Os Suspensórios

“Menino com suspensório”, de Spyros Papaloukas

Por João Alexandre Peschanski.

A maioria das palavras não deve ser temida. Outras são perigosas, mas raras: são as desconhecidas. Meu café ainda está quente demais — much too hot, disse Kennedy visitando o deserto de Gobi. É um dos que mais uso, muito inspirado. Realmente intomável; além do mais, tomei o primeiro gole sem açúcar.

– Tô com gosto amargo na boca, porra.

Baudelaire escreveu que “a mais doce metáfora é a das flores amargas”. Este aí é um gênio, subversivo, difícil de usar. A fumaça do maldito café embaçou meus óculos. Comprei-os recentemente. Numa loja do Centro de São Paulo. Sou paulista, mas não tenho nada contra os cariocas. Não tenho tempo para preconceitos.

– Mais um, por favor.

Chamo-me Pedro Dias. Alguns preferem João Maria dos Santos. Assino meus artigos José Cotia. Há um mês parei de fumar. Estou lendo o Alcorão. Sentei-me aqui, hoje, sem motivos especiais. Preciso pensar.

– “Por respirar mereceria um salário”, Rockfeller.

Sou poeta de quatro palavras e algumas vírgulas. Não dou títulos e não sou autor. Sou mais um inventor. Tudo começou quando tinha 10 anos e disse

– O Estado sou eu.

Ao que meu avô retrucou

– Ih, filho (sempre começava suas frases assim), essa é mais velha que eu.

* * *

Nunca fui um aluno muito bom. Mas sempre tirava, no final, a média. Nem no futebol me dava bem. Também não gostava de sair, não namorava, não ouvia rádio, não tinha muitos amigos, nem cachorro, nem gato.

De minha rápida infância apenas guardei alguns episódios. Como a vez em que matei um rato, 39 tiros de espingarda de chumbo. Havia sangue por todo o quintal. Além de apanhar de meu avô, tive de limpar toda a sujeira. Os tapas não me marcaram tanto, no fundo nem me lembro deles, mas a explosão do animal assusta-me ainda hoje.

Por não ser pobre – também nunca fui rico – não precisei trabalhar cedo. Fiz o colegial numa daquelas escolas com nome de “São”. São Pedro, São João, São José. Uma dessas. Ao voltar da escola quase nunca estudava; ficava horas e horas saboreando minha primeira e única paixão: a leitura de biografias. O terceiro colegial foi meu apogeu. Cheguei a ler as biografias de Luís XII e Virgílio no mesmo dia. Mas, mesmo se parecer estranho, nunca tive boas notas em História. Principalmente no último ano do colégio no qual meu professor foi o Márcio Gomes. Era um homenzinho baixo, magro, sempre mal barbeado. Desde a primeira aula não gostou de mim, achou-me reacionário. Por saber que eu não estudava muito, sempre me escolhia para suas provas orais.

– Sr. Dias, qual era a opinião do ditador Getúlio Vargas sobre a inserção do Brasil no mercado mundial?

Esse tipo de pergunta sempre me enrolava. Nunca fui bom de análises político-econômicas. Mas, para não levar um zero, apelei

– “Abrir-se é apunhalar-se, fechar-se é afogar-se. O Brasil precisa do equilíbrio”, Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1938.

Veio-me assim, sem mais nem menos. Talvez por desconfiança ou até por sincero interesse o Prof Gomes, que meus colegas chamavam de Maçarico, não recuou:

– Será que o Sr. poderia me dar os dados bibliográficos da obra na qual encontrou essa observação? Gostaria muito de tê-la comigo.

– Não posso.

Esperou alguns instantes para ter certeza de que não ia adicionar nada. Deve ter achado que estava mentindo. Fez então o que viria a ser sua última pergunta do semestre destinada a mim.

– E por que não?

– Porque não foi de um livro que a decorei. Foi meu avô, que trabalhava no gabinete de Justiça de Vargas, quem ma ensinou.

O professor Gomes ficou lívido. Não tinha como verificar. Nunca o teria. Não conhecia meu avô. Nossa conversa estava enfim encerrada.

A verdade é que meu avô nunca se interessou por política, muito menos exerceu um cargo. Eu havia inventado a citação.

* * *

Não se deve usar Platão. Foi um grande pensador, mas, infelizmente, não disse quase nada. Seus escritos são muito restritos. Fáceis de verificar. A Zélia, minha primeira noiva, sabia de cor todos os títulos e todas as personagens de sua obra. Conheci-a numa feira de livros. Brigamos durante uma hora pelo único exemplar da biografia do arqueólogo Champollion. Deu-me até um tapa. Resolvemos a situação morando juntos. Mas só funcionou por dois meses; dizia que eu era muito porco.

– Pô João, tira tuas meias sujas do banheiro!

Nunca tive sorte com mulheres. Fiquei noivo seis vezes e não casei. Osvaldo Cruz, exterminando mosquitos na baixada fluminense, disse que sua “vida tem outro rumo que a família”. Estou de acordo… Com minha invenção.

Inventar uma citação é como resolver um problema matemático. Só existe uma resposta para cada caso. Tudo depende dos ouvintes. Antes repetia minhas observações, mas percebi que isso é impossível. Os pobres não têm as mesmas crenças, os mesmos preconceitos que os ricos. Dizer Francisco Alves para uns é a mesma coisa que Adam Smith para outros.

O conteúdo nem é tão importante. O fundamental é a escolha do protagonista. Às vezes uso a mesma ideia com diversas personalidades e os efeitos transformam-se totalmente. Há uma enorme diferença em dizer que a autoria de “Eu ou a História. Que diferença faz para as massas?” é de Goebbels ou Chacrinha.

Minha terceira noiva chamava-se Doris. Era inglesa e muito bonita. Linda. Ficou oito meses no jornal no qual trabalho. Certa vez – acabara de compará-la a um canto de sereias, usando José de Alencar – disse-me:

– John (mesmo conseguindo pronunciá-lo nunca me chamava de João), você é um homem entre aspas.

Nem sabia como! Sempre escondi minha verdadeira profissão. Nunca me apresentei como João Maria dos Santos, inventor de citações. Ficaria ridículo, prefiro ser um mero jornalista.

Invento de quatro a cinco citações por dia. Todas para meus artigos. Demoro aproximadamente 4 minutos para uma simples, com uma só frase. A melhor que fiz hoje foi para meu artigo sobre pais que impedem suas filhas de tatuar-se, em O Jornal dos Nossos Brasis. Defendi as pobres meninas…

– “Nem a imaginação nem os costumes evoluem. Tudo está dentro de nós ao nascermos”, Freud.

Rachel, minha última noiva, adorava Freud. Seus livros de cabeceira eram os dois volumes de “A Interpretação dos Sonhos”. Ficamos juntos por dois anos. Pedi-a em casamento umas mil vezes, sempre recusou. Ensinou-me um pouco de alemão. O básico. Era o tipo de pessoa que brilha. Por onde passava o mundo era melhor. Acho que a amei. Talvez.

Nesses anos em que estivemos juntos parei com minhas invenções. Comprei um dicionário de citações – verdadeiras – e escolhia nele as poucas que usava em meus artigos. Um dia escrevi uma matéria sem usar nenhuma e todos os meus colegas de trabalho vieram felicitar-me pelo meu novo estilo. As palavras de Janinho, o office boy, ainda ressoam nos meus ouvidos

– Dr. José, o Sr tá mais homem.

Estava lendo um dos três jornais que assino, quando me deparei com um artigo muito interessante, do jornalista Aridilson Toledo. Era sobre a ética na medicina. Nele havia uma citação muito boa de um tal de Galeão Coutinho, nunca havia ouvido falar. Mas era realmente muito boa.

“Bem-aventurados os mortos, porque não precisam suportar a estupidez dos vivos”. Anotei-a num papel.

No dia seguinte era esperado para uma reunião com um grupo de empresários. Já havia passado mais de duas horas de conversa quando consegui encaixar – e muito bem – a citação do tal Galeão Coutinho. Então um dos presentes perguntou-me:

– Eh, João, quem era esse Coutinho?

Todos olharam para minha cara. Como explicar que não sabia.

– Vamos João, não faça suspense…

Não podia acreditar. Como não sabia? Não sabia mesmo. Foi horrível.

– Sinto muito, não sei.

Todos olharam-me em silêncio. Estava lívido. Não tinha resposta. Como odiava não saber. Era culpa da Rachel, fora ela quem me impedira de continuar com meu trabalho, com esse seu jeito de querer sempre me transformar.

Ao chegar em casa, veio toda sorridente perguntar-me como tinha sido a reunião. Olhei para ela com cara de desgosto e disse

– Rachel, acabou.

– Ô, garçom!!! Garçom. A conta, por favor. Foram quatro cafés. Obrigado.

* * *

Será que existem outros como eu?

Saí do bar. É uma hora da tarde. Tenho que voltar para o trabalho. Preciso escrever um artigo. É para amanhã, segunda. Sobre poluição industrial. Não sou especialista, mas o encarregado adoeceu.

O sol está tímido. Atrás de alguns prédios. Há poucas pessoas nas ruas. Vou andando devagar, com passos curtos. Calculados. Tento colocar meus pés apenas nas figuras pretas da calçada. Conto os segundos até ser obrigado a pisar numa branca para não sair do caminho. Novamente uma preta, recomeço a recontagem.

O prédio é amarelo, desbotado. Entro. Adoro elevadores. Estar parado e subindo. Quinto andar, é o meu. Sento na frente da minha máquina de escrever. Coloco-lhe papel e começo a pensar.

Acabei o esboço, mas a primeira frase não sai. Não consigo tirar os olhos da folha, vazia, da máquina. Estressa-me. Teclo algumas letras, sem sentido.

– Desliga o rádio aí, Chico.

É meu editor. Fanático por ópera. Cantarola árias de La Bohème o dia inteiro. Irrita-me. Não consigo trabalhar com música.

Pronto. Acabei o artigo. Deixei um espaço em branco para uma citação. Preciso de uma boa, o tema é difícil. Olho nas minhas gavetas; procuro em papéis. Mas nenhuma que já tenho serve. Penso, mas não acho. Não consigo concentrar-me. Bato algumas palavras que têm a ver. “Massa”, “máquina”, “mundo urbano”.

Achei! Ficou boa. Até muito boa. Mas… Quem pode tê-la dito? Não sei. Tem que ser do século XX, final. Mas é arriscado demais usar alguém vivo. E se descobrirem? Talvez um ficcionista. A época, no fundo, tanto faz. Mas deve ter conhecido a era industrial. Júlio Verne? Não, não dá.

Brinco com meus suspensórios para acalmar-me. Puxo-os para frente, para trás. Não tenho ideias, nenhuma. Por que não Orson Welles? Para frente. Que angústia! Um industrial: Matarazzo? Mauá? Que droga! Não consigo pensar em ninguém. Tento relaxar… Meus suspensórios são pretos, uso-os todos os dias. Não gosto de cintos. Já sei: Juscelino. Não, sem graça. Continuo puxando-os. Agora, só com os polegares. Ninguém. Hitler? Roosevelt? (paro um pouco) Lênine? Forço-os, sinto uma forte pressão nas costas. Prestes? Ernesto Che Guevara. Gostei do Ernesto. Ernesto? Ernesto… Escorregam. Ernesto Amaral!

– Ai, doeu. Porra!!

Olho debaixo de minha camisa. Os ferros marcaram minha pele. Que dor! Está roxo. Tiro meus suspensórios. Deixo-os na mesa. Sinto-me mais leve.

Mas quem é Ernesto Amaral?

– Ô, Chico, você conhece o Ernesto Amaral?

– Nunca ouvi falar.

Geralmente conhece todo mundo. Costumo tirar minhas dúvidas com ele. Procuro nos arquivos do jornal. Nada. Mas o nome soa bem. Equilibrado. E daí, para que serve ser bonito? Não existe. Mas a citação também não. Nada me impede de colocá-lo como autor. As pessoas nem se ligam. Não sei.

Entrego o artigo para o editor. Sai de manhã no jornal. Sexta página. Deixei Ernesto Amaral. Volto para casa.

Segunda é meu dia de folga. Pego o jornal e leio meu artigo. É realmente um nome melodioso.

Fui convidado para um almoço, na casa de um banqueiro. Chego lá ao meio-dia e meia. Somos uns dez em torno da mesa, todos conhecidos. Faço-lhes um rápido cumprimento.

Na sobremesa – diversas tortas – o banqueiro vira-se para mim e diz:

– João, você mudou minha vida!

Todos olham-no assustados. Inclusive eu. Será que bebeu demais? Respondo:

– Duvido muito. Mas por que diz isso?

– Seu artigo. O de hoje. Está muito bom.

– Obrigado. Nem tanto assim.

– Sim, sim. Principalmente a citação, de quem mesmo?

Forçando um ar de tranquilidade:

– Do Ernesto Amaral.

Respondem-me, todos, com um:

– Ah…

O banqueiro, bêbado, continua:

– Mas, Zé…

Pronto, vai perguntar-me quem é. Terei problemas.

– Como foi que o Ernesto Amaral falou mesmo?

Respiro. Termino meu pedaço… De morango.

(NB: Escrevi este conto em 2001, ainda na faculdade, e ficou esquecido por vários anos. Foi a pedido da antropóloga Rita Amaral que o publiquei na revista eletrônica que ela fundou, Os urbanitas, em julho de 2006 (número 4). À época, Rita estimulava os colaboradores da revista a não enviarem para publicação apenas textos acadêmicos, mas também escapadas literárias. Mantive com a Rita, uma importante estudiosa de religiosidade e sociabilidade urbana, uma relação de orientadora-orientando virtual. Nunca a encontrei, mas trocamos dezenas de mensagens, em que ela comentava e criticava o que eu escrevia, tanto em jornais quanto em publicações acadêmicas. Sua generosidade e paixão contagiavam. Além de uma propagadora da antropologia urbana, Rita também defendia os direitos dos portadores de osteogênesis imperfecta, uma doença genética que torna frágeis os ossos. Rita faleceu em 2011 e deixou uma imensa saudade. Por um tempo, Os urbanitas esteve indisponível, mas agora voltou ao ar e espero vivamente que seja lida e, quiçá, continuada. Publicar este conto no Blog da Boitempo é principalmente minha singela homenagem a essa grande acadêmica brasileira e também um convite a que conheçam a revista que ela fundou.)

***

João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

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