens institucionais na velhice, como a saúde pública etc. A crise europeia ainda não deu todo o seu reflexo no serviço público francês e o congelamento de seus salários ainda vem sendo uma realidade lenta e com impacto não tão violento na França quanto em outros países. Assistiu-se mais à redução de cargos durante a era Sarkô, como dizem eles. E o incentivo à pesquisa e aos estudos lá é enorme para o professor que está no topo ganhar esse salário. Imagina se se começar a cortar salários. O atual socialista no poder está propondo nova política de recuperação da carreira nas universidades, com criação de mais vagas por concurso e restabelecimento de contratos de substitutos, suspensos por Sarkozy (finalmente derrotado), enquanto os cargos não são ocupados. E da tabela salarial desses professores, nem tudo se leva para a aposentadoria. Lá se trabalha até os 62 anos… Os socialistas querem fazer retornar aos 60 – resta saber se, com “a” crise conseguirão…
    Enfim, custo a me convencer na necessidade de as universidade levarem ou serem levadas por essa oposição visceral ao poder, seja ele do PT ou não, neste momento em que se acena com os 42% apenas que o ANDES reivindica, não deixando de estabelecer o diálogo contínuo para revisões futuras – por sinal, com certeza quanto aos critérios de produtividade que afastam o pesquisador do graduando, que criam atitudes negligentes em relação aos alunos em geral, que multiplicam a produção de teses e dissertações apenas para manter índices de produtividade sem ajudar o aluno a dar um melhor desenvolvimento de sua ideia e à formalização da mesma, e a fazer número de publicações no país e no exterior, que pouco serão acessadas.
    Já daqui do meu lado, ou seja da UERJ, a coisa me parece tão patentemente amadora, que a deixo de lado nessa discussão porque o caso das federais me parece sério, em todos os sentidos.

  2. Jacques Battuta

    Quando o professor fala do “achatamento salarial dos docentes”, a que se refere exatamente? Um professor doutor iniciante hoje no Brasil tem salario de nivel internacional, competitivo inclusive com universidades americanas. Igualmente o professor titular. Eh simplesmente falso dizer que no Brasil professor de universidade federal ganha mal.

    Entretanto, professores nos EUA, Inglaterra, Franca, Alemanha ou Japao, ganhando mais ou menos a mesma coisa que professores doutores no Brasil, tem que fazer muito mais do que “escrever um artigo a cada 3 anos num periódico estrangeiro em língua estrangeira” e “dedicarem-se a orientações de dissertações, teses e artigos que lhes dão pontos de produtividade”, algo que o professor lamenta ser um desvio “da produção universitária da cidadania, das grandes massas e da extensão”.

    Se o professor nao quer fazer pesquisa, nao quer orientar dissertacoes e teses nem escrever artigos, esta a fazer o que na universidade? Se o que o professor deseja eh “participar de debates em TVs e rádios comunitárias, publicar com regularidade em revistas ou portais de amplo acesso”, entao deveria ter optado por uma carreira em jornalismo, e ter deixado a sua vaga para alguem com mais interesse na carreira academica propriamente dita. Afinal, chamar pesquisa, publicacao de artigos e orientacao de dissertacoes e teses de “critérios de pontuação elitizados e aristocráticos” eh confusao conceptual basica e inversao de valores: os atletas olimpicos sao todos de elite, mas estao longe de serem aristocraticos; nao chegaram aonde chegaram por criterio hereditario, mas por merito e esforco pessoal. Igualmente, o professor que faz pesquisa, obtem financiamento dos orgaos de fomento e orienta dissertacoes e teses esta fazendo justamente o que eh esperado de um academico. E num regime de meritocracia, os que fazem mais e/ou melhor tem de ser reconhecidos e recompensados. Sao os que querem ser tratados a pao-de-lo sem aceitar oferecer contrapartida real de engajamento academico, aparentemente como o professor, que tem postura aristocratica e anti-meritocratica. O professor bizarramente confunde “fazer parte de uma elite” com “ser elitista”.

    Fiquei extremamente desapontado com esse artigo, e com a ideia absolutamente equivocada (e claramente fora dos padroes internacionais) que o professor tem a respeito do que deve ser a carreira academica.

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