O mistério da eternidade

Por Roniwalter Jatobá.

Toc, toc, toc.

Bato três vezes sobre o tampo de madeira da mesa antes de iniciar essa história.

Medo, superstição? Bom, há algum tempo li numa revista uma pesquisa sobre milhares de norte-americanos que tinham vivido a experiência de morrer e voltar à vida. Existem inclusive vários livros sobre o assunto e na internet tem vários sites que tratam das NDE – Near Death Experiences, ou Experiências Próximas da Morte.

Numa viagem ao sertão baiano, minha mãe comentou certo dia sobre uma amiga, a professora aposentada Marli de Souza Farias, que sofrera um enfarto e, segundo ela, vivia contando coisas do além.

– A coitada se salvou do coração fraco, mas deve ter perdido o juízo – concluiu dona Maria.

Sinceramente, não gostava nem de pensar sobre o tema, mas era uma história e tanto, e por dois dias aquilo aguçou a curiosidade. Em passeios na represa formada pelo rio Aipim, em Bananeiras, o caso não me saía da cabeça. Quando olhava as águas límpidas e espelhadas do imenso lago, via submergir o rosto de uma mulher idosa.

Numa tarde, fui ao hospital da cidade próxima, em Senhor do Bonfim, mais para me certificar se Marli era uma doida de pedra ou se ela sentiu, mesmo por alguns minutos, a sensação da eternidade.

Fui. Quando a mulher começou a me contar o seu drama, no princípio não acreditei na veracidade dos fatos. Mas, deitada ali no leito do hospital, ainda com tubos penetrando no nariz, por nenhum momento pensei que era brincadeira. Sim, tivera um enfarto e, por pouco, escapara da morte. Contou-me que foi salva pelo providencial atendimento de seu filho, um cardiologista, que ali passava as férias.

Puxei uma cadeira e sentei ao seu lado. Embora fragilizada, tinha um sorriso sublime na feição marcada de rugas. O rosto era pálido, pele alva. Falava ainda com dificuldade, mas parecia não se cansar por mais que lhe perguntasse coisas sobre a sua experiência.

Eis o seu relato:

De repente me dei conta de que estava morta. Para confirmar ainda mais o meu pensamento, uma voz fúnebre e fria me disse bem junto ao ouvido esquerdo:

– Você está morta.

Naquela hora, eu estava caída na cozinha de minha casa. É um cômodo pequeno e minhas pernas ficaram dobradas em contato com o fogão. Queria dar um grito lancinante, mas nada saía de minha boca.

Vi uma sombra clara, como a minha pele, pairar sobre o meu corpo inerte. Por alguns segundos, vi aquele corpo parado de mal jeito, mas a cada instante queria me afastar logo dali, como estivesse sendo sugada por uma força estranha.

À frente, uma caverna escura. Não me lembro de detalhes, parecia com a construção de uma mina antiga e abandonada. Mas estava limpa e não tinha madeira para a sustentação do teto. Adiante, via a luz brilhante e azulada, que era provavelmente o que me puxava naquela direção.

Tinha medo, mas não sentia nada no coração frio e sem movimento. Subitamente, veio uma onda de felicidade, então desconhecida. Minha sombra se agitou ao atravessar a luz e, logo depois, seguiu em frente vendo rostos conhecidos de parentes e amigos há muito tempo falecidos.

Vi meu marido já morto. Vi o riso de uma criança que um dia acompanhei o nascimento e não resistiu ao parto. Vi a antiga lavadeira de roupas da casa de minha avó materna. Vi o cachorro chamado Rex, que meu pai me presenteara na infância. Mais adiante, entrei numa grande cidade. Prédios luminosos, jamais vistos. Passei por ruas sem carros, sem movimento de gente.

Sentia medo em olhar para o corpo – uma sombra – e ver através dele. Mesmo assim, olhava para o contorno transparente e sem sinal de carne e osso. Mais adiante, vi uma barreira. Na verdade, uma cerca viva de uma árvore florida e de espécie desconhecida. Tudo fechado. Então, me movimentei para o lado. De repente, me senti mergulhada até o pescoço em um rio negro e frio. Estava perdida. Ouvi uma voz bem alta, de tonalidade doce.

– Esta é a eternidade. Esta é a eternidade.

Em meu pensamento, perguntei:

– O que é isso?

A voz novamente respondeu:

– Este é o rio da Morte.

Depois, o silêncio pareceu durar séculos. Aí, ouvi a voz aflita de meu filho ao meu lado e, creia, a sombra penetrando com cautela no meu corpo. Voltei à vida. Tinha consciência na hora: meu filho estirava minhas pernas e me colocava em posição confortável, enquanto esperava a chegada da ambulância.

No mesmo dia, relatei toda a história a minha mãe. Com seus 85 anos de incredulidade, ela ficou em dúvida.

– Foi e voltou? A vida é uma só – filosofou. – A morte também.

De volta a São Paulo, contei a mesma história a um grupo de amigos. Um deles, o bruxo e farmacêutico Renato Carvalho, afirmou que essas experiências deviam ser bem analisadas. Afinal, concluiu ele, na eternidade não existe guia turístico.

***

Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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