Crônicas de Berlim (16): A força da prostituição

Por Flávio Aguiar.

Li o outro dia no The Guardian que a prostituição tinha se tornado um importante elemento na luta contra a AIDS na Índia.

As prostitutas do país estão se organizando desde 1997 numa associação chamada Vamp. Na semana passada, uma das líderes (também chamada de “estrela”) da Vamp, Shabana, deu uma declaração taxativa ao jornal britânico: “se eu fosse uma mulher casada, já teria AIDS por agora”.

Ver matéria de Andrea Cornwall.

Ela se referia ao fato de que as prostitutas, por força da profissão, tem a capacidade – o poder, para ser mais exato – de exigir que seus clientes usem camisinha, força e poder que as mulheres casadas não têm diante de seus maridos.

A Vamp tem sede na cidade de Sangli, no estado de Maharashtra, no centroeste do país. E já conta com 5 mil associadas. Sua ação não se limita ao apoio às prostitutas; hoje se estende a donas de casa, mulheres que praticam sexo clandestinamente, homossexuais e até caminhoneiros que cruzam pela região, com esclarecimentos, aconselhamentos, apoio legal, etc.

Aqui na Alemanha existe uma organização semelhante, a Hydra. Com sede em Berlim, ela presta ajuda às prostitutas desde 1980. Como sua co-irmã mais nova Vamp, ela presta ajuda a homossexuais, pessoas que mudaram de sexo, homens que praticam a prostituição, familiares de prostitutas. A ajuda é de caráter financeiro, legal, anti-violência, assistência psicológica, etc. Se a pessoa quiser, a Hydra se dispõe a ajudá-la a sair da prostituição, buscando alternativas.

Tanto a Vamp como a Hydra são aceitas pela mídia como fontes confiáveis.

Segundo a organização, existem cerca de 400.000 prostitutas na Alemanha. 63% destas são estrangeiras, e a maioria deste grupo vem da Europa Central e do Leste Europeu, de países como a Bulgária, a Romênia, a Polônia, até da Rússia.

A prostituição é uma profissão legal na Alemanha, com direito à seguridade social, seguro saúde, apoio do Estado no caso de impossibilidade momentânea de exercício da profissão. As prostitutas têm o direito de recusar clientes ou práticas que considerem inconvenientes.  A cafetinagem é proibida, mas existe.

Acontece que, pela estimativa da Hydra, 50% das prostitutas estão em condição ilegal no país. Ou seja, podem ser expulsas a qualquer momento. Nessas condições, a prostituta fica prisioneira do cafetão – ou da cafetina, pois muitas dessas pessoas são mulheres – que lhe dá “proteção”, “apoio”, facilita moradia, essas coisas, em troca de favores – desde os financeiros até os sexuais. Fica também mais vulnerável aos desejos dos clientes. E junto com isso vem a inevitável corrupção dos meios oficiais, como a polícia.

Aqui no bairro onde moro – Schöneberg – um bairro boêmio de Berlim, existe uma contínua circulação de prostitutas. Circulação? Sim, isso mesmo, e rotativa. Há uma rua que é considerada a sede da prostituição: Friedrichstrasse, perto do cruzamento com a Potsdammerstrasse.  Mas a maioria das prostitutas faz rotação nas ruas, variando cotinuamente os pontos.

Motivo: há campanhas contínuas contra elas, de moradores, comerciantes, com abaixo-assinados, petições etc., para que sejam impedidas de circular nas ruas-alvo dos documentos. Com a rotatividade, elas atenuam os efeitos dessas petições. Há uma rua não muito longe daqui que é reservada aos travestis – entre os quais há bastante brasileiros, muito procurados por aqui.

Nunca assinei uma petição daquelas. Invariavelmente elas me lembram um ressaibo de preconceito direto contra as mulheres, não contra a sua eventual exploração. Ademais, não considero as prostitutas um problema – mas sim muitas vezes o que vem com elas: as drogas, os cafetões (as cafetinas não aparecem na rua, mas têm casas próprias para isso, evidentemente disfarçadas de meros “pontos de encontro”), os clientes eventualmente espalhafatosos com seus carrões e um jeito meio desbragado de ser.

Aqui por perto a polícia se mantém discreta, mas presente. Presenciei alguns poucos casos de uso excessivo de drogas – o que incluiu o álcool. Uma ou outra briga. E numa certa noite ouvi um tiro. No dia seguinte cheguei a ver o cartucho na avenida (embaixo do metrô). Mas não tive notícias da causa nem de feridos.

Três anos atrás, no auge da crise do Lehman’s Brothers, algumas casa de prostituição da Alemanha, particularmente em Berlim, passaram a apresentar uma inovação, estilo rodízio interno, ou bufê de self-service.  O cliente pagava uma quantia fixa (em geral 100 euros) e podia praticar sexo à vontade (desde que as mulheres o aceitassem) durante toda a noite (algo como entre as dez e as seis da manhã), conforme seu apetite, e sua capacidade.

Questionada sobre esse “novo método” de prática sexual, a dona do bordel abordado respondeu que era uma resposta aos novos tempos de crise financeira, facilitando preços para clientes e também facilitando a vida das “suas” trabalhadoras do sexo.

Sinal dos tempos.

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Dois livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés (finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012). Ambos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Colabora com o  Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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