A escravidão moderna é uma maravilha!

Por Mouzar Benedito.

Você está num bar ou restaurante, acompanhado de um amigo, de repente toca o celular dele. Ele atende, não é uma conversa qualquer, é trabalho. O diretor, gerente ou qualquer chefete dele dá ordens, pergunta algumas coisas e ele fica ali, meia hora “trabalhando” ao seu lado.

Isso está cada vez mais comum. Tem gente que se sente importante por receber da empresa que trabalha um telefone corporativo, “de graça”. E a partir daí o trabalho o acompanha 24 horas por dia. A jornada de trabalho, para esse pessoal chegado numa “modernidade” (nisso incluem-se as relações de trabalho) não é mais de 40 horas por semana. É de 168 horas. O sujeito tem que ficar 24 horas por dia com o aparelho ligado. Alguns têm também um troço no computador, que apita quando é chamado para trabalhar, seja de madrugada, depois de um dia estafante, seja num domingo na hora do almoço.

Há uns meses, um cara com quem marquei uma conversa num boteco apareceu com um laptop ligado. De vez em quando, parava a conversa e respondia a perguntas de um “superior” dele. Fiquei irritado. Ou vamos conversar ou você fica trabalhando aí que eu vou pra outro lugar. É uma chatice.

Outro cara que conheci falava maravilhas do laptop ligado à internet, porque nos fins de semana podia ir para a praia, ficar numa barraca tomando uma cerveja e… trabalhando. Respondi que acharia maravilha o contrário: você ficar no ambiente de trabalho tomando uma cerveja e paquerando. Mas para esse pessoal eu sou um anormal. A tecnologia é uma maravilha e temos que “aproveitá-la” o tempo todo. Só que quem tem aproveitado é o patrão. O celular da empresa e o laptop, nesses casos, são o instrumento da escravidão moderna.

Alguns perceberam isso, talvez tardiamente. Houve ações trabalhistas que chegaram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), para cobrar horas extras sobre o tempo trabalhado com o celular, o pager e não sei que mais. O TST não aceitou as queixas. Esta semana decidiu que, como o empregado não perde a mobilidade trabalhando com o celular ou o pager nos horários que deveriam ser de folga, o trabalho executado por meio desses instrumentos de domínio (claro que o TST não usou esses termos), ele não tem direito a receber por horas adicionais de trabalho. Bem feito! Que continuem aceitando a escravidão moderna, sem rebeldia, sem nem sequer a alternativa de ir para um quilombo, pois esse pessoal, se for, é bem capaz de levar o celular institucional, o tal pager e o laptop em conexão com a empresa, como o cara que acha legal levar o laptop à praia.

Aliás, a tecnologia, que deveria ser libertadora do trabalho, tem tido esse efeito contrário. Imaginava-se que, com máquinas que executam trabalhos de centenas de pessoas, a carga de trabalho diminuiria radicalmente, sobrando mais tempo para a vida própria, a prática de atividades artísticas, esportivas, culturais e tudo que é agradável. Mas o que tem acontecido?

Dou o exemplo de uma multinacional que tem uma fábrica perto do bairro da Lapa, em São Paulo. Quando conheci a empresa, há três décadas, ela tinha mais de 1.500 empregados nessa fábrica. Todos trabalhavam num ritmo normal e moravam em casas de classe média da região. Hoje, a empresa produz dezenas de vezes mais, lucra muito mais, e tem pouco mais de cem empregados, boa parte deles morando em favelas. Trabalham muito mais e ganham muito menos.

É isso: se uma máquina pode substituir vinte pessoas, o racional, humano, seria diminuir a carga de trabalho dos trabalhadores, de modo que pelo menos muitos deles mantenham os empregos. Mas o patrão faz o contrário: com cinco máquinas que fazem o trabalho de vinte pessoas cada, ele poderia demitir cem empregados, mantendo o mesmo tempo de trabalho. Se fosse um pouquinho ético, demitiria muito menos. Mas demite 150, e os que sobram têm que trabalhar num ritmo alucinante, sem descanso. O patrão sabe que esses empregados restantes se sujeitam para não perder o emprego, porque eles desempregaram muita gente que está disposta a qualquer coisa para ter um emprego novamente.

Agora há esses instrumentos de controle, com a complacência e até o elogio dos escravizados. Escravizados de luxo, mas escravizados.

Eu continuo com meu sonho anarquista, irrealizável: já que a máquina faz quase tudo por nós, deveríamos trabalhar apenas um dia por mês. Por exemplo: meu dia de trabalho seria o 15 de cada mês. No dia 14, eu passaria o dia inteiro me preparando física e psicologicamente. Quereria fazer um trabalho exemplar. E ao final desse dia me sentiria livre por um mês para viajar, fazer cursos, ler, escrever, cursar alguma coisa, pintar, bordar, cantar, brincar, namorar, assistir a quantos filmes quisesse, enfim, fazer tudo o que acho bom.

Mas isso é coisa de anarquista, não é? Uma anormalidade. O normal é trabalhar o dia inteiro, ir pra casa e continuar trabalhando na hora que o patrão quer, sendo chamado a qualquer momento e tendo que atender para não perder o emprego. Interrompa-se o jantar, interrompa-se o sexo, interrompa-se o filme ou futebol, interrompa-se a leitura… Trabalhe, trabalhe, trabalhe. O TST não vai criar caso.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras.

11 Respostas para “A escravidão moderna é uma maravilha!

  1. “Oh, brave new world!”

  2. Interessante e oportuna a discussão sobre o modo de vida contemporâneo e suas armadilhas.

  3. “Bem feito! Que continuem aceitando a escravidão moderna, sem rebeldia,”

    Você é um covarde, coloca a culpa no trabalhador.

    Vem pagar minhas contas, vem.

  4. Parabéns pela lucidez! Postei o artigo no Facebook. Já estou aposentado, mas quando ainda trabalhava, uma das coisas que não gostava era o tal do “almoço de trabalho”, ou o convite: “A gente fala sobre isso durante o almoço”. Ou: “Vamos pro sítio no fim de semana, lá é melhor pra trabalhar” Putz!!!!
    O Paul Lafargue (genro do Marx, deu uma sacaneada nele), lembra? com um livrinho chamado “O eleogio da preguiça”, mais anarquista que o Bakunin (mas isso já é outra discussão)…

  5. Pingback: alex castro - seus emails sempre com você

  6. Olá, conheci o blog agora e achei seu texto interessante, especialmente sobre o trabalho extra dado pelas ferramentas de comunicação. Concordo plenamente, eu mesmo não atendo ligação nem email de trabalho quando estou de folga, só em caso de urgência e olhe lá. Mas creio que você tratou as relações de trabalho de forma meio superficial. Acho que não dá para cair no erro de condenar o patrão sem lembrar que uma empresa sobrevive contra uma forte concorrência. As empresas com uma grande estrutura de funcionários que trabalham pouco acabam vencidas por algum concorrente chinês.
    É bem mais fácil simpatizar com a visão romântica do empregado explorado pelo patrão interesseiro, mas nessa história toda, quem dita as regras é o nosso sistema caótico e espontâneo.
    Abraços

  7. Mouzar, a escravidão não está restrita ao uso do celular corporativom e às horas trabalhadas fora do horário comercial. A escravidão ronda a vida dos trabalhadores que sentem-se poderosos ao autodeclararem-se workaholics!
    Parece que viver em função do trabalho é bonito. Na verdade, estamos SEM OPÇÃO. Sempre há que tope trampar mais por menos dinheiro. Algo deu errado no mundo e não vejo perspectivas de reverter isso. Estamos conectados o tempo todo. As redes socials nos aproximam e distanciam dos amigos. Haverá uma outra forma de viver bem em meio a todo o caos. Eu consegui um esquema de viver trabalhando em casa. Digo: em frente ao computador de casa. E eis-me aqui, falando com vc enquanto converso com um músico pelo Facebook.
    Sorry, aqui não teve a minha exclusividade. rsrsrs Mas espero que você saiba que gostei de sua reflexão. Grande abraço, Claudia Liba

  8. O pior é que quando recebi seu convite para ler (e gostar, como sempre) do texto no blog novo, o meu provedor (os espanhois da Terra) disseram pra eu tomar cuidado que poderia ser um golpe.
    É sim, é um golpe (acima da medalinha!) neles!
    Como o Naaman citou o genro e o sogro, acho que foi o Malatesta (se não foi, bem que poderia ter sido) que disse que só seremos verdadeiramente livres quando o último capitalista for enforcado nas tripas do último padre.
    Acredito que “padre” aí seja gênero, do qual pastor é espécie.
    Abração, meu chapa.
    Virgílio

  9. Olá Grande Mouzar,
    realmente, durante este tempo em que o homem é substituido como simples peça, há também o fato de como a nossa colega acima citou, sempre há pessoas trabalhando por bem menos e se matando para ter o que comer no fim do mês e é claro que lucram muito em cima de nós. Finalmente consegui ler este texto inteiro, e quanto as redes sociais, aquilo que parece que vai nos unir , separa … ta parecendo um conto de que quando é verão faz calor e no inverno mais ainda ….. eita mundo sem porteira!!! Abração e SUCESSO pra ti Parabéns!!!

  10. Pingback: A ESCRAVIDÃO MODERNA É UMA MARAVILHA! « TOK de HISTÓRIA

  11. Nobre senhor, eu não conhecia este canto, entrei aqui para saber do Harvey e de cara me deparei com o sr. Gostei bastante do escrito e concordo em partes.

    Fato é que o mercado de trabalho é dicotomizado, de um lado estão os que são escravizados e do outro também. A distinção é feita com base no tipo de grilhões utilizados. Mas, como disse Rousseau [creio que foi ele...] Liberdade é a capacidade de escolher os próprios grilhões. Assim sendo, temos que o pessoal que curte executar suas atividades laborais “full time” não se entende como escravo… ele é um trabalhador livre, que trabalha até na praia, oras bolas. Desta forma, o que conta é se o trabalhador se sente oprimido e se a empresa lhe garante condições adequadas de desempenhar esse trabalho… Se é que tais condições existem, rs… O operário que bate cartão, trabalha como burro de carga, aguenta assédio moral, pega onibus cheio para ir ao trabalho e recebe um salário de miséria, este sim, é escravizado, o que ocorre com grande parte da população.

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